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A RUA. História de duas cidades.

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Academic year: 2021

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Copyright © 2013 Jonathan Conlin - publicado via acordo especial com a ATLANTIC BOOKS. em conjunto com a VBM Agência Literária, sua representante devidamente autorizada.

Copyright © 2015 Autêntica Editora

Titulo original: Tales of Two Cities: Paris, London and the Birth of the Modem City

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletronicos, seja via cópia xerográfica. sem a autorização prévia da Editora.

EDITORA RESPONSÁVEL Rejane Dias EDITORA ASSISTENTE Cecília Martins REVISÃO Aline Sobreira Livia Martins CAPA Diogo Droschi

(Sobre Torre Eiffel: Exposição Universal de 1889 - Paris / Autor anônimo; e Big 8en: BWikiWitchA/Vikimedia Commons.) DIAGRAMAÇAO

Christiane Morais de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro. SP, Brasil)

Conlin, Jonathan / História de duas cidades : Paris. Londres e o nascimento da cidade moderna /

jonathan Conlin ; tradução Márcia Soares Guimarães. -- 1. ed. -- Belo Horizonte . Autêntica Editora, 2015.

Título original: Tales of Two Cities: Paris, London and the Birth of the Modem City. ISBN 978-85-8217-493-7

1 Arquitetura e sociedade - França - Paris - História - Século 19 2. Arquitetura e sociedade - Inglaterra - Londres - História - Século 19 3. Cidades e vilas - História - Século 19 4. Espaço (Arquitetura) - França - Paris - História - Século 19 5. Espaço (Arquitetura) - Inglaterra - Londres - História - Século 19 I. Título.

15-00883 CDQ-720.103 índices para catálogo sistemático:

1. Arquitetura e sociedade 720.103

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I n t r o d u ç ã o : Travessias d i f í c e i s A boneca na diligência O d e m ô n i o n o canal U m bulevar e m M a r y l e b o n e 1: A casa a g i t a d a A invenção do edifício Favelas n o céu M u i t o quente! M a n s õ e s n o céu 2: A rua R u a s sujas O b s e r v a n d o vitrines Placas e arte O h o m e m - s a n d u í c h e 3: O r e s t a u r a n t e O Palais R o y a l O s rivais do restaurante C o m e n d o a sós O chef, u m a celebridade

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C a p í t u l o 2

A rua

JErn

setembro de 1889, o poeta A r t h u r Symons, então c o m 24 anos de idade, fez a sua primeira visita a Paris. Filho de u m m i n i s t r o da Igreja Wesleyana, ele havia nascido e m M i l f o r d Haven, e sua educação formal havia t e r m i n a d o aos 17 anos, quando sua família m u d o u - s e para Somerset. A r t h u r tinha acabado de publicar a sua primeira coletânea de versos, Days and Nights [Dias e noites] (1889). Era admirador fervoroso de Paul Verlaine e outros simbolistas e levou como companhia de viagem o sexólogo H e n r y Havelock Ellis, na época u m estudante de medicina. Para Symons, a via-g e m era u m a o p o r t u n i d a d e — avia-guardada havia muito t e m p o — de conhecer pessoalmente a cidade dos autores e poetas que venerava.

• N o seu p r i m e i r o d o m i n g o e m Paris, o rapaz c a m i n h o u devagar e r e l a x a d a m e n t e , para c i m a e para baixo, n o Boulevard des Italiens, " d e 9 às 12 horas da m a n h ã , t o m a n d o o que Baudelaire c h a m o u de ' b a n h o de multidão'". O s resultados da eleição h a v i a m acabado de ser divulgados e, p o r t a n t o , ele "teve o prazer de observar os h u m o r e s de u m g r a n d e n ú -m e r o de franceses".1 E n q u a n t o estava na capital francesa, A r t h u r t a m b é m teve a o p o r t u n i d a d e de se e n c o n t r a r c o m os poetas S t é p h a n e M a l l a r m é e Paul Verlaine. Ele n ã o estava mais e m Yeovil, Somerset.

A carreira de Symons c o m o embaixador cultural, criando u m vínculo entre Paris e Londres, havia se iniciado. Ele voltou a Paris no ano seguinte, t e n d o p e r m a n e c i d o nessa cidade por três meses. E m b o r a houvesse esta-belecido residência e m Londres (em F o u n t a i n C o u r t , p r ó x i m o à Strand), e m 1891, Symons c o n t i n u o u a visitar Paris e chegou a pensar e m se m u -dar para lá. E m Londres, fazia parte do círculo de G e o r g e M o o r e , W . B. Yeats e Aubrey Beardsley. A u t o r de milhares de críticas literárias, Symons fez mais que qualquer outra pessoa para que os vitorianos apreciassem o simbolismo e o esteticismo, c o m o algo mais do que u m a agressão bruta

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à moralidade da classe média ou u m a maneira de expressar a f n v o h d a d e que até hoje associamos c o m os " N a u g h t y N . n e t i e s

Apesar de sua carreira haver se e n c e r r a d o e m 1908, c o m o resultado de u m a crise nervosa, já encontramos Symons c o m o tradutor de romances imorais de Z o l a e v a m o s e n c o n t r á - l o n o v a m e n t e c o r n o u m c a m p e a o d o mmic hall N o m o m e n t o , estamos mais mteressados e m determinar ape-nas o q u e S y m o n s pensou q u e estava f a z e n d o n o B o u l e v a r d des Itahens

n a q u e l a m a n h ã d e 1 8 8 9 .

