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A ESTABILIDADE DA EMPREGADA GESTANTE E O ABUSO DO DIREITO*

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A ESTABILIDADE D A

E M P R E G A D A G E S T A N T E E O A B U S O D O DIREITO*

KÁTIA LIRIAM PASQUINI BRAIANI”

R e s u m o : Este trabalho enfoca a questão referente à existência o u n ã o d o abuso do direito d a e m p r e g a d a detentora d e estabilidade gestacional que, dispensada d e f o r m a arbitrária o u s e m justa causa, ajuíza reclamação trabalhista após o nascimento d a criança, m a s dentro d o prazo prescricional, postulando indeni­

zação correspondente a o período d e estabilidade. Analisa as duas correntes doutrinárias ejurisprudenciais existentes - a q u e n e g a o direito à indenização, entendendo qu e a e m p r e g a d a age c o m abuso d o direito; e aquela que, ao contrário, confere o direito concluindo qu e a mai s acertada é esta última, especialmente e m razão d a situação peculiar qu e atravessa a gestante n o período da gravidez.

S u m á r i o : 1 Introdução; 2 D a estabilidade; 2.1 A estabilidade d a e m p r e g a d a gestante;

2.2 A finalidade d a garantia; 2.3 O período d e estabilidade e o significado do vocábulo “confirmação” ; 2.4 A s teorias - subjetiva e objetiva - acerca do direito à estabilidade; 2.5 A garantia assegurada à e m p r e g a d a estável dispen­

sada de for m a arbitrária o u s e m justa causa; 2.6 O prazo para a e m p r e g a d a dispensada ajuizar reclamação trabalhista; 3 D o abuso d o direito; 3.1 Breves noções acerca d a teoria d o abuso d o direito; 3.2 Finalidade d o instituto; 3.3 Legislação brasileira sobre da matéria; 3.4 Diferenciação entre ato ilícito e ato abusivo; 3.5 Compatibilidade d o instituto d o abuso d o direito c o m o Direi­

to d o Trabalho; 4 Inapiicabilidade d a teoria d o abuso d o direito à e m p r e g a d a detentora de estabilidade gestacional que, dispensada de f o r m a arbitrária ou s e m justa causa, ingressa c o m a reclamação trabalhista após o término d o período d e estabilidade; 5 Considerações finais

Palavras-chave: Estabilidade. Gestante. A b u s o d o Direito.

<•> Trabalho realizado no Curso.de Pós-GraduaçSo "Lato Sensu” em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho.

‘"’ Juíza do Trabalho Substituta do TRT da 15* Região.

R evista do T ribunal R egional do T rabalho da 15a R egião 167

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1 I N T R O D U Ç Ã O

C o m o a questão estudada v e m sendo analisada sob a ótica da teoria do abuso d o direito, primeiramente tecemos algumas considerações acerca da esta­

bilidade; e m seguida enfo c a m o s a teoria d o abuso d o direito e, ao final, estabele­

c e m o s u m a cone x ã o entre os dois insti­

tutos.

A escolha d o t e m a deu-se porque, muitas vezes nos d e p a r a m o s c o m casos e m que, a nosso ver, faz-se verdadeira injustiça ao nã o se conceder o direito à indenização d o período de estabilidade à e m p r e g a d a gestante e m ra­

zã o d e ter ela ingressado .. . ; c o m a reclamação trabalhis- Agravide^í uma fase que ta após o término d o prazo provocaprofundas modificações na da estabilidade, s e m levar mulher. Modificações de ordem e m consideração a situação física e psicológica. No período pessoal d a m e s m a , m o r - gestacionala mulher fica mais SravesT —

variações constantes de humor.

2 D A ESTABILIDADE ■ p 0íjemsutyjrne/a dúvidas, mtdos, A par d a distinção fantasias. Afinal, ela efiretemiente doutrinária acerca d a esta-

na Constituição Federal d e 1988, através do artigo 10, inciso n, alínea “b ”, d o A t o das Disposições Transitórias. A t é então, tal di­

reito vinha sendo garantido por m e i o de nor­

m a s coletivas.

O dispositivo legal citado estabelece . qu e até q u e seja promulgada lei c o m p l e m e n ­

tar a qu e se refere o artigo T, inciso I, da Constituição Federal, fica ved a d a a dispen­

sa arbitrária ou s e m justa causa d a e m p r e ­ ga d a gestante, desde a confirmação da gra­

videz até cinco m e s e s após o parto.

2.2 A finalidade da garantia

bilidade e d a garantia n o e m p r e g o (ou “a o ” e m p r e ­ go), para o fi m a q u e se des­

tina este trabalho, o impor­

tante é sabermos q u e o ins­

tituto é u m a limitação a o

poder potestativo d o empre g a d o r d e dispen­

sar a e m p r e g a d a d e f o r m a arbitrária o u s e m justa causa.

Detentora d e estabilidade, a e m p r e ­ gad a t e m o direito à m a n u t e n ç ã o d o e m p r e ­ go, exceto se praticar atos q u e i m p o r t e m n o reconhecimento d e justa causa o u q u a n d o ocorrer o encerramento das atividades d o empregador. Neste último caso, pela imp o s ­ sibilidade material.

2.1 A Estabilidade da empregada ges­

tante

A estabilidade à e m p r e g a d a gestante foi conferida legalmente, pela primeira vez,

A situação è às veyes tão difíál que a mulher pode sofrer de depressão

pós-parlo, chegando mesmo a

C:

rejeitara recim-nasádo.”

