DISSERTA ÇÃ O MEDICO - HIILOSOPIflCA
souni:
AS CAUSAS E SEDE DO SUIC Í DIO .
QUEFOIAPRESENTADAAFACULDADEDEMEDICINADORIODEJANEIRO
,
ESUSTENTADA EM5DEDEZEMKRODE1843
POB
dtJio
cfyoc/
rújucJ.
Jor/rú, M
et'TuirNATURAL1)0 RIODE JANEIRO
,
FILHO LEGITIMO DE
M A N O E L
J O S E R O D R I G U E S T O R R E S,
DOUTOREMMEDICINAPELA MESMA FACULDADE
.
Celui qui feint d’envisager la mort sans effroi,ment,tout hommecraint demourir;c’estla grande loi des êtres sensi
-
bles,sanslaquelletoute espece mortelle serait bientôt détruite
.
J.J.KoL'SSEàU.
» ï © î m î iüi ï m ©
% TVP.
IMPARCIAL DEFRANCISCO DEPAULA BRITO .
1843
.FACULDADE DE MEDICINA
DO
ÍUO DE JANEIRO .
DlHECTOR
OSK
.
DR.
JOSE MARTINSDA CRUZ JOBIM.Lentes
Propriet
ários.
OsSjiRs.DRS
.
l.°ANNO
.
Franciscode PaulaCândido PhysicaMedica
.
j BotanicaMedica,eprincípioselementaresde
£
Zoologia.
ChimicaMedica, e princí pioselementaresde Mineralogia
.
Anatomia geral, e descriptiva
.
Francisco FreireAllémão
.
..
2
.
° ANNO.
J
.
VicenteTorresIlomem...
José Maurício NunesGarcia.
3
.
° ANNO.
J08éMaurício NunesGarcia Anatomiageral,edescriptiva
.
Physiologia
.
{
L
.
deA.P.
daCunha 4.
° ANNO.
Luiz FranciscoFerreira,Presidente
. ..
Pathologia externa.
Joaquim Jos
,
édaSiloa,
Examinador. . .
Pathologiainterna.-
J ,. „
í Pharmacia,Materia Medica,especialmente a JoaoJcsede Carvalho|
Brasileira,Therapeutica,eArtedeformular.
5.°ANNO
.
Condido licr<jesMonteiro FranciscoJu/io Xavier
. .
Operações,Anat
.
topograph, eApparelhos.
Partos, Moléstiasdasmulherespejadasepari
-
das,edemeninosrecem
-
nascidos.
{
6
.
° ANNO.
TkomoxGomesdosSantos,Examinador Hygiene,eHistoria da Medicina
.
J oséMartinsdaCruz Jobim Medicina Legal.
2
^
ao4eManoelFelicianoP.
deCarealho.
Clinicaexterna, e Anat.
patholog.
respectiva.
5*ao6oManoel deVa/ludâo Pimentel
.
.. .
Clinicainterna, e Anat.
patholog.
respectiva.
Lentes Substitutos
.
Secção das Sciencias acccssorias
.
Jose litnlo daRoza,Examinador
Antonio FelizMartins,Examinador
. .. .
(' Ç *ledua.
Pominc/osMarinh»deAzev
.
"Americano.
)Cw. r.
.Lu
,
zda CunhaFviji}
Sicç‘ ' °
C,
rurS,
c“ -
Secretario
.
Pr
.
LuizCarlos daFonceca.
Fm virtude deliumaresoluçãosua
,
aFaculdade nãoapprova,
nemreprovaas opiniões emittidas nas Theses,
asquaes devem serconsideradascomoproprias de teos autores.
AOS
MEUS
PREZADOS PAISTESTEMUNHO DEGRATIDÃO E AMORFILIAL
.
Aos meus generosos Irm
ãos e melhores Amigos
E EM PARTICULAR
AO ILL .
moE EX .
müSNR . JOAQUIM JOS É RODRIGUES TORRES .
Senhor.
Ocos , e depuis Vos .
AOMEUINTIMO EPRECIOSO AMIOO
O ILL
*0SNR . ANTONIO JOSE LEITE FERREIRA GUIMAR
ÃES .
AO MEU RESPEITÁVELMESTREE JBOMAMIGO
O
ILL. “
0SNR . DR .
JOAQUIMVICENTE TORRES HOMEM .
DISSERTA
Ç ÃO
32332 Q 9 22
i939 a > 2í29 £ *
CAPITULO I.
A M O R D A V I D A
.
A cadéa(losseresorganisados
,
desdeomais intimo atéoanimal,que occupao lugar mais subido daescalazoologica,
humapropriedadese encontra deçoinmum eintodoselles,propriedade que estendendo-
sea todososvi\qntcs
,
senãoprestaamodificaçãoalguma,
c osconfun- de; pois , com quantoamethaphisicaensaieestudadasfrases por cercear-
lheos attributqs,anatureza, indicando meios fáceisesegurosde estudal-
a com acerto ,facilita-
nosadilíerçnçadosanimaes,
eseoppöeáidealidade com quea philosophia de todosos séculosostemseparado.
ComeíVoito aforça vitalanima a vegetação,
econstitueosentimentoe aeçaodo animal;maslienohomem , primeiro auneidacrcaçaovisivel ,quese ellaostentaeintodoovigor cperfeição, e de Iodas as créâturas nenhuma achamoscomreuniãolaocompleta dequasitodasasforçasM
vivas do Universo
.
Assim que,
lie natural, pois possuo em taoeminente gráo estaqualidade,
apresesobre tudo, ç
queaidéa deviveropredomine maisque qualquer outra.
