UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM
CURSO DE DOUTORADO EM ENFERMAGEM
GELSON AGUIAR DA SILVA
INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL DA PESSOA COM LESÃO MEDULAR: DO TRAUMA À PRIMEIRA INTERNAÇÃO
FLORIANÓPOLIS 2015
3 GELSON AGUIAR DA SILVA
INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL DA PESSOA COM LESÃO MEDULAR: DO TRAUMA À PRIMEIRA INTERNAÇÃO
Tese apresentada à banca examinadora do Curso de Doutorado em Enfermagem, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito para obtenção do título de Doutor em Enfermagem – Área de Concentração: Educação e trabalho em saúde e enfermagem.
Orientadora: Prof.ª Dra. Francine Lima Gelbcke
Co-orientadora: Prof.ª Dra. Soraia Dorneles Schoeller.
Linha de pesquisa: Trabalho em Saúde e Enfermagem
FLORIANÓPOLIS 2015
Silva, gelson aguiar da silva
Independência funcional da pessoa com lesão medular: do trauma a primeira internação / gelson aguiar da silva Silva ; orientadora, Francine Lima Gelbcke ; coorientadora, Soraia Dorneles Schoeller Schoeller. - Florianópolis, SC, 2015.
212 p.
Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem.
Inclui referências
1. Enfermagem. 2. traumatismos da medula espinal. 3. atividades cotidianas, . 4. assistência domiciliar;. 5. avaliação da deficiência e reabilitação. I. Gelbcke , Francine Lima. II. Schoeller, Soraia Dorneles Schoeller. III. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. IV. Título.
DEDICATÓRIA
A você Evelise (in memorian), meu eterno amor! Embora não esteja fisicamente conosco, sei que estará sempre em nossas vidas. Obrigado por partilhar esse tempo que convivemos juntos! Te amamos!
Dedico aos meus filhos Isabela de Paula Aguiar e Breno de Paula Aguiar por terem compreendido mesmo nos momentos difíceis a importância do meu trabalho, apesar de todas as dores, dos percalços do caminho estamos superando nossa longa caminhada. Somos uma família! Amo vocês!
9 AGRADECIMENTOS
A Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT – Campus Sinop, onde dei meus primeiros passos na docência, meu muito obrigado! A Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS – Chapecó, pela acolhida e pela certeza que aqui é o meu segundo lar.
A Coordenação do curso de enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS na pessoa da Prof.ª Dra. Valéria Silvana Faganello Madureira e colegas do curso de enfermagem pela colaboração prestada ao longo do doutorado.
Ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, na pessoa de sua Coordenadora, Prof.ª Dra. Vânia Marli Schubert Backes e seus professores e colaboradores pela oportunidade e aprendizado durante o doutorado.
Ao Governo do Estado de Santa Catarina, através da Secretaria de Estado da Educação programa de bolsas do fundo de apoio à manutenção e ao desenvolvimento da educação superior – FUMDES pelo fomento como bolsista de pesquisa.
Aos membros do grupo de pesquisa PRAXIS - Trabalho, Ética, Saúde e Enfermagem, em especial à coordenadora do grupo Dra. Flávia Regina de Souza Ramos, por terem me recebido como parte dessa grande família.
A Profª.Dra. Francine Lima Gelbcke orientadora, que apesar dos percalços no caminho, sempre teve a paciência em me orientar, e que soube respeitar minhas limitações de tempo e formação. Obrigado por tudo!
A Profª.Dra. Soraia Dorneles Schoeller co-orientadora, pelas discussões e idéias durante meu aprendizado. Muito obrigado!
Aos membros da banca examinadora: Karina Silveira de Almeida Hammerschmidt, Zuíla Maria de Figueirêdo Carvalho, Mara Ambrosina de Oliveira Vargas, Maria Tereza Leopardi e Fabiana Faleiros, Flávia Regina de Souza agradeço pelas contribuições. Fiquei muito feliz e
lisonjeado com a presença de vocês por partilharem seu conhecimento e contribuições à minha tese.
Aos amigos do doutorado, Rafael, Cida, Juliana Zimmermann e Adriana Tholl, agradeço o carinho e os momentos vividos, tenho certeza de que farão parte da minha vida para sempre.
Meus Agradecimentos Especiais
Aos meus pais, João Francisco (in memorian) e Francisca Aguiar (in memorian), que partiram antes dessa conquista, o meu muito obrigado pela vida e ensinamentos, estarão eternamente no meu coração e na minha caminhada. Amo vocês!
Aos amigos do Estado do Ceará, em especial a Deyse, Juliana, Jean, Janaína, Linda, o incentivo de vocês e as energias positivas emanadas, me ajudaram muito. Muito obrigado! Em especial a Deyse por saber ouvir e entender meus desabafos.
As minhas amigas do Mato Grosso, Luciene e Suellen, grandes companheiras e parceiras de trabalho, de longos papos no final da tarde. Obrigado por tudo! Vocês sabem como foram especiais na minha vida. Aos meus colegas e amigos da UFFS, Alex, Eleine, Débora, Leoni e Valéria. Em especial a Joice e Juliane pelas valiosas contribuições. As minhas colegas Tatiana e Silvia, parceiras no componente curricular, pela compreensão e paciência que tiveram nas minhas ausências. Aos meus filhos, Isabela de Paula Aguiar e Breno de Paula Aguiar, que mesmo sem a compreensão desse momento, apesar das cobranças pela minha ausência nas diversas viagens e idas a “Floripa”, vocês são a razão da minha vida! Amo vocês!
Aos meus irmãos: Marlei, Nilton, Ailton, Flávio, Caio e Sibéle, em especial a minha querida irmã “BÔ” pelo amor incondicional, pelas madrugadas atuando como minha ouvinte incansável, pelo incentivo diário nas muitas vezes que desanimava meu terno obrigado! Amo vocês!
11 Aos meus sogros: Seu João e Dona. Alice, minha cunhada Lenise e Rosi que apesar dos momentos difíceis sempre estiveram ao meu lado me incentivando. Meu muito obrigado!
A Denise, minha atual companheira com a qual pretendo iniciar um “novo livro”, outro capítulo das nossas vidas! Muito obrigado pela ajuda inestimável nesses momentos finais da tese.
Às pessoas com lesão medular, razão dessa pesquisa, sei dos momentos difíceis que passaram, mas mesmo assim, não desanimaram e seguiram em frente, vocês são um exemplo para mim! Muito obrigado!
A todos os amigos, que me esqueci de nominar, mas que me perdoarão por esse lapso de memória, pois tenho certeza de que sempre torceram por mim. Obrigado!
Deficiente é...
Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Mario Quintana
Deficiente é...
15 DA SILVA, Gelson Aguiar. Trata-se de um estudo envolvendo a independência funcional da pessoa com lesão medular a partir do primeiro atendimento. 2015. 212p. Tese (Doutorado em Enfermagem). Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Florianópolis, 2015.