?A referência a Charles Baudelaire é a chave para isso. E m 1863, o p o e t ^ b T í c o u u m ensaio, intitulado O pintor da vida moderna, elogiando ? artista C o n s t a n t i n Guys. Baudelaire chamou a atenção para u m a maneira de enxergar a cidade, n o trabalho de Guys, que ele identificou c o m o caracte-• n s ü c a m e n t e m o d e r n a . E m vez de p r o c u r a r controlar ou restringir a - c a d a

mais acelerada - p r o d u ç ã o de bens, t a m b é m cada vez mais efêmeros, a circulação a p a r e n t e m e n t e aleatória de multidões e a destruição criativa constante da própria cidade, Guys a b o r d o u todas as facetas da cidade. • '/Essa m a n e i r a de ver fot i n c o r p o r a d a na f i g u r a de u m c a m i n h a n t e s o l i í á n ^ e passeava pelas ruas s e m n e n h u m o b j e t i v o ou p r o p o s i t o e m m e n t e , c o m a ú n i c a i n t e n ç ã o de r e u n i r impressões: u m h o r i z o n t e de prédios, a sensação de tocar e m u m p e d a ç o de. tecido e x p o s t o e m u m a L a " u m f r a g m e n t o de conversa, o v i s l u m b r e d o rosto de u m a m u l h e r na m u l t i d ã o . N e m promeneur (alguém que passeia pelas ruas e por locais públicos) n e m batteur de pavk (literalmente, "pisador de calçada , vaga-b u n d o ) esse c a m i n h a n t e era o u t r a coisa: u m jlâneur./f

//O üâneur de Baudelaire fez da multidão o seu lar, saboreando o a n o n i m a t o q u e isso l h e t r o u x e , u m a n o n i m a t o q u e (ao contrário daquele d o "pisador de calçada") era tão fascinante, q u a n t o e n o b r e c e d o r . C o m o - q u a l q u e r leitor d e "À u n e passante" e de o u t r o s p o e m a s P e c a d o s e m sua coleção Asjlores do mal (1857) pode atestar, a poesia de Baudelaire seguiu de p e r t o esse m o d e l o , destilando o e t e r n o d o t r a n s i t o n o . (! & O bain de muhitude (banho de multidão) v e m de u m ensaio posterior, "" «As m u l t i d õ e s " (1869), p a r t e da obra e m vários v o l u m e s O spleen de Paru, de B a u d e l a i r e . " T o m a r u m b a n h o de m u l t i d ã o n ã o é para t o d o m u n d o , B a u d e l a i r e e s c r e v e ^ " m u l t i d ã o e solidão são u m a e a m e s m a coisa para o p o e t a ativo e f e c u n d o " , cuja a l m a e r r a n t e e n t r o u e m u m ou o u t r o t r a n s e u n t e , p o r i m p u l s o , e m u m a "orgia inefável", " u m a prostituição sagrada d a a l m a " . ^ ) jiâneur possui, portanto, u m a postura ao mesmo " t e m p o m o d e s t a e u í t r ã j a n t e m e n t e a r r o g a n t e . E m b o r a possa d e s d e n h a r de -'• --riqueza o u a m o r , sua apropriação d a cidade c o m o seu d o m í n i o d e m o n s t t a

/

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u m a segurança q u e atraiu Symons e muitos outros. Essa pretensão é p r o -v e n i e n t e de u m a con-vicção de q u e todos os outros habitantes da cidade são, de a l g u m a f o r m a , cegos ou surdos a ela, de que a cidade revela seus segredos s o m e n t e 20 Jiâneur$

O Jiâneur se. tornou u m a espécie de estereótipo, u m clichê urba-n o . Á p e s a r de Guys — que m o r o u e m Lourba-ndres e urba-n t r e 1842 e 1848 e q u e •sprovavelmente t r a b a l h o u para a Punch [revista semanal britânica de h u m o r e sátira publicada na época] — estar esquecido, acredita-se que os impressionistas a d o t a r a m a visão do Jiâneur em suas representações da cidade e de seus arredores.íÉssa atenção bajuladora dedicada ao Jiâneur se deve, em g r a n d e parte, a u m sociólogo d o início d o século X X , W a l t e r B e n j a m i n , autor de Passagens, u m trabalho sobre Paris no século X I X . O ensaio i n t r o d u t ó r i o de B e n j a m i n a essa obra i n c o m p l e t a — intitulado: "Paris, H a u p s t a d t der 19. j a h r h u n d e r t " [Paris, capital d o século X I X ] -influenciou p r o f u n d a m e n t e a maneira c o m o a cidade passou a ser vista a partir de então. A. conclusão de B e n j a m i n — de q u e Paris criou o Jiâneur — é a m p l a m e n t e aceita.8

F i g u r a 8 - D e t a l h e d e N i c h o l a s Yeacs a p a r t i r d e R o b e r t T h a c k e r , Vista de St Mary le Bow,

c. 1680

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P o r é m , é t a m b é m e q u i v o c a d a . O p r i m e i r o fiâneur não foi o "es-p e c t a d o r a "es-p a i x o n a d o " de B a u d e l a i r e , mas s i m o M r . S "es-p e c t a t o r , de J o s e p h A d d i s o n e R i c h a r d Steele, e d i t o r h o m ô n i m o d o p e r i ó d i c o de sua

p r o p r i e d a d e , The Spectator, publicado entre 1711 e 1712.9/C f a t o de esse m o d o de c a m i n h a r u r b a n o h a v e r a p a r e c i d o t ã o mais cecio e m L o n d r e s foi r e f l e x o de m e l h o r i a s u r b a n a s - calçadas, sarjetas, i l u m i n a ç ã o das r u a s - realizadas d e p o i s d o G r a n d e I n c ê n d i o de 1666, p a r t i c u l a r m e n t e nas áreas e l e g a n t e s d o oeste da c i d a d e . Tais m e l h o r i a s p o s s i b i l i t a r a m a esse p e r i p a t é t i c o filósofo p e r a m b u l a r pelas r u a s sem ficar e n c h a r c a -d o -de l a m a , s e m ser assalta-do o u , ain-da, s e m ser a t r o p e l a -d o p o r u m a c a r r o ç a . y X c h e g a d a dessas m e l h o r i a s a Paris foi d o l o r o s a m e n t e m a i s l e n t a , para a g r a n d e f r u s t r a ç ã o d e aspirantes a M r . S p e c t a t o r f r a n c ê s , c o m o M e r c i e r e, 70 anos depois, T h é o p h i l é G a u t i e r . Mas, f i n a l m e n t e , elas c h e g a r a m .

O processo pelo qual os l o n d r i n o s e os parisienses a p r e n d e r a m a c a m i n h a r c o m o u m a atividade de lazer é mais c o m p l e x o d o que p o d e p a r e c e r / N o início da nossa época, a idéia de q u e era possível c a m i n h a r pelas r u a s p o r prazer, a n o ç ã o d e que coisas triviais c o m o pedras d o calçamento, a n ú n c i o s e p r o p a g a n d a s p o d e r i a m ser fonte de diversão ou m e s m o de f a s c í m o s o a r i a m para u m habitante da cidade c o m o p r o f u n -d a m e n t e e s t r a n h a s / Q u e m escolheria an-dar, q u a n -d o po-dia p e g a r u m a carroça ou u m a c a r r u a g e m ? Q u e m desejaria t r a n s f o r m a r a e x e c u ç ã o de tarefas r o t i n e i r a s n a cidade e m u m passeio t r a n q ü i l o ? E , ainda, fazer das c o m p r a s atividades interessantes? A f i n a l , o q u e estava lá q u e valia a p e n a observar? C o m o v e r e m o s , ao aprender a c a m i n h a r - simplesmente p o r c a m i n h a r - , l o n d r i n o s e parisienses t a m b é m a p r e n d e r a m a ver a cidade pela p r i m e i r a vez.