Na verdade nada tem tanto império sobre ohomem, determina a tao grandessacrifícios,
como odesejo de conservara vida , e de salval-
a cmhum momento de perigo.
Privado de gozos,
victima de dôres,
se-
pultadoem
masmorras
, o homemainda assim ama a existência,
c nadamenos lie precisoque a destruiçãodeseusmaisdelicados organs ,eaextineçaototalda consciência paraqueavidaselhe tornoinditTercnlcou odiosa: taosabia blime lienem o
csu
-
a união pela naturezaestabelecidaentreaexistênciaeo amor da vida pasmos» instincio
,
omais seguro penhordufelicidade
dosindiv
íduos
,'
•stabilidade
social!esse e da
1
|),>(jUPlovamosdito sodeduz rt impossibilidade deabst raine do homemr, amor da vida, que lho be esscncitil ; doducção
,
que pareceencontrar osnume.
rosos factos de buma enfermidade particular do nossoséculo
—
a propensãoaosuieidio
—
objectode nossa these.
Ecomo discordamosda opinião dosautore>, que tem tratado deste ponto ,—
opinião que, a nossover,
dealgunsfactoscap-
ciosos tira ilaçõesmenoscxactas
,
cumpreexplicaraqui mesmoessa nossa supposta contradicção :tarefa que,
quantoem nóscabe,
procuraremosdesempenhar, pois delia pende a ideacapitalde nossotrabalho.
He innegavclque nosvolumes dapathologia apparecehumanovaenfermi
-
dade
—
nova,
dizemos, em razãodcseusprogressos
('—
caracterisadapelodesa-
pego da vida e tendcncia ádestruição;e sendo não menos certo ,que namor parte dos casos melhor averiguadosoinfluxo das paixõesconstitue esse terrível estadoanormal
,
he também cousasabida que na organisaçãomortaenãonaviva, estudaa seienciaomododeacçãodestascausas,
nãodcsacoroçoadaainda com os muitosdesmentidosqueásua preteriçãooppõc aexpericncia—
pretençãoque nadamenosimportaqueassentarna materia morta a sédc desta enfermidadeincontes
-
tavelmentevital
.
Nós,
porém ,que julgamosaquestãode diverso modo ,crfimos forçosodescer ãminuciosa narração dos factos,
decujo exame secolligequeosui-
cida sedá ámorte pelo muitoquearnaavida;dest'artedcsappareccrá a contra
-
dicção
,
edeprehender-
sc-
à,
quesóna força vital ,eporconseguintenoinstincto da vida existe asédc do suicídio , quesejulgaorganica.Nos mesmosescriptosdealgunsdesgraçados
,
victimas de mortevoluntária,achão
-
seexpendidoscomtodaaveracidadeos motivos desuacriminosa resolução : ajudiciosa estatísticamoral, recentemente apresentadaporMr. GuerryáAcademia Ileal dasSciencias de Paris,
mostraa toda a luzqueomaisdepuradoegoismo , ladeadode todas as paixões,
lieoprincipal movei do infelizcalculo, quedá lugar aoestado morbido de que tratamos.
Semduvidaoambicioso ,quesócura dehonras , que sóde gloria se alimenta, rasga com mão homicidao proprio peito,apenasvéseusidolös derrubados:fazei , porém,
despontar risonhaafugi-
tivaesperança,evel
-
o-
eisrestituído ao amor da vida. A quelleque hevictimadc amor porquesuas offcrendasnãosãoaceitas dadivindadeque adora.
ouporque máfortuna lhe põeestorsos,
morre phantasiandomelhor sida. Oavarentoque respira a atmospheradointeresse,
morre asphyxiadoselhe falta essemananciald e v i d a,mas ponde
-
oemseu elemento, evereis que nãohavidaquelhebaste.
Procuraobravo Aristodemoudesejada mortenosperigos c combates ,mas
sabemos que recusandobater-secmTbertnopylas , se haviacobertodeopprobrioaosolhos deseusconcidadãos,
eavidagloriosatinha para elleexpirado.
Regulo\aebuscar (*) NoespaçodeGO annos o suicídio produioemInglaterra tantosestragoscomoapneumonia
.
3
emCarthago inevitável morte
, porque
tomea
deshonra entro os Romanos, o altivorepublicano nãosearranca as entranhas,
senãodepois de porliada lutaentro oorgulhoeoamor da vida.
VedeovirtuosoCodro,
comprandoácusta do pro-
priosanguea victoria doseuexercito
,
c reconhecereisnolle oacérrimosectário da métempsycose.
Socrates resigna-
sea morrer, porque entendo impossível vida honrada, onde aleise nãorespeita.
Ajuntem-
seu estesmuitosoutrosfactos «lo indivíduosquepormedo,
pusillanimidadeou remorsossepriväo da existência, o aindase veráqueacausa constantequeos levaasedestru í rem lie o nimioamor da vida: ede certo nãoa desama aquellc,
que,por fugirámorte,
seexpòc acila;o co-
varde, queexpiraporacabar seus infundados receios
,
nem operverso arrependido, paraquemnuncavem tardeomerecido castigodeseuscrimes.
Indiv íduos, porém , ha quesesuicidao pornão terforçaspara manter avida, eneste caso estãoaquellesque tendo esgotado na sensualidade
,
onogozoimmoderudo dosprazerestodososgermesda vitalidade,
sedão a morte,porque incapazesdesabo-
rearasimpressõesagradaveis
,
que constituemaverdadeira existência, outroslaços não veementresieomundoquehahitão.
