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MUDANÇA ESTRUTURAL NA ESFERA PÚBLICA- Resumo

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Academic year: 2022

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA - FACULDADE DE COMUNICAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

Disciplina: METODOLOGIA DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO Cód 345024 – Profa. Dra Lavina Madeira

Aluna: Jussara C.Melo

MUDANÇA ESTRUTURAL NA ESFERA PÚBLICA- Resumo

HABERMAS, Jurgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. Tempo Brasileiro, 1984. Pp. 13 a 212.

A obra de Habermas (*Dusseldorf, 1929) denominada “A Mudança Estrutural da Esfera Pública” cujos capítulos I, II, III, IV e V são aqui resumidos foi publicada pela primeira vez em 1961. Habermas em seu trabalho busca superar o pessimismo de Adorno e Horkheimer (Escola de Frankfurt) quanto aos ideais de emancipação humana, concebendo a razão comunicativa e a ação comunicativa – a comunicação livre como alternativa à razão instrumental que encobre a dominação. A razão instrumental seria o sistema (relações hierárquicas do Poder Político e Econômico) e a reprodução simbólica seria o mundo da vida. O sistema e o mundo da vida são duas esferas de coexistência na sociedade. Para ele, o mundo da vida foi colonizado pelo sistema e o direito é um mediador entre essas duas esferas (inicialmente Habermas concebeu o direito positivo como instrumental)

I. DELIMITAÇÃO PROPEDÊUTICA DE UM TIPO DE ESFERA PÚBLICA BURGUESA

§ 1º Questão Inicial

Os conceitos de “público” e “esfera pública” foram sempre de aplicação confusa e o seu emprego pela burocracia e pela mídia induzem uma manipulação ideológica e impedem sua substituição por conceitos mais precisos. O uso mais freqüente da categoria público é no sentido de opinião pública, de uma esfera pública revoltada ou informada (público, publicidade, públicar) que tem como sujeito o público, enquanto portador da opinião pública, com função crítica e caráter públicos. A primeira referência etimológica para “público” e “esfera pública”

aparece na Alemanha do séc. XVIII (publicité e publicity), como categoria da sociedade burguesa, designando local, com leis próprias, onde se dá o comércio, a troca de mercadorias e o trabalho social, categorias que herdamos da grécia em sua versão romana. Nela a pólis (esfera comum aos cidadãos livres) é diferente de oikos (esfera particular de cada indivíduo), mas a vida pública não se restringe a um local, mas é consituída na conversação lexis), que pode assumir a forma de conselho, tribunal e de praxis comunitária (praxis). Na Grécia antiga a esfera privada ligava-se à casa (posse de bens, escravos, poder sobre a economia doméstica etc.) A posição na polis baseava-se no despotismo doméstico – a perda da propriedade implicava impossibilidade de participação na pólis. A esfera pública era um reino de liberdade e continuidade. Se de um lado, na esfera privada (oikos) as necessiadades de subsistência e a manutenção do exigido à vida era escondido com pudor, na esfera pública o campo é livre para o debate, para o reconhecimento das virtudes, a imortalidade da fama. A esfera pública, desde os romanos, associada à res pública, passa a ter aplicação processual jurídica com o estado moderno no sentido da institucionalização jurídica e evidência política de uma esfera pública burguesa. Mas, essa esfera pública está há cerca de um século sendo diluída ao mesmo tempo em que se amplia, perde força.

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§ 2º Representatividade Pública

Na idade média européia o Senhor feudal tinha dominação fundiária, uma jurisdição e a vassalagem dela derivada, mas não havia a antítese entre domínio privado e domínio público.

Havia autoridades superiores e inferiores, privilégios etc, mas não havia uma estatuto que autorizasse as pessoas privadas a se fazerem presentes na esfera pública. O poder exercido pelo dono da casa é um poder público de segunda ordem, há uma unidade inseparável entre o público e o privado ligados a bens fundiários bem adquiridos. A representatividade relacionada a atributos de soberania – o selo do príncipe na Inglaterra e o status do senhor fundiário são tidos como públicos (publicness) mas não no sentido da oposição entre público e privado, mas no sentido de corporificação de um poder superior (grandeza, soberania, majestade) que torna esse ser capaz de representação. A evolução da representatividade pública está ligada a atributos da pessoa. Ao senhor feudal a representatividade pública conferia status social, mas como não não havia um local para o exercício dessa representação, essa representatividade não era nenhuma esfera de comunicação política. Somente os clérigos tinham um local – a igreja.

Na igreja, embora o leigo faça parte da circunstância,eram os private soldiers, eram excluídos da representatividade pública por um segredo no interior da esfera pública – a bíblia e a missa eram em latim. Com o tempo a igreja passou a pertencer à esfera privada (separação igreja x estado), embora permaneça como corporação de direito público. A representatividade pública encontra na corte francesa sua mais pura acepção. O nobre rural e autônomo baseado em seu domínio fundiário perde força porque a representatividade pública se concentra na corte, nas festas, no parque do castelo (sec. XVII), uma vida protegida do mundo exterior que mantém o fundamento da representatividade pública que é a grandeza exibida, o povo não estava completamente excluído, fazia parte da cena. Apenas os banquetes burgueses eram exclusivos. O quarto de dormir do rei se transforma em espetáculo de lever e coucher de exposição do mais íntimo à esfera pública. A partir daí a separação entre estado e sociedade torna-se mais nítida e num sentido especificamente moderno separam-se a esfera pública da esfera privada. A sociedade burguesa passa a se contrapor ao Estado como genuíno setor da autonomia privada.

Excurso: O Fim da Representatividade Pública Ilustrado no Exemplo de William Meister Na obra de Goethe denominada “Os Anos de Aprendizagem de William Meister” o protagonista era um burguês que queria ser um ator dramático em uma companhia de comediantes, porque para ele o teatro significava a nobreza, a boa sociedade e ele queria tornar- se uma pessoa pública e agradar e atuar em um círculo amplo, mas ele era burguês (é o que ele produz), não era nobre (personalidade livre, é o que reproduz) e encontra, então, no palco o substitutivo da esfera pública. A burguesia em Goethe não tem representatividade pública, porque o nouveau riche buscava a aparência, então, representar era a comicidade da mera aparência. A intencionalidade projetada na figura do nobre permite confundir a representatividade teatral com representatividade pública em um momento de decadência da representatividade pública – o teatro se tornou o palanque da esfera pública burguesa que a peça falsifica.

§ 3º Para a gênese da Esfera Pública Burguesa

O capitalismo financeiro e mercantil do séc. XIII é o pano de fundo para a gênese da esfera pública burguesa. O burguês continua se valendo do modo de produção agrícola feudal e da produção em pequena escala na manufatura urbana, sem reestruturá-la, mas na sociedade renascentista florentina se dá a assimilação inicial do humanismo burguês, que significa a prática de negócios impregnada do lucro honrado. O pré-capitalismo é conservador tanto na prática comercial quanto politicamente e seus elementos permanecem ambivalentes, embora dêem origem a um novo sistema de trocas: troca de mercadorias e troca de informações. A troca

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de mercadorias se desenvolve com o uso de técnicas do capitalismo financeiro (nota promissória, letra de câmbio) cujas operações tem na cidade o seu centro. Na troca de as cartas comerciais tomam a função de sistema corporativo de correspondência (sec. XIV) – aos comerciantes não interessava a publicidade da informação. A imprensa e o correio institucionalizam contatos permanentes de comunicação quase ao mesmo tempo em que surgem as bolsas e esse novo sistema de comunicações sociais, com suas instituições adapta-se, enquanto continua ausente elemento decisivo, a publicidade. Ainda não há a notícia. Isto é, se correio só é correio quando as cartas passam a ser transportadas regularmente para o público em geral, a imprensa só se torna imprensa em sentido estrito quando a transmissão regular de informações torna-se pública.

