• Nenhum resultado encontrado

Tribunal penal internacional

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Tribunal penal internacional"

Copied!
155
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA JÚLIA LINS FRANCIOTTI

TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL:

UM ESTUDO DOS POSSÍVEIS CONFLITOS ENTRE O ESTATUTO DE ROMA E O ORDENAMENTO JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO

Florianópolis 2013

(2)

UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA JÚLIA LINS FRANCIOTTI

TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL:

UM ESTUDO DOS POSSÍVEIS CONFLITOS ENTRE O ESTATUTO DE ROMA E O ORDENAMENTO JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel.

Orientador: Prof. Denis de Souza Luiz, Esp.

Florianópolis 2013

(3)

JÚLIA LINS FRANCIOTTI

TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL:

UM ESTUDO DOS POSSÍVEIS CONFLITOS ENTRE O ESTATUTO DE ROMA E O ORDENAMENTO JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Florianópolis, 05 de junho de 2013.

___________________________________________ Prof. Denis de Souza Luiz, Esp.

___________________________________________ Membro da Banca Examinadora

___________________________________________ Membro da Banca Examinadora

(4)

TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL:

UM ESTUDO DOS POSSÍVEIS CONFLITOS ENTRE O ESTATUTO DE ROMA E O ORDENAMENTO JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO

Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca deste Trabalho de Conclusão de Curso.

Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.

Florianópolis, 05 de junho de 2013.

____________________________________

(5)

Dedico esta pesquisa aos meus pais, Vânia e Marco, que tornaram possível a concretização deste sonho.

(6)

AGRADECIMENTOS

Agradeço imensamente aos meus pais, Marco e Vânia, por uma vida inteira de dedicação e amor, por terem me proporcionado a melhor educação possível e por todo apoio que deram na minha formação acadêmica.

À minha irmã, Débora, querida e única, pelos anos de convivência que tanto influenciaram na formação do meu caráter e por sempre me estimular e incentivar a seguir em frente e também por ser meu maior exemplo de realização de vida profissional.

Ao meu orientador, Prof. Denis de Souza Luiz, que não hesitou em aceitar o convite para orientar-me, por todo auxílio e dedicação na elaboração deste trabalho.

Aos muitos professores, pelos seus ensinamentos que marcaram cada semestre na universidade.

Aos meus amigos e colegas, que fizeram parte do meu cotidiano e puderam acompanhar alguns momentos da realização desta pesquisa.

(7)

"Seremos compatriotas e contemporâneos de todos que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido, tenham vivido onde tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo".

(8)

RESUMO

O atual estudo monográfico tem como tema o estudo das possíveis incompatibilidades do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional no ordenamento jurídico constitucional brasileiro. Para tanto, dedicar-se-á aos aspectos históricos, demonstrando os fatos que contribuíram para a criação do Tribunal Penal Internacional de caráter permanente, para posteriormente partir para uma análise da jurisdição e competência do Tribunal e dos princípios norteadores do Estatuto de Roma. Constitui igualmente elemento de estudo uma análise minuciosa sobre as hipóteses de incompatibilidades entre o direito interno e o Estatuto de Roma, bem como questões relacionadas aos Direitos Humanos e o conceito atual de soberania dos Estados. Conclui-se, por fim, que não há que se falar em incompatibilidades entre o Estatuto de Roma e o ordenamento jurídico brasileiro, uma vez que a sua ratificação se deu conforme a legislação brasileira, sem qualquer prejuízo das disposições constitucionais no âmbito interno.

Palavras-chave: Tribunal Penal Internacional. Estatuto de Roma. Direito Penal Internacional.

(9)

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CRFB/88 – Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 ONU – Organização das Nações Unidas

STF – Supremo Tribunal Federal TPI – Tribunal Penal Internacional

(10)

SUMÁRIO

1INTRODUÇÃO ... 11

2ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL ... 13

2.1 TRIBUNAIS PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL ... 15

2.1.1 Tribunal de Nuremberg ... 16

2.1.2 Tribunal de Tóquio ... 19

2.2 TRIBUNAIS PENAIS AD HOC ... 22

2.2.1 Tribunal Penal Internacional da antiga Iugoslávia ... 22

2.2.2 Tribunal Penal Internacional de Ruanda ... 25

3TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL E O ESTATUTO DE ROMA ... 30

3.1 CRIAÇÃO ... 30

3.2 JURISDIÇÃO E COMPETÊNCIA ... 32

3.2.1 Competência ratione temporis ... 32

3.2.2 Competência ratione loci ... 33

3.2.3 Competência ratione personae ... 33

3.2.4 Competência ratione materiae ... 34

3.2.4.1 Genocídio ... 35

3.2.4.2 Crimes contra a humanidade ... 36

3.2.4.3 Crimes de guerra ... 37

3.2.4.4 Crimes de agressão ... 38

3.3 ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL . 39 3.3.1 Princípio da complementaridade ... 40

3.3.2 Princípio da responsabilidade penal individual ... 42

3.3.3 Admissibilidade de casos ... 43

3.3.4 As sanções admitidas ... 44

3.3.4.1 Execução das penas ... 45

3.4 A COOPERAÇÃO DOS ESTADOS PARTES ... 46

4OS APARENTES CONFLITOS ENTRE O ESTATUTO DE ROMA E O ORDENAMENTO JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO ... 49

4.1 A ENTREGA DE NACIONAIS AO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL ... 51

4.2 PENA DE PRISÃO PERPÉTUA ... 54

4.3 IMUNIDADES E FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO ... 57

(11)

4.5 A COMPATIBILIDADE DO ESTATUTO DE ROMA NO ORDENAMENTO

JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO ... 61

5CONCLUSÃO ... 66

REFERÊNCIAS...69

(12)

1 INTRODUÇÃO

A presente pesquisa, condição para a conclusão e aprovação do curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL, visa, na esfera do Direito Internacional, declarar para a sociedade acadêmica a importância da instituição do Tribunal Penal Internacional e estudar a compatibilidade do Estatuto de Roma frente ao ordenamento jurídico brasileiro, uma vez que pode-se verificar alguns conflitos normativos entre os dois textos legais.

O Decreto nº 4.388, de 25 de setembro de 2002, promulga o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional no ordenamento jurídico brasileiro. Ao ratificar um tratado internacional, este deverá ser inserido no ordenamento jurídico do Estado. E, em virtude disto, é que surgem certos questionamentos quanto a sua compatibilidade ou não com a ordem legislativa interna.

O texto legal do Estatuto de Roma, que regula a jurisdição do Tribunal Penal Internacional, traz consigo certos conflitos quanto à incorporação de seus dispositivos no ordenamento jurídico constitucional brasileiro.

Com isso, tem-se como objetivo principal analisar os possíveis conflitos normativos entre os artigos dispostos no Estatuto de Roma e a Constituição da República Federativa do Brasil, em razão de ainda não haver uma postura adotada pelo Brasil, mediante um caso prático frente ao Tribunal Penal Internacional.

A metodologia técnica utilizada para o presente trabalho monográfico é a pesquisa bibliográfica. Precisamente, emprega-se para a metodologia de pesquisa exploratória, com embasamento em doutrinas, para elaboração de um trabalho sucinto, confrontando opiniões heterogêneas para a conclusão do tema estudado. A pesquisa também foi realizada através de estudos das leis constitucionais e tratados internacionais, sendo utilizado o método dedutivo, visto que parte da narrativa sobre os antecedentes históricos que contribuíram para a criação do Tribunal, para posteriormente, explanar a respeito da instituição do Tribunal Penal Internacional e suas características, chegando à ratificação do Estatuto de Roma pelo Brasil, abordando os aparentes conflitos entre os dois textos normativos.

Para a concretização deste estudo, o trabalho monográfico foi dividido em cinco capítulos. Primeiramente, a presente introdução, imprescindível para proporcionar a contextualização ao tema objeto de verificação, o objetivo, o método utilizado e a estruturação

(13)

do trabalho. E, por último, a conclusão, esta que, por sua vez, irá dispor sobre das considerações finais do estudo realizado, a respeito dos objetivos propostos.

