EFEITOS DA VINCAMINA EM PACIENTES COM TRAUMATISMO
CRÂNIO-ENCEFÁLICO.
E S T U D O C L Í N I C O E L A B O R A T O R I A L D E 50 C A S O S
WALTER C . PEREIRA*; PEDRO H . LONGO***; JOSÉ P . S. NÓBREGA****;
JULIO KIEFFER**; LUIZ A . MANREZA****; HORÁCIO M . C A N E L A S * * * * *
D r o g a s ditas aceleradoras do metabolismo cerebral têm sido largamente empregadas no tratamento de pacientes na fase de recuperação ou seqüelas de traumatismos crânio-encefálicos. N o entanto, raramente, depois de pas-sado o entusiasmo inicial, permanecem no arsenal terapêutico de rotina. Isto se deve ao fato de ser difícil a avaliação de seus efeitos sobre a evolução clínica, dada a grande variedade de lesões encontradas nesses doentes. É bem conhecido que, freqüentemente, ocorrem melhoras espontâneas, às vezes repentinas, que podem ser erroneamente atribuídas à ação de tais drogas. P o r esse motivo torna-se necessário período de observação longo, e m número suficientemente grande de pacientes, e a comparação com grupos de controle. Neste trabalho apresentamos os resultados obtidos com a administração de vincamina a pacientes com traumatismos crânio-encefálicos, depois de ultrapassada a fase aguda do quadro. Esta pesquisa foi desenvolvida durante o período de um a n o ( março de 1971 a fevereiro de 1972) no Setor de N e u r o -cirurgia do Pronto Socorro do Hospital das Clinicas de S ã o Paulo.
T r a b a l h o d a C l í n i c a N e u r o l ó g i c a d o D e p a r t a m e n t o d e N e u r o p s i q u i a t r i a e d o S e r v i ç o d e R a d i o i s ó t o p o s d o D e p a r t a m e n t o d e C l í n i c a ( I D i v i s ã o ) d a F a c u l d a d e d e M e d i c i n a da U n i v e r s i d a d e d e S ã o P a u l o , a p r e s e n t a d o n a m e s a r e d o n d a s o b r e " I n s u -f i c i ê n c i a v a s c u l a r c e r e b r a l " o r g a n i z a d a p e l a S o c i e d a d e d e N e u r o l o g i a , P s i q u i a t r i a e N e u r o c i r u r g i a d o R i o G r a n d e d o Sul ( P o r t o A l e g r e , j u n h o d e 1 9 7 2 ) . * A s s i s t e n t e da C l i n i c a N e u r o l ó g i c a e S u p e r v i s o r d o S e t o r d e N e u r o c i r u r g i a d o P r o n t o S o c o r r o d o H o s p i t a l d a s C l í n i c a s ; ** C h e f e d o Serviço d e R a d i o i s ó t o p o s ; *** C h e f e d o S e t o r de N e u r o r r a d i o l o g i a ; **** M é d i c o A s s i s t e n t e da C l í n i c a N e u r o l ó g i c a ; ***** P r o f e s s o r T i t u l a r d e C l í n i c a N e u r o l ó g i c a .
C A S U Í S T I C A E M É T O D O
A v i n c a m i n a * foi a d m i n i s t r a d a a 50 p a c i e n t e s na fase de r e c u p e r a ç ã o ou se-q ü e l a s d e t r a u m a t i s m o s c r â n i o - e n c e f á l i e o s . A i d a d e dos m e s m o s v a r i o u d e 18 a 50 anos, sendo 32 do s e x o m a s c u l i n o e 18 d o f e m i n i n o . N a t a b e l a l e s t á a s s i n a l a d o o d i a g n ó s t i c o p r i n c i p a l da a f e c ç ã o , u m a v e z q u e neste t i p o de p a t o l o g i a a a s s o c i a ç ã o de lesões o c o r r e c o m u m e n t e .
A t r e p a n o - p u n ç ã o e x p l o r a d o r a foi i n c l u í d a e n t r e os e x a m e s p a r a c l í n i c o s p o r q u e , e m 10 casos, h a v i a s u s p e i t a d e h e m a t o m a i n t r a c r a n i a n o , q u e s o m e n t e a e x p l o r a ç ã o c i r ú r g i c a p e r m i t i u a f a s t a r . E s t e s casos f o r a m u l t e r i o r m e n t e r o t u l a d o s de c o n t u s ã o e n c e f á l i c a .