Orientadora: Profª.Dra Francine Lima Gelbcke Co-orientadora: Profª.Dra. Soraia Dorneles Schoeller Linha de pesquisa: Trabalho em Saúde e Enfermagem
RESUMO
INTRODUÇÃO: A presente tese de doutorado está inserida na linha de pesquisa Trabalho em Saúde e Enfermagem do Grupo PRAXIS – Trabalho, Ética, Saúde e Enfermagem. Trata-se de um estudo envolvendo a independência funcional da pessoa com lesão medular a partir do cuidado hospitalar. O traumatismo raquimedular é multifacetado, envolve fatores modificáveis de prevenção a esse agravo, sendo que o cuidado em saúde à pessoa com lesão medular deve ser prestado de forma integral visando à independência funcional, desde os primeiros momentos após o acidente, perpassando o hospital geral e posteriormente os serviços hospitalares especializados em reabilitação. O cuidado em saúde envolve todos os momentos do trauma raquimedular, considerando os primeiros atendimentos prestados pelos serviços móveis de saúde (SAMU e Corpo de Bombeiros), até a chegada ao hospital geral, onde se iniciam os cuidados hospitalares, no primeiro momento, primando pela manutenção à vida, e num segundo momento pela prevenção de complicações associadas à lesão medular. Esse cuidado sob a perspectiva da pessoa com a lesão precisa ser compreendido e discutido amplamente com a sociedade e precisamos envidar esforços para a melhoria na prestação do cuidado em saúde a essa população. Assim, foi definida como questão norteadora: O cuidado de saúde realizado no pós-trauma e na primeira internação à pessoa com lesão medular contribui para a aquisição de sua independência funcional? O objetivo central do estudo buscou compreender o alcance da independência funcional da pessoa com lesão medular em seu domicílio a partir do cuidado prestado no pós-trauma à primeira internação. Para atender a proposição da pesquisa, adotamos como referencial teórico a Escala de Medida de Independência
Funcional (MIF), a qual se utiliza de conceitos mundialmente reconhecidos, e avalia a independência funcional da pessoa com lesão medular, podendo ser empregada em diversas situações e contextos de saúde, tanto de pessoas internadas, quanto no ambiente domiciliar. METODOLOGIA: O referencial metodológico utilizado foi de cunho qualitativo, do tipo exploratório e o cenário do estudo foi o domicílio, por meio de entrevistas semi-estruturadas. O critério de encerramento das entrevistas foi a saturação dos dados. Foram entrevistadas 10 pessoas com lesão medular. O período de realização da coleta de dados foi de setembro a dezembro de 2014 e para análise dos dados adotou-se a técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Os resultados apontam que a lesão medular ocorre de maneira repentina na vida das pessoas e traz sequelas físicas e psicológicas para ela mesma, para a família e sociedade, pois afeta a qualidade de vida, causando limitações funcionais impostas pela lesão. A reabilitação é fundamental e deve ocorrer precocemente, auxiliando a qualidade de vida da pessoa, entretanto os primeiros cuidados são essenciais e determinam o prognóstico. A reabilitação é um processo longo e contínuo que envolve a pessoa, familiares e cuidadores, e depende também da motivação, pois devemos considerar que cada pessoa, embora tendo a mesma classificação da lesão medular, percebe e interage de maneira diferente, necessitando ser reabilitada por uma equipe multiprofissional, de acordo com as suas metas. As orientações do cuidado em saúde no ambiente hospitalar e o processo de reabilitação mostram a importância desses cuidados no dia a dia quando do retorno ao domicílio e de como esses cuidados aprendidos ao longo do período de internação podem auxiliar na aquisição da independência funcional no domicílio, considerando o uso de tecnologias assistivas, bem como, a realidade de cada pessoa. CONCLUSÃO: o cuidado de saúde realizado no pós-trauma e na primeira internação à pessoa com lesão medular contribui para a aquisição de sua independência funcional. No entanto, esse cuidado deve ser iniciado o mais precocemente possível, já que o atendimento eficaz e de qualidade prestado por profissionais de saúde capacitados e conscientes pode ser um fator crucial na aquisição da independência funcional. Ressalta-se, ainda, a necessidade de a sociedade estar atenta no atendimento à pessoa com lesão medular, visando ao alcance de suas necessidades, sendo para tanto importante que políticas públicas sejam efetivamente implementadas.
Palavras-Chave: traumatismos da medula espinal; reabilitação; assistência domiciliar; atividades cotidianas, avaliação da deficiência.
DA SILVA, GelsonAguiar. A study based on functional interdependence of patients presenting spinal cord injury after the first assistance. 2015. 212p. Thesis (Doctorate in Nursing). Federal University of Santa Catarina, Pos-Doctoral Program of Nursing, Florianópolis, 2015.
Supervisor: Dr. Francine Lima Gelbcke Co-supervisor: Dr. SoraiaDornelesSchoeller Research line: Work in Health and Nursing
ABSTRACT
NTRODUCTION: This thesis is inserted in the research line named
Work in Health and Nursing of the PRAXIS Group – Work, Ethics, Health and Nursing. The study involves the functional independence of the person with spinal cord injury on the sight of the hospitalar care. The spinal cord injury is a multi faceted condition and for its prevention, it has modifiable factors.Therefore, the patient need a comprehensive health care, focused on the functional independence, since the first moments after the accident until the hospitalar rehabilitation services. The health care covers all the steps of the spinal cord injury, considering the first aid primary care (Transport Care Service of Urgency and Fire Department) until the arrival in the general hospital, where it begins the hospitalar care, aiming the maintanance of life, and then the prevention of associated complications.The care needs to be discussed, so that the society can give a return, looking for the improvement on the health care of this population. Thus, a guiding question was defined: Does the primary care in the pos-trauma context and the care in the first hospitalization give assistance to the person with spinal cord injury, contributing to your functional independence? The main aim of this study is to comprehend the achievement of the functional independence of the person with spinal cord injury at home, considering the primary and the hospitalar. To understand the proposal of the research, we adopted, as a referential theoretical, the Functional Independence Measurement Scale (MIF), which uses worldwide recognized concepts and rates the functional independence of the person with spinal cord injury, and can be used in multiple contexts of health care, with people that are staying at home or at the hospital.METHODS: It is a qualitative
exploratory research, done in the patient‟s residence, through the realization of semi-structured interviews. The criterion for the closure of the interviews was the saturation data. Ten (10) people with spinal cord injury were interviewed.The data collection was done between September and December of 2014 and was adopted the Content Analysis proposed by Bardin for the data analysis.RESULTS AND
DISCUSSION: The results shows that the spinal cord injury occurs as
an unexpected manner on people‟s lives and brings physical and psychological sequelae for the person, family and society, as it affects the life quality, impacting in functional limitation imposed by the injury. The rehabilitation is primordial and must occur early, as it will help the person‟s life quality. However, the first care in the spinal cord injury is the most important and it determines the prognosis. The rehabilitation on the achievement of the functional independence is a long and continuous process, which involves the patient, relatives and caregivers, and also depends on the person‟s motivation, as each individual has a different perception and interacts with the condition in a distinct way. Thus, it is important to the person in this condition to be rehabilitated by a multidisciplinary team according to the patient‟s goals.The orientation of health care in the hospitalar environment and the rehabilitation process shows the importance of the day-to-daycare on the patient‟s return to home and how the learning process helps on the achievement of the functional independence at the residence, considering the use of assistive technologies as well as the people life reality.
CONCLUSION:The health care that is done in the pos-trauma context
and in the first hospitalization of the person with a spinal cord injury contributes for theachievementof the functional independence. However, the care of the patient needs to be started as soon as possible, becausethe effectiveness and quality of care from capable health professionals can be a crucial factor in the achievement of the functional independence. Also, it is important to highlight that the society needs to realize the importance of the health care to patients with this condition, aiming the achievement of the patient‟s needs. Thus, it is important that public policies are effectively implemented.
Key-words: spinal cord injury; rehabilitation; home nursing; activities of daily living; disability evaluation
19 DA SILVA, Gelson Aguiar Se trata de un estudio envolviendo la independencia funcional de la persona con lesión medular desde la primera visita. 2015. 212p. Tesis (Doctorado en Enfermería). Universidad Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduación en Enfermería, Florianópolis, 2015.
Orientadora: Profª.Dra Francine Lima Gelbcke Co-orientadora: Profª.Dra. Soraia Dorneles Schoeller Línea de investigación: Trabajo en Salud y Enfermería.
