Apresentação
Um Olhar que Cura, de autoria do padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior,
que tenho o prazer de apresentar, é resultado de um maravilhoso instrumento de comunicação, que também é motivo de preocupações: a Internet. A este respeito me vem à mente uma palavra do papa João Paulo II:
Considerem-se [...] as capacidades positivas da Internet de transmitir informações religiosas e ensinamentos para além de todas as barreiras e fronteiras. Um auditório tão vasto estaria além das imaginações mais ousadas daqueles que anunciaram o Evangelho antes de nós [...] Os católicos não deveriam ter medo de abrir as portas da comunicação social a Cristo, de tal forma que a sua Boa Nova possa ser ouvida sobre os telhados do mundo!1.
As conferências de padre Paulo são “difundidas” no Brasil e no exterior e apreciadas por jovens cristãos nos mais variados contextos, inclusive em academias, onde ouvem as palestras em mp3. Acompanhando o desenvolvimento tecnológico, novas palestras têm sido gravadas, com imagem, em estúdio – aproveito também para fazer um agradecimento à Canção Nova, que ora se ocupa destas gravações, bem como da edição da presente obra. Trata-se de um trabalho intenso em benefício da evangelização.
Padre Paulo também tem se destacado como pregador de retiros, cujas solicitações ultrapassam suas possibilidades de atendimento. Ressalto ainda sua coragem em tratar com serenidade, e em plena consonância com o Magistério da Igreja, de temas que podem granjear injustas antipatias, pois, temos responsabilidade diante de Deus na pregação de um Evangelho sem reducionismos. Aqui, cito mais uma vez o Servo de Deus João Paulo II:
Seria um erro gravíssimo concluir [...] que a norma ensinada pela Igreja é em si simplesmente um “ideal” que depois, segundo se diz, deve ser adaptado, proporcionado e graduado às possibilidades concretas do homem; segundo um “balanceamento dos vários bens em questão”. Mas, quais as “possibilidades concretas do homem?” E de que homem se trata? Do homem dominado pela concupiscência ou do homem redimido por Cristo? Pois trata-se disto: da realidade da redenção de Cristo. Ele nos redimiu. Isto significa: Ele nos deu a possibilidade de realizar a verdade inteira do nosso ser; Ele libertou a nossa liberdade do domínio da concupiscência. E se o homem redimido ainda peca, isso não se deve à imperfeição do ato redentor de Cristo, mas à vontade do homem de afastar-se da graça que brota daquele ato. O mandamento de Deus está certamente proporcionado às capacidades do homem, mas às
capacidades do homem a quem é dado o Espírito Santo; daquele homem que, mesmo caído no pecado, pode sempre obter o perdão e gozar da presença do Espírito2.
A respeito da obra que ora apresento, o autor fez uma ótima combinação ao expor as doenças espirituais e as suas terapias com base na tradição da Igreja. A opção por segui-la em sua versão mais antiga, a dos Santos Padres, resgata figuras importantes, cujos escritos estão um tanto quanto esquecidos. A redescoberta destes, reeditados por alguns mosteiros brasileiros, entre outros, faz-nos lembrar dos movimentos patrístico e litúrgico da virada do século XIX para o XX.
No entanto, padre Paulo Ricardo não se limita apenas à exposição destes veneráveis autores, também os atualiza, recolhe e distribui coisas novas e velhas (cf. Mt 13, 52), dando exemplos do nosso quotidiano e aplicando-os, o que torna tudo muito vivo.
Uma presença constante é o papa Bento XVI, admirado e estudado por padre Paulo já bem antes da sua eleição – aliás, espanta como muitos dos que criticam o então Cardeal Ratzinger nunca tenham lido uma linha de sua vastíssima obra. O Magistério da Igreja também se faz presente, não só no texto, mas em preciosíssimas notas que proporcionam ao leitor a possibilidade de voar mais longe, às fontes, muitas delas, hoje, disponíveis na Internet.
O autor também nos previne contra uma certa severidade, que não é criação sua, mas pertence à tradição cristã, que sempre procurou olhar o homem como o próprio Cristo nos vê: chamados para as coisas mais sublimes – “sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48) – e atraídos para baixo por forças que só a Graça de Deus pode vencer. Nunca é demais citar São Paulo, sobretudo neste Ano Paulino, que nem sempre conseguia fazer o bem que desejava (cf. Rm 7,19); mas, sem desistir, continuava a trabalhar “com a simplicidade e a retidão que vêm de Deus, guiados não por cálculos humanos, mas pela graça de Deus.” (2Cor 1,12).
Parabenizo o padre Paulo Ricardo. Que esta obra tenha a difusão e os frutos com a Graça de Deus. E, não obstante as suas múltiplas atividades, que venha logo à luz sua segunda parte. Com a minha bênção.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2008 Memória de São Pedro Crisólogo
Eugênio de Araújo Card. Sales Arcebispo Emérito de São Sebastião do Rio de Janeiro
Introdução
Sou padre e sempre fui apaixonado pelo sacerdócio católico. Desde os meus tempos de seminarista, participar de uma ordenação sempre foi uma experiência revigorante: ver a alegria e a generosidade com que um jovem sobe ao altar pela primeira vez, para oferecer o santo sacrifício da Missa.
Penso que, para a maioria dos sacerdotes, os primeiros anos de ministério são amenos e frutuosos. Oferecer-se com o Cristo no altar. Realizar o sonho de infância, acalentado por tantos meninos que “brincaram de missa”.
Também para mim foi assim. Mas nem tudo eram flores. Nos primeiros anos de ministério havia algo que me incomodava: a direção espiritual. Recordo-me que saía dos atendimentos com uma insatisfação...
Não que eu tivesse negligenciado a minha preparação. Tinha a consciência tranqüila de ter estudado muita teologia, moral e direito canônico. Mas havia a sensação de que algo faltava. Não se tratava de saber distinguir o que era pecado ou não, porque isto eu sabia. A questão era como ajudar efetivamente os meus dirigidos.
No início de meu ministério, retomei os estudos de psicologia. Sempre gostei desta ciência, no entanto não era um psicólogo. E, mesmo que fosse, tinha plena consciência de que não era isto o que as pessoas procuravam, quando buscavam a direção espiritual.
Em 1999, quando deixei de ser apenas reitor do seminário menor para me tornar também reitor do seminário maior, a situação se tornou ainda mais incômoda. Agora, como formador do seminário maior, não deveria somente dirigir as pessoas espiritualmente, mas também ensinar a dirigir. Simplesmente eu não estava seguro.
Os livros à disposição ou pareciam “reinventar ” o caminho valendo-se de psicologismos e de uma teologia liberal da qual nunca fui simpatizante, ou ressabiam de um moralismo muito difícil de se apresentar ao homem moderno. A verdade dos antigos manuais continuava verdadeira. No entanto, o problema
não está nas verdades antigas (que sempre são e serão verdadeiras), mas em como expor e conduzir o homem moderno até estas verdades.
Foi nesta época que peguei, por acaso, um livro que já estava há quase quatro anos em minha prateleira: L’Esicasm o - che cos’è com e lo si vive1. Quando cheguei ao capítulo
“A purificação dos pensamentos em Evágrio, o monge”, as escamas caíram-me dos olhos. Os Santos Padres! Era aquilo que eu buscava. Não era necessário inventar um caminho, ele já existia. Homens muito mais sábios e muito mais santos já o haviam preparado para nós.
É evidente que os Santos Padres não eram uma novidade para mim. Meu próprio trabalho de mestrado foi baseado numa regula iuris extraída das cartas de São Gregório Magno. Mas o que eu tinha naquela época era uma admiração arqueológica, romântica, na melhor das hipóteses. Os Padres não eram aquilo que deveriam ser – “pais” – porque eu não tinha a atitude de filho que deveria ter. Para que eles sejam nossos pais, precisamos deixá-los gerar a nossa mentalidade.
Este livro nasceu dos anos de estudo e ensino a respeito do tema da cura das doenças espirituais. Seu propósito é ajudar os leitores que desejam iniciar o estudo deste tema e, mais importante ainda, pretendem trilhar o caminho da própria cura.
