UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA RENATA MACHADO PEREIRA
O SERVIÇO SOCIAL NO ICOM - INSTITUTO COMUNITÁRIO GRANDE FLORIANÓPOLIS: DEMONSTRANDO A IMPORTÂNCIA DA IDENTIFICAÇÃO DAS NECESSIDADES E POTENCIALIDADES A PARTIR DO MAPEAMENTO DAS ORGANIZAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS NO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS,
PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL LOCAL
Palhoça 2009
RENATA MACHADO PEREIRA
O SERVIÇO SOCIAL NO ICOM - INSTITUTO COMUNITÁRIO GRANDE FLORIANÓPOLIS: DEMONSTRANDO A IMPORTÂNCIA DA IDENTIFICAÇÃO DAS NECESSIDADES E POTENCIALIDADES A PARTIR DO MAPEAMENTO DAS ORGANIZAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS NO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS,
PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL LOCAL
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de graduação em Serviço Social, da Universidade do Sul de Santa Catarina – Pedra Branca, como requisito parcial à obtenção de título de Bacharel em Serviço Social.
Orientadora: Profª Regina Panceri, Dra.
Palhoça 2009
RENATA MACHADO PEREIRA
O SERVIÇO SOCIAL NO ICOM - INSTITUTO COMUNITÁRIO GRANDE FLORIANÓPOLIS: DEMONSTRANDO A IMPORTÂNCIA DA IDENTIFICAÇÃO DAS NECESSIDADES E POTENCIALIDADES A PARTIR DO MAPEAMENTO DAS ORGANIZAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS NO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS,
PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL LOCAL.
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Serviço Social e aprovada em sua forma final pelo Curso de Serviço Social, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Palhoça, 23 de junho de 2009.
____________________________________ Profª e orientadora Regina Panceri, Dra.
Universidade do Sul de Santa Catarina
____________________________________ Profª Darlene de Morais Silveira, Dra. Universidade do Sul de Santa Catarina
____________________________________ Lucia Gomes Vieira Dellagnelo, Dra.
Dedico o presente trabalho à minha família. Aos meus pais Renaldo e Teresinha, que me ensinaram o verdadeiro sentido da palavra amor e pelo apoio incondicional, sempre. À minha linda afilhada Sabrina (in memorian) por seu eterno carinho. E ao meu namorado André, por estar sempre ao meu lado.
AGRADECIMENTOS
A Deus, o maior Mestre de todas as obras, que me protege todos os dias e que me tem dado tantas coisas.
Esta é mais uma etapa da minha vida que não concluí sozinha. Àqueles que caminharam comigo, meus sinceros agradecimentos:
Aos meus pais Renaldo e Teresinha pelo amor incondicional, estímulo, amizade e esforços empreendidos para viabilizar meus estudos; aos meus irmãos, Rodrigo e Junior simplesmente por fazerem parte da minha vida.
À minha amada afilhada Sabrina (in memorian), por todo seu carinho, pelos momentos de alegria maravilhosos e seu sorriso contagiante.
A André, por seu apoio incondicional e pela sua dedicação. Por estar sempre ao meu lado. Por me fazer feliz.
Aos demais familiares, que acompanharam, torceram, vibraram e comemoraram cada etapa vencida.
Aos professores da Universidade do Sul de Santa Catarina, na qual me graduei, também responsáveis por essa conquista. De forma especial à professora e doutora Regina Panceri, por sua dedicação, sua confiança, seu apoio intelectual, por seus ensinamentos e sua paciência.
Aos colegas do ICom, ao Anderson, à Carolina, Israel, Ana Maria, Ester, Patrícia e à Lúcia. Todos contribuíram para o meu fortalecimento moral no dia-a-dia.
À Lúcia Dellagnelo, coordenadora geral do ICom, pelas oportunidades, apoio, orientações diversas e informações complementares sobre a instituição. Também, pela honra que me concedeu ao aceitar o convite para participar, como membro-convidado, da banca do trabalho de conclusão de curso.
À professora doutora Darlene de Moraes Silveira, pelas avaliações e contribuições como membro da banca do trabalho de conclusão de curso.
Ser aluno é uma delícia. Ter amigos em sala de aula é melhor ainda. Aos amigos do curso, Amilton, Ana Paula, Sibele, Raquel Solange, Rosana, Raquel Vieira, Mônica, e em especial, a Karini e Claudia, com quem tive convivência maior, dividi as angústias e descobri novos caminhos. Os momentos deliciosos que passei com todos, de aprendizagem e companheirismo, já deixam saudades...
Enfim, agradeço profundamente àqueles que me incentivaram e que comigo colaboraram nesse processo de pesquisar e também das experiências práticas e teóricas do Serviço Social.
RESUMO
Este trabalho privilegia as questões pertinentes ao mapeamento das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis a partir da prática profissional do Serviço Social no ICom – Instituto Comunitário Grande Florianópolis. O tema da identificação das necessidades e potencialidades das Organizações Não Governamentais, bem como do Terceiro Setor, é relevante em nossos dias. Numa era em que adquirem maior relevância, as organizações do Terceiro Setor, assumindo a função de defender direitos e deveres da população socialmente vulnerável e, também, como um espaço sócio ocupacional importante para o assistente social. Deste modo, o presente estudo apresenta a caracterização da organização, referencial teórico sobre Terceiro Setor, Fundação Comunitária e Serviço Social, bem como a análise das ONGs participantes do projeto mapeamento por meio da identificação de suas necessidades e perfil para, posteriormente, visar a implementação, monitoramento e acompanhamento de projetos que objetivam o desenvolvimento social local, exercendo um trabalho com compromisso e responsabilidade voltado para a garantia dos direitos da população atendida. Para o desenvolvimento do tema, além do referencial teórico utilizado, realizou-se o mapeamento propriamente dito e o cadastramento das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis, mediante o emprego de entrevista estruturada e preenchimento de formulário, com o intuito de identificar as necessidades e potencialidades das organizações do Terceiro Setor. O resultado e a análise compõem o referido trabalho.