Prosseguindo, no segundo capítulo, faz-se uma breve análise histórica acerca dos acontecimentos que contribuíram para a criação do Tribunal Penal Internacional de maneira ampla e geral e, em seguida, um aprofundamento, ao tratar com mais especificidade os conteúdos que dizem respeito aos Tribunais pós-Segunda Guerra Mundial, quais sejam, o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg e o Tribunal Militar Internacional de Tóquio, e, em seguida, os Tribunais Penais ad hoc1 para Ruanda e para a ex-Iugoslávia, Tribunais estes que caracterizam um marco determinante na história para a consolidação dos Direitos Humanos no plano internacional e para a formação do Tribunal Penal Internacional de caráter permanente.

Na sequência da pesquisa, tem-se no terceiro capítulo a estrutura organizacional do Tribunal Penal Internacional, no que tange a sua criação, jurisdição e competência, admissibilidade de casos e as possíveis sanções aplicadas. Não obstante, este capítulo também ocupa-se em apresentar os princípios norteadores do Estatuto de Roma, quais sejam o princípio da complementaridade da sua jurisdição em relação aos Estados que o ratificaram, bem como explanar sobre o princípio da responsabilidade penal individual. Ademais, falar-se-á do ponto pertinente à cooperação dos Estados Parte para com o Tribunal.

Finda-se o corpo da presente pesquisa monográfica com o quarto capítulo, que trata do estudo acerca da compatibilidade do Estatuto de Roma no ordenamento jurídico constitucional brasileiro no que tange às seguintes matérias: a entrega dos nacionais à jurisdição do Tribunal Penal Internacional face às proibições expressas de extradição dispostas na Carta de 88; a previsão da aplicação da pena de prisão perpétua pela Corte, a qual não é permitida no Estado brasileiro; a desconsideração das imunidades e foro por prerrogativa de função àqueles que detém um cargo público, que estão previstas no ordenamento jurídico constitucional brasileiro; e, por derradeiro, a relativização da coisa julgada material, que vai de encontro ao princípio da segurança jurídica assegurada pela legislação pátria.

Observar-se-á, também no quarto capítulo, questões relacionadas ao conceito de soberania estatal contemporâneo e, inclusive, às peculiaridades da internacionalização dos Direitos Humanos.

1

(14)

2 ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL

Neste primeiro capítulo, serão tratados os antecedentes históricos do Tribunal Penal Internacional, considerando os Tribunais pós-Segunda Guerra Mundial e os Tribunais Penais ad hoc. Para realizar esta tarefa serão utilizadas como referência os princípios gerais do Direito Internacional Público, as Convenções de Genebra, a Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os Estatutos dos Tribunais Internacionais de Nuremberg, Tóquio, ex-Iugoslávia e Ruanda.

Na Idade Média, os acusados por crimes na esfera internacional foram julgados, em sua maioria, junto aos foros domésticos. O mais antigo julgamento em razão de ofensa contra a paz ocorreu em 1268, quando o Duque da Suábia – que hoje forma parte do território da Suíça alemã e da Alemanha – foi denunciado, condenado e executado por dar início a uma chamada “guerra injusta”. (KRIEGER, 2004, p. 126).

Doutro lado, a primeira ideia efetiva de um julgamento internacional por prática de atrocidades foi o de Peter von Hagenbach, em 1474, por delitos praticados durante a ocupação de Breisach, pelo qual ele foi condenado e decapitado, após a cidade ser retomada. Porém, apesar de ter sido um acontecimento curioso na justiça internacional medieval, com a Paz de Vestfália, em 1648, esta ideia foi ultrapassada em razão do conceito de soberania absoluta do Estado. (SCHABAS, 2004, p. 1). Este foi identificado como o primeiro Tribunal Penal Internacional ad hoc e sua formação era composta por juízes da Alsácia, Áustria, Alemanha e Suíça, entretanto até a proposta de um tribunal internacional permanente passaram-se quatro séculos. (GASPARIN JR, 2009, p. 24).

Após a Paz de Vestfália, houve uma repartição rigorosa da jurisdição dos Estados com base territorial. As relações entre os Estados eram muito limitadas e não envolviam casos de cooperação. O Direito Internacional foi destinado para resolver possíveis conflitos no exercício territorial de jurisdição e a maioria das normas internacionais era focada na preservação do interesse de cada Estado no seu território. (VILLALPANDO, 2010, p. 390).

Convém ressaltar que a pirataria, difundida nos Séculos XVII e XVIII, caracteriza uma forma de infração internacional, a qual excluía a responsabilidade objetiva dos Estados diante dos crimes praticados por um indivíduo, o que até então não ocorria no Direito Internacional clássico. Todavia o objetivo de punir o sujeito não visava proteger os valores da sociedade, mas sim o interesse do particular, cuja competência era nacional, e não universal.

(15)

Neste sentido, a pirataria como forma de criminalização internacional constitui elementos diversos daquele do Direito Internacional Penal. (LIMA; BRINA, 2006, p. 21-23).

Na verdade, ante o exposto, deflui-se que:

Ponto indiscutível é que as origens do Direito Internacional Penal remontam às tentativas de se punir indivíduos pela prática de delitos cujas decorrências não se atavam às fronteiras nacionais. Nesse contexto, não há como negar que pirataria constitui uma forma de regulamentação com caráter internacional. (LIMA; BRINA, 2006, p. 21).

A ideia da criação de uma jurisdição internacional competente a julgar indivíduos responsáveis por crimes internacionais é antiga, alimentada pelo impulso dos ideais de alguns juristas, mas sempre foi reprimida por razões políticas. O seu desenvolvimento é paralelo à afirmação do princípio de Direito Internacional da responsabilidade dos indivíduos por determinados crimes de relevância internacional. (MORI, 2001, p. 1).

Cabe aqui destacar que, após a Primeira Guerra Mundial, surgiu a ideia de um julgar, mediante um tribunal internacional, pessoas acusadas de crimes de guerra. O Tratado da Paz de Versalhes, de junho de 1919, dispõe sobre a criação de um tribunal internacional para julgar o Kaiser Guilherme II, ex-imperador da Alemanha. Todavia tal previsão era destinada apenas para o julgamento do Kaiser. (MELLO, 1978, p. 206).

Ainda explica Krieger (2004, p. 128):

A iniciativa de julgar o ex-imperador alemão simbolizou a possibilidade de um chefe de Estado vir a ser individualmente responsabilizado pelo Direito Internacional por iniciar uma guerra de agressão, significando que os delegados da conferência que redigiram o Tratado de Versalhes, levantando a ideia de que a imunidade estatal do soberano – sovereign State immunity – é rejeitada pelos líderes políticos acusados de responsáveis por agressão bélica.

Em 1920, no período entre guerras, o Comitê de Juristas elaborou o Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional, com base num projeto apresentado pelo Barão Descamps, no qual propunha a criação de um tribunal competente para julgar crimes contra o Direito Internacional, mas a Assembleia da Sociedade das Nações não aceitou a referida proposta, com a justificativa de que ainda não existia um direito penal internacional reconhecido por todas as nações. (MELLO, 1978, p. 207).

Neste raciocínio, o autor também narra que:

O Direito Penal Internacional surge da existência de vários estados e cada um com a sua legislação própria. Esta por sua vez pode consagrar diferentes sistemas de

(16)

repressão dos delitos. Por outro lado, a cooperação internacional tem se manifestado nos mais diferentes setores e o Direito Penal não poderia permanecer fora desta tendência que se acentua nas relações internacionais. (MELLO, 1978, p. 15).

No entendimento de Lima; Brina (2006, p. 26): “A Convenção de Genebra, de 27 de julho de 1929, impôs, pela primeira vez, aos Estados Partes, o dever de reprimir no direito interno, as infrações de certas regras do direito humanitário”.

Em razão de diversas violações aos Direitos Humanos, cometidas no início do Século XX, após as grandes guerras mundiais, deu-se início à ideia de uma jus puniendi em plano global, indo em direção a uma moderna Justiça Penal Internacional. (MAZZUOLI, 2005, p. 21).

A identificação e a repressão de crimes internacionais levaram à criação de uma corte internacional penal permanente, especialmente após a Primeira Guerra Mundial, quando foram estabelecidas cortes internacionais de justiça. Este interesse foi reacendido após a Segunda Guerra Mundial, quando foram criados os Tribunais Internacionais Militares de Nuremberg e Tóquio. (GRAEFRATH, 1990, p. 68).