Para que a doutrina dos Santos Padres se apresente em sua verdade e grandeza, não é possível abordá-la como quem olha de fora, igual a quem quer bisbilhotar uma casa, olha pela janela, mas não quer entrar. Esta é uma das grandes dificuldades do mundo moderno compreender a fé católica. Quem quer julgar o ensinamento da Igreja, mas não deseja entrar na Igreja, permanece com um conhecimento, na melhor das hipóteses, superficial, quando não distorcido.
Também o padre e o diretor espiritual que desejem fazer bom uso deste livro deverão utilizá-lo como aquilo que ele é: um convite para uma conversão interior e para um maior aprofundamento. O melhor laboratório de experiências do diretor espiritual é sua própria alma.
A estrutura do livro é bem simples. Os dois primeiros capítulos são mais gerais e introdutórios. Será estudada a raiz de todos os problemas espirituais, seguida de uma espécie de árvore genealógica, conforme a lista clássica das oito doenças que dela decorrem.
Depois, estudaremos as três primeiras doenças e suas respectivas terapias: gula, luxúria e avareza. As outras cinco doenças (ira, tristeza, acídia, vanglória e soberba) serão tratadas no segundo volume deste curso.
Existe uma razão para tratarmos primeiro destas três paixões desordenadas (gula – luxúria – avareza). São as doenças mais grosseiras, mais ligadas ao mundo material e as primeiras que devem ser enfrentadas no processo terapêutico. E, embora possam afetar as pessoas mais progredidas no caminho espiritual, podemos dizer que são típicas dos iniciantes no processo de conversão.
Também a ordem em que iremos apresentá-las é a dos Santos Padres. A luxúria é apresentada logo depois da gula, porque dela deriva e está intimamente ligada, tanto enquanto doença como enquanto terapia. A avareza é apresentada com freqüência como um terceiro passo.
Algumas pessoas podem se chocar com a severidade do pensamento apresentado neste livro. Mas os Padres da Igreja desejam apenas prestar o serviço de nos colocar debaixo do olhar de Cristo, compassivo e exigente.
Inspirada pela cena do Juízo Final (Mt 25, 31-46), a arte sacra representa Jesus com a feição ao mesmo tempo misericordiosa e irada. É o rei-juiz que diz aos que estão à sua direita: “Vinde benditos!”; e aos da esquerda: “Apartai-vos, malditos!”. Reúnem-se num só rosto, de forma paradoxal, as duas formas de Deus nos amar: a compaixão e a ira.
O olhar severo é o amor que exige conversão e nos desafia. O olhar amoroso é o amor que acolhe e nos perdoa. Num único semblante, contemplamos o mistério pascal, morte e ressurreição, amor que supera todo entendimento: o olhar que nos cura.
Um destes ícones é reproduzido na capa deste livro. Esta imagem de Cristo foi feita no século VI e encontra-se no Mosteiro de Santa Catarina de Alexandria, no monte Sinai. Trata-se de uma obra cuja técnica de pintura (encáustica) consiste no uso de pigmentos e de cera tratados a quente. Este procedimento causa um efeito de translucidez imensa na obra.
Quando olhamos para as metades separadas do rosto, conseguimos enxergar quase que duas pessoas diferentes. Mas se unimos os dois lados (cf. orelha da capa) ficamos perturbados com aquela aparente contradição. Mas não se trata de esquizofrenia. Jesus não possui dupla personalidade.
Jesus é a “imagem do Deus invisível”, a ponto de Ele poder dizer: “Quem vê a mim, vê o Pai”. E é com este amor desafiador e acolhedor que Deus Pai nos ama. Seria heresia escolher e optar apenas por um dos dois olhares. Heresia –
hairesis – quer dizer exatamente isto, escolher, preferir apenas um “pedaço” da
verdade.
Se olharmos para cada época ou cada pessoa, notaremos uma tentação herética de escolher um destes olhares. Marcião (século II) foi o primeiro a contrapor estas duas formas de amar, criando dois deuses. Para ele, existia um Deus mau, vingativo e irado do Antigo Testamento e um Deus bom, amoroso e misericordioso do Novo Testamento. Deveríamos escolher o segundo e abandonar o primeiro.
A Igreja lutou contra esta heresia desde cedo, compreendendo o desequilíbrio teológico e espiritual que se encontrava por trás daquela aparente coerência racional.
O católico é sempre assim. Ele vê duas verdades de fé, aparentemente contraditórias. Não escolhe nenhuma das duas, acolhe as duas e procura resolver aquela contradição com uma teologia. Mas o coração católico sabe que seu esforço teológico é sempre limitado e humano. O importante é abraçar a fé completa (kat’holikos – completo, conforme o todo).
Espero ter sido católico neste livro e ter apresentado o todo destes dois olhares. Não fujamos do olhar de Deus e, em todas as páginas deste livro, tenhamos presente a oração de Santo Agostinho.
[Senhor], ninguém vos perde, a não ser quem vos abandona. E porque abandona, para onde vai ou para onde foge senão para longe de ti m isericordioso e para perto de ti irado?2
C
APÍTULO
I
Filáucia
1
:
a Mãe de Todas as Doenças
É próprio do homem amar, como é próprio da luz iluminar. Esta verdade ressoa em nossos corações como algo evidente e, ao mesmo tempo, difícil de acreditar. Ao ouvi-la, sentimos um forte apelo para alçar vôo na arriscada aventura de amar. Mas dentro de nós – melhor ainda, diante dos nossos olhos – encontramos a evidência patente de nossa fragilidade: uma espécie de força que nos leva a chafurdar na lama. A grandeza de nosso chamado contrasta clamorosamente com a miséria de nossa situação.
Desde os séculos mais remotos, a humanidade perplexa percebe estas duas tendências contraditórias, mas não consegue explicá-las. Nós, cristãos, no entanto, aprendemos a origem desta contradição por meio da única realidade que poderia esclarecê-la: a Revelação.
A Revelação nos ensina: o homem É bom, mas ESTÁ mal. Ou seja, o homem
não é uma doença, mas está doente. E seu estado de doença espiritual requer uma cura. Este livro se propõe a ser uma pequena introdução ao conhecimento deste estado doentio e de sua terapia de acordo com a tradição mais antiga da Igreja.
Qual seria então a primeira conseqüência deste estado doentio? Qual é a mãe de todas as nossas doenças espirituais? Segundo os Santos Padres, especialmente São Máximo o Confessor (580-662), na raiz de todos os pecados está uma doença espiritual chamada filáucia.
Filáucia Virtuosa
De origem grega (philía + autós), a palavra filáucia designa o amor que uma pessoa tem por si mesma, o amor-próprio.
A definição etimológica, no entanto, não é suficiente. Ao afirmarmos que a filáucia é sinônimo de amor-próprio, algumas pessoas poderiam ser induzidas a pensar erroneamente que se trata necessariamente de uma espécie de egoísmo. Mas não é assim.
O significado originário da palavra filáucia é positivo e trata-se de uma virtude. O amor-próprio não é uma invenção malévola do demônio ou do homem pecador. É isto mesmo: o amor-próprio foi criado por Deus e pertence à natureza sadia do homem, como Deus a sonhou.
Por isto, não é de se espantar que o próprio Jesus (cf. Mt 22,37-39), depois de apresentar o mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas (cf. Dt 6,5), faça questão de acrescentar o preceito de amar ao próximo tendo como medida o amor por si mesmo: “Amarás o teu próximo com o a ti m esm o” (Lv 19,18).
Ora, Nosso Senhor não canonizaria o egoísmo. É verdade que existe uma forma doentia de a pessoa amar a si mesma e é a respeito deste amor desordenado que trataremos neste capítulo. Antes de falarmos da doença do egoísmo, porém, precisamos reconhecer que existe uma forma sadia de o homem se amar.
Como então funcionaria o coração de um homem sadio? Como é possível ter um amor-próprio adequado e belo? Antes de tudo, o que se deve constatar é que o amor de si não é o primeiro passo. Se pensarmos em nossa história pessoal com sinceridade e profundidade, concordaremos com São João: antes de qualquer amor surgir em nosso coração, nós fomos amados (cf. 1Jo 4,10). Deus nos amou primeiro e o nosso amor será sempre uma resposta, um segundo passo.