A g r a v i d e z é u m a fase qu e provoca profundas m o d i f i c a ç õ e s n a mulher.

Modificações de o r d e m fí­

sica e psicológica. N o perí­

o d o gestacional a m u l h e r fica mais sensível, mais vul­

nerável, sujeita a variações constantes de humor. P o d e m surgir nela dúvidas, medos, fantasias. Afinal, ela é dire­

t a m e n t e responsável po r u m a n o v a vida. A situação é às vezes tão difícil q u e a m u l h e r p o d e sofrer d e de ­ pressão pós-parto, chegan­

d o m e s m o a rejeitar o re­

cém-nascido.

P o r outro lado, está c o m p r o v a d o q u e as situações vivenciadas pela gestante p r o v o c a m interferências n o nascituro, motivo pelo qual, quanto mais tran- qiiila a gestação, m e l h o r para a criança. A saúde (física e mental) d o futuro beb ê está diretamente ligadaà situação vivenciada pela m ã e durante toda a gravidez.

A s s i m , a estabilidade conferida à e m p r e g a d a gestante t e m po r objetivo prote­

ger a maternidade, assegurando o b e m - e s ­ tar d a futura m ã e e, po r consequência, d o nascituro e d o infante.

N a s palavras d e N e i Frederico C a n o Martins (1995, p. 84):

168 R evista do T ribunal R egionaldo T rabalho da 15aR egião

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À estabilidade d a gestante t em e m mira, principalmente facultar à m ã e manter-se junto à criança nos primeiros dias de sua existência. C o m isto, objetiva-se preservp a institui­

ç ão d a maternidade e, por via de con- seqüência, assegurar a própria esta­

bilidade d a família, núcleo da socie­

dade.

Francisco António d e Oliveira (1997, p. 614) salienta que:

O intuito protecionista d a ges­

tante resta induvidoso, inclusive, no caput d o art. 6o da Constituição F e ­ deral, o n d e se pontifica qu e a prote­

ção à infância “são direitos sociais”.

N ã o se relegue ao oblívio que a proteção é direcionada à materni­

dad e e à infância. Vale dizer: o intuito protecionista é direcionado para a m ã e e para a criança q u e vai nascer.

O nascimento d e u m a criança é fato por demais importante para ficar na dependência d o poder potestativo do empregador.

2.3 O perí o d o d e estabilidade e o signi­

ficado d o v o c á b n l o “ confi r m a ç ã o ” A gravidez t e m início c o m a concep­

ção. A n o r m a constitucional, contudo, co n ­ fere estabilidade à e m p r e g a d a gestante ape­

nas c o m a “confirmação” d a gravidez.

A palavra “confirmação” significa “ato o u efeito d e confirmar; segurança expressa e n o v a q u e t o m a u m a coisa certa; ratifica­

ção” ( H O U A I S S , 1980, p. 217).

D e s s a forma, diversamente d o pro­

fessor N e i Frederico C a n o Martins (1999), enten d e m o s q u e a estabilidade d a gestante n ã o coincide c o m a concepção, nã o sendo nula a dispensa caso a gravidez ainda não tenha sido confirmada pela empregada, já que, nesse caso, o ato d o e m p r e g a d o r nã o p o d e ser visto c o m o obstativo à aquisição d a estabilidade pela empregada.

O término d a estabilidade, por sua vez, ocorre cinco m e s e s após o parto. Assim, o

período d e estabilidade vai d a data d a co n ­ firmação d a gravidez pela e m p r e g a d a até cinco m e s e s após o nascimento d a criança.

2.4 A s teorias - subjetiva e objetiva - acerca d o direito à estabilidade

Questão q u e foi muito discutida diz respeito à necessidade o u n ã o d a ciência do empregador, acerca d a gravidez d a e m p r e ­ gada, pa r a aquisição d o direito. Par a solucioná-la surgiram duas teorias: a objeti­

va e a subjetiva.

O s adeptos d a teoria subjetiva enten­

d e m ser necessária a ciência d o e m p r e g a ­ do r acerca d a gravidez da obreira para que ela adquira a estabilidade.

Aqueles q u e a d o t a m a teoria objeti­

va, por sua vez, d i z e m ser desnecessária a ciência d o e m p r e g a d o r acerca d o estado gravídico d a empregada, bastando q u e esta o confirme, a o m e n o s para si.

Atual m e n t e já se encontra pratica­

mente pacificada a teoria objetiva, sendo esta adotada pelo Egrégio Tribunal Superior d o Trabalho, c o n f o r m e se depreende d o item I, d a S ú m u l a n° 244, tn verbis: “O desconhe­

cimento d o estado gravídico pelo e m p r e g a ­ dor n ã o afasta o direito a o p a g a m e n t o da indenização decorrente d a estabilidade, (art.