RESUMEN
TRODUCCIÓN: La presente tesis de doctorado está inserida en la línea de investigación Trabajo en Salud y Enfermería del Grupo PRAXIS – Trabajo, Ética, Salud y Enfermería. Se trata de un estudio envolviendo la independencia funcional de la persona con lesión medular a partir del cuidado hospitalar. El traumatismo raquimedular es multifacetado, envolviendo factores modificables de prevención a ese agravo, siendo que el cuidado con la salud de la persona con lesión medular debe ser prestado de manera integral visando a la independencia funcional, desde los primeros momentos después del accidente, pasando por el hospital general y posteriormente a los servicios hospitalares especializados en rehabilitación. El cuidado en la salud involucra todos los momentos del trauma raquimedular, considerando los primeros atendimientos prestados por los servicios móviles de salud (SAMU y Cuerpo de Bomberos), hasta la llegada al hospital general, donde se inicia los cuidados hospitalares, en el primer momento primando por la manutención de la vida, y en un segundo momento por la prevención de complicaciones asociadas a la lesión medular. Ese cuidado ante la perspectiva de la persona con la lesión necesita ser comprendido y discutido ampliamente y la sociedad necesita dar un retorno que logre la mejoría en la prestación del cuidado en salud a esa población. Así, fue definida como cuestión norteadora: ¿Los profesionales de salud en el ambiente hospitalar prestan el cuidado a la persona con lesión medular contribuyendo para la independencia
funcional en el domicílio? El objetivo central del estudio buscó comprender el alcance de la independencia funcional de la persona con lesión medular en su domicílio a partir del cuidado prestado a nivel hospitalar. Para atender la proposición de la investigación, adoptamos como referencial teórico la Escala de Medida de Independencia Funcional (MIF), la cual se utiliza de conceptos mundialmente reconocidos, y evalúa la independencia funcional de la persona con lesión medular, pudiendo ser empleada en diversas situaciones y contextos de salud y, tanto de personas en el hospital, cuanto en el ambiente domiciliar. METODOLOGÍA: El referencial metodológico se utilizó de la pesquisa cualitativa del tipo exploratório, el escenario del estudio fue el domicilio, a través de la realización de entrevistas semi-estructuradas, en la cual fue estipulado un número mínimo de entrevistados y el criterio de encerramiento de las entrevistas fue la saturación de los datos, que ocurrió cuando se atingió el número de 10 personas con lesión medular. El período de la realización de la coleta de datos fue de septiembre a diciembre de 2014 y para análisis de los datos se adoptó la técnica de Análisis del Contenido propuesta por Bardin. RESULTADOS Y DISCUSIÓN: Los resultados indican que la lesión de la médula espinal se produce de forma repentina en la vida de las personas y trae consecuencias físicas y psicológicas para ella, la familia y la sociedad, ya que afecta la calidad de vida, provocando limitaciones funcionales impuestas por la lesión. La rehabilitación es importante y debe ocurrir temprano, ayudando a la calidad de vida de la persona, a pesar de la atención primaria son esenciales y determinar el pronóstico. La rehabilitación es un proceso largo y continuo que involucra a la persona, la familia y los cuidadores, y también depende de la motivación, porque creemos que cada persona, a pesar de tener la misma clasificación de las lesiones de la médula espinal, percibe e interactúa de manera diferente y necesita ser rehabilitado por un equipo multidisciplinario, de acuerdo con sus objetivos. Las directrices de atención médica en el hospital y el proceso de rehabilitación muestran la importancia de dicha atención en la vida cotidiana cuando el regreso a casa y como tal cuidado aprendido a lo largo de la estancia en el hospital pueden ayudar en la adquisición de independencia funcional en el hogar, teniendo en cuenta el uso de tecnologías de asistencia, así como la realidad de cada persona.. CONCLUSIÓN: El cuidado de salud realizado en el postrauma y en la primera internación a la persona con lesión medular contribuye para la adquisición de su independencia funcional, sin embargo, ese cuidado debe de ser comenzado lo más precozmente posible, una vez que el atendimiento eficaz y de calidad
prestados por profesionales de salud capacitados y conscientes puede ser un factor crucial en la adquisición de independencia funcional. Se resalta aún, la necesidad de la sociedad poner atención en el atendimiento a la persona con lesión medular, con vistas al alcance de sus necesidades, siendo para tanto importante que políticas públicas sean efectivamente implementadas.
Palabras-Clave: traumatismo de la medula espinal; rehabilitación; Atención Domiciliaria de Salud; actividades cotidianas.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AIS - Asia Impairment Scale
ASIA - American Spinel Injury Association AVDs - Atividades de Vida Diária
CIDID - Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens
CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade FAF - ferimentos por arma de fogo
LILACS - Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde
MEDLINE - Literatura Internacional em Ciência da Saúde MIF - Escala de Medida de Independência Funcional NSCIC - National Spinal Cord Injury Statistical Center OPAS - Organização Pan-Americana da Saúde
OMS - Organização Mundial da Saúde
PEN/UFSC - Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina
PIB - Produto Interno Bruto
SciELO - Scientific Electronic Library Online TRM - Traumatismo raquimedular
LISTA DE QUADROS
Quadro 1. Categoria e Subcategorias do Estudo - O INÍCIO DA INCAPACIDADE FUNCIONAL: o acidente... 105 Quadro 2. Categoria e Subcategorias do Estudo - A REABILITAÇÃO NA AQUISIÇÃO DA INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL: o renascimento ... 137
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 19 2 Objetivo ... 41 2.1 Objetivo Geral ... 41 2.2 Declaração de Tese ... 41 3 REVISÃO DA LITERATURA ... 43 4 REFERENCIAL TEÓRICO ... 61 5 METODOLOGIA ... 87 5.1 Tipo de estudo ... 87 5.2 Cenário do estudo ... 87 5.3 Participantes do estudo ... 88 5.4 Coleta de Dados ... 89 5.5 Análise dos Dados ... 91 5.6 Aspectos Éticos... 93 6 RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 78 MANUSCRITO 1: UM ACIDENTE NO MEU CAMINHO: o cuidado hospitalar como “motriz” para a independência funcional ... 79 MANUSCRITO 2: A REABILITAÇÃO DA PESSOA COM LESÃOMEDULAR: aprender a viver de novo ... 104 MANUSCRITO 3: CUIDADO EM SAÚDE NO AMBIENTE HOSPITALAR E A REABILITAÇÃO DA PESSOA COM LESÃO MEDULAR: retomada nas atividades de vida diária . 120 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 139 REFERÊNCIAS ... 189 APÊNDICES ... 205
APÊNDICE A - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO... 205 APÊNDICE B - CONSENTIMENTO DA PARTICIPAÇÃO DA PESSOA COMO SUJEITO DA PESQUISA PÓS-INFORMAÇÃO ... 136 APENDICE C - ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA ... 209
INTRODUÇÃO
A lesão medular é uma condição complexa e multifatorial, que abarca alterações físico-funcionais, relacionadas à pessoa que sofreu uma lesão, além de questões econômicas e familiares .Para tanto, necessita de redes sociais de apoio, principalmente da família. Por isso é preciso conhecer a história de vida de cada sujeito, seu contexto social e cultural. Além disso, também é essencial conhecer quem realiza a assistência, saber como se dá o cuidado de saúde à essa população, contribuindo, desta forma, para uma assistência de melhor qualidade.