Disto se compreende por que no coração de um homem sadio não pode faltar esta resposta. O amor a Deus não é apenas uma das tantas qualidades do coração do homem: é a primeira e mais importante de todas as qualidades, pois é a primeira verdade que Deus revela a nosso respeito. Santo Agostinho (354-430) nos recorda que o ser do homem foi feito para responder ao amor de Deus, quando diz: “Senhor, fizestes-nos para vós e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em vós”2
.
Por isto, amar a Deus não é um luxo, um acessório dispensável, e sim a realização de nosso próprio ser. Assim como é natural que uma videira dê fruto ou que uma abelha produza mel, é natural que um homem saudável ame a Deus. O primeiro mandamento – “amar a Deus sobre todas as coisas [...]” – não é uma exigência de um Deus ciumento e caprichoso. É o conselho de um Pai amoroso que nos ensina o caminho da felicidade.
A conseqüência é lógica: se amarmos a Deus de todo o nosso coração, estaremos, de modo indireto, amando a nós mesmos, visto que não é possível uma pessoa amar a si mesma e odiar a fonte do seu próprio ser. Seria um contra-senso; uma atitude semelhante a meter a enxada nos próprios pés, ou cortar o galho sobre o qual se está sentado. Ao amar a Deus, a pessoa demonstra que ama a si mesma.
Filáucia Doente
A partir deste quadro positivo, compreendemos o que há de errado conosco, uma vez que a doença é sempre a desordem de algo positivo, ou seja, uma disfunção do organismo saudável.
É muito importante, ao longo de todo este livro, nunca perdermos de vista o fato de que a doença é sempre uma perversão da saúde. Por trás do pecado sempre existe uma realidade positiva, um dom de Deus, que está sendo usado de forma prejudicial e destruidora. O mal é sempre a perversão de um bem.
O diabo não tem o poder de criar. Ele sabe apenas arremedar o Deus criador, e, ao perverter as coisas criadas, como uma espécie de “macaco de Deus”3, imita grotescamente as obras de Nosso Senhor.
O egoísmo, a filáucia doentia, é um arremedo da filáucia virtuosa.
O livro do Gênesis nos recorda que, por sedução da serpente, o homem começa a amar a si mesmo de forma desordenada. “Sereis como Deus” – promete o pai da mentira. E a partir do momento em que o homem se deixa enganar por esta falsa promessa, ele entra numa rivalidade invejosa com Deus, como se Ele fosse um inimigo, o obstáculo para sua felicidade. Movido por este amor-próprio equivocado, o homem se revolta contra sua própria fonte. Começa a tratar Deus como seu inimigo e dele se esconde por trás dos arbustos (cf. Gn 3,8).
São Máximo descreve a forma como a filáucia doentia afetou nossos primeiros pais. O homem volta suas costas para Deus, para sua luz, e mergulha na matéria em busca de uma felicidade sem Deus.
O primeiro pai, Adão, cego por não ter dirigido o olhar para a luz divina com o olho da alma, afundando as duas mãos na lama da matéria, nas trevas de sua ignorância, voltou-se completamente para as coisas sensíveis e a elas se dedicou inteiramente4.
Amor de Si Contra Si
Ora, não é difícil perceber a loucura de quem se revolta contra seu próprio criador. Tal atitude iguala-se a de uma criança que dá socos e pontapés no pai, que, com mãos amorosas, sustenta-a e impede que caia no precipício.
Na tentativa de expressar a loucura deste amor doentio, São Máximo sintetizou, de forma bastante intuitiva, esta realidade patológica ao descrever a filáucia como “o amor de si contra si”5.
Será possível entender melhor a questão se pegarmos como exemplo a pessoa viciada em drogas. O toxicodependente se entrega ao vício porque “se ama”, mas não é difícil perceber que se trata de um amor desordenado. Ele busca a própria felicidade nas alucinações resultantes do entorpecente, mas o que encontra, na verdade, é a própria destruição. Só o drogado não vê que está transformando a própria vida e a vida dos que o amam num inferno. Ele se ama, porém este amor de si é contra si. É uma espécie de amor autodestruidor.
Pois bem, “O pecado é sempre uma ‘droga’, mentira de falsa felicidade”6. Todas as vezes que nos entregamos ao pecado, caímos na loucura de quem deseja se salvar e termina se perdendo (cf. Mc 8,35). E aqui a palavra loucura não é um exagero e nem simplesmente um estilo de linguagem.
Se, andando pela rua, encontrássemos uma pessoa mutilando a si mesma e arrancando pedaços de seu próprio corpo, não hesitaríamos em dizer que se trata de um louco, pois dilacerar os próprios membros “é próprio de furiosos e de loucos”7. Tal é a nossa condição de pecadores. Achamo-nos muito inteligentes ao deixar Deus de lado e inventar uma forma nova de amor-próprio, mas acabamos por nos destruir.
Amor Irracional pelo Corpo
São Máximo avança ainda mais na compreensão da filáucia e nos mostra que ela “é o amor passional e irracional pelo corpo”8
. Irracional! Ele usa a palavra
álogos, que tanto quer dizer sem lógica, sem sentido, como sem o Logos9 sem o Verbo, sem a Palavra... sem Jesus.
Mas por que São Máximo insiste em afirmar que a filáucia é um amor pelo corpo? Não há algo de pouco cristão nesta aparente aversão platônica pelo corpo? Antes de responder a esta pergunta, se o leitor me permite, gostaria de partilhar um acontecimento de minha história familiar.
Lembro-me de quando, há anos, meu sobrinho Lucas recebeu o diagnóstico de meningite. Ele tinha por volta de cinco anos de idade. Era domingo à tarde e estávamos na casa dos meus pais. Ele se deitou no sofá com dor de cabeça. Foi medicado pela mãe com um analgésico comum e foram para casa. Mas a dor de cabeça não passava. De madrugada, minha irmã, iluminada por Deus, foi levá-lo ao hospital. A médica que o atendeu, por causa da rigidez na nuca, suspeitou de meningite. Para se ter certeza disto e para saber o tipo de meningite, foi necessária uma punção lombar: uma agulha fina é inserida entre dois ossos da coluna vertebral, para a retirada de um líquido existente na coluna e no cérebro.
Pois bem, você já tentou convencer uma criança de que levar uma agulhada nas costas é uma coisa boa? Nem tente. Depois da primeira picada mal sucedida, ninguém mais segurava o menino. A família se aglomerava no quarto do hospital, ao redor da cama do Lucas e, devo admitir, não era um dos ambientes mais descontraídos. A médica então, como boa pedagoga, pediu ao Lucas que escolhesse uma pessoa para ficar ali no quarto, pois as outras deveriam sair. É claro que ele escolheu a mãe.
Silenciosos e a contragosto fomos para o corredor. De lá ouvimos os gritos de medo e aflição. Era de cortar o coração. No entanto, sabíamos que era para o bem do Lucas.
Lá dentro, os enfermeiros imobilizaram a criança. A mãe acariciava a cabeça do menino e tentava acalmá-lo, em vão. A médica, com a perícia e a frieza necessárias, cumpriu o seu papel de forma exemplar. Dentro de poucas horas, o diagnóstico estava pronto e o paciente medicado. Lucas pôde voltar para casa, sem
maiores seqüelas, após alguns dias de hospital. Graças a Deus.
Contei esta história para exemplificar, de forma ainda mais concreta, o fato de a filáucia ser “um amor de si contra si”. O menino, na sua racionalidade limitada, fugia daquela agulha em busca da salvação. Na verdade, ele não fugia
da morte, ao contrário, fugia para a morte.
Esta história também nos ajuda a compreender em que sentido a filáucia é constituída por um amor cego pelo próprio corpo. A criança, pela pouca idade, fugia da agulha para se preservar. Mas nós, adultos, um pouco mais racionais e corajosos, também apresentamos atitudes semelhantes. Isto acontece por causa de um princípio básico que a filáucia, nossa tirana, quer que obedeçamos custe o que custar: fugir da dor e buscar o prazer.
Esta forma de pensar, aparentemente tão óbvia quanto inocente, carrega dentro de si o mais terrível dos enganos: identificar dor com infelicidade e prazer com felicidade.
Ora, dor e prazer são realidades do corpo. Ao viver de acordo com o princípio de fugir da dor e buscar o prazer, procuramos a felicidade no mais insólito dos lugares: no próprio corpo. Por isto a filáucia pode ser definida como um amor desordenado pelo corpo.
