UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA REGIANE NIEHUES PEZENTE
OS DISCURSOS POSSÍVEIS NA COMUNICAÇÃO RURAL: ANÁLISE DISCURSIVA DO VÍDEO “TERRINHA E ZÉ VENENO”
Palhoça 2010
REGIANE NIEHUES PEZENTE
OS DISCURSOS POSSÍVEIS NA COMUNICAÇÃO RURAL: ANÁLISE DISCURSIVA DO VÍDEO “TERRINHA E ZÉ VENENO”
Trabalho de Monografia apresentado ao Curso de Graduação em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Jornalismo.
Orientadora: Profª. Giovanna Benedetto Flores, Msc.
Palhoça 2010
REGIANE NIEHUES PEZENTE
OS DISCURSOS POSSÍVEIS NA COMUNICAÇÃO RURAL: ANÁLISE DISCURSIVA DO VÍDEO “TERRINHA E ZÉ VENENO”
Esta Monografia foi julgada adequada à obtenção do título de Bacharel em Jornalismo e aprovada em sua forma final pelo Curso de Comunicação Social, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
_____________________,___________ de ______________ de 20_____. Local dia mês ano
_____________________________________________________________ Profª. e orientadora Giovanna Benedetto Flores, Msc
Unisul
_____________________________________________________________ Angela Pinotti, Msc
_____________________________________________________________ Profª. Nádia Régia Maffi Neckel, Dra
Dedico este trabalho a meus pais, mestres que me ensinaram sobre a vida e me deram força para seguir em frente. Obrigada por sempre confiarem no meu potencial.
AGRADECIMENTO
A minha família, por estar ao meu lado mesmo distante, e pela compreensão da minha ausência em inúmeros momentos. Ao meu namorado Bruno, pelo carinho e amor doados e por todos os sorrisos que me fizeram renovar as energias. Aos meus amigos que foram cúmplices nesta caminhada e que me deram força para superar os obstáculos.
Agradeço à minha orientadora, professora Msc. Giovanna Flores por me guiar durante essa curta e longa jornada e por me tranqüilizar nos momentos de ansiedade. A toda equipe da TV Epagri que se prontificou a me ajudar no que fosse preciso em minha pesquisa. Meu agradecimento a Celívio Holz pela atenção e paciência em responder meus questionamentos.
RESUMO
Este trabalho monográfico tem como questão norteadora analisar quais os discursos e atravessamentos possíveis evidenciados no vídeo “Terrinha e Zé Veneno”, produzido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina - EPAGRI. Para esta pesquisa, será utilizada a teoria da Análise do Discurso constituída por Michael Pêcheux e Eni Orlani. O trabalho retoma as teorias de discursos pedagógico, lúdico e de divulgação científica, que formulam a hipótese desta análise.
Palavras-chave: Análise do discurso. Discurso pedagógico. Discurso de divulgação
ABSTRACT
The guiding question of this monograph is to analyze what discourses and possible crossings shown in the video “Terrinha e Zé Veneno”, produced by the Company of Agricultural
Research and Rural Extension of Santa Catarina - EPAGRI. To the analysis, it will be used
the theory of discourse analysis, established by Michael Pêcheux and Eni Orlandi. The work retakes the theories of pedagogical, entertainment and scientific publishing discourses, which formulated the hypothesis of this analysis.
LISTA DE ILUSTRAÇÃO Figura 1 – Recorte 1 ... 24 Figura 2 – Recorte 2 ... 25 Figura 3 – Recorte 3 ... 26 Figura 4 – Recorte 4 ... 27 Figura 5 – Recorte 5 ... 28 Figura 6 – Recorte 6 ... 28 Figura 7 – Recorte 7 ... 29 Figura 8 – Recorte 8 ... 29 Figura 9 – Recorte 9 ... 30 Figura 10 – Recorte 10 ... 31 Figura 11 – Recorte 11 ... 32 Figura 12 – Recorte 12 ... 33
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 09
1.1 EPAGRI: MUDANÇA E CRESCIMENTO ... 10
1.2 PONTO DE VISTA TEÓRICO ... 11
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: ANÁLISE DO DISCURSO ... 15
2.1 DISCURSOS POSSÍVEIS... 15
2.1.1 Discursos pedagógico, lúdico e de divulgação científica ... 16
3 EDUCAÇÃO E COMUNICAÇÃO AUDIOVISUAL ... 20
4. A ANÁLISE: O CORPUS INVESTIGATIVO ... 23
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 34
REFERÊNCIAS... 36
ANEXO A – Roteiro vídeo “Terrinha e Zé Veneno” ... 40
1 INTRODUÇÃO
A procura por uma comunicação efetiva1 permeia o campo do jornalismo e da pedagogia, principalmente quando se pretende informar e educar. A busca por um produto eficaz, dentro de uma proposta, é facilmente visualizada nos profissionais da comunicação rural. Segundo Bordenave (1988), a população rural pensa, sente e age de maneira diferente daqueles que vivem no meio urbano. Em geral, os agricultores tendem à insegurança por dependerem sempre de fatores que não são controláveis como o clima, o solo, a flora e a fauna:
A incerteza que rodeia o agricultor só pode ser reduzida usando seu antídoto fundamental: a informação. A função básica da informação é reduzir ao mínimo possível o caráter aleatório da agricultura, fornecendo ao produtor guias seguros e confiáveis para suas decisões. (BORDENAVE, 1988, p21)
Neste cenário de incertezas foram desenvolvidos agrotóxicos para garantir o controle de pragas que atacam as plantações. Entretanto, o uso desenfreado desses produtos químicos denuncia altos índices de intoxicação no meio rural2. Pesquisas realizadas pelo Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina (CIT) apontam para um aumento de 89% nos casos de intoxicação por agrotóxicos no meio rural nos últimos nove anos3. Com o objetivo de diminuir esses problemas, programas educacionais produzidos por órgãos públicos buscam levar conhecimento e confiança ao produtor rural:
O objetivo da comunicação rural é incrementar os conhecimentos técnico-científicos, econômicos e sócio-culturais dos produtores, com vistas a promover as modificações estruturais e comportamentais requeridas para o desenvolvimento rural. (FRIEDRICH, 1988, p41)
A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S/A (Epagri) é a instituição que conduz a pesquisa agropecuária e o serviço de extensão rural no estado. Seu trabalho está focado nos recursos naturais, na agricultura competitiva e na
1
Entende-se por comunicação efetiva, a comunicação que atinge seu propósito. 2
ALMEIDA, José Robério de Sousa. Uso de Agrotóxicos: Seus Efeitos para a Saúde e o Ambiente e o Uso de Outras Alternativas. Disponível em: <http://www.webartigos.com/articles/10698/1/Uso-de-Agrotoxicos-Seus-Efeitos-para-a-Saude-e-o-Ambiente-e-o-Uso-de-Outras-Alternativas/pagina1.html#ixzz10ZVOzFFZ>. Acesso em: 25 set. 2010
3 CENTRO DE INFORMAÇÕES TOXICOLÓGICAS DE SANTA CATARINA – CIT. Estatísticas anuais. Disponível em: < http://www.cit.sc.gov.br/index.php?p=estatisticas_anuais>. Acesso em: 20 ago. 2010.
qualidade de vida no meio rural4. Com a proposta de conscientizar os agricultores quanto ao uso controlado de defensivos agrícolas nas lavouras, a Epagri desenvolveu, em 1999, o vídeo educativo “Terrinha e Zé Veneno”. Criada por Celívio Holz e Maria Cristina Zumblick Santos5, a produção, que conta com desenhos animados, é destinada principalmente a crianças e jovens que vivem no meio rural. Segundo o roteirista, Celívio Holz, na época em que aconteceu a sugestão do vídeo, o uso de agrotóxicos em lavouras de Santa Catarina ultrapassava 85% sendo que agricultores manipulavam esses produtos sem cuidados de proteção.