R u a s sujas

/ ' O c o n t r a s t e e n t r e L o n d r e s , tão favorável aos pedestres, e P a r i s , . o n d e a .carroça reinava, está claro e m trabalhos de comentaristas f r a n -ceses d o final d o século X V I I I , c o m o Louis-Sébastien M e r c i e r , R é t i f de La B r e t o n n e e H e í i r i D e c r e m p s . Un parisien à Londres, de Decremps, incluía u m a seção q u e aconselhava os leitores sobre c o m o c a m i n h a r nas ruas de L o n d r e s . " A l g u m a s ruas nessa cidade são t ã o largas e providas de calçadas t ã o boas e limpas", ele observou a d m i r a d o , " q u e p o d e m ser usadas c o m o promenades" [locais públicos pavimentados, adequados para caminhadas].1 0 Isso graças ao fato de que as ruas principais e r a m divididas

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e m u m a área central e u m a calçada para pedestres, de cada lado, c o m postes de a m a r r a ç ã o para estacionar carroças e c a r r u a g e n s . U m d e s e n h o de C h e a p s i d e (Fig. 8), feito e m 1680, deixa ciara essa c o n f i g u r a ç ã o já existente na época, e n q u a n t o u m desenho da R u e Q u i n c a m p o i x , e m Paris, e m 1720 (Fig. 9), não mostra n e n h u m a separação entre áreas para pedestres e para veículos..'

' E m b o r a as r u a s de L o n d r e s fossem bastante sujas, de a c o r d o c o m os p a r â m e t r o s a t u a i s , n ã o a p r e s e n t a v a m n a d a e q u i v a l e n t e aos décro-teurs de Paris — garotos e h o m e n s que se j u n t a v a m nas pontes e nos p r i n c i p a i s c r u z a m e n t o s , o f e r e c e n d o - s e para r e m o v e r a i m u n d í c i e d o c a l ç a d o dos t r a n s e u n t e s . A l a m a de Paris t i n h a (má) f a m a n o s s é c u -los X V I I e X V I I I , e n o i n í c i o d o século X I X ; até h o j e , o p r a z e r d o Jiâneur é limitado pela necessidade constante de t o m a r cuidado com

e x c r e m e n t o d e c a c h o r r o s ,

C o m o M e r c i e r observou, havia pouca necessidade de décroteurs em Londres.1 1 N o início d o século X V I I I , investidores e m p r o p r i e d a d e s n o g r a n d e W e s t E n d t o m a r a m medidas para incluir p a v i m e n t a ç ã o e limpeza das calçadas e m suas cláusulas contratuais de aluguel, práticas regularizadas e ampliadas pelo W e s t m i n s t e r P a v i n g Act, pelo L o n d o n L i g h t i n g Act, .:àmbos de 1761, e pelo B u i l d i n g Act, de 1 7 7 4 . ' ^ m seu Parallèle, Mercier r e i v i n d i c o u q u e calçadas (trottoirs) do estilo londrino fossem adotadas e m Paris. C a s o c o n t r á r i o , ele advertiu, Londres, o n d e o pedestre t i n h a preferência, sempre deixaria Paris envergonhada.1^'

F i g u r a 9 - D e t a l h e d a i l u s t r a ç ã o d e A n t o i n e H u b l o t da R u e Q u i n c a m p o i x , e m P a r i s , l o c a l d e c é l e b r e c o m é r c i o d e a ç õ e s , 1 7 2 0

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^ A c i d e n t e s c o m carroças e carruagens e n v o l v e n d o pedestres estavam f i c a n d o tão c o m u n s e m Paris q u e a polícia foi forçada a a d o t a r u m a regra prática básica. Se o p e d e s t r e fosse a t r o p e l a d o pela r o d a da f r e n t e d o veículo, ele era o c u l p a d o , e n t e n d e n d o - s e q u e o p e d e s t r e deveria ter saído d o c a m i n h o . P o r é m , se ele fosse a t r o p e l a d o pela r o d a traseira, a c u l p a era d o c o n d u t o r , e n t e n d e n d o - s e q u e se ele estivesse p r e s t a n d o a t e n ç ã o s u f i c i e n t e , p o d e r i a ter p a r a d o a t e m p o de i m p e d i r q u e as rodas traseiras f e r i s s e m o p e d e s t r e .

yf h c o m b i n a ç ã o d e b a r r o e v e í c u l o s m o v e n d o - s e r a p i d a m e n t e t a m b é m , s i g n i f i c a v a q u e os p e d e s t r e s e r a m a t i n g i d o s p e l a l a m a a r r e -m e s s a d a pelas r o d a s ^ E n ã o era apenas q u a l q u e r l a -m a , -m a s s i -m a l a -m a d e Paris, c u j o p o d e r de g r u d a r era p r o v e r b i a l (il tient comme la boue de Paris; " g r u d a c o m o a lama de Paris"). C o m o auxílio,da a.parente. i n d i f e r e n ç a d o s m o r a d o r e s e da falta de e s g o t o s , .a l a m a resistia f i r m e -m e n t e aos e s f o r ç o s d o service de la uoirie, o serviço de saneamento da c i d a d e , q u e oscilava e n t r e as tentativ.as.de c o n v e n c e r os m o r a d o r e s a f a z e r e m a sua p a r t e e l i m p a r e m a área e m f r e n t e às suas p r o p r i e d a d e s e de c o n t r a t a r e m p r e i t e i r o s p a r a fazer a l i m g e z a das r u a s . ^ Á n e c e s -sidade d e se e s q u i v a r d e p o ç a s e os g a r o t o s e n t r e g a d o r e s g r i t a n d o "Gare! Gare!" [Abram espaço!] faziam parecer ridícula a idéia de ser u m flâneur e m Paris.

