Murmúrios de uma Árvore
Thiago W. Flores – 2019 – Todos os Direitos Reservados
Para meus amigos Danísia e Vanderlino.
Sumário
O OBSERVADO
A HISTÓRIA DE UM BANANA MURMÚRIOS DE UMA ÁRVORE GENTE FEIA
JOSÉ, O BESOURO
ÚLTIMO SEGUNDO DE LIBERDADE O INFERNO DE CADA UM
DISTRAÍDO, FOI-SE SOBRE O AUTOR
O OBSERVADO
Depois de mais uma noite entediante de sábado, vendo programas do Animal Planet, Ricardo pegou no sono com a sua boca escancarada cheia de dentes, lá mesmo no sofá. Só acordou quando o sol já ia alto, no domingo.
Levantou, coçou o traseiro, tirou a cueca e a atirou para longe, sem se interessar onde iria cair. Muitas outras peças de roupas já estavam espalhadas por todo o apartamento. Com a vista ainda embaçada e pelado, caminhou a passos lentos até o banheiro. Sentando no seu trono, limpou os olhos, e enquanto seu corpo cumpria a primeira missão fisiológica da manhã, viu algo estranho próximo ao teto do banheiro: uma câmera. Subitamente, como se acordasse pela segunda vez, tapou suas vergonhas com as mãos, puxou uma toalha e atirou-a contra o objeto. A toalha bateu no teto e caiu, a câmera já havia desaparecido. Ricardo bateu na testa como se chamasse a si mesmo de idiota e tratou de continuar o que fazia, tentando esquecer aquilo que considerou um simples delírio de quem ainda não havia acordado completamente. Essa foi a primeira vez que Ricardo viu o que seria, em breve, sua companhia pelo resto de seus dias.
A segunda vez em que viu a tal câmera fora alguns meses depois, em um elevador, não achou nada estranho ela estar ali, afinal esse era um lugar onde sempre havia câmeras, mas achou engraçado aquela câmera parecer segui-lo. Andou de um lado para outro no elevador e ela continuava a apontar a sua lente insensível para qualquer direção que fosse.
Na terceira vez que Ricardo viu claramente a estranha câmera que lhe vigiava, foi quando fez grandes descobertas. Ia saindo da cozinha com um pacote de batatinhas e uma lata de refrigerante de laranja quando viu em sua frente a famigerada câmera. Pela primeira vez pode observar bem o seu aspecto, tinha um formato esférico, era cinza e parecia feita de plástico, embora sua cor quase prateada lembrasse metal. Sua lente era grande e tinha acima dela uma pequena luzinha azul que piscava sem parar. Ricardo se lembrou das outras duas vezes que encontrara o estranho objeto. Soltou o que segurava e se moveu de lado lentamente, a câmera, como era de se esperar, continuou acompanhando-o. Deu alguns passos para trás, voltando até a cozinha. Pegou um rodo que estava ao lado da pia, lentamente, como se a câmera não estivesse registrando os seus cuidadosos movimentos, de repente, PAAAFTZZZ! Bateu com o rodo na câmera, fazendo o estranho objeto ser arremessado na parede e se despedaçar imediatamente. Observou, sem se aproximar muito, e viu que havia poucos circuitos e fios dentro do objeto. Foi
até a cozinha pegar uma pá para limpar a sujeira, mas quando retornou, nada mais havia no canto da parede. Foi então que ouvia a TV, que até então não estava ligada, agora mostrava imagens. Aproximou-se e viu que a câmera que ele havia destruído quase naquele instante, estava na frente da TV com um pequeno laser azul apontado para o aparelho, como se projetasse as imagens no monitor. Demorou para Ricardo entender o que se passava, mas logo viu quem estava no vídeo: sua mãe no leito do hospital, segurando um bebê. Ele era esse bebê (porque era o único filho). Seu pai estava logo ao lado. A imagem começou a acelerar e se misturar, às vezes se distorcendo ou simplesmente apagando. Mas de vez em quando desacelerava e Ricardo via- se em todas as gravações. Desde pequenino, brincando com os amigos.