2.1 TRIBUNAIS PÓS-SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O Tribunal Internacional Militar de Nuremberg foi estabelecido com base no Acordo de Londres, um tratado celebrado entre os quatro Aliados. Já o Tribunal Internacional Militar de Tóquio foi criado a partir de uma especial promulgação do General MacArthur, atuando como o Comandante Supremo das Forças Aliadas. Foi dada a ambos os Tribunais a competência para processar e julgar crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Todavia a sua jurisdição estava limitada a processar somente aqueles que lutaram em favor dos Estados inimigos. Os presentes Tribunais tinham o poder de julgar somente aqueles que agiram no interesse dos países do Eixo. Logo, não havia como processar aqueles que lutaram em favor dos Aliados. (CERONE, 2007, p. 284).

Ao tratar desta questão, revela Maia (2001, p. 50):

O Tribunal Militar Internacional e o Tribunal Militar para o Extremo Oriente alimentaram a esperança de que, no futuro, os crimes contra os direitos humanos seriam julgados em um tribunal penal permanente das Nações Unidas, livre de pressões políticas, dotado de uma jurisdição definida e com base em uma legislação abarcando os crimes contra a humanidade.

(17)

Por tais considerações preliminares, verifica-se a importância destes Tribunais Internacionais Militares para a criação do Tribunal Penal Internacional permanente. A seguir, nos próximos tópicos, serão abordadas as características individuais de cada um destes tribunais.

2.1.1 Tribunal de Nuremberg

O marco da Segunda Guerra Mundial foi o holocausto, entre 1939 a 1945, que apresentou o ser humano como algo simplesmente descartável, sem dignidade e direitos. A “Era Hitler” condicionou os direitos dos seres humanos a partir de sua raça. A raça ariana era a “raça pura” e qualquer pessoa que não estivesse nesta condição seria atingida. As vítimas do regime nazista tornaram-se desnecessárias e indesejáveis, cujo destino foi a morte nos campos de concentração. (MAZZUOLI, 2005, p. 22).

Durante a Guerra, os Aliados esperavam processar crimes de guerra convencionais, desde metralhar os sobreviventes dos navios afundados à tortura dos prisioneiros de guerra. Para isso, já havia uma previsão legal. Porém isso não cobria o julgamento dos militares e dos líderes civis por causarem a guerra e encorajarem as atrocidades cometidas. As elites do Eixo passaram a ser consideradas pelos Aliados como as principais culpadas das crueldades cometidas. (OVERY, 2003, p. 2).

A maior dificuldade surgiu sobre a questão do tratamento dos civis. Os inimigos generais e almirantes poderiam ser julgados como simples criminosos de guerra se fosse possível provar que eles ordenaram a perpetração dos crimes praticados. Contudo, com os líderes civis, seria diferente. Não havia qualquer precedente para procedimentos judiciais contra eles. (OVERY, 2003, p. 3).

Em 8 de agosto de 1945, as potências vencedoras firmaram o Acordo de Londres, para punir os maiores criminosos de guerra da potência europeia do Eixo. Neste acordo, estava anexada a Carta do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg. No preâmbulo da Carta, os Aliados declaravam agir em prol do interesse de todas as Nações Unidas, e que todos os governos destes estavam convidados a participar, o que fizeram dezenove Estados. (MORI, 2001, p. 7).

Por oportuno, impende registrar que:

O Tribunal Militar Internacional de Nuremberg consistiu em um tribunal fundado pelas quatro potências vitoriosas, aos quais a Alemanha havia rendido-se

(18)

incondicionalmente. Possuía quatro juízes titulares e quatro juízes suplentes, apontados por cada uma das potências. Os acusadores também eram nacionais de tais países. Declarou-se competente para julgar os crimes contra a paz, os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade. O Tribunal julgou os mais importantes crimes nazistas, deixando os processos menores para os Estados em que tais crimes haviam sido cometidos. No total, somam-se 12 condenações à morte por enforcamento, 3 de prisão perpétua, 2 a 20 anos de prisão, 1 a 15 anos de prisão, 1 a 10 anos de prisão e 2 absolvições. Todas as penas foram executadas. (LIMA; BRINA, 2006, p. 28).

Apesar do planejamento cuidadoso, as acusações judiciais foram incapazes de seguir uma linha de jurisprudência constante em Nuremberg. Eles estavam dispostos a aprovar a ideia revolucionária de prender os líderes nacionais, contudo eles estavam também cientes das implicações que tal atitude poderia causar, em razão de perfurar a soberania dos Estados, logo os julgamentos foram feitos com muita cautela. (SELLARS, 2011, p. 1088).

Com base nos princípios nullum crimen sine lege2 e nulla poena sine lege3, surgiu uma discussão a respeito da conformidade dos crimes contra a paz e crimes contra humanidade, em razão de não serem considerados crimes na época dos fatos. Enquanto aos crimes de guerra, já havia previsão legal quanto aos usos da guerra e ao direito dos conflitos armados. Todavia tais princípios não foram interpretados de forma a limitar a eficácia do Tribunal, porque a prioridade era a punição das condutas desumanas e lesivas à sociedade internacional. Os crimes contra o Direito Internacional não foram praticados por entidades abstratas, mas por indivíduos, logo afastou-se também a tese de que feria a soberania estatal. (LIMA; BRINA, 2006, p. 29).

Nesta linha de raciocínio, compreende-se que “A posição adotada pelo Tribunal Militar de Nuremberg foi a de que, na realidade, entidades abstratas como os Estados somente podem cometer crimes através da mão de indivíduos”. (DELGADO; TIUJO, 2004, p. 59).

Os pareceres jurídicos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América foram divididos com base no direito dos vitoriosos de levar os líderes alemães diante da corte por crimes de guerra. O Tribunal Internacional de Nuremberg foi um experimento, quase um improviso. Pela primeira vez, os líderes de um Estado foram denunciados pela comunidade internacional por conspirarem a cometer, ou provocando o cometimento, de uma série de crimes contra a paz e contra a humanidade. Em virtude de todas as suas evidentes desvantagens, o julgamento provou ser a base para aquilo que hoje é um elemento permanente da justiça internacional moderna. (OVERY, 2003, p. 2).

Ao tratar também sobre o tema, Krieger (2004, p. 147), assim, acrescenta:

2

Nullum crimen sine lege: nenhum crime sem uma lei prévia que o prescreva (CALDAS, 1997, p. 180).

3

(19)

Apesar de a Carta de Nuremberg, em sentido estrito dirigir-se às atrocidades conexas somente com a guerra, o Tribunal de Nuremberg provou ser uma plataforma para o desenvolvimento do Direito Internacional Humanitário, no momento em que a comunidade internacional veio a concluir que o tratamento dos Estados a seus cidadãos em tempos de paz era o apropriado à regulação geral internacional.

Para complementar a ideia apresentada, o autor afirma que “Os princípios de Direito Internacional da Carta do Tribunal de Nuremberg vieram a ser reconhecidos através da Resolução da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas n. 96º (I), de 11 de dezembro de 1946”. (KRIEGER, 2004, p. 148).

Neste contexto, Mazzuoli (2005, p. 22) narra que:

O principal legado do Holocausto para a internacionalização dos direitos humanos, consistiu na preocupação que gerou no mundo pós-Segunda Guerra, acerca da falta que fazia uma arquitetura internacional de proteção de direitos humanos, com vistas a impedir que atrocidades daquela monta viessem a ocorrer novamente no planeta. Daí porque o período do pós-guerra significou o resgate da cidadania mundial.

Pela primeira vez na história, altos funcionários do Estado que cometeram graves delitos, quando atuavam para o Estado ou sob a proteção deste, foram processados, julgados e tidos como responsáveis pelos crimes ocorridos. (GAETA, 2007, p. 633).

Ramos (2000, p. 249) narra que:

A partir da 2ª Guerra Mundial, adicionou-se um novo elemento a esta responsabilidade internacional penal do indivíduo: a persecução criminal de indivíduos agindo em nome de Estados (agentes públicos) e em conformidade com as leis locais. Até o momento, com a exceção da fracassada tentativa dos vencedores da 1ª Guerra Mundial de julgar o Kaiser Guilherme II por crimes cometidos enquanto Chefe de Estado, as condutas dos agentes públicos geravam apenas a responsabilidade do Estado.