Exibido nas escolas do meio rural e nos programas televisivos da Epagri e também transmitidos pelas emissoras de televisão do estado, o vídeo é de teor educativo e foi desenvolvido para crianças, visando conscientizar os pequenos e incentivá-los a cobrar dos pais uma mudança de comportamento. Com esse material, a Epagri buscou testar um estilo de comunicação diferente para discutir o assunto nas comunidades e juntos chegarem a uma solução6.
A parte gráfica do vídeo ficou a encargo de Maria Cristina Zumblick Santos, que baseada no roteiro coordenou uma equipe de desenhistas e animadores para dar vida aos personagens.
O roteirista Celívio Holz, é Engenheiro Agrônomo e mestre em Jornalismo pela Universidade de Wisconsin, na cidade de Madison – EUA. Trabalhou como extensionista rural de 1974 a 1978. É produtor e apresentador de programas de rádio desde 1974. É produtor de vídeos educativos desde 1980. Apresentou e produziu o programa Campo e Lavoura – RBSTV de 1981 a 1998. Em 1991 iniciou como repórter do programa Bom dia SC – RBSTV, onde trabalhou até 1998. Foi professor da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e trabalhou como Diretor de Marketing e Comunicação da Epagri.
1.1 EPAGRI: MUDANÇA E CRESCIMENTO
4 EMPRESA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA E EXTENSÃO RURAL DE SANTA CATARINA - EPAGRI.
Empresa. Disponível em:
<http://www.epagri.sc.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17&Itemid=55>. Acesso em: 16 set. 2010.
5 Tentei inúmeras vezes fazer contato com a autora, mas não obtive êxito. Mesmo com a ajuda de Celívio Holz e da Epagri não foi possível falar com Maria C. Zumblick Santos.
6 Entrevista com Celívio Holz em 16 de setembro 2010 realizada por Regiane Niehues Pezente a respeito da produção do vídeo “Terrinha e Zé Veneno”.
Os serviços de extensão agrícola no estado de Santa Catarina estiveram a encargo da Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina - Acaresc desde sua fundação, em 19567. Após 34 anos, o governo estadual promoveu mudanças administrativas no Serviço Público Agrícola. No mesmo ano, 1991, foi fundada, com caráter privado, a Epagri, que ficou responsável pelas atividades de pesquisa, extensão rural e pesqueira do setor público agrícola. O objetivo era “racionalizar os recursos e atividades, aproximando mais os trabalhos de pesquisadores e extensionistas, em busca de reflexos positivos para o produtor rural”8.
A empresa, vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural, passou a ser pública em junho de 2005, data que a instituição aderiu ao Instituto de Planejamento e Economia Agrícola de Santa Catarina - Instituto Cepa/SC.
Atualmente, a empresa tem sede administrativa em Florianópolis – SC, e conta com 27 gerências regionais em todo o Estado, 14 unidades de pesquisa e duas estações experimentais, onde há 40 laboratórios que executam a política de pesquisa e inovação para o Estado. A instituição possui doze centros de treinamento instalados em diferentes cidades de Santa Catarina9.
Após 19 anos de consolidação da empresa, a Epagri tem sua missão voltada para “a preservação, recuperação, conservação e utilização sustentável dos recursos naturais”, além de, gerar o progresso da qualidade de vida no meio rural e pesqueiro10.
1.2 PONTO DE VISTA TEÓRICO
Pretendemos analisar discursivamente o vídeo educacional “Terrinha e Zé Veneno” tendo como base teórica a Análise do Discurso (AD), de linha francesa. A discussão do corpus responderá à problemática que se interpõe durante a pesquisa: considerando a
7 GUEDES, Maria Eliza Corrêa. Transferência de tecnologia agropecuária: o difícil dilema da formação extensionista. 1995. 188f. Dissertação (Mestrado em Administração Pública) – Fundação Getúlio Vargas, Brasília, 1995. Disponível em: <http://www.emater.df.gov.br/sites/200/229/00000830.pdf>. Acesso em: 15 set. 2010.
8
EPAGRI. Empresa. Disponível em:
<http://www.epagri.sc.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17&Itemid=55 >. Acesso em: 16 set. 2010.
9 Id., Disponível em:
<http://www.epagri.sc.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=185&Itemid=57>. Acesso em: 16 set. 2010.
proposta de vídeo educativo, quais os discursos e atravessamentos que estão evidenciados no vídeo.
Constituída por conceitos de Michael Pêcheux e Eni Puccinelli Orlandi, a AD nasceu no entremeio da Linguística, do Marxismo e da Pscianálise. Para Orlandi (2003a) na análise busca-se “compreender a língua fazendo sentido”:
Interroga a Lingüística pela historicidade que ela deixa de lado, questiona o Materialismo perguntando pelo simbólico e se demarca da Psicanálise pelo modo como, considerando a historicidade, trabalha a ideologia como materialmente relacionada ao inconsciente sem ser absorvida por ele. (ORLANDI, 2003a, p20)
A AD “se constitui da relação de três regiões científicas: a da teoria da ideologia, a da teoria da sintaxe e da enunciação e a teoria do discurso como determinação histórica dos processos de significação”11. Para Pêcheux (1975 apud ORLANDI, 2003, p17) “não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia [...] é assim que a língua faz sentido”. Segundo a autora, os sujeitos, a situação, a memória, o contexto-histórico e ideológico norteiam o campo de construção do discurso. Para Orlandi (2006), o sujeito e a situação são parte das condições de produção. A autora divide situação em sentido estrito e sentido lato. O primeiro refere-se ao momento exato, a situação agora, já o segundo é mais amplo e comporta o contexto ideológico e sócio-histórico.
Na Análise do Discurso, quando se fala em sujeito refere-se à posição sujeito no discurso. “Isto significa dizer que há em toda língua mecanismos de projeção que nos permitem passar da situação sujeito para a posição sujeito”12. Essa transição é o que Orlandi chama de formações imaginárias e permeiam o discurso como a imagem que o sujeito faz do seu interlocutor, a imagem que ele faz dele mesmo e a imagem que o sujeito faz do objeto do discurso, o mesmo se aplica à figura do interlocutor:
Ele antecipa-se assim a seu interlocutor quanto ao sentido que suas palavras produzem. Esse mecanismo regula a argumentação, de tal forma que o sujeito dirá de um modo, ou de outro, segundo o efeito que pensa produzir em seu ouvinte. (ORLANDI, 2003a, p 39)
A construção do discurso também é composta pela memória, referida na AD como interdiscurso. Para Brandão (2004, p107) a memória é a “relação de um discurso com outros discursos. [...] dizer que a interdiscursividade é constitutiva de todo discurso é dizer que todo discurso nasce de um trabalho sobre outros discursos”. Nesse mesmo pensamento,