O próprio São Máximo pode explicar:
O homem, ao descobrir por experiência que a dor sempre é conseqüência do prazer, dirige a este prazer toda a sua atração e dirige à dor toda a sua repulsa. Para obter o prazer, lutou com todas as suas forças; contra a dor, lutou com todo o seu afinco, esperando obter, através deste método, aquilo que é impossível: separar a dor do prazer e assim obter o prazer junto com a filáucia, sem que experimente dor alguma. Parece que a paixão fazia com que ele ignorasse que o prazer não pode ser jamais privado da dor10.
Não é necessário ser um filósofo para entender que prazer e felicidade são duas realidades de naturezas bem distintas. Somos capazes de perceber que o prazer é uma realidade do corpo e a felicidade uma realidade da alma, do espírito, do coração.
Buscar a felicidade no prazer físico é como querer matar a sede com um punhado de sal. O corpo não pode dar aquilo que é próprio do espírito. Por isto que as pessoas pecam. Pecam porque querem ser felizes, mas buscam a felicidade onde ela não se encontra11
desilusão.
Nós, cristãos, não somos contra o corpo, mas nem por isto devemos ser seus escravos. O homem, como Deus o sonhou, é uma forma belíssima de a matéria e o espírito viverem em harmonia. Queremos ser felizes, mas quando pecamos erramos o alvo12, porque fomos feitos para Deus e não para nós mesmos.
Filáucia como Loucura
Nascemos para amar a Deus e nele devemos amar o próximo e a nós mesmos. É no amor que alcançaremos a nossa felicidade. Mas, como vimos, a filáucia tende a arrastar a realidade espiritual do amor-felicidade para o âmbito da realidade material do egoísmo-prazer. Há em nós uma tendência de confundir felicidade e prazer. Achamos que os momentos prazerosos nos fazem felizes; mas é exatamente o contrário, uma vez alcançado o prazer, sentimos uma morte invadindo o nosso coração.
Assim, o primeiro passo em direção à cura espiritual é reconhecer a filáucia, amor desordenado de si por si mesmo, um amor irracional. Como apresentado neste capítulo, São João Crisóstomo (347–407) chega a dizer que a filáucia é um amor louco, uma sandice, uma demência, porque é típico dos loucos automutilar-se. O que você diria de uma pessoa que infligisse um ferimento ao próprio corpo, como o famoso pintor Vincent van Gogh, que cortou um pedaço da própria orelha esquerda? Sem dúvida trata-se de um caso psiquiátrico grave. Só um demente faria isto.
Pois bem, quando nos entregamos à filáucia, tornamo-nos dementes...
Ao pecar, mutilamos a nós mesmos. O drogado destrói as células do próprio cérebro. O alcoólatra prejudica o próprio fígado. A prostituta elimina a sua capacidade de desejar... Pobre de nós, filauciosos, que nos destruímos de forma triste e macabra!
Notas
1. Devo grande parte do conteúdo deste capítulo ao excelente estudo do jesuíta francês padre Irénée Hausherr sobre a filáucia no pensamento de São Máximo o Confessor (Philautie. De la tendresse
pour soi à la charité selon saint Maxime le Confesseur) ao qual tive acesso na tradução italiana feita pela
monja de Bose, Lisa Cremaschi, Philautía. Dall’amore di sé alla carità. Magnano: Edizioni Qiqajon, 1999, p. 246.
2. “[Domine,] fecisti nos ad te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te”. Edição brasileira: Santo Agostinho, Confissões. São Paulo: Paulus, 1997, p. 19.
3. O escritor inglês G. K. Chesterton (1874-1936) recorda o fato de que a falsidade nunca é tão falsa como quando está bem próxima da verdade. Por isto o Anticristo é uma imitação de Cristo, o macaco de Deus. “It is the fact symbolised in the legend of Antichrist, who was the double of Christ; in the profound proverb that the Devil is the ape of God. It is the fact that falsehood is never so false as when it is very nearly true” (G. K. Chesterton, Saint Thomas Aquinas: The Dumb Ox). Edição brasileira: São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 267.
4. Questões Ambíguas , PG 91, 1164CD; Apud Irénée Hausherr, op. cit., p. 88.
5. “Amante de si contra si” (καθ᾿ ἑαυτοῦ φίλαυτος). São Máximo, Questões a Talássio, Prefácio, PG 90, 257B. Quando não cito uma fonte impressa, a tradução portuguesa é minha e o texto original, grego ou latino, pode ser encontrado em www.documenta-catholica.eu (19/07/2008). Para os textos originais de Santo Agostinho, acessar www.sant-agostino.it; e os de Santo Tomás:
www.corpusthomisticum.org.
6. Joseph Ratzinger, Guardare Cristo. Esercizi di fede, speranza e carità. Milano: Jaca Book, 2005, p. 76. Edição espanhola: Mirar a Cristo. Ejercicios de Fe, Esperanza y Amor. Valencia: Edicep, 2005, p. 99.
7. São João Crisóstomo, Homilias sobre São João, LXVIII, 3, PG 59, 378.
8. “Φιλαυτία ἐστίν ἡ πρός τό σῶµα ἐµπαθής καί ἄλογος φιλία”, Centúrias sobre a Caridade. 3, 8. Sigo, quando possível, a seguinte edição: São Máximo, Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos
Espirituais. Tradução de Carlos Ancêde Nougué e Clarice Rodrigues. São Paulo: Landy, 2003, p. 94.
9. São João, no prólogo do seu Evangelho, apresenta o Filho de Deus como a Palavra (Logos), o Verbo Divino que se faz carne. Jesus é a encarnação do Logos, ou seja, a encarnação da Sabedoria, da Palavra criadora de Deus, que ordena o caos, chama toda criatura à existência e que é a única capaz de nos oferecer a vida eterna.
10. Questões a Talássio, PG 90, 254A; apud Irenée Hausherr, op. cit, p. 87.
11. O papa João Paulo II, retomando a expressão das Confissões de Santo Agostinho (“Eis que estavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora”, 10, 38), formula a seguinte definição de pecado: “Pecamos quando procuramos Deus onde ele não pode ser encontrado” (Mensagem para o 33º Dia Mundial das Comunicações, 27 de janeiro de 1999).
12. Tanto em grego (ἁµαρτία) como em hebraico (hata’ - ), a palavra pecado pode denotar esta idéia de errar o alvo.
C
APÍTULO
II
Uma Terrível Prole
O objetivo deste capítulo é apresentar uma visão geral das doenças espirituais, que serão objeto de estudo nos dois volumes de nosso curso. Se o leitor desejar, poderá passar diretamente para o terceiro capítulo sem que sua compreensão seja prejudicada.
As Três Tentações do Deserto
No capítulo anterior, refletimos sobre a filáucia, mãe de todas as doenças. Neste, conheceremos suas três primeiras “filhas” – três doenças primárias que descendem diretamente do amor desordenado que temos por nós mesmos. Foi exatamente com estes três “maus pensamentos”1 que o demônio tentou Jesus no deserto2.
Na primeira tentação, o diabo disse: “Se és o Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão” (Lc 4,3). Vê-se claramente a tentação da gula, que em grego se chama gastrim argia. O que quer dizer gastrimargia? Trata-se da “loucura do estômago”, a busca da felicidade na ingestão dos alimentos. Por ser um tipo de loucura, nota-se a tendência filauciosa de autodestruição. O guloso pensa que a melhor coisa do mundo é consumir com voracidade tudo que lhe agrada. Mas, para saber o quanto isto é destruidor, não é preciso sequer um diretor espiritual: basta ir ao médico...
A segunda filha da filáucia é a avareza, ou, usando uma palavra de origem grega, a filargíria. O demônio disse a Jesus: “Eu te darei todo este poder e a riqueza destes reinos, pois a mim é que foram dados, e eu os posso dar a quem eu quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim, tudo será teu” (Lc 4, 6-7).
Como filha da filáucia, a avareza obedece ao mesmo princípio de sempre: queremos nos salvar, mas nos perdemos. Quantas vezes julgamos poder alcançar segurança, paz e tranqüilidade no acúmulo dos bens! Mas justamente aí nos precipitamos na desgraça.
O problema não é possuir dinheiro, mas sermos possuídos por ele: fazer dos bens materiais a fonte de nossa felicidade e salvação. Quando Nosso Senhor nos recorda: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3), está dizendo a mesma coisa de forma positiva. Trata-se da felicidade de quem colocou em Deus sua confiança e sua esperança.