10, n, “b ” d o A D C T ) . ”

Adota, t a m b é m , a tese objetiva, o Col e n d o S u p r e m o Tribunal Federal, confor­

m e se p o d e verificar e m acórdão d a lavra d o Ministro Celso de Mel l o ( B R A S I L , 2004, on Une), cuja e m e n t a transcreve-se a seguir

E M P R E G A D A G E S T A N T E . E S T A B I L I D A D E P R O V I S Ó R I A ( A D C T , Á R T . 10, n, “ b ”). P R O T E ­ Ç Ã O A M A T E R N I D A D E E A O N A S C I T U R O . D E S N E C E S S I ­ D A D E D E P R É V I A C O M U N I C A ­ Ç Ã O D O E S T A D O D E G R A V I D E Z A O E M P R E G A D O R . R E C U R S O C O N H E C I D O E P R O V I D O . - A e m p r e g a d a gestante t e m direito sub­

jetivo àestabilidade provisória prevista n o art. 10, n, “b ” , d o A D C T / 8 8 , bas­

tando, para efeito d e acesso a essa

R evista do T ribunal R egional do T rabalhoda 15“R egião 169

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inderrogável garantia social de índole constitucional, a confirmação objeti-.

va d o estado fisiológico de gravidez, independentemente, quanto a este, de sua prévia c o m u n i c a ç ã o ao e m p r e g a ­ dor, revelando-sé irrita, de outro lado e sob tal aspecto, a exigência d e noti­

ficação à empresa, m e s m o q u a n d o pactuada e m sede de negociação co ­ letiva ( S T F - A I 4 4 8 5 7 2 / S P - D J 22/

03/2004, p. 00053).

Assim, ainda q u e o empre g a d o r não saiba qu e a e m p r e g a d a está grávida.quando a dispensa, tal fato n ã o afasta a aquisição d o direito por aquela, que,

entretanto, deverá.compro­

var, por qualquer m e i o legí- t i m o , q u e à é p o c a d a dispen­

sa já havia“confirmado” seu estado gestacional.

2.5 A garantia assegurada à e m p r e g a d a estável dis­

pensada de f o r m a arbitrária o u s e m justa causa

seguinte sentido: “A garantia de e m p r e g o à gestante só autoriza a reintegração se esta se der durante o período de estabilidade. D o contrário, a garantia restringe-se aos salári­

os e demais direitos correspondentes a o pe­

ríodo de estabilidade.”

2.6 O p r a z o p a r a a e m p r e g a d a dispen- s a d a ajuizar r e c l a m a ç ã o trabalhista

N o artigo T, inciso X X I X , da Consti­

tuição Federal, está estabelecido qu e é u m direito dos trabalhadores urbanos e rurais ajuizar a reclamação trabalhista n o prazo de até de dois anos após a extinção d o contrato

de trabalho.

3 D O A B U S O D O R E I T O

D I -

A matéria é delicada ejágerou muita polêmica n o m u n d o jurídico. Atualmente . . , ; a questão encontra-se razo- estabe/ecido que i um direito dos avelmente pacificada, sub-

No artigo 7% inciso XXIX, ■ . ;

da Constituifáo Federal, está ' . trabalhadores urbanos, e rurais N ã o h á dúvida qu e o 1 ajuizar a reclamação trabalhista constituinte a s s e g u r o u à

e m p r e g a d a gestante ó direi­

to a o emprego, já q u e v e d o u sua dispensa. Assim, e m caso d e dispensa arbitrária o u v s e m justa causa d a emp r e - ga d a n o curso d o período de estabilidade, a consequência

é a declaração d e nulidadé d o r o m p i m e n t o d o contrato pelo P o d e r Judiciário e, via de regra, a determinação d e sua reintegração n o e m p r e g o até o término d ó período de es­

tabilidade.

no pra%o. de aié de das anos apôs a extinfão do contrato de

trabalho.”

sistindo algumas divergênci­

as apenas c o m relação ao critério de sua aplicabilidade, c o m o v e r e m o s a seguir.

A t é m e s m o sobre a terminologia existem c o n ­ trovérsias. A maioria do s dòutrinadores, s e m maiores discussões, adota o termo

“abuso d o direito” (v.g. Sil­

vio Rodrigues, 1989; Alvino Lima, 1999;

Carlos Roberto Gonçalves, 2005). Outros utilizam a expressão “abu s o de direito” (v.g.

M a r i a Hel e n a Diniz, 1994).

Contudo, c o n f o r m e estabelecido in­

clusive n o artigo 496, d a Consolidação das Leis d o Trabalho, d e p e n d e n d o d a situação peculiar d o caso concreto, p Juiz poderá, se entender desacohselhável a reintegração da empregada, convertê-la e m obrigação d e in­

denizar.

Sobre a matéria, d a n d o n o v a redação a o antigo: E n u n c i a d o n° 244, n o item II d a agora S ú m u l a d e m e s m o n ú m e r o . a mais alta C o r t e T r a b a l h i s t a p r o n u n c i o u - s e n o

Encontramos, porém, Lúcio Flávio de Vasconcellos N a v e s (1999), q u e e m seu es­

tudo acerca d a matéria, defendeu ser mais adequ a d o o t e r m o “abu s o n o exercício d o direito”, sob o argu m e n t o d e q u e o direito é u m só, sendo q u e o q u e o transforma e m abusivo é o exercício (o uso) irregular pelo seu titular. Referido autor afirmou q u e “para a mai o r parte dos dòutrinadores, o direito subjetivo é ‘u m poder d e açã o q u e está à disposição d e seu titular’ e que, na verdade,

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‘nã o depe n d e d o exercício’ ” (ob. çit., p. 98), concluindo, e m seguida, que: “E, por isso m e s m o , n ã o p o d e m o s compr e e n d e r a razão pela qual o simples ‘exercício’ abusivo deva necessariamente ferir a ‘essência’ d o direi­

to reconhecido, ‘desnaturando-o’ ” (ob. cit., p. 99). M a i s à frente destacou q u e o uso exorbitante de u m direito transforma-o (esse m e s m o direito) e m abusivo.

Neste trabalho utilizaremos a expres­

são uabuso d o direito”, q u e é a usualmente utilizada por nossos doutrinadores.