Palavras-chave: Mapeamento. Terceiro Setor. Fundação Comunitária. Serviço Social.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Organograma 1 – Estrutura de Gestão 2005-2008 ... 48
Gráfico 1 – Resultado do mapeamento por área de atuação ... 84
Gráfico 2 – Público que atende ... 87
Gráfico 3 - Principal contribuição da ONG para a cidade ... 89
Gráfico 4 – ONGs que estabelecem parcerias ... 90
Gráfico 5 – Principal fonte de renda das ONGs ... 92
Gráfico 6 – Volume de recursos movimentados por ano ... 93
Gráfico 7 - ONGs que possuem sede ... 94
Gráfico 8 – Equipe ... 95
LISTA DE SIGLAS
APABB - Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência de Funcionários do Banco do Brasil e da Comunidade
BNH - Banco Nacional de Habitação
CAPs - Caixas de Aposentadorias e Pensões
CEBAS - Certificado de entidade beneficente de assistência social CEMPRE - Cadastro Central de Empresas
CF 88 - Constituição Federal de 88
CIDES - Comissão Interministerial de Desenvolvimento Sustentável CLT - Consolidação das Leis Trabalhistas
CNAS - Conselho Nacional de Assistência Social CRAS - Centro de Referência da Assistência Social DLIS - Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente
FASFIL - Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos FIESC – Federação das indústrias do Estado de Santa Catarina FMSS - Fundação Mauricio Sirostky Sobrinho
GMM - Geração MudaMundo
IAPs - Instituto de Aposentadorias e Pensões IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis IDES - Irmandade do Divino Espírito Santo
IDH - Índice de desenvolvimento humano IGK - Instituto Guga Kuerten
INPS - Instituto Nacional de Previdência Social INSS - Instituto Nacional do Seguro Social IVA - Instituto Voluntários em Ação
LBA - Legião Brasileira de Assistência LOAS - Lei Orgânica da Assistência Social Mobral - Movimento Brasileiro de Alfabetização NGO’s - Non-Governmental Organizations ONGs – organizações não governamentais
OS - Organizações Sociais
OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público PDI - Planos de Desenvolvimento Institucional
PIB - Produto Interno Bruto Municipal
PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PSF – Programa Saúde da Família
SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SESI - Serviço Social da Indústria
SUS - Sistema Único de Saúde
UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 12
2 SEGMENTO: TERCEIRO SETOR ... 16
2.1 ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR: QUESTÕES QUE DESAFIAM A PRÁTICA PROFISSIONAL COTIDIANA ... 16
2.1.1 Dimensão histórica do Terceiro Setor ... 16
2.1.1.1 Fase de 1930 a 1964... 17
2.1.1.2 Anos 1964 a 1985 ... 19
2.1.1.3 Anos 1985 até 2008 ... 21
2.1.2 Constituição do Terceiro Setor ... 24
2.2 FUNDAÇÃO COMUNITÁRIA E A ÊNFASE NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL LOCAL. ... 29
2.2.1 Fundação Comunitária ... 29
2.2.2 Articulação da rede social local ... 34
3 CARACTERIZAÇÃO DO ESPAÇO INSTITUCIONAL LOCAL ... 39
3.1 CONTEXTUALIZAÇÃO BREVE DO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS ... 39
3.2 CONTEXTUALIZAÇÃO ORGANIZACIONAL: ICOM – INSTITUTO COMUNITÁRIO GRANDE FLORIANÓPOLIS ... 43
3.3 PROJETOS SOCIAIS... 49
3.3.1 Projeto: Guia do Terceiro Setor na Grande Florianópolis ... 49
3.3.2 Projeto Fortalecer ... 50
3.3.3 Projeto Sinais Vitais: check up anual da cidade ... 52
3.3.4 Projeto Fundo Comunitário para Empreendedorismo Social Jovem ... 53
3.3.5 Fundo Vonpar de Investimento Social no ICom ... 54
3.3.6 Projeto Transparência... 54
3.3.7 Projeto Fundo de Incentivo à Implementação dos Planos de Desenvolvimento Institucionais ... 56
3.3.8 Fundo Comunitário para Reconstrução ... 57
4 O SERVIÇO SOCIAL E SUA CONTRIBUIÇÃO NO ICOM - INSTITUTO COMUNITÁRIO GRANDE FLORIANÓPOLIS ... 59
4.1 SERVIÇO SOCIAL BREVE RELATO DO SURGIMENTO ... 59
4.3 SERVIÇO SOCIAL NO TERCEIRO SETOR E NO ICOM ... 65
4.4 EXERCÍCIO DA PRÁTICA PROFISSIONAL NO ICOM - INSTITUTO COMUNITÁRIO GRANDE FLORIANÓPOLIS ... 70
5 MAPEAMENTO DAS ORGANIZAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS DE FLORIANÓPOLIS: NECESSIDADES E POTENCIALIDADES. ... 79
5.1 DESENVOLVIMENTO DO PROJETO ... 79
5. 2 RESULTADO DO MAPEAMENTO DAS ONGS DO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS ... 82 5.2.1 Abrangência ... 83 5.2.2 Potencialidade ... 88 5.2.3 Recursos ... 92 5.2.4 Necessidades ... 96 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 99 REFERÊNCIAS ... 103 ANEXOS ... 110
ANEXO A – Linha do tempo da organização ICom ... 111
1 INTRODUÇÃO
Pretende-se, com este Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), apresentar a sistematização da prática profissional do Serviço Social desenvolvida durante estágio curricular no ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis, bem como a pesquisa e o estudo realizados sobre o mapeamento das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis.
Portanto, a finalidade deste estudo é acrescentar conhecimentos na perspectiva de gerar informações sobre os resultados da pesquisa de campo em Serviço Social.
Este estudo foi desenvolvido na instituição social ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis, associação civil, sem fins lucrativos, qualificada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), inspirada no modelo de fundações comunitárias, voltadas para mobilização e articulação de investimentos sociais de diversos doadores em prol de iniciativas sociais locais.
O instituto, considerado uma organização do terceiro setor, tem como uma de suas estratégias para o desenvolvimento social local conhecer a realidade em que está inserido, identificando as potencialidades, capacidades, necessidades das organizações sem fins lucrativos de sua área de atuação.
O terceiro setor, formado por uma gama de instituições (associações, organizações sem fins lucrativos, ONGs – organizações não governamentais, fundações privadas, entidades beneficentes, ação social, entre outras), que expressam a sociedade civil organizada, nos atendimentos de interesse público em diferentes áreas e segmentos, teve crescimento exponencial no final da década de 80 e início da década de 90.
Em 2002 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou um estudo sobre o Terceiro Setor, identificando as fundações privadas e associações sem fins lucrativos em todo o Brasil. Os dados referentes à Grande Florianópolis, que abrangem os municípios de Águas Mornas, Antonio Carlos, Biguaçu, Florianópolis, Governador Celso Ramos, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, São José e São Pedro de Alcântara, mostram a existência de 1700 organizações sem fins lucrativos atuando na região.
Entretanto, não existe um cadastro único da localização e do que fazem estas organizações sem fins lucrativos. Cadastro que, por município, abranja as diversas áreas como educação, assistência social, cultura e arte, habitação, esporte, meio ambiente, proteção animal, idoso, promoção da defesa dos direitos e saúde é fundamental para as três esferas da sociedade.
Considera-se que a sociedade está estruturada a partir de três grandes setores: o Governo (primeiro setor), o Privado (segundo setor) e as Organizações sem fins lucrativos (terceiro setor). Para o governo, sua importância reside no fato de grande parte destas organizações receberem subsídios públicos e serem co-executoras de políticas públicas. Já, para o setor privado, é necessário conhecer os ativos existentes na comunidade e os potenciais parceiros de seus programas de responsabilidade social. Mas, talvez o maior beneficiado seja o próprio terceiro setor local, que necessita conhecer os membros desta grande rede de organizações para estabelecer parcerias e potencializar o impacto de seu trabalho.
A possibilidade da criação deste cadastro surgiu a partir da experiência da prática profissional vivenciada no campo de estágio no ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis, além das disciplinas cursadas no curso de Serviço Social cujos conteúdos possibilitaram perceber a importância do mapeamento e da identificação das necessidades e potencialidades das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis, para o desenvolvimento social local.
Ressalta-se que foi elaborado o projeto e realizada a pesquisa de campo sobre o mapeamento com o objetivo de identificar as necessidades e potencialidades das organizações existentes no município delimitado.
O desenvolvimento social local só é proporcionado a uma determinada comunidade após o conhecimento do seu contexto, ou seja, a percepção de suas fragilidades e forças. Contudo, a pesquisa sobre o mapeamento das organizações sem fins lucrativos da cidade de Florianópolis possibilita ao ICom elaborar, executar e avaliar projetos que visem o desenvolvimento sustentável local.
Considera-se que o profissional de Serviço Social, inserido em espaços ocupacionais vinculados às organizações sem fins lucrativos, desempenha um importante papel como pesquisador, tendo a pesquisa como um dos instrumentais de trabalho para intervir na realidade social, contribuindo, assim, com propostas criativas e inovadoras, capazes de impulsionar a realização de mudanças pretendidas pela instituição, neste caso o ICom.