Mas, si facilnosfoiprovarque,
quando aspaixõesimperao, quandonohomem lietudoforçaeacti\idade,oinstinctodacon-
servaçãoportalmodoseperverte
,
queomiserose mataporamor da vida,menosdif-
ticil liedeconceber
,
quese ellepriveda existência no momentoemque aausência das paixões lie annunciadapelaextineçãoquasicompletadasforçasvitaes—
quasicompleta
—
poissi algumascentelhas devidalhe restão,
convergem estasaoeoraçao para sentirsuadesgraçaechorarseus passadosprazeres;e então, comosempre,esse instincto beoultimoqueo abandona.
Dosfactos,queacabamos de analysar
,
tambémsedeprehendeque na força vital, e portantonoinstincto, que delia resulta,sedeve reconhecer aséde do estado morbido, quedá lugar aosuicídio.
Outros raciocínios, quecom estasde-
duções noslevarãoatal conclusão
,
reserval-
os-
emos paraoutrocapitulo.
4
CAPITULO
II.
CAUSASÜOSUICÍDIO
.
A vida humanacorreconstantemente1resperíodosinuidistinctose diversos, e no meio das impressões
,
ohomemalternadamente goza,
soffrc oudescansa
; ademasiadaduraçãodoíjuak]uerdestesestados occasionaenfermidades,
a exclusiva da morte.
Assensações agrada vois de misturacom permanência approxima-
seaspenosascgradualmente sueccdidas de descançoconstituem o bem estar; a per
-
sistência desta harmonia heanecessária eondicçao de saude;a desordem nasur-
«ossaodestasalternativas tempor consequênciaoestado pathologico
.
Istoposto, antesdcespecificarascausas,
quesãocapazesdeproduzira propensãoao suicidio, vejamoscomocmgeral todas cilas secomportao na economia.
Todo oorgaoe systematemsua missãoespecial, masasfuneçoes,encarregadas a cada humdelles, convvoso—
ém:noporem sendomesmo fim.;asporquefuneçoesha humoresultado da actividade,nexo
geralqueosligae nao—
osesystemadandoneresta-
em hum orgao isoladofaz-
semister huma forçageral , acuja influencia deva a suavital.aeçao cada humPor onde facildosheorgdo conceber que hum vicio orgãosem particularetodosemânico,geral—
ou a lestal lie aãothrauforça-
malica dehumorgao qualquer, alterando
-
o demodo que nao possa ser direc-
tamente influ ído pela força vital, póde estaser ahi coartada
,
ereagir sobre as forçasgeracs demodo que desta novamaneira deser resulte apropensão aosui-
cidio: vice
-
versa, si a força vital fòr em demasia para todooorganismo,ou qualquer orgao, póde igualmenlc modilical-
o, econtribuir para omesmo fim.
Assimcomprehcndc
-
sc comoa dor morale aspaixõessão as causasmaiscons-
tantesdosuicidio ; porque emboraqualquerorgao seja primitivamente lesado lie sempre necessário que a força vital seresinta dalesão
,
paraqueda aeçaodas causasresulte oestado morbidoque nosoccupa;entretantoqueaspaixõesobrao dircctamcnte sobreella.
Agoraque havemosindicadocomo cadahuma das>as,e sobre tudo aspaixões affectãoa economia a ponto de levarohomem a tentar contra sua propria existência, concebe
-
sc que estascausas
podem variar tantocomo asmesmaslesõesdoorganismo.
Eniextremo variãoascausasquepodemlevar ohomemasuicidnr-sc ;inhé
-
rentes oualhônsdesuaconstituição,cilaspredispõem
outicularidade deindirectas: algumasinspirar
,
poroédesejom , hade,
que cm todos ospôr termoà existtempos
ênciae lugarestema par-
sua aeçao geral explicãogrande numero de suicídios aconsidoral
-
asnestaordem.
cati
-
on occasionao; sao directas coutras
,
que poroni certos paizes: passemos
5
Causas predisponcntcs
. —
linl.ro estas cont;io-
sea educôçao, a influenciahereditaria, temperamentos
,
idades,sevos,climaseestações.
Educação
. —
Aeducaçãodos meninos maldirigida póde prcdispol-
os paraasmo-
léstias monlacs:dousextremos igualmenteperigosos devem
-
seevitar,—
estultacondes-
cendência
—
eseveridadesemlimites.
Avictimade nimiaseveridadecontrahe quasisempre
hum humorfriocconcentrado,predispoe-
separaamelancolia,
cainfluencia destacausahedecerto maisfunesta,si acertacomindivíduospor naturezasom-
briosetimoratos
.
Asreprehensõcs amargas,oscastigosdeshumanos, eameaças continuas,exasperãoocaractcr, produzeminclinações perversas,e levaonãopoucas vezes ainfeliz mocidadeáalienaçãomental,caracterisada pela tendênciaaosuicídio.
Humsyslemaoppostodeeducação póde ter os mesmosresultados
.
A experieneia quotidiana mostraquohumaeducação efleminadatornaosmeninosimpertinen-
tes
,
irascíveis,
e imperiosos cmseusdesejos:costumadosdesde ainfanciaa ser prevenidoscm todasassuasvontades, esatisfeitos em seus caprichos,quandoadul-
tos, a menorcontrariedade
,
o maisinsignificante infortúnio ostorna suicidas. Mais digna de compaixão heaindaasorte das miseras mulheres,eaquinão po-
demos deixarde lastimar nossasjovenspatrícias,cujos paisemaridos, descuidan
-
do
-
se deenriquecer-
lhes a intelligencia, procurão-
lhesmusicas,
bailes, theatros, danças, como passa-
temposos maispropriosdeexcitar-
lhes avivacidade,
e pro-
digalisando nestas futilidades tempoefortuna, deixaoáseducçãoocuidadode formar-lhes o coração. Nemsediga que somosexageradoquando asseveramos que detal eduCaCãOdp.vo rusuUarnloi»do outrooincoincnintlfACa propensSO30
suicídio
.
