A ESTABILIDADE D A
E M P R E G A D A G E S T A N T E E O A B U S O D O DIREITO*
KÁTIA LIRIAM PASQUINI BRAIANI”
R e s u m o : Este trabalho enfoca a questão referente à existência o u n ã o d o abuso do direito d a e m p r e g a d a detentora d e estabilidade gestacional que, dispensada d e f o r m a arbitrária o u s e m justa causa, ajuíza reclamação trabalhista após o nascimento d a criança, m a s dentro d o prazo prescricional, postulando indeni
zação correspondente a o período d e estabilidade. Analisa as duas correntes doutrinárias ejurisprudenciais existentes - a q u e n e g a o direito à indenização, entendendo qu e a e m p r e g a d a age c o m abuso d o direito; e aquela que, ao contrário, confere o direito concluindo qu e a mai s acertada é esta última, especialmente e m razão d a situação peculiar qu e atravessa a gestante n o período da gravidez.
S u m á r i o : 1 Introdução; 2 D a estabilidade; 2.1 A estabilidade d a e m p r e g a d a gestante;
2.2 A finalidade d a garantia; 2.3 O período d e estabilidade e o significado do vocábulo “confirmação” ; 2.4 A s teorias - subjetiva e objetiva - acerca do direito à estabilidade; 2.5 A garantia assegurada à e m p r e g a d a estável dispen
sada de for m a arbitrária o u s e m justa causa; 2.6 O prazo para a e m p r e g a d a dispensada ajuizar reclamação trabalhista; 3 D o abuso d o direito; 3.1 Breves noções acerca d a teoria d o abuso d o direito; 3.2 Finalidade d o instituto; 3.3 Legislação brasileira sobre da matéria; 3.4 Diferenciação entre ato ilícito e ato abusivo; 3.5 Compatibilidade d o instituto d o abuso d o direito c o m o Direi
to d o Trabalho; 4 Inapiicabilidade d a teoria d o abuso d o direito à e m p r e g a d a detentora de estabilidade gestacional que, dispensada de f o r m a arbitrária ou s e m justa causa, ingressa c o m a reclamação trabalhista após o término d o período d e estabilidade; 5 Considerações finais
Palavras-chave: Estabilidade. Gestante. A b u s o d o Direito.
<•> Trabalho realizado no Curso.de Pós-GraduaçSo "Lato Sensu” em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho.
‘"’ Juíza do Trabalho Substituta do TRT da 15* Região.
R evista do T ribunal R egional do T rabalho da 15a R egião 167
1 I N T R O D U Ç Ã O
C o m o a questão estudada v e m sendo analisada sob a ótica da teoria do abuso d o direito, primeiramente tecemos algumas considerações acerca da esta
bilidade; e m seguida enfo c a m o s a teoria d o abuso d o direito e, ao final, estabele
c e m o s u m a cone x ã o entre os dois insti
tutos.
A escolha d o t e m a deu-se porque, muitas vezes nos d e p a r a m o s c o m casos e m que, a nosso ver, faz-se verdadeira injustiça ao nã o se conceder o direito à indenização d o período de estabilidade à e m p r e g a d a gestante e m ra
zã o d e ter ela ingressado .. . ; c o m a reclamação trabalhis- Agravide^í uma fase que ta após o término d o prazo provocaprofundas modificações na da estabilidade, s e m levar mulher. Modificações de ordem e m consideração a situação física e psicológica. No período pessoal d a m e s m a , m o r - gestacionala mulher fica mais SravesT —
variações constantes de humor.
2 D A ESTABILIDADE ■ p 0íjemsutyjrne/a dúvidas, mtdos, A par d a distinção fantasias. Afinal, ela efiretemiente doutrinária acerca d a esta-
na Constituição Federal d e 1988, através do artigo 10, inciso n, alínea “b ”, d o A t o das Disposições Transitórias. A t é então, tal di
reito vinha sendo garantido por m e i o de nor
m a s coletivas.
O dispositivo legal citado estabelece . qu e até q u e seja promulgada lei c o m p l e m e n
tar a qu e se refere o artigo T, inciso I, da Constituição Federal, fica ved a d a a dispen
sa arbitrária ou s e m justa causa d a e m p r e ga d a gestante, desde a confirmação da gra
videz até cinco m e s e s após o parto.