3.1 B r e v e s n o ç õ e s acer c a d a teoria d o a b u s o d o direito

Inicialmente, c o n v é m destacar que, no passado, h o u v e q u e m n ã o admitisse a idéia d a existência da teoria d o abuso d o direito, sob o funda m e n t o de q ue existe u m a antíte­

se lógica, já q u e u m ato n ã o pode, ao m e s ­ m o tempo; ser conf o r m e e contrário ao di­

reito.

O maior opositor d a teoria d o abuso d o direito, segundo a doutrina consultada, foi Planiol, para q u e m , conf o r m e S A V A T I E R apud Silvio Rodrigues (1989, p. 51-52), “a expressão abuso d e direito é imprópria, pois o direito cessa o n d e o abuso começa. Se a l g u é m usa seu direito, seu ato é lícito; será ilícito se o direito é ultrapassado, pois, então a pessoa está agindo s e m direito”.

Atualmente, já n ã o encontramos mais tal oposição, subsistindo, entretanto, diver­

gência doutrinária quanto ao caráter autô­

n o m o da teoria d o abuso d o direito, já qú e alguns n e g a m sua autonomia, enquadrando- a c o m o u m a espécie d e ato ilícito, situada, pois, n o c a m p o da responsabilidade civil, enquanto outros atribuem a ela caráter au­

tônomo, desvinculando-a d a seara d a res­

ponsabilidade civil.

Para os adeptos d a primeira corren­

te, a questão referente ao abuso d o direito deve ser resolvida exclusivamente c o m apli­

cação d a teoria d a culpa (presença d o ele­

m e n t o intencional d o agente). S e g u n d o o professor Sílvio Rodrigues (1989, p. 52) “o ato só seria abusivo quan d o inspirasse a me r a intenção d e prejudicar a terceiro o u fosse exercido s e m qualquer interesse por seu autor”. Dentre os adeptos desta corrente,

encontramos, dentre outros, R n i Stocco (2002, p. 71) q u e assim se posicionou, ainda n o período de vacatio legis d o atual C ó d i g o Civil: "Ora, se grande parte dos autores pátrios afirma q u e o abuso d o direito encon­

tra sustentação, ain d a q u e a contrario sensu, n o artigo 16 0 , 1, d o C ó d i g o Civil de 1916, e m vigor, n ã o h á c o m o afastar a con­

cepção subjetiva por ele abraçada, sob pena de incoerência iógica” .

Para os q u e perfilham a segunda cor­

rente, a teoria d o abuso d o direito possui autonomia, constituindo u m a responsabilida­

de especial. O s partidários desse critério objetivo - ou finalista- preconizam qu e ocor­

rerá o abuso d o direito q u a n d o o m e s m o for exercido d e f o r m a contrária aos seus fins sociais e econômicos. O precursor desta corrente, e t a m b é m seu incansável defen­

sor, foi o francês Louis Josserand, q u e a e m b a s o u na regra d a relatividade do s direi­

tos, sustentando q u e os direitos individuais nã o são absolutos, encontrando limites éti­

cos. Sílvio Rodrigues (1989, p. 54) retrata o pensamento d o referido autor:

H a v e r á a b u s o d e direito, se­

g u n d o esse autor, q u a n d o o seu titular o utiliza e m desacordo c o m a finali­

da d e social para a qual os direitos subjetivos f o r a m concedidos. Pois, a seu ver, òs direitos for a m conferidos a o h o m e m para s e r e m usados d e for­

m a q u e se; a c o m o d e ao interesse co ­ letivo, o b e d e c e n d o à sua finalidade, segu n d o o espírito d a instituição.

Prevalece n a doutrina atual o critério objetivo, destacando, c o m propriedade, Álvino L i m a (1999, p. 257):

O maior prejuízo social constitui, pois, o critério fixador d o ato abusivo d e u m direi­

to. D a í se poder concluir qu e a culpa não reside, n o caso d o abuso d o direito causan­

do d a n o a terceiro, n u m erro de conduta i m ­ putável moralmente ao agente, m a s n o exer­

cício de u m direito causador d e u m dan o so­

cialmente mais apreciável. A responsabili­

dade surge justamente porque a proteção do exercício deste direito é m e n o s útil social­

men t e d o qu e a reparação d o d a n o causado pelo titular deste m e s m o direito.

R evista do T ribunal R egionaldo T rabalho da 15aR egião 171

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3.2 Finalidade do instituto

D e acordo t a m b é m c o m A I v i n o L i m a (1999, p. 205-206), citando H. de Page:

A teoria d o abu s o de direito veio, pois, alargar o âmbito das nos­

sas responsabilidades, cerceando o exercício dos nossos direitos subjeti­

vos, n o desejo de satisfazer melhor o equilíbrio social e delimitar, tanto quanto possível, a ação nefasta e de ­ letéria d o egoísmo h u m a n o C o m o cor­

retivo indispensável ao exercício do direito, elá veio limitar o poder dos indivíduos, m e s m o investidos d e direi­

tos reconhecidos pela lei, conciliando estes direitos c o m os d a coletividade.

Louis. Josserand (1999, p. 26-27), o precursor d a teoria, assim se pronunciou:

T o d a esta teoria dei abuso de los derechos es el triunfo de la moral, q u e m e r c e d a aquella, penetra el d e r e c h o e m to d a su extensión.