Mr.
Roubaut,
cmsuasdissertações sobrea melancolia,afiança ter co-
nhecidohuma mulher,que sentira
,
em trèsépocasdideren tes, violentascommoções dosystcmanervoso,
seguidas de lendencia ao suicídio, occasionadas porduasou trèsarias da OperaNina.
Influenciahereditaria
. —
Em poucasmoléstiasainfluencia hereditariasefazsen-
tircom tantaevidencia, como no suicídio:os numerososfactoscitadospelosautores
,
que temescripto sobre esta matéria,nãodeixãoduvidaaesterespeito.
Mr.
Falrctdizhaver tratadonohospitaldaSalpitriôrcdehuma mulher que repetidasvezestentara afo-
gar
-
se,
cujairmã havia morrido deste modo: omesmoautorasseverater sido tes- temunhade muitos outros factos,
edelletambémcolhemos que hum indivíduo, ávistadocadaverdoseu irmão suicidado,exclamara « cruelfatalidade!meu pae etiose matarão,
esteinfelizacabade imitai-
os, eeutambém quantas vezes tenho resistidoàvontadedeafogar-
me noSena! » Mr.Esquirolcitamuitos casosdesta natureza;e MM.
GalleSpurzcin apoiãocom grande numerodeoutros amesma proposição. Rusch,
emseu tratadoof Insanity,
refere que douscapitãesgômeosse matarão em diversoslugaresquasi
ao mesmo tempo:sua
mãeera alienada,cduas2
fi
irmãas tiuhäopor vezos tentadosuicidar
-
so.
Voltaire falia do hum pac edou*
filhos,quosederão a morto namesmaidade.
Que deconjecturas naosuggcrcm estes factos ? como os engenhosabalisados,
que tanto tem aperfeiçoado a sciencia dc Hippocrates,naolhes tem dado amerecidaimportância ?comodéliessenaotem aproveitado paraesclarecerodiagnosticodasmoléstias'?Temperamentos
. — Osfactos,eaopiniãogeralconvômemdesignarostempera-
mentossanguíneo ebilio
-
nervoso,
como os mais favoraveisaoapparecimentoda melan-
coliasuicida: eaccrcscendoquesaoestesosquemaisse preslãoaodesenvolvimentodas grandes paixões, observa
-
se tambem queosindivíduos,
queospossuem,
muifacilmente seirrilão,
ea menor contrariedadeosabate;dmdcprocede que muitas vezes nestes movimentosdeimpaciência,
se dãoa morte; c isto, quanto a nós,
sobra para explicara terr ível influencia destacausa.
Idadee sexos
. —
Atendência aosuicidio varia consideravelmente,
segundoas ida-
des,oque facilmentesepresente
,
attendendoásmudançasporquepassaoorganismo; assím que,
hemui rara na infancia,ondequasinuncaha excessodeforças,
easpaixões selimilao a satisfazerasnecessidades reaes: nota-
se naopoucasvezes naadolescên-
cia,eentão ovago daspaixõesnol-aexplica:liemui frequentenaidadeviril , e que outraquadradavida offereceria condições mais proprias para occasional
-
a'!nestaópocanascemoscuidados, abre
-
seocampo atodasas paixões,as necessi-
dadesfactícias succedemásreaes,e ohomem precisa para bem existir de tantos elementosde felieidado,t j u a u l a aoSoa soliilticrao
.
<luo-
•»vivacidadedesuaima-
ginoção faz consistir o bemestar!! osobstáculos, queconstantcmenteseoppoeinà satisfaçãodeseusdesejos, occasionãoadòr moral,a qualdá razão dogrande
de suicidios nesta idade
.
Na velhice poucas vezesaspaixões estãoem des-
liarmoniacom as forças,eosvelhos, naoobstante algunssuicidarem
-
se, são no occaso da vidatãoavarosdeexistênciacomo de dinheiro.
o m
n u
-
mero
Os sexostambemcon
-
sidcrao
-
sccomocausas predisponenlcs,
eas mulheres, ainda que mais sujeitasá melancolia,
comtudo menosvezesrecorremao suicídio : a proporçãoentreellas eos homens he de 1 para3, segundo os melhoresobservadores.
Clitmsc estações
. —Sobre-
maneiraseexaggera,
anosso ver, ainfiuencia
doscli
nos casosdcmortevoluntária;essa opiniãoparece apoiar
-
senos cscriptosdealguns autores respeitáveis,
queasustentão,
reputando osclimascausa
daproporção dos suicidioscmcertospaizes: he seinduvida paraadmirar,
que nasmudanças,
que diversascausasaccidcntacstemoperadonesses paizes,
nao tenhaoellesfirmado as bases de seus raciocínios:cmverdade sisempre quesesuppóccausas permanen-
tes,sedevemdarcffeitosconstantes
,
em nósnaocabe,
a naoacreditarmos
quo tenhaomudado osclimasdaItalia, daInglaterra,
daFrança,
imas
e outros paizes
,
ex-
7
plioar porque,sendohojefrequentoosuicidionaInglaterra,elleeradesconhecido neste mesmo paiz naépoca daconquistade Julio Osar
—
porqueosItalianos do século actualnão se vãosuicidando,como o lizerãogrande;numerode seus maiores, depois da batalha de Pharsalia—
porqueo suicidio,lia poucos annos,setem tor-
nado tão commum na França
.