/ 5 \ l é m disso, as pessoas n ã o p o d i a m se vestir de f o r m a a p r o p o r -c i o n a r u m e s p e t á -c u l o para os outros: suas r o u p a s finas e -caras s e r i a m c o b e r t a s d e l a m a p o r u m a simples sarjeta — q u e ficava n o m e i o da r u a , ao c o n t r á r i o das sarjetas d e L o n d r e s , q u e e r a m localizadas e n t r e a área c e n t r a l e as c a l ç a d a s / À . classe m é d i a de Paris n o s é c u l o X V I I e n o c o -m e ç o do s é c u l o X V I I I tentava i -m i t a r a elite, e v i t a n d o as r u a s o -m á x i -m o possível. A n d a r a pé, e m vez de usar u m v e í c u l o , era t ã o r u i m q u a n t o o encanaillement (o fato de se tornar u m dos canaille, u m m e m b r o da ralé).'6 C e r t a m e n t e , isso só a u m e n t a v a os riscos que os pedestres c o r r i a m . Flâneurs de Paris, n o século X V I I I , c o m e n t a v a m a b e r t a m e n t e sobre c o m o as c a r r u a g e n s i m p e d i a m u m a m i s t u r a social q u e talvez tornasse as pessoas m a i s p a t r i ó t i c a s . " S e u cão raivoso, c a c h o r r o ! " , grita R é t i f de La B r e t o n n e e m u m d e s a b a f o de 1788. " Q u e m l h e d e u o d i r e i t o de n o s c o b r i r d e l a m a ? "1 7

y t o n t u d o , h a v i a l u g a r e s e m Paris o n d e se p ò d i a passear u s a n d o r o u p a s finas e caras: os b u l e v a r e s . Esses locais p ú b l i c o s h a v i a m sido " c o n s t r u í d o s a p a r t i r de Í67Õ, a o l o n g o d a l i n h a de f o r t i f i c a ç õ e s da c i

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r

Saint M a r t i n c o m p u s e r a m o p r i m e i r o s e g m e n t o a ser t r a n s f o r m a d o . P o r fim, os b u l e v a r e s se e s t e n d i a m p o r mais de 4,5 q u i l ô m e t r o s e m c o m -p r i m e n t o . Esses locais e r a m , j u n t a m e n t e c o m os j a r d i n s de Tuileries, o L u x e m b o u r g e o Arsenal, áreas protegidas, c o m u m n ú m e r o l i m i t a d o de entradas e saídas. As autoridades municipais e s f o r ç a r a m - s e p o r i m p e d i r que os bulevares se t o r n a s s e m p a r t e do sistema de tráfego da cidade, t e n d o r e s t r i n g i d o o n ú m e r o de vias que, p a r t i n d o deles, l e v a v a m de volta à cidade, assim c o m o o tipo de veículo q u e p o d i a transitar a l i .1^

. . / P o r t a n t o , q u a n d o D e c r e m p s disse que as r u a s de L o n d r e s eram . c o m o promcnades, ele quis dizer que elas p o d i a m ser usufruídas da í mesma forma que eram os bulevares e os jardins reais de Paris: c o m o ' y - ^ . u m l u g a r .convidativo para as pessoas visitarem, v e r e m e s e r e m vistas. i ^ r;-1'' " M a s n i n g u é m d e v e fazer isso", D e c r e m p s a c r e s c e n t o u , " s e m antes t o m a r a l g u m a s p r e c a u ç Õ e s " / N e s s e aspecto, a i m a g e m estereotipada do

• *

"parisiense e m L o n d r e s " reaparece, ainda o u t r a vez. O j ) a r i s i e n s e n ã o y deveria a n d a r nas ruas vestido à la française, Decremps insistia; nada de roupas de seda o u p e r u c a de cauda lo.nga.e espada.. E n q u a n t o pessoas 1 x,p' da classe m é d i a apenas r i r i a m disso, a ralé iria z o m b a r e, talvez, até

1 ^ j o g a r l a m a .

E s t r a n g e i r o s p o d e r i a m m u i t o b e m se r e c u s a r a a c e i t a r isso, D e c r e m p s a d m i t i u . A permissão para que coisas desse tipo acontecessem, j sem q u a l q u e r repressão, indicava u j n a necessidade de "polícia", assim c o m o representava u m a d e m o n s t r a ç ã o do c o m p o r t a m e n t o grosseiro d o p o v o . M a s depois ele p e r g u n t o u : se u m l o n d r i n o viesse a Paris e t e n -tasse falar à Vanglaise, discutindo política em voz alta, os franceses n ã o d i r i a m q u e esse c o m p o r t a m e n t o era i m p r u d e n t e (devido à presença de espiões da polícia, q u e s u p o s t a m e n t e o u v i a m todas as conversas)? E m outras palavras, u m a cidade t i n h a polícia de m e n o s , e a o u t r a , d e m a i s . U m a das razões para se e s t u d a r o r e l a c i o n a m e n t o P a r i s - L o n d r e s era e n c o n t r a r u m e q u i l í b r i o q u a n t o a isso.

E m se t r a t a n d o de c o s t u m e s locais — D e c r e m p s o b s e r v o u —, o l o n d r i n o , e m geral, era seu p r ó p r i o senhor, e seus c o s t u m e s t i n h a m de sei* respeitados. O s pedestres das cidades do século X V I I I a n d a v a m b e m p r ó x i m o d o m u r o das casas, e m a m b o s os lados da r u a / A s s i m , q u a n d o <v:" dois pedestres, c a m i n h a n d o e m direções opostas, a p r o x i m a v a m - s e u m ty^yX d o o u t r o , havia c o n v e n ç õ e s s o b r e q u e m se afastaria d o m u r o e q u e m p e r m a n e c e r i a naquela posição. C o m o J o h n Gay escreveu e m seu p o e m a * " T r i v i a ; or t h e A r t of W a l k i n g t h e Streets o f L o n d o n " [Trivialidades;

ou a a r t e de c a m i n h a r nas r u a s de Londres], e m 1716, era necessário

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saber q u a n d o p e r m a n e c e r p r ó x i m o ao m u r o e q u a n d o d a r passagem.2 0 A m a i o r p a r t e d o s c o m e n t a r i s t a s achava q u e a classe social d e v e r i a su-^ p e r a r q u a l q u e r o u t r a c o n s i d e r a ç ã o , inclusive o respeito a o sexo frágil.;'