O Estatuto do Tribunal de Nuremberg constitui o exercício dos poderes soberanos dos Estados submetidos ao Reich alemão, bem como o direito destas mesmas nações de legislar nos territórios os quais foram ocupados. Diante disto, pode-se dizer que este Tribunal não configura um exercício arbitrário dos países vitoriosos, e sim a manifestação do Direito Internacional daquela época, o que consequentemente contribuiu para o Direito Internacional atual. (JANKOV, 2009, p. 214).

O que se pretende demonstrar é que:

Apresentando o Estado como grande violador de direitos humanos, a era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e descartabilidade da pessoa humana, que resultou

(20)

no envio de 18 milhões de pessoas a campos de concentração, com a morte de 11 milhões, sendo 6 milhões de judeus, além de comunistas, homossexuais, ciganos,... O legado do nazismo foi condicionar a titularidade de direitos, ou seja, a condição de sujeito de direitos, à pertinência a determinada raça – a raça pura ariana. (PIOVESAN, 2006a, p. 17).

Na explicação de Freneda (2006, p. 68)

o forte descontentamento com as atrocidades cometidas na guerra e pelo regime nazista facilitou-se a propagação e conscientização da necessidade de tutela dos direitos humanos e de uma forma universal, visando-se evitar eventuais parcialidades e impunidades.

Destaque-se, por relevante, que uma das grandes contribuições do Tribunal de Nuremberg para o Direito Internacional foi a ideia de uma justiça comum, à luz da própria consciência universal. (JANKOV, 2009, p. 215).

Assim, urge o reconhecimento que:

O Tribunal de Nuremberg deu um novo ímpeto à ideia de que certos atos são tão hediondos que constituem crimes por si mesmos, sejam quais forem as leis vigentes no país e na época em que são perpetrados. (SINGER, 2004, p. 147).

Pelo exposto, fica evidenciada a contribuição do Tribunal Internacional de Nuremberg para justiça internacional, para os Direitos Humanos, bem como a ideia de responsabilizar os indivíduos pelos atos cometidos na esfera internacional.

2.1.2 Tribunal de Tóquio

O Tribunal Internacional de Tóquio foi criado logo após o Tribunal Internacional Nuremberg, ativado por um comandante dos Estados Unidos da América, general Douglas MacArthur. (LIMA; BRINA, 2006, p. 30).

Adotou-se, no Estatuto do presente Tribunal, princípios equivalentes àqueles acolhidos no Tribunal de Nuremberg, cujo objetivo era julgar os delitos cometidos durante a guerra no Extremo Oriente. (JANKOV, 2009, p. 25).

Foi composto por onze juízes, oriundos da Austrália, Canadá, China, França, Reino Unido, Índia, Holanda, Nova Zelândia, Filipinas, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e Estados Unidos da América. Foram julgados apenas os indivíduos que foram acusados de cometer crimes contra a paz. Passados dois anos de julgamento, sete acusados foram sentenciados à forca, dezesseis acusados à prisão perpétua, um condenado por vinte

(21)

anos e outro por sete anos e meio de prisão. Cinco mil japoneses também foram julgados por tribunais aliados. (KRIEGER, 2004, p. 140-141).

A competência de jurisdição deste Tribunal foram os crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. (JAPIASSÚ, 2004, p. 67).

Conforme assinalam Lima e Brina (2006, p. 30) “os japoneses suspeitos de crimes de guerra eram classificados como suspeitos de crimes contra a paz, de crimes de guerra convencionais e de atrocidades conhecidas como crime contra a humanidade”.

Vale ressaltar, dos ensinamentos de Krieger (2004, p. 141):

O fundamento das sentenças condenatórias foram crimes de conspiração contra a paz e guerra de agressão contra a China, os Estados Unidos da América, a Comunidade Britânica das Nações, a Holanda, a França e a União Soviética, ao longo dos anos 1938 e 1939. Outros crimes que levaram os vinte e cinco indiciados à condenação, foram cometidos contra os prisioneiros de guerra e civis em áreas ocupadas; e, por fim, o malogro de não corrigir ou prevenir o cometimento de crimes de guerra por seus subordinados por parte dos comandantes militares.

Mister se faz ressaltar que o Tribunal Internacional de Tóquio recebeu as mesmas críticas do Tribunal de Nuremberg, bem como foi criticado por dizer que tratava de uma vingança dos Estados Unidos pelo ataque de Pearl Harbor ou como um método de suavizar o sentimento de culpa pelo uso da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, durante o mesmo conflito. (CASSESE, 2005, p. 7).

Observa-se, por conseguinte, que:

Acabava a humanidade, por volta de 1945, a sair talvez do conflito mais sangrento de toda a sua história, que foi a Segunda Guerra Mundial e que, em que pese a existência de vencedores e vencidos, todos saíram perdedores enquanto integrantes da raça humana. (PESSÔA, 2006, p. 559).

Reponte-se, nessa esteira, lição de Lima e Brina (2006, p. 30):

O trabalho desenvolvido pelos Tribunais de Nuremberg e Tóquio pode ser considerado um marco na história do Direito Internacional Penal. Primeiramente porque duas novas categorias de crime foram contempladas (crimes contra a paz e crimes contra a humanidade) e tiveram, juntamente com os crimes de guerra, previsão expressa e definição dos seus elementos constitutivos em um texto convencional. Em segundo lugar, porque até 1945, à execução do Tratado de Versalhes, que acabou virando “letra morta”, oficiais de Estado nunca haviam sido responsabilizados pessoalmente por seus atos. Tanto o Estatuto como as sentenças dos Tribunais de Nuremberg e Tóquio estabeleceram, de forma expressa, a responsabilidade penal individual nos crimes internacionais de guerra das potências do Eixo Europeu, desconsiderando as imunidades dos representantes estatais.

(22)

Após a Segunda Grande Guerra, generalizou-se a concepção de uma ordem pública internacional. (MELLO, 2000, p. 14).

O período pós-Segunda Guerra Mundial corresponde a um marco na internacionalização dos Direitos Humanos, os quais surgiram como uma resposta às barbáries ocorridas nesta época. (PIOVESAN, 2006a, p. 17).

A autora também assevera que:

É neste cenário que se desenha o esforço de reconstrução dos direitos humanos, como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea. Ao cristalizar a lógica da barbárie, da destruição e da descartabilidade da pessoa humana, a Segunda Guerra Mundial simbolizou a ruptura com relação aos direitos humanos, significando o pós-guerra a esperança de reconstrução destes mesmos direitos. (PIOVESAN, 2006a, p. 17).

E prossegue:

É neste cenário que se manifesta a grande crítica e repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confinado à ótica meramente formal – tendo em vista que o nazismo e o fascismo ascenderam ao poder dentro do quadro da legalidade e promoveram a barbárie em nome da lei. (PIOVESAN, 2006a, p. 17).

A era Segunda Guerra Mundial reconstruiu os Direitos Humanos, influenciando também na relativização do conceito de soberania estatal, bem como na consolidação do indivíduo como sujeito de direito internacional. (FRENEDA, 2006, p. 67).

Freneda (2006, p. 67) complementa, ainda, que:

O reconhecimento do indivíduo como sujeito de direito internacional e a redefinição do conceito de soberania trouxeram e, ainda estão trazendo a possibilidade de fortalecimento dos direitos humanistas, que nada mais são que a tentativa de salvaguardar uma existência minimamente digna.

Portanto, verifica-se a contribuição de ambos os Tribunais, tanto Nuremberg como Tóquio, para a reconstrução dos Direitos Humanos e para a criação de um tribunal permanente, com jurisdição definida e livre de pressões políticas para julgar crimes que dizem respeito aos direitos humanos. (MAIA, 2001, p. 50).

No próximo tópico, far-se-á a exposição dos Tribunais Penais ad hoc para a antiga Iugoslávia e Ruanda.