Massi nesteponto divergimos dosautores, não deixamos«leconvir queoclima, tendo muita influencia sobreostemperamentos,
econstituições,deve influirde algummodo na producção dosuicidio
.
Peloquerespeita asestações,concordãotodos queoestioe ooutonosao asque mais o favorecem,e lirmaoestaopiniãocm muitosfactos
.
Causasoccasionacsdircclas
. —
Havendo deixado antever emalgumas de nossas considerações,quemui raroascausasphysicas sao«Id persisõscapazesdealterara economiademodo, que o homem tente contraosseuspropriosdias,cumpremostrar quaes são asque podem daresseresultado,ecomocilas o produzem.
(Juantoápri-
meira parte donossoempenho
,
fácilnosliesatisfazcl-a;os factos vememnossoabono, eosmelhores observadoresdeunanime accordo a pontãoaspaixões,
comoascausasoc-
casianaesde quasi todasas moléstias mcntacs;osegundo pon'in,nãopertenceaos fac
-
tos, nemestánaalçada daanatomia pathologica;entretantotodo aqucllequetratade causas dircctas de huma enfermidade poe
-
sena rcslrictaobrigação demarcaro lugar da economia,emquesefazem sentiros«'lícitosmorbidos.
Mas,
hemque aindao nãotenhamos feito,
supponhamos por emquanto provado que na entidadematerial queseharmonisa comoorganismo para daremresultado a vida,
r«‘si«!eesteestado morhido cnnveiihamootomboiii,v|ucijuornlwnu» uigaosMjbllicttldos<1aUlOpsiã s»;não achãolesões, que expliquema causa da morte, mais arbitráriohedizer-
se queciladeve residir natextura «letalorgao,que por delicada se tornainacccssivelAnossos sentidos
,
do que fazel-
aassentarem algum«loselementos davida, que pelosseus efieitosnaodeixam duvidarde sua existência.
Istoposto,
estudemoso mododeacção «laspaixões ever-
sc-
ha, quea nossatheoria lie a unica,
quese ajustacom osfactos, eque todoaqucllequeas considera como causasdirectas de humamoléstia qualquer,
tacitamente reconhece na degeneraçãodo principio vital a origem da mesmamoléstia.O calorico
,
a eletricidade,
e omagnetismo saoelementosindispensáveis davida : estesagentes,espalhados proporcionalmentepelosorgãosesystemas,nol-aexplicão.
Oscorposexternossão osestímulos«laacção vital
,
e asimpressões déliessobreos nossossentidos aentretem:todasasvezes quehumcorpoqualquerexerceimpressão sobrehumapartedonosso,esta noshe transmittida,
eelleestimula commaior ou menorforçaosagentesda acçaovital, existente neste ponto; «lest«*estimuloresulta maiorou menor actividade nas funeçoes—
actividadc,
se manifesta na economia
,
edest artesepoeem jogo todasas forçasvila«s. impressãohe proporcionalàsforçascáconstituiçãoorganica,
resulta ohem«'star.
que na mesma proporção Si a
8
esentimento de satisfaçãoparatodaaeconomia:nestas condiçõessihumobstáculo qualquervem oppôr
-
seá continuaçãodeste jogo, desorte queas novasimpressões naoeste;aocmrelação com as forças,resulta o malestar ehum accrcsciino deacçao local,que,
estreitamente subordinadaás arçõesgeraes,
concorre paraomesmofim, eesseaccresciinode forças,
c esseexcessodeacçao, lie,emnossosentir,
mais que sufficient para,
emcertascircunstancias,
eem determinadoscasos, occasionar a tendência ádestruição pessoal.
Nãoespecificaremoscada huma daspaixõesque deste modo pódc obrar: todo omundo tem mais ou menos experimentadoseus effeitos;e além dissoaspoucas paginas consagradasa huma Theseeaescassez
dotempo naopermittemlongosdesenvolvimentos.
Oamor infeliz, o ciume,
a ambiçãoilludida,
coorgulhohumilhado,
vememprimeiracscalla; a vergonha, omedo,
eosremorsos nãosãotãofunestoscmsuasconsequências.
Oamor,
o ciume,
&c.
,exprimemdiversas condições daeconomia,
e o malestar,
consequência delias,
pódealgumas vezes darlugar aosuicídio,quando obstáculosinvencíveis vedao quecilassecolloquem emmelhores circumstancias.
Nao deixaremos porßm de tocar em certo estado da economia, cm que ha tendênciaaosuicídio
,
sem que asimpressõesexternasvenbuochocar nossocorpo; heesteestado,
queosautoresdenominao—
ovagodas paixões :—
ocurloespaço,cmque lie força limitaronossotrabalho
,
nao nosconsentereferir porextensoo episodiodeRenato, cxtraliido dos antigos Natchezpeloautor doGenio doChris-
tianisme;nuisdiremosquantohaste paraprovarque esteseoutros factos idên
-
ticos apoiao a nossa These.
Itcnalu havia
,
ainda uicniiiu,
|iiididua mSc,
ouló1GnnnusfoiCTCado por pessoas mercenárias ;tinhaohumor impetuoso,
ocaracterdesigual,timido trangido diante de seupac,
nãoachavaprazersenão junto de Amelia,
suairmãa maisvelha humanno,fóra destecaso,
julgava-
se infeliz, semsaber dondelhevinha ainfelicidade.