11 ORLANDI, 2006, p 13.
Orlandi (2003a) destaca o interdiscurso em que as falas são efeitos de sentido relacionados com o que é dito naquele momento e em outros lugares, do mesmo modo que o que não é dito e o que poderia ser dito também implica na produção de sentidos:
[...] o que é narrado é sempre o mesmo, mas é sempre diferente. [...] as narrativas que possuem tradição são as mesmas e ao mesmo tempo reorganizam-se continuamente ao serem atravessadas pela posição discursiva dos narradores que já foram ouvintes em um outro momento. [...] isso é possível em função do trabalho da memória e da própria natureza do narrar. (MARIANI, 1998, p106)
Para Brandão (2004), quando se analisa um discurso as condições de produção estão diretamente ligadas à produção de sentido. As formações discursivas que interferem nos sentidos são conceituadas por aquilo que define o que será dito13:
As palavras, expressões, proposições mudam de sentido segundo posições sustentadas por aqueles que as empregam, o que significa que elas tomam o seu sentido em referência a estas posições, isto é, em referência às formações ideológicas [...] nas quais essas posições se inscrevem. (PÊCHEUX, 1975 apud BRANDÃO, 2004, p.77)
Para buscar o entendimento de como os objetos simbólicos produzem sentidos faz-se necessário a construção de um dispositivo teórico, o que diferenciará uma análise de outra, pois, os conceitos utilizados não serão os mesmos. Dessa forma tem-se a base teórica e a base analítica14. Segundo Orlandi (2006), interpretar um discurso não é dar sentido e sim expor como um objeto determina sentidos. A falsa impressão de sentido único dá-se porque a interpretação está sujeitada pelas condições de produção que se mostram como genéricas e permanentes:
Quando um sujeito fala, ele está em plena atividade de interpretação, ele está atribuindo sentido às suas próprias palavras em condições específicas. Mas ele o faz como se o sentido estivesse nas palavras [...] apagando-se assim suas condições de produção, desaparecendo o modo pelo qual a exterioridade o constitui. (ORLANDI, 2006, p25)
Essa naturalidade do sentido só é possível pela ideologia. Segundo Orlandi (2003a), o esquecimento ideológico dá ao sujeito a ilusão de ser a origem do que está dizendo, no entanto, ele está apenas reproduzindo sentidos que já existem. “Quando nascemos os discursos já estão em processo e nós é que entramos nesse processo”15
. Segundo Gramsci
13
ORLANDI, 2006. 14 Id, 2003a.
(1978, apud XAVIER, 2002) a ideologia é fundamental para a vida do homem, pois ela „é o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam, etc‟. A autora ressalta ainda que “é, portanto, na ideologia e por meio da ideologia que uma classe pode exercer sua hegemonia sobre outras, isto é, pode assegurar a adesão e o consentimento das grandes massas”.
2 ANÁLISE DO DISCURSO
2.1 DISCURSOS POSSÍVEIS
Para abrir a discussão das diferentes formas de discurso, faz-se necessário compreendermos o que é o discurso. Para Pêcheux (1969, p14 apud ORLANDI, 2006), o discurso está além de meras transmissões de informação, “é efeito de sentido entre locutores”. Entender tal conceito só é possível quando saímos da trivial relação entre locutores em que um transmite a mensagem e o outro responde, modelo de comunicação instituído por Roman Jakobson16 que constituí um circuito fechado para o processo de comunicação:
Código
Emissor – mensagem – receptor Referente
A Análise do Discurso quebra com esse esquema, para Orlandi (2006) há circularidade no discurso, movimento, troca de posições. Os efeitos referidos pela autora acontecem pelo fato dos sujeitos serem sempre afetados por suas memórias e pelas formações discursivas.
Partindo dessa idéia de circularidade estabeleceremos aqui um estudo sobre os diversos tipos de discursos possíveis. Para Orlandi (2003a) o tipo tem sua função classificatória, pois generaliza certas características, agrupa propriedades e distingue classes. Em geral o que se vê são classificações dos discursos de acordo com instituições, disciplinas, estilos e gêneros. Temos nesses casos o discurso político, jornalístico, pedagógico, científico, sociológico, biológico... No entanto, Orlandi (2003a) diz que a tipologia não faz parte das prioridades do analista, pois o que caracteriza o discurso é seu funcionamento. Esse funcionamento do discurso está diretamente relacionado com a representação dos interlocutores e a relação que eles sustentam com a ideologia17.
Certamente o fato de um discurso ser político, estabelece em seu regime a validade e cabe ao analista detectar essa ordem, esse regime. Mas ele não o faz pela classificação a priori – discurso político – mas pela observação de seu funcionamento. Discursos, a priori, não tidos como políticos, podem estar funcionando como tal. (ORLANDI 2003a, p86)
16 JAKOBSON, 2005
A partir desse pensamento, Orlandi (1989, apud ORLANDI, 2003a) classifica os discursos de acordo com seu funcionamento e leva em consideração a relação da criação de sentidos com os elementos que formam as condições de produção. Definiu-se então três categorias: discurso autoritário, discurso polêmico e discurso lúdico. No primeiro a autora explica que o “locutor se coloca como agente exclusivo, apagando também sua relação com o interlocutor”, é uma tipologia que não permite questionamentos.. No discurso polêmico o destaque está para a concorrência de sentidos, em que os interlocutores disputam o referente, o que se percebe é a não aceitação passiva de uma idéia. O último, discurso lúdico, é marcado pela polissemia e os interlocutores estão expostos aos efeitos do referente e sequer controlam a relação com os sentidos, esse discurso é marcado pela multiplicidade de sentidos permitindo diferentes iterpretações.
Apesar de considerar tal classificação, Orlandi (1983) diz que a tipologia pode variar dependendo dos tipos de relação que são tomadas como base e alerta para uma combinação entre as tipologias: “O que há são misturas, articulações de modo que podemos dizer que um discurso tem um funcionamento dominante autoritário, ou tende para o autoritário (para a paráfrase) etc.” (ORLANDI, 2003a, p87). Além disso, Orlandi considera o próprio fato de dizer algo uma maneira de tipificar, pois quando alguém fala esse alguém constituiu uma forma para seu discurso.
Toda tipologia, então, creio eu, pode ser vista como aquela em que a relação de interlocução, isto é, a interação falante-ouvinte, é básica para o reconhecimento das configurações de traços formais que a caracterizam. O que as distingue entre si, do meu ponto de vista, é algo que tem a ver com a caracterização social dessas relações enquanto relações simbólicas. (ORLANDI, 1983, p123)
Para a autora, todos os discursos estão relacionados com outros, formando uma sólida discursividade. Analisar as condições de produção é fundamental para definir uma tipologia. Segundo Orlandi (2003b) uma palavra quando dita faz parte de um território partilhado pelos sujeitos falantes: “Os sujeitos da linguagem [...] estão mergulhados no social que os envolve, de onde deriva a contradição que os define”. (ORLANDI, 2003b, p150).
Tomando como base a classificação dos discursos feita inicialmente por Orlandi (1983), iremos utilizar, para a análise do corpus, conceitos de três tipologias de discurso. A escolha destes tipos fez-se a partir da hipótese elaborada sobre os discursos presentes no vídeo “Terrinha e Zé Veneno”. As tipologias abordadas serão: discurso lúdico, discurso pedagógico, discurso científico e de divulgação científica.
Partindo da proposta da Epagri de um vídeo educacional, iniciaremos a explanação das características que norteiam o discurso pedagógico18. Segundo Orlandi (2003b) esse discurso se encaixa nas características de um discurso autoritário.