O capitalismo alcança nova fase com a expansão das companhias que empreendem expedições, e passam a ser sociedades. Elevam-se as demandas do capital e o compartilhamento de riscos. A base de operações que era a cidade passa a ser o território nacional – nacionaliza-se a economia citadina. As administrações locais são colocadas sob a vigilância de juízes de paz (Inglaterra) e da intendência (França). Os mercados do comércio exterior passam a ser “produtos institucionais”. A partir daí nasce o Estado Moderno, a nação, com demandas crescentes por capital que vai ser satisfeito com impostos. Os bens do Estado separam-se dos bens da Casa Real. O neo-colonialismo (sec. XVII) esforça-se pelo desenvolvimento da economia e modificam-se as relações entre o capital manufatureiro e comercial porque a troca de matéria-prima por produtos acabados e semi-acabados passa a ser compreendida como função do processo de transformação do modo de produção para o modo capitalista de produção. O comércio exterior passa a ser válido na medida em que possibilita a ocupação da população local (employment created by trade).

A representatividade pública ligada aos atributos da pessoa cede espaço para a esfera do poder público que é tido como antiético, definido negativamente por aqueles que lhe tangenciam e que são pessoas privadas, não fazendo parte dele. Aqui, neste sentido estrito, público torna-se sinônimo de estatal. O atributo “público” passa a pertencer a um aparelho munido do monopólio de utilização legítima da força. As pessoas privadas submetidas ao poderio senhorial que se transforma em “polícia”, passam a constituir o “público”, destinatário do poder estatal. A sociedade civil burguesa constitui-se em contraposição à autoridade estatal. A manifestação inicial é a transposição para a esfera pública da atividade econômica (atividades e das relações de dependência) confinadas antes ao âmbito doméstico. A esfera privada torna-se públicamente relevante porque as condições econômicas sob as quais a economia doméstica gira passam a ser de interesse geral.

Como a economia individual de cada família era o centro de sua existência, o interesse geral nessa economia faz com que a imprensa, segundo elemento do sistema de trocas pré-capitalista passe a ter força explosiva. Os primeiros jornais, inicialmente denominados de jornais políticos não existiam para os comerciantes que preferiam manter restrita a correspondência privada com os dados de sua atividade, não havia interesse em tornar público o conteúdo das trocas. Os comerciantes eram, para os jornais políticos custodes novelarum (guardiães das novidades). Pelo filtro do controle passam informações do estrangeiro e notícias menos importantes, mas a troca de informações sobre mercadorias ultrapassa as necessidades do intercâmbio, pois as notícias se tornam mercadorias. Os jornais impressos desenvolvem-se a partir dos escritórios que faziam os jornais manuscritos. Para aumentar a tiragem e o lucro, toda informação epistolar passa a ter um preço. A imprensa tornou-se sistematicamente útil às administrações que publicavam seus decretos e portarias. Os folhetins tornam-se instrumentos prediletos dos governos que assumem as agências de notícias e transformam os jornais informativos em boletins oficiais: os jornais deviam servir ao público e facilitar o comércio, mas, quando muito, atingiam as camadas cultas do público, surgidas junto com o Estado

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(funcionários da administração feudal, juristas, médicos pastores, professores em um escala que vai do mestre-escola até o povo). Nesse contexto, os burgueses propriamente ditos (artesãos, pequenos comerciantes, corporações profissionais) perderam importância.

Os “capitalistas” (comerciantes, banqueiros, donos de manufaturas) ultrapassaram os limites da cidade e se vincularam ao Estado passando a pertencer à camada burguesa dos

“homens cultos” – camada sustentáculo do público, que desde o início é um público que lê e cuja posição dominante na nova esfera da sociedade burguesa leva a uma tensão entre cidade e corte e bloqueia sua incorporação ao todo da cultura aristocrática do barroco tardio. Essa nova esfera da sociedade burguesa é percebida como sua esfera própria no âmbito da qual autoridade e súditos (burgueses cultos) inauguram a ambivalência entre regulamentação pública e iniciativa privada. Assim é problematizada aquela zona em que o poder público, mediante atos administrativos contínuos, mantém ligações com as pessoas privadas.

A ligação que o poder público mantém com as pessoas privadas alcança sua condição de consumidores porque sua existência cotidiana é atingida pela política mercantilista e nasce daí uma esfera crítica: quando há falta de trigo, um decreto proíbe o consumo de pão em um dado dia da semana. Por um lado, um setor privado delimita a sociedade em relação ao poder público e por outro lado eleva a reprodução da vida acima dos limites do poder doméstico privado, fazendo dela algo de interesse público.

A zona de contato contínuo torna-se uma zona crítica e o público pensante, formulador dessa crítica, aceita esse papel e apenas troca a função da imprensa, que já havia tornado a sociedade uma coisa pública. Nessa mudança de função, os jornais passam a ser complementados por revistas e a ensaística passa a fazer parte da imprensa diária, tanto é assim que a um dado momento na Prússia (sec. XVIII), todos os professores deveriam enviar nota especial aos jornais sobre descobertas etc. Os burgueses, aqui ainda sob encomenda dos senhores feudais, formulam as idéias que logo viriam a ser as suas próprias idéias e dirigidas contra aqueles que antes as encomendavam. Mas, a formulação de juizos públicos por pessoas privadas torna-se indesejável.

A pessoa privada, por não pertencer ao poder público não conhecia todas as circunstâncias dos negócios públicos e por isso a ela era interditado formular juízos públicos. Esses juízos são chamados de públicos em vista de uma esfera do poder público, mas que agora se dissociava deste como o fórum para onde se dirigiam as pesssoas privadas a fim de obrigar o poder público a se legitimar perante a opinião pública. A história da palavra público revela essa mudança. De public (world, mankind) a le public, publikum (tout le monde, alle welt) diferenciando público em geral de público-leitor, mas em ambas as acepções é um público que julga. O termo inglês publicity vai emprestado ao francês publicité e aparece na Alemanha como

“offentliche meinung” sob a forma de opinião pública, expressão cunhada na metade do sec XVIII como “opinion publique”. Na Inglaterra surge como public opinion, tendo um antecedente, a general opinion.

II. ESTRUTURAS SOCIAIS DA ESFERA PÚBLICA

§ 4º Prolegômenos

A esfera pública burguesa é inicialmente entendida como a esfera das pessoas privadas reunidas em um público. Os burgueses são pessoas privadas e como tais, não governam, mas reivindicam a esfera pública regulamentada diretamente da autoridade a fim de discutir com ela as leis gerais da troca na esfera privada considerada publicamente relevante. As pretensões conflitantes eram equilibradas pelos monarcas e senhores feudais, mas esse poder é relativizado,

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principalmente na Inglaterra, com o parlamento. O monarca deixa de ser mediador entre os estamentos e a partilha do poder com base na economia de troca não é mais possível porque o poder de dispor sobre a propriedade, oriundo do Direito Privado não é um poder político.

O público, na esfera pública burguesa nasce na esfera íntima da pequena-família – uma nova privacidade se forma – uma esfera pública sem configuração política. Os burgueses aprendem o raciocínio público em contato com o mundo elegante da corte. O espaço cultural se torna um espaço público (sala de leitura, teatro, museu, salons, café), uma primeira esfera pública literária onde os aristocratas humanistas e os intelectuais burgueses transformam as conversações sociais em críticas abertas à corte decadente e a forma primeira de uma nova sociedade: a esfera pública burguesa.