Jantando com a família. Correndo na praia. Com a primeira namorada. Na formatura do colegial. Brigando com o pai, chorando no velório do mesmo. Até que mostrou a mais recente filmagem, ele destruindo a câmera. Ricardo ficou pasmo com tudo o que estava diante de seus olhos e pôde, não sem choque, entender que aquela câmera o estivera filmando por toda a sua vida.
Conseguia agora se lembrar de tê-la visto mais vezes, principalmente quando ainda era criança ou quando estava bêbado. A câmera apagou sua luzinha e silenciosamente voltou a fita-lo.
A HISTÓRIA DE UM BANANA
Victor era um menino muito medroso. Apesar de já ter nove anos de idade, deixava de fazer muita coisa por medo. Não brincava de pegar com os outros meninos porque podia cair e se machucar. Tinha medo de se sujar.
Tinha medo de se cortar. Tinha medo de se perder. Tinha medo de tudo.
Preferia ficar no quarto desenhando. Seu pai, César, vivia dizendo que sua filha caçula Flávia, de quatro anos de idade, era muito mais corajosa que o irmão.
Era verdade. E ele não se importava.
Certa vez, César teve a ideia de levar a família para conhecer o sítio onde crescera. Queria estimular seu filho a criar coragem para brincar, ao ter contato com a natureza.
Chegando lá, acompanhado dos filhos, foi até o enorme quintal e começou a falar, com bastante empolgação:
- Vejam crianças e principalmente, você Victor. Era aqui que eu brincava quando eu tinha a sua idade. Eu corria. Era livre como um passarinho. Vê aquele açude? Eu o atravessava. Nadava feito um sapinho. Eu subia todas estas árvores, igual a um macaquinho. Por que você não pode ser assim, meu filho? Fica sempre estagnado feito uma planta. Apodrecendo no seu quarto.
Nestes momentos, Victor se sentia um nada. Ele queria poder agradar o pai.
Ouvindo as duras palavras, que apesar de serem para o seu bem, machucavam, começou a chorar. Ele não tinha culpa. Ele era assim. Não queria mudar. Ao ver seu filho começar a soluçar, César ficou com raiva. Era sempre assim. Olhou para a esposa indignado e falou:
- Veja o que você fez mulher! Transformou nosso filho em UM BANANA!
Vamos voltar lá para dentro. Este não tem jeito.
- Venha, Victor- disse a mãe.
- Não! - interrompeu o pai. Deixe-o ficar aí sozinho. Ele precisa pensar um pouco. Ele não pode ser assim para sempre.
A mãe obedeceu. Foram os três para a casa, menos Victor, que ficou sentado numa pedra, choramingando.
De repente, Victor viu um enorme macaco descendo de uma árvore. Ele tinha medo de macaco. Quase gritou, mas o animal se transformou em um homem de terno preto. O homem fez um sinal amigável para que o menino não reagisse e disse:
- Não tenha medo, Victor. Eu estou aqui para ajudar.
O garoto, já de pé e pronto para correr, perguntou:
- Me ajudar? Como?
- Eu ouvi tudo, disse o homem. Eu tenho algo que vai fazer você superar todos os seus medos. Você vai poder ser o que quiser e fazer o que seu pai quiser.
O homem tirou uma bala envolta em papel azul laminado do bolso e estendeu a mão, oferecendo-a a Victor.
- Desculpa, disse o menino, minha mãe falou que não posso aceitar presentes de estranhos.
O homem zombou:
- Vê? É por atitudes assim que você decepciona sempre o seu pai.
Sempre fazendo o que a mamãezinha manda.
Não aceitando a provocação, Victor tomou a bala da mão do estranho e sem pensar, comeu-a.
- Muito bem, Victor. Seus pais já estão voltando agora. Mostre a eles que você não é o medroso que eles pensam...
