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O objeto a nas variações do humor

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Academic year: 2021

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O objeto a nas variações do humor 

Elisa Alvarenga 

  Agradeço ao Henri pelo convite para compartilhar com Maria de Fátima esta noite preparatória  à nossa  jornada,  na  qual gostaríamos  de  manter o  tom  de investigação  que foi  dado  aos  dois  primeiros  encontros.  Conversamos  sobre  o  que  seria  interessante  abordar  a  propósito  do  objeto  e  do  humor  e  eu  me  interessei  por  explorar  as  relações  entre  o  humor,  o  afeto  e  o  objeto a.  Isso está perfeitamente dentro do tema  proposto  para nossas jornadas, cujo título –  Depressão  e  bipolaridade  –  transtorno  ou  dor  de  existir?  –  aparece  nas  classificações  psiquiátricas  atuais como  um  transtorno afetivo,  embora se  refira  às  variações  do humor  que  oscilam entre as “depressões leves, moderadas e graves, com ou sem sintomas psicóticos”, que  substituem  o  que  classicamente  se  repartia  entre  as  depressões  neuróticas  e  as  psicoses  maníaco‐depressivas.  Não  me  debruçarei  sobre  a  questão  do  objeto  a  na  mania  e  na  melancolia,  evocada  por  Lacan  em  1963,  no  Seminário  da  Angústia,  e  10  anos  depois,  em  Televisão,  mas  sobre  a  presença  do  objeto  a  no  campo  da  neurose,  tentando  precisar  as  diferenças  e semelhanças entre  a  maneira  como  o  objeto  se  apresenta  na  angústia  –  o  afeto,  segundo  Lacan,  que  não  engana  ‐  e  naquilo  que  se  nomeia  depressão  –  termo  utilizado,  na  atualidade, para nomear, tanto estados relacionados com a perda e o luto quanto estados que  afetam  gravemente  a  vida  de  um  sujeito.  Pareceu‐me  oportuno  servir‐me  de  um  caso  apresentado  por  Philippe  La  Sagna  –  convidado  internacional  da  nossa  jornada  –  na  Conversação  Clínica  do  Instituto  do  Campo  Freudiano  em  Paris  em  junho  de  2007,  sobre  “As  variações  do  humor”,  não  tanto  para  comentar  o  caso  em  si,  mas  para  me  servir  da  rica  discussão dos colegas franceses sobre o tema que aqui nos concerne. Essa conversação coloca  em questão o termo “humor”, pouco utilizado na Orientação lacaniana, tentando dar uma nova  interpretação aos  fenômenos do humor, a partir de questões suscitadas  pela prática analítica. 

Situado  na  “junção  mais  íntima  do  sentimento  de  vida”  (Escritos,  p.  565),  como  propõe  JAM  retomando  Lacan,  o  humor  se  demonstra  possível  de  decifrar  na  experiência  psicanalítica,  permitindo que nos orientemos na estrutura, para saber fazer aí com os seus fenômenos. 

No seu texto, “Da angústia à depressão”, P. La Sagna retoma Freud, que em ISA opõe a angústia  como  medo  do  perigo  da  perda  do  objeto  à  dor  como  conseqüência  dessa  perda

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.  A  dor  psíquica supõe um mínimo de elaboração: o  investimento de um objeto perdido se elabora na  depressão como objeto exterior.  

      

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 FREUD, S. Inibição, Sintoma e Angústia, in ESB XX, RJ, Imago, 1976, p. 194‐196. 

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2  Lacan  inverteu  essa  perspectiva  mostrando  que  a  angústia  na  sua  relação  ao  real  supõe  o  retorno sobre o sujeito de um objeto perdido, retorno que pode alterar o eu por identificação. 

Há então um  efeito depressivo,  base sobre  a qual se elabora um  objeto  “psíquico” no sentido  de Freud e no entanto, para Lacan, da “ordem irredutível do real” (A angústia, p. 178), que será  apreendido  pelo  sujeito  como  defeito  ou  falta.  Quando  a  assimilação  do  objeto  ao  eu  permanece  instável,  esse  retorno  pode  também  assinalar‐se  por  uma  angústia  extrema,  sinal  do real. Assim, angústia e culpa podem se alternar.  O  deslizamento da angústia à depressão e  retorno  são  particularmente  interessantes,  como  assinala  La  Sagna,  para  a  clínica  e  a  teoria  psicanalíticas.  

A  angústia, a partir do caso apresentado, se  apresenta quando o objeto a surge como  falta da  falta.  O que também  significa que falta  o  apoio da  função fálica,  que introduz  uma  medida na  perda  ou  no  ganho  de  gozo  do  corpo.  Verifica‐se  também,  no  caso  apresentado,  a  hipótese  freudiana de “Luto e melancolia”: o fraco investimento da libido objetal coexiste com um forte  laço de amor.  