O q u a d r o n e u r o l ó g i c o dos d o e n t e s , a v a l i a d o s e g u n d o c r i t é r i o s e m p r e g a d o s de r o t i n a e m nosso S e r v i ç o , e s t á r e s u m i d a m e n t e d e s c r i t o na t a b e l a 3, na q u a l d i v i d i m o s os p a c i e n t e s e m 6 g r u p o s d e a c o r d o c o m os a c h a d o s d o e x a m e n e u r o l ó g i c o . A g r a v i d a d e d o e s t a d o de c o m a é i n d i c a d a p e l o n ú m e r o de c r u z e s : p r o f u n d o ( + + + ) , m é -d i o ( + + ) e l e v e ( + ) .
C o m e x c e ç ã o dos p a c i e n t e s c o m c o n t u s ã o c e r e b r a l , a a d m i n i s t r a ç ã o de v i n c a m i n a f o i f e i t a s o m e n t e a p ó s o t r a t a m e n t o c i r ú r g i c o do h e m a t o m a ou da d i l a c e r a c ã o c e r e b r a l , q u e e r a d e v i d a a a f u n d a m e n t o s da c a l o t a c r a n i a n a ( 4 c a s o s ) ou à p e n e -t r a ç ã o de p r o j é -t e i s de a r m a de f o g o ( 2 c a s o s ) .
N a m a i o r i a dos p a c i e n t e s (39 c a s o s ) a v i n c a m i n a foi i n i c i a l m e n t e a d m i n i s t r a d a p o r v i a p a r e n t e r a l , i n t r a v e n o s a ou i n t r a m u s c u l a r , na dose de 15 m g 3 ou 4 v e z e s a o dia. D e p o i s de 10 a 15 d i a s d e t r a t a m e n t o , p a s s a v a - s e a u t i l i z a r a v i a o r a l na dose de 10 m g 4 v e z e s a o d i a . N o s casos e m q u e o q u a d r o n e u r o l ó g i c o e r a m a i s b e n i g n o ( 1 1 p a c i e n t e s ) e m p r e g o u s e s o m e n t e a v i a o r a l . O i n í c i o d a a d m i n i s -t r a ç ã o d a d r o g a v a r i o u do 7.° a o 10.° d i a s a p ó s o -t r a u m a -t i s m o , p r o l o n g a n d o - s e de 2 dias a 3 m e s e s ( n a m a i o r i a dos casos f o i a d m i n i s t r a d a d u r a n t e u m m ê s ) .
A a v a l i a ç ã o dos e f e i t o s baseou-se na e v o l u ç ã o d o q u a d r o n e u r o l ó g i c o e m t o d o s os p a c i e n t e s . A l é m disso, e m 8 f o r a m f e i t a s c a r ó t i d o - a n g i o g r a f i a s ( C A G ) , e m 6, g a m a e n c e f a l o m e t r i a ( G E M ) e, e m 5, r e o e n c e f a l o g r a f i a ( R E G ) a n t e s e d u r a n t e a a d m i n i s t r a ç ã o da d r o g a , c o m a f i n a l i d a d e de se e s t u d a r os e f e i t o s d o m e d i c a m e n t o s o b r e o f l u x o v a s c u l a r c e r e b r a l .
D u r a n t e o p e r í o d o e m q u e se fez a e x p e r i m e n t a ç ã o d a v i n c a m i n a f o r a m o b s e r -v a d o s a p r o x i m a d a m e n t e m a i s 150 p a c i e n t e s c o m t r a u m a t i s m o s c r â n i o - e n c e f á l i c o s , nos q u a i s n ã o se u t i l i z o u a d r o g a . N o r e s t a n t e o t r a t a m e n t o i n s t i t u í d o foi i d ê n -t i c o , sendo e m r a l a ç ã o a e s -t e g r u p o c o n -t r o l e a v a l i a d o s os r e s u l -t a d o s o b -t i d o s .