A linha divisória entre Estado e Sociedade separa a esfera pública do setor privado O setor público limita-se ao poder público (a corte está incluída). No setor privado também está abrangida a esfera pública pois ela é uma esfera pública de pessoas privadas. A esfera privada compreende a sociedade civil burguesa em seu sentido mais estrito (a família incluída) A esfera pública política provém da literária, ela intermedia através da opinião pública, o Estado e as necessidades da sociedade.

§ 5º Instituições da Esfera Privada

Um círculo de consumidores e críticos de arte e literatura (le publique) constitui a sociabilidade aristocrática que substitui os salões de festas dos monarcas e dá origem ao salon frequentado pela aristocracia citadina economicamente improdutiva e politicamente sem função, que ainda não pode se libertar da autoridade dos anfitriões aristocráticos, nem evoluir para a autonomia que transforma a conversação em crítica. Com a mudança da corte de Versailles para Paris a corte perde a sua posição na esfera pública. A esfera da representação se torna uma fachada mantida com dificuldades (grand gout de Versailles). O grandioso cerimonial do monarca dá lugar a uma intimidade burguesa, círculos privados. Também na Inglaterra a relação entre cidade e corte se modifica. Em um caso e no outro, a corte passa a ser a residência da família real que vive retirada.

A cidade prepondera sustentada em suas novas instituições: os cafés. Com a difusão do Chá, do Café e do Chocolate, na metade do séc XVII um primeiro café é inagurado. No séc XVIII havia 3000 cafés em Londres. A literatura se legitimava nesses espaços (cafés e salons).

Os cafés eram marcadamente masculinos e os salons femininos. Nos cafés, onde a aristrocracia se encontrava com a intelectualidade burguesa, o raciocínio nascido com a arte e a política se expande para a economia. Os cafés admitiam camadas amplas, incluindo artesãos e merceeiros. Na França, por outro lado, enquanto a burguesia assumia posições de comando na economia, a aristocracia compensava a superioridade material com privilégios de realeza e ênfase na hierarquia da vida social. Nos salões há uma igualdade advinda da convivência da aristocracia com a nobreza e com a intelectualidade. Nos salões a “opinião” se emancipa dos liames da dependência econômica. O salon era o fórum das primeiras edições.

Na Alemanha as sociedades de conversação (sociedade teuta) são os elementos semelhantes que tem seu público recrutado entre pessoas privadas que fazem um trabalho produtivo, com forte presença de burgueses com formação acadêmica, que se encontram nesses espaços como meros seres humanos, porque embora sejam socialmente reconhecidos, não possuem influência política. Nessa esfera pública que se forma em segredo, como na maçonaria, não há publicidade: a razão que deve concretizar-se na comunicação racional de um público de homens cultos , por ameaçar uma relação qualquer de poder, necessita da

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proteção do segredo. Mas a praxis das sociedades secretas cai sob o jugo de sua própria ideologia porque o público pensante se impõe contra a esfera pública controlada pelo poder.

De todo modo, por mais diferentes que sejam, a proposta dessas instituições é a discussão permanente entre pessoas privadas e isso é feito sob critérios comuns: (i) é exigida uma igualdade de status – os cafés e salons institucionalizam a igualdade enquanto idéia colocada como reivindicação objetiva; (ii) problematização de setores – os bens culturais se tornam mercadoria e são profanados nesses espaços, porque discutir o universal era adstrito a sacerdotes e governo. Cultura será, somente no sec. XVIII separada da reprodução da vida social; (iii) não-fechamento do público por mais exclusivo que fosse a instituição.

A literatura, o teatro, a música tornados mercadoria configuram o público e a arte fica liberada de sua função de representação social e até os leigos passam a julgá-la: discutir arte passa a ser uma forma de apropriação.Surge uma nova profissão, a de árbitro das artes, cujos pareceres eram válidos se não fossem contraditos. Os jornais consagrados à crítica cultural são como instrumentos da crítica de arte institucionalizada. Nesse contexto se dá o fenômeno do hebdomadário moralista. O público vê a si mesmo entrando como objeto na literatura, torna-se tema.

§ 6º A Família Burguesa e a Institucionalização de uma Privacidade Ligada ao Público O grande público, mesmo observando-se critérios sociais é burguês e tematiza a si próprio. A privatização da vida pode ser observada no estilo arquitetônico. O espaço familiar diminui e o número de quartos privados aumenta. O isolamento do membro da família mesmo dentro da casa é valorizado. O espaço maior (o salão) passa a servir à sociedade e não à família. A esfera familiar pretendia ser independente, mas depende da esfera do trabalho e da troca de mercadorias, não há ilusão, a família não é estrita em si mesma, detém reais funções sociais: (i) garante a continuidade pessoal; (ii) acumulação de capital e a (iii) livre herança da propriedade. Freud descobriu o mecanismo de internalização da autoridade paterna: à autonomia do proprietário no mercado e vida privada correspondia à dependência da mulher e dos filhos em relação ao marido e ao pai.

Na esfera da intimidade estabelecem-se relações puramente humanas. Por muito tempo a as cartas gozaram de prestígio como canal de intimidade. Diário íntimo se transforma em diálogo endereçado ao emissor e esta subjetividade é, desde sempre ligada ao público (romance psicológico). As relações entre autor, obra e público se modificam e tornam-se relacionamentos íntimos entre pessoas privadas. A ficção, realidade como ilusão permite a qualquer um participar da ação romanesca como ação substitutiva da ação pessoal (fiction).Nas camadas mais amplas da burguesia a esfera do público surge como complementação da esfera íntima. A influência da esfera pública burguesa alcança hegemonia com o livro Pamela – obra mais vendida do século que se difunde nesse público cuja subjetividade específica se forma na pequena-família patriarcal. Dois anos depois de Pamela, abre-se a primeira livraria pública. A leitura de romances torna-se um hábito nas camadas burguesas. Este é o público que é mantido reunido através da instância mediadora que é a imprensa e a crítica profissional, um público consciente.

§ 7º A esfera pública literária em relação à esfera pública política

A esfera pública literária muda de função, mediatiza o ingresso das experiências da privacidade na esfera pública. Isto é, o público-leitor, público consciente se apropria da esfera pública controlada pela autoridade e a transforma em uma esfera em que a crítica se exerce contra o poder do Estado. A esfera pública literária dá origem a uma esfera do social

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cuja regulamentação a opinião pública disputa com o poder público. É a esfera pública moderna que se distingue pelo seu tema – o debate das tarefas da vida civil. Quando na Grécia antiga o tema era as tarefas políticas dos cidadãos engajados (jurisdição no plano interno e auto- afirmação no plano externo), aqui, o tema desloca-se para as tarefas da vida civil (garantir a troca de mercadorias) levadas ao debate público.

A esfera pública moderna é polêmica porque contém em sua origem a controvérsia da soberania do Direito Público utilizado pelo Príncipe para manter dominação sobre o povo considerado imaturo, no binômio prática do segredo e direitos de império. Mais tarde, a publicidade fará a oposição em relação à prática do segredo. A polêmica mais recente (debate público de assuntos civis) e a antiga (debate público de assuntos políticos) tem em comum o conceito rigoroso de lei que abrange justiça – direitos adquiridos e normas gerais e abstratas.

(Hobbes, Montesquieu e Locke).