Minha primeira experiência como enfermeiro deu-se numa renomada Instituição de Reabilitação, conhecida e respeitada por seus serviços de saúde não só no Brasil, mas também no exterior, intitulada Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, a qual atende gratuitamente pessoas com deficiência de diversas partes do Brasil, na área de doenças do aparelho locomotor. A partir desse momento iniciei intenso aprendizado sobre todas as patologias atendidas na instituição, principalmente acerca da lesão medular, a partir da experiência que tive realizando a assistência de enfermagem a estas pessoas em várias unidades da Rede Sarah (Brasília, Fortaleza, Belo Horizonte e novamente na unidade de Fortaleza - CE).
Durante esse aprendizado como enfermeiro reabilitador, com 17 anos de assistência direta a essas pessoas com lesão medular, sempre me angustiou o cuidado de saúde desenvolvido pelos profissionais que participavam do processo de reabilitação. Nesse momento, inúmeros são os questionamentos que me instigam no aprofundamento do tema. Algumas destas questões são: como o cuidado realizado pela equipe de
saúde auxilia a pessoa com lesão medular a adquirir sua independência físico-funcional? Nossos cuidados de saúde, nossas práticas reabilitadoras, realmente são necessárias e condizentes com a realidade/necessidade desta população? Ou esse cuidado ocorre de uma forma mecânica, não individualizada, não integral? Será que as pessoas são tratadas igualmente, sendo respeitado seu potencial para a reabilitação? Esse cuidado de saúde atende às expectativas de cada paciente?
O número de pessoas com alguma deficiência vem aumentando nos últimos anos, tornando-se grave problema para a sociedade devido ao aumento da expectativa de vida com as doenças crônicas degenerativas, o aumento da violência e principalmente o crescente índice de acidentes de trânsito, fato esse que é traduzido no aumento do número de casos de lesões traumáticas, entre elas as lesões raquimedulares (SCHOELLER et al.2011; CHAN e ZOELLICK, 2012). Essa situação faz com que esses sujeitos, antes considerados saudáveis e produtivos, passem a compor a população de pessoas com algum tipo de deficiência, tornem-se pessoas com paraplegia ou tetraplegia, elevando as estatísticas de pessoas que, de alguma forma passarão a depender da família e da sociedade, pois necessitarão da ajuda do Estado, através do sistema de saúde pública ou de algum tipo de benefício social (ALBUQUERQUE, FREITAS e BASTOS, 2009).
Dados epidemiológicos mundiais revelam que existem aproximadamente 40 pessoas/milhão/ano que passam a fazer partes das estatísticas de pessoas com lesão medular; no Brasil, embora existam dados em alguns estados e também em algumas cidades isoladas, de maneira geral,não existem dados epidemiológicos que contemplem o
país como um todo e que sejam fidedignos e confiáveis (ARES, CRISTANTE, 2007; NATIONAL SPINEL CORD INJURY ASSOCIATION, 2010).
De acordo com recente estudo publicado por Bjornshave et al (2015), a incidência anual de traumatismo raquimedular na Dinamarca manteve-se baixa; 10,2/milhão/ano, mantendo estabilidade entre o período de 1992 a 2012,quando comparadas aos períodos anteriores.. Entretanto as lesões relacionadas ao transporte caíram quando comparadas as por quedas de altura; devido às lesões por queda terem aumentado entre os idosos. Porém, houve tendência de aumento crescente das lesões completas e o aumento da faixa etária. A diminuição das lesões por acidentes de transportes pode ter ocorrido devido a carros mais seguros, mudança de limites de velocidade nas estradas e no projeto das mesmas.
Já outro estudo realizado em Botswana mostrou que a incidência anual de trauma raquimedular foi de 13 pessoas por milhão de habitantes, com predomínio do sexo masculino (71% de homens e 29% mulheres) e a maioria das lesões medulares foram decorrentes dos acidentes de trânsito (LOFVENMARK et al, 2015).
De acordo com Brito (2011), em estudo realizado no hospital universitário da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com 87 pacientes vítimas de traumatismo raquimedular (TRM), houve predomínio do sexo masculino (81,6%) e faixa etária de 21 a 30 anos de idade (39,1%) e a principal etiologia foi quedas, seguido pelos acidentes de trânsito. Ainda segundo o mesmo autor a incidência do trauma raquimedular em nível mundial é estimada entre nove e 50 casos/milhão de habitantes, sendo mais prevalente em áreas urbanas, devido à
violência urbana desenfreada, aos acidentes de trânsito, entre outras causas importantes.
A lesão medular traumática deve ser tratada como um problema de saúde pública, pois afeta pessoas jovens em sua fase mais ativa economicamente, ocasionando sérios transtornos não só para o indivíduo, família e principalmente para a sociedade que precisa atender essa demanda, criando centros de atendimentos ao trauma, centros de reabilitação, onerando de forma significativa esse atendimento e também pelo tempo de internação, que na maioria das vezes é longo e de alto custo (ASSIS e FARO, 2011, SILVA, et al.2012). Vários estudos realizados no Brasil mostram que a maioria da população vítima de trauma raquimedular é de adultos jovens, do sexo masculino e que a etiologia mais comum do trauma são os acidentes automobilísticos (CUSTÓDIO et al, 2009; BRITO et al, 2011; ROCHA,MAIA e BRASILEIRO, 2012; PEREIRA, GOMES e RODRIGUES;2015).
Estudo retrospectivo realizado em Porto – Portugal, com 93 pacientes vítimas de trauma raquimedular admitidos no Serviço de Fisiatria do Hospital Geral de Santo mostrou que 87% dos pacientes eram do sexo masculino, com idade média de 40 anos e que os acidentes de trânsito e as quedas da própria altura foram a causa mais freqüente da lesão medular, aonde a maioria dos traumatismos foi no nível cervical e torácico (42% e 45%), respectivamente (ANDRADE e GONÇALVES, 2007).
De acordo com Schoeller et al (2012) quando se observa a lesão medular sob o prisma do gênero, verifica-se predominância do gênero masculino sobre o feminino, pois as vítimas de lesões medulares, na sua maioria são homens, o que demonstra uma maior exposição desse
segmento da população aos acidentes e às violências, que são as principais causas de lesões medulares no Brasil. Os homens apresentam comportamentos mais agressivos e arriscados do que as mulheres principalmente no trânsito e em outras situações de risco a que são expostos.
Em nosso país, embora não haja dados específicos da incidência de lesão medular, o Sistema Único de Saúde (SUS), registrou, em 2004, 15.700 internações hospitalares, com 505 óbitos decorrentes de fratura da coluna (TARICCO et al, 2008). Segundo dados do Ministério da Saúde (2012) foram realizados no último ano, 972.847 internações hospitalares por causas externas, com gasto pelo SUS de R$ 1 bilhão de reais para custear este atendimento. Este contingente de pessoas com lesão medular demanda cuidados, não só de enfermagem; mas cuidados de saúde em geral, que devem ser fornecidos por uma equipe multidisciplinar, de forma eficiente e eficaz.
Alem disso, estas pessoas quase sempre se tornam dependentes de alguma forma, o que afeta seu convívio social e sua qualidade de vida. Após a lesão medular, esse sujeito necessitará de cuidados físicos, psicológicos, e para isso seu aprendizado deverá ser iniciado logo após lesão medular, o que facilitará o processo de reabilitação. Também necessitará de cuidados de saúde ao longo de sua vida, considerando que esse indivíduo pode ser acometido por inúmeras complicações e necessitará adquirir sua independência funcional, o que o levará a ter uma maior autonomia para prescindir de cuidados básicos prestados por profissionais de saúde, familiares ou cuidadores. (ASSIS, FARO, 2011). A lesão medular causa alterações na dinâmica corporal do indivíduo e transformações abruptas, não só para a pessoa, como
também para a sua família. Isto os leva a adotar outro estilo de vida para se adequar à nova situação, a depender do grau de comprometimento neurológico. São várias as alterações decorrentes da lesão medular: eliminação vesical e intestinal, pele e tecidos moles, estruturas articulares, expressão da sexualidade, requisições nutricionais, além das interferências na vida profissional e, consequentemente, na produtividade econômica do indivíduo. A lesão medular é caracterizada por alterações da motricidade, sensibilidade superficial e profunda e distúrbios neurovegetativos dos segmentos do corpo localizados abaixo da lesão (GREVE, CASALIS e BARROS, 2001).