No discurso autoritário, o referente está „ausente‟, oculto pelo dizer: não há realmente interlocutores mas um agente exclusivo, o que resulta na polissemia contida (o exagero é a ordem no sentido em que se diz „isso é uma ordem‟, em que o sujeito passa a instrumento de comando). (ORLANDI, 2003b, p. 16)
O que se vê não são interlocutores, pois o professor faz o papel de quem tudo sabe, e o aluno de quem precisa aprender. Ao ensinar, o professor toma a posição de cientista declarando que dizer e saber se igualam. “A fala do professor informa, e, logo, tem interesse e utilidade. O professor diz que e, logo, sabe que, o que autoriza o aluno, a partir do seu contato com o professor, a dizer que sabe, isto é, ele aprendeu” (ORLANDI, 2003b, p. 21). Com tal visão a autora percebe que transmitir informação e fixá-la é objetivo do discurso pedagógico: o professor ocupa a posição sujeito do saber e o que ele diz não pode ser questionado porque impõe o conhecimento e não quer discutir sobre.
Procurando caracterizar o DP, pudemos observar que tal qual ele se mostra atualmente em uma formação social como a nossa, ele se apresenta como um discurso autoritário, logo sem nenhuma neutralidade. O DP se dissimula como transmissor de informação e faz isso sob a rubrica da cientificidade. (ORLANDI, 2003b, p. 29)
Não se trata então de explicar os fatos, o DP determina o ângulo que deve ser visto, faz um recorte do conhecimento. Com esse propósito, o discurso se torna institucionalizado, garantido o que se diz e garantindo a instituição que é sua origem:
E a escola é a sede do DP. Em última instância, é o fato de estar vinculada à escola, isto é, a uma instituição, que faz do DP aquilo que ele é, mostrando-o em sua função: um dizer institucionalizado, sobre as coisas, que se garante, garantindo a instituição em que se origina e para a qual tende. É esse o domínio de sua circularidade. (ORLANDI, 2003b, p. 23)
18 Doravante DP.
Ao contrário do primeiro, o discurso lúdico, segundo Orlandi (2003b), está aberto para a polissemia permitindo a multiplicidade de sentidos e a liberdade de interpretação. “A polissemia condiz com a ruptura, com o equívoco, ou seja, desestabiliza o processo de significação [...] instala sentidos que deslocam o previsível dos sentidos dominantes e quebra a certa „ordem‟ ideologicamente cristalizada”. (MANFROI, 2005, p31) Percebemos então a atuação do lúdico atravessado por outro discurso, há nessa situação uma quebra do outro discurso para que o lúdico seja inserido.
“Uma vez que se aponta como tal, na sua esfera, o lúdico não joga necessariamente com a oposição verdadeiro ou falso, pois há nele um outro espaço possível: o de fingir ou enganar, na relação de interação que ele estabelece”. (ORLANDI, 2003b, p. 172) A autora afirma também que o lúdico em geral é uma tipologia sem compromisso com a persuasão, preocupa-se apenas com o diálogo e a comunicação.
Comunicar também está entre as características do discurso de divulgação científica, para Orlandi (2001a) essa tipologia é uma relação entre o discurso científico e o jornalístico, sendo o papel do jornalista ler em um discurso e dizer em outro. O objetivo principal desse discurso é colocar os resultados de pesquisas científicas de modo acessível ao público. Essa transposição faz com que haja um deslocamento no modo de significar do discurso.
O leitor de ciência [...] é, em conseqüência, seja ele um especialista ou um leitor amador, um sujeito que participa da constituição da sociedade urbana e que entra nesse processo, que é o da divulgação científica, que vem ocupar uma das formas de socialização/popularização (vulgarização?) do conhecimento. (ORLANDI, 2001a, p.150)
O discurso de divulgação científica é uma articulação específica que se produz elaborando caminhos para a sociedade e a ciência conviverem juntas. Segundo Orlandi (2001a, p.151) “há vários momentos nesse processo discursivo: o da sua constituição, o da formulação e o da sua circulação. São três momentos inseparáveis do ponto de vista da significação, ou seja, todo os três concorrem igualmente na produção dos sentidos”. Para Flores (2005) quando falamos em circulação do discurso pode ser em relação a todos os outros discursos, por exemplo, o discurso jornalístico, o discurso de mídia, pedagógico e político.
Nessa transferência de sentidos (deslizamento) a ciência sai do seu meio para ocupar uma posição na sociedade e na história. A divulgação científica noticia a produção
científica19. “O conhecimento científico continua „sacralizado‟ nos laboratórios, enquanto a informação científica circula, tornando acessíveis os efeitos do discurso da ciência”. (ORLANDI, 2001a, p.152)
O discurso científico talvez deva ser separado do discurso autorizado, porque tanto a prática científica quanto a transmissão do saber científico podem ser feitos por pessoas que não têm autoridade para representar um segmento social ou uma instituição, apenas executam tarefas determinadas por aquelas têm esta autoridade. O que irá caracterizar o discurso científico são dois fatores: a necessidade de um glossário próprio (e apropriado) e a impessoalidade (sempre buscada, nem sempre alcançada) do discurso. Qualquer livro acadêmico pode confirmar essas duas características do discurso científico. (GARCIA, 2003)20.
Além disso, quando destinado ao público infantil o discurso de divulgação científica apresenta segundo Zamboni (2001) uma narrativa cronológica, de frases curtas e vocabulário que se aproxima ao utilizado pelas crianças no cotidiano. Em casos que os termos técnicos são inevitáveis o que acontece é o atravessamento de um discurso pedagógico para a explicação da expressão ou palavra utilizada. Em geral a autora analisa a formação desse discurso como aproximação com o que é comum no dia a dia das crianças.
19 ORLANDI, 2001.
3 EDUCAÇÃO E COMUNICAÇÃO AUDIOVISUAL
Neste capítulo abordaremos os aspectos teóricos que envolvem a comunicação audiovisual principalmente quando destinada ao público infantil. Segundo Silva (2000), as crianças inseridas no modelo contemporâneo são frequentemente provocadas a fazer leituras diferentes dos textos, entram em cena as linguagens imagéticas. Esse deslocamento de leitura privilegia características visuais e sonoras além de misturar também com as linguagens verbais. Para Moran (1995), a aproximação do vídeo com o cotidiano das pessoas se dá pela fala, pelo diálogo que expressam o discurso coloquial. O narrador faz o link entre as cenas utilizando a linguagem culta. Já para Siebert (2005, p51):
Não podemos negar a influência da tecnologia e o quanto ela contribuiu e contribui para a expansão das redes de comunicação. Mas não poderemos afirmar que por si só a tecnologia, ou mesmo as redes, sejam entidades capazes de promover a comunicação. É a linguagem que promove a interação entre os sujeitos. As formas de recorte do cotidiano, do real, que são compartilhadas pelos sujeitos, são determinantes na constituição dos sentidos, e a tecnologia nesta situação é apenas um dos elementos.
Para Silva (2000), o diálogo textual produz diferentes sentido quando integrado a outros elementos tais como o ângulo de captação da imagem, a luz e a edição, que para a autora, todos esses efeitos contribuem com a mensagem que se deseja transmitir21. “Nesse movimento é possível estabelecer pontos de contato com os conteúdos educacionais, aproximando, por exemplo, os espaços da criança, da escola e do desenho animado”. (SILVA, 2000, p.110). Segundo Moran (1995), os efeitos sonoros e as músicas inseridas nos vídeo contribuem para a ilustração e criação de expectativas adiantando até mesmo informações.