Gracias a esa teoria, el derecho se realizamoralmente; cum p l e su misión, q u e es asegurar el reinado d e la jusúcia, n o el d e la insjusticia y la

inmoralidad

33 Legislação brasileira sobre a matéria

N a vigência d o C ó d i g o Civil d e 1916 nã o havia n o r m a específica acerca d a m a ­ téria atinente ao abuso d o direito. O artigo 160, inciso I, inserido n o Título q ue tratava

“D o s Atos Ilícitos”, estabelecia que: “não constituem atos ilícitos: I - os praticados e m legítima defesa ou n o exercício regular de u m direito reconhecido” . A contrario sensu, a doutrina dizia q u e os atos praticados n o exercício irregular de u m direito constituíam atos abusivos.

Idêntica redação foi mantida n o arti­

g o 188, inciso I, d o atual C ó d i g o Civil, que, após estabelecer, t a m b é m n o Título “D o s Atos Ilícitos”, e m seu artigo 186, que “aquele que, por ação o u omissão voluntária, negli­

gência ò u imprudência, violar direito e cau­

sar d a n o a outrem, ainda q u e exclusivamen­

te moral, c o m e t e ato ilícito”, acrescentou, tratando expressamente d o abuso d o direi­

to, e m seu artigo 187, q u e “t a m b é m comete ato ilícito o titular de u m direito que, ao

exercê-lo, excede manifestamente os limi­

tes impostos pelo seu fim e c o n ô m i c o o u so­

cial, pela boa-fé o u pelos bo n s costumes” . D e s s a forma, e m b o r a inserido n o Tí­

tulo “D o s Ato s Ilícitos”, pareçe-nos q u e o C ó d i g o Civil adotou a corrente d a teoria au­

t ô n o m a d o abuso d o direito, já q ue n o artigo 18 6 tratou d a responsabilidade pela prática d o ato ilícito utilizando o critério d a culpa, para e m seguida estabelecer q u e “t a m b é m ” comete ato ilícito, o u seja, m e s m o s e m o ele­

m e n t o intencional; deixando assente q u e o ato praticado dentro do s contornos d a lei, m a s contrário ao seu fi m econômico, social, à boa-fé e aos bons costumes, deve ser re­

primido, constituindo, portanto, ato abusivo.

B o m lembrarmos, ainda, q u e o n o v o C ó d i g o Civil privilegiou o princípio d a boa-fé objeti­

va (vide artigos .113,187 e 422, especifica- mente).

Aliás, o artigo 5° d a L ei d e Introdu­

çã o ao C ó d i g o Civil (Lei n° 4.657, d e 04.09.1942) preceitua q u e “n a aplicação d a lei, o juiz atenderá aos fias sociais a q u e ela se dirige e às exigências d o b e m c o m u m ”, o que, segundo Sílvio Rodrigues (1999), indi­

ca qu e o legislador brasileiro distanciou-se da teoria subjetiva, adotando o critério obje­

tivo d o abuso d o direito.

3.4 Diferenciação entre ato ilícito e ato abusivo

D o q u e foi escrito até o m o m e n t o e partindo d o conteúdo d o inciso I, parte final, d o artigo 188 d o Cód i g o Civil, interpretado a contrario sensu, pode-se dizer q u e o ato abusivo é aquele exercido d e f o r m a irregu­

lar. M a s p qu e p o d e ser entendido c o m o “ir­

regular” ? O u , até o n d e vai o contorno da

“regularidade”?

O ato abusivo, s e m dúvida, diferen­

cia-se d o ato ilícito propriamente dito. Este viola ps limites objetivos traçados pela lei, enquanto aquele, e m b o r a praticado dentro dos contornos definidos c o m o legais, distan­

cia-se dà finalidade d a lei.

O jurista Alvino L i m a (1999, p. 205), acerca dadistinção mencionada, afirmou que:

Distinguem-se, pois, as esferas d o ato ilícito e d o abusivo, a m b o s g e ­ radores d e responsabilidade; naquele transgridem-se os limites objetivos tra­

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R evista do T ribünal R egionaldo T rabalho da 15*R egião

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çados pela própria lei, negando-se ou e x c e d e n d o - s e a o direito; n o ato abusivo h á obediência apenas dos li­

mites objetivos d o preceito legal, m a s fere-se ostensivamente a destinação d o direito e o espírito d a instituição.

Enfim, o ato praticado dentro dos con­

tornos da regularidade (ou nã o abusivo) é aquele q u e atende aos fins econô m i c o s e sociais d a própria lei, sendo exercido c o m observância do s princípios da boa-fé e dos bo n s costumes.

O ato abusivo, ao contrário, é aquele exercido d e maneira contrária aos fins eco- nômi c o s e sociais a q ue se destina a lei, vio­

lando o princípio d a boa-fé e dos bon s cos­

tumes.

3,5 Compatibilidade do instituto do abu­

so do direito com o Direito do TVabalho

Estabelece o parágrafo único d o arti­

g o 8°, d a Consolidação das Leis d o Traba­

lho, qu e “o direito c o m u m será fonte subsi­

diária d o direito d o trabalho, naquilo e m que nã o for incompatível c o m os princípios fun­

damentais deste” .

Po r outro lado, o princípio basilar d o Direito d o Trabalho é o Princípio d a Prote­

ção, q u e t e m a finalidade d e c o m p e n s a r a desigualdade jurídica q u e impera entre os contratantes ( e m p r e g a d o r e empregado), protegendo a parte e c o n o m i c a m e n t e mais fraca - o e m p r e g a d o c o m o objetivo de assegurar u m a igualdade real entre ambos.

Tal princípio n ã o i m p e d e a aplicação d a teoria d o abu s o d o direito n o Direito d o Trabalho, nã o sendo, pois, c o m ele i n c o m ­ patíveis os dispositivos legais civis citados anteriormente (artigos 18 7 e 1 88 d o C.C.).