Foi-
lhe necessário deixar a casapaterna,
e não se achando bem nadehum parente para onde fora, procurou viajarpara distrahirosimpulsosao suicídio, que lhe liaviãoapparccido com huma tristeza habitual; nadalhe valeo este meio,
c voltou a tercom a irmãa,
emccons
-
cuja companhia só achava a vida agradavcl
.
Tendoporvezesosinteressesdefamiliaseparado humdooutro,
coincidia esta sopa raçãocomnovos impulsosaosuicídio.
Amelia, que por distrahir seu irmão dehum dos accessos,
tinha tornadoasuacompanhia,
deixa-
orcpcntinamcntc pura entrarem humconvento.
Kstc inesperadosuccessoresolvoRenatoa pôr termovezdespedir
-
se da irmãa:entaoconheceáexistência,e vae pela ultima queo
motivo
,
queadecidiraaretirar-
sc tãoprecipitadainente, eraumapaixãocriminosaporellemesmo
,
acompanha-
aem seussentimentos de amor; masconhece osobstáculos,
que se lheoppoem:entretantoatendência aosuicídiodesapparece,
apenassevô realmente infelizcoliasuicida. —Neste,
emcaso aquantoenergianao houve
vital,
carecendo dehummalmuiimpressreal,
em que seõesfortes,
ciladeu lugarempregasse
á melan. -
9
Causasoccasionalindirectas
. —Pcrsuadimo-
nosqueáfrequênciaeenergiad**-
i;u
causassetomdado demasiado valor
,
oainda assim liequasi nenhumaasuapropmç.
i»comparada comascausas occasionacsdireitas
.
Bebidasalcoólicas
. — Grande influencia altribuio-
scaoalmso das bebidasalcoó-
licas,efactosmalobservadossustentarãoalgum tempo esta opinião ;masconhcn
-
u-
sc aodepois quenestescasospodia-
seconstantementeremontarahuma allecçaomoral, verdadeira causa do suicídio.
Syphilisemercúrio
. —
Cremosigualmenteexagerada ainfluenciadasyphilisedo mercúrio,
poisaindaquemuito influaosobreosystcma nervoso, julgamos com tudo que oapparecimentofrequente dosuicidioem mulheres mundanas não he força bastante paradal-
oscomocausapoderosa ;porqueoutras maisplausíveis nosdepara o\iver destasdesgraçadas.
A mór partenão se entrega alibertinagem, senão depois dehaversoíTridodesgostoseprivaçõesnoseio de suasfamí lias, e liequasi sempre a miséria eanecessidadeabsolutaquemas lan çaemvidatãovil:huma vezentradas nestacarreira percorrem todosos grãosdo vicio,eestragaoophysicoeomoral comtoda a sorte deexcessos :velhiceprematuraasacommette ;a vaidade, já não lisongeada porhomenagens,lhes nãoprestamotivosde consolação;copprimidas finalmente pelos remorsos e arrependimentotornão-
sesuicidas.
Taopoderosasjul-
gamos estas causas
,
que noshe grande admiração que vida tão desregrada não tenhaconstantementeomesmofim.
Opio
. —
Oexcessivousodo opio,
dizThunberg, tornaalgumasvezesosÍndios tão furiosos que se batemeprocurãomatar-
se rcciprocamcnte;Mr.
Olivier observou que estenarcoticoembrutece,produznosindividuos,
que abusão delle,um cmma-
grecimentoextremo
,
eexhaure porfim todasas fontesda vida.
Nãodcsconvimos queo abuso doopio,
excitandofortementeosystcma nervoso,
pódeatacaro prin-
cipio da vida,edarlugar aosuicidio;mascremosquealgumasoutras causasmoraes
.
aque nãoderão attençãoos viajantes
,
melhor nosdevem explicar esse funesto resultado.
Ih)r phijsica
. —
Soffrcmosdeordinário mais facilmente a dòrphysica queadòrmo-
ral,cscuseffeitossaomenos promptos
,
porqueobra indirectamenle sobreoprincipio da vida.
Nao obstante, casos hade individuos,
quesemataonoexcesso delia.
Servio,ogrammatico
, envenenou -
sepornaopodersupportai-
asdòrcs da gotta.
Rufiodeixou
-
se morrer de fornopelo mesmomotivo naidadedo 67annos .
Itálico suieidou
-
sc do mesmo modo,em Zenon tentousuicidar-
senaCornellio Silvio consequência dehum abcesso incurável, força dadôr
,
quelhofaziasentir humdedoesmagado;0Sonecadizquo hum catarrhochronico
,
que padecia desde ainlancia, o teria 310
decididoamatar
-
se,
sioamor
lilialonaoprendesse á vidapara amparar'«MIJ»ac,O pliilosoplio Speusippussoliria dehuma cujavelhice carecia dosenssoccorros
.
hydropesia antiga,osahindoliiiina vez apassear
,
acertou de encontraraDiogenes, aquem saudou.
.1 linão saudo eu,
respondeuocynico,
ali,
jucainda te deixas viver emIãomiserável estado.
Kalgunsdiasdepoistinha-
seo philosoplio!-
ui<i-
dado! Masexplicar- nos
-
áa dòrphvsicaesta morte? Helambemde observação queos leprosos, oos allectados de escorbuto sãosujeitosá melancoliasuicida;e citão-
scalém destesmuitos casos de indivíduosque noexcesso dedòresaguda*«,comoasdocancro
,
cephalgia,
&c. ,
conspiráocontra a propria existência.
CAI SAS GKKAES
.
Os governos, fanatismoeseitassãoascausasgeraes, que mais influem para produzirosuicídio
.