A família de Victor se aproximava. O menino olhou para eles, levantou os braços e magicamente se transformou em um pássaro. Saiu voando em círculos ao redor de sua família e disse:
- Veja papai! Eu sou livre como um passarinho!
Seus pais não acreditavam no que viam:
- Pare com isso, Victor!- berrou a mãe.
- Volta aqui irmãozinho.- pediu Flávia.
Victor voou até a beira do açude, se transformando agora em um sapo, e saltou na água.
- Veja como eu nado, papai. Sou tão bom quanto o senhor?
- Pare com isso, meu filho.- implorou César.
- Ainda falta uma coisa, disse Victor saindo da água e mais uma vez se transformou, desta vez em um macaquinho.
- Está feliz agora, papai? Perguntou Victor, trepando nos galhos das árvores.
- Já pode parar, Vitinho.- César estava realmente assustado. A mãe do menino se desmanchava em lágrimas.
- Tá certo, papai. Vou voltar a ser o seu filho de sempre.
Neste momento, Victor caiu no chão transformado em uma banana madura.
- Socorro, disse a banana, eu não queria me transform....-
Antes que pudesse completar a frase, o macaco -que antes era um homem de preto- saltou de uma das árvores e devorou e aquela banana com apenas duas mordidas.
MURMÚRIOS DE UMA ÁRVORE
Sou uma árvore. Nem sempre fui assim. Já fui um homem de carne e osso. Mas agora, eu sou uma árvore. Não sei direito como aconteceu. Certa noite - madrugada, para ser exato- eu estava perambulando pela rua, vindo de uma festa que tinha sido um saco. Eu estava ali para fugir da minha mulher, não aguentava mais as nossas brigas e as reclamações dela, que hoje vejo como justas, a maioria por causa de nossas crescentes dívidas. Meu salário não estava sendo suficiente para nos manter e já tínhamos nosso segundo filho pronto para despontar. Sei que não foi certo, sair à noite e deixar minha mulher e meu primogênito sozinhos em casa, para gastar dinheiro que não tínhamos, mesmo assim eu fui. Bebi, curti, fiquei com outras mulheres, mas quando a festa estava no seu auge, me bateu uma tremenda melancolia. Senti-me mal por estar fazendo aquilo com a mulher a quem prometi ficar até o fim de nossas vidas, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, enfim, dentre outras promessas difíceis para um humano como eu cumprir. Saí imediatamente e fui caminhar de volta para casa. Quando cheguei a esta esquina, em que me encontro agora, resolvi parar um pouco para pensar na vida, esfriar a cabeça.
Sentei-me e pronto, nunca mais me levantei. Criei raízes imediatamente e quando dei por mim já era uma espaçosa árvore.
Não tenho olhos nem ouvidos, mas posso ver e ouvir tudo que acontece ao meu redor, mais até do que quando era gente. Este passou a ser meu maior consolo. Não posso me mexer, a não ser quando vem um vento forte e balança os meus galhos, arranca algumas de minhas folhas, até é divertido. No começo foi chato, ter que ficar parado no mesmo lugar, ver os dias nascerem e morrerem infinitas vezes, mas hoje sei que não é tão ruim assim, só os cachorros que me usam como urinol continuam sendo insuportáveis, mas a companhia dos pássaros os compensa. De vez em quando aparece alguém de bom coração para conversar comigo, me pedir conselhos, embora eu não possa os responder, obviamente. Já vi muita coisa acontecer nas minhas sombras e tenho histórias para mais de mil livros, apesar de também não poder escrevê-las. Queria ao menos poder falar para contar a alguém tudo o que eu aprendi, mas isso é impossível, até porque se alguém parasse para ouvir o que uma árvore tem a dizer iriam julgá-lo maluco. Não iriam?