4 INAPLICABILIDADE DA TEORIA DO ABUSO DO DIREITO A EMPRE­

GADA DETENTORA DE ESTABILI­

DADE GESTA CIÒNAL QUE, DIS­

PENSADA DE FORMA ARBITRÁRIA OU SEM JUSTA CAUSA, INGRESSA C O M A RECL A M A Ç A O TRABA­

LHISTA APÓS O TÉRMINO DO PE­

RÍODO DE ESTABILIDADE

Inicialmente, c o n v é m l e m b r a r m o s que, consoante já dito anteriormente, o C o l e n d o Tribunal Superior d o Trabalho já

pacificou o e n t e n d i m e n t o , através d a S ú m u l a n° 244, item II, d e q u e a garantia de e m p r e g o à e m p r e g a d a gestante só auto­

riza sua reintegração se esta se der durante o período de estabilidade, sendo que, se já transcorrido este, a garantia restringe-se aos salários e demais direitos correspondentes ao período. D e s s a forma, se ajuizada a ação o u proferida a sentença após o término do período de estabilidade, n ão será a e m p r e ­ gada reintegrada n o emprego.

A doutrina e jurisprudência enc o n ­ tram-se divididas acerca d o t e m a sob análi­

se. Alg u n s sustentam que, ingressando c o m a ação após o término d o período d e estahi- lidade, a e m p r e g a d a impossibilita o e m p r e ­ gador d e reintegrá-la e, portanto, com e t e ato abusivo, motivo pelo qual nã o faz jus à inde­

nização d o período de estabilidade.

A d o t a tal p o s i ç ã o S é r g i o Pinto Martins (2001, p. 368/369), qu e assim se manifesta;

Entretanto, pass a d o s alguns mes e s após a dispensa e pedindo a e m ­ pregada reintegração, entendo q u e deve ser desconsiderado o período qu e vai d a d i s p e n s a até a d a t a d o ajuizamento daação, e m razão d a inér­

cia d a e m p r e g a d a n a su a proposição e d e ter direito a o e m p r e g o e nã o a receber s e m trabalhar. N o caso d e a e m p r e g a d a deixar terminar o período d e garantia d e e m p r e g o e s ó depois ajuizar a ação, pen s o q u e n ã o faz jus n e m a reintegração, muito m e n o s a in­

denização, pois o seu ato impediu o e m p r e g a d o r d e reintegrá-la n o e m p r e ­ go, m o s t r a n d o seu desinteresse e m voltar a trabalhar n a empresa. O di­

reito previsto n a Constituição é ao e m ­ prego e n ã o à indenização.

N e s s e m e s m o sentido, t a m b é m são vários os julgados d o C o l e n d o Tribunal S u ­ perior d o Trabalho, citando, para n ã o nos alongarmos, apenas u m , d a lavra d o Juiz C o n ­ v o c a d o Alberto Lui z Bresciani d e Fontan Pereira;

G E S T A N T E . E S T A B I L I D A ­

D E P R O V I S Ó R I A . I N D E N I Z A ­

Ç Ã O . D E M O R A N O A J U I Z A ­

M E N T O D A A Ç Ã O . A B U S O D E

R evista d o T rjbvnal R egionaldo T rabalbo da 15" R egião 173

(8)

D I R E I T O . E F E I T O S . Q u a n t o aos di­

reitos decorrentes d a gestação, as obrigações d o empregador, firmadas sob responsabilidade objetiva, t ê m gênese c o m á concepção, ao tem p o e m q u e perdurava a relação de e m ­ prego, independentemente de seu co­

nhecimento e, até. m e s m o , d e ciência d á obreira. A s n o r m a s constitucionais (art. 7°, X V m ; A D C T , art. 10, II, b) b u s c a m resguardar os direitos do nascituro. Esta é a inteligência da O J.

8 8 / S D I desta Corte. N o entanto, a demorainjustifícada napropositurada ação traduz abuso d e direito, fazendo jus a .ex-empregada somente aos sa­

lários d o período restante da estabili­

dade, contados a partir da data da ci­

tação d o empregador. Precedente, Recurso de revista desprovido (TST- RR-463.953/98.0,2a Thrma, Rei. Juiz C o n v o c a d o Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira, D J - 10/08/2001).

Há, contudo, entendimento contrário, o u seja, d e q ue a e m p r e g a d a faz jus à inde­

nização correspondente a o período d è esta­

bilidade m e s m o q u e ajuíze a ação após.o nascimento d a criança o u término d o perío­

d o d e estabilidade. N e s s e sentido, confira- se a e m e n t a d o acórdão d a lavra d a Juíza C o n v o c a d a M a r i a d e Lour d e s Saliabeny, in verbis:

R E C U R S O D E R E V I S T A . G A R A N T I A D É E M P R E G O . G E S ­ T A N T E . C O N F I R M A Ç Ã O D A G R A V I D E Z . A B U S O D E D I R E I T O I N E X I S T E N T E . A vedação d e dis­

pensa arbitrária o u :s e m justa causa d e e m p r e g a d a gestante prevista n o artigo IO, n, b , d o A D C T d a Consti­

tuição Federal i m p õ e a o e m p r e g a d o r u m a obrigação d e n ã o fazer, Pratica­

d o p ato, p o d e a e m p r e g a d a dele exi­

gir q u e o desfaça, sob p e n a d e se des­

fazer à sua custa, ressarcindo o cul­

p a d o perdas e danos (art. 8 8 3 c/c art.