R E S U L T A D O S
D o p o n t o de v i s t a c l i n i c o os c r i t é r i o s p a r a a a v a l i a ç ã o dos e f e i t o s d a v i n c a m i n a f o r a m a m e l h o r a do e s t a d o de c o n s c i ê n c i a e dos d é f i c i t s n e u r o l ó g i c o s a p r e s e n t a d o s p e l o s p a c i e n t e s no i n í c i o do t r a t a m e n t o c o m a d r o g a . Os r e s u l t a d o s o b s e r v a d o s f o -r a m c l a s s i f i c a d o s e m ó t i m o s , bons, -r e g u l a -r e s e nulos. E v i d e n t e m e n t e a a v a l i a ç ã o dos r e s u l t a d o s a t e n d e u a o e s t a d o i n i c i a l e m q u e se e n c o n t r a v a m os p a c i e n t e s , v a r i a n d o - s e os c r i t é r i o s nos 6 g r u p o s e s t u d a d o s ( t a b e l a 3 ) .
A s s i m , l e v a n d o e m c o n s i d e r a ç ã o a g r a v i d a d e d o q u a d r o n e u r o l ó g i c o i n i c i a l , f o r a m o b s e r v a d o s os r e s u l t a d o s a s s i n a l a d o s na t a b e l a 4.
G e r a l m e n t e o e f e i t o m a i s e v i d e n t e e p r e c o c e d a v i n c a m i n a é o b s e r v a d o e m r e l a ç ã o a o e s t a d o d e c o n s c i ê n c i a . Os d é f i c i t s n e u r o l ó g i c o s c o s t u m a m m e l h o r a r m a i s t a r d i a -m e n t e e de f o r -m a -m e n o s a c e n t u a d a q u e o e s t a d o de c o n s c i ê n c i a .
N o q u e d i z r e s p e i t o à a ç ã o da v i n c a m i n a q u a n d o r e l a c i o n a d a a o t i p o de l e s ã o n ã o foi p o s s í v e l o b s e r v a r d i f e r e n ç a e v i d e n t e . P e l o s r e s u l t a d o s o b t i d o s , p a r e c e ser a g r a v i d a d e d o q u a d r o n e u r o l ó g i c o , i n d e p e n d e n t e m e n t e da lesão q u e o cause, o p r i n c i p a l f a t o r d a e v o l u ç ã o do caso.
O s r e s u l t a d o s n u l o s f o r a m o b s e r v a d o s e m 4 p a c i e n t e s d o g r u p o 1 e u m p a c i e n t e do g r u p o 2. E s t e s d o e n t e s t i v e r a m a l t a , e m m é d i a , u m m ê s a p ó s a i n t e r n a ç ã o s e m m o d i f i c a ç ã o d o q u a d r o n e u r o l ó g i c o , n ã o sendo o b s e r v a d o s u l t e r i o r m e n t e .
N o s d e m a i s 35 p a c i e n t e s os r e s u l t a d o s f o r a m c o n s i d e r a d o s ó t i m o s , bons e r e g u -l a r e s . C o m u m e n t e o t e m p o d e i n t e r n a ç ã o f o i d e u m m ê s , c o m e x c e ç ã o d e dois casos q u e f o r a m o b s e r v a d o s c e r c a d e 3 m e s e s . N e s t e s dois ú l t i m o s d o e n t e s os r e s u l t a d o s f o r a m c o n s i d e r a d o s bons, p e r t e n c e n d o u m d e l e s a o g r u p o l e o o u t r o a o g r u p o 2. A C A G f o i u t i l i z a d a e m 8 p a c i e n t e s p a r a e s t u d o d o e f e i t o d a v i n c a m i n a s o b r e a c i r c u l a ç ã o c e r e b r a l . E m 3 f o i r e a l i z a d a i m e d i a t a m e n t e a n t e s e i o m i n u t o s a p ó s i n j e ç ã o i n t r a c a r o t í d e a d e d u a s a m p ô l a s da d r o g a . E m u m destes casos o b s e r v o u - s e , l o g o a p ó s a i n j e ç ã o d a v i n c a m i n a , r e d u ç ã o d i s c r e t a d o c a l i b r e d a s a r t é r i a s i n t r a c r a n i a n a s , q u e j á se e n c o n t r a v a m e s p á s t i c a s n a p r i m e i r a C A G . É i n t e r e s s a n t e a s s i n a l a r que, n e s t e caso, o r e s u l t a d o c l í n i c o foi c o n s i d e r a d o ó t i m o , pois d o i s d i a s d e p o i s do i n í c i o da a d m i n i s t r a ç ã o d a d r o g a e r a n o t á v e l a m e l h o r a da c o n t a c t u a ç ã o da p a c i e n t e . N o s o u t r o s d o i s d o e n t e s n ã o se o b s e r v o u m o d i f i c a ç ã o a l g u m a d o c a l i b r e a r t e r i a l c o m a i n j e ç ã o i n t r a c a r o t í d e a d e v i n c a m i n a . E m 5 c a s o s a C A G f o i p r a t i c a d a a n t e s e d e p o i s d a a d m i n i s t r a ç ã o i n t r a v e n o s a d a d r o g a d u r a n t e p e r í o d o s d e 7 a 15 dias, n ã o se v e r i f i c a n d o t a m b é m m o d i f i c a ç õ e s do c a l i b r e a r t e r i a l , q u e j á e r a n o r m a l no p r i m e i r o e x a m e .