[...] os desenhos têm um papel importante na vida da criança – contribuindo para o futuro desenvolvimento delas – na medida em que trabalha com a linguagem interior e fantasiosa da infância. O desenho, a partir dos seus elementos visuais e sonoros, ativa as estruturas mentais relacionadas à criatividade, às emoções e às sensações. A criança, ao entrar em contato com o mundo imagético, é despertada e estimulada a trabalhar os próprios sentimentos, ainda que inconscientemente. [...] ela se envolve com o desenho identificando-se com algumas personagens de forma carinhosa, doce, da mesma forma que passa a antipatizar com outras. A criança imita aquilo que vem ao encontro do seu interior; é um momento de escolhas, de identificação. (SILVA, 2000, p.112)
21 SILVA, 2000.
Portanto, a televisão segundo Squirra (1993, p47 apud PINOTTI, 2007) “influencia no processo de construção e de reelaboração dos esquemas cultural e emotivo, fechando desse modo „um círculo que vai do desejo à percepção, da percepção ao desejo e deste à liberdade‟”. Para a autora o papel da televisão torna-se determinante no que se refere à expansão dos sentidos humanos “já que a comunicação é entendida como produção social de sentido, sendo ele construído a partir do contexto socioeconômico e histórico”. (THOMPSON, 2001 apud PINOTTI, 2007)
Pinotti (2007, p49 apud ARMES, 1999) também alerta para a diferença entre vídeo e televisão, “[...] esta apresenta planilhas de horários para transmissão básica de programas”. Wohlgemuth (2005) diz que apesar de terem a mesma forma de captação as funções sociais são diferentes e em muitos casos opostas, a transmissão é uma dessas diferenças. A televisão envia seus programas para variados locais, independente da distância em que a emissora se encontra. Já o vídeo transmite para grupos que atendam sua intenção, correspondendo às suas necessidades de comunicação, capacitação e educação:
Os objetivos do vídeo são outros, e vão da informação alternativa até processo sistemáticos de ensino-aprendizagem, passando pela valorização da cultura popular, pela transferência da capacidade de emissão aos despossuídos dessa capacidade e, principalmente, pelo incremento da reflexão crítica sobre a realidade. Ou seja, o vídeo, normalmente, posiciona-se como um elemento de democratização da sociedade, apesar de, em certos casos, ser também utilizado como instrumento de expressão artística. (WOHLGEMUTH, 2005, p31)
A educação também possui suas peculiaridades. A princípio Guareschi (2005) diz que educar é resgatar o que está no interior de cada pessoa. Para o autor, restringir esse processo a um simples treinamento para o mercado de trabalho significará uma escola formadora de “deficientes cívicos”. Guareschi (2005) aponta também para a necessidade de educação não só nas escolas, mas em todas as instâncias da sociedade formando assim cidadãos críticos diante da realidade. “A postura crítica do receptor deve localizar as contradições, os interesses que seus proprietários defendem, a busca da totalidade; o conhecimento é ilimitado, uma vez que há sempre mais para ser descoberto”. (GUARESCHI, 2005, p32)
O vídeo é sensorial, visual, linguagem falada, linguagem musical e escrita. Linguagens que interagem superpostas, interligadas, somadas, não separadas. Daí a sua força. Nos atingem por todos os sentidos e de todas as maneiras. O vídeo nos seduz, informa, entretém, projeta em outras realidades (no imaginário) em outros tempos e espaços. O vídeo combina a comunicação sensorial-cinestésica, com a audiovisual, a intuição com a lógica, a emoção com a razão. Combina, mas começa
pelo sensorial, pelo emocional e pelo intuitivo, para atingir posteriormente o racional. (MORAN, 1995)
Unindo a educação com a produção audiovisual chegamos ao corpus deste trabalho, o vídeo “Terrinha e Zé Veneno” que busca ensinar para um determinado público. Nesse processo Braga & Kunsch (1993, apud PINOTTI, 2007) destaca as produções audiovisuais como as mais adequadas para a comunicação rural devido à cultura rural ser notavelmente oral além das imagens atraírem e manterem a atenção de forma eficiente.
4. A ANÁLISE: O CORPUS INVESTIGATIVO
Como já dito anteriormente, o corpus deste trabalho é o vídeo “Terrinha e Zé Veneno” produzido pela Epagri em 1999 com o objetivo de conscientizar os agricultores, por intermédio dos filhos, quanto ao uso desordenado de agrotóxicos nas lavouras. Para analisarmos o vídeo educativo utilizaremos a teoria proposta (AD), que trará os discursos possíveis encontrados no audiovisual. Trabalharemos com a hipótese do atravessamento de três discursos: pedagógico, lúdico e de divulgação científica. O atravessamento entre discursos caracteriza uma mistura, um entremeio entre eles durante uma fala. No entanto, há momentos em que um discurso se sobressai a outros.
A Análise do Discurso visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretação [...] pois eles intervêm no real do sentido. A Análise do Discurso não estaciona na interpretação, trabalha seus limites, seus mecanismos, como parte do processo de significação. Também não procura um sentido verdadeiro através de um “chave” de interpretação. Não há esta chave, há métodos, há construção de um dispositivo teórico. Não há uma verdade oculta atrás do texto. Há gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com seu dispositivo, deve ser capaz de compreender. (ORLANDI, 2001, p.26)
O vídeo “Terrinha e Zé Veneno” é uma história que se passa em uma comunidade chamada Linha Riqueza. Para discutir os principais problemas do local, os moradores utilizaram a criatividade, montaram um teatro e levam conhecimento a toda comunidade. Na apresentação evidenciada no vídeo os moradores falam da necessidade de usar os agrotóxicos nas lavouras de forma controlada. Os personagens principais são Terrinha e seu vizinho de terras, Zé Veneno. O primeiro é um agricultor consciente quando o assunto é utilização de agrotóxico, já o segundo não está nem um pouco preocupado com os prejuízos para a natureza a para a saúde humana quando um agrotóxico é manipulado sem os devidos cuidados.
Durante toda a produção do vídeo foram utilizadas cenas curtas, com pouca informação de cada vez, variando os cenários, os personagens, os sons, as imagens, os ângulos e efeitos. Os conhecimentos são passados em doses pequenas e com rápidas sínteses do tema.
O assunto tratado no vídeo está relacionado e é proveniente do atravessamento de outros discursos. Para Orlandi (2003a, p43) “[...] toda palavra é sempre parte de um discurso. E todo discurso se delineia na relação com outros: dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória”.
Segundo Brandão (2004), a memória discursiva é que possibilita a circulação de outras formulações. No vídeo “Terrinha e Zé Veneno” percebe-se claramente essa reestruturação do discurso influenciado por outro. No início do vídeo, Terrinha é apresentado pelo narrador que utiliza do discurso científico e histórico:
Narrador: Terrinha é um pequeno agricultor, possui uma propriedade de 25 hectares, uma
colônia de terras. Aqui ele planta de tudo, se uma coisa não der a outra dá.
Segundo Orlandi (2001b) a última frase faz parte do discurso fundador do Brasil, oriundo da Carta de Pero Vaz de Caminha enviada a Portugal informando as primeiras impressões sobre o novo mundo. Apesar de estar escrito na carta “querendo-a aproveitar, dar-se à nela tudo” o que importa é o que ficou, é a imagem enunciativa da fradar-se.
São espaços de identidade histórica: é memória temporalizada, que se apresenta como institucional, legítima. [...] nessa perspectiva, são outros os sentidos do histórico, do cultural, do social. Mas que assim mesmo nos constroem um imaginário social que nos permite fazer parte de um país, de um Estado, de uma história e de uma formação social determinada. [...] O que o caracteriza como fundador – em qualquer caso mas precipuamente neste – é que ele cria uma nova tradição, ele re-significa o que veio antes e institui aí uma memória outra. (ORLANDI, 2001b, p13)
Portanto essa fala nos remete a uma memória de que a terra é fértil, se cuidarmos dela será possível obter benefícios sempre. O narrador se apropria dessa memória do discurso fundador para reforçar a ideia de preservar a natureza utilizando menos agrotóxicos.