1056, a m b o s d o C ó d i g o Civil). Ain d a q u e tenha a autora ingressado c o m a presente r e c l a m a ç ã o . d e m m c i a n d o o

estado gravídico, dois m e s e s após o parto e n o v e m e s e s após a dispensa, encontrava-se ela já c o m dóis mes e s d e gravidez, q u a n d o d a resilição contratual o qué, aliado ao fato de qu e efetivada a resilição s e m qualquer as­

sistência d o sindicato, descaracteriza qualquer abuso d e direito e autoriza a apli c a ç ã o d o e n t e n d i m e n t o jurisprudencial cristalizado nas Orien­

tações Jurisprudénciáis n°s 8 8 e 116 da S B D I - l / T S T . Recurso dè Revista c o n h e c i d o e provido. ( T S T - R R - 439.208/98.3, Ia T u r m a , Rei. Juíza C o n v o c a d a M a r i a d e L o u r d e s Sallaberry, DJ-21/02/2003).

A nossa opinião é de qu e o fato da e m p r e g a d a ajuizar a ação após o término d o período de estabilidade n ã o lhe retira o di­

reito à indenização.

Para extrairmos tal conclusão, primei­

ramente l e m b r e m o s que, dispensada d e for­

m a arbitrária o u s e m justa causa è sendo detentora d e estabilidade, o ato d a dispensa praticado peloempregador éilegal, fere, pois, os limites objetivos d a lei (artigo 10, inciso

n, * V ,, d o A D C T ) . :

Tal situação confere à e m p r e g a d a o direito d e ajuizar açãopostulando à declara­

çã o d e nulidade d o ato praticado. Par a o exercício d o direitodaação, conforme já dito, a e m p r e g a d a t e m o prazo d e até dois anos a p ó s ó ténni n o d o contrato dei trabalho (arti­

g o 7o, inciso X X I X , d a ÇF). D e s s a forma, sé a e m p r e g a d a ajuizar a ação trabalhista postulando anuiidade d a dispensa e a sua reintegração n o e m p r e g o o u a indenização correspondente ao período d e estabilidade já escoado, su a atitude estará acobertada pela legalidade objetivai

É certo que, c o n f o r m e dito anterior­

mente, o ato praticado c o m abu s o d o direito

é u m ato que, e m b o r a praticado dentro dos

contornos legais d a n o r m a objetiva, viola sua

finalidade e c o n ô m i c a o u social, o princípio

d a boa-fé o u os bon s costumes. Assim, há

q u e se perquirir, então, se o ajuizamento da

ação pela empregada, q u a n d o já decorrido

R evista do T ribwal R egional do T rabalho da 15a R egião

174

(9)

o prazo de estabilidade, é contrário à finali­

dade e c o n ô m i c a o u social d a n o r m a qu e a instituiu ou afronta o princípio d a boa-fé ou os bons costumes.

Para a resposta, nã o obstante a co n ­ sequência lógica da nulidade da dispensa seja a reintegração n o e m p r e g o e, nesse caso, tal n ã o será possível, c o n v é m lembrarmos, t a m b é m , q ue a finalidade d a n o r m a qu e as­

segura a estabilidade d a gestante é a prote­

ção à maternidade e ao nascituro, sendo que

& referida proteção n ã o se exaure simples­

m e n t e c o m o nascimento da criança, m a s ao contrário, perdura ainda durante a l g u m tempo, de m o d o q u e a e m ­

pregada nã o estará agindo d e for m a contrária aos fins eco­

n ô m i c o s e sociais d a n o r m a se ajuizar ação ap ó s o tér­

m i n o d o período d e estabili­

dade.

Importante lembrar­

mos, ainda, que, nesta fase, a gestante - o u mãe , após o parto - passa por u m a situa­

ção peculiar de instabilidade emocional, d e v e n d o tal fato ser levado e m consideração para a análise d a prática de seus atos, d e m o d o q u e n ã o se pod e considerarque, ajui­

zan d o a ação após o término d o período d e estabilidade, a

e m p r e g a d a agiu d e má-fé, já q u e a boa-fé é presumível.

Assim, concluímos que, c o m o regra, o ingresso d a ação pela e m p r e g a d a porta­

dora d e estabilidade gestacional após o nas­

cimento d a criança n ã o constitui exercício abusivo de seu direito subjetivo e, portanto, e m b o r a n ão lhe garanta o direito à reinte­

gração n o emprego, n ã o lhe retira o direito à indenização correspondente ao período de estabilidade.

P e n s a r m o s d e for m a diferente, e c on­

for m e o entendimento citado, d o professor Sérgio Pinto Martins (2001), q ue diz qu e d e v e ser desconsiderado p período q u e vai d a dispensa até a data d o ajuizamento da

ação, c o m o devido respeito, é i m p o r à ges­

tante u m ônus extremamente elevado e in­

justo, já q u e para ter assegurado o direito à integral indenização a m e s m a deverá ajui­

zar a ação n o dia seguinte ao d a sua dispen­

sa. Tal critério f o g e a o s limites da razoabilidade.

Aliás, se através d e acórdão relatado pelo Ministro Ives G a n d r a Martins Filho, cuja e m e n t a transcreve-se a seguir, foi reconhe­

cida pela4* T u r m a d o C. T S T , a inexistência de abuso d o direito por parte d e ex-empre­

gad o detentor de estabilidade prevista n a alí­

n e a ^ ”, d o inciso II, d o artigo 10, d o A D C T ( m e m b r o d a C I P A ) , q u e ajuizou ação após o término d o período d e estabilidade, c o m muito ma i s r a m o deve ser reconhecida a ausência d e abu s o d o direito p o r par­

te d a e m p r e g a d a gestante.