Com os avanços ocorridos nas últimas décadas na área médica e em outras áreas, esses sujeitos passaram a ter aumento de sobrevida, pois o tratamento evoluiu de forma considerável, principalmente devido ao combate às causas básicas que levavam esses sujeitos à morte, tais como complicações decorrentes das infecções urinárias e pulmonares. A evolução no tratamento surgiu devido aos avanços tecnológicos na medicina e à criação de centros especializados de reabilitação, onde essas complicações são tratadas e essas pessoas recebem acompanhamento para minimizá-las através do diagnóstico precoce e da prevenção, objetivando o seu retorno à sociedade o mais rapidamente possível, com qualidade (KIRSHBLUM, 2004).
Diniz et al. (2012) destacam que há correlação direta entre as complicações decorrentes da lesão medular e o comprometimento da qualidade de vida das pessoas, mostrando com isso a necessidade vital de cuidados que por toda a vida.
Corroboramos com Machado e Scramin (2010) quando citam que um dos maiores desafios atuais para a enfermagem passa
inevitavelmente pela construção de conhecimentos para consubstanciar a prática do cuidado de pessoas com deficiência, entre as quais se destacam aquelas com lesões neurológicas medulares, pela complexidade da patologia, pelo alto grau de dependência no desempenho para as atividades de vida diária (AVDs) e principalmente as relacionadas ao autocuidado.
A partir disso torna-se vital o suporte neste momento particular da vida da pessoa, com o objetivo de ajudar a manter a sua disposição para gerir e enfrentar os novos desafios que se impõem, preparando-se deste modo para uma nova etapa de organização dos recursos disponíveis para fazer face à sua nova realidade. É nesta fase que a ajuda dos profissionais de saúde se torna fundamental na procura de conhecimento acerca do regime terapêutico e de comportamentos de adesão ao mesmo, através do controle de riscos e sintomas e ainda conseguindo a sua participação nos cuidados de saúde (AMARAL, 2009).
Estudo realizado por Diniz et al. (2012), com 32 sujeitos vítimas de lesão medular, com o objetivo de avaliar o perfil epidemiológico determinado por acidentes de trânsito, mostrou que seis (18%) vítimas apresentaram perda total da independência funcional, tornando-se dependentes de terceiros.
A reabilitação pode auxiliar nesse cuidado, mas para que aconteça, independente da fase em que se encontra a pessoa com lesão medular, é imprescindível a atuação da equipe multidisciplinar no processo do cuidar em saúde. É também fundamental que o sujeito da reabilitação, queira participar desse processo, de forma consciente e aberto a novos aprendizados. O enfermeiro tem papel primordial no
cuidado de saúde a essas pessoas, pois presta assistência de enfermagem de forma contínua e a sua avaliação em relação à reabilitação é fundamental. Ele participa ativamente desse processo prestando cuidados de enfermagem que ajudam a diminuir ou amenizar complicações, estabelecendo propostas de tratamento com o objetivo de ajudar na aquisição da independência funcional e nas atividades de vida diária.
Embora a lesão medular tenha sido pesquisada em vários aspectos (ARAUJO JUNIOR et al 2011; BRITO et al, 2011; PEREIRA e JESUS, 2011; SILVA et al. 2012), principalmente sob o ponto de vista da patologia e da epidemiologia, ainda existem lacunas nas pesquisas no que ser refere ao cuidado em saúde sob o prisma das pessoas com lesão medular e, também, não há pesquisas que relacionem se os cuidados de saúde interferem na independência funcional dessa população.
Muitos estudos envidaram esforços para avaliar a capacidade funcional das pessoas com lesão medular, bem como o uso de medicamentos apropriados, de acordo com a fase da lesão medula; para o tratamento e prevenção de complicações dela decorrentes, prognósticos, cuidados integrais, reabilitação, nível de independência funcional, entre outros; mas ainda se percebe uma lacuna na literatura quando se trata de analisar o alcance da independência funcional da pessoa com lesão medular em seu domicílio a partir do cuidado recebido no hospital. Entende-se que o estudo proposto possa servir de subsídio para fortalecer ações que visem à independência funcional dessas pessoas (MACHADO e SCRAMIN, 2010).
O cuidar é uma atividade que vai muito além do atendimento às necessidades básicas de cada ser humano no momento de fragilidade. Cuidar é atitude que envolve também autocuidado, autoestima, autovalorização. Existem diferentes formas de perceber esse indivíduo de maneira singular e única. Devemos respeitar sua capacidade de reabilitação, pois se deve ter em mente que o objetivo principal é o de prestar o cuidado de forma integral e, para isso, é fundamental a participação do sujeito e de seus familiares/cuidadores na aquisição da independência funcional (SILVA, COSTA-SANTOS, 2010).
Para que o cuidado em saúde se efetive, os enfermeiros necessitam prestar os cuidados às pessoas com lesão medular considerando suas particularidades, tais como as limitações físicas e condições de acessibilidade aos serviços de saúde, levando também em consideração a pessoa e a família em que está inserida (COURA et al.,2013).
É preciso criar novas maneiras de pensar o cuidado, de modo que esse se torne um cuidado compartilhado entre os diversos profissionais de saúde, de maneira que todos se sintam responsáveis pela prestação do cuidado integral a essas pessoas e seus familiares. Já as instituições que atendem essa clientela devem encontrar maneiras de qualificar os profissionais de saúde para que prestem uma assistência adequada, visando ao cuidado com qualidade. (ALBUQUERQUE, FREITAS e BASTOS, 2009).
O cuidado ocorre através da preservação da condição de saúde das pessoas e está intimamente relacionado à concepção ampla de vida, que envolve a ética e a percepção da vida de forma integral, como uma condição valiosa, considerando a saúde como parte da pessoa. O
cuidado pode ser amplamente empregado em várias maneiras de cuidar, pode incorporar diversos significados, a depender do contexto em que é empregado, pois depende da cultura na qual essa pessoa esta inserida, do local onde prestamos esse cuidado e pode ser visto apenas como uma forma de solidariedade. Necessita de completa interação entre cidadãos, daquele que presta e daquele que recebe o cuidado.Tem sido comum, porém significa que transmita uma noção de obrigação, dever e compromisso social, quando não há interação entre o sujeito cuidado e o cuidador. O cuidado significa desprendimento, auto-doação, dedicação e não ocorre de maneira isolada e sim dentro de um contexto social onde esse indivíduo está inserido (BOFF, 2004;SOUZA et al 2005).
Cuidar implica literalmente “colocar-se no lugar do outro”, geralmente em situações diversas, quer na dimensão pessoal, quer na social, pois somente assim, podemos pensar e sentir o que o outro sente, para percebermos seus sentimentos, suas angústias, tristezas e necessidades de cuidado e dessa forma atentar para a prestação de um cuidado que valorize essa pessoa e a sua própria vida, respeitando suas escolhas e decisões e melhorando a qualidade do cuidado prestado (SCHOELLER, LEOPARDI e RAMOS 2012).