2.2 A finalidade da garantia
bilidade e d a garantia n o e m p r e g o (ou “a o ” e m p r e go), para o fi m a q u e se des
tina este trabalho, o impor
tante é sabermos q u e o ins
tituto é u m a limitação a o
poder potestativo d o empre g a d o r d e dispen
sar a e m p r e g a d a d e f o r m a arbitrária o u s e m justa causa.
Detentora d e estabilidade, a e m p r e gad a t e m o direito à m a n u t e n ç ã o d o e m p r e go, exceto se praticar atos q u e i m p o r t e m n o reconhecimento d e justa causa o u q u a n d o ocorrer o encerramento das atividades d o empregador. Neste último caso, pela imp o s sibilidade material.
2.1 A Estabilidade da empregada ges
tante
A estabilidade à e m p r e g a d a gestante foi conferida legalmente, pela primeira vez,
A situação è às veyes tão difíál que a mulher pode sofrer de depressão
pós-parlo, chegando mesmo a
C:rejeitara recim-nasádo.”
A g r a v i d e z é u m a fase qu e provoca profundas m o d i f i c a ç õ e s n a mulher.
Modificações de o r d e m fí
sica e psicológica. N o perí
o d o gestacional a m u l h e r fica mais sensível, mais vul
nerável, sujeita a variações constantes de humor. P o d e m surgir nela dúvidas, medos, fantasias. Afinal, ela é dire
t a m e n t e responsável po r u m a n o v a vida. A situação é às vezes tão difícil q u e a m u l h e r p o d e sofrer d e de pressão pós-parto, chegan
d o m e s m o a rejeitar o re
cém-nascido.
P o r outro lado, está c o m p r o v a d o q u e as situações vivenciadas pela gestante p r o v o c a m interferências n o nascituro, motivo pelo qual, quanto mais tran- qiiila a gestação, m e l h o r para a criança. A saúde (física e mental) d o futuro beb ê está diretamente ligadaà situação vivenciada pela m ã e durante toda a gravidez.
A s s i m , a estabilidade conferida à e m p r e g a d a gestante t e m po r objetivo prote
ger a maternidade, assegurando o b e m - e s tar d a futura m ã e e, po r consequência, d o nascituro e d o infante.
N a s palavras d e N e i Frederico C a n o Martins (1995, p. 84):
168 R evista do T ribunal R egionaldo T rabalho da 15aR egião
À estabilidade d a gestante t em e m mira, principalmente facultar à m ã e manter-se junto à criança nos primeiros dias de sua existência. C o m isto, objetiva-se preservp a institui
ç ão d a maternidade e, por via de con- seqüência, assegurar a própria esta
bilidade d a família, núcleo da socie
dade.
Francisco António d e Oliveira (1997, p. 614) salienta que:
O intuito protecionista d a ges
tante resta induvidoso, inclusive, no caput d o art. 6o da Constituição F e deral, o n d e se pontifica qu e a prote
ção à infância “são direitos sociais”.
N ã o se relegue ao oblívio que a proteção é direcionada à materni
dad e e à infância. Vale dizer: o intuito protecionista é direcionado para a m ã e e para a criança q u e vai nascer.
O nascimento d e u m a criança é fato por demais importante para ficar na dependência d o poder potestativo do empregador.
2.3 O perí o d o d e estabilidade e o signi
ficado d o v o c á b n l o “ confi r m a ç ã o ” A gravidez t e m início c o m a concep
ção. A n o r m a constitucional, contudo, co n fere estabilidade à e m p r e g a d a gestante ape
nas c o m a “confirmação” d a gravidez.
A palavra “confirmação” significa “ato o u efeito d e confirmar; segurança expressa e n o v a q u e t o m a u m a coisa certa; ratifica
ção” ( H O U A I S S , 1980, p. 217).
D e s s a forma, diversamente d o pro
fessor N e i Frederico C a n o Martins (1999), enten d e m o s q u e a estabilidade d a gestante n ã o coincide c o m a concepção, nã o sendo nula a dispensa caso a gravidez ainda não tenha sido confirmada pela empregada, já que, nesse caso, o ato d o e m p r e g a d o r nã o p o d e ser visto c o m o obstativo à aquisição d a estabilidade pela empregada.