E m L o n d r e s , e n t r e t a n t o , D e c r e m p s a c o n s e l h a v a o d i s t i n t o v i s i t a n t e e s t r a n g e i r o a s e m p r e d a r p a s s a g e m , até m e s m o a u m h u -m i l d e p o r t e i r o ou v e n d e d o r d e f r u t a s . " A t é os -m a i o r e s seigneurs f a z e m isso, e esse a t o , l o n g e de ser h u m i l h a n t e , s e r v e a p e n a s para d e m o n s t r a r as boas m a n e i r a s de u m c a v a l h e i r o . "2 1' 0 v i s i t a n t e deveria t a m b é m evitar outras f o r m a s , mais tradicionais, de a n u n c i a r a sua classe social. E n q u a n t o era m e r a m e n t e u m a v a i d a d e (une fatuité) u m dândi parisiense e x i b i r seus dois relógios de bolso nas ruas d e sua cidade, fazer o m e s m o nas r u a s de L o n d r e s , cheias de c r i m i n o s o s , era l o u c u r a (une démence).22

. / U m dos c o s t u m e s locais nos quais os direitos dos l o n d r i n o s não d e v i a m ser q u e s t i o n a d o s era a b r i g a de socos. A p e s a r de r i d i c u l a r i z a r o c o n c e i t o p o p u l a r de q u e e m L o n d r e s "os h o m e n s n ã o f a z e m n a d a a não ser b a t e r e m u n s nos o u t r o s o dia i n t e i r o " , D e c r e m p s r e c o m e n d a v a a seus leitores q u e n ã o ficassem surpresos se d e p a r a s s e m c o m lutas de b o x e i m p r o v i s a d a s nas ruas. Q u a n d o u m a luta t e r m i n a v a , t o d o s q u e estavam assistindo g r i t a v a m "HuzzaV três vezes. Os lutadores apertavam as mãos, e então d i r i g i a m - s e ao pub mais próximo para beberem j u n t o s . " /

P o r é m , a o c o n t r á r i o d o p a r i s i e n s e , q u e c o r r i a o r i s c o d e u m a b r i g a a cada passo q u e dava, u m l o n d r i n o t i n h a de i n d i c a r q u e estava p r o n t o p a r a u m a luta; tirava seu casaco o u fazia i.ima aposta, antes que as pessoas presentes formassem u m c í r c u l o e c o n t r o l a s s e m a d i s p u t a . Se a l g u é m socasse u m h o m e m q u e não houvesse indicado que estava p r o n t o , seria s e v e r a m e n t e p u n i d o — e m a i s s e v e r a m e n t e , D e c r e m p s a f i r m a v a , q u e e m q u a l q u e r o u t r o país. " N e s s e aspecto, os ingleses e m geral são, a m e u ver, os seres m a i s civilizados da E u r o p a . "2 4 O u seja, os l o n d r i n o s e r a m f e r o z e s , m a s civilizados.

A t é na S t r a n d , a via p ú b l i c a mais m o v i m e n t a d a e c o n g e s t i o n a d a de L o n d r e s , h a v i a u m l a d o m a i s d ó c i l , D e c r e m p s r e v e l o u . O a u t o r d e s c r e v e u u m a e x p e r i ê n c i a feita n o a n o a n t e r i o r (1788) p o r u m i n -glês, q u e l e v o u u m g a r o t o d e 5 anos de i d a d e até a C h a r i n g C r o s s e, a p a r t i r dali, fez c o m q u e ele c a m i n h a s s e s o z i n h o até a casa d o pai, e m T e m p l e B a r — p e r t o d e o n d e estão h o j e os R o y a l C o u r t s o f J u s t i c e . A o q u e p a r e c e , a e x p e r i ê n c i a foi feita para testar a c r i a n ç a . O r e s u l t a d o foi s u r p r e e n d e n t e . \

/

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Não só ele não foi atacado como também mais de 200 indivíduos desviaram-se do caminho para deixá-lo passar; em todos os lugares onde tinha de andar na lama, para atravessar de uma calçada para a outra, o garoto encontrou mulheres amáveis que o carregaram, acariciando-o o tempo todo. O menino chegou à casa de seu pai são e salvo, comendo doces que havia ganhado no caminho. Uma experiência que visava a provar a inteligência do garoto acabou atestando a gentileza e as boas maneiras dos ingleses.25

E m b o r a a intenção fosse tranqüilizar, neutralizar as muitas his-tórias de violência arbitrária em Londres, d i f u n d i d a s e comentadas na França, o relato de D e c r e m p s provavelmente c o n f u n d i u seus leitores mais do que os esclareceu.

M e s m o na época da anglomania, as imagens que os franceses ti-n h a m da Iti-nglaterra eram cheias de paradoxos. A coti-nstituição iti-nglesa, da forma c o m o era (e não era u m d o c u m e n t o escrito, c o m o a dos Estados Unidos), era muito admirada pela população, mas pouco compreendida.2 6

Acreditava-se que o patriotismo inglês havia levado a nação à vitória na Guerra do Sete Anos. C o n t u d o , isso teve u m custo: u m grau de instabilidade política que parecia alto demais para muitos observadores f r a n c e -ses.27 O s distúrbios causados pelo M o v i m e n t o Wilkite, em 1768 e 1771; a

»oH Revolução Americana, e m 1776; e os G o r d o n R i o t s , e m 1780, t u d o isso f ( confirmava, regularmente, os precdnceitos alimentados por pessoas da

elite francesa que esperavam que a Grã-Bretanha destruísse a si mesma,

\j y ^Vítima de suas próprias contradiçÕesl"Os ingleses nunca destruirão uns

vVf,-' aos outros t a n t o q u a n t o gostaríamos", escreveu o p r i m e i r o - m i n i s t r o ^"V'*" francês, o D u c de Choiseul, e m maio de 1768, logo após u m m o t i m

0 sangrento e m St George's Fields.28 U m a terra de republicanos e regicidas,

periodicamente incinerada p o r agitações revolucionárias, Londres era u m a cidade cujas próprias muralhas cheiravam a sangue — pelo m e n o s de acordo c o m u m panfleto francês publicado após os G o r d o n Riots.2 9

Era apenas u m a questão de t e m p o para que t u d o desabasse, e o serviço secreto francês estava fazendo a sua parte para facilitar as coisas — t a n t o f o r n e c e n d o armas, às escondidas, para os rebeldes n o r t e - a m e r i c a n o s quanto criando planos de apoio ao M o v i m e n t o Wilkite.3 0