Mas esse cuidado em saúde à pessoa com lesão medular necessita ser realizado desde o momento do trauma até a sua reabilitação para que a pessoa consiga tornar-se independente. Para Neri (2001) a independência funcional é definida como a capacidade de realizar alguma atividade por conta própria, sem ensejar auxílio de ninguém. Essas atividades estão intimamente ligadas à mobilidade física, mas para que isso realmente aconteça ,a pessoa precisa estar com sua condição motora e cognitiva necessária para realizar as atividades de vida diária.
Concordamos com o autor que o cuidado em saúde que vise à independência funcional necessita ser realizado no momento do primeiro atendimento à pessoa com lesão medular, ainda no atendimento pré-hospitalar e posteriormente com a chegada da pessoa nas emergências hospitalares . E sse cuidado deve ser ensinado ao longo de toda a internação contemplando os aspectos individuais, proporcionando um cuidado de qualidade para que a alta hospitalar torne-se menos angustiante devido às incertezas no domicílio.
Diante do explanado e entendendo que esse cuidado sob a perspectiva da pessoa precisa ser melhor compreendido e que a sociedade precisa dar retorno no que tange à melhoria na prestação do cuidado em saúde a essa população, surge a questão norteadora desta proposta de pesquisa: O cuidado de saúde realizado no pós-trauma e na primeira internação à pessoa com lesão medular contribui para a aquisição de sua independência funcional?
2 Objetivo
2.1 Objetivo Geral:
Compreender o alcance da independência funcional da pessoa com lesão medular em seu domicílio a partir do cuidado prestado do
pós-trauma à primeira internação.
2.2 Declaração de Tese:
O cuidado de saúde realizado do pós-trauma à primeira internação da pessoa com lesão medular contribui para a aquisição de sua independência funcional no ambiente domiciliar.
3 REVISÃO DA LITERATURA
Nesta pesquisa utilizamos a técnica de revisão narrativa que, de acordo com Rother (2007) é utilizada para “publicações amplas, apropriadas para descrever e discutir o desenvolvimento ou o “estado da arte” de um determinado assunto, sob o ponto de vista teórico ou contextual.
Para conhecermos o “estado da arte” foi realizado a busca de artigos na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Literatura Internacional em Ciência da Saúde (MEDLINE) utilizando os descritores: medula espinhal; traumatismos da medula espinal; reabilitação e assistência à saúde
Entende-se por traumatismo raquimedular (TRM) lesão de qualquer causa externa na coluna vertebral, incluindo ou não a medula ou raízes nervosas, em qualquer dos seus segmentos. O TRM por ser de instalação abrupta e inesperada, com potencial para causar sequelas, como paraplegia e tetraplegia. Por incidir preferencialmente em indivíduos no auge de sua produtividade, enquadra-se como um grande problema em saúde pública mundial (BRITO et al., 2011).
A fisiopatologia do traumatismo raquimedular é altamente complexa; embora as pesquisas tenham avançado, se desconhecem todos os eventos desencadeadores e sua cronologia e, com isso, é difícil identificar potenciais intervenções para melhoria do prognóstico neurológico. O manejo inicial do TRM começa no mesmo local do trauma e é projetado para otimizar as condições respiratórias e
hemodinâmicas da pessoa e prevenir complicaçãoes (BALLESTEROS PLAZA, 2012).
No decorrer de sua evolução, o paciente com lesão medular passa por fases clínicas e emocionais distintas, cada uma com sua particularidade. O quadro clínico inicial é denominado de choque medular, caracterizado por paralisia flácida e anestesia abaixo do nível da lesão, abolição dos reflexos vesical, intestinal e genital, com duração média de três semanas. Nesta fase, não é possível definir prognóstico de evolução da lesão, pois este quadro não define fielmente a intensidade da lesão anatômica. O término da fase de choque medular é caracterizado pelo retorno dos reflexos medulares (cutâneo-anal e/ou bulbo cavernoso), exceto nas epidemiológicos TRM, com lesões de cone medular e cauda equina, nas quais a flacidez persiste, devido à interrupção dos arcos reflexos medulares (MACHADO, 2008)
O TRM é uma importante causa de morbidade e mortalidade na população mundial. O desenvolvimento de protocolos nacionais que tornem obrigatório o registro desses dados é fundamental para a compreensão da epidemiologia e a prevenção deste problema de saúde que gera elevados custos para o país e que acomete, em sua maioria, jovens e adultos em idade produtiva (PEREIRA, 2011).
As pessoas com lesão medular apresentam riscos para o desenvolvimento de complicações ao longo de toda sua vida, pois não podem ser tratadas apenas em um aspecto, de forma separada, já que a lesão medular envolve outros aspectos, além do físico. As complicações podem surgir durante toda a vida do sujeito, sendo as principais: infecções pulmonares, infecções do trato urinário, as úlceras de pressão, a espasticidade e a ossificação heterotópica.
Estas podem aparecer de forma repentina, fazendo com que esse sujeito necessite em alguns casos de internação hospitalar, com isso criando uma demanda nos serviços de saúde e também gerando gastos financeiros para o sistema de saúde (BRUNI et al.; 2004).
A lesão da medula espinhal apresenta diversas formas de manifestações clínicas, entre elas as incapacidades físicas, que às vezes são permanentes, devido à insuficiência parcial ou total do funcionamento da medula espinhal, decorrente de lesão que afeta a sua integridade anatômica. Essas manifestações também provocam mudanças corporais, fazendo com que esse indivíduo se perceba de outra forma na sociedade. Entre as limitações funcionais podemos destacar a realização de cuidados básicos de autocuidado concernentes ao estado de deficiência, o que provoca reações sociais e psicológicas diversas na personalidade da pessoa comprometida pela lesão medular, pois sua independência torna-se prejudicada, pela dependência de outro para a realização de seus cuidados básicos especialmente no início do tratamento (BORGES et al 2012).
Apesar dos avanços no tratamento da lesão medular, em razão do aumento de episódios associados à violência urbana, como os acidentes de trânsito, que em muitas regiões são a principal causa de lesão medular, e das agressões por arma de fogo, um expressivo número de cidadãos e suas famílias são afetados em todo o mundo pelo sofrimento e pelas limitações provocadas pela lesão medular, principalmente a de origem traumática que ocorre de maneira brusca e repentina e quase sempre de forma violenta (FERREIRA e ARAUJO; 2005, ALBUQUERQUE, FREITAS e JORGE, 2009).
De acordo com o National Spinal Cord Injury Statistical Center (2010) nos Estados Unidos, estima-se a ocorrência de 12 mil novos casos de lesão medular ao ano. Apesar de termos algumas estatísticas sobre lesão medular no Brasil, essas são insuficientes quando se trata de dados sobre as deficiências físicas e sequelas produzidas por esses agravos no contexto nacional, principalmente nos centros urbanos das capitais, pois não dispomos de um sistema nacional eficiente e eficaz (LIMA et al, 2009).
Nos EUA, nos últimos 15 anos, têm aumentado a participação de tetraplegias incompletas, e consequentemente, diminuído a das paraplegias e tetraplegias completas. Naquele país, em 2005, as tetraplegias incompletas representavam 39,5%, vindo em segundo lugar as lesões classificadas como paraplegias completas com 22,1%, as paraplegias incompletas com 21,7% e, em último a tetraplegia completa com 16,3% (National Spinal Injury Estatistical Center; 2011). Talvez essa diminuição da gravidade da lesão medular possa ser explicada pelo atendimento imediato de qualidade e pela rede hospitalar de apoio no momento do traumatismo raquimedular.
Conforme relatado por Derret et al (2012), a incidência de lesão medular traumática na Nova Zelândia é de 30 casos/milhão, abaixo da média da incidência mundial, sendo a maioria de adultos jovens (16-44 anos), do sexo masculino e com lesão classificada como completa (AIS A) com comprometimento neurológico, ocasionando uma deficiência permanente, na maioria dos casos, tornando-se oneroso para a sociedade e também para os indivíduos e a família.