O término d a estabilidade, por sua vez, ocorre cinco m e s e s após o parto. Assim, o
período d e estabilidade vai d a data d a co n firmação d a gravidez pela e m p r e g a d a até cinco m e s e s após o nascimento d a criança.
2.4 A s teorias - subjetiva e objetiva - acerca d o direito à estabilidade
Questão q u e foi muito discutida diz respeito à necessidade o u n ã o d a ciência do empregador, acerca d a gravidez d a e m p r e gada, pa r a aquisição d o direito. Par a solucioná-la surgiram duas teorias: a objeti
va e a subjetiva.
O s adeptos d a teoria subjetiva enten
d e m ser necessária a ciência d o e m p r e g a do r acerca d a gravidez da obreira para que ela adquira a estabilidade.
Aqueles q u e a d o t a m a teoria objeti
va, por sua vez, d i z e m ser desnecessária a ciência d o e m p r e g a d o r acerca d o estado gravídico d a empregada, bastando q u e esta o confirme, a o m e n o s para si.
Atual m e n t e já se encontra pratica
mente pacificada a teoria objetiva, sendo esta adotada pelo Egrégio Tribunal Superior d o Trabalho, c o n f o r m e se depreende d o item I, d a S ú m u l a n° 244, tn verbis: “O desconhe
cimento d o estado gravídico pelo e m p r e g a dor n ã o afasta o direito a o p a g a m e n t o da indenização decorrente d a estabilidade, (art.
10, n, “b ” d o A D C T ) . ”
Adota, t a m b é m , a tese objetiva, o Col e n d o S u p r e m o Tribunal Federal, confor
m e se p o d e verificar e m acórdão d a lavra d o Ministro Celso de Mel l o ( B R A S I L , 2004, on Une), cuja e m e n t a transcreve-se a seguir
E M P R E G A D A G E S T A N T E . E S T A B I L I D A D E P R O V I S Ó R I A ( A D C T , Á R T . 10, n, “ b ”). P R O T E Ç Ã O A M A T E R N I D A D E E A O N A S C I T U R O . D E S N E C E S S I D A D E D E P R É V I A C O M U N I C A Ç Ã O D O E S T A D O D E G R A V I D E Z A O E M P R E G A D O R . R E C U R S O C O N H E C I D O E P R O V I D O . - A e m p r e g a d a gestante t e m direito sub
jetivo àestabilidade provisória prevista n o art. 10, n, “b ” , d o A D C T / 8 8 , bas
tando, para efeito d e acesso a essa
R evista do T ribunal R egional do T rabalhoda 15“R egião 169
inderrogável garantia social de índole constitucional, a confirmação objeti-.
va d o estado fisiológico de gravidez, independentemente, quanto a este, de sua prévia c o m u n i c a ç ã o ao e m p r e g a dor, revelando-sé irrita, de outro lado e sob tal aspecto, a exigência d e noti
ficação à empresa, m e s m o q u a n d o pactuada e m sede de negociação co letiva ( S T F - A I 4 4 8 5 7 2 / S P - D J 22/
03/2004, p. 00053).
Assim, ainda q u e o empre g a d o r não saiba qu e a e m p r e g a d a está grávida.quando a dispensa, tal fato n ã o afasta a aquisição d o direito por aquela, que,
entretanto, deverá.compro
var, por qualquer m e i o legí- t i m o , q u e à é p o c a d a dispen
sa já havia“confirmado” seu estado gestacional.
2.5 A garantia assegurada à e m p r e g a d a estável dis
pensada de f o r m a arbitrária o u s e m justa causa
seguinte sentido: “A garantia de e m p r e g o à gestante só autoriza a reintegração se esta se der durante o período de estabilidade. D o contrário, a garantia restringe-se aos salári
os e demais direitos correspondentes a o pe
ríodo de estabilidade.”
2.6 O p r a z o p a r a a e m p r e g a d a dispen- s a d a ajuizar r e c l a m a ç ã o trabalhista
N o artigo T, inciso X X I X , da Consti
tuição Federal, está estabelecido qu e é u m direito dos trabalhadores urbanos e rurais ajuizar a reclamação trabalhista n o prazo de até de dois anos após a extinção d o contrato
de trabalho.