//Tais contradições se refletiam n o m o d o c o m o os parisienses v i a m . Londres: u m a cidade b e m maior e mais populosa, p o r é m b e m m e n o s • i f V policiada que a d e l e s . / t o m o era possível entender u m a cidade o n d e calçadas inovadoras e largas, feitas para as pessoas passearem, serviam

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-de palco para rituais violentos e ultrapassados, nos quais dois indivíduos se esforçavam para espancar u m ao outro? U m a cidade cujos residentes eram tão solícitos com os cavalos que se alguém fosse visto agredindo um desses animais (como era sabido que os parisienses faziam - pelo menos de acordo c o m Mercier) - estaria correndo sérios riscos?31/

-v ^Mercier havia sido testemunha ocular dos Gordon Riots de 1780,

tu-multos caóticos, violentos e anticatólicos que perduraram por uma sema-na, e que foram desencadeados por George Gordon, o líder da Protestant Association. Apesar de a turba haver atacado o Bank of England, aberto cadeias à força e causado muitos incêndios criminosos - até 11 mil sol-dados serem trazidos e começarem a atirar (matando várias centenas de pessoas) de acordo c o m o relato de Mercier, a violência da multidão possuía u m alvo preciso.

O s manifestantes eram tão disciplinados - Mercier escreveu - que, enquanto, cuidadosamente, estilhaçavam as janelas e destruíam a p r o -priedade dos ministros que haviam despertado a sua ira, os residentes das casas, em ambos os lados da rua, p o d i a m assistir a esse trabalho em total s e g u r a n ç a / Ò s devedores que se v i r a m livres da cadeia foram para suas casas, mas ficaram ali apenas t e m p o r a r i a m e n t e . "A maioria dos prisioneiros por dívidas retornou posteriormente, por vontade própria", Mercier observou. " O u t r o s devedores escreveram imediatamente para dizer aos seus credores onde estavam e avisar que eles não precisavam se preocupar."3 2 Para Mercier, foi a consciência do londrino pertencente à

classe trabalhadora de que ele e seus companheiros eram "sempre seus próprios senhores" que fez c o m que ele monitorasse e controlasse o seu próprio comportamento. Por outro lado, se os parisienses se encontras-sem na mesma situação, isto é, se descobrisencontras-sem que estavam livres da vigilância e da polícia, o resultado seria u m caos.33

O b s e r v a n d o v i t r i n e s

./As primeiras calçadas de Paris apareceram na década de 1780, como

parte de u m a revitalização das cercanias d o O d é o n . Foram criadas novas ruas, cqnvergindo na Place de l ' O d é o n , onde 6cava o teatro de mesmo n o m e a s s e era u m de u m a série de grandes investimentos e m edifícios financiados por especuladores, discutidos no capítulo anterior. Havia, na verdade, construções de teto plano e m ambos os lados da Pont Neuf, erguidas às custas do rei, entre 1578 e 1607. Mas eram destinadas a p r o -porcionar espaço para a venda de mercadorias, e não para o trânsito de

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pedestres.3 4 A P o n t N e u f foi, por séculos, u m a das principais atrações de Paris, a d m i r a d a c o m o u m a maravilha da e n g e n h a r i a , assim c o m o pelas vistas inigualáveis da cidade que ela proporcionava, vistas inexistentes nas outras pontes, devido às casas construídas nelas. N o final da década de 1780, as casas na P o n t N o t r e D a m e f o r a m f i n a l m e n t e demolidas, u m m o m e n t o i m o r t a l i z a d o pelo p i n t o r H u b e r t R o b e r t .

T o d a v i a , c o m e x c e ç ã o d o resultado desses i n v e s t i m e n t o s , as cal-çadas e r a m raras e m P a r i s . / Q u a n d o o voyageur Babillard tentou passear pela R u e d e La Seine, o r e s u l t a d o foi u m desastre: ele se p e r d e u , foi d e t i d o e e m p u r r a d o p o r c a r r e g a d o r e s e, f i n a l m e n t e , quase se a f o g o u e m sarjetas t r a n s b o r d a n t e s . P o r fim, desistiu de t e n t a r ser u m Jiâneur e t o m o u u m a c a r r u a g e m de aluguel, l a m e n t a n d o o fato de Paris n ã o possuir as calçadas de L o n d r e s . ^ A s ruas i m u n d a s da capital francesa c o n t i n u a r a m a o f e r e c e r u m b o m sustento para os décroteurs, inclusive já n o ^século X I X .

/ É m 1822, Paris só p o d i a se vangloriar de 267 m e t r o s de calçada e m toda a c i d a d e .3 6J u n t a m e n t e c o m os Jardins de Tuileries e o L u x e m b o u r g , os " W a u x h a l l s " , ou j a r d i n s de lazer [pleasure gardens] no estilo londrino, e r a m os ú n i c o s locais o n d e se p o d i a passear e fazer compras n a Paris d o A n t i g o R e g i m e .yN o Colisée, que foi a b e r t o em C h a m p s Elysées e m .1771, três arcadas i n d e p e n d e n t e s , ligadas ao g r a n d e salão central, cada u m a c o m 10 lojas de cada lado, v e n d i a m jóias, vestuário e bilhetes de loteria. I n f e l i z m e n t e , o Colisée era distante demais para a m a i o r p a r t e das pessoas e foi fechado, dois anos depois, l e v a n d o c o m ele a p r i m e i r a f o r m a de shopping center parisiense.3 7

7 . y O s d â n d i s então c o m e ç a r a m a f r e q ü e n t a r os passages_(arcadas de ^lojas cobertas) localizados n a área nordeste d o Palais R o y a l . A Galerie de

Bois, u m a seqüência de lojas de madeira que ligava as duas e x t r e m i d a -des das arcadas d o Palais R o y a l , foi aberta e m 1786. Õ Passage Feydeau e o Passage d u C a i r e f o r a m abertos e m 1791 e 1799, r e s p e c t i v a m e n t e . E n t r e t a n t o , o a p o g e u dos passages foi entre 1822 e 1837, a era do Passage C o l b e r t (1826). Esses locais p r o p o r c i o n a v a m a.os Jiâneurs a o p o r t u n i d a -de -de passear, sob u m teto -de vidro, d u r a n t e todas as estações d o ano, o l h a n d o e desejando pessoas e artigos de l u x o exibidos nas boutiques em a m b o s os lados. Esses estabelecimentos e r a m protegidos p o r grades nas duas entradas que davam para a rua, p o r t a n t o , não era necessário colocar venezianas g r a n d e s e maciças (yolets) ao final do expediente./'