A lei, essência das normas gerais, abstrata e permanente a cuja mera aplicação se pretende que a dominação se reduza é inerente a uma racionalidade onde o correto converge com o justo. Assim está feita a inversão do princípio da soberania absoluta que foi definitivamente formulada por Hobbes. Assim como o segredo servia para a dominação da vontade, a publicidade passa a impor uma lei baseada na razão humana, conforme Montesquieu, que relaciona a lei à razão que se expressa na opinião pública. A opinião pública articula contra a monarquia absoluta concebendo e exigindo leis gerais e abstratas e ao afirmar-se passa a ser única fonte legítima das leis. A soberania é obrigada a convergir com a razão. A racionalidade da lei eleva-se como um critério material e o raciocínio público burguês passa a ancorar-se nelas: (i) por serem gerais e externas aos indivíduos lhes assegurava o espaço para a interioridade literária; (ii) por serem de validade geral garantiam sua individuação; (iii) por serem objetivas permitiam o desenvolvimento da subjetividade e (iv) por serem abstratas possibilitavam um espaço de manobra ao mais concreto.

A consciência que a esfera pública política tem de si é intermediada pela consciência institucional da esfera pública literária, ambas formadas por pessoas privadas. Habermas denomina a esfera do mercado de esfera privada e a esfera da família de esfera íntima, mas aborda a ambivalência da família cujos membros são mantidos juntos pela dominação patriarcal e também pela intimidade humana. O burguês é proprietário de bens e de pessoas, bem como ser humano entre os humanos. O burguês é homem e é burguês. Essa ambivalência aparece na esfera pública, no discurso literário sobre as subjetividades humanas e no discurso político sobre a regulamentação de sua esfera privada. O público feminino é excluído da esfera pública política, mas participa fortemente da esfera pública literária. A esfera pública literária serve de instância mediadora da esfera pública política. A esfera pública burguesa desenvolvida baseia-se na identidade fictícia das pessoas privadas reunidas num público em seus duplos papéis de proprietários e de meros seres humanos.

III. FUNÇÕES POLÍTICAS DA ESFERA PÚBLICA

§ 8º Caso-Modelo: o desenvolvimento Inglês

A esfera pública funcionando politicamente aparece pela primeira vez na Inglaterra na virada para o século XVIII. É o parlamento. Forças que querem então passar a ter influência sobre as decisões do poder estatal apelam para o público pensante a fim de legitimar reivindicações ante esse novo fórum. A esfera pública literária no continente europeu torna-se, também, uma instância apelável.

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A tradicional antítese entre os interesses fundiários e financeiros que não havia evoluído para um aberto antagonismo de classes é superada por um novo antagonismo entre os interesses restritivos do capital comercial e financeiro e os interesses expansivos do capital manufatureiro e industrial. Como o modo de produção capitalista se impunha, o conflito atingia a população e fazia com que os partidos buscassem o público como nova instância de apelação. Nessa época as instituições da esfera privada (cafés e salões) foram proclamadas como locais de agitação, onde se falava contra os procedimentos do Estado, da Rainha, mas, com a queda da censura prévia, a imprensa entra no jogo político como novo instrumento perante o fórum público.

Os estadistas passaram a usar a imprensa como canal de suas posições e contratavam literatos com esse propósito, pois era forte a associação entre literatura e política. Os jornais até certo período (London Gazette) eram jornais da situação. A oposição passou a fazer um jornalismo político de grande estilo (foram os tories e não os Whigs) e deu origem à formação da opinião popular voltada para a formação de um jornalismo autônomo. Com a revista Craftsman que editava a plataforma publicitária da oposição é que a imprensa se estabelece propriamente como órgão crítico de um público que pensa política como quarto estado. Modifica-se, assim, a natureza do poder público que se torna público em dois sentidos.

A discussão entre Imprensa e Estado passa a medir o grau de desenvolvimento. Porém, em algumas publicações contextos políticos secretos relevantes se revelam como conteúdos políticos. O parlamento, contudo mantinha um espaço de segredo e insistia na exclusão do público do conteúdo dos debates, até que os relatórios das atividades do parlamento passaram a ser publicados com parcimônia. Mas a forte crítica moldada pelo Craftsman passa também a moldar e noticiar os debates parlamentares, e as proibições de publicar eram renovadas constantemente até chegar ao ponto de a publicação vir a ser considerada quebra de privilégio parlamentar. Essa situação não perdura porque se torna impossível manter a exclusão do público das decisões e resoluções do parlamento a partir do momento em que um dos memory de um dos jornais consegue reproduzir palavra por palavra o que estava sendo dito no parlamento. Em 1803 um lugar nas galerias foi arranjado para os jornalistas que por quase uma década acessavam ilegalmente o parlamento. A tribuna dos repórteres veio em seguida no prédio do novo parlamento.

As classes dominantes no plano econômico encontram-se no parlamento, onde atingem a dominação política e estabelecem direitos constitucionais (habeas corpus, Declaration of Rights) o que torna a revolução inútil na Inglaterra. O parlamento muda de função. O rei não pode fechá-lo. A nova relação da esfera pública com o parlamento leva à publicidade total de seus atos. O parlamento se torna o refúgio das minorias. As controvérsias políticas do parlamento e o grande público são mediadas pela crítica sistemática do Crafstman, espécie de gabinete fantasma. Do debate público surge a teoria da oposição. O sense of the people ganha importância. Outras instituições do público politizado surgem: public meetings e os parlamentares continuam a se reunir em clubes informais e evoluem para uma organização fora do parlamento – os partidos que ganham primeira forma sólida com a criação dos comitês locais.

Três anos após início da revolução francesa o público politicamente pensante é indiretamente sancionado em sua função de crítica pública por Fox em um discurso na Câmara dos Comuns onde diz que é correto e prudente consultar a opinião pública e que o público tinha o direito de ter os meios para formar uma opinião. Fox quebra a exclusividade do parlamento. As condições para um governo pela opinião pública são complementadas pela publicação de um programa eleitoral. A opinião pública se forma na luta dos argumentos em torno de algo, através do common sense.

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§9º As Variantes continentais européias

Na França também surge um público que pensa politicamente, mas esse público só pode institucionalizar suas tendências críticas após a Revolução Francesa. Antes dela, qualquer crítica só podia ser publicada com aprovação da censura. Um jornalismo político não pode ser desenvolvido, a imprensa periódica como um todo é lamentável. Os parlamentares não corporificam uma elite burguesa, faltam instituições sociais de base. Não há, como na Inglaterra, uma camada alta homogênea que reúne nobreza e burocracia. As diferenças entre os estados são rigorosas. A nobreza, classe parasitária, sem significado político, fica fora do comércio e depende da coroa. O rei monopoliza o poder público. Todos são súditos, são pessoas privadas na esfera da sociedade civil. Só com a Enciclopédia (festejada como capítulo introdutório da Revolução) a intenção moralista dos filósofos evolui para a intencionalidade política. Os fisiocratas (dito economistas) reuniram-se por quase uma década e defendiam sua doutrina nos jornais (Gazette Du commerce etc.|) Turgot e Malesherbes foram chamados ao governo e foram, em 1774 considerados os primeiros expoentes da opinião pública. Mas somente Necker consegue abrir uma brecha no sistema absolutista para o público politizado, quando manda publicar o orçamento nacional.

A esfera de um público criado no meio da nobreza torna-se com a ajuda dos intelectuais que haviam tido uma certa ascensão social, agora, definitivamente, a esfera em que a sociedade burguesa chega a expor refletidamente os seus interesses. Mas essa esfera pública é reprimida desde o compte rendu de Necker. Os cahiers de doleance (cadernos de queixas) dão ao público acesso aos assuntos de estado o que leva à convocação dos estados gerais.Com a revolução, estabelece-se na França aquilo que na Inglaterra levou um século para consolidar-se:

instituições para o público politizado. O princípio da publicidade é adotado pelos estados gerais.