3 D O A B U S O D O R E I T O
D I -
A matéria é delicada ejágerou muita polêmica n o m u n d o jurídico. Atualmente . . , ; a questão encontra-se razo- estabe/ecido que i um direito dos avelmente pacificada, sub-
No artigo 7% inciso XXIX, ■ . ;
da Constituifáo Federal, está ' ■ ■ ■ ■ . trabalhadores urbanos, e rurais N ã o h á dúvida qu e o 1 ajuizar a reclamação trabalhista constituinte a s s e g u r o u à
e m p r e g a d a gestante ó direi
to a o emprego, já q u e v e d o u sua dispensa. Assim, e m caso d e dispensa arbitrária o u v s e m justa causa d a emp r e - ga d a n o curso d o período de estabilidade, a consequência
é a declaração d e nulidadé d o r o m p i m e n t o d o contrato pelo P o d e r Judiciário e, via de regra, a determinação d e sua reintegração n o e m p r e g o até o término d ó período de es
tabilidade.
no pra%o. de aié de das anos apôs a extinfão do contrato de
trabalho.”
sistindo algumas divergênci
as apenas c o m relação ao critério de sua aplicabilidade, c o m o v e r e m o s a seguir.
A t é m e s m o sobre a terminologia existem c o n trovérsias. A maioria do s dòutrinadores, s e m maiores discussões, adota o termo
“abuso d o direito” (v.g. Sil
vio Rodrigues, 1989; Alvino Lima, 1999;
Carlos Roberto Gonçalves, 2005). Outros utilizam a expressão “abu s o de direito” (v.g.
M a r i a Hel e n a Diniz, 1994).
Contudo, c o n f o r m e estabelecido in
clusive n o artigo 496, d a Consolidação das Leis d o Trabalho, d e p e n d e n d o d a situação peculiar d o caso concreto, p Juiz poderá, se entender desacohselhável a reintegração da empregada, convertê-la e m obrigação d e in
denizar.
Sobre a matéria, d a n d o n o v a redação a o antigo: E n u n c i a d o n° 244, n o item II d a agora S ú m u l a d e m e s m o n ú m e r o . a mais alta C o r t e T r a b a l h i s t a p r o n u n c i o u - s e n o
Encontramos, porém, Lúcio Flávio de Vasconcellos N a v e s (1999), q u e e m seu es
tudo acerca d a matéria, defendeu ser mais adequ a d o o t e r m o “abu s o n o exercício d o direito”, sob o argu m e n t o d e q u e o direito é u m só, sendo q u e o q u e o transforma e m abusivo é o exercício (o uso) irregular pelo seu titular. Referido autor afirmou q u e “para a mai o r parte dos dòutrinadores, o direito subjetivo é ‘u m poder d e açã o q u e está à disposição d e seu titular’ e que, na verdade,
1 70
R evista do T ribunal R egionaldo T rabalho da 15a R egião
‘nã o depe n d e d o exercício’ ” (ob. çit., p. 98), concluindo, e m seguida, que: “E, por isso m e s m o , n ã o p o d e m o s compr e e n d e r a razão pela qual o simples ‘exercício’ abusivo deva necessariamente ferir a ‘essência’ d o direi
to reconhecido, ‘desnaturando-o’ ” (ob. cit., p. 99). M a i s à frente destacou q u e o uso exorbitante de u m direito transforma-o (esse m e s m o direito) e m abusivo.
Neste trabalho utilizaremos a expres
são uabuso d o direito”, q u e é a usualmente utilizada por nossos doutrinadores.
3.1 B r e v e s n o ç õ e s acer c a d a teoria d o a b u s o d o direito
Inicialmente, c o n v é m destacar que, no passado, h o u v e q u e m n ã o admitisse a idéia d a existência da teoria d o abuso d o direito, sob o funda m e n t o de q ue existe u m a antíte
se lógica, já q u e u m ato n ã o pode, ao m e s m o tempo; ser conf o r m e e contrário ao di
reito.
O maior opositor d a teoria d o abuso d o direito, segundo a doutrina consultada, foi Planiol, para q u e m , conf o r m e S A V A T I E R apud Silvio Rodrigues (1989, p. 51-52), “a expressão abuso d e direito é imprópria, pois o direito cessa o n d e o abuso começa. Se a l g u é m usa seu direito, seu ato é lícito; será ilícito se o direito é ultrapassado, pois, então a pessoa está agindo s e m direito”.