A terceira filha da filáucia é a vaidade, que em grego se diz cenodoxia. O tentador leva Jesus a Jerusalém e, colocando-o no ponto mais alto do templo, diz: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito para que te guardem’ e ainda: ‘Eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’” (Lc 4,9b-11).
A palavra cenodoxia pode também ser traduzida como vanglória, ou seja, uma glória vazia. “Lança-te daqui abaixo”, na interpretação dos Santos Padres, é o mesmo que dizer: faça-nos um show...3
Um conceito especial de nós mesmos pode nos levar ao precipício. A presunção é uma forma comum de vaidade. A vanglória se manifesta como filha da filáucia, como amor desordenado de si contra si. Ter um conceito elevado de nós mesmos significa não levarmos a sério os perigos do precipício.
É possível notar então como estas três primeiras filhas da filáucia – a gula, a avareza e a vanglória – conservam o traço fundamental de sua mãe: ser uma forma de amor de si contra si.
Com Jesus no Deserto
Num trecho do Sermão da Montanha (Mt 6,1-18), Jesus nos fala a respeito de três exercícios da vida espiritual, que a tradição da Igreja chama de “práticas quaresmais”: a esmola, a oração e o jejum. Estas práticas são remédios que servem, de modo geral, para todas as doenças espirituais. Mas podemos perceber certa consonância entre esta trindade terapêutica e o trio maligno do qual falamos até agora.
SERMÃODA MONTANHA(Mt 6) TENTAÇÃONO DESERTO(Mt 4)
Esmola (v. 1-4) Avare za (v. 8-10) Oração(v. 5-15) Vaidade (v. 5-7)
Je jum(v. 16-18) Gula (v. 3-4)
Para a cura da avareza: a esm ola. Jesus disse assim: “Tu, porém, quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a direita, de modo que tua esmola fique escondida. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa” (Mt 6,3-4). A esmola é um desprendimento dos bens materiais.
Logo em seguida, no mesmo capítulo, os Santos Padres identificam na oração proposta por Jesus a verdadeira cura para a vanglória4. À primeira vista pode parecer estranho, pois não vemos uma ligação lógica imediata entre a oração e a vanglória. Mas, pensando bem, faz sentido: a cura para nossa vanglória (falsa glória) é a glória verdadeira, a glória dada a Deus por meio da oração. “Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras”. E Jesus acrescenta: “Vós, portanto, orai assim: Pai nosso [...] santificado seja o teu nome” (Mt 6,7-9). Glorificar a Deus é a essência da verdadeira oração.
E, finalmente, a cura para a gula parece evidente: o jejum . “Quando jejuardes, não fiqueis de rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para figurar aos outros que estão jejuando. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa” (Mt 6,16).
As Oito Doenças Fundamentais
Antes de estudarmos detalhadamente as doenças espirituais, gostaria de proporcionar uma visão de conjunto. Ao todo são oito as doenças espirituais derivadas da filáucia.
Portuguê s Latim5 Gre go
1. Gula Gastrimargia (ventris ingluvies) γαστριµαργία (gastrimargía) 2. Luxúria (fornicação) Fornicatio πορνεία (pornéia) 3. Avare za Philargyria
(avaritia; amor pecuniæ)
φιλαργυρία (filargyría) 4. Triste za Tristitia λύπη (lýpe) 5. Ira Ira ὀργή (orgé) 6. Acídia Acedia
(anxietas; tædium cordis)
ἀκηδία (akedía) 7. Vanglória
(vaidade )
Cenodoxia
(iactantia; vana gloria)
κενοδοξία (kenodoxía) 8. Orgulho
(sobe rba) Superbia
ὑπερηφανία (hyperefanía)
Esta lista aparece pela primeira vez nos escritos de Evágrio Pôntico (345-399)6, monge que nasceu em Ibora7, na atual Turquia, e viveu os últimos quatorze anos de vida nas Celas (Kéllia)8
, no deserto do Egito. Foi ali que Evágrio aprendeu com os Padres do Deserto esta ciência prática (praktiké)9 da cura das doenças espirituais. Eis um de seus textos clássicos:
Ao todo são oito os pensamentos genéricos [= geradores] que contêm todo vício. O primeiro é o da gula e, depois dele, o da luxúria; o terceiro é o da avareza; o quarto, o da tristeza; o quinto é o da ira; o sexto o da acídia; o sétimo é o da vanglória e o oitavo, o do orgulho. Pois bem, que estes pensamentos perturbem ou não a nossa alma, não depende de nós. Mas que eles se detenham ou não se detenham, ou que incitem as paixões ou não as incitem, isto depende de nós10.
Árvore Genealógica
Como vimos, estas oito doenças básicas ou genéricas11 são a origem de todas as outras. Mas, mesmo entre elas, pode-se perceber um nexo lógico, compondo uma espécie de árvore genealógica12. As três primeiras derivam diretamente da filáucia. Evágrio nos explica a relação das outras cinco.
Entre os demônios que se opõem à prática [das virtudes], os primeiros a fazerem guerra são os que se dedicam aos prazeres da gula (gastrimargía), os que insinuam em nós a avareza (filargyría) e os que nos estimulam a buscar a glória (dóxa) que vem dos homens. Todos os outros vêm depois destes e acolhem aqueles que foram por eles feridos. De fato, não é possível cair nas mãos do espírito da luxúria (pornéia) se ainda não se caiu por causa da gula. E não há quem seja perturbado pela ira (thymós) se não está lutando por causa de alimentos, riquezas ou desejos irracionais de glória. Não pode fugir do demônio da tristeza (lýpe) quem foi privado de todos estes bens ou quem não pôde obtê-los. Nem poderá fugir da soberba (hyperefanía), a primeira gerada pelo diabo, quem antes não tiver arrancado a raiz de todos os males que é o amor ao dinheiro (filargyría), se é verdade, como diz Salomão, que a pobreza faz o homem ser
humilde13. Em resumo, não é possível que o homem se envolva com um demônio se antes não foi ferido por aqueles três males principais. Por isto, foram estes três os pensamentos (logismói) que o diabo colocou diante do Salvador: primeiro pedindo que transformasse as pedras em pães; depois lhe prometendo todo o mundo se se prostrasse em adoração; e em terceiro lugar dizendo que, se o tivesse obedecido, teria sido glorificado se, caindo do pináculo do templo, não tivesse sofrido mal algum desta queda. Nosso Senhor, mostrando-se superior a tudo isto, mandou ao diabo que se retirasse e assim nos ensinou que não é possível repelir o diabo sem antes ter desprezados estes três pensamentos14.
A filáucia faz com que busquemos a felicidade nas criaturas: comida, dinheiro e fama (gula, avareza e vaidade). A busca da felicidade na comida pode se agravar na busca do sexo (luxúria). A busca da felicidade na fama pode se agravar no orgulho.
Até aqui já apareceram cinco doenças. E as outras três? Ora, o colérico (ira)
está sempre lutando por uma destas cinco coisas. Já o deprimido (tristeza e acídia) se lamentando por não ter alcançado a felicidade nelas ou apesar delas. Assim completa-se a genealogia das oito doenças.
Talvez a acídia seja a doença mais desconhecida dentre as apontadas. Quando a estudarmos, no segundo volume deste curso, notaremos que é, na verdade, uma velha conhecida.
Os Sete Pecados Capitais
Uma última observação a respeito da expressão “doenças espirituais”: em outros livros, o leitor poderá encontrar estas mesmas doenças com o nome de “espíritos do mal”15, “maus pensamentos”16 ou “pecados capitais”17. Trata-se da mesma realidade, expressa com uma terminologia diversa.
No Ocidente, a lista dos “oito espíritos do mal”, apresentada por Evágrio, foi divulgada por João Cassiano (±360–435)18, monge oriental que se transferiu para o Ocidente, fundando dois mosteiros em Marselha, na França.
Retomada pelo papa São Gregório Magno (540-604), esta lista deu origem aos sete pecados capitais de nossos catecismos. A diferença numérica, de oito para sete, deve-se ao fato de a soberba ocupar um lugar privilegiado. É assim que São Gregório recorda: “O princípio de todo pecado é a soberba” (Eclo 10,15)19.