Tão importante quanto a institucionalização da esfera pública política é a sua regulamentação jurídica: desde o início o processo revolucionário é interpretado e definido em termos constitucionais. Aí surge uma consciência própria, terminologicamente delineada de modo mais nítido do que na Inglaterra da mesma época. Publicidade é a palavra ouvida em todos os cantos e a idéia é suplementada pela Declaração dos Direitos do Homem que no artigo 11 dispõe: “a livre comunicação de idéias e opiniões é um dos mais preciosos direitos do ser humano” Esse direito é acrescido, com a Constituição de 1793 do direito de se reunir livremente. Era preciso assegurar esse direito, sempre ameaçado pelos contra-revolucionários, envenenadores da opinião pública. Napoleão suprime toda a forma de expressão pública, com exceção de 13 jornalistas nominalmente apontados. A oposição passa a exprimir-se com muita precaução. Em 1830, a Revolução Francesa de Julho, o jornal de oposição fundado por Thiers e Mignet devolve a imprensa aos partidos e ao parlamento.

Na Alemanha os burgueses mantém rigorosa distância em relação ao povo (volk) distinguido pelo balcão e pelos trabalhos manuais. A burguesia era a camada culta e a aristocracia não tinha autonomia nenhuma em relação à corte. O público politizado encontrava lugar nas reuniões privadas dos burgueses. Surgem as sociedades de leitura que se expandem e servem à necessidade das pessoas privadas de formarem uma esfera pública enquanto público pensante: ler revistas e conversar formulando aquilo que vai ser denominado de opinião pública.

A reação dos príncipes aos jornalistas é brutal, o que é um sintoma da força crítica da esfera pública – os jornalistas do Deustchen Chronik sofrem sanções. Um é morto e o outro aprisionado por 10 anos.

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§ 10 A Sociedade Civil Burguesa como esfera de autonomia privada: Direito Privado e Liberalização do Mercado

Durante o séc. XVIII a esfera pública assume funções políticas e passa a ter uma função central: ela se torna diretamente o princípio organizativo do Estado de Direito Burguês como forma de governo parlamentar, como na Inglaterra. A esfera pública com atuação política passa a ter um status normativo de um órgão de automediação da sociedade burguesa com um poder estatal. As funções políticas, jurídicas e administrativas foram reunidos no poder público. Privado era o setor separado dessa esfera pública que tinha como pressuposto social o mercado tendencialmente liberado, onde a troca é um assunto particular das pessoas privadas entre si, completando, assim, finalmente, a privatização da sociedade burguesa em um privativo que se despiu de seu caráter público. O direito privado reduz a relação entre as pessoas a relações de troca, contratos privados. O sentido positivo de privado constitui-se sobretudo à base da concepção de dispor livremente da propriedade que funcione capitalisticamente. A parceria nas trocas é a relação central na sociedade burguesa e se torna modelo para as relações contratuais. Todos podem contratar porque todos passam a ter capacidade jurídica universal já não são mais definidos pelo estamento ou nascimento.

As grandes codificações do direito burguês (Inglarerra, common law, Prússia, Áustria) desenvolvem um sistema de normas que assegura uma esfera privada em sentido estrito, ou seja, o intercâmbio das pessoas privadas entre si livres de encargos corporativistas e governamentais. Garantem a instituição da propriedade privada e , como se ponto de ligação, as liberdades básicas de contrato, de empreendimento e de herança. Esses códigos eram levados ao debate público das pessoas privadas reunidas num público e a opinião pública também participava de sua formulação. Passa-se do direito natural ao direito positivo.

O Direito Privado torna-se o direito da sociedade burguesa emancipada (a história do direito privado começa bem antes, no direito romano onde o direito privado surge como antítese do direito canônico). Sob o absolutismo as técnicas jurídicas mais do que o direito propriamente dito são mais úteis aos monarcas na discussão da autoridades favoráveis à centralização com o particularismo dos poderes estamentais. A sociedade burguesa deve ser separada de suas ligações corporativas e ser subordinada à autoridade administrativa do príncipe. O regime jurídico é abstrato, geral e por isso aparentemente livre e economicamente individualista. A liberdade empresarial avança passo-a-passo desde a metade do sec. XVIII e os mercados de consumo, dos terrenos, o trabalho e o próprio capital passam a ter como regra quase que exclusivamente somente as leis da livre concorrência.

Com o impulso da Revolução Industrial, o capital expande-se e as importações se intensificam no laisser faire inglês que eleva seu interesse no livre câmbio. Com a emancipação das colônias americanas, o comércio com um país livre passou a ser tão lucrativo quanto o intercâmbio dentro de um mesmo sistema colonial. Assim, como efeito da livre concorrência, o free trade determina toda aquela fase denominada de fase liberal. Embora a livre concorrência seja tida como essência do capitalismo, isso ocorreu só na Inglaterra, os demais países não vivenciaram essa experiência da fase liberal. Mesmo assim, a sociedade burguesa enquanto esfera privada só se emancipa das diretrizes do poder público a medida que então a esfera pública política pode chegar a se desenvolver plenamente no Estado de Direito Burguês.

§ 11 - A Contraditória institucionalização da esfera pública no Estado de Direito Burguês A sociedade burguesa se apresenta como uma esfera livre de dominação e livre de poder, determinada apenas pelas leis de livre mercado. Concebe a si própria como auto-regulável, assim como a livre concorrência e promete respeito a uma justiça baseada na eficiência individual. A

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força estaria ausente sendo que o bem-estar para todos tem como pressuposto a não intervenção de nenhuma força extra-econômica no processo de trocas. Os proprietários de mercadorias não tem qualquer poder sobre os mecanismos de preços, é autônomo e anônimo em relação ao processo de trocas, submetido às decisões do mercado. Nessa esfera privada tendencialmente neutra quanto à força no mercado e emancipada quanto à dominação é que as garantias jurídicas apontam a sua constituição econômica básica: proteção ao mercado-livre.

As leis que interferissem nesse livre mercado que existe como extensão do interesse das pessoas privadas operando capitalisticamente seriam indesejáveis. Por isto estar no âmbito da competência e de acordo com uma justiça formal se tornaram critérios do Estado de Direito Burguês: administração “racional” e justiça “independente” são os pressupostos de organização do Estado de Direito Burguês. A própria lei precisa ser obrigatória para todos, não deve permitir nenhuma dispensa ou privilégio. Nisso as leis do Estado correspondem às leis do mercado, nenhuma delas permite exceções ao cidadão nem à pessoa privada. São objetivas, não podem ser manipuladas por indivíduos (o preço escapa à influência do proprietário individual de mercadorias), o livre mercado proíbe convenções particulares. As leis do mercado acabam se exercendo por si mesmas o que lhes confere aparência de uma ordem natural e as leis do estado requerem promulgação expressa. Também o monarca poderia atuar como legislador desde que se submetesse às normas universais orientadas pelos interesses do intercâmbio burguês. Os fisiocratas haviam concebido o despotismo legal onde o monarca esclarecido estaria dominado pela opinião pública. O Estado de Direito enquanto Estado burguês estabelece a esfera pública atuando politicamente como órgão do Estado para assegurar institucionalmente o vínculo entre lei e opinião pública. Mas há uma ambivalência no conceito de lei. É lei tudo o que tem origem na representação popular. Se de um lado há no conceito de lei o momento da vontade imposta à força, de outro lado há, em sua origem, o momento da opinião pública.

Carl Schmitt dá outra definição de lei: lei não é vontade de uma ou muitas pessoas, lei é razão. O domínio da lei tem a intenção de dissolver a própria dominação.A idéia burguesa de Estado de Direito, ou seja, a vinculação de toda a atividade do Estado a um sistema normativo sem lacunas e legitimado pela opinião pública já almeja a eliminação do Estado, sobretudo como um instrumento de dominação. Mas, por ter sido conseguido a duras lutas, a competência de legislar (legislative power, pouvoir) mantém seu caráter de poder, porque sem esse caráter, fica só a justiça como mera aplicadora da lei. Legislar não deve ser expressão de um vontade política, mas uma concordância racional.