GENTE FEIA
Em um país muito distante e isolado do mundo, as pessoas eram todas feias. Naquele lugar era bonito ser feio. Todas as pessoas tinham narizes de até 15 centímetros, olhos minúsculos, queixos enormes, lábios irregulares e sem vida, orelhas desproporcionais e todos se achavam bonitos e se amavam do jeito que eram. Certa vez chegou a este país um viajante estrangeiro, de muito longe, possuidor de características que para nossos padrões atuais o classificariam como um homem perfeito: olhos azuis, loiro, corpo malhado e toda essa baboseira que todo mundo sabe que é tido como conceito de beleza, um Ken. Quando o homem adentrou os portões do país, logo chamou atenção.
Todas as pessoas que estavam nas ruas, calçadas e feiras paravam, fosse lá o que estivessem fazendo, para olhar o gringo de olhos azuis. O homem também olhava curioso para todas as pessoas que o observavam sem cerimônia de parecerem mexeriqueiros. Depois de passar por algumas dúzias de indivíduos notou que a estranheza do povo não era de se admirar, já que todo mundo naquele lugar era extremamente feio. Das crianças até os mais velhos. Todos eram horrorosos. Nunca vira tanta gente feia reunida em um só lugar.
- Ora! Todos estão impressionados com a minha beleza, já que não há alguém tão bonito como eu por aqui. Caminharei mais um pouco e deixarei que apreciem um pouco mais de minha aparência esplendorosa.
O homem continuou caminhando pelas ruas do novo país. Ser o centro das atenções o fazia regozijar-se se alegria, especialmente por ter sua vaidade exaltada. O que o belo homem não via por onde passava era que deixava todas as pessoas, antes surpresas, rindo-se e dizendo:
- Nunca vimos um homem tão feio por essas bandas.
- Coitado. - respondeu alguém.
JOSÉ, O BESOURO
Esta é uma história triste. Tá, não é um daqueles romances que arrebenta corações onde alguém morre jovem e deixa outro alguém apaixonado chorando por ele, mas não deixa de ser uma história triste. Não espere muita coisa, não sei nem se recomendo que prossiga lendo isso, só queria que a felicidade e a infelicidade de um pobre besourinho não ficassem perdidas no tempo, esquecidas, embora eu imagine que estas linhas simples não serão suficientes para honrar a memória do coitado, mas será uma forma de guardar sua memória, ou quem sabe outro besouro possa ler e passar sua memória adiante, se é que besouros sabem ler. Vamos aos acontecimentos:
José (vou chamá-lo assim porque acho José um nome de sofredor, mas não sei seu verdadeiro nome, ou se insetos tem nome ou se o chamavam apenas de besouro mesmo) não tinha atingido nem metade da idade que os insetos costumam viver, quando conheceu seu grande amor, Carla. o problema é que esta não era um besouro como ele e sim uma mulher, humana como eu e você.
O bichinho não precisou olhar duas vezes para cair de amores pela moça.
Descobrindo onde ela vivia, passou a morar em sua janela, admirando de longe sua graça e beleza. Quando ela saía, ele ousava entrar no quarto para sentir o seu perfume. Carla estava em seus sonhos, mas José sabia que aquele amor era impossível, mas o amor não é uma destas coisas que a gente é capaz de controlar. Mesmo quando reconhecemos que ele é inalcançável continuamos desejando que se realize. José continuava caindo de amores.
Foram muitas as vezes que José a fazia favores, os quais ela jamais saberá. Desde que o besouro decidira viver ao lado dela, ela nunca mais precisou usar o inseticida que guardava detrás do computador, pois seu besouro guardião espantava todos os mosquitos que ousassem se aproximar da sua amada. Ele era forte comparado aos outros insetos e ela era só sua (era?) e ele só dela (era!), embora ela não soubesse disso. O besouro, entretanto, não era forte o suficiente para trazer-lhe flores, como gostaria, mas trazia o perfume delas guardado debaixo de suas asas e o espalhava pela casa, também trazia pequenas sementes de cravos e logo mais, Carla teria ao pé de sua janela um maravilhoso jardim amarelo.
Cansado de amar só de longe, José percebeu que acabaria perdendo sua amada, por não ter a coragem de ir falar com ela, por medo de ser esmagado.