Portanto, torna-se de fundamental importância, para o ICom, disponibilizar os resultados do mapeamento das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis, na medida em que o assistente social contribui para a implementação, monitoramento e acompanhamento de projetos que visam o desenvolvimento social local, exercendo um trabalho com compromisso, ética e responsabilidade voltado para defesa e garantia dos direitos da população atendida.
Para tanto, baseia-se em aparatos legais como a Constituição Federal de 1988, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), o Estatuto do Idoso, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Orgânica da Saúde, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Política Nacional da Assistência Social (PNAS), Código de Ética Profissional do Assistente Social, e outros.
Sendo assim, o tema de estudo proposto para o presente trabalho é sobre O Serviço Social no ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis: demonstrando a importância da identificação das necessidades e potencialidades a partir do mapeamento das organizações sem fins lucrativos no município de Florianópolis, para o desenvolvimento sustentável local.
Para o Serviço Social, a criação de um cadastro único é importante, pois possibilita a identificação das necessidades e potencialidades dessas organizações e, após essa constatação, torna-se possível estabelecer ações de forma planejada mantendo posturas reflexivas, críticas e construtivas, visando o processo de fortalecimento das comunidades do município de Florianópolis com vistas a seu desenvolvimento social.
O referido trabalho está organizado em cinco capítulos, considerando-se como primeiro capítulo a introdução; o segundo capítulo aborda a dimensão histórica do Terceiro Setor já que esta terminologia é relativamente recente; apareceu no Brasil aproximadamente nas últimas décadas e é utilizada para situar um setor que está entre a esfera pública e o mercado. Nessa perspectiva o trabalho relata brevemente a contextualização do Terceiro Setor dos anos de 1930 até o ano de 2008 e a sua constituição. Em relação ao importante crescimento das organizações do terceiro setor nas últimas décadas, percebe-se a necessidade de uma organização intermediária para sua articulação, já que a grande maioria das entidades apresenta dificuldades tanto gerenciais como institucionais, na sua articulação com outras intituições. O ICom nasce com esse propósito e, inspirado no
modelo de fundação comunitária, realiza programas e projetos com o foco no desenvolvimento social local.
O terceiro capítulo caracteriza-se por questões relacionadas à identificação do ICom como uma organização sem fins lucrativos atuando segundo o conceito de fundação comunitária que tem, como uma de suas características, conhecer a comunidade em que está inserida. Inicialmente, o capítulo contextualiza o município de Florianópolis, a organização ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis e apresenta os projetos sociais desenvolvidos pela instituição.
Desde sua constituição, em 2005, o profissional de Serviço Social sempre esteve presente no ICom, contribuindo tanto na sua fundação como no desenvolvimento de seus projetos sociais. Refletindo sobre esse processo de trabalho do assistente social nas organizações do terceiro setor, o quarto capítulo aborda um breve relato do surgimento do Serviço Social no mundo e no Brasil, a relação do profissional de Serviço Social nessas organizações e sobre o exercício da prática profissional na entidade.
As organizações do terceiro setor constituem-se em campo de atuação profissional; sendo assim, o assistente social da instituição utilizou, como um dos instrumentos de intervenção, a pesquisa do mapeamento para identificação do perfil das organizações não governamentais da comunidade. O quinto e último capítulo focaliza as questões referente o desenvolvimento do projeto, bem como a análise do mapeamento das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis. Ao realizar o mapeamento, o Instituto Comunitário Grande Florianópolis cumpre sua missão de gerar informações para o fortalecimento da rede social do município estudado.
Finalmente, as Considerações finais, as Referências utilizadas no decorrer do estudo e os anexos.
2 SEGMENTO: TERCEIRO SETOR
O objetivo deste capítulo é abordar as organizações do terceiro setor. Para isto, o texto inicia-se apresentando a dimensão histórica das organizações do setor, e detalham-se alguns períodos sobre esta temática para um melhor entendimento a respeito dessas organizações que, em sua maioria, realizam ações em prol da melhoria de vida da comunidade.
Apesar de existirem muitas organizações que realizam projetos sociais comunitários, poucas desenvolvem ações articuladas; uma fundação comunitária tem como objetivo melhorar a qualidade de vida de uma determinada comunidade e, para tanto, articula, mobiliza pessoas e organizações que queiram se comprometer com esse objetivo.
Neste capítulo serão abordados os conceitos das organizações do terceiro setor, fundação comunitária, rede social e o desenvolvimento social local, considerados noção central deste estudo.
2.1 ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR: QUESTÕES QUE DESAFIAM A PRÁTICA PROFISSIONAL COTIDIANA
Apresenta-se a dimensão histórica do Terceiro Setor dos anos de 1930 a 2008 e a sua constituição.
2.1.1 Dimensão histórica do Terceiro Setor
O uso da terminologia terceiro setor é relativamente recente; apareceu no Brasil aproximadamente nas últimas décadas e é utilizada para situar um setor que está entre a esfera pública e o mercado.
Para definição do termo terceiro setor parte-se da premissa que o primeiro setor público é o Estado definido com o uso de bens públicos, para fins públicos, e
tende a assegurar direitos e deveres iguais para todos. O segundo setor refere-se ao mercado representado pelas e empresas tem como objetivo produzir e comercializar bens e serviços. Por fim, o terceiro setor formado pelas organizações sem fins lucrativos1 com o propósito de melhorar a vida das pessoas.
Para facilitar o entendimento sobre a dimensão histórica do terceiro setor, detalhar-se-á a seguir algumas fases:
2.1.1.1 Fase de 1930 a 1964
Os anos que se seguiram a 1930 foram marcados pela urbanização, industrialização e por uma forte disputa das elites em busca da hegemonia. Maior intervenção do Estado na sociedade e sua expansão na prestação direta de serviços públicos em temas como assistência, educação, saúde e cultura (ANDION, 2007).
Com a mudança do regime político, a partir de 1930 e até os anos 1945, deu-se a chamada “Era Vargas”. Nesse período, foi reconhecido o papel do Estado na criação de áreas de associações organizativas, como sindicatos e instituições previdenciárias. Em 1930 foram criados o Ministério do Trabalho e o Ministério da Educação e em 1932 a Carteira de Trabalho. No sistema público de previdência, foi implantado o Instituto de Aposentadorias e Pensões (IAPs) substituindo as antigas Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs).
Em relação à assistência social, criou-se a Legião Brasileira de Assistência (LBA) no ano de 1942 para atender às famílias dos pracinhas envolvidos na Segunda Guerra, bem como as instituições como o Serviço Social da Indústria (SESI), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), este último com a incumbência de fornecer qualificação da força de trabalho necessária para o crescimento da indústria. Criado também o regime de Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) o qual reconhece as categorias de trabalhadores pelo Estado. (BEHRING; BOSCHETTI 2006).
Esse período caracterizou-se como um Estado de compromisso que impulsionou profundas mudanças tanto no Estado como na sociedade brasileira.
1
Nesse trabalho utiliza-se a denominação organizações sem fins lucrativos conforme a literatura utilizada, sendo que n oart. 53 do novo Código Civil essas organizações caracterizam-se para fins não econômicos.
Porém, muitas das ações desenvolvidas perpetuavam as características de tutela, favor, clientelismo na relação do Estado com a população.