As funções da esfera pública encontram-se articuladas na lei fundamental ou na constituição: (i) grupo de direitos da esfera do público pensante (liberdade de opinião, imprensa, reunião etc.); (ii) grupo de direitos da esfera íntima da pequena família, fundados no status libertatis (inviolabilidade da residência, liberdade pessoal etc) e (iii) grupo de direitos da esfera da sociedade burguesa que protege o intercâmbio dos proprietários privados (igualdade perante a lei, garantia da propriedade privada etc.). Os direitos fundamentais garantem: (i) as esferas do público e do privado (com a esfera íntima como se cerne); (ii) as instituições e instrumentos do público (imprensa partidos); (iii) instituições base da autonomia privada (família e propriedade) e (iv) as funções da pessoa privada (funções políticas e econômicas e a função de comunicação individual.

A Esfera pública é um princípio organizatório dos processos do Estado da qual resultou a publicidade que assegura a conexão entre deputados e eleitores como um único público.

Tanto os discursos parlamentares quanto as decisões judicias são publicadas, registrando o texto que houve resistência da administração à publicidade porque a burocracia é um instrumento na mão do príncipe contra os interesses da sociedade civil burguesa.

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Ao afirmar que todo poder emana do povo, a ordem constitucional fixa a esfera pública politicamente atuante e revela uma ordem de dominação conseguida com muito esforço, embalado pela pretensão do estado burguês de garantir a subordinação do poder público as exigências de uma esfera privada que se pretende neutra quanto ao poder e emancipada quanto à dominação.

A Esfera pública burguesa se rege e cai com o princípio do acesso a todos. Uma esfera pública da qual certos grupos fossem excluídos seria incompleta, não seria esfera pública.

Mas aquele público que pode ser sujeito do Estado de Direito Burguês entende como pública sua esfera – aquela a qual seres humanos, homens morais, todos pertencem. Essa esfera é a esfera íntima. A esfera pública do público-leitor continua literária, mesmo quando assume função política, mas o ingresso nela depende de formação cultural que era, antes de tudo uma decorrência do status e não um pressuposto dele. Então, os estamentos cultos, são, também, os proprietários.

O homem privado, educado e proprietário habilita-se na esfera pública com função política, mas o acesso geral a essa esfera que o Estado de Direito institucionaliza é decidida de antemão na estrutura da sociedade civil burguesa que assegura uma dimensão pública de acesso à esfera: conquistar as qualificações da autonomia privada que fazem o homem culto e proprietário. Essa conquista de status apoia-se nos pressupostos da economia clássica (livre concorrência, a valor da mercadoria determina a troca, oferta e procura sempre se compensam).

Se todos poderiam se tornar cidadãos burgueses, então todos poderiam ter acesso à esfera pública politicamente atuante. Todavia, só os proprietários estavam em condições de constituir um público que transformasse seus interesses particulares em interesses comuns e só deles, então, se poderia esperar uma representação efetiva do interesse geral – o interesse de classe é a base da opinião pública, que naquele momento coincidia com o interesse geral – era considerada racional. Se ideologias não indicam apenas a consciência socialmente necessária simplesmente em sua falsidade, se elas contém um momento que transcende utopicamente o existente para além de si mesmo, mesmo que sejam apenas para justificá-lo, é verdade, então que só há mesmo ideologia a partir dessa época. A sua origem seria a identidade dos proprietários com os homens simplesmente. A identificação da esfera política com a esfera literária.

IV. ESFERA PÚBLICA BURGUESA: IDÉIA E IDEOLOGIA

§ 12 Public Opinion – opinion publique – offentliche meinung: para a pré-história do topos A esfera pública burguesa cristalizou seu auto-entendimento na opinião pública (interesse de classe como base da opinião pública). Opinion de início tanto em francês quanto em inglês expressa juízo sem certeza. O termo não evoluiu em linha reta para opinião pública – tirocínio capaz de julgar e passou por outros significados. Mas, para o estudo da ambivalência entre idéia e ideologia o significado de opinion que importa é o de reputação, aquilo que se coloca na opinião dos outros.

Hobbes identifica estado de consciência e consciência moral com Opinion, mas projeta um Estado onde o súdito está excluído da esfera pública e política o que torna suas opiniões irrelevantes para o Estado. Hobbes desvaloriza as convicções religiosas e leva à valorização da convicção privada, porque a privatização da religião fez com que a opinião da igreja fosse considerada.

Locke cria a Law of Opinion and Reputation (law of private censure) como medida entre a virtude e o vício, fazendo reaparecer o sentido de opinião como aquilo que se coloca

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na opinião dos outros. Opinion, não está como public opinion ligada a pressupostos de formação educacional.

Bayle, separou a crítica de sua origem histórica. “A favor e contra” passaram a ser critérios aplicáveis a tudo e destruidores da opinion, mesmo considerando a crítica como algo essencialmente privado e sem consequências para o poder público. Os críticos então são vistos como sabotadores do que é sagrado ao homem e se voltam contra a opinião pública.

Na Inglaterra a evolução de opinion para public opinion passa pela noção de public spirit que veio da expressão que fundamentou a conexão da oposição política com o sense of the people – o espírito público do povo, que em seu confiável senso comum é até certo ponto, infalível: se nem todos os homens sabem raciocinar, todos os homens sabem sentir.

Burke antes da revolução francesa que ele deveria criticar, formulou a diferenciação necessária: a opinião geral era o veículo e órgão da onipotência legislativa. A opinião do público pensante não é mais simplesmente opinião, não se origina de uma mera inclinação, mas é uma reflexão privada sobre os negócios públicos. Então, como se deu com o public spirit, essa opinião geral recebe o nome de opinião pública (1781, Oxford Dictionary). A antítese entre crítica e opinion é superada na expressão opinião pública.

Os fisiocratas, expoentes de um público que pensa politicamente foram os primeiros a considerar a autonomia legislativa da sociedade civil em relação às medidas do Estado, mas fazem a apologia do absolutismo em uma doutrina que Marx vê como reprodução burguesa do sistema feudal porque querem que o monarca seja o protetor da ordem natural. Mercier compreende o sentido de opinião pública e seu papel social quando diferencia governantes de eruditos. Os eruditos determinam a opinião pública e os governantes a colocam em prática.

Essa reflexão conjunta deve ser obedecida pelo déspota esclarecido. Nesse contexto a máxima do absolutismo - a autoridade faz a lei, está desativada. Não há obviamente uma preocupação com o conteúdo democrático da configuração da opinião pública. A razão da opinião pública se vê privada de sua função constitutiva.

Rousseau fundamenta a autodeterminação democrática do público quando liga vontade geral à opinião pública porque busca restabelecer a ordem natural,corrompida pela sociedade, pelo processo civilizatório formulando o contrato social pelo qual cada um abre mão de seus bens e direitos e pela vontade comum participar nos direitos e deveres de todos. O homem ressurge no cidadão. Rousseau desenvolve a pouco burguesa idéia de uma penetrante sociedade política, em uma a esfera privada autônoma, a sociedade civil burguesa emancipada do Estado não tem lugar: a propriedade é ao mesmo tempo privada e pública.

Rousseau vê o espírito das leis no coração das pessoas e identifica sua opinion com opinião pública porque a democracia direta precisa da presença real do soberano e a vontade geral é o corpo místico ligada ao corpo físico que é o povo unânime reunido. Rousseau concebe o plebiscito permanente e a praça pública se torna o fundamento da constituição. Os fisiocratas preconizam um absolutismo complementado por uma esfera pública criticamente atuante.