(23)

2.2 TRIBUNAIS PENAIS AD HOC

Em Nuremberg e Tóquio, os procedimentos das comissões de investigação e dos próprios tribunais foram influenciados por forças políticas, as quais dificultaram as apurações e, por conseguinte, impossibilitou julgamentos isentos e eficazes, caracterizando, então, um mau funcionamento destes tribunais. Além disso, a fase investigativa era diversa do processamento judicial e a fase de execução incumbia ao administrador político, cuja decisão nem sempre estava de acordo com a ideia de justiça. (MAIA, 2001, p. 45-46).

Convém destacar, por oportuno, explicação de Japiassú; Adriano (2005, p. 4):

Os julgamentos realizados em Nuremberg e em Tóquio, ao final da Segunda Guerra Mundial, podem ser apontados como precedentes históricos de julgamentos penais internacionais. Todavia, foram os últimos quinze anos, particularmente após a queda do Muro de Berlim, que permitiram uma evolução de um projeto há muito acalentado, foi estabelecimento da jurisdição penal internacional permanente, passando pelos Tribunais Penais Internacionais ad hoc, em especial, para a antiga Iugoslávia e Ruanda.

Ao observar as violações aos direitos humanitários e apontá-las como uma ameaça à paz e segurança internacional, o Conselho de Segurança (CS) criou uma comissão para analisar e investigar os conflitos. Com isso, verificou-se a gravidade das violações, o que levou à criação de um Tribunal Penal Internacional ad hoc. (LIMA; BRINA, 2006, p. 34-35).

2.2.1 Tribunal Penal Internacional da antiga Iugoslávia

Um grande passo pra frente do Direito Internacional ocorreu na década de 90, no campo do Direito Internacional Humanitário, que teve origem com a violência e as atrocidades ocorridas na Iugoslávia. (TALLGREEN, 2002, p. 563).

Após a Segunda Guerra Mundial, formou-se a Iugoslávia, através do marechal de origem croata Josip Broz Tito, que ascendeu o partido comunista, de maneira federada mediante a Liga dos Comunistas da Iugoslávia, que reuniu seis repúblicas e duas províncias autônomas, quais sejam Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Macedônia, Voivodina e Kosovo. Com isso, observou-se uma grande variação étnica das repúblicas formadoras da Iugoslávia. (KRIEGER, 2004, p. 151).

O fim da antiga Iugoslávia, ocorreu a partir do falecimento do Marechal Josip Broz Tito, em 1980 e também com o fim da União da República Socialista Soviética, ambos

(24)

os fatores eram as forças que mantinham a Iugoslávia em harmonia e, com a perda deste equilíbrio, ressurgiu, então, o ódio entre as diferentes etnias. (KRIEGER, 2004, p. 152).

Entre abril e dezembro de 1990, houve as primeiras eleições multipartidárias na República Socialista Federativa da Iugoslávia, e, posteriormente, os Parlamentos esloveno e croato propuseram a dissolução da Federação em mais Estados soberanos. (MORI, 2001, p. 21).

Em 25 de junho de 1991, a Croácia e a Eslovênia proclamaram suas respectivas independências. Com isso, o exército federal interveio contra a defesa territorial eslovena e, no sucessivo mês de agosto, ocorreu o mesmo evento na Croácia, na qual a minoria sérvia, apoiada pelo exército federal, se confronta com a maioria croata. (MORI, 2001, p. 22).

Surgiu, então, um conflito étnico na ex-Iugoslávia, no início da década de 90. Os sérvios, croatas e muçulmanos lutavam para dominar e controlar os restos da federação multiétnica. Com isso, houve ódio mútuo, massacres civis e migrações forçadas. Tudo isto chamou a atenção da comunidade internacional, a qual exigiu que fosse tomada alguma providência contra tais atos. (DELGADO; TIUJO, 2004, p. 61).

As medidas tomadas pela ONU foram fracassadas, o que levou alguns Estados a proporem a criação de um Tribunal Internacional para julgar os responsáveis pelos massacres. (DELGADO; TIUJO, 2004, p. 61).

O que mais chocou a opinião pública não foi somente a violência que acompanhava o conflito, violência esta que está presente em todas as guerras, mas sim o ódio étnico que os levou a querer criar regiões geograficamente “puras”, nas quais habitariam uma população de origem unitária, sem minorias. Ou seja, fazer uma limpeza étnica. (MORI, 2001, p. 32).

A comissão instituída com a resolução do Conselho de Segurança explicou que a expressão limpeza étnica significa tornar uma área etnicamente homogênea, usando força e intimidação para promover o deslocamento de pessoas de um determinado grupo daquela área. Com a difusão das notícias, surgiu um vasto movimento de opiniões a nível internacional para a análise dos fatos e a punição dos culpados. Este movimento foi encontrado em várias sedes internacionais e foi a base da instituição do Tribunal Internacional da ex-Iugoslávia. (MORI, 2001, p. 32).

Em 22 de fevereiro de 1993, o Conselho de Segurança da ONU, ao constatar que as violações generalizadas de Direito Internacional Humanitário no território da ex-Iugoslávia constituíam uma ameaça à paz e à segurança internacional, decidiu instituir o Tribunal

(25)

Internacional para julgar os responsáveis pelas sérias violações de Direito Internacional Humanitário cometidas neste território desde 1991. (MORI, 2001, p. 39).

Este Tribunal foi estabelecido para julgar indivíduos que cometeram graves violações à Convenção de Genebra de 1949, violações das leis e costumes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade. (ASUNCION, 2009, p; 1197).

O presente Tribunal dotou-se de jurisdição sobre indivíduos que vivem dentro de Estados soberanos – seja do Estado da antiga Iugoslávia ou terceiros Estados – e, a partir de seu Estatuto, foi concedido a ele prioridade de jurisdição sobre os tribunais nacionais. (CASSESE, 1998, p. 14).

Assim, assinala Maia (2001, p. 116):

No que se refere à jurisdição desses tribunais ad hoc, ela concorre com a dos tribunais nacionais e possui primazia de jurisdição. Assim, estipula-se, nas diretrizes do Tribunal Penal para a ex-Iugoslávia (art. 4º), que, “quando submeta à autoridade judicial ou organismos de instrução do Estado, uma causa penal que incumba à jurisdição do Tribunal Internacional, estes se inibirão em favor do Tribunal Internacional se este assim solicitar”.

A autora ainda complementa esclarecendo que “encontra-se no caráter da jurisdição a principal diferença entre os tribunais ad hoc e o TPI negociado em Roma, complementar às jurisdições nacionais” (MAIA, 2001, p. 116).

E prossegue:

Vale esclarecer que a jurisdição dos tribunais ad hoc são concorrentes, mas não exclusivas. As autoridades nacionais podem continuar as investigações, apreensões e julgamentos, desde que realizados de forma imparcial e em cooperação com o Tribunal. (MAIA, 2001, p. 116).

O problema das violações de Direitos Humanos ocorridas durante o conflito na ex-Iugoslávia, principalmente no que diz respeito à limpeza étnica, chamou a atenção dos órgãos das Nações Unidas em 1992, quando o Secretário Geral, afirmou estar presente diante de uma tentativa de criação de regiões “etnicamente puras”, por parte dos sérvios da Bósnia-Herzegovina, mediante utilização de técnicas de divisão territorial e intimidação da população não-sérvia, com a ajuda das Forças Armadas da Iugoslávia, e tendo como consequência o deslocamento de populações civis de suas cidades e vilas, numa escala não vista na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. (MORI, 2001, p. 28-29).

A competência do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia era limitada, porque, no art. 1º do seu Estatuto, estabeleceu-se que ele é competente apenas para julgar os

(26)

crimes de Direito Internacional Humanitário que ocorreram no respectivo território desde 1991. O art. 6º do Estatuto também restringe a competência quando especifica que o Tribunal exercita a sua jurisdição somente sobre pessoa física, excluindo então as pessoas jurídicas. (MORI, 2001, p. 40).

No primeiro julgamento deste Tribunal, observou-se uma inovação e um progresso concernente aos crimes de guerra, o qual foi mais além dos precedentes de Nuremberg ao declarar que os crimes contra a humanidade poderiam ocorrer mesmo em tempos de paz. (SCHABAS, 2004, p. 12).

Deve ser ressalvado que este tribunal foi o primeiro Órgão Internacional desde Nuremberg e que é possível verificar intenção de criar um Tribunal Penal Internacional de caráter permanente. (BAZELAIRE; CRETIN, 2004, p. 53).