Confira-se:

R E C U R S O D E R E ­ V I S T A - A Ç Ã O A J U I Z A ­ D A A P Ó S O P E R Í O D O E S T A E I U T Á R I O E A N ­ T E S D O T R A N S C U R S O D O P R A Z O D E D O I S A N O S D A R U P T U R A C O N T R A T U A L A S S E ­ G U R A D O S O S D I R E I ­ T O S À S P A R C E L A S C O R R E S P O N D E N T E S A O P E R Í ­ O D O E S T A B I L I T Á R I O .

l.Oart. 10, n, "a”, d o A D C T garante a estabilidade provisória ao e m p r e g a d o eleito para cargo de dire­

ção das comissões internas d e pre­

venção d e acidentes, contra despedi­

d a arbitrária o u s e m justa causa, des­

d e o registro d a candidatura até u m a n o após o finai d e seu m a n d a m .

2. Já o art. 7 o, X X I X , d a C o n s ­ tituição Federal prevê q u e o e m p r e ­ g a d o d e v e ajuizar a ação até dois anos após a ruptura contratual, so b p e n a de òctnrer o instituto d a prescrição.

.que a finalidade da norma que assegura a estabilidade da

gestante é a proteção à maternidade t ao nasâturo, sendo

que a referida proteção não se exaure simplesmente com

o nascimento da criança, mas ao contrário, perdura ainda durante algum tempo, de modo que a empregada

não estará agindo de forma contrária aos fins econômicos e sociais da norma st. ajuizar ação

após o término do período de estabilidade."

R evista do T ribunal R egional d o T rabalho da J5“R bgião 175

(10)

3. Assim, se o. Reclamante foi ilegalmente demitido e ajuizou a ação antes de fluído o prazo de dois anos da ruptura contratual, nã o h á c o m o lhe negar o direito à reintegração, se. a dis­

pen s a ocorrer antes d o término do período estabilitário, ou a u m a indeni­

zação correspondente, se o provimento jurisdicional se der após o período estabilitário.

4. N ã o t e m prevalecido nesta Corte o entendimento d e que, se o R e ­ clamante d e m o r a e m ajuizar a ação, ag e c o m abuso de direito ou c o m m á - fé e que, portanto, perde o direito de ­ corrente d a estabilidade, n a med i d a e m qu e se estaria criando n o v o prazo prescricional, e m afronta ao disposto n o art. 7°, X X I X , d a Constituição F&- deral.

Recurso de revista d o Recla­

m a n t e parcialmente conhecido e pro­

vido. (TST-RR-755.775/2001.7, 4a T u r m a , Rei. Ministro Ives G a n d r a Martins Filho, D 3 - 28/05/2004).

(grifos nossos).

A c h a m o s conveniente deixar consig­

n a d o que, é m u m primeiro m o m e n t o e s e m muito no s aprofundarmos n o estudo d a m a ­ téria, c h e g a m o s a pensar que, se o e m p r e ­ gador n ã o tivesse ciência doestado gravídico d a e m p r e g a d a q u a n d o a dispensou, e m b o r a ilegal a dispensa s ob a ótica d a teoria subje­

tiva, o ajuizamento d a ação pela e m p r e g a d a após o término d o período d e estabilidade deveria ser considerado abusivo.

Contudo, melhor refletindo, chega m o s à conclusão d e q u e o fato d e o empre g a d o r ter ciência q u n ã o d a gravidez d a e m p r e g a ­ d a q u a n d o a dispensa é indiferente para con­

siderarmos o ato p o r ela praticado c o m o . abusivo o u não, u m a vez, q u e o abuso do- direito d e v e ser ana|isado e m relação a o ato praticado pela empregada, e n ã o peio e m ­ pregador.

Adotando-se a teoria subjetiva, cien­

te o u n ã o d a gravidez d a empregada, ao dispensá-la s e m justa causa o empre g a d o r

176

c o m e t e ato ilícito, passível de reparação (reintegração o u indenização). P o r outro lado, q u e m age ou nã o c o m abuso d o direito é a empregada, sendo, portanto, indiferente o fato d e p e m p r e g a d o r saber o u n ã o q u e a m e s m a estava grávida q u a n d o a dispensou.

O direito é u m só para a e m p r e g a d a cujo empregador conhecia a gravidez ou não, e sua finalidade t a m b é m é única (proteção à maternidade e ao nascituro).

. A p e n a s para deixar consignado, por­

qu e a situação é bastante diferente, se a e m ­ pregada, intencionalmente, omite seu esta­

d o gravídico d ò empregador, c o m o objetivo de, futuramente, obter v a n t a g e m pecuniária s e m a contraprestação d o trabalho, esse ato praticado pela e m p r e g a d a é ilícito, enq u a ­ drando-se has disposições d o artigo 1 87 d o C ó d i g o Civil, e deve, por óbvio, ser reprimi­

d o ao ponto de, nã o apenas retirar-lhe o di­

reito à reintegração e/ou indenização, m a s t a m b é m d e impor-lhe a c o n d e n a ç ã o pela má-fé utilizada para conseguir v a n t a g e m ilí­

cita.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho n ã o t e m qualquer inten­

ç ã o d e ence n a r a discussão acerca d o tema, m a s apenas levantar o debate nos operado­

res d o direito, evitando-se q u e a teoria qu é surgiu para evitar injustiças seja utilizada jus­

tamente para o c o m e t i m e n t o delas.

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Referências

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