Rousseau quer a democracia sem discussão pública e ambos pretendem o mesmo título: opinião pública cujo significado é polarizado na França pré-revolucionária.

Na França o conceito de opinião pública é radicalizado,mais do que na Inglaterra. A constituição de 1791 conjuga a soberania popular com o parlamento que abriga a esfera pública politicamente ativa. Na mesma época, a opinião pública é referida por Bentham, na Inglaterra em associação com publicidade pela primeira vez. A totalidade do público constitui um tribunal que vale mais do que todos os tribunais juntos, mas só a publicidade dentro e fora do parlamento pode assegurar a continuidade do raciocínio político e a sua função. A

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própria escolha dos deputados deve ser objeto de reflexão. Na Alemanha também o conceito de opinião pública não encontra diferenças em relação à França e Inglaterra: a opinião pública provém das pessoas instruídas e se expande principalmente entre aquelas classes que quando atuam em massa constituem o que prepondera (Wieland).

§ 13 - A Publicidade como princípio de mediação entre política e moral (Kant)

Na Alemanha o princípio da publicidade encontra sua configuração teórica amadurecida, antes mesmo da adoção do topos opinião pública. Lá processo crítico realizado pelas pessoas privadas que raciocinam públicamente entende a si próprio como apolítico e é nesse diapasão que a função de mediação entre Estado e Sociedade é feita. Não é só na república das pessoas instruídas que se realiza a esfera pública, mas no uso público da razão por parte de todos aqueles que aí se entendam.

No séc. XVIII a filosofia política de Aristóteles ressurge com o significado de filosofia moral e a opinião pública quer racionalizar a política em nome da moral, de tal modo que apenas a razão tenha poder. Por isso, em Kant, a publicidade deve ser considerada como aquele princípio único a garantir o acordo da política com a moral – a publicidade é um princípio de ordenação jurídica e método iluminista.

A minoridade era a incapacidade de usar o seu próprio entendimento sem a direção de outro e libertar-se da minoridade é o que se chama de iluminismo que deve ser intermediado pela publicidade. Kant concebe o iluminismo, o uso público da razão inicialmente como coisa de eruditos, embora a esfera onde os filósofos exercessem o seu juízo crítico não fosse essencialmente acadêmica. A discussão tinha por fim instruir e sondar o governo e também orientar o povo a servir-se de sua própria razão. A posição desse público é ambígua. Por um lado imaturo, necessitado de orientação, por outro, já com pretensão da maioridade daqueles capacitados para o esclarecimento.

O uso público da razão é aquele uso que se faz enquanto pessoa instruída perante todo o público-leitor num determinado posto ou cargo civil que lhe for confiado, onde não é permitido discutir, mas só obedecer. Cada um está convocado a usar a razão, a falar ao público, ao mundo através de textos, a ser um publicador. O mundo se estabelece na comunicação entre seres racionais. O público pensante de homens constitui-se em público dos cidadãos em uma esfera pública politicamente em funcionamento que sob a constituição repúblicana se transformar em princípio de organização do Estado liberal de direito, no âmbito do qual está estabelecida a sociedade civil burguesa como esfera da autonomia privada (cada um deve procurar a sua felicidade pelo caminho que lhe pareça útil).

As leis têm origem na concordância pública o que faz com que Kant diferencie as leis públicas (atos da vontade do povo) das leis privadas (costumes e usos) que não precisam de reconhecimento expresso. A lei pública que determina a todos o que juridicamente lhes deve ou não deve ser permitido é o ato de uma vontade pública (vontade do povo) da qual emana todo o direito e que, portanto, não deve ser injusto com ninguém. Nisso Kant assemelha-se a Rousseau.

Diante do tribunal da esfera pública todas as ações políticas devem poder ser remetidas às leis que as fundamentem e que por sua vez estão comprovadas perante a opinião pública como leis universais e racionais.

No âmbito de um regime sujeito a normas a lei natural da dominação é substituída pela soberania das leis jurídicas – a política pode passar a ser fundamentalmente moral. Mas, para assegurar que essa coincidência luminosa da política com a moral acontecesse, seria preciso que todos juntos quisessem esta situação, porque as leis gerais, das quais cada um

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tende a ser exceptuar secretamente precisam ser ordenadas de tal modo que embora em sua mentalidade privada se contraponham às leis gerais, eles se refreiem reciprocamente de modo que em seu comportamento público a conseqüência disso seja como se não tivessem tais intenções maldosas (vícios privados, benefícios públicos).

A unidade distributiva da vontade precisaria da unidade coletiva da vontade. Por essa razão Kant entende que o estado legal tem início no poder político. Para que a política se associasse à moral Kant propõe que embora os indivíduos internamente livres (internamente à esfera pública burguesa) não possam contribuir com métodos de um processo político fundado na publicidade, poderiam existir relações externamente livres (externamente à esfera pública burguesa), sob as quais a política se tornaria moral. Em outras palavras, as pessoas privadas interessadas reunidas em um público, se comportariam externamente como se interiormente fossem livres, sob os pressupostos sociais que traduziriam private vices public virtues e nisso empiricamente a política estaria subsumida à moral. Duas legislações heterogêneas teriam lugar, sem que uma atue em detrimento da outra: a das pessoas donas de mercadorias conduzidas por interesses privados e, ao mesmo tempo, a dos seres humanos espiritualmente livres.

Mas, apesar de todo o seu esforço em associar o seu pensamento com o pensamento de Rousseau (cujo conteúdo desagradava os liberais), Kant é afeito à crença dos liberais de que com a privatização da sociedade civil burguesa tais pressupostos sociais se estabeleceriam por si como a base natural do Estado de Direito e de uma esfera pública capaz de funcionar politicamente e porque parecia que uma constituição social dessa espécie já parecia ter-se configurado tão nitidamente como ordem natural não é difícil a Kant supor o Estado de Direito como decorrente de uma coação natural, permitindo-lhe fazer da política uma questão moral. A ficção de uma justiça imanente ao livre-intercâmbio de mercadorias torna plausível a equipração de bourgeois e homme dos proprietários privados pura e simplesmente interessados com indivíduos autônomos. Ocorre que o fato de kant não poder tornar leis da razão prática dependentes de condições empíricas (a ação livre como ação necessária) faz com que o estabelecimento do Estado de Direito passe a ser tarefa da política.

A política (soberano, partido, princípe) que não quer orientar-se por leis já existentes e querendo introduzir um ordem legal deve exercer influência positiva sobre o arbítrio. Isso pode ocorrer através da força e, em regra, é assim que ocorre. Influenciar a vontade de outros, orientar-se pelas intenções gerais do público, ou seja, que se tenha em vista o bem-estar da sociedade civil burguesa como um todo. Todas as máximas da ação política precisam da publicidade para coincidirem univocamente com o direito e a política, exatamente porque precisam ser adequadas à intenção geral do público (a felicidade), pois seria a autêntica tarefa da política torná-lo satisfeito com a sua situação.

Para Kant, se o próprio estado de direito só pode ser instaurado politicamente e isso através de uma política conduzida em consonância com a moral, o progresso da legalidade depende diretamente de um progresso na moralidade:“aí, todos os talentos são desenvolvidos pouco a pouco, o gosto é formado e até mesmo por um iluminismo continuado, inicia-se a fundação de um modo de pensar que, com o tempo, pode transformar a grosseira disposição natural em discernimento ético quanto a determinados princípios práticos”. A idéia de uma constituição coincidente com o direito natural dos homens ou seja que os que obedeçam à lei também devam ser legisladores, está, também, subjacente a todas as formas de Estado, e que o ente comum que, de acordo com isso, pensado através de puros conceitos da razão, significa um ideal platônico não é uma vazia fantasia, mas sim a eterna norma para toda e qualquer constituição burguesa, afastando toda guerra. O ideal é diretriz da ação e diferente

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do ideal de Platão que teria atribuído ao ideal significado constitutivo por ser do entendimento divino.