Na fala do narrador as imagens não apenas ilustram, mas contribuem para fixar a informação. Terrinha é visto como defensor da natureza, como podemos observar na figura 1 a ação do personagem diante do passarinho, que pousa no cabo de seu instrumento de trabalho. A imagem reflete na mesma idéia dita pelo narrador.
Figura 1 – Recorte 1
Fonte: Epagri, 1999
Diferente de Terrinha, Zé Veneno é apresentado no vídeo com tom irônico. Na fala do narrador, Zé Veneno só pensa em ganhar dinheiro, ilustrado pela figura 2.
Figura 2 – Recorte 2 Fonte: Epagri, 1999
Mesmo com posições sujeito diferentes, as personagens fazem parte de uma mesma formação discursiva, de pequenos agricultores, produção familiar. A produção de sentido na Análise do Discurso é definida pela formação discursiva em que os sujeitos estão inseridos. Para Orlandi (2001, p.43) a formação discursiva é estabelecida a partir da formação ideológica, é aquilo “que determina o que pode e deve ser dito”. No entanto a formação discursiva significa de maneira diferente para cada posição sujeito ocupada pelos personagens.
Claro está que não se trata mais de uma forma-sujeito dotada de unicidade; estamos diante de um conjunto de diferentes posições de sujeito, que evidenciam diferentes formas de se relacionar com a ideologia, e é esse elenco de posições-sujeito que vai dar conta da forma-sujeito. Portanto, a forma-sujeito se fragmenta em diferentes posições de sujeitos. (INDURSKY, 2000, p 76 apud MANFROI, 2005)
Segundo Orlandi (2003a), as palavras quando ditas por posições sujeito diferentes significam de maneira diversa. Durante quase todo o vídeo Terrinha está na posição sujeito de professor/pesquisador, seu discurso é marcado pela falta de polissemia, pois não permite discussão do assunto tratado. Percebe-se na fala de Terrinha um atravessamento dos discursos pedagógico e científico, como nessa conversa entre ele e Zé Veneno. Terrinha explica o que são agrotóxicos e para o que serve cada um deles:
Terrinha: É isso mesmo Zé, os agrotóxicos são produtos químicos para ajudar a combater as
doenças causadas por pragas nas lavouras.
Zé Veneno: Mas não é tudo veneno?
Terrinha: É veneno sim se a gente usar sem cuidado. Existem muitos produtos químicos, os
mais utilizados são os inseticidas pra combater os insetos, carrapaticidas para combater os carrapatos, os herbicidas para combater os inços, os formicidas para combater as formigas e os fungicidas
Zé Veneno: Já sei, deve ser para combater os fungos.
Nesse diálogo percebe-se claramente a posição sujeito de Zé Veneno. Quando Terrinha explica sobre os agrotóxicos, Zé Veneno assume a posição de aluno, que nada sabe e está ali para aprender. Na cena seguinte, ele aparece refletindo sobre o que aprendeu, figura 3:
Figura 3 – Recorte 3 Fonte: Epagri, 1999
Assumindo essas posições sujeito, as falas das personagens tipificam a formação discursiva em que se apresentam. No exemplo abaixo Terrinha utiliza vocabulário próprio do cotidiano de um agricultor:
Terrinha: Como é que tá o feijão Zé? Zé Veneno: Ah rapaz, nem conto pra você. Terrinha: Deu muita vaquinha é?
Zé Veneno: Deu de tudo, e coloquei veneno e não adiantou.
Nesse diálogo, vaquinha é um termo típico utilizado pelos agricultores para designar uma praga comum no cultivo do feijão, soja, trigo, aveia, tomate, entre outros. Em outra cena, representada aqui pela figura 4, Terrinha pergunta para Zé Veneno se ele sabe qual a carência do agrotóxico utilizado. Carência é um termo técnico que significa o tempo suficiente, entre a aplicação de um agrotóxico e a colheita da cultura, para que o produtor e o consumidor, do fruto ou legume, não se intoxiquem com o agrotóxico utilizado. Nesse exemplo fica novamente evidente o discurso pedagógico e científico do personagem Terrinha:
Figura 4 – Recorte 4
Fonte: Epagri, 1999
Além de palavras comuns e características da vida dos agricultores, os estereótipos também são marcados nas figuras dos personagens principais. Segundo Amossy (1997 apud BEZERRA, 2008, p18), “o termo estereótipo adquiriu o sentido figurativo de fixidez, isto é, um conceito que se reproduz ao longo das gerações sem sofrer alterações”.
O personagem Terrinha tem uma vida organizada, é casado e sua esposa ajuda nas tarefas do campo, sua casa e terreno aparecem sempre limpos e arrumados, e sua expressão é de uma pessoa amigável com os outros e com a natureza, figura 5. Terrinha assume a posição de defensor da natureza, politicamente correto.
Figura 5 – Recorte 5
Zé Veneno, ao contrário, carrega uma expressão grosseira, aparece sempre sozinho (exceto no final do vídeo) e sua imagem remete a estereótipo de quem quer tirar vantagem em tudo, figura 6. Essa ideia vem do discurso da revolução verde, onde utilizar agrotóxico era tirar vantagem, era lucro.
Figura 6 – Recorte 6
Fonte: Epagri, 1999
Os estereótipos evidenciados marcam também a posição-sujeito de cada personagem. No entanto a circularidade da posição-sujeito é evidenciada nos momentos em que Zé Veneno deixa de fazer o papel de aluno e não aceita passivamente o discurso pedagógico e científico de Terrinha. A figura 7 ilustra o diálogo abaixo que também faz um pré-anuncio do final quando Terrinha diz a Zé Veneno que um dia os agrotóxicos irão matá-lo:
Zé Veneno: Apliquei veneno e choveu.
Terrinha: Isso acontece Zé. Mas você está usando dois tipos ai.
Zé Veneno: É eu tinha esses dois lá em casa. Eu vou misturar pra ficar bem mais forte,
entendeu?
Terrinha: Mas quem disse que isso da certo? Zé Veneno: Deve dá ora.
Terrinha: O teimosia, isso vai te matar uma hora dessas, mula empacadeira. Zé Veneno: Vai lamber sabão seu...
Figura 7 – Recorte Fonte: Epagri, 1999
Em outro momento também fica evidente o confronto de opiniões. Na figura 8, Terrinha está pulverizando a lavoura quando Zé Veneno vai visitá-lo. A imagem e a trilha remetem aos duelos de faroeste. Zé Veneno não está acostumado com o uso do Equipamento de Proteção Individual – EPI, e se assusta quando vê Terrinha vestido com ele.
Figura 8 – Recorte 8 Fonte: Epagri, 1999
O personagem Terrinha, que apesar de manter o discurso pedagógico, também modifica sua posição-sujeito. No diálogo abaixo Terrinha conta para Zé Veneno que existe agrotóxico para abelha, mas precisa perguntar para um agrônomo, deixando evidente sua posição de agricultor que nada sabe e precisa da ajuda de um especialista:
Zé Veneno: As abelhas do meu vizinho morreram quase todas. Terrinha: Só podia morrer mesmo.
Zé Veneno: Hã, mas por que Terrinha?
Terrinha: Ora, ainda pergunta? Você aplicou um agrotóxico que mata tudo ora. Zé Veneno: E tem veneno que mata abelha?
Terrinha: É claro que tem, é só consultar um agrônomo.