O R E G foi r e a l i z a d o e m 5 p a c i e n t e s , t a m b é m c o m a f i n a l i d a d e d e se e s t u d a r o e f e i t o da v i n c a m i n a s o b r e o f l u x o v a s c u l a r c e r e b r a l . E s t e e x a m e foi f e i t o a n t e s e a p ó s p e r í o d o s d e u m a a t r ê s s e m a n a s d e a p l i c a ç ã o p a r e n t e r a l da d r o g a . O s p a r â -m e t r o s u t i l i z a d o s f o r a -m o â n g u l o d e i n c l i n a ç ã o da fase a s c e n d e n t e , a a -m p l i t u d e e o t e m p o i n i c i a l da o n d a . O b s e r v a r a m - s e e m 4 casos m o d i f i c a ç õ e s p o s i t i v a s d e u m ou m a i s p a r â m e t r o s s u g e s t i v a s de m e l h o r a d a c i r c u l a ç ã o e n c e f á l i c a . N o e n t a n t o , p e l a s m o d i f i c a ç õ e s o b s e r v a d a s , a m e l h o r a do f l u x o v a s c u l a r p o d e ser a t r i b u í d a ã r e g r e s s ã o do e d e m a c e r e b r a l e n ã o à a ç ã o d i r e t a da v i n c a m i n a s o b r e o c a l i b r e a r t e r i a l .
A G E M foi p r a t i c a d a e m 6 p a c i e n t e s c o m a c o m e t i m e n t o e x c l u s i v o ou p r e d o m i n a n t e d e u m dos h e m i s f é r i o s c e r e b r a i s , a f i m de se p o d e r c o m p a r a r a a t i v i d a d e r e l a t i v a -dos dois l a d o s . A s d e t e r m i n a ç õ e s f o r a m f e i t a s 20 a 30 m i n u t o s d e p o i s d a i n j e ç ã o i n t r a v e n o s a d e a l b ú m i n a r a d i o a t i v a ( I1 3 1
E m t o d o s os casos os d a d o s o b t i d o s m o s t r a r a m s e s e m e l h a n t e s , p o d e n d o ser r e s u -m i d a -m e n t e d e s c r i t o s da s e g u i n t e -m a n e i r a : a a t i v i d a d e e r a s i g n i f i c a t i v a -m e n t e -m e n o r no h e m i s f é r i o c o m p r o m e t i d o d u r a n t e o p r i m e i r o e x a m e ; u m a s e m a n a d e p o i s a d e t e r -m i n a ç ã o d a a t i v i d a d e r e s i d u a l -m o s t r a v a q u e o h e -m i s f é r i o c o -m p r o -m e t i d o a p r e s e n t a v a a t i v i d a d e s i g n i f i c a t i v a m e n t e m a i o r q u e o s ã o ; n o v a d o s e de a l b ú m i n a r a d i o a t i v a nessa o c a s i ã o m o s t r a v a a i n d a a t i v i d a d e m e n o r no h e m i s f é r i o c o m p r o m e t i d o ( s e m e -l h a n t e ã o b s e r v a d a no p r i m e i r o e x a m e ) .