A concepção subjacente à valorização do social neste período histórico é de natureza populista, típica da ideologia do governo autoritário de Getúlio Vargas. A Igreja mantém o seu papel na assistência social, sendo a sua atuação agora complementada pela “solidariedade administrativa” do Estado. Este, por sua vez, tinha como estratégia atrelar a si as iniciativas autônomas nascentes da sociedade civil brasileira, tutelando-as a serviço do fortalecimento do governo. Percebe-se, neste caso, que a sociedade civil é vista como um “braço do Estado” voltado para a execução de políticas sociais e estas ainda são concebidas com base numa visão clientelista e filantrópica. Os cidadãos (em geral confundidos com os trabalhadores) continuam sendo percebidos como beneficiários da assistência religiosa ou pública. Desta forma, a sociedade civil é compreendida muito mais como espaço subordinado ao Estado do que como um ator político relevante. (ANDION, 2007, p.108-109).
A igreja tinha a tarefa de exercer a assistência social, sendo a sua atuação baseada na ideologia cristã, fundamentada na ajuda, solidariedade, como uma questão de favor em prol do pobre.
O período dos anos de 30 a 40 é marcado pela centralização e autoritarismo do Estado, reservando-se um papel para as numerosas instituições sem fins lucrativos, em sua maioria, responsáveis pela prestação de serviços a diversas camadas da população excluídas das políticas sociais. (PANCERI, 2001).
As primeiras Organizações não governamentais (ONGs) brasileiras, surgiram em sintonia com as demandas e dinâmicas dos movimentos sociais desse período.
Para Paz (1999), ONGs significam todas as organizações que não são órgãos ou instâncias do governo; são todas as entidades da sociedade, sem fins lucrativos, que prestam serviços a um determinado grupo ou comunidade, no desenvolvimento de trabalhos voltados ao enfrentamento de determinados problemas sociais.
Partindo-se do princípio de que a sigla ONG refere-se a qualquer organização não-governamental, é visível a amplitude do conceito, abrangendo, portanto, instituições não-estatais. A gênese desse conceito remete à década de 1940, surgido na Organização das Nações Unidas com o nome em inglês “Non-Governmental Organizations” (NGO´s), designando organizações internacionais ou supranacionais que não fossem estabelecidas mediante acordos governamentais.
Com o final da Segunda Guerra Mundial, necessitava-se de uma regulamentação estatal para que pudesse haver um enfrentamento da crise. Para
tanto, houve acordo com a aliança de partidos de esquerda e direita, os quais asseguraram acordos e compromissos que permitiram a aprovação de diversas legislações sociais e a expansão do chamado Welfare State. Esse consenso institucionalizou a possibilidade de estabelecimento de políticas abrangentes e mais universalizadas, baseadas na cidadania; de compromisso governamental com aumento de recursos para expansão de benefícios sociais, de consenso político em favor da economia mista e de um amplo sistema de bem-estar e de comprometimento estatal com o crescimento econômico e pleno emprego; porém, a população brasileira ficou fora desse sistema. (BEHRING; BOSCHETTI, 2006).
O período conhecido como República Nova ou República de 46 inicia-se com a renúncia forçada de Vargas, em outubro de 1945. Em 1946 foi promulgada nova Constituição, mais democrática, restaurando direitos individuais.
No ano de 1950, Getúlio Vargas foi mais uma vez eleito presidente, desta vez pelo voto direto. Em seu segundo governo foi criada a Petrobrás, fruto de tendências nacionalistas que receberam suporte das camadas operárias, dos intelectuais e do movimento estudantil. Já em 1955, Juscelino Kubitschek foi eleito presidente e tomou posse; seu governo caracterizou-se pelo chamado desenvolvimentismo, doutrina que se baseou nos avanços técnico-industriais como suposta evidência de um avanço geral do país.
Nesse período, a Igreja continuou o seu papel na assistência social, e sua atuação era complementada pelo papel do Estado embora a execução de políticas sociais fossem concebidas com base numa visão clientelista e filantrópica. Já nos anos seguintes notam-se conquistas de direitos da população, conforme será abordado no item seguinte.
2.1.1.2 Anos 1964 a 1985
Período caracterizado pela ruptura do Estado com a sociedade e por uma postura rígida adotada nos diversos setores. O Estado controlava todas as políticas sociais (compensatórias, distributivistas e de integração nacional) e criou uma grande estrutura hierarquizada e centralizada para reduzir a pobreza e as diferenças regionais: Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), o Banco Nacional de
Habitação (BNH), o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), entre outros. Porém, tudo que acontecia sem o aparato legal do Estado estava irregular, mas a Igreja, por sua tradição e hegemonia, preservou sua independência e elaborou um regimento fora do controle do Estado. (ANDION, 2007; PANCERI, 2001).
Os movimentos sociais autônomos ao regime cresceram e se desenvolveram sob a cobertura da Igreja e assumiram um caráter libertador, politizador e revolucionário. Para além dos sindicatos e partidos surgiram numerosas e "invisíveis" organizações civis, localizadas em bairros populares, constituindo-se talvez nos primeiros atores sociais verdadeiramente autônomos, em relação ao Estado, e, mais tarde, em relação à própria Igreja. A cooperação internacional financiava esses movimentos, posteriormente denominados de ONGs – Organizações Não Governamentais – cuja principal tarefa era a de resgatar a democracia e o estado de direito no país. Um novo sindicalismo surgiu e assumiu um papel protagônico nas lutas democráticas; a atuação na área social, tanto por parte do Estado quanto da sociedade, deixou de ter um caráter meramente caritativo, para assumir uma função estratégica (NASCIMENTO, 1999 apud PANCERI, 2001, p.83-84).
Assim, esse período ficou marcado pela expansão lenta dos direitos, por altas taxas de inflação, estagnação econômica e uma forte oposição das forças armadas; nesse contexto, diante de tanta instabilidade, os movimentos de sindicatos, estudantis se fortaleceram, cresceram e multilicaram em busca da melhoria da qualidade de vida e de interesses comuns.
A rápida ampliação do número de associações de moradores, ligadas ou não à Igreja Católica, marcou o cenário político, notadamente nos centros urbanos. Tratava-se também de associações ancoradas no território (bairros) que buscavam revigorar gradativamente a prática da cidadania. Por sua vez, o florescimento dos “novos movimentos” intensificou, mais tarde, o processo de fortalecimento de “outras” identidades coletivas, fora da esfera das relações de trabalho, ao propiciar a livre associação de indivíduos, tendo como finalidade a defesa dos direitos e interesses dos negros, mulheres, idosos, crianças, jovens, entre outros [...]. (ANDION, 2007, p.110).
Essas associações reuniram-se com o propósito de atender as necessidades dos trabalhadores em oposição aos projetos políticos estatais vigentes. Em grande medida esses propósitos têm acontecido através de um conjunto de organismos, dotados de certa autonomia, que tem como objetivo atuar na defesa e promoção dos direitos dos trabalhadores, e de estudantes na perspectiva da redução das desigualdades.
Conforme Gohn (1998) nos anos 70-80, no Brasil, as ONGs estiveram por detrás da maioria dos movimentos sociais populares que marcaram um cenário de participação na sociedade civil, contribuindo decisivamente para o fim do regime
militar e para o começo da democracia no país. As ONGs desse período eram politizadas e articuladas a partidos, sindicatos e às ideologias das Igrejas. Os constantes confrontos entre as associações e o Estado, demarcaram o caráter das ações dos movimentos, que tomaram posturas como a de negação sobre os aparelhos do Estado. As ONGs que surgiram durante essas décadas, nasceram com o objetivo de frear a pobreza e as desigualdades geradas. Nas décadas seguintes percebe-se exponencial crescimento das organizações da sociedade civil, o qual foi importante para o processo de redemocratização do país, detalhando-se esta fase no item seguinte.