7 PECADOS CAPITAIS 8 DOENÇAS ESPIRITUAIS
1. vaidade 1. vaidade (cenodoxia) 2. avare za 2. avare za (filargíria) 3. inve ja (tipo de triste za) 3. triste za (lípe)
4. ira 4. ira (orgué)
5. luxúria 5. luxúria (pornéia)
6. gula 6. gula (gastrimargia)
7. pre guiça ou acídia 7. acídia
(SOBERBA: princípio de todos) 8. sobe rba (hiperefania)
Ao apresentar a luta que o cristão deve empreender contra estes oito espíritos do mal, João Cassiano faz uma analogia entre as oito doenças e as oito nações que Israel teve de derrotar para entrar na terra prometida (cf. Dt 7,1; sete nações mais o Egito)20. É a respeito deste combate que trataremos nos próximos capítulos.
Notas
1. O cardeal Thomas Špidlík escreve: “O logismós não é um ‘pensamento’ no verdadeiro sentido da palavra, seria mais uma ‘imagem’, um fantasma que surge no homem dotado de sensibilidade. Esta imagem não provém do noûs, do espírito, mas da parte inferior de nossa faculdade cognitiva, da
diánoia, sede do pensamento pró ou contra. No entanto, esta imagem é capaz de atrair, de mover o
espírito, e suscita então um movimento passional que impele o homem a se decidir secretamente contra a lei de Deus ou, no mínimo, a dialogar com esta imagem que se apresenta como uma espécie de ídolo e que, ao contrário, deveria ser expulsa”. La spiritualità dell’Oriente Cristiano. Manuale sistematico. Milano: San Paolo, 1995, p. 223.
2. Sigo aqui a explicação tradicional dos Santos Padres. Uma interpretação exegética católica, porém utilizando o instrumental da análise crítica moderna, pode ser encontrada no extraordinário livro do papa Bento XVI: Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007, p. 39-55.
3. O papa Bento XVI é da opinião de que um exame mais atento do contexto do relato evangélico não justifica esta interpretação tradicional dos Santos Padres. O conteúdo desta terceira tentação não seria a vaidade: “Isto não deve ser pensado neste lugar, tendo em vista que aparentemente não são aqui pressupostos espectadores” (Joseph Ratzinger, op. cit., p. 48). Mantivemos aqui a leitura feita pelos Santos Padres porque ela facilita a apresentação genealógica das doenças. Veremos que esta genealogia se confirmará quando apresentarmos a etiologia de cada enfermidade.
4. No contexto exegético, os três recursos ascéticos apresentados por Jesus encontram-se num contexto de combate à vanglória, sob a forma de hipocrisia (três vezes οἱ ὑποκριταί; versículos 2.5.16). Mas isto não elimina o interessante paralelismo apontado pelos Santos Padres.
5. Cf. João Cassiano, Conferência 5, 2. Edição brasileira: Conferências 1 a 7, vol. 1. Juiz de Fora: Mosteiro da Santa Cruz, 2003, p. 129.
6. Pôntico designa a pessoa que nasce no Ponto, região nordeste da Anatólia, atual Turquia. Evágrio desenvolveu uma síntese de teologia e monasticismo prático que se tornou um verdadeiro clássico. Esta síntese, ao contrário do que se poderia imaginar, não foi desenvolvida por razões teóricas e especulativas. Evágrio era muito prático e precisava dar respostas às suas necessidades espirituais. Escreveu várias obras destinadas a monges, tanto anacoretas como cenobitas. Nelas, revela-se um homem de grande sensibilidade psicológica e de uma rara fineza de análise. É possível saber sobre sua vida por meio dos escritos de seu discípulo Paládio, História Lausíaca (a obra recebe este nome pois foi dedicada a Lausos, camareiro do imperador Teodósio IV).
7. A cidade de Ibora chama-se atualmente Turhal.
8. Kéllia, dois a três quilômetros a sul do atual canal de Nubariyah. Cf. Antoine Guillaumont, “Storia dei monaci di Kellia”, in: Evagrio Pontico, Per Conoscere Lui. Magnano: Qiqajon, 1996, p. 59. Os monges de Kéllia eram origenistas e cultos.
9. De acordo com os Padres Orientais, no caminho da vida espiritual, a pessoa deve passar por três graus de conhecimento (prático, físico e teológico). Por isto a “ciência prática” que apresentamos neste curso é apenas o primeiro e necessário estágio no crescimento espiritual. No Ocidente, este estágio ficou conhecido como “via purgativa”, por causa da influência de Dionísio, o Areopagita.
Fala-se então de três vias: purgativa, iluminativa e unitiva. Cf., por exemplo, A Hierarquia Celeste, 3. Edição brasileira: Pseudo-Dionísio, o Areopagita, Obra Completa. São Paulo: Paulus, 2004, p. 148-151.
10. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, 6. Edição espanhola: Obras espirituales. Madrid: Editorial Ciudad Nueva, 1995, p. 138.
11. Γενικώτατοι λογισµόι. O Ocidente costuma chamar estas doenças espirituais de “pecados capitais”. A expressão, no entanto, se presta a inúmeras confusões, por isto prefiro usar outra palavra análoga, “doença”, que parece ser mais clara para o homem moderno. Trata-se de uma realidade análoga ao “pecado”, pois conduz ao pecado e dele provém, mas não se trata de pecado no sentido estrito do termo. Os pecados capitais continuam agindo em nós, mesmo depois de termos nos confessado e de termos sido perdoados dos “verdadeiros” pecados. Por isto usa-se a palavra “capital” (do latim caput = cabeça) “porque geram outros pecados, outros vícios” (Catecismo da Igreja Católica, 1866).
12. Trata-se apenas de uma simplificação pedagógica, sem querer, com isto, exaurir o complexo problema da etiologia de cada uma das diversas doenças. Este tema será tratado, ainda assim de forma incipiente, nos respectivos capítulos.
13. Pr 10,4, segundo a tradução da Septuaginta (πενία ἄνδρα πεινοῖ).
14. Este texto se encontra na Filocalia com o nome “Sobre o Discernimento das Paixões e dos Pensamentos” (Edição italiana: La Filocalia. Milano: Piero Gribaudi Editore, vol. 1, 1983, p. 107), onde é atribuído a Evágrio. Por causa das perseguições antiorigenistas, o tratado chegou a nós como atribuído a São Nilo (PG 79). Outra tradução, com o texto grego original, está disponível em: Evagrio Pontico, Sui diversi pensieri della malvagità, n.1. Cinisello Balsano: Edizioni San Paolo, 1996, p. 69.
15. Πνέυµατα τῆς πονηρίας. 16. Λογισµόι πονηρόι. 17. Peccata capitalia.
18. (São) João Cassiano nunca foi canonizado oficialmente, mas São Gregório Magno o considerava santo e é celebrado como tal nas Igrejas do Oriente e em Marselha.
19. São Gregório Magno, Moralia in Iob, 31,45, § 87
20. João Cassiano, op. cit., p.149-150 (no original: 5, 17-18)
Gastrimargia: Tirana de Todos
os Mortais
No primeiro capítulo, falávamos da mãe de todas as doenças espirituais, a filáucia. O nome é complicado, mas a realidade é muito simples de entender. A filáucia é um amor desordenado da pessoa por si mesma. É um amor de si contra si. A pessoa se quer tão bem que se autodestrói.
Como dissemos, um dos exemplos mais patentes de filáucia é o caso do drogado. A pessoa quer tanto ser feliz que destrói a si mesma, a sua saúde física e espiritual. De certa forma, somos todos como um drogado. Somos filauciosos. Todos temos um “amor desordenado” de nós contra nós mesmos.
No segundo capítulo, vimos que deste amor desordenado nascem três doenças fundamentais. É a primeira ninhada, os “primogênitos” da filáucia, que os padres da Igreja identificaram com as três tentações que Jesus sofreu no deserto: a gula, a avareza e a vanglória. Como recorda São Máximo, o Confessor (580-662):
Muito cuidado com o amor-próprio [a filáucia], mãe de todos os vícios, e que é o amor irracional pelo próprio corpo. Indubitavelmente, dele nascem os três primeiros pensamentos passionais fundamentais: o da gula, o da avareza e o da vanglória, que têm origem nas exigências necessárias do corpo; por eles nasce toda a série de vícios. É preciso, portanto, como se disse, ter cuidado com este amor-próprio [filáucia], e combatê-lo com muita sobriedade; destruído ele, são destruídos todos os pensamentos [as doenças espirituais] que dele provêm1.