L e v a n d o - s e e m c o n t a q u e a G E M i n f o r m a sobre a m a g n i t u d e do l e i t o v a s c u l a r , e n ã o n e c e s s a r i a m e n t e sobre o f l u x o t i s s u l a r e f e t i v o , os r e s u l t a d o s o b t i d o s p o d e m ser i n t e r p r e t a d o s c o m o s i g n i f i c a t i v o s de q u e o r a d i o i s ó t o p o p e r m a n e c e r e t i d o m a i s i n t e n s a -m e n t e n o h e -m i s f é r i o c e r e b r a l c o -m p r o -m e t i d o ( a t i v i d a d e r e s i d u a l ) , n ã o h a v e n d o , a p ó s u m a s e m a n a de t r a t a m e n t o c o m a v i n c a m i n a , a u m e n t o do f l u x o t i s s u l a r e f e t i v o . A r e t e n ç ã o de r a d i o i s ó t o p o p r o v a v e l m e n t e se d á a o n i v e l d o e s p a ç o e x t r a v a s c u l a r , q u e se e n c o n t r a a u m e n t a d o no e d e m a c e r e b r a l .
C O M E N T Á R I O S
O tratamento de doentes com traumatismo crânio-encefálico grave é um
dos problemas de mais difícil solução no campo da traumatología. A s
me-lhores estatísticas mostram resultados desalentadores quando comparados
com os obtidos em outros setores da patologia traumática. São numerosos
os casos em que, passada a fase aguda, os pacientes permanecem com
se-qüelas graves e freqüentemente definitivas. É nestas situações que se tem
tentado o uso de drogas que visam a melhorar as condições do metabolismo
cerebral, com a finalidade de se aumentar a possibilidade de recuperação do
parênquima cerebral comprometido. N o entanto, poucas são as que se
mostram realmente eficientes, sendo sempre problemática a avaliação dos
resultados, em virtude da variabilidade e complexidade das lesões
encontra-das nestes pacientes. É freqüente a ocorrência de melhoras ou pioras
repen-tinas, que podem ser erroneamente atribuídas a eficácia ou falência do
medicamento. P o r este motivo, o emprego de drogas, ditas aceleradoras do
metabolismo cerebral esbarra com dificuldades sérias quanto à avaliação dos
resultados, sendo necessária observação sistemática a longo prazo para que
se possa afirmar sua verdadeira eficácia.
Neste trabalho a vincamina foi testada num grupo de 50 doentes na
fase de recuperação ou seqüelas de traumatismos crânio-encefálicos,
esten-dendo-se a experiência durante o período de um ano. A esta droga se
atri-buem os efeitos de provocar aumento do débito sangüíneo cerebral e de
produzir alterações metabólicas, que conferem ao parênquima cerebral
com-prometido maior capacidade de extrair e fixar o oxigênio sangüíneo.
P a r a a avaliação dos efeitos da vincamina utilizamos critérios clínicos
nos 50 casos, C A G em 8, R E G em 5 e G E M em 6. Estes exames foram
feitos na tentativa de se estudar as modificações do fluxo sangüíneo cerebral
eventualmente observadas durante o tratamento.
resul-tados se relacionaram com a gravidade do quadro neurológico e não com a causa que o determinava.
E m 50% dos casos os resultados foram considerados ótimos ou bons (18 e 32%, respectivamente). Os pacientes em que obtivemos estes resultados apresentavam quadro neurológico de gravidade variável (grupos 2 a 6 ) , não sendo observados apenas nos casos mais graves (grupo 1 ) , nos quais predo-minavam sinais de comprometimento do tronco cerebral. Resultados regu-lares foram observados em 20% dos casos, incluindo 4 pacientes do grupo 1 (26,6%). Resultados nulos ocorreram em 5 casos ( 1 0 % ) , sendo observados em 4 doentes do grupo 1 e em um do grupo 2.
Os 10 casos de óbito verificados nesta série (20% dos pacientes) foram imputados à gravidade do quadro neurológico (7 casos do grupo 1) ou a complicações broncopneumônicas (3 casos).
Dos exames utilizados para avaliação do fluxo sangüíneo cerebral, apenas o R E G mostrou, em 4 casos, aumento do débito arterial após períodos de uma a três semanas de tratamento com vincamina. Esta alteração foi atribuída à redução do edema cerebral e não à ação direta da droga sobre o tono vascular.
N ã o se encontrou relação entre os resultados clínicos e os dados forne-cidos pelos exames mencionados, isto é, os resultados verificados clinicamente mostraram-se independentes dos achados da C A G , do R E G e da G E M . Assim, observamos pacientes em que, apesar de não haver modificações da circulação cerebral detectáveis pela C A G e G E M , houve nítida melhora clínica. P o r outro lado, dois dos 4 pacientes em que o R E G evidenciou aumento do fluxo sangüíneo cerebral apresentaram resultados clínicos praticamente nulos.