Já sentia precipitadamente a dor de vê-la com outro, inseto ou humano que fosse. Uma lagarta de fogo de um pé de maracujá ali perto, vendo de longe a aflição do pobre besourinho, resolveu dar-lhe alguns conselhos. Disse que se não se arriscasse, jamais saberia o que seria, que já ouvira falar de muitos insetos que conseguiram casar com humanos e viveram felizes para sempre.
Deslumbrado diante daqueles fatos, por ele antes desconhecidos, José encheu o peito e tomou coragem para ir falar com Carla, expor para ela o tamanho dos seus sentimentos de inseto. Voou lentamente na direção dos lindos olhos castanhos da amada, para melhor ser visto, ia abrir a boca para declarar-se, quando num gesto ágil, Carla pega o inseticida, agora pouco usado, e borrifa contra o pequeno besouro. Tamanha quantidade que, zonzo, José viu apenas a imagem duplicada de sua amada antes de bater as botinhas de inseto. Não poderia morrer de forma mais maravilhosa, senão olhando para sua amada.
Desculpe-me fazê-lo gastar seu tempo com esta história boba que, acredito eu, não terá a menor relevância para você, afinal José era apenas mais um inseto como outros quatro milhões que voam e rastejam por aí, mas eu ainda acho que José merece ser lembrado. Isso cabe a você decidir.
ÚLTIMO SEGUNDO DE LIBERDADE
Sou um prisioneiro, embora não me recorde de ter cometido crime algum. Num belo dia eu procurava algo para comer – os recursos estão mais escassos a cada dia, principalmente no verão que é onde tudo murcha e tudo seca e tudo morre, por aqui onde nasci – então vi aquela coisa cheia de grades montada com uma convidativa tigela de grãos e água fresca, não tive como resistir. Ouvi cantos de outros companheiros por perto, mas não entendia o que eles estavam querendo me dizer, a fome falou mais alto que as suas vozes desesperadas. Era um dia quente e eu estava confuso e com fome, não hesitei, embora lembrasse o que minha mãe sempre dizia sobre me aproximar demais das casas do bicho-homem. Enquanto eu fazia a minha farta refeição, as portinhas ao meu redor começaram a se fechar para sempre. Foi meu último segundo de liberdade. Desesperei-me. Já tinha ouvido falar daquilo, só então me dei conta o quanto tinha sido imprudente, em desobedecer aos conselhos de minha mãe e ignorar completamente o chamado de meus amigos. Não demorou muito para o bicho-homem aparecer para me buscar e me colocar no que seria a minha nova casa pelo resto de meus dias. Nunca o tinha visto tão de perto. Nunca senti tanto medo. Imaginei que era o meu fim, que seria devorado ali mesmo, infelizmente não fui.
Minha casinha engradeada, que logo descobri se chamar gaiola, foi levada a uma sala onde encontrei outras dezenas de iguais a mim, de diferentes cores, cantos e tamanhos, prisioneiros como eu. Três ou quatro deles nasceram em cativeiro e por isso não sabiam o verdadeiro significado de voar livre. Não imaginavam uma vida fora dali, nem almejavam por isso.
Nunca me senti tão triste como nos primeiros dias engaiolado. Chorava meus cantos de angústia e desespero por horas a fio, mas aquilo parecia encher o bicho-homem de prazer. A única coisa boa ali era a comida, mas não demorou muito até eu começar a me aborrecer com o alpiste. Comer passou a ser um hábito mecânico, sem sentido. Eu começava a definhar. Jamais trocaria minha liberdade por toda comida do mundo. Em momentos de maior desespero, batia contra as grades que me aprisionavam e embora elas parecessem frágeis, eu não tinha forças para lhes causar o menor dano que fosse e sempre acabava com uma asa machucada ou o bico dolorido. Mas eu continuaria tentando no dia seguinte. Todos os dias o bicho-homem nos visitava, eram os momentos de maior horror quando ele estava por perto. Já ouvia histórias de que eles comiam alguns de nossa espécie e sempre que a porta se abria, eu achava que a minha vez havia chegado, jamais me
acostumaria com aquela presença. Na maioria das vezes ele apenas sentava naquela coisa que balança e ficava ouvindo enquanto quase todos, em suas jaulas, gritavam palavras de socorro, ódio, ofensa, misericórdia, mas como sempre, ele parecia se deleitar com o triste som de nosso sofrimento. Não conseguia, por mais que me esforçasse para tentar entender, o porquê daquilo.