Osgovernos
. —Naopodemosalcançar atéque ponto podemterinfluenciaossyste-
mas governativos;masahistorianosnão permitte concordarcom osautores
,
cjuejul-
gão osgovernosnãorepresentativosmenosfavoráveisaoapparecimcnto desta mo
-
léstia
.
Firmão ellessuaopiniãoemque,
sendoaspaixõesas causasmaisfrequentes do suic ídioeachandonesteregimeobstáculos ao seudesenvolvimento, dao menos vezes occasiáoa queelleappareça.
Mas,por ventura nãofoi, quando este sys-
temacomeçou cm Itoma, que
,
melancolia suicidase desenvolveu de hum modo espantoso ? OsJaponezes,
governadospelo mais forreodespotismo, não sao o povo,
quemenospresa a vida? Os Africanos entrenós,
sujeitosao mais duro captivciro,naomalao-se muito mais queoshomens livres,
cujo numeronaoigua-
lao? Que numerodesuicídios nos OfierccemosCantões daSuissa
,
cujogoverno he republicano ? E si na Russia he osuicidio quasi desconhecido,
de\el-
o-
ãá formade seu governo? Crémos pois mui pequenaainfluencia dos systèmesgo-
vernativos; mas nãoassimadasua estabilidade: porqueaspassagens de hum para outro rogime causãograndes mudançasnohomem, abalaoedestroem suas fortunas e oppOcm
-
sca seus interesses,
c convicções, lieesta nossa opiniãoconfirmada pela historia gregae romana;csi naRussia nunca houve tantos suicídios,
recessemchamar
-
seepidemicos,
lieporqueoseu governo tem sido estável.
que me-
Fanatismo cseitas.
—
liesemduvida doloroso queohomem abusandodaphiloso-
pha, eda Religião,tornoosuicidiohum dogma
,
e sematepor princípios:ecomtudo he istooque fazemosSloicos,
cujonomedespertarecordaçõestuohonrosaspara ahu-
manidade;he istooque fazemosBrachmanes
,
oosgymnosophistas! Sao maximasdos primeiros quefelicidadenãoconsiste emo sábiovivaviverquanto deve, masem viver
e naobemquanto—
quedovemosconstantementepossaviver—
que averdadeirame-
t l
ditarna mortepara nuncatemel
-
a.
lioigualmcnte a insensibilidadeea indilhr«m.
..
humadas suasiuaximas; eMarcoAuréliochegaadizer que naodeu
-
moschorarcomosquo se adligem, porquenão nosaconteça ficarmostambémalllictos! Os fira
-
douanes, quea outros respeitos muitoseafaslãodos Stoicos
,
fazem da meditação continuadamorteo ponto principalde suadoutrina.
Ellesconsideruoa dôr como humopprobrio,
quesóacombustão podoexpiar,e amortenaturallie paraelles a maior infamia.
Assim,
quando velhosoudoentes, precipitao-
sc em fogueirasparaevitara ignominia
,
eobterpormeiode morte tãosantaa felicidadeeterna. Os Indiosmodernos julgão queemcertascidadessanctas podemtentarcontra apropria existência.
Emíim,
os Sianczes cuidãoque beosuicídio sacrifícioutil á alma, e levadosdesteparecer, cnforcao-
se em huma arvore,quechamãotou-
po.
Quefunestosresultados nãodevemter princípiosdestanatureza! Ficarohomemarbitro de lixarotermoásuaexistência,edesligar
-
sedasociedade,quando lheapprouver!Ofanatismohehumadascausasmaispoderosasdosuicídio,cosseus efieitos nao se limitãoavictimasisoladas,fazem
-
sesentirempovosinteiros.
QuandoIMataoensinou odogma daimmortalidade daalma,muitosGregos,
descontentes dafortuna, derão-
se amorte,esemduvidanós os Christãosos imitaríamoshoje,si a essedogmanossa Religião não juntasseopreceitodecoragem eresignação para sermos dignos dasumma
felicidade.
Estedogmadaimmortalidadedaalmatambéminspirouodesprezo da morte entre os Traças,
Getas,
Gaullezes,Arabes,
emuitosoutrospóvos,
doutrinadospelosDruidascMafoina
.
Omesmo Christianismo, queaconselha constantemente paciência e submissãoásvontades deDeos,
nemsemprepodesuspendera mãosuicida dofanalico,
que dellc abusa,
dando-
lhe falsas interpretações.
Assimhumvelho,nao tendo filhos,
suicidou-
se;porqueaEscriptura dizque—
todaaarvore,que nao dáfructos
,
devesercortadaepostaao fogo: MalleusLovât, dominadoporidéasmysticas, cortouaspartesgcnitaes,calgumtempodepois,persuadido que Deoslhe déra ordem demorrer em huma cruz,
crucificou-
se.
Mas naolieaoChristianismo quedevemos imputarestes eoutrosfactos desuicídio ;ellestempor causa a mais furiosadas paixões,
o fanatismo.
12 CAPITULO HI
.
SÉ DF
.
DO SUICÍDIO.
Entreosautores
,
que procurão estabelecer asede dosuicídio,
algunsseliraifão a indical-
a noencephaloou baixoventresem produzir argumentosque
o provem: outrosa désignât)de maneira especialcmcertosorgãos ou no systema nervoso.
Awenbrugger
,
professor de Vienna,
a fixa nos hypocondrios,
e propõe hum tratamentoparticular.
Nocst d'Amsterdam,
eI.
e-
Roy d’Anversparlilbaoamesmaopinião :diz estequenotaraofigadoeobaçodosindiv íduosatlacadosde melancolia suicidaconstantementemaisgrossos, duros
,
ecom calor maispronunciado,
queno estadonormal; e dissoconclueasédc do suicídionestes orgãos.