A propósito das relações entre o afeto e o humor, JAM assinala que a descrição fenomenológica  supõe  que  os  afetos  são  descontínuos,  afeto  disso  ou  daquilo,  elementos  discretos  e  significantes,  ao  passo  que  o  humor  evoca  uma  tonalidade  contínua:  baixa,  exacerbação,  inversão, o  que nos remete a um defeito na  regulação do  gozo. A angústia não se inscreve no  registro  do  humor.  Se  a  angústia  não  engana,  há  uma  relação  estreita  entre  a  angústia  e  a  verdade, enquanto há, por outro lado, uma relação entre humor e gozo

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.  

Véronique  Mariage  distingue  a  angústia,  como  perturbação  do  afeto,  da  depressão  como  perturbação  do humor.  A  passagem  de  uma  à  outra se  faz  pela  via  das  relações do  sujeito  ao  objeto,  pelo  retorno  do  objeto  perdido.  Esse  retorno  sobre  o  sujeito  de  um  objeto  perdido  produz o afeto da angústia. Quando esse retorno altera o eu por identificação, ele produz uma  inibição, um  afeto  depressivo  ou um  transtorno  do  humor.  A  perda  do  objeto  produz  a  dor  e  supõe  um  mínimo  de  investimento  que  se  elabora  na  depressão.  Angústia  e  depressão  se  entrecruzam,  fazem  borda,  litoral.  Para  Jean‐Pierre  Deffieux,  o  objeto  causa  de  desejo  no  inconsciente se opõe à presença invasora da angústia, operando uma nova aliança desse objeto  com o saber inconsciente.  

P.  La  Sagna  distingue  o  estado  melancólico,  onde  haveria  uma  rejeição  do  inconsciente,  da  posição  melancólica,  na  qual os  analisantes  são  exemplares,  aproximam‐se  da  verdade,  como  diria  Freud.  Eles  seriam  sujeitos  não  embaraçados  pelo  falo,  com  a  possibilidade  de  que  o  inconsciente  como  tuché  funcione  às  vezes,  fora  das  crises.  O  que  permitiria  ao  sujeito  se        

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 MILLER, J.‐A. Variétés de l’humeur, Paris, Navarin, 2008, p. 74. 

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3  arrancar da  angústia produzindo  efeitos de tuché teria  por  função restaurar um  outro  tipo de  objeto. JAM objeta que a oposição entre posição e estado é um pouco porosa. Como poderiam  ter traços opostos quanto à questão da rejeição do inconsciente? 

No que concerne o objeto, podemos distinguir a melancolia e o suicídio, em que o objeto a e o  gozo  dominam o quadro clínico, da  “depressão”,  estado transitório caracterizado pela  retirada  dos investimentos de objeto. A essa retirada se acrescentariam os golpes do supereu e a culpa,  como assinala Serge Cottet

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. A depressão, para Freud, não é um afeto, mas o resultado de um  despovoamento  simbólico,  desinvestimento  do  mundo  exterior.  O  que  está  em  causa  é  o  campo do Outro. A dor psíquica é a causa das inibições do eu. Em Freud, o trabalho do luto faz  com que,  depois  de ter superinvestido  os traços da pessoa  de quem se faz o  luto,  o  objeto  se  reduza aos significantes que o representaram, numeráveis e finitos. Tendo esgotado o conjunto  dos significantes que dão consistência ao objeto, seu casulo narcísico, despido de sua cobertura  imaginária –  i(a)  – que  lhe assegurava o  significante do ideal do eu,  cai  na condição de objeto  não  assimilável,  sem  mais  nenhum  suporte  narcísico.  O  luto  se  completa  e  um  novo  objeto,  ornado com as insígnias precedentes pode surgir.  

Na análise, o exame dos significantes do ideal do eu conduz a um empobrecimento subjetivo: o  estofo  narcísico  que  sustenta  o  sujeito  em  sua  enfatuação  começa  a  falhar.  Trata‐se,  não  de  uma  perda de objeto, mas de seu brilho fálico. Trata‐se da castração, pois esse desnudamento  do  objeto,  correlato  a  essa  perda  de  consistência  narcísica,  se  acompanha  de  uma  perda  do  gozo fálico.  

Serge  Cottet situa  a depressão  neurótica  no registro da  alienação:  o  sujeito  tenta se  situar no  desejo  do  Outro  e  fabrica  a  significação  desse  desejo  como  significação  fálica.  A  posição  depressiva  corresponde  ao  entrave  dessa  significação,  daí  a  emergência da  culpa,  relacionada  com  a  falha  do  gozo e  com  o  objeto  que  resiste  à  significação  fálica. Esse  momento  crucial  é  típico  da  neurose  obsessiva,  onde  a  fantasia  veste  o  objeto  a  com  a  idealização.  Não  a  vestimenta narcísica desse  objeto, i(a),  mas a idealização do dejeto como tal. O descolamento  do grande I do objeto a, previsto por Lacan no final da análise, pode levar o sujeito a uma fase  depressiva.  Se  o  único  significante  do  desejo  é  o  falo,  ir  além  do  objeto  fálico  conduz  a  um  Outro gozo, além do falo, nem sempre tolerável. Na histeria, Cottet aponta o “amor extremo do  objeto”. A devastação dos ideais pode vir no lugar do semblante fálico.   