2.1.1.3 Anos 1985 até 2008
Esse momento foi marcado pela aprovação da Constituição Federal de 1988, e pelo processo de redemocratização do país. A Constituição Federal de 88 (CF 88) determinou o fim da ditadura militar e assegurou diversas garantias constitucionais, com o objetivo de dar maior efetividade aos direitos fundamentais.
A participação da sociedade civil organizada ganha maior evidência a partir de meados da década de 1980, quando se inicia o processo de redemocratização do País depois de mais de 20 anos de ditadura militar. O marco dessa transição é a Constituição Federal promulgada em 1988, que traz em seu texto e em suas leis complementares boa parte da arquitetura institucional que regula hoje a sociedade brasileira. A partir desse período e, especialmente, ao longo dos anos de 1990, crescem no País diversos tipos de arranjos entre Estado e organizações da sociedade na implementação e na co-gestão de políticas públicas, particularmente, as de caráter social. Assim, a avaliação e a qualificação desses arranjos requer, dentre outros subsídios para a análise, um melhor conhecimento do papel que os diversos atores não-governamentais vêm desempenhando no País. (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2004, p.10).
No Brasil, a aprovação da Constituição de 1988 teve papel decisivo no processo de formação do Terceiro Setor. A autonomia das associações civis brasileiras é garantida como direito democrático básico no artigo 5o da Constituição Federal de 1988 “Inciso XVIII – A criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independe de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento”.
Dentre as inovações, estabeleceu um novo papel político às associações e demais organizações da sociedade civil na democracia brasileira. Com a
promulgação da CF 88 algumas mudanças foram impulsionadas como a criação dos Conselhos de Direitos (Municipais, Estaduais e Nacionais) estes últimos possibilitando a participação da sociedade civil nas três esferas de governo. Para importantes regulamentações na política, foram formalizados legalmente: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), Sistema Único de Saúde (SUS), dentre outras. (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS, 2007).
O Estado busca redefinir seu papel como fomentador das políticas sociais, mas não necessariamente como executor; procura diminuir o seu tamanho, na medida em que adota os princípios neoliberais, amplia e fortalece as organizações civis. Há que se considerar também a globalização (econômica e tecnológica) exigindo maior competitividade. (PANCERI, 2001, p.84).
A respeito dos princípios neoliberais, após a crise econômica nas décadas anteriores, o mundo globalizado ganha espaço e com ele a tese de um Estado neoliberal, que passa a questionar o custo do aparelho estatal e o caráter intervencionista do Estado na sociedade civil. Esse projeto neoliberal vem reduzir os gastos públicos alocados para o bem estar, e privatiza a produção de serviços. Considerando a vigente conjuntura política, social e econômica que tem determinado o sucateamento das políticas sociais públicas, as instituições da sociedade civil que atuam na esfera da assistência social, saúde, criança e adolescente têm tido um crescimento relativo nesses últimos anos.
A resolução das questões sociais pode se dar em parceria com as organizações da sociedade civil, mas em nenhum momento pode ser substitutivo à ação do Estado, uma vez que as organizações não têm a capacidade de mexer nas questões mais estruturais. O Estado tem a sua responsabilidade no enfrentamento da pobreza e da desigualdade. As organizações da sociedade civil têm um papel complementar, que não substitui o do Estado.
Nessa perspectiva as ONGs ganham visibilidade e colocam-se diante da necessidade de buscar um novo posicionamento e uma nova forma de organização frente à sociedade e ao Estado. Exemplificando a ECO-92, no Rio de Janeiro, possibilitou o reconhecimento desse setor, nem assistencialismo, nem revolução e sim, desenvolvimento sustentável, a partir da construção de soluções locais (PANCERI, 2001).
As organizações sem fins lucrativos não são novas no Brasil, desde muito tempo elas já existem. Tomando como exemplo as Santas Casas de Misericórdia, surgidas no século XVI no Brasil, as quais desenvolveram importantes trabalhos no atendimento à maioria da população que ficava à margem das políticas sociais básicas. Criadas com preocupações caritativas, beneficentes e voltadas àqueles sem condições de trabalhar, idosos, crianças, e outros.
Haja vista que muitas ONGs tinham o caráter de negação do Estado, com o advento da Constituição de 1998, muitas são surpreendidas e sentem-se despreparadas para atuar diante dessa nova conjuntura. Assim sendo, novas ONGs surgiram contemplando as características que a CF 88 possibilitou: políticas sociais em parceria com o Estado. (GOHN, 1998).
Importante salientar que o termo ONG não é uma forma de figura jurídica, e sim, uma expressão das organizações não governamentais de maneira a expressar a indignação da população contra as ações do aparelho estatal nesse período; organizações estas pautadas pela luta por ampliação e promoção dos direitos humanos, econômicos, políticos, culturais, sociais. Dessa maneira, existem apenas dois formatos legais de ONGs, as associações e as fundações2.
Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia E Estatística (IBGE, 2004), o país contava com 338 mil Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos – FASFIL. Do universo deste grupo de instituições, mais da metade (56,2%) do total de 601,6 mil, representa entidades sem fins lucrativos e uma parcela significativa, (5,6%) do total de seis milhões, representa as entidades lucrativas e não-lucrativas, que compunham o Cadastro Central de Empresas (CEMPRE) nesse mesmo ano.
Logo, as ONGs e suas atividades repercutem na execução das políticas públicas, pois têm como função atuar, na sua maioria, voluntariamente junto à sociedade civil buscando seu aperfeiçoamento, expressar as diferentes formas de enfrentamento da pobreza, a desigualdade social, as injustiças, preservação do meio ambiente, defesa e promoção de direitos, atendimento à população socialmente vulnerável, enfim as diferentes formas de exclusões existentes.
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Associação é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, que se forma pela reunião de pessoas em prol de um objetivo comum.
Fundação é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, que se forma a partir da existência de um patrimônio.
Essas ações desenvolvidas pelas diferentes organizações sem fins lucrativos passaram a ser caracterizadas como de Terceiro Setor, ou seja, um setor que está situado no âmbito da sociedade e da economia, entre o público (Primeiro Setor) e o privado (Segundo Setor), conforme se abordará no próximo item.
2.1.2 Constituição do Terceiro Setor
O Terceiro Setor configurou-se, no decorrer das últimas décadas, dentro de uma conjuntura social, econômica e política caracterizada pela instabilidade e mudanças aceleradas, em uma dimensão globalizada e de grande desenvolvimento tecnológico e científico. Por outro lado, de muita pobreza e desigualdade social.
A abordagem desse tema não pode ocorrer nem de forma “ufanista” como se o terceiro setor viesse ocupar o papel que é do Estado na formulação e execução de políticas sociais e nem de forma “pessimista”, negando a sua importância e a dimensão de suas ações no enfrentamento de diferentes manifestações da questão social brasileira. (COSTA, 2005).
Diversos autores, que têm trabalhado o conceito, partem inicialmente da premissa de que a sociedade atual está estruturada a partir de três esferas: o Estado (primeiro setor), o Privado (segundo setor) e Organizações sem fins lucrativos com atuações de interesse público (terceiro setor). Porém, mesmo partindo dessa divisão, não significa que a sociedade deva trabalhar de forma fragmentada; enfatizamos, aqui, a importância de estes três setores articularem–se com a perspectiva de atender as demandas sociais.