Importância da Gula
Iniciemos então pelo primeiro filhote: a gula. Mas quando falamos de gula, a primeira coisa que se pensa é: isto ainda é pecado? Quem de nós ainda costuma confessar pecados de gula? Talvez ela pudesse aparecer num exame de consciência para crianças, mas nós, adultos, temos coisa mais séria para enfrentar. Podemos até conceder que a gula seja um pecado, mas trata-se de um pecado levíssimo, inofensivo.
Os Santos Padres, no entanto, nossos grandes diretores espirituais, perceberam que não se trata de um pecadinho. Trata-se de um pecado capital, ou seja, de uma má inclinação de nossa alma, capaz de gerar muitos outros pecados.
São João Clímaco (525-606), em sua famosa obra A Escada do Paraíso2
, mostra a importância da gula ao fazer uma grande lista dos outros pecados derivados dela. Ele se põe a interrogar a própria gula: “Fala, ó tirana de todos os mortais!”. E ela responde fazendo uma lista das doenças espirituais que derivam dela. Também a gula tem a sua prole.
O meu filho primogênito é o espírito da fornicação; depois dele, em segundo lugar, vem a dureza de coração e em terceiro lugar o sono. Depois, é de mim que provem o mar dos maus pensamentos, as ondas da imundície, o abismo das impurezas desconhecidas e inomináveis! Minhas filhas são a preguiça, o mexerico, o atrevimento, a chacota, a bufonaria, a contestação, a birra, a desobediência, a insensibilidade, a escravidão, a auto-suficiência, a arrogância, o exibicionismo, e depois destas coisas vêm a oração impura, os pensamentos agitados3.
Fiz questão de citar estas listas de pecados para que possamos perceber, logo no início, a importância capital da gula.
Como se pôde notar, o primeiro filho da gula é o espírito de fornicação, ou seja, a luxúria, os pecados sexuais. Nisto os Santos Padres são unânimes: “Não é possível cair nas mãos do espírito da luxúria (pornéia) se ainda não se caiu por causa da gula”4. Trata-se de algo, para eles, evidente. Nem todo guloso tem problemas com a castidade, mas todo luxurioso tem problemas de gula (Talvez esta verdade não seja tão óbvia para muitos, porque nos deixamos levar pela ilusão de que os magros não têm o problema da gula...).
Seja como for, um pecado que tem conseqüências tão sérias não pode ser um pecadinho de crianças da primeira comunhão.
apresentado como o ato de “comer ” o fruto proibido, alguns Santos Padres chegam a dizer que a gula é a origem de todos os males5. Assim, o pecado de Adão no paraíso teria sido um pecado de gula.
Termo Técnico
Assim como na medicina, também no mundo espiritual as doenças muitas vezes possuem um nome popular e um nome técnico. A nossa conhecida dor de cabeça, por exemplo, é denominada pelos médicos de cefaléia.
Também a gula tem um nome técnico: gastrimargia. Alguns podem achar que é puro esnobismo chamar por um nome tão difícil a velha e conhecida gula. Está exatamente aí o problema. Quando dizemos “gula”, a pessoa cai imediatamente na presunção de achar que já sabe do que se trata. Quando dizemos “gastrimargia”, aquele que ouve espera que definamos a estranha palavra e, assim, podemos nos livrar de mal-entendidos.
A própria origem etimológica da palavra talvez nos ajude a compreender melhor. A primeira parte, gastri, não é difícil de intuir, diz respeito ao estômago. Mas e m argia, o que é? Márgos, em grego, quer dizer louco, alguém que está fora de si. Trata-se, portanto, de uma loucura do estômago6.
Isto nos ajuda a recordar que estamos falando de uma doença espiritual. O pecado em si não está em comer, mas na atitude espiritual, na “loucura” que manifestamos ao comer. Portanto, quando alguém ouve a palavra “gula”, tende a pensar na comida em excesso, mas quando se fala em gastrimargia, a definição é outra: trata-se de uma atitude espiritualmente doentia, patológica, diante da comida. Neste caso, é evidente, a quantidade não é o mais importante.
São Doroteu de Gaza (século VI) explica o significado da palavra:
Quando um guloso come um alimento que lhe agrada, é de tal modo dominado pelo seu prazer que o guarda por muito tempo na boca, mastigando-o longamente e só engolindo-o a contragosto por causa do grande prazer que experimenta. É o que se chama gulodice (laimargia). Um outro é tentado na quantidade; não deseja alimentos agradáveis e não se preocupa com o seu sabor. Que sejam bons ou maus, não tem outro desejo senão comer. Quaisquer que sejam os alimentos, sua única preocupação é encher a barriga. É o que se chama voracidade (gastrimargia) ou glutonaria. Vou lhes dizer a razão destes nomes. Margainein significa entre os autores pagãos “estar fora de si” e o insensato é chamado márgos. Quando ocorre em alguém esta doença e esta loucura de querer encher o ventre, chamamo-la
gastrimargia, isto é, “loucura do ventre”. Quando se trata apenas do prazer da boca,
chamamo-lo de laimargia, isto é, “chamamo-loucura da boca” 7.
que existem tipos de gastrimargia. Uns se fixam no prazer do paladar, na boca; outros se fixam no prazer do estômago cheio. Trataremos, no entanto, das duas realidades com o nome genérico de gastrimargia, para evitar confusão, já que em português não fazemos distinção.
Características da Doença
8Vamos então tentar descrever esta doença de forma mais clara. Em primeiro lugar, como já foi recordado, trata-se de uma doença “espiritual”. O fundamental é a atitude espiritual da pessoa diante da comida.
Os alimentos são um dom de Deus e o prazer derivado deles, seja ao saciarmos o estômago, seja ao degustarmos os sabores, é criação divina. Não há pecado algum no simples ato de comer até a saciedade e ou de cultivar formas requintadas de preparo dos alimentos e de saboreá-los. Tudo isto é dom de Deus, pois “toda criatura de Deus é boa, e não se deve rejeitar coisa alguma que se usa com ação de graças” (1Tm 4,4).
O problema é que, por causa do pecado original, há em nós uma tendência de lidarmos com a comida como se ela tivesse uma finalidade em si mesma. Explico: um animal pode se alimentar de forma voraz e isto não constitui desvio algum de sua natureza. Porém, o homem é uma forma de o espírito conviver com a matéria, ou seja, não somos apenas animais, possuímos uma alma e fomos criados por Deus e para Deus. Por isto, comer e se esquecer de Deus é um problema, já que isto desvia o homem da finalidade para a qual ele foi criado: a vida com Deus.
O único comportamento saudável perante a comida é a atitude de quem come em ação de graças, ou seja, consegue ver na comida um sacramento do amor de Deus, o Criador de todas as coisas.
Assim, a doença espiritual consiste em apegar-se à criatura e esquecer-se do Criador. Olhar para a comida e esquecer-se daquele que é a fonte deste alimento. Por isto a importância da oração antes das refeições para os cristãos. Ao rezarmos antes de comer, colocamo-nos na atitude espiritual de ação de graças, que deveria acompanhar toda a alimentação. O prazer de uma boa comida deveria nos falar diretamente ao coração e provocar a gratidão pelo dom de Deus.
Quando Deus criou o universo, presenteou-nos com este mundo belíssimo, como uma “lembrança” do seu amor. Infelizmente esta “lembrança” caiu no esquecimento.
Santo Agostinho (354-430)9 comparou esta situação da humanidade com a de uma noiva louca que ganha um anel de seu amado, se apaixona pelo presente e
esquece do noivo. É uma verdadeira demência! Mas somos nós. Tal atitude seria considerada como um despropósito por qualquer um, no entanto, este é o comportamento básico da humanidade. Esquecemo-nos de Deus o tempo todo.
Deus não te proíbe de amar estas coisas [as criaturas], mas de amá-las com a finalidade de obter a felicidade. Não é proibido, porém, admirar e aceitar as criaturas para amar o Criador.