Em um estudo de Coorte realizado por Middleton et al. (2012), com 2014 pessoas vítimas de lesão medular traumática no período de
1995 a 2006 em Sidney, na Austrália, estimou-se uma taxa de mortalidade para tetraplégicos de 8,4% e para paraplégicos de 4,1%, sendo que essas taxas ocorreram dentro dos primeiros 12 meses após a lesão. Após o primeiro ano de lesão os índices gerais de sobrevivência foram de 47% e 62% para pessoas com tetraplegia e paraplegia, respectivamente, sendo que o aumento da taxa de mortalidade foi em indivíduos com tetraplegia. Relatam ainda que a sobrevivência está fortemente ligada com a extensão do comprometimento neurológicos de acordo com a classificação da American Spinal Injury Association Impairment Scale (ASIA).
Em outro estudo, do tipo retrospectivo, realizado na Índia, foi constatado que em 1.138 casos de lesão medular traumática, a grande maioria atingiu homens (63,18%) sendo que 66,67% apresentavam paraplegia e 71,18% apresentavam lesões completas. A maioria dessas lesões ocorreu por acidentes automobilísticos e quedas e houve também um predomínio de uma faixa etária jovem (CHHABRA e ARORA, 2012).
Em se tratando da faixa etária, outro estudo realizado por Chang et al (2012), avaliando a qualidade de vida de 341 indivíduos com lesão medular traumática, através da aplicação da Classificação Internacional de Funcionalidade - CIF, verificou que a maioria eram adultos jovens, com idade variando entre 18 e 60 anos.
Embora os dados epidemiológicos relativos à ocorrência de lesão medular no Brasil sejam considerados insatisfatórios, em estudo realizado com 60 pacientes vítimas de lesão medular na cidade de São Paulo mostra que a maioria são pessoas do sexo masculino (86,7%), relativamente jovens, com média de idade igual a 32,9 anos, que
sofreram prejuízo significativo em sua qualidade de vida; com baixo nível de escolaridade, cujas vidas foram interrompidas pela violência, como ferimentos por arma de fogo-FAF (63,3%) seguido por acidentes automobilístico 20% (FERREIRA et al , 2009; SILVA et al, 2012;SILVA ; 2015).
Estudo realizado por Pereira e Jesus (2011) com avaliação epidemiológica de 120 casos de traumatismo raquimedular, por análise dos prontuários, realizada num hospital público de Sergipe, mostrou que a maioria é jovem, do sexo masculino e com faixa etária predominante de 21 a 40 anos. Houve uma grande prevalência de acidentes automobilísticos, seguidos por FAF. Ao acometer pessoas jovens e economicamente ativas, o TRM acaba interrompendo a atividade profissional desse individuo, modificando o seu cotidiano e gerando um alto custo para a sociedade.
De acordo com Bernardi (2014), que estudou a epidemiologia do trauma raquimedular, permanece a tendência de predomínio de uma população jovem e do sexo masculino, com lesões cervicais predominantes. Ressalta-se que muitos traumas são decorrentes de acidentes de moto e quedas, os quais podem diminuir com medidas de segurança no trânsito, alterando positivamente esse perfil.
Corroborando com esses achados, Araújo Júnior et al. (2011), em levantamento realizado com 54 pacientes vítimas de traumatismo raquimedular por ferimento de arma de fogo (FAF) identificaram que dos 54 pacientes, 49 eram do sexo masculino (90,7%) e cinco do sexo feminino (9,3%). A idade média foi de 27,18 anos, variando entre 15 a 55 anos. No mesmo sentido, estudo de avaliação epidemiológica em pacientes vítimas de traumatismo raquimedular realizado por Brito et al.
(2011), com 87 pacientes, mostrou como resultado que 81,6% (71) dos pacientes eram do sexo masculino, tendo 39,1% (34) entre 21 e 30 anos de idade.
Recente estudo realizado por Vasconcelos e Riberto (2010), no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com 190 pacientes vítimas de traumatismo raquimedular, mostrou que as lesões ocorreram predominantemente nos indivíduos jovens do sexo masculino.Estas, acometeram o nível vertebral cervical e causaram lesão medular em 27% dos indivíduos, principalmente lesões completas, classificadas de acordo com a American Spinel Injuri Association (2002) – ASIA em (Asia Impairment Scale – AIS)- A: 7,7%), sendo que a principal etiologia do trauma foram os acidentes de trânsito com carros e motos (52%).
Já estudo realizado num Centro de Reabilitação no nordeste do Brasil através da avaliação de 282 prontuários de vítimas de lesão medular traumática mostrou que do total da amostra, 96 (42,1%) pacientes tinham, na época do trauma, idade entre 20 a 31 anos, seguidos de 63 (27,6%), com idade entre 31 a 42 anos. A idade média foi de 32,6 anos; quanto ao gênero houve predominância de 193 (84,6%) pessoas do sexo masculino. Em relação à etiologia da lesão em 114 pessoas (50%) foi devido a ferimento por arma de fogo (FAF), seguido por 67 devido à acidente de trânsito (29,38%). Outras agressões não apresentaram frequência significativa (SILVA et al.2012).
Nos últimos 10 anos, a Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação (2012) atendeu milhares de pessoas com sequelas de lesão medular traumática. Em 37,2%, a causa foi acidente de trânsito, em 28,7%
agressão com arma de fogo, em 16,8 % quedas, em 8,9 % o mergulho em águas e 8,5% outras causas.
Coura et al. (2012) concluíram que as pessoas com lesão medular, residentes na zona urbana, na maioria são homens jovens, com baixa renda e baixa escolaridade. Informações mais detalhadas sobre as principais etiologias devem ser continuamente analisadas para que se possam gerar intervenções preventivas de acordo com a necessidade de cada região e/ou país, para a compreensão da epidemiologia e, consequentemente, a prevenção deste problema (PEREIRA, 2011).
Um dos aspectos que agrava ainda o contexto da urbanização/globalização é a violência praticada pela utilização de armas de fogo e branca. Pereira (2011) sugere medidas de controle na utilização de armas, bem como a adoção de medidas efetivas, que abordem a natureza dos problemas sociais que geram tais violências, podendo reduzir os índices elevados de traumatismo raquimedular em nossa sociedade.
O trauma raquimedular causa inúmeras alterações alem das físicas, devido às sequelas, que na maioria das vezes são irreversíveis, e o indivíduo também tem afetado sua auto-estima e a forma como se percebe diante da sociedade, comprometendo com isso seu estado emocional e psicológico, relacionado à sua percepção, pois se vê numa relação de dependência em relação ao outro que o auxilia nas suas atividades de vida diária (FECHIO et. al., 2009). Tais sequelas prejudicam, de forma significativa, a capacidade das pessoas desempenharem algumas atividades em seu dia a dia, principalmente aquelas que exigem muito das funções musculoesqueléticas como transferir-se, deambular e subir escadas (COURA et al; 2012).
Em estudo realizado por Jovanovic et al (2012) com objetivo de avaliar a qualidade de vida de 99 sujeitos com lesão medular traumática foi constatado que o funcionamento físico e fisiológico foram afetados em diferentes graus nas patologias neurológicas estudados, embora todos os grupos apresentaram níveis similares de funcionamento e bem estar em domínios sociais e ambientais.
Em casos de traumatismo raquimedular, é consenso na literatura que devemos considerar que a reabilitação tenha início já no momento do acidente, pois requer nova aprendizagem por parte do paciente e da família diante de uma vida completamente diferente. A partir daí o maior desafio é a prevenção das complicações ou de incapacidades secundárias que, se contornadas, melhoram gradativamente o potencial funcional desses sujeitos (SCHOELLER et al.,2012).