O Terceiro Setor, por sua vez, é um campo marcado por uma irredutível diversidade de atores e formas de organização. Na década de 80 foram as ONGs que, articulando recursos e experiências na base da sociedade, ganharam visibilidade enquanto novos espaços de participação cidadã. Hoje percebemos que o conceito de Terceiro Setor é bem mais abrangente. Inclui o amplo espectro das instituições filantrópicas dedicadas à prestação de serviços nas áreas de saúde, educação e bem-estar social. Compreende também as organizações voltadas para a defesa dos direitos de grupos específicos da população, como as mulheres, negros e povos indígenas, ou de proteção ao meio ambiente, promoção do esporte, da cultura e do lazer. Englobam as múltiplas experiências através da doação de tempo, trabalho e talento para causas sociais. Mais recentemente temos observado o fenômeno crescente da filantropia empresarial, pelo qual as empresas concretizam sua responsabilidade e compromisso com a melhoria da comunidade. (CARDOSO, 1997, p.8).
Neste contexto, pode-se apontar que o crescimento dos problemas sociais (saúde, vulnerabilidade social, violência, exclusão) propiciou o fortalecimento desse terceiro setor. Em linhas gerais, o Terceiro Setor é o espaço ocupado especialmente pelo conjunto de entidades privadas sem fins lucrativos que realizam ações complementares às públicas, visando contribuir com a solução de problemas sociais em prol da melhoria de vida.
Para Montaño (2003) o termo “terceiro setor” representa uma construção intelectiva, sem materialização no real. Assim caracteriza o termo como uma denominação ideológica. O que existe são as ONGs, as associações, as instituições, fundações, entidades, relações sociais que integram e participam da sociedade civil; o que efetivamente existe são ações de solidariedade individual ou local, de filantropia etc. desenvolvidas por estes atores.
Podem ser caracterizadas como organizações não governamentais (ONGs), associações, instituições assistenciais, institutos e fundações, que se dedicam a distintos temas como: meio ambiente, ecologia, educação, saúde, criança e adolescente, idosos, arte, religião, economia, tecnologia, direitos cívicos, trabalho, pobreza, entre outros. Esse segmento também tem sido chamado de setor sem fins lucrativos, setor da sociedade civil, setor voluntário, setor social-econômico, setor ONG e setor de caridade. Em especial, no Brasil, apresenta uma fragilidade conceitual e a ausência de uma terminologia própria (PANCERI, 2001, p.86).
Portanto, entre as instituições mais conhecidas que fazem parte do terceiro setor estão as ONGs – organizações não governamentais, fundações, entidades beneficentes, entidades sem fins lucrativos, ação social, entre outras.
[...] o Terceiro Setor é composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num âmbito não-governamental, dando continuidade a práticas tradicionais de caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil. (FERNANDES, 1997, p.27).
O Terceiro Setor é o conjunto das ONGs, associações, movimentos sociais e outros que se destinam a atender necessidades específicas e essenciais da sociedade, abrangendo uma determinada população, seja ela composta de crianças, adolescentes, idosos, mulheres, jovens, índios, negros e tantos outros, em defesa da garantia e promoção de seus direitos. Essas associações abrangem distintos segmentos como assistência social, saúde, educação, habitação, defesa de direitos, meio ambiente, proteção aos animais, cultura e lazer elaborando
alternativas específicas para melhorar a qualidade de vida das pessoas de uma determinada comunidade.
A denominação terceiro setor busca traduzir um novo quadro de relações de diferentes atores autônomos frente ao Estado, realizando ações de interesse público. Diferente do conceito de filantropia e de ações caritativas, marcado pelo assistencialismo, ou do conceito de movimentos sociais ou ONGs marcadamente identificado com a pauta da esquerda, o Terceiro Setor busca ser reconhecido como mais um setor dinâmico da sociedade, prestador de serviços, com vistas a encontrar soluções efetivas aos problemas sociais. Busca construir sua identidade como um conjunto de organizações que atuam no desenvolvimento social, no resgate da cidadania e no estabelecimento de relações éticas em todas as atividades humanas. Os indivíduos que atuam neste setor buscam ser reconhecidos como profissionais superando o voluntarismo da filantropia tradicional ou a militância revolucionária (NASCIMENTO, 1999 apud PANCERI, 2001, p.87).
O Terceiro Setor é composto de organizações, sem fins lucrativos, que investem, em projetos sociais, relacionados ao tema das políticas públicas, em torno de uma visão comum de produzir alternativas para o Desenvolvimento Social Sustentável.
Segundo Costa (2005), apesar da diversidade de ONGs, que compõem o Terceiro Setor, elas possuem algumas características em comum:
A primeira delas é que, quando atuam na área da assistência social, saúde ou educação, geralmente trabalham com pessoas e famílias que estão à margem do processo produtivo ou fora do mercado de trabalho, não tendo acesso aos bens e serviços necessários ao suprimento de suas necessidades básicas. (COSTA, 2005).
Logo, enquadram-se no artigo 2º da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), que coloca a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência, idosos e portadores de deficiência como alvos dessa ação, provendo condições para atender contingências sociais e à universalização amparo e capacitação para que tenham qualidade de vida e acesso aos direitos sociais.
A segunda característica é a da política da assistência social, que hoje perdeu seu caráter historicamente dado, de caridade, tornando-se política pública de garantia de direitos do cidadão conforme a Constituição Federal de 88 determinou, bem como a política da saúde e da educação. “O atendimento a esses direitos, portanto, faz parte de um interesse público e, qualquer instituição que trabalhe na perspectiva de defesa desses direitos e garantia da cidadania, está cumprindo um fim público”. (COSTA, 2005).
E a terceira é sobre os atendimentos prestados pelas organizações, totalmente gratuitos, não tendo a instituição “lucro mercantil” diante dos benefícios e serviços prestados. Conforme preconiza a LOAS, no seu artigo 3º, as entidades de assistência social são aquelas que realizam, sem fins lucrativos, atendimentos à população usuária.
Como quarta característica em comum, destaca-se o fato de não serem instituições estatais, embora mantenham vínculos com o Estado por força de convênios, relações de parceria e cadastro nos Conselhos de Direitos, conforme artigos 9º e 10º da LOAS . (COSTA, 2005).
Outra característica é a presença de voluntários nessas organizações, os quais doam seu tempo, trabalho e talento para causas de interesse social e comunitário.
A sexta característica, trazida por Costa (2005), aponta as titulações e qualificações que as organizações do terceiro setor podem adquirir. O Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS) que pode ser pleiteado junto ao Conselho Nacional de Assistência Social, desde que a instituição preencha os requisitos exigidos, dentre eles, o de atuar diretamente na área da Assistência Social. E o mais recente, o da Lei 9790/99, que ficou conhecida como o marco legal desse setor, e dispõe sobre a qualificação de pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP).
A Lei n° 9.637/98, regulamenta e normatiza as Organizações Sociais (OS), as quais são entidades privadas, sem fins lucrativos, criadas por iniciativa do poder público, para gerir o patrimônio que continuará público.
Para fins legais o termo ONG não é uma figura jurídica. Uma organização não governamental, portanto, formalmente constituída, sob o formato jurídico de uma associação civil ou uma fundação, sem fins lucrativos e com o objetivo de promoção e universalização de direitos.
O Terceiro Setor destina-se a atender necessidades específicas e essenciais como, saúde e serviços sociais, educação e cultura, assistência, recreação, esporte, meio ambiente, e outros. O grande desafio destas organizações é que sejam gerenciadas adequadamente a fim de atingirem seus propósitos sociais. (PANCERI, 2001).
As organizações pertencentes ao setor estruturam-se como sendo sem fins lucrativos, têm em comum a prática de não distribuírem lucros resultantes de suas atividades entre os diretores, atuam em áreas de problemas sociais e ambientais, criam e desenvolvem frentes de trabalho em espaços públicos não estatais.