Enquanto no suicídio melancólico o sujeito se identifica com o furo que falta no Outro – suicídio  de separação – o suicídio do “deprimido” é um apelo ao Outro.  

      

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 COTTET, S. A bela inércia, in Curinga 27, EBP‐MG, Nov. 2008, p. 97‐98. 

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4  Para abrir a discussão, trago um pequeno fragmento clínico onde se coloca então o diagnóstico  diferencial  entre  uma  depressão  em  um  sujeito  histérico  ou  melancólico,  hospitalizado  após  uma tentativa de suicídio. 

Divina 

Divina  é  internada  no  IRS  após  dois  anos  de  tratamento  infrutífero  para  uma  depressão  recorrente  e  uma  tentativa  de  autoextermínio  tomando  cerca  de  50  comprimidos.  Foi  encontrada  pelo  marido  que  voltou  em  casa  em  um  horário  não  previsto,  trancada  em  seu  quarto, desacordada. Ficou no CTI e recebeu alta do hospital após uma semana, envergonhada. 

Diz que não acreditava mais na sua possibilidade de melhora e estava cansada de dar trabalho  ao  marido,  que  havia  dito  a  ela  que  ele  mesmo  estava  cansado  de  levá‐la  para  consulta  com  vários psiquiatras.  

Inicialmente Divina não tem vontade de falar ou de comer, só se queixa da “depressão”. Não há  auto‐recriminações,  idéias  de  culpa,  ruína  ou  hipocondríacas.  Kraepelin,  na  sua  Introdução  à  Clínica  Psiquiátrica  de  1905

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,  separa  os  estados  maníacos  e  melancólicos  dos  estados  depressivos  circulares,  onde  aponta,  em  primeiro  plano,  uma  detenção  do  conhecer  e  do  querer, uma detenção  da vontade. Isso  é  muito  evidente no  caso  de  Divina,  que  só  quer  ficar  deitada, não queria mais trabalhar e nem realizar as tarefas domésticas em sua casa. Não quer  tampouco  saber  nada  sobre  as  causas  de  seu  estado.  Sua  única  demanda  é  fazer  sessões  de  ECT, pois sua mãe esteve internada no IRS e melhorou com este procedimento. Seu marido diz  que  o  casamento  deles  acabou,  mas  não pretende  abandoná‐la  “enquanto  estiver  assim”.  Ao  cabo de 3 semanas de atendimento e uso de psicofármacos, Divina surpreende a todos: voltou  a ter  sono e  apetite,  participa da TO, acha graça nas pacientes e quer retornar  ao trabalho de  servente em uma escola do interior.  

Ela nos conta que é a 8ª de 17 filhos e até se casar não teve tempo de adoecer. Os irmãos mais  velhos  iam  cuidando  dos  mais  novos,  parou  de  estudar  na  4ª  série  para  cuidar  dos  irmãos  e  depois  trabalhar.  Casou‐se  aos  25  anos  com  o  atual  marido  e  aos  28  teve  sua  primeira 

“depressão”.  Não  sabe  dizer  porque  perdeu  a  vontade  de  fazer  as  coisas  e  de  comer,  fez  tratamento e logo melhorou.  

Aos 33 anos o marido arranjou uma namorada e quis separar‐se dela, mas acabou voltando. Ele  se  queixa  de  que  ela  vivia  na  casa  dos  pais  e  não  se  interessava  em  cuidar  da  própria  casa. 

Tiveram  duas  filhas,  a  mais  velha  das  quais  mudou‐se  há  dois  anos  para  trabalhar  em  uma  cidade vizinha.  

      

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 KRAEPELIN, E. Introduccion a La clinica psiquiátrica, 2ª edición,  Madrid, Ediciones Nieva, 1988, p. 38. 

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5  Há  7  anos  perdeu  o  pai  e  há  5  a  mãe,  tendo  cuidado  de  ambos  sem  maiores  conseqüências  após a morte de cada um. Sua atual “depressão” teve início 3 anos depois. Não associa as crises  com suas  perdas,  a  não ser com o fato  de  sua  filha  ter  saído  de casa  e não  com  o  marido  ter  saído de seu quarto. Nos perguntamos se o humor deprimido de Divina não estaria relacionado  à  perda  do  investimento  fálico  pelo  seu  marido  e  se  sua  recusa  em  melhorar  não  teria  a  ver  com a  expectativa  de  ser  abandonada,  anunciada  pelo  marido.  Nesse sentido, pensamos  que  não  se  trata,  em  Divina,  da  sombra  do  objeto  que  cai  sobre  o  eu,  mas  de  sua  queda  como  objeto,  uma  vez  retirado  o  brilho  fálico  que  lhe  era  conferido  pelo  desejo  do  marido.  Divina  continua econômica nas palavras, mas está mais conectada à vida, ao trabalho e às pessoas. Ela  aceita retornar para o tratamento ambulatorial, durante o qual talvez se possa explorar melhor  os  detalhes  do  que passou,  mas ela não se mostra muito interessada em saber. Ela  parece ser  uma figura da tristeza como covardia moral evocada por Lacan.  

  

 

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