Irmãos, suponhamos que um esposo fizesse um anel para sua esposa e esta tivesse mais amor pelo anel recebido do que pelo esposo que lho fabricou; não é verdade que com aquele presente se revelaria que a esposa tem um coração adúltero, embora ela ame algo que é presente do esposo?
É claro que ela ama algo que foi feito pelo seu esposo, mas se ela dissesse: ‘Basta-me o seu anel, e não me interessa ver o seu rosto’, que tipo de esposa seria esta? Quem não abominaria esta loucura? Quem não condenaria este sentimento de adúltera?
Amas o ouro no lugar do homem, amas o anel no lugar do esposo: se estes são os teus sentimentos a ponto de amar um anel no lugar do teu esposo e a teu esposo não queres nem mesmo ver; então quer dizer que ele te deu este penhor, não para te comprometer, mas para te perder. É para isto que um esposo oferece um penhor, para que no penhor ele mesmo seja amado. Para isto Deus te ofereceu as coisas [criadas]: ama aquele que as fez. Ele quer te oferecer muito mais, ou seja, quer dar a si mesmo. Mas se amares as coisas, mesmo que tenham sido feitas por ele, se esquecesses o Criador para amares o mundo, o teu amor não deveria ser julgado como amor adulterino?10.
Quando Deus criou as coisas, elas eram translúcidas. Todas as criaturas, inclusive os alimentos, tinham uma transparência que permitia o contato do homem com Deus. Todas as coisas deste mundo, até mesmo a comida, eram como janelas que possibilitavam ao homem o encontro com Deus, com o transcendente.
O pecado de Adão, porém, fez com que o homem perdesse este olhar transparente. Uma espécie de “catarata espiritual” tomou posse do nosso olhar, e as coisas se tornaram opacas e cerradas.
Por causa desta deficiência visual, jogamo-nos com avidez destruidora na direção dos dons de Deus. Procuramos na comida aquilo que ela não nos pode dar, a felicidade, e, por meio desta atitude devoradora, destruímos os dons de Deus e a nós mesmos. Para recuperarmos a visão clara e diáfana com a qual Deus nos criou, precisamos de um esforço espiritual.
Tudo o que hoje julgamos como crime contra a ecologia, como excessivo, como consumismo, são atitudes espirituais que estão na gastrimargia. É a postura do parasita.
Ao ler o livro do Gênesis, os Santos Padres identificaram no comportamento de Adão diante do fruto proibido a disposição espiritual da humanidade diante de toda criação. O fruto proibido é a criação inteira e quando eu olho para a criação, para os dons do Criador, esquecendo-me de Deus, transformo este mundo num lugar de morte, no vale da aridez.
Natureza Espiritual da Gastrimargia
Insistimos na realidade espiritual desta doença. Ninguém duvida que a gastrimargia tenha uma clara ligação com o corpo, mas é a atitude espiritual que cria o problema. Para dizê-lo de forma mais prática: são os meus “pensamentos” a respeito da comida que criam o problema. Não é à toa que os Padres orientais costumam dar aos pecados capitais o nome de loguism ói11: pensamentos. São Gregório Magno (540-604) expressa um destes “pensamentos” tentadores:
Com aparente racionalidade, a gula costuma exortar o coração derrotado, dizendo: “Deus fez puros todos os alimentos e o que faz quem se recusa de comer até a saciedade a não ser desprezar o dom concedido?”12.
É bom recordar que satanás é o “pai da mentira” (Jo 8,44) e quando pecamos, de alguma forma nos tornamos filhos da mentira. Entre nós, existe a estranha convicção de que as pessoas não têm dificuldade alguma em acolher a verdade. Mas isto corresponde à realidade do homem antes do pecado original e não à nossa situação atual.
Se não tivéssemos o pecado original, a nossa natureza “sadia” não teria dificuldade alguma em acolher a Verdade para a qual foi criada. Contudo, por causa do pecado, consideramos a Verdade como nossa inimiga e, assim como Adão, escondemo-nos atrás dos arbustos tão logo ouvimos os passos de Deus-Verdade que se aproxima (cf. Gn 3,8-10).
Os nossos “pensamentos” abrem a porta para o pecado, e um de seus instrumentos preferidos é a mentira. Como uma criança travessa que joga a pedra e esconde a mão, mentimos para nós mesmos o tempo todo para justificar o nosso pecado. O duque La Rochefoucauld não era um Padre da Igreja, mas iremos citá-lo, pois transmite esta verdade de forma lapidar: “É mais fácil alguém enganar a si mesmo sem perceber, do que enganar os outros sem que eles percebam”13.
Este duelo entre verdade e mentira encontra-se também no âmbito de nossa alimentação. Somos capazes de ficar horas sem alimento, quando buscamos nossos interesses. No entanto, tão logo alguém se põe a jejuar, surge uma preocupação escrupulosa com a saúde!
Será que a verdade não é exatamente o contrário? É mais freqüente vermos as
pessoas prejudicarem a própria saúde através do jejum ou do excesso de alimentos? “Os comilões cavam seu túmulo com os próprios dentes”14. Recordemos então o velho ditado latino: Gula plures occidit quam gladius (A gula já matou mais gente do que a espada). Se tivéssemos verdadeiro amor pelo nosso corpo, comeríamos menos e melhor.
Como todas as doenças espirituais, também a gastrimargia tem, por trás de si, uma tendência natural: a conservação física de si mesmo15. Este impulso em si mesmo é bom, mas, uma vez que está desordenado pelo pecado original, pode causar muitos desastres.
Novamente aqui vigora aquele princípio já apresentado: a busca da felicidade no prazer. O prazer é algo completamente diferente da felicidade.
Quando alguém se ilude ao acreditar que a felicidade está no fundo do prato, a comida não lhe está fazendo bem espiritualmente. Se é assim com a comida, com maior razão podemos afirmar o mesmo da ingestão de grandes quantidades de bebida alcoólica e do consumo das drogas. São Paulo nos adverte:
Há muitos que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso. Apreciam apenas as coisas terrenas! Nós, ao contrário, somos cidadãos do céu. De lá aguardamos como salvador o Senhor Jesus Cristo (Fl 3,18b-20).
Fica claro, então, o caráter de idolatria da gula. Uma atitude espiritual que exalta a criatura e deixa de lado o Criador.
Conseqüências da Gula
Mas “a paga do pecado é a morte” (Rm 6,23) e os Santos Padres são muito objetivos quando deixam claro que o salário da gula é uma espécie de morte espiritual, uma demência.
Já vimos no início do capítulo uma lista de doenças espirituais descrita por São João Clímaco. No entanto, gostaria de comentar brevemente uma lista mais resumida apresentada pelo papa São Gregório Magno:
Mas cada um [dos vícios capitais] possui contra nós o seu exército [...] Da voracidade do ventre se desenvolvem a alegria inepta, a escurrilidade, a impureza, a tagarelice, o embotamento da mente no entendimento16.
Examinemos brevemente estes “filhos” da gastrimargia:
a) A alegria inepta (inepta lætitia) – trata-se de uma alegria tola, sem fundamento, sem consistência ontológica. A alegria produzida pelo pecado da gula é uma espécie de alucinógeno. E isto não somente nas duas espécies radicais de gula – o alcoolismo e a toxicodependência –, nas quais se vê claramente o seu poder ilusório. Mas também na gula do nosso dia-a-dia encontramos esta alegria oca, típica do mundo virtual, o único tipo de mundo que o pecado é capaz de produzir.
É de suma importância recordar: somos criaturas e não criadores. Quando nos revoltamos contra Deus e pretendemos fazer o mundo à nossa maneira, produzimos apenas um simulacro da verdadeira alegria que vem de Deus.
b) A escurrilidade (scurrilitas) – é o que chamaríamos comumente de “palhaçada”. O bom humor faz parte das características de uma pessoa sadia espiritualmente. É um dos frutos da virtude da humildade e “um carisma misterioso e inconfundível da fé católica”17. Os orgulhosos e os fanáticos são sempre mal-humorados. Mas bem outra coisa é o gosto pela palhaçada. Possivelmente, atrás da fachada do “gordinho simpático”, há um cristão humilde e espirituoso. Se, ao contrário, ali se esconder uma pessoa amarga e cruel, não será surpreendente.
Quem foi derrotado pelo estômago e vive uma vida desordenada, pode querer desafogar a sua frustração em atos humilhantes e palavras desonrosas. A