Contudo, o terceiro setor tende a crescer em tamanho, em conhecimento, em profissionalização, em número de colaboradores contratados e, principalmente, em número de pessoas atendidas, aumentando sua qualidade de vida, em número de projetos executados com sucesso, em visibilidade e credibilidade. Mudanças sociais são necessárias e o terceiro setor deve tornar-se um instrumento dessa mudança. (PANCERI, 2001, p.98).
Torna-se evidente que, nos próximos anos, as organizações da sociedade civil deverão assumir um papel cada vez mais preponderante na prestação de serviços de caráter público.
Diante das características do Terceiro Setor, no cenário brasileiro, não há como negarmos a importância da atuação de diferentes profissionais, na perspectiva da ação interdisciplinar, tendo em vista o caráter profissional e técnico que os serviços prestados por esse setor necessitam assumir. A formação profissional e, principalmente, as características pessoais e comportamentais serão requeridas por este tipo de organização, pois apresentam diferenciais significativos como, os valores e ideais que sustentam a missão da entidade, ou a intensa habilidade de lidar com pessoas muito diferentes em um ambiente de respeito, solidariedade e cooperação.
Nesse processo, profissionais de diferentes áreas podem contribuir significativamente com os ideais das instituições e, dentre estes, o assistente social tem importante atuação, considerando a sua especificidade profissional. Refletindo sobre o processo de trabalho do assistente social nas organizações do Terceiro Setor, pode-se perceber que, no Instituto Comunitário Grande Florianópolis - ICom, desde sua Constituição, em 2005, o profissional de Serviço Social sempre esteve presente3.
Em relação ao crescimento das organizações do setor nas últimas décadas, considera-se que foi importante, pois houve uma maior participação da sociedade civil organizada, contribuindo com o processo de democracia, conquista
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Sobre o profissional de Serviço Social nas organizações do terceiro setor será tratado no próximo capítulo que possui como título: O Serviço Social e sua Contribuição no ICom.
de direitos humanos e, também, toda a contribuição que essas ONGs vêm desenvolvendo para melhoria de vida da comunidade local.
Percebe-se a necessidade de uma organização que possa articular, mobilizar as demais instituições a fim de que as ações desenvolvidas contribuam para desenvolvimento da comunidade local, uma organização intermediária que promova essa articulação das ONGs, já que, em sua maioria, as organizações não realizam esse trabalho em conjunto. Tem-se como exemplo as Fundações Comunitárias que têm como princípio promover a articulação da rede local para o processo de desenvolvimento social local, sendo o conceito de Fundação Comunitária estudado no item abaixo.
2.2 FUNDAÇÃO COMUNITÁRIA E A ÊNFASE NO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL LOCAL.
Aborda-se neste item a concepção de Fundação Comunitária, Rede Social e de Desenvolvimento Local.
2.2.1 Fundação Comunitária
Fundação Comunitária é um tipo de organização sem fins lucrativos que capta, mobiliza, articula recursos e investe no desenvolvimento sustentável local.
Fundações comunitárias são instituições sem fins lucrativos que investem recursos técnicos e financeiros em uma determinada área geográfica. Seu objetivo é melhorar a qualidade de vida da população de uma determinada localidade e seu papel é reunir pessoas e organizações que queiram se comprometer com esse objetivo, agindo como líderes, facilitadoras e mediadoras no processo de desenvolvimento social local. Contam principalmente com doadores e investidores sociais (pessoas, governos, empresas ou organizações da sociedade civil) para, ao longo dos anos, criarem um fundo comunitário permanente (endowment) que permita à fundação comunitária repassar financiamentos estratégicos a ONGs e a programas próprios e garantir sua sustentabilidade a longo prazo (TREVISAN; HERNÁNDEZ ABREU, 2007, p.2).
Logo, as fundações comunitárias são sustentadas por doações, e seu objetivo em longo prazo é constituir um fundo comunitário permanente, cujos recursos serão aplicados em favor de projetos sociais e ambientais voltados para a comunidade em que estão inseridas.
As fundações comunitárias reúnem pessoas que se importam com suas comunidades. Elas são organizações independentes, voluntárias e beneficentes cuja meta é fortalecer suas comunidades, facilitando a filantropia através de parcerias com os doadores a fim de construir fundos permanentes e outros tipos de fundos para sustentar projetos comunitários, assumindo a liderança de questões de interesse comunitário mais amplo. (HERNÁNDEZ ABREU, 2007, p.12-13).
Para Beghin (2005) filantropia quer dizer amor do homem pelo ser humano, amor pela humanidade.
[...] a filantropia sugere uma idéia de comunidade baseada numa sensibilidade moral; a moral é a chave para resolver o encontro entre a miséria e ordem. Sem negar a importância do interesse individual para o sistema econômico, a filantropia elabora, pragmaticamente, uma referência ao interesse coletivo, de natureza essencial moral, que é o de reduzir a miséria e o perigo social que ela representa [...]. (PROCACCI, 1993 apud BEGHIN, 2005, p.45).
As fundações comunitárias proporcionam aos diversos investidores, pessoas físicas ou jurídicas, a possibilidade de contribuir para o desenvolvimento social local a partir dos fundos sociais de investimento.
Conforme Hernández Abreu (2007), o ICom mobiliza os pequenos, médios e grandes investidores interessados em promover e financiar atividades que visam o desenvolvimento sustentável local por meio dos fundos que a organização possui ou venha a criar. Tem-se como exemplo, o Fundo Comunitário para Empreendedorismo Social Jovem que o ICom lançou no ano de 2007; constituído por meio de recursos de empresas, famílias e indivíduos, com o objetivo de investir no desenvolvimento do empreendedorismo social entre os jovens da região da Grande Florianópolis.
As fundações comunitárias surgiram em 1914, nos Estados Unidos, como forma de mobilizar cidadãos de diversos setores da sociedade a investirem na sua comunidade. Nas últimas décadas, este modelo de organização social tem sido disseminado por todo mundo, adaptando suas características ao contexto local. As fundações comunitárias existem em 46 países dos diversos continentes.
Cerca de 1175 fundações comunitárias estão presentes em mais de 46 países. O crescimento desse tipo de organização não tem precedente. Nos
Estados Unidos - país onde surgiu a primeira fundação comunitária há quase 100 anos - em duas décadas essas instituições tiveram um crescimento de 300%, passando de 250 fundações comunitárias em 1985 para aproximadamente 750 atualmente. No Canadá, apoiadas pela Community Foundations of Canada, existem 150 fundações comunitárias servindo 85% da população. No Reino Unido, 55 fundações comunitárias dão conta de cerca de 95% da população e no Leste europeu estão começando a pipocar casos de sucesso. (TREVISAN; HERNÁNDEZ ABREU, 2007, p.6).
O conceito de fundação comunitária, no Brasil, ainda é pouco difundido. Apesar de existirem muitas organizações, que realizam projetos sociais comunitários, poucas reúnem todas as características que compõem a definição de uma fundação comunitária. Pela consulta nacional realizada pelo ICom para o Fundo Global sobre as Fundações Comunitárias, verificou-se que um dos motivos pelo qual o conceito tem encontrado barreiras em ser difundido é a configuração legal dada ao terceiro setor. No Brasil, as entidades do Terceiro Setor são regidas pelo Código Civil (Lei nº 10.406/02) e juridicamente constituídas sob duas formas: associações ou fundações.
Associação é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, que se forma pela reunião de pessoas em prol de um objetivo comum, sem interesse de dividir resultado financeiro entre elas.
Fundação é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, que se forma a partir da existência de um patrimônio destacado pelo seu instituidor para servir a um objetivo específico, voltado a causas de interesse público. (ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL DE SÃO PAULO, 2005, p.7).