. / A fachada das lojas de Londres no século X V I I e n o início d o século X V I I I , t i n h a u m a porta estreita ladeada p o r duas aberturas cobertas por

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venezianas, q u e e r a m divididas h o r i z o n t a l m e n t e . A m e t a d e de cima, q u a n d o aberta, constituía u m toldo; a de baixo possuía pés dobráveis, que possibilitavam q u e ela servisse de balcão e x t e r n o da loja. Assim, as m e r c a -dorias ficavam expostas sobre a r u a / È m Paris, m u i t a s lojas não possuíam n e n h u m a fachada. E m 1767, Gabriel de S a i n t - A u b i n localizou a loja de • P é r i e r — u m quincaillier, ou vendedor de ferragens —, possivelmente para

•'jO' .. u m cartão comercial destinado a fazer p r o p a g a n d a d o seu estabelecimen-/ 0; to, através da placa da " C a b e ç a de M o u r o " , n o Q u a i de La Mégisserie.-^'

v- / Essa c o n f i g u r a ç ã o parece ter sido usada até m e s m o pelo estabeleci-;. " m e n t o c o m e r c i a l do v e n d e d o r de gravuras E d m é - F r a n ç o i s Gersaint, na

Pont N o t r e D a m e , retratado n o f a m o s o L'Enseigne de Gersaint [A loja de Gersaint] (1720) (Fig. 10). O s funcionários de Gersaint t e r i a m de carregar V todas as pinturas, cadeiras e caixotes (mostrados na ilustração) para dentro • :;'J e para fora d o c ô m o d o traseiro, todos os dias. As paredes são de pedra V descoberta, f a z e n d o c o m que o espaço pareça mais a d e q u a d o para abrigar .

cavalos d o q u e para vender artigos de l u x o para aristocratas b e m - v e s t i d o s . /

F i g u r a 10 — P i e r r e A v e l i n e a p a r t i r d e J e a n A n t o i n e W a t t e a u , A loja de Gersaint, 1 7 3 2 j ' / ' v U m l o c a l c o m o . esse seria i m p e n s á v e l e m L o n d r e s n o i n í c i o d o ..^X, ^ s é c u l o X V I I I . C e r t a m e n t e , haveria u m a f a c h a d a a d e q u a d a , c o m v i t r i -J5' nes e i n t e r i o r c u i d a d o s a m e n t e c o b e r t o s c o m a l g u m m a t e r i a l . M e s m o antes d o G r a n d e i n c ê n d i o , parisienses c o m o S a m u e l S o r b i è r e a c h a v a m v° a o r n a m e n t a ç ã o das lojas de L o n d r e s i m p r e s s i o n a n t e , " d e l i c i a n d o o . o l h a r e a t r a i n d o a a t e n ç ã o de q u e m passava p o r elas".39 O s o b s e r v a d o r e s

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ingleses t a m b é m f o r a m surpreendidos pela velocidade c o m que as lojas estavam recebendo fachadas primorosas. " N u n c a houve essa p i n t u r a e esse brilho, essas vidraças [isto é, vitrines] e espelhos, e n t r e os comerciantes, c o m o há agora", a f i r m o u D a n i e l D e f o e , e m 1726. D e f o e c o m p a r o u , um canto i n j u s t a m e n t e , as lojas chamativas de L o n d r e s a u m francês vestido de f o r m a a d e m o n s t r a r e x t r e m a vaidade.4V

E m b o r a as vitrines fossem tributadas, as várias vidraçarias de Londres ^ c o m p e t i a m l i v r e m e n t e e n t r e si, o que m a n t i n h a os preços baixos. Já as "francesas, c o m o a St G o b a i n (aberta e m 1665, p o r Colbert), gostavam da proteção dos m o n o p ó l i o s reais.-'A fachada das lojas londrinas c o n t i n u o u a impressionar os visitantes parisienses d u r a n t e t o d o o século X V I Í l , e • m e s m o n o século X I X , não só p o r q u e possuía vitrines, mas t a m b é m porque era i l u m i n a d a à noite, ficando aberta até as 20, ou 21 horas.41 E m 1831, E d w a r d Planta ainda comentava sobre c o m o e r a m poucas as lojas c o m vitrines apropriadas e m Paris.4 ?í

, ; A c o n s t r u ç ã o da R e g e m Street, projetada pelo a r q u i t e t o real J o h n Nash e q u e avançava p o r M a r y l e b o n e , entre 1817 e 1832, provavelmente abriu u m a nova via arterial de tráfego, ligando o norte ao sul, mas a rua se destacou, principalmente, p o r ser o coração de u m a nova área comercial.43 C o m suas arcadas repletas de lojas (cobertas por residências) e calçadas amplas, a R e g e n t Street era alvo da inveja d o Jiâneur parisiense, assim c o m o era o lugar f r e q ü e n t a d o por dândis c o m o T o m , J e r r y e Logic, os heróis de Life in London [A vida em Londres] (1821), de Pierce Eganr Por o u t r o lado, a tentativa de N a s h de criar umpassage, em 1817, com o nome de R o y a l O p e r a A r c a d e foi u m fracasso/Apesar de a B u r l i n g t o n Arcade (1818) ter sido mais b e m - s u c e d i d a , L o n d r e s r e a l m e n t e n ã o precisava de passages, pois as ruas O x f o r d e Regent ofereciam aos compradores a m e s m a e x p e r i ê n c i a , p o r é m e m escala b e m m a i oxlj

// Foi somente c o m o aparecimento das grandes lojas de departamentos, c o m o a S a m a r i t a i n e (1869), que Paris superou Londres _como. local de

observar vitrines s e m necessariamente comprar, algo c o m o u m a cidade o n d e c o m p r a r se t o r n o u , p o r si, u m a f o r m a de arte.44 H o j e , Paris é fa-mosa pela sua afeição p o r olhar vitrines; ou lèche-vitrine, como eles dizem. A n t e s da s e g u n d a m e t a d e d o século X I X , havia poucas vitrines de lojas e m Paris para serem observadas além daquelas das arcadas, e a i n d a assim n ã o se prestava m u i t a a t e n ç ã o n e l a s .4^