Atualmente, já n ã o encontramos mais tal oposição, subsistindo, entretanto, diver
gência doutrinária quanto ao caráter autô
n o m o da teoria d o abuso d o direito, já qú e alguns n e g a m sua autonomia, enquadrando- a c o m o u m a espécie d e ato ilícito, situada, pois, n o c a m p o da responsabilidade civil, enquanto outros atribuem a ela caráter au
tônomo, desvinculando-a d a seara d a res
ponsabilidade civil.
Para os adeptos d a primeira corren
te, a questão referente ao abuso d o direito deve ser resolvida exclusivamente c o m apli
cação d a teoria d a culpa (presença d o ele
m e n t o intencional d o agente). S e g u n d o o professor Sílvio Rodrigues (1989, p. 52) “o ato só seria abusivo quan d o inspirasse a me r a intenção d e prejudicar a terceiro o u fosse exercido s e m qualquer interesse por seu autor”. Dentre os adeptos desta corrente,
encontramos, dentre outros, R n i Stocco (2002, p. 71) q u e assim se posicionou, ainda n o período de vacatio legis d o atual C ó d i g o Civil: "Ora, se grande parte dos autores pátrios afirma q u e o abuso d o direito encon
tra sustentação, ain d a q u e a contrario sensu, n o artigo 16 0 , 1, d o C ó d i g o Civil de 1916, e m vigor, n ã o h á c o m o afastar a con
cepção subjetiva por ele abraçada, sob pena de incoerência iógica” .
Para os q u e perfilham a segunda cor
rente, a teoria d o abuso d o direito possui autonomia, constituindo u m a responsabilida
de especial. O s partidários desse critério objetivo - ou finalista- preconizam qu e ocor
rerá o abuso d o direito q u a n d o o m e s m o for exercido d e f o r m a contrária aos seus fins sociais e econômicos. O precursor desta corrente, e t a m b é m seu incansável defen
sor, foi o francês Louis Josserand, q u e a e m b a s o u na regra d a relatividade do s direi
tos, sustentando q u e os direitos individuais nã o são absolutos, encontrando limites éti
cos. Sílvio Rodrigues (1989, p. 54) retrata o pensamento d o referido autor:
H a v e r á a b u s o d e direito, se
g u n d o esse autor, q u a n d o o seu titular o utiliza e m desacordo c o m a finali
da d e social para a qual os direitos subjetivos f o r a m concedidos. Pois, a seu ver, òs direitos for a m conferidos a o h o m e m para s e r e m usados d e for
m a q u e se; a c o m o d e ao interesse co letivo, o b e d e c e n d o à sua finalidade, segu n d o o espírito d a instituição.
Prevalece n a doutrina atual o critério objetivo, destacando, c o m propriedade, Álvino L i m a (1999, p. 257):
O maior prejuízo social constitui, pois, o critério fixador d o ato abusivo d e u m direi
to. D a í se poder concluir qu e a culpa não reside, n o caso d o abuso d o direito causan
do d a n o a terceiro, n u m erro de conduta i m putável moralmente ao agente, m a s n o exer
cício de u m direito causador d e u m dan o so
cialmente mais apreciável. A responsabili
dade surge justamente porque a proteção do exercício deste direito é m e n o s útil social
men t e d o qu e a reparação d o d a n o causado pelo titular deste m e s m o direito.
R evista do T ribunal R egionaldo T rabalho da 15aR egião 171
3.2 Finalidade do instituto
D e acordo t a m b é m c o m A I v i n o L i m a (1999, p. 205-206), citando H. de Page:
A teoria d o abu s o de direito veio, pois, alargar o âmbito das nos
sas responsabilidades, cerceando o exercício dos nossos direitos subjeti
vos, n o desejo de satisfazer melhor o equilíbrio social e delimitar, tanto quanto possível, a ação nefasta e de letéria d o egoísmo h u m a n o C o m o cor
retivo indispensável ao exercício do direito, elá veio limitar o poder dos indivíduos, m e s m o investidos d e direi
tos reconhecidos pela lei, conciliando estes direitos c o m os d a coletividade.