Pelos resultados obtidos podemos concluir que a vincamina é medica-mento valioso no tratamedica-mento de pacientes na fase de recuperação ou seqüelas de traumatismos crânio-encefálicos, sendo possível esperar-se resultados satis-fatórios em cerca de 50 a 70% dos casos.
R E S U M O
A v i n c a m i n a foi testada e m 50 doentes na fase de r e c u p e r a ç ã o ou se-qüelas de t r a u m a t i s m o s crânio-encefálicos. E m 30 casos t r a t a v a - s e de con-tusão cerebral, e m 8, de h e m a t o m a subdural, e m 6, de h e m a t o m a e x t r a d u r a l e e m 6, de d i l a c e r a ç ã o c e r e b r a l . Os pacientes f o r a m classificados e m 6 grupos de acordo c o m a g r a v i d a d e do quadro n e u r o l ó g i c o , avaliada p o r c r i t é r i o s clínicos. A a d m i n i s t r a ç ã o da d r o g a foi iniciada do 7.° ao 10.° dias após o t r a u m a t i s m o , sendo utilizada a v i a p a r e n t e r a l (15 m g 3 ou 4 v e z e s a o d i a ) e o r a l ( 1 0 m g 4 v e z e s ao d i a ) .
A a v a l i a ç ã o do f l u x o sangüíneo cerebral, antes e d u r a n t e o t r a t a m e n t o c o m a vincamina, foi f e i t a e m 19 pacientes, e m p r e g a n d o - s e c a r ó t i d o - a n g i o ¬ g r a f i a , r e o e n c e f a l o g r a f i a e g a m a e n c e f a l o m e t r i a . Os resultados obtidos m o s -t r a r a m não h a v e r correspondência e n -t r e m o d i f i c a ç õ e s d e -t e c -t á v e i s do débi-to a r t e r i a l c e r e b r a l e a e v o l u ç ã o clínica dos casos.
C o m o conclusão, a v i n c a m i n a pode ser considerada m e d i c a m e n t o valioso no t r a t a m e n t o de pacientes na fase de r e c u p e r a ç ã o ou seqüelas de t r a u m a -tismos crânio-encefálicos, podendo-se e s p e r a r resultados satisfatórios e m cerca d e 50 a 70% dos casos.
S U M M A R Y
Effects of vincamina on patients with head injuries; clinical and
laboratorial study on 50 cases
F i f t y patients in the r e c o v e r y o r sequelae s t a g e o f cranio-encephalic t r a u m a w e r e t r e a t e d w i t h v i n c a m i n a . T h e diagnosis in 30 of t h e m w a s c e r e b r a l contusion, in 8, subdural h e m a t o m a , in 6, e x t r a d u r a l h e m a t o m a and in 6, c e r e b r a l d i l a c e r a t i o n . A c c o r d i n g t o the s e v e r i t y of the n e u r o l o g i c a l p i c t u r e the patients w e r e classified in 6 groups. T h e a d m i n i s t r a t i o n of the d r u g w a s s t a r t e d f r o m the 7th t o the 10th day a f t e r the t r a u m a . P a r e n -t e r a l (15 m g 3 -t i m e s a d a y ) and o r a l w a y ( 1 0 m g 4 -t i m e s a d a y ) w e r e used.
T h e results w e r e classified as e x c e l l e n t , good, r e g u l a r and bad. E x c e l l e n t and g o o d results w e r e o b s e r v e d in 5 0 % of the cases, r e g u l a r in 2 0 % and bad in 10%. T h e cases of death in this series w e r e closely r e l a t e d t o the s e v e r i t y o f the n e u r o l o g i c a l i n v o l v e m e n t o r t o the bronchopneumonic c o m -plication.
C e r e b r a l a n g i o g r a p h y , r h e o e n c e p h a l o g r a p h y and g a m m a e n c e p h a l o m e t r y w e r e p e r f o r m e d f o r the e v a l u a t i o n of c e r e b r a l blood circulation in 19 patients. T h e results s h o w e d no relationship b e t w e e n changes of c e r e b r a l circulation a n d changes of t h e clinical picture.
Based in these results v i n c a m i n a can be considered as a valious drug in the t r e a t m e n t of patients in the r e c o v e r y o r sequelae s t a g e of head injury. S a t i s f a c t o r y results can be e x p e c t e d in about 50 t o 7 0 % o f the cases.