A função da Arte?
- Dizei-nos, Mestre, o que é Arte?
- Quereis ouvir a resposta do filósofo ou da gente rica que decora as suas salas com os meus quadros? Ou quereis mesmo ouvir a resposta do rebanho mugidor que oralmente ou por escrito louva ou critica a minha obra?
- Não, Mestre, qual é a vossa própria resposta?
Um momento depois, Apollonius respondeu:
- Quando vejo qualquer coisa, ouço ou sinto o que uma outra pessoa fez ou produziu e quando eu, no rasto que ele deixa posso descobrir um ser humano, ou a sua razão, a sua vontade, a sua ansiedade, a sua luta – isso é para mim Arte.
I. Gall., Theories of Art, p. 125
Uma função importante das artes plásticas é captar a realidade demasiado efêmera e
prolongar a sua existência. Alguém que encomenda o seu retrato deixa-se imortalizar. Antes de a fotografia assumir o papel de congelador do instante, a pintura tinha essa função, o artista plástico foi o fotógrafo oficial ao longo de milênios.
Por isso, a História da Arte consolidou a idealização da realidade – a imagem que deve ser levada à perfeição – o artista tinha que corrigir todo o erro e máculas inerentes à realidade. Só muito recentemente se deixou de apreciar exclusivamente os valores da reprodução e da idealização, para contemplar a visão pessoal do artista expressa por intermédio da sua obra.
Mesmo antes da fotografia, o artista nunca excluiu a visão pessoal, o que teria sido impossível, mas ela não era o fim em si mesmo: o cliente e o público não apreciavam o artista pelo que ele revelava de si mesmo. Hoje, ao contrário, espera-se que a obra seja em primeiro lugar e acima de tudo a expressão do eu do sujeito criador. Agora a realidade é entendida mais como uma dissimulação da obra de arte em si, do que como o único meio de manifestação.
Assim, pode surgir uma arte não figurativa, que na forma e cor tem vida independente e serve a auto-expressão do artista. Simultaneamente ao declínio da realidade apareceu na arte a realidade amplificada, uma super realidade, mais conhecida como Surrealismo. Nele as formas e as cores não são de maneira nenhuma abstrações da realidade, mas permanecem ligadas a coisas perceptíveis; uma árvore continua sendo uma árvore e um relógio continua sendo um relógio. Porém, as folhas das árvores ao invés de verdes, podem ser púrpura em forma de aves, enquanto o seu interior pode ser oco ocupado por um armário, enquanto o relógio, apesar de mostrar corretamente as horas, pode escorrer como se fosse pastoso.
A função da pintura ao ser superada pela fotografia na sua missão de retratar, alçou o vôo autônomo da expressão de si mesma, desvinculada dos grilhões dos ideais de beleza e conserto da realidade. Excetuando-se a arte decorativa, a obra autoral pode seguir qualquer caminho, até mesmo negar a possibilidade de diálogo com o público, mas é justamente no momento em que alcança a sua total independência em relação ao gosto estético do cliente médio, que adentra ao limbo das obras esquecidas.