Estudo conduzido por Derakhshanrad et al. (2015), mostrou que programas de reabilitação ambulatoriais podem promover um ganho funcional satisfatório, pois mostram-se eficazes e ajudam na redução de custos quando relacionados aos programas de reabilitação que requerem o regime de internação 24 horas, desde que tenham o envolvimento da equipe multidisciplinar. Esses programas de reabilitação desenvolvidos ambulatorialmente auxiliam na complementação da independência funcional, pois possibilitam o treino de atividades que podem ser desenvolvidas sem a necessidade de uma internação mais prolongada.
Embora tenham ocorrido avanços nas políticas públicas de atenção à pessoa com deficiência, ainda há a necessidade de que essas sejam constantemente aprimoradas pelas organizações governamentais. Outra questão importante a ser implementada é a fiscalização dessas políticas, a qual pode ser realizada pela sociedade e pelas organizações
profissionais. Cabe destacar que essas políticas visam minimizar as diferenças sociais, o preconceito e a discriminação, com intuito de envolver a pessoa ao convívio social e laborativo, sentindo-se incluídas e assumindo sua autonomia, na qual a condição de pessoa com lesão medular, não impeça de assumir seu papel social (COSTA et al. 2010).
Cabe ressaltar que ainda existem limitações de acessibilidade e carência de recursos adaptativos, os quais prejudicam a locomoção da pessoa com lesão medular limitando e reforçando a incapacidade de exercer seu pleno direito de ir e vir (CONCEIÇÃO, 2010).
Os cuidados em saúde prestados à pessoa com lesão medular são fundamentais para evitar ou minimizar deformidades articulares, osteopenia, fraturas secundárias e trombose venosa profunda, incidência de infecções e outras complicações pulmonares, assim como os cuidados com a pele evitam o desenvolvimento de úlceras por pressão. Cuidados adequados com as vias urinárias (uma das principais causas de óbito em pessoas com lesão medular no passado) e com o intestino evitam complicações graves. Todas estas medidas podem reduzir a morbidade e a mortalidade, além de melhorar a qualidade de vida da pessoa com lesão medular (REDE SARAH, 2012).
A emancipação em relação à independência, não só física mas emocional da pessoa com lesão medular pode gerar ganhos incalculáveis ao indivíduo à família e à sociedade, pois se esse assume o papel que lhe é imputado na sociedade, faz com que encontre possibilidades de reconhecer seus potenciais para, posteriormente, participar de forma ativa e autônoma na sociedade. Além disto, propicia a transformação da própria sociedade, pois possibilita e viabiliza que essas pessoas sejam vistas, de acordo com suas limitações, mas,
sobretudo com seus valores e potenciais diante dessa comunidade, dando uma oportunidade à própria comunidade de enxergar essa pessoa de outra maneira, como uma pessoa inserida integralmente nesse espaço social coletivo. (FECHIO et. al., 2009).
Diante de pessoas angustiadas por essa repentina alteração de sua vida, por tantas mudanças, é de fundamental importância a orientação e o acompanhamento das pessoas, que deve acontecer desde uma fase precoce de pós-trauma, o que facilita uma adaptação satisfatória às atividades diárias. Também é imperioso e necessário que o conhecimento sobre essa patologia seja repassado a familiares e cuidadores, pois é fundamental trabalhar o conhecimento sobre as relações entre paciente e cuidadores (AZEVEDO E SANTOS, 2006).
Na visão de Ferreira e Araújo (2005), é possível pensar que um programa de reabilitação influencia o modo de enfrentamento dos participantes, podendo mobilizar os sujeitos a buscar estratégias que viabilizem uma melhor adaptação à situação da lesão medular. A clareza das informações e o repasse consistente das orientações possibilitarão uma reorganização da vida não somente do portador da lesão medular, mas também dos integrantes da rede sócio-familiar na qual ele se encontra, contribuindo, desta maneira, para a melhoria da qualidade de vida de todos os implicados.
Portanto, diante desses estudos podemos considerar que não existe tratamento eficaz que resolva a patologia após a lesão medular e sim que a reabilitação de forma mais precoce possível é umas das maneiras de evitar complicações associadas ao TRM e também de acordo com o potencial de reabilitação da pessoa, fornecendo meios de torná-la o mais independente possível para as atividades de vida diária,
melhorando com isso sua qualidade de vida e sua reinserção social. De acordo com Vall et al. (2006), as pessoas com lesão medular traumática possuem grandes comprometimentos de sua qualidade de vida, em todos os aspectos, principalmente no que se refere aos “aspectos sociais”, pois esse sujeito fica, na maioria das vezes, isolado dos amigos, do seu grupo de trabalho, da sua roda de convívio social, pela própria limitação física imposta pela lesão medular, o que compromete sua interação social.
Cada pessoa é um ser com uma história de vida e com características próprias que podem determinar de forma decisiva que as capacidades funcionais e psicossociais sejam preservadas para serem trabalhadas na sua reabilitação. Através da reabilitação, pessoas com incapacidades serão capacitadas para mobilizar recursos, decidir o que desejam e o que são capazes de ser, que metas querem alcançar através de seus esforços e seguir seus caminhos previstos. O programa de tratamento deve ser específico para cada paciente, levando em consideração não apenas o nível da lesão, mas o paciente como um todo, já que cada um apresenta características, necessidades e anseios próprios (VALL, 2011).
Por tratar-se de uma condição que se instala de maneira inesperada na vida das pessoas, além de vir acompanhada de limitações físicas e funcionais também causam respostas emocionais quase sempre inesperadas e por isso é importante para o sucesso do tratamento e um envolvimento empático na relação enfermeiro-sujeito para que o enfermeiro possa realizar um suporte emocional adequado e eficiente. O bem-estar a ser atingido depende também do apoio emocional que o paciente recebe, pois esse não deve ser tratado como um “doente”. Essa pessoa necessita ser visto de uma forma holística, como um “todo” e não
em “partes”, tem necessidades particulares. De modo especial, o enfermeiro pode auxiliar no sentido de conduzir essa pessoa a uma nova visão de vida, a uma vida com outras oportunidades, podendo auxiliar na busca de um novo sentido pela vida (AMARAL, 2009).
A forma de conduzir “sua nova vida” após a lesão medular foi observada por Barone e Waters (2012), quando estudou sobre o enfrentamento e adaptação de adultos com lesão medular, observando que a adaptação biopisicossocial após a lesão medular constitui um desafio com várias faces, não só para o indivíduo, mas também para sua família e profissionais da saúde e que lidar de maneira adequada com essa condição propicia uma melhora na qualidade de vida e reduz as complicações decorrentes da lesão medular.
De acordo com estudo de revisão bibliográfica realizado por LEMA-HENAO e PARRA-PÉREZ (2010) constatou-se que algumas variáveis, tais como idade de ocorrência da lesão, tempo de lesão, sexo, presença de complicações, gravidade da lesão influenciam o estado da deficiência após a lesão medular e que esses são pontos importantes a serem considerados na avaliação e na condução de programas de reabilitação para essa população, pois além das abordagens tradicionais novas propostas terapêuticas devem pensar o sujeito como um todo, contemplando aspectos biopsicossociais para que esse sujeito possa ser incluído na sociedade com o maior grau de independência e de autonomia posssível.
A pessoa com lesão medular passa a conviver com a deficiência física de uma maneira repentina, devido à natureza do evento etiológico e também pelo fato desse agravo se instalar de uma forma inesperada, abrupta, fazendo com que essa pessoa passe a conviver com a