Na filosofia de Kant há duas versões nitidamente distinguíveis: (i) a oficial onde a construção da ordem cosmopolita decorre da ordem natural, sob a qual a doutrina jurídica pode deduzir as ações políticas como se fossem ações morais e isso significa comportamento correto por obrigação decorrente de leis positivas. A soberania das leis é conseguida através da publicidade – mediante uma esfera pública cuja capacidade funcional é imposta sobretudo com a base natural do estado de direito e (ii) a não oficial a política primeiro deve tratar de estabelecer um estado de direito. Por isso é que ela se utiliza da construção de uma ordem cosmopolita decorrente da imposição natural e política moral ao mesmo tempo. A positivação das regras da política leva em conta a vontade coletiva unificada no interesse geral do público ou seja, em seu bem-estar. A publicidade deve mediatizar a política e moral no sentido específico: legalidade deve decorrer de moralidade.

A noção de publicidade só se submeteu às categorias kantianas enquanto a distinção necessária para a filosofia política entre sujeito empírico e sujeito inteligível, entre mundo fenomênico e mundo noumênico, podia apoiar-se na hipótese social do modelo liberal de esfera pública: com a clássica relação de bourgeois-homme-citoyen, podendo contar exatamente com a sociedade burguesa como aquela ordem natural que converte private vices em public virtues.

Mas, como uma série de ficções se articula como opinião pública e adentram-se no sistema kantiano, o conceito de publicidade volta-se contra os fundamentos do próprio sistema.

§ 14 - Para a dialética da esfera pública (Hegel e Marx)

A concordância pública se desenvolve no público das pessoas privadas pensantes e a isso Kant denomina de opinião pública. Em Hegel a opinião pública é a universalidade empírica dos pontos de vista e dos pensamentos dos muitos. Aparentemente Hegel se diferencia de Kant em pouca coisa, mas isso não é verdade como se verá a seguir.

A liberdade que os indivíduos têm e expressam em seus próprios juízos, opiniões e conselhos encontra a sua manifestação no contexto do que se chama de opinião pública. A função da esfera pública seria, então, racionalizar a dominação: o que vige, vige pela compreensão e por razões e não pela força ou pelos usos e costumes.

Em Kant a utilização pública da razão é coisa de pessoa culta, o conhecimento transcende o seu próprio fenômeno, por isso é que para Hegel a ciência fica fora da opinião pública. “As ciências se são verdadeiramente ciências não se encontram de maneira nenhuma no terreno da opinião e dos pontos de vista subjetivos e também a sua exposição não consiste na arte dos torneios retóricos, das alusões, dos subentendidos e dos escamoteamentos, mas na enunciação inequívoca, definida e aberta do significado e do sentido; elas não recaem na categoria daquilo que constitui a opinião pública.”

Esta degradação da opinião pública em Hegel se justifica porque ele descobre a profunda divisão da sociedade burguesa que não só não supera dialeticamente a desigualdade (...) posta por natureza, mas (...) eleva-a a uma desigualdade das aptidões, da fortuna e até mesmo da formação intelectual e moral. O aumento do acúmulo de riquezas pelo modo de vida conjunta dos homens e a dependência da classe presa ao trabalho mostra que apesar do excesso de riquezas, a sociedade burguesa não é suficientemente rica porque em sua peculiar riqueza não possui o suficiente para pagar tributo ao excesso de pobreza e à plebe que ela cria. Em suma, a opinião pública das pessoas privadas reunidas num público não

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conserva mais uma base para a sua unidade e verdade: retorna ao nível de uma opinião subjetiva de muitos.

A desorganização da sociedade burguesa é perceptível no estado de direito burguês. Nele, as pessoas privadas deveriam traduzir dominação em razão, mas isso não acontece. O estado de direito burguês fica reduzido à sociedade civil burguesa e com ela se confunde. O estamento privado é levado a participar da coisa pública no poder legislativo. O sistema antagônico de necessidades está fragmentado em interesses particulares, uma esfera pública das pessoas privadas politicamente ativas levaria a um opinar e querer inorgânico e ao mero poder de massa contra o poder orgânico e para evitar isso seria preciso medidas policiais para assumir o comando da ameaça de desorganização. O Estado refreiaria a sociedade reconduzindo ao universal os interesses. Com esse conceito, de uma sociedade freiada corporativamente, Hegel ultrapassou definitivamente a linha limítrofe do liberalismo, também o conceito de esfera pública, que pertença a uma esfera privada assim delimitada não pode mais ser o conceito liberal.

A opinião pública tem aí a forma de bom senso humano. Está espalhada entre o povo como preconceitos; espelha, no entanto, ainda que nessa confusão, as verdadeiras necessidades e corretas tendências da realidade. Ela chega à consciência de si mesma na assembléia dos estados, cuja natureza pública é o princípio da integração dos cidadãos no Estado. Essa natureza pública, esse princípio da integração promove uma oportunidade de conhecimentos: a opinião pública consegue entender o conceito de Estado e sua problemática e aprende a conhecer a respeitar os talentos, as negociações, virtudes e habilidades dos funcionários governamentais. Essa esfera pública, reduzida a um meio de formação não é mais considerada um princípio do iluminismo ou um esfera em que a razão se realiza. A publicidade serve aí apenas para a integração da opinião subjetiva na objetividade que o espírito se deu na figura do Estado. Hegel se fixa na idéia da realização da razão numa ordem completamente justa, nela justiça e felicidade coincidem. Como avalista da concordância, o raciocínio político do público, a opinião pública está, contudo, desqualificada. O Estado assume para si, enquanto realidade da idéia ética, tal responsabilidade, através de sua mera existência: “Por isso, a opinião pública merece tanto ser prezada quanto menosprezada. Menosprezada por sua consciência concreta e prezada por seu fundamento essencial. A opinion publique é remetida de volta para a esfera da opinion.

Dentro do Estado a subjetividade está no sujeito que é o monarca e os sujeitos tratariam de adquirir direito à sua subjetividade. O monarca não efetiva um direito público, e sim uma moral. Hegel rejeita a consonância da política com a moral por considerá-la uma falsa questão. Para ele, o bem estar do indivíduo é abstrato, mas o bem estar do Estado é concreto e somente a existência concreta pode ser princípio para a ação e o comportamento. Hegel desativa a esfera pública burguesa porque a sociedade anárquica e antagônica não representa a esfera emancipada de dominação e neutralizada quanto ao poder, do intercâmbio de pessoas privadas autônomas, capaz de converter autoridade política em autoridade racional. Mesmo a sociedade civil não pode prescindir da dominação, ela própria precisa de integração pelo poder político. Hegel distinguiu a existência dos estados constitucionais burgueses,mas não admitiu que esses fossem conseqüência da evolução da sociedade civil.

Marx conseguir ver os avanços da sociedade civil na formação dos estados constitucionais burgueses porque percebe que uma república – a forma de estado de direito burguês precisa ser formada onde a esfera privada alcança uma existência autônoma. Até então a sociedade civil tinha imediatamente caráter político, porque os elementos da vida burguesa (família, propriedade, modo de trabalhar) havia se tornado elementos da vida do Estado e determinavam como deveria ser a relação política do indivíduo isolado com o Estado. A revolução política que constitui o Estado Político aboliu o caráter político da sociedade civil

Referências

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