2.2.2 Tribunal Penal Internacional de Ruanda

A história de Ruanda é orientada pela luta tribal provocada pelos colonizadores europeus. Antes do conflito de 1994, as etnias de Ruanda eram estimadas em 85% hutu, 14% tutsi e 1% pigmeus e outras. (KRIEGER, 2004, p. 160).

Entre 1933 e 1934, os colonizadores belgas determinaram a obrigação de constar nas carteiras de identificação a origem étnica do indivíduo e, com isso, deu-se início a uma trágica política colonial. (KRIEGER, 2004, p. 160).

Em 6 de abril de 1994, um avião, no qual estava a bordo o presidente da Ruanda Juvenal Habyaramana, de origem hutu, o ex-presidente de Burundi, Cyprien e membros de ambos, ao realizar os procedimentos para o pouso na capital de Ruanda, foi atingido por um foguete, resultando na morte de todos que estavam a bordo da aeronave. Menos de uma hora após o ocorrido, as forças militares hutus começaram a verificar as carteiras de identidade dos cidadãos, matando todos aqueles cuja origem era tutsi, dando início a um grande massacre. (KRIEGER, 2004, p. 160).

Após uma campanha de genocídio, que resultou em oitocentos mil a um milhão de massacrados tutsis e hutus por pessoas da etnia hutu, o Conselho de Segurança resolveu criar um tribunal internacional para julgar estes crimes. (DELGADO; TIUJO, 2004, p. 62).

O Tribunal Penal Internacional para Ruanda foi criado para julgar as pessoas envolvidas nas atrocidades cometidas em 1994, no mesmo país. Também teve origem em

(27)

razão de disputas étnicas no local. O procedimento utilizado foi muito semelhante àquele do Tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia. (JAPIASSÚ, 2009, p. 96).

Pertinente, neste ponto, é o comentário de Jankov (2009, p. 28):

Em novembro de 1994, atendendo a uma solicitação da Ruanda, o Conselho de Segurança deliberou pela criação de um segundo tribunal ah hoc, encarregado de processar e julgar as graves violações do direito humanitário cometidas na Ruanda e nos países vizinhos durante o ano de 1994. Seu Estatuto assemelha-se ao do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, entretanto os dispositivos relativos aos crimes de guerra, por refletirem o contexto de um conflito armado eminentemente interno, afastam as graves violações das Convenções de Genebra.

Contudo, este Tribunal para Ruanda estava restrito aos crimes que ocorreram no território de Ruanda ou contra os seus cidadãos que foram responsáveis pelos crimes ocorridos nos países vizinhos, perpetrados entre 1º de janeiro 1994 e 31 de dezembro do mesmo ano, época em que o grupo étnico tutsi e simpatizantes foram massacrados por pessoas pertencentes ao grupo étnico hutu. (LIMA; BRINA, 2006, p. 36).

Vale ressaltar, da obra de Delgado; Tiujo (2004, p. 62), que:

O exemplo de Ruanda é ilustrativo, ao demonstrar que a justiça internacional penal não pode ser vista como um substituto da intervenção preventiva. Ela somente tem sentido se for um complemento de uma ação internacional, política ou militar, efetiva que consiga salvaguardar a vida do maior número de pessoas; não o será nunca como um aplacar de consciências depois da permissão tácita de genocídio.

Deve-se ter em mente ainda que o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia e o Tribunal Penal Internacional para Ruanda possuem diferentes Estatutos, todavia com algumas características em comum, tais como um Promotor e uma Câmara de Apelação, como também as regras de procedimento e de evidência são iguais. Contudo, em Ruanda, o próprio governo foi quem requereu a instauração do Tribunal, de modo que também pôde intervir na criação do seu Estatuto, logo não havia como alegar nenhuma ameaça a sua soberania. (LIMA; BRINA, 2006, p. 36).

Mesmo que o Conselho de Segurança tenha como função a manutenção da paz, não significa que ele tenha legitimidade para criar tribunais internacionais. Logo, ao tomar para si esta competência, o Conselho de Segurança está imputando um poder que não lhe foi atribuído pela Carta das Nações Unidas. Neste sentido, os tribunais internacionais ad hoc para a ex-Iugoslávia e para Ruanda representam uma invasão do Poder Executivo na esfera jurisdicional e legislativa. Além do mais, as acusações e julgamentos podem ser seletivos de

(28)

acordo com a nacionalidade, grupo étnico ou político aos quais pertencem os indivíduos. (LIMA; BRINA, 2006, p. 38-39).

A criação de ambos os Tribunais ad hoc deu-se em virtude de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com fulcro no Capítulo VII da Carta da ONU. (PIOVESAN, 2006b, p. 41).

Nos dizeres de Maia (2001, p. 55) “pode-se dizer que as experiências passadas com tribunais ad hoc confirmaram a necessidade de um sistema permanente de justiça criminal internacional”.

É oportuno registrar ainda que o Tribunal Penal Internacional da antiga Iugoslávia e o Tribunal Internacional de Ruanda não tenham sido um sucesso absoluto, o seu funcionamento auxiliou as partes a chegarem a um consenso sobre o Tribunal Penal Internacional em Roma. (BOTTINI, 2004, p. 504).

Enfatiza, ainda, Maia (2001, p. 120):

Sem dúvida, as definição dos elementos dos crimes constituem uma das contribuições mais importantes dos tribunais ad hoc para o Comitê Preparatório, estabelecendo no final da Conferência de Roma, com mandato para definir os elementos dos crimes previstos pelo Estatuto do TPI.

Mister se faz ressaltar que, simultaneamente com o surgimento da jurisdição penal internacional por meio do estabelecimento do Tribunal Penal para a antiga Iugoslávia e, posteriormente, para Ruanda, ocorreu também uma expansão na cooperação internacional entre os Estados, referente a assuntos criminais. (TALLGREEN, 2002, p. 563).

Como se pode perceber no entendimento de Maia (2001, p. 114):

Apesar das dificuldades encontradas quanto à cooperação, os tribunais ad hoc têm buscado contornar o problema procurando, junto às autoridades de outros Estados, a adaptação da legislação de países próximos à ex-Iugoslávia para que sejam compatíveis com a do Tribunal.

Leciona Piovesan (2006b, p. 43) que “até a aprovação do Estatuto de Roma, que instituiu o Tribunal Penal Internacional, o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e controle dos direitos humanos, não dispondo de um aparato de garantia desses direitos”.

(29)

Desse modo, não há no sistema global, até o momento, um Tribunal Internacional de Direitos Humanos que, na qualidade de órgão jurisdicional, tenha a competência para julgar casos de violações de direitos humanos, enunciados em tratados internacionais de âmbito global, proferindo decisões juridicamente vinculantes. (PIOVESAN, 2006b, p. 45).

Sinale-se, ainda, que, com a criação destes Tribunais Internacionais, desde Nuremberg e Tóquio, como também da antiga Iugoslávia e Ruanda, passou a existir, no âmbito internacional, o jus puniendi direto ao indivíduo que violou os Direitos Humanos fundamentais. (CASSESE, 1998, p. 4).

Dessume-se, diante deste quadro que:

A impunidade dos autores de graves violações dos direitos humanos tem dimensões éticas, políticas e jurídicas. E, quando essas violações ocorrem de maneira reiterada, fica muito difícil a convivência pacífica entre os seres humanos. A história ensina que a impunidade desses violadores abre portas às piores condutas e aos crimes mais hediondos contra os direitos humanos. Durante muito tempo, milhões de pessoas foram e têm sido vítimas de atrocidades, com a impunidade de muitos criminosos. O triste precedente contribui para que seus autores sigam atentando contra a vida e outros direitos fundamentais. (MAIA, 2001, p. 27).

Todos estes Tribunais mencionados fizeram mais do que simplesmente oferecer um precedente legal para guiar o projeto do Estatuto de Roma. Eles também representaram um modelo de como poderia parecer um Tribunal Internacional. (SCHABAS, 2004, p. 13).