Louis. Josserand (1999, p. 26-27), o precursor d a teoria, assim se pronunciou:
T o d a esta teoria dei abuso de los derechos es el triunfo de la moral, q u e m e r c e d a aquella, penetra el d e r e c h o e m to d a su extensión.
Gracias a esa teoria, el derecho se realizamoralmente; cum p l e su misión, q u e es asegurar el reinado d e la jusúcia, n o el d e la insjusticia y la
inmoralidad
33 Legislação brasileira sobre a matéria
N a vigência d o C ó d i g o Civil d e 1916 nã o havia n o r m a específica acerca d a m a téria atinente ao abuso d o direito. O artigo 160, inciso I, inserido n o Título q ue tratava
“D o s Atos Ilícitos”, estabelecia que: “não constituem atos ilícitos: I - os praticados e m legítima defesa ou n o exercício regular de u m direito reconhecido” . A contrario sensu, a doutrina dizia q u e os atos praticados n o exercício irregular de u m direito constituíam atos abusivos.
Idêntica redação foi mantida n o arti
g o 188, inciso I, d o atual C ó d i g o Civil, que, após estabelecer, t a m b é m n o Título “D o s Atos Ilícitos”, e m seu artigo 186, que “aquele que, por ação o u omissão voluntária, negli
gência ò u imprudência, violar direito e cau
sar d a n o a outrem, ainda q u e exclusivamen
te moral, c o m e t e ato ilícito”, acrescentou, tratando expressamente d o abuso d o direi
to, e m seu artigo 187, q u e “t a m b é m comete ato ilícito o titular de u m direito que, ao
exercê-lo, excede manifestamente os limi
tes impostos pelo seu fim e c o n ô m i c o o u so
cial, pela boa-fé o u pelos bo n s costumes” . D e s s a forma, e m b o r a inserido n o Tí
tulo “D o s Ato s Ilícitos”, pareçe-nos q u e o C ó d i g o Civil adotou a corrente d a teoria au
t ô n o m a d o abuso d o direito, já q ue n o artigo 18 6 tratou d a responsabilidade pela prática d o ato ilícito utilizando o critério d a culpa, para e m seguida estabelecer q u e “t a m b é m ” comete ato ilícito, o u seja, m e s m o s e m o ele
m e n t o intencional; deixando assente q u e o ato praticado dentro do s contornos d a lei, m a s contrário ao seu fi m econômico, social, à boa-fé e aos bons costumes, deve ser re
primido, constituindo, portanto, ato abusivo.
B o m lembrarmos, ainda, q u e o n o v o C ó d i g o Civil privilegiou o princípio d a boa-fé objeti
va (vide artigos .113,187 e 422, especifica- mente).
Aliás, o artigo 5° d a L ei d e Introdu
çã o ao C ó d i g o Civil (Lei n° 4.657, d e 04.09.1942) preceitua q u e “n a aplicação d a lei, o juiz atenderá aos fias sociais a q u e ela se dirige e às exigências d o b e m c o m u m ”, o que, segundo Sílvio Rodrigues (1999), indi
ca qu e o legislador brasileiro distanciou-se da teoria subjetiva, adotando o critério obje
tivo d o abuso d o direito.
3.4 Diferenciação entre ato ilícito e ato abusivo
D o q u e foi escrito até o m o m e n t o e partindo d o conteúdo d o inciso I, parte final, d o artigo 188 d o Cód i g o Civil, interpretado a contrario sensu, pode-se dizer q u e o ato abusivo é aquele exercido d e f o r m a irregu
lar. M a s p qu e p o d e ser entendido c o m o “ir
regular” ? O u , até o n d e vai o contorno da
“regularidade”?
O ato abusivo, s e m dúvida, diferen
cia-se d o ato ilícito propriamente dito. Este viola ps limites objetivos traçados pela lei, enquanto aquele, e m b o r a praticado dentro dos contornos definidos c o m o legais, distan
cia-se dà finalidade d a lei.
O jurista Alvino L i m a (1999, p. 205), acerca dadistinção mencionada, afirmou que:
Distinguem-se, pois, as esferas d o ato ilícito e d o abusivo, a m b o s g e radores d e responsabilidade; naquele transgridem-se os limites objetivos tra
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