Que prazer havia para uma criatura tirar gratuitamente a liberdade de outras?
Chorava com saudades dos meus diante da impiedade do homem. Os outros que ali estavam pareciam já loucos – consequência do cárcere, acredito eu – e eu sabia que meu destino era ficar louco também. Isso me fazia estremecer, mas às vezes eu desejava que acontecesse logo, seria mais suportável se eu não tivesse consciência da desgraça que havia se acometido sobre mim.
Algum tempo se passou, eu acreditava começar a perder a minha sanidade, passava o dia pulando de um lado para o outro e às vezes esquecia quão pequeno era o espaço ao meu redor. Eu estava um pouco mais feliz por isso. Algo aconteceu, outro bicho-homem entrou acompanhado de meu raptor e, ao apontar para mim, deu algumas folhas secas para o primeiro e, depois de me cobrir com um pano escuro, senti que estava me locomovendo. Uma escuridão abafada me fez adormecer, acordei em um lugar novo. Com paredes de cores diferentes. Eu sabia que era noite, mas não consegui mais dormir, temia o que me aconteceria pela manhã. Felizmente, não foi pior do que tudo que já me havia acontecido, ali não tinha mais nenhum igual a mim, eu estava ainda mais solitário. Mas fui colocado numa janela e pela primeira vez em muito tempo, pude ver de longe um pouco da natureza que eu costumava conhecer e amar. Chorei de emoção e cantei, desta vez, de felicidade, pois acreditava que jamais veria a beleza do verde novamente.
O INFERNO DE CADA UM
Raul era um cara legal, embora muitas pessoas o achassem estranho e ele não gostasse de nenhuma destas pessoas. Sua mulher dizia que ele ia para o inferno se não mudasse, não parasse de ouvir música do capeta (Raul adorava um bom e velho rock and roll) e não aceitasse Jesus, como ela havia feito depois que os dois tinham se casado. Raul detestava 'crentes' e era difícil manter um casamento daqueles, com sua esposa criticando tudo o que ele fazia e gostava, fazendo questão de lembrá-lo a cada piscada de olho de que estava condenado a queimar no fogo do inferno. Mesmo com toda falácia de sua mulher, Raul continuou fazendo o que gostava até seu último dia de vida, quando sua hora finalmente chegou: Raul levou um escorregão idiota num dia de sol e deu com a cabeça no meio fio. Morreu na hora.
A alma de Raul deu uma última olhada para seu corpo, despediu-se e sentiu-se arrebatada para outra dimensão. Como se abrisse os olhos para uma luz em seu rosto, depois de ter cochilado por muito tempo na escuridão, Raul se viu num lugar esplendido. Caminhou por um longo corredor por entre nuvens e podia ouvir uma música celestial vindo de todos os lados, música do tipo que a sua esposa ouvia. O som vinha das estrelas, que por sinal estavam bem próximas. Logo viu, em forma de anjos, alguns de seus conhecidos – não sabia que eles já tinham morrido também – mas a maioria era as pessoas que ele mais detestava na vida, os amigos de sua esposa. Aqueles que tentavam exorcizá-lo, convertê-lo e salvá-lo do lamaçal do pecado.
Raul atravessou um portão de ouro, onde se encontrou com três anjos, dois do sexo feminino tocavam harpas e entre esses dois, um do sexo masculino esperava por Raul. Ele se aproximou do anjo do meio e disse:
- Quem diria, hein?! Depois de tudo o que aprontei, acabei vindo parar no céu.
O anjo sorriu discretamente e disse:
- Não se engane, meu amigo, aqui é o seu inferno.