A partir desta reflexão, pode-se dizer que:

Sem dúvida, a experiência positiva dos tribunais para a ex-Iugoslávia e Ruanda, através da evolução de sua prática, tem mostrado à comunidade internacional que é possível uma justiça internacional que não seja imposta pelos vencedores aos vencidos e, acima de tudo, que o indivíduo é, sim, responsável pelos crimes praticados contra os direitos humanos e o direito internacional humanitário, o que abre portas para as discussões que foram levadas a cabo na Conferência de Roma para o estabelecimento de um sistema penal internacional permanente. (MAIA, 2001, p. 123).

Ambos os Tribunais são classificados como as primeiras jurisdições realmente internacionais. Em virtude de não serem criados pelos vitoriosos e sim pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, restou evidenciado anseio da comunidade internacional pelo julgamento dos responsáveis por crimes concernentes ao Direito Humanitário Internacional. (LA ROSA, 1998, p. 61).

Desta maneira, os Tribunais ad hoc para a ex-Iugoslávia e para Ruanda foram fundamentais para a propagação dos Direitos Humanos, o que, por conseguinte, cooperou também a instituição de uma justiça penal internacional. (CASSESE, 2003, p. 335).

(30)

Diante destas colocações, constata-se que todos estes acontecimentos ao longo da história contribuíram para a consolidação de um Tribunal Penal Internacional de caráter permanente.

(31)

3 TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL E O ESTATUTO DE ROMA

No presente capítulo, será tratado o Tribunal Penal Internacional e o Estatuto de Roma, considerando a sua criação, jurisdição e competência, estrutura e funcionamento, as sanções admitidas e a cooperação dos Estados Partes. Para realizar esta tarefa, serão utilizadas como referência as Convenções de Genebra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Estatuto de Roma de 1998, a Carta da ONU e os princípios gerais de Direito Penal e Direito Internacional.

3.1 CRIAÇÃO

Apenas declarar o reconhecimento, a existência e a necessidade dos Direitos Humanos não era o suficiente na esfera internacional. Era imprescindível que se criasse órgãos e mecanismos para tutelar e aplicar este direito. (FRENEDA, 2006, p. 69).

Em razão da criação de tribunais internacionais de variadas natureza fomentadas pela sociedade internacional, para resolver questões diversas que dizem respeito às relações internacionais, compreendeu-se o anseio pela criação de uma Justiça Penal Internacional legítima e digna para proteger os direitos humanos no contexto internacional. Em resposta a este anseio da sociedade internacional, criou-se o Tribunal Penal Internacional, a partir do Estatuto de Roma de 1998. (MAZZUOLI, 2005, p. 30-32).

O autor também anuncia que:

Trata-se da primeira instituição global permanente de justiça penal internacional para processar e julgar os chamados crimes internacionais, entendendo-se como tais as violações das obrigações essenciais para a manutenção da paz e da segurança da sociedade internacional em seu conjunto. (MAZZUOLI, 2005, p. 32).

Em 1992, a Assembleia Geral das Nações Unidas pede à Comissão de Direito Internacional que seja elaborado um projeto de Estatuto para um Tribunal Penal Internacional, o qual é submetido à Assembleia Geral em 1994. Em dezembro deste mesmo ano, criou-se um Comitê, aberto a todos os Estados Partes, para discutir as questões principais do projeto e, em dezembro do ano posterior, foi nomeado pela Assembleia Geral um Comitê Preparatório para a criação do TPI, o qual levou em consideração o trabalho da Comissão de Direito Internacional, a experiência dos tribunais ad hoc e outros estudos. Desta maneira, foi elaborado o Estatuto objeto da Conferência de Roma. (GORAIEB, 2003, p. 246-247).

(32)

Em síntese, demonstra Goraieb (2003, p. 247):

O Tribunal Penal Internacional, instituído pelo Estatuto de Roma, na Conferência Diplomática de Plenipotenciários das Nações Unidas, contou com a participação de 160 países, 17 organizações intergovernamentais, 14 agências das Nações Unidas e 124 organizações não-governamentais. O Estatuto da Corte Penal Internacional foi aprovado, em 17 de julho de 1998, com 120 votos a favor, 7 votos contrários (Estados Unidos, China, Israel, Índia, Barhein, Qatar e Vietnam), havendo 21 abstenções.

O poder e a legitimidade das normas do Estatuto de Roma teve como base a teoria da jurisdição universal interestadual, que derivou da ideia de que quando a atividade criminal atinge certo nível de prejuízo – representado como uma noção de “gravidade” no Estatuto – ou ameaçam os interesses da sociedade internacional, todos os Estados deverão aplicar as suas leis e agir. Esta noção de universalidade de jurisdição foi transformada pelo Estatuto de Roma, permitindo que a comunidade internacional aplique suas leis em territórios nacionais, de forma a suplementar as leis internas. (SADAT, 2008, p. 316-317).

O Tribunal Penal Internacional foi criado com diferentes necessidades e procedimentos dos Tribunais ad hoc. O Estatuto de Roma tem um grande contraste com os estatutos dos Tribunais ad hoc, em razão de contemplar detalhes não apenas ao direito material, mas também ao direito processual. (BOAS et al., 2011, p. 38).

O Estatuto de Roma também traz inovações a partir da mistura dos procedimentos do common law4 com o direito civil, na tentativa de unir elementos de ambas as tradições em um sistema autônomo, para as necessidades da justiça penal internacional. (SADAT, 2008, p. 317).

As regras do Tribunal Penal Internacional foram preparadas e finalizadas pela Comissão Preparatória na Conferência de Roma, e foram baseadas em projetos iniciados na delegação australiana e uma resposta detalhada preparada pela França, de forma que representam, em maneira conjunta, as duas formas predominantes de sistemas jurídicos. (BOAS; BISCHOFF; REID; TAYLOR III, 2011, p. 39).

O TPI é talvez uma das mais inovadoras criações no âmbito do Direito Internacional desde a criação da ONU. O Estatuto de Roma é um dos instrumentos internacionais mais difíceis de serem negociados, em razão de combinar o direito penal comparado com uma série de propostas políticas que tratam da soberania de cada Estado-nação. (SCHABAS, 2004, p. 25).

4

(33)

3.2 JURISDIÇÃO E COMPETÊNCIA

A jurisdição do Estatuto de Roma refere-se aos parâmetros de competência do Tribunal em razão da matéria (competência ratione materiae5), tempo (competência ratione temporis6), espaço (competência ratione loci7) e sobre os indivíduos (competência ratione personae8). A seguir, será explanado a respeito de cada um deles. (SCHABAS, 2004, p. 68).

3.2.1 Competência ratione temporis

No que se refere, em primeiro lugar, à competência ratione temporis, há que se dizer que esta limita-se aos atos cometidos depois da entrada em vigor do Estatuto de Roma, conforme disposto no seu artigo 11. Nos casos em que o Estado venha a ratificar o Estatuto depois da sua entrada em vigor, a parte 2 do artigo 11 narra que o TPI poderá exercitar a sua jurisdição apenas aos fatos ocorridos depois da entrada em vigor do Estatuto no respectivo Estado em questão. (MORI, 2001, p. 146).

O artigo 22 do Estatuto consagra o princípio do nullum crimen sine lege, quando afirma que nenhuma pessoa será responsabilizada criminalmente sob o Estatuto, a não ser que a conduta em questão constitua, na época do ocorrido, um crime de competência do Tribunal. Há uma disposição análoga a esta no artigo 24, na qual afirma o princípio da não retroatividade ratione personae das normas estatutárias, afirma-se a irresponsabilidade do indivíduo sob este Estatuto, pelos fatos cometidos anteriormente à sua entrada em vigor. (MORI, 2001, p. 147).

A impossibilidade do TPI de exercitar a sua jurisdição sobre fatos e pessoas ocorridos posteriormente a sua entrada em vigor pelo Estado não exclui a possibilidade destes mesmos fatos e pessoas serem objetos de investigação e julgamento por um tribunal nacional ou de outra jurisdição internacional, nos limites das suas respectivas competências. (MORI, 2001, p. 147).

Não se pode confundir competência ratione temporis com a questão da retroatividade dos crimes. Os Direitos Humanos Internacionais considera a proibição da

5

Ratione materiae: em razão da matéria (CARLETTI, 1997, p. 174).

6

Ratione temporis: em razão do tempo (CARLETTI, 1997, p. 174).

7

Ratione loci: em razão do lugar (CARLETTI, 1997, p. 173).