Mas, conforme Hernández Abreu (2007), existe uma legislação norte-americana sobre esse tipo de organização, diferente da do nosso país. Essa legislação define as fundações comunitárias como instituições públicas de caridade: e, assim, isentas de imposto de renda federal, isenções essas que permitem o não pagamento de impostos do tipo federal, estadual e sobre vendas, impulsionando seu desenvolvimento e aumentando seu potencial de impacto social.
A primeira organização a trabalhar intitulada nesse conceito de fundação comunitária no Brasil foi o Instituto Rio fundado no ano de 2000 na cidade do Rio de Janeiro.
O Instituto Rio tem como propósito criar um fundo permanente da comunidade do Rio de Janeiro para financiar projetos que contribuam com a melhoria das condições de vida na comunidade. Mais do que defender e promover o acesso aos direitos básicos - educação, saúde, segurança - a proposta do Instituto Rio é promover o protagonismo das comunidades, alavancando seus recursos,
envolvendo os diversos atores locais, construindo um patrimônio comum. Assim, o Instituto Rio4 caracteriza-se como um espaço plural onde acontece a articulação de competências para promover o desenvolvimento sustentável e integrado da comunidade.
Portanto, as fundações comunitárias são organizações sem fins lucrativos que investem recursos técnicos e financeiros na promoção do desenvolvimento social local. Têm como principais características5:
a) Ação focada em uma determinada área geográfica, revertendo a lógica da pulverização de esforços e recursos;
b) Investimentos de recursos financeiros e técnicos em ONGs locais; c) Formar um fundo patrimonial para investimentos e garantir sustentabilidade em longo prazo, revertendo dessa maneira a lógica da doação esporádica;
d) Participação de pessoas representativas da comunidade para definição de prioridades de investimento, propondo uma gestão transparente e executada por estes segmentos.
Ainda, como salientaram Trevisan e Hernández Abreu (2007), na VI Conferência Regional De Istr para América Latina Y El Caribe, uma organização para ser uma fundação comunitária deve seguir os seguintes princípios, a saber:
1. Ser independente do controle de governos, organizações e/ou financiadores;
2. Ser governada por um conselho que reflita a comunidade a que ela serve; 3. Construir programas estratégicos que correspondam às necessidades da comunidade;
4. Trabalhar como líder, facilitadora e mediadora mobilizando pessoas e recursos que contribuam para solucionar questões na comunidade;
5. Oferecer liderança e parceria em busca de maior justiça social;
6. Ter ações e políticas abertas e transparentes no que diz respeito a todos os aspectos de suas operações, incluindo uma prestação de contas clara e aberta;
7. Ouvir os representantes da comunidade, ONGs e financiadores;
8. Mobilizar contribuições continuamente para assegurar a construção de um fundo permanente e garantir sustentabilidade;
9. Oferecer informações e serviços a financiadores para ajudá-los a atingir seus objetivos enquanto filantropos;
10. Apoiar o fortalecimento do capital humano daquele local, repassando recursos financeiros e técnicos a instituições que atuam na região. (TREVISAN; HERNÁNDEZ ABREU, 2007, p.2).
4
Para saber mais sobre a organização Instituto Rio visite o site: www.institutorio.org.br
5
Fonte: www.wingsweb.org. Relatório internacional sobre as fundações comunitárias 2005, elaborado Por Eleonor W. Sacks, traduzido por Lucia Dellagnelo.
Conforme mencionado, as fundações comunitárias funcionam como pontes, articuladoras entre investidores sociais (pessoas, famílias, fundações, institutos, empresas, governos) e instituições sem fins lucrativos. Em geral, proporcionam uma variedade de opções para quem quer fazer investimentos sociais na comunidade, procurando atender aos anseios e inquietudes do doador elaborando alternativas de sustentabilidade da rede social local.
A entidade ICom nasceu com a idéia de fortalecer a rede social entre as organizações sem fins lucrativos e, também, de realizar a ponte entre os investidores sociais e as organizações que realizam o trabalho diretamente com a população usuária. Essa relação entre investidor e o ICom acontece por meio dos fundos nomeados pela instituição, fundo comunitário, específico e permanente e também através dos programas e projetos implementados pela entidade. Outra premissa das fundações comunitárias que o instituto desenvolve é a constituição do conselho deliberativo, composto por representantes das comunidades, líderes comunitários e empresários.
Do outro lado da ponte está a área de Doações ou Programas, que cria programas para repassar doações estrategicamente, visando o desenvolvimento local. Esses programas podem ser executados pela própria fundação comunitária com sua equipe ou então por organizações sociais locais com competência para executar o que se propõe, a fim de atender às necessidades da comunidade. As fundações comunitárias são - por sua natureza local - flexíveis e adaptáveis. (TREVISAN; HERNÁNDEZ ABREU, 2007, p.3).
Segundo Trevisan e Hernández Abreu (2007), as fundações comunitárias podem desempenhar diversos papéis desde orientar as organizações sem fins lucrativos na captação de recursos, fortalecimento da gestão, até no desenvolvimento das atividades.
Recentemente, no ano de 2007, o Instituto Comunitário Grande Florianópolis, realizou o mapeamento das organizações sem fins lucrativos do município de Florianópolis a fim de conhecer os projetos sociais e ambientais e dar-lhes visibilidade, identificando as necessidades e potencialidades dessas organizações mapeadas.
No meio da ponte está a área de gestão de fundos. Como as fundações comunitárias atuam localmente, são também guardiãs dos recursos da comunidade. Por isso, as fundações comunitárias buscam administrar com eficiência os recursos que recebem, contratando profissionais da área contábil para gerir os investimentos e fazer com que rendam da melhor maneira. (TREVISAN; HERNÁNDEZ ABREU, 2007, p.3).
Para tanto, cita-se como exemplo a organização sem fins lucrativos ICom - Instituto Comunitário Grande Florianópolis, inspirado no modelo de fundações comunitárias, que vêm desenvolvendo esse conceito de fundação comunitária e conta com uma equipe de profissionais qualificados com o objetivo de manter um nível alto de profissionalismo, o qual implica na criação de mecanismos de monitoramento sistemático e avaliação das atividades gerenciais e técnicas desenvolvidas. A organização preocupa-se ainda em mostrar transparência no relacionamento com seu público e, para tanto, realiza, de forma séria e comprometida, as prestações de contas, demonstração de resultados e a implantação de mecanismos de auditoria interna e externa.
As fundações comunitárias, segundo Trevisan e Hernández Abreu (2007, p.3), “além de repassar recursos e pensar estrategicamente o desenvolvimento local [...]”, desenvolvem importantes papéis na comunidade como articuladoras, orientadoras, consultoras, mediadoras nas diferentes atividades que vêm propondo nos mais variados temas como saúde, meio ambiente, jovens, crianças, idosos, assistência social, educação e outros, com o objetivo de mobilizar interessados a investir naquele local, com a finalidade de proporcionar o seu desenvolvimento.
Sintetizando: as Fundações comunitárias são organizações sem fins lucrativos, de interesse público, com uma governança que contempla diversos setores de uma determinada comunidade; realiza investimentos sociais para melhorar a qualidade de vida das pessoas dessa comunidade com foco no desenvolvimento local; apóia técnica e financeiramente as demais organizações da sociedade civil nela presentes e é mantida com recursos de uma ampla gama de investidores.
Por fim, as fundações comunitárias são organizações que investem recursos técnicos e financeiros na promoção do desenvolvimento social local, conceito que será abordado no próximo item.