A ideia da necessidade de utilizar os agrotóxicos de forma controlada é fixada quando Zé Veneno após muito resistir, se intoxica com os produtos químicos aplicados em sua lavoura. A cena resume as conseqüências físicas que podem ocorrer quando não há controle no uso de agrotóxicos, figura 9.
Figura 9 – Recorte 9 Fonte: Epagri, 1999
O vídeo também evidencia prejuízos financeiros quando o uso de agrotóxicos não é controlado. Mais uma vez o discurso fundador, utilizado pelo narrador, é justificado e fixado. Na fala abaixo o narrador conta como é a vida de Zé Veneno com o uso descontrolado de agrotóxicos.
Narrador: Quando tem que aplicar agrotóxico contra uma praga, tudo pra ele é veneno. E
que envenenança. Ele não consegue produzir o que espera porque a cada ano tem prejuízos com a sua envenenança, isso sem falar nos prejuízos à natureza.
Ao final do vídeo, o personagem Zé Veneno muda de idéia sobre o uso de agrotóxicos. Ele não está mais sozinho, tem uma expressão amigável e aparece com a família, figura 10. A cena se assemelha a imagem inicial de Terrinha com sua esposa, que apresenta sua vida organizada associada aos cuidados da natureza.
Zé Veneno: Que sufoco, desta eu escapei. Ai ai, nunca mais eu vou ser o mesmo.
Figura 10 – Recorte 10 Fonte: Epagri, 1999
Essas duas cenas nos remetem à ideia de Orlandi (2003b) quando diz que o discurso pedagógico, presente no vídeo, pretende informar e fixar uma ideia. No entanto, há um atravessamento dos discursos pedagógico, lúdico e de divulgação científica no vídeo. O discurso pedagógico não está apenas no personagem Terrinha, mas também no narrador que utiliza do discurso histórico e está na mesma formação discursiva, mas em posição-sujeito diferente, a de técnico. Nas passagens de cenas o narrador utiliza provérbios.
[...] a moral, por exemplo, é um conjunto de valores como a honestidade, a bondade, a virtude, considerados universalmente como norteadores das relações sociais de conduta dos homens. Os provérbios são, em geral, moralizantes; ditado popular, ditado é uma verdade de valor geral, que unido à palavra popular, tem-se como a verdade do povo, a voz do povo; máximas são regras ou princípios morais. [...] É bastante provável que um mesmo provérbio possua diferentes argumentações de acordo com os vários contextos em que são empregados. [...] “os provérbios permanecem estáveis através dos tempos”, “sendo interpretáveis fora de qualquer contexto singular”, caso não ocorra a interpretação, o provérbio não alcançará seu valor. (MAINGUENEAU, 2004 apud MAGIOLI, 2006)
Percebe-se também, o uso de provérbios nas falas do personagem Terrinha. Observamos então, que os provérbios vem ao encontro do discurso pedagógico, presente em todo o vídeo, que busca instituir/ditar uma ideia. No diálogo abaixo Terrinha utiliza o provérbio “com a saúde não se brinca” para alertar Zé Veneno, impondo um conhecimento como único e certo sem possibilidade de contestação, característica do discurso autoritário.
Terrinha: Aqui não pode entrar bicho e muito menos criança. Zé Veneno: Você é muito esquisito Terrinha.
Terrinha: Esquisito coisa nenhuma Zé, com a saúde não se brinca. Zé Veneno: É tão sério assim é?
Terrinha: Sério? Claro que é sério Zé. E você toma cuidado heim, senão qualquer hora você
bate as botas.
Zé Veneno: Deus me livre.
Além da utilização dos provérbios, as passagens de cena são marcadas pela presença do espantalho que nos remete à vida no campo e é marcado pelo lúdico, figura 12. Segundo Dias (2004 apud MORGADO, 2006, p19) a afirmação [...] na qual coloca a horta como uma alternativa de unir o lúdico ao meio ambiente é confirmado pela criação de personagens, principalmente espantalho, que despertam nas crianças um encantamento frente ao ambiente criado [...].
Figura 11 – Recorte 11 Fonte: Epagri, 1999
A presença do lúdico em toda produção acontece nos desenhos, sons, cores e movimentos que preenchem as características dessa tipologia em que se permite interpretar de diferentes formas o que se vê e o que se ouve. Na cena ilustrada pela figura 12, os tomates da lavoura de Zé Veneno ganham vida e aterrorizam o personagem. A figura do monstro, no discurso lúdico é sempre associada a algo ruim, pois segundo Manfroi (2005) “o que ocorre é o efeito de sentido que eles carregam, na situação (sempre-já-lá) apresentada nos contos de fadas”.
Figura 12 – Recorte 12 Fonte: Epagri,1999
O que percebemos então é que o vídeo movimenta-se com o auxílio das tipologias discursivas acentuando em alguns momentos uma e outra.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa pesquisa teve como corpus investigativo o vídeo “Terrinha e Zé Veneno” com a proposta de analisar os atravessamentos discursos da produção. Para o estudo foi utilizada a teoria da Análise do Discurso de linha Francesa. Trabalhamos com a hipótese de três discursos possíveis: discurso pedagógico, lúdico e de divulgação científica.
Com base nos conceitos formulados por Michael Pêcheux e Eni Puccinelli Orlandi, foi possível constatar que o discurso pedagógico está presente em todo o vídeo nas falas do narrador e do personagem Terrinha. O narrador fez uso constante de provérbios, em especial nas passagens de cena. Terrinha com sua postura de professor, de quem tudo sabe, sem admitir opiniões adversas e também com a utilização de provérbios.
Definidos como expressões fixas, cristalizadas e consagradas pelo uso, Obelkevich (1997) afirma que sua função „é moral e didática: as pessoas usam os provérbios para dizer a outras o que fazer ou que atitude tomar em relação a uma determinada situação‟. Assim, os provérbios podem ser vistos como „estratégias para situações‟, estratégias que têm autoridade e que ditam valores da sociedade. (AZEVEDO, 2009, p1967)
Retomando Orlandi (2001) onde ela destaca que em um discurso não existe uma tipologia única, outro fator analisado foi o atravessamento dos discursos de divulgação científica e discurso pedagógico na fala do personagem Terrinha. Em diversos momentos ele explica o que é cada produto químico utilizado na roça e até mesmo nomenclaturas técnicas da produção agrícola, transferindo o conhecimento científico para Zé Veneno, formulando um discurso em linguagem clara, simples e objetiva, o discurso de divulgação científica.
A proposta de vídeo educativo se concretiza no discurso pedagógico, que segundo Orlandi (2001) pretende ensinar e fixar o conhecimento utilizando-se da falta de polissemia, do discurso dominante que não admite questionamentos.
Visto que o roteiro foi produzido por Celívio Holz, agrônomo e jornalista, esse processo, de transferência de conhecimento para crianças e adolescentes, foi influenciado pelo pré-construído do autor. Além disso, a proposta de vídeo também influencia na eficácia da mensagem a ser transmitida. Segundo Moran (1995) o vídeo demonstra seu impacto nas pessoas pelas imagens, pela fala, música... tais características não se separam, e os telespectadores atingidos por elas além de receber informação se entretém e se encantam.
O vídeo “Terrinha e Zé Veneno” teve sua proposta pedagógica focada na redução e proteção na utilização de agrotóxico, um problema de 1999, que segundo Holz chegava a 85% de utilização de agrotóxico nas lavouras de todo o estado, tudo isso sem os cuidados de proteção. Mas a produção seria apenas a primeira série de tantas outras que poderiam levar conhecimentos variados para as pessoas do meio rural. Segundo Holz, a falta de recursos públicos estaduais não possibilitou essa sequência.