Foderémencionaa opiniãode Awenbrugger, edizquetiveraoccasião do observar cálculosbiliaresnu visicula do fel; igualobservaçãofora,
annos antes feita porFourcroy. Mr.
Esquirol faza seguinte reflexão« Apassagem do estiosecco paraooutonohúmidofavorece o desenvolvimentodasaffecçõesabdominaes,
deque nãopoucasvezes dependeo suieidio.
» Outrosmedicos descemáautopsia,
e, segundoaslesóes maisfrequentes,
collocäo
-
n’a ja noencephalo,janosorgãos dacaixa thoracica ou baixo ventre.
Não obstante, a origem da melancolia suicida ainda naolie reconhecida pelasciencia,
o estudo,que deliaseha feitoounãotem escapado ao espirito desystema,
oupáraem seusprogressos, aguardandoluzesda anatomia pathologica.
Alem destespracticos,
cujas opiniõesmencionamos,osoutrosapenasa toeäodeleve,
e nãoencontrando sempre,
nos eadaveres, lesõesquelh aindiquem,
julgão fóra desua alçada; nós po- rem, que tomamos a-
édedo suieidio parafazer parte de nossa dissertação,
não nos dispensaremosdeapresentaralgumas considerações sobreella.
Nopredom í nio dasensibilidade, na qualidade das sensações
,
naacção cios princí-
piosvitnes
,
e nãonosinstrumentosdas funeções nutritivasreconhecemosaorigem dosuieidio.
Para demonstraresta proposiçãonãohiremosaocadaver; a abertura doscorpos,
emmuitas eircumstanciasindispensávelpara conhecermos anaturezadas moléstias,he quasi inútilnestecaso; basta-
nos para este fim a apreciaçãodossym-
ptomas
,
porquetodoosymptomaexprimedesarranjonas funcçòes,
esópôde ser produzidopeloagente delias.
Doussão os quesemanifestãoem todoosuieidio; a tristeza,
oabatimento,oterror,eainclinaçãodiccdidapelasolidão lie humd'elles; a excitação energica do physico emoralooutro.
Oprimeirosópódeserproduzido pelaoppressão ou diminuiçãodasforçasvilães;osegundo tempor causa indubi-
táveloaugmento ou perversãod elias; dapersistência das forçasnesteestado mal resulta necessariamentecondiçocs
diflerentes
paraoorganismo;por isso naoanor
-
13
admira que quandoestenãoseja immcdiatanicnte seguido do suicídio,alteraçõesM
notem emmuitosorgãos;c istomesmo hecm favorde
nossa
opinião,
pois osin-
divíduos
,
quesedaoa mortenaforçade paixões vehementes,
nãodeixão traçosde lesão,ondevão assentaraséde do suicídio aquellesqueaindigitãonosorgaosou systema nervoso; entãodizemque na textura,
na porção maisdelicadad’elles,o porissoinaccessivcl aossentidosdeveella residir:reside por certoemcousamui delicada,
quenão liedircctamentesentida,
edecujaexistência a razão nãopode duvidar noselementosda vida.
Tendo apreciado ossymptomas dosuicídio
,
nósjulgamos provadaasuaorigem nos elementos vitacs; muitos outrosargumentos
com que chegaríamosaessefim suggercm-
nosassuas causas, mas sendoociosoenumeral-
as,
poremosfim a nossa these com mais huma reflexãosobre ainfluenciahereditaria do suicídio.
« A maneira mais facil deabreviara vida,
dizHufeland,
consiste em esgotara força vital ; nada hetaoproprioparadiminuirasommadesta como adissipaçãodo fluidoquea contem debaixoda forma mais concentrada,
que encerraaprimeiracentelha devidapara huma novacreaturalevaemsi a origemde bense malesimmensos.
» Enaverdade, si aforça vital transuiitte aos filhosasaflecçõesde seos paes, csi os filhos, quo herdarao a tendência ao suicídio, nãopadecemaslesões, que seus paes soflrerao,euiquo outrapartesenão nessaforçapoderemos entreveraorigemdo suicídio ? Terminandoaquionosso trabalho,exigeodeverque nos confessemos reco
-
nhecidos a todos osnossosmestrespelas luzes
,
que d'ellesrecebemos ; emuitoes-
pecialinenle aomeritissimo presidente da nossa these, pela muita afleiçao eami
-
zade,quesemprenosmostrou.
IIIPPOCIWTIS APIIOIUSMI
i.
Quo in morbosomnuslaboremfacit, lelhalc : si vcròsomnusjuvet
,
non est lé-
thale
.
(Sect.
2.
*,
aph.
l.°)I I.
Ubi somnus delirium sedat
,
bonum.
(Sect.
2.*aph.
2.
°^
III.
Mutationes annitemporum maximè pariant morbos:et inipsistemporibusmutn
-
tionesmagn æ turn frigoris turn caloris .etcælera pro rationc eodem modo
.
Sect.
3
.
*aph. l.
°)IV.
Insanicntibus si varices
,
authamiorrhoides supervenerint, insaniæ solutiofit. (Sect. 6.*aph.21 )V.
Si metus
,
eltristitiamultotemporepersévérant,
melancholicumhocipsum.
(Sect.
6
.
*aph.
23)VI
.
Ab insaniadysenteriaaut
.
hydropsaut mentisemotio bonum.
(Sect. 7.
aph.
5.°)IMPRENSA1MPAKC1ALDE ItltllO
.
Esta Theseestáconforme
aos
estatutos.
RiodeJaneiro 14de Outubro de1843.
ODr