Fazia sentido.
DISTRAÍDO, FOI-SE
Vitor era um garoto distraído, vivia no mundo da lua, despreocupado com a vida ou com qualquer outra coisa. Era do tipo que gostava de olhar as estrelas, sentar embaixo de árvores, observar os animais, sentir o vento bater no rosto, andar descalço sentindo a vibração silenciosa do universo e mergulhar na imensidão azul do céu. Na verdade, Vitor era um poeta, mas não se dava ao trabalho de escrever poesias, ele criava seus versos das cores das borboletas ou da delicadeza das flores, recitava-os para o vento e deixava seu poema ir embora.
Por ser assim distraído, Vitor costumava perder as coisas facilmente, assim como os poemas que criava. Ele sempre Pôde viver sua vidinha distraída normalmente até que, certo dia, sua distração lhe causou problemas reais pela primeira vez. O garoto estava acostumado a perder as coisas, desde um chapéu que levava na cabeça a um ioiô em seu bolso. Nada durava muito tempo em suas mãos. Ele também não se apegava muito a nada, pensava que não precisava guardar nada, pois sabia que tinha o mundo inteirinho para si.
Ele sempre deixava as coisas irem quando tivessem que ir, pois sabia que elas continuavam neste mundo e ele era parte deste mundo então, as coisas que perdia ainda eram parte de si.
Numa tarde tranquila um pedaço de Vitor foi levado embora. Quando acordou de uma longa soneca embaixo de um cajueiro, Vitor sentiu que estava respirando diferente, precisava fazer um esforço a mais para puxar o ar.
Inspirou e expirou algumas vezes e só depois de alguns minutos, entendeu o que estava faltando: um de seus pulmões havia sido levado. No peito, só restava uma cicatriz discreta, já sarando. Vitor se levantou e saiu caminhando devagar, achou que teria alguma dificuldade ou sentiria alguma dor, mas não.
Ele percebeu que seu pulmão não lhe faria falta e poderia continuar muito bem apenas com um deles.
Pena que não demorou muito para a história se repetir: quando acordou pela manhã, de uma bela noite cheia de belos sonhos, Vitor se deu conta de que mais um pedaço seu havia sido extraído, viu uma marquinha perto da barriga, mas não sabia pela sensação distinguir o que lhe faltava, precisou que um médico lhe mostrasse, depois de alguns exames, que um de seus rins tinha sido roubado.
Sem um pulmão e sem um rim, Vitor continuou sua vidinha relaxada, não se sentia mal pelo que lhe faltava, talvez quem lhe tirou aquilo que lhe sobrava estivesse precisando mais que ele, até se sentiu feliz por imaginar que alguém estava mais feliz e talvez mais saudável, graças aos órgãos que ele lhe doara.
Mas a história de Vitor não acaba aqui, muito tempo depois dos acontecidos narrados, Vitor levava o cachorro que lhe fazia companhia (que não era seu, era do mundo) para passear pela praça, foi quando encontrou uma bela moça que de imediato lhe prendeu a atenção. Os dois se conheceram, ficaram próximos e foi assim que a vidinha de Vitor teve um fim, ao cair de amores pela moça, ele entregou para ela algo com o qual não poderia viver sem, algum tempo depois a bela moça se cansou do pacato vilarejo que morava e foi embora levando consigo o coração do rapaz.
SOBRE O AUTOR
Nascido e criado em Caucaia/CE, aos 14 de março de 1992, Thiago Wesley Ferreira Braz, sempre gostou de escrever. Ainda criança, enchia cadernos de histórias inspiradas nos desenhos e novelas que assistia. Na 8ª série, com ajuda de sua professora Sandra, descobriu a paixão pela literatura e a possibilidade de viajar por outros universos e viver outras vidas através das histórias escritas.
Adotou o nome Thiago W. Flores para assinar os textos que começou a compartilhar com o mundo no site Recanto das Letras.
Gosta de escrever histórias curtas, com temas e cenários diversos, de um ponto de vista empático e existencialista.