8

(34)

retroatividade dos crimes como um dos seus princípios fundamentais. Mais conhecido como nullum crimen sine lege, este princípio não permite o julgamento de crimes que não foram reconhecidos como tal na época em que foram cometidos. (SCHABAS, 2004, p. 70).

Neste sentido, o Estatuto do TPI parece ser um sistema fechado e próprio, no qual o princípio nullum crimen sine lege determina com precisão a relação de competência temporal, material, imputabilidade do fato e vigência do Estatuto. (MORI, 2001, p. 149).

3.2.2 Competência ratione loci

Está disposto no artigo 12 do Estatuto que o TPI tem competência para exercer a sua jurisdição sobre crimes cometidos no território de qualquer um dos Estados Partes, independente da nacionalidade daquele que o praticou, estendendo-se também para os delitos praticados em embarcações e aeronaves registrados por um destes Estados. (SCHABAS, 2004, p. 78).

Caso ocorra um crime em alto-mar, na Antártida ou no espaço cósmico, a jurisdição será estabelecida com base na nacionalidade do agressor. (SCHABAS, 2004, p. 78).

À guisa desses elementos, são as palavras de Lima e Brina (2006, p. 142):

Desse modo, o campo de incidência territorial, no caso específico do TPI, ficou restrito aos Estados signatários do Tratado de Roma nos quais tenham sido cometidos atos delituosos; ou, se a bordo de um navio ou aeronave, o Estado de sua respectiva matrícula.

Por outro lado, cabe também ao TPI julgar os delitos que forem cometidos por um nacional de um de seus Estados Partes, mesmo que o território no qual foi ocorrido o crime não faça parte do Estatuto, conforme será visto a seguir. (LIMA; BRINA, 2006, p. 143).

3.2.3 Competência ratione personae

Diferente dos Tribunais ad hoc, o Estatuto do TPI não contém nenhuma disposição específica que defina a competência ratione personae. Aparece de maneira muito ampla na norma contemplada no artigo 1º, segundo o qual o Tribunal poderá exercer a sua competência em relação às pessoas pelos crimes mais graves na esfera internacional. Outros elementos que definem esta competência podem ser encontrados em outras disposições, como, por exemplo, a do artigo 25, que, no quadro do capítulo III, relativo aos princípios

(35)

gerais de Direito Penal, afirma que o Tribunal terá competência sobre pessoas naturais, excluindo a possibilidade de considerar criminalmente responsáveis as pessoas jurídicas. (MORI, 2001, p. 150).

É igualmente relevante para a competência ratione personae do TPI, o artigo 26 do Estatuto, no qual refere-se aos menores de idade e dispõe que o TPI não haverá competência para julgar pessoas com menos de 18 anos na época em que o crime foi cometido. O artigo em questão considera a idade um elemento de definição de competência do Tribunal, ao invés de considerá-la uma causa de imputabilidade do fato ou sujeição da pena a um regime especial. (MORI, 2001, p. 153).

Desta maneira, ao considerar o TPI incompetente para julgar pessoas que não tenham completado 18 anos na época dos fatos, foi possível superar o problema da idade mínima da responsabilidade penal, matéria em que há uma grande variação nas legislações nacionais. (MORI, 2001, p. 153).

Em decorrência da extensão da jurisdição, Delgado e Tiujo (2004, p. 77) narram:

A extensão da jurisdição somente pode acontecer para territórios de Estados que não fazem Parte do Estatuto se os crimes forem cometidos por um nacional de um Estado Parte (art. 12.2, b, ETPI) o se, por outro lado, a questão for submetida, ad

hoc, por um Estado não-Parte com competência territorial ou de acordo com a

nacionalidade do acusado, para ser julgada no TPI (art. 12.3, ETPI; regra 44, RP/TPI).

Consigne-se, por derradeiro, que os crimes cometidos no território de um dos Estados Partes ou por um dos seus nacionais, poderão ser casos de competência do TPI. (SCHABAS, 2004, p. 67).

3.2.4 Competência ratione materiae

Diferente do Projeto elaborado pela Comissão de Direito Internacional – o qual não definia os crimes de competência do Tribunal Penal Internacional, se limitando apenas a enumerá-los –, o Estatuto de Roma tipifica e define os crimes de sua competência, constituindo, assim, um Código Criminal Internacional. (GORAIEB, 2003, p. 275).

A competência ratione materiae, disposta no artigo 5º do Estatuto, narra que a jurisdição do TPI é limitada aos mais sérios crimes na esfera internacional. (MORI, 2001, p. 152).

(36)

No mesmo artigo 5º, estão elencados os crimes de competência do TPI, no qual observa-se uma limitação apenas aos mais sérios crimes que refletem o direito internacional geral, que são: o crime de genocídio, os crimes contra a humanidade, os crimes de guerra e o crime de agressão. (MORI, 2001, p. 153).

Esta limitação parece confirmar uma tendência que já era aparente nos Estatutos dos Tribunais ad hoc, ao configurar a jurisdição penal internacional como relacionada, se não exclusivamente, principalmente às situações que colocam em perigo a paz ou constituem uma ruptura da paz e, em última análise, intimamente ligadas ao direito dos conflitos armados. (MORI, 2001, p. 155).

3.2.4.1 Genocídio

A Convenção de Genebra de 1948 é um dos acordos internacionais que coletou o maior número de adesões por parte dos Estados. Os princípios ali previstos são reconhecidos pelas Cortes Internacionais de Justiça como parte do Direito Internacional geral, em 1951, no parecer sobre Reservas à Convenção pela prevenção e punição do crime de genocídio. (MORI, 2001, p. 158-159).

O artigo 6º do Estatuto de Roma repete os mesmos termos descritos na Convenção de Genebra sobre genocídio, identificando-a como uma série de atos de violência cometidas com a intenção de destruir uma nacionalidade, etnia, raça ou grupo religioso. Estes atos de violência podem ser classificados como matar membros dos grupos, causar graves lesões corporais ou mentais aos membros do grupo, impor condições ao grupo com a intenção de destruir, proibir que ocorram nascimentos no grupo e transferir crianças de um grupo com uso de força. (SCHABAS, 2004, p. 37-38).

Mesmo que a definição internacional de genocídio tenha permanecido formalmente inalterada desde a Convenção de Genebra em 1948, houve uma evolução do seu conceito, em virtude de interpretações jurisprudenciais nacionais e internacionais. Nas jurisprudências recentes, é possível notar uma evolução a respeito de algumas problemáticas fundamentais na interpretação do genocídio, quais os mecanismos de identificação do grupo tutelado e a precisão do conteúdo e da modalidade de apreciação de probatória da intenção de destruir. (FRONZA, 2006, p. 316).

Relativo especificamente ao crime de genocídio, o Estatuto também declara responsável penalmente o sujeito que, diretamente e publicamente, incentiva os outros a

Referências

Documentos relacionados

costumes aplicávei s em conflitos armados”, são estudados pelo art. Segundo o § 1º, desse dispositivo, o Tribunal terá competência para julgar os crimes de

Com o crescente volume de trabalho do Tribunal, todos os esforços de cooperação são fundamentais para a credibilidade do Tribunal e para que o tpi desempenhe o papel que lhe

Considerando-se que é bastante improvável que todas as nações se tornem partes do Estatuto de Roma, referida delegação da jurisdição do Tribunal Penal Internacional sobre

Reitera a necessidade de a UE e os seus Estados-Membros incrementarem os seus esforços diplomáticos junto dos países não Partes no Estatuto de Roma e das organizações regionais (p.

O fato ainda de os EUA não ratificarem o Estatuto de Roma, de maneira a manter seus nacionais longe do alcance do tribunal, mas poder se valer de sua posição como membro permanente

O tribunal especial ad hoc da antiga Iugoslávia, que foi sediado em Haia, com sua competência desenhada pelo seu Estatuto, para julgar as infrações graves à Convenção

causa. Os Estados Partes darão satisfação aos pedidos de detenção e de entrega em conformidade com o presente Capítulo e com os procedimentos previstos nos respectivos

Damasceno e Silva (2016) relatam que o Tribunal Penal Internacional tem sua sede na cidade Haia, na Holanda, sendo que este é um tribunal permanente e sua jurisdição é