O vídeo “Terrinha e Zé Veneno”, dirigido para crianças e adolescentes, é também marcado pelo discurso lúdico. Os desenhos, sons, cores e movimentos utilizados demonstram a possibilidade de interpretação, de “polissemia aberta” (ORLANDI, 2001, p86). Mas os atravessamentos estão sempre presentes, pois o discurso pedagógico e lúdico, constantes no vídeo, são também atravessados pelo discurso de divulgação científica. Percebe-se então que os discursos empregados condizem com a proposta do vídeo, seguindo o pensamento de Friedrich (1988) quando diz que a comunicação rural tem justamente este objetivo, o de gerar mudanças, nas estruturas e nos comportamentos, exigidas para o desenvolvimento rural.
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ANEXO A - Roteiro vídeo “Terrinha e Zé Veneno”
Imagem Áudio
Vinheta Galo cantando
Cachorro late para galo que está em cima da parabólica.
Sombra do galo cobre o cachorro, ele fica com medo e foge
Terrinha acaricia cabeça cachorro
Terrinha capinando em sua horta
Terrinha levanta o chapéu e olha para cima.
Terrinha volta a capinar a horta.
Terrinha coloca a enxada nas costas e vai embora.
Zé veneno em sua casa sintonizando o rádio e acendendo um cigarro (palhero) Foco no Zé Veneno, fumaça do fumo forma um cifrão.
Vaca comendo capim no pasto ao lado da cerca, embalagens de agrotóxico jogadas na grama.
Vaca passa mal e morre
Zé Veneno arrasta vaca pelo rabo
Narrador: Epagri Vídeo apresenta Terrinha e Zé Veneno
Cachorro latindo
Barulho de avião
Terrinha: Ah... que isso, calma, calma.
Narrador: Terrinha é um pequeno
agricultor, possui uma propriedade de 25 hectares, uma colônia de terras. Aqui ele planta e cria de tudo, se uma coisa não der a outra dá.
Terrinha: Poisé, boa tarde!
Narrador: Terrinha anda sempre de orelha em pé para as novidades aplica todas as técnicas na sua propriedade desde que facilite o trabalho, reduzam os custos, aumentem a renda familiar e não prejudiquem a natureza
Narrador: aliás, Terrinha é um incansável defensor da natureza.
Narrador: Zé Veneno é um pequeno agricultor como Terrinha, mas não é bem como se diz...
ligado nessas coisas de preservar a natureza, a maior preocupação dele é produzir e ganhar dinheiro, o resto é que se dane.
Narrador: quando tem que aplicar
agrotóxico contra uma praga tudo pra ele é veneno.
Passagem: Espantalho da lavoura pega um ponto de interrogação no ar
Vista da propriedade de Terrinha com chuva
Terrinha e sua esposa ao lado do fogão a lenha tomando chimarrão.
Terrinha tocando o gado a cavalo Terrinha e Zé Veneno a cavalo conversando
Imagem de trás de Terrinha e Zé Veneno a cavalo conversando.
Narrador: e que envenenança. Ele não consegue produzir o que espera porque a cada ano tem prejuízo com a sua
envenenança. Isso sem falar nos prejuízos à natureza.
Narrador: nem tudo é veneno!
Narrador: depois de uma chuva o dia voltou com a alegria do sol. Terrinha como faz todo dia, ajudou sua mulher no trato dos animais e na ordenha das vacas. Flora: Terrinha você vai banhar o gado hoje?
Terrinha: uhum.
Narrador: é tempo de movimentar o gado e botar o papo em dia.
Terrinha: Como é que tá o feijão Zé? Zé Veneno: ah, rapaz, nem conto pra você.
Terrinha: deu muita vaquinha é? Zé Veneno: deu de tudo, e coloquei veneno e não adiantou.
Terrinha: que veneno Zé?
Zé Veneno: ah, o nome eu não sei, um que eu tinha em casa
Terrinha: Mas como Zé, você não sabe o produto que botou na lavoura?
Zé Veneno: Ah, tudo não é veneno? Botei não funcionou, e o pior foi minha vac... Terrinha: Claro que não podia funcionar Zé.
Vacas correndo para o banho de carrapaticida
Vacas indo para tanque com carrapaticida.
Embalagens de agrotóxicos
Vacas continuam indo para o tanque com carrapaticida.
Zé Veneno sentado ao lado de sua égua.
Égua abraça Zé Veneno
Passagem: espantalho rolando Flora na janela de casa
Zé Veneno conversa com D. Flora na janela.
Terrinha: não é isso Zé, usa agrotóxico. Zé Veneno: que nome é esse Terrinha? Narrador: Banheiro carrapaticida.
Terrinha: É isso mesmo Zé, os agrotóxicos são produtos químicos para ajudar a combater as doenças causadas por pragas nas lavouras.
Zé Veneno: Mas não é tudo veneno? Terrinha: É veneno sim se a gente usar sem cuidado. Existem muitos produtos químicos, os mais utilizados são os inseticidas pra combater os insetos, carrapaticidas para combater os carrapatos, os herbicidas para combater os inços, os formicidas para combater as formigas e os fungicidas
Zé Veneno: Já sei, deve ser para combater os fungos.
Narrador: por fim, Zé Veneno falou de sua vaquinha que se envenenou.
Zé Veneno: é quem diria, agrotóxicos, veneno, inseticida para matar insetos, fungicidas pra combater doenças provocadas por fungos. Eu que pensava que era tudo a mesma coisa.
Égua: ah, mas vamos conversar com um agrônomo, pra saber por que aquele veneno, quer dizer, agrotóxico não funcionou.
Narrador: Todo cuidado é pouco. Narrador: no final da tarde, voltando da cidade onde foi encomendar sementes na cooperativa, Zé Veneno resolveu passar na casa do Terrinha.
Zé Veneno: Boa tarde dona Flora, e o Terrinha?
Zé Veneno chegando na lavoura do Terrinha
Sombra de Terrinha vindo em direção a Zé Veneno. Imagem por entre as pernas do Zé Veneno.
Zé Veneno sai correndo assustado.
Zé Veneno volta para falar com Terrinha.
Terrinha preparando o agrotóxico para aplicar na lavoura
Terrinha aplicando agrotóxico na lavoura.
Terrinha pedindo para Zé Veneno, seu filho e o cachorro se afastarem do local.
Terrinha aplicando agrotóxico.
Terrinha tá aplicando fungicida na batatinha.
Zé Veneno: Mas a essa hora? Por acaso dona Flora, ele levantou com o pé esquerdo hoje?
Flora: Não sei, porque Zé?
Zé Veneno: Por nada não, eu vou até lá.
Zé Veneno: hã?
Terrinha: O que que tá acontecendo Zé, será eu mudei tanto?
Zé Veneno: Terrinha, é você? O carnaval já passou.
Terrinha: que carnaval Zé, to apenas cuidando da minha saúde.
Zé Veneno: E precisa tudo isso?
Terrinha: é o básico, o macacão, a bota, as luvas, o chapéu e a máscara.
Zé Veneno: E como é que ele foi entrar ai dentro? Mas isso é hora de aplicar
veneno?
Terrinha: ah, é a melhor hora, bem cedo ou no final da tarde. É hora de calmaria, não tem vento e eu sinto menos calor. Zé Veneno: algum problema Terrrinha? Terrinha: Não, só to vendo se não tem nenhum vazamento.
Narrador: Terrinha pediu para o Zé, o seu filho e o cachorro afastarem do local. E continuou o trabalho com todo cuidado. Zé Veneno: ô Terrinha, para um pouco e da um pito.