C o m p r a r e p e c h i n c h a r e r a m ações que n ã o a n d a v a m j u n t a s mais, u m a vez q u e c o m p r a r mercadorias havia se t o r n a d o mais u m a diversão

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d o q u e u m d r a m a . E m b o r a as p e c h i n c h a s p o s s a m ter p r o p o r c i o n a d o u m a valiosa q u a n t i d a d e de m a t e r i a l para Jlâneurs, eles receberam en-•tusiasticamente a i n t r o d u ç ã o d o s p r e ç o s fixos, assim c o m o a c o n t e c e u

c o m os c o m p r a d o r e s (a distinção é i m p o r t a n t e , pois o Jiâneur não estava ^ ali para c o m p r a r n a d a , apenas p a r a ver a c o n t e c i m e n t o s , pessoas e c o i

-sas, para o b s e r v a r as v i t r i n e s ) .4f P r e ç o s f i x o s j á h a v i a m se t o r n a d o uma_ ^ °J^ n o r m a nas lojas d e L o n d r e s , q u a n d o M e r c i e r v i s i t o u a cidade, e m m o /

/ N a é p o c a , só os clientes m a i s a r i s t o c r á t i c ç s p o d i a m o b t e r c r é d i t o ' f d o t i p o q u e a i n d a era c o m u m e m Paris.4 7 Todas as o u t r a s pessoas p a g a

-, ^ v a m e m d i n h e i r o . ^ M e r c i e r a p r e c i o u a a g i l i d a d e nas c o m p r a s -, que foi jo-^v r e s u l t a d o disso. " E n t r e e m u m a loja e m Paris e v o c ê será c o n v i d a d o a se

. s e n t a r " — ele e s c r e v e u —, "cada i n d i v í d u o c u m p r i m e n t a o o u t r o , vocês v c o n v e r s a m s o b r e m i l coisas d i f e r e n t e s e n q u a n t o v o c ê p e c h i n c h a , até

^ m e s m o sobre a vida f a m i l i a r d o c o m e r c i a n t e o u s o b r e a c o n t e c i m e n t o s

v £1.?' - Á

>; p ú b l i c o s ; s e m p r e p e c h i n c h a n d o ; há m u i t a b a r g a n h a sobre o preço.JK . , / M u i t a s vezes, essa prática d e m o r a d a era e m vão: c o m p r a d o r e v e n -: - >;,-' d e d o r se s e p a r a v a m , " u m a b o r r e c i d o pela tagarelice d o c o m e r c i a n t e , o

o u t r o i r r i t a d o p o r n ã o ter c o n s e g u i d o v e n d e r n a d a , p r o n t o para atacar v.;-l~ . / " a p r ó x i m a pessoa a e n t r a r " . ' E m L o n d r e s , c o m p r a r era mais r á p i d o ,

^ f u m ato b r e v e e q u a s e r u d e . O s c o m p r a d o r e s e n t r a v a m nas lojas s e m r e c e b e r n e n h u m c u m p r i m e n t o f o r m a l e sem tirar o c h a p é u . U m a vez i n f o r m a d o s o b r e o q u e o c o m p r a d o r estava p r o c u r a n d o , o v e n d e d o r buscava o a r t i g o ; n ã o h a v i a n e n h u m a b a r g a n h a de p r e ç o . E r a p e g a r o u largar. " V o c ê p a g a , e o assunto está e n c e r r a d o . T a n t o o c o m e r c i a n t e como, o c l i e n t e e c o n o m i z a r a m tempo."4®/

/ À t r a n s a ç ã o p r á t i c a e e f i c i e n t e d e s c r i t a p o r M e r c i e r c o n t r a s t a .k^- bastante com a do relato de Laurence Sterne e m Viagem sentimental, escrito a n t e r i o r m e n t e (1768). N e l e , o h e r ó i , Y o r i c k , p a r a e m u m a loja de luvas para p e r g u n t a r c o m o chegar ao T h é â t r e O p é r a C o m i q u e e ^ J ? acaba e n v o l v i d o e m u m a troca de carícias m u i t o sensuais, para não dizer ^ ^ eróticas, c o m a esposa d o c o m e r c i a n t e , m a d a m e Grisset, e n q u a n t o seu rp "r m a r i d o o b s e r v a .4 9 N a d é c a d a de 1670, e m L o n d r e s , esse tipo de flerte

havia sido u m a p a r t e essencial nas t r a n s a ç õ e s c o m e r c i a i s (artigos de l u x o e m arcadas cobertas) d o s é c u l o X V I I . J á nos t e m p o s de Y o r i c k elas h a v i a m se t o r n a d o u m a l e m b r a n ç a r e m o t a .5^

O contraste e n t r e o turista sentimental e o Jiâneur mal-humorado é claro. P o d e n d o escolher e n t r e parar para interagir c o m o a m b i e n t e ou seguir adiante, o Jiâneur prefere a segunda opção. Isso é parte do que faz

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c o m que ele seja m o d e r n o . E n q u a n t o Yorick faz elogios a m a d a m e Grisset e segura a sua mão, e m u m a profusão degalanterie bem-educada, Mercier só deseja seguir adiante c o m aquilo; seja lá o q u e " a q u i l o " signifique, o * certo é que não tem nada a ver c o m contato físico.'Por trás do olhar de cobiça aparentemente agressivo, o Jlâneur é u m ser assexuado, talvez até sem g ê n e r o determinado.5 1 Se a "mercadoria" é u m par de luvas, ou se é a mulher que o vende, o jlâneur nunca compra. Ele está sempre "só olhando'/

P o d e p a r e c e r a n a c r ô n i c o falar de M e r c i e r , e a i n d a mais de M r . Spectator, q u a n d o se trata do fiâneur.^A primeira vez que a palavra apa-receu impressa foi e m u m a crítica a n ô n i m a do Salon de Paris de 1809, intitulada Le Fiâneur au Salon, ou Monsieur Bon-Homme [O jlâneur do Salon, ou S e n h o r B o n - H o m m e ] ^ E s s e p e r s o n a g e m é descrito c o m o tendo u m a renda particular de a p r o x i m a d a m e n t e 2 mil francos: u m rentier, portanto, que morava n o n ú m e r o 27 da R u e de Fleury, p e r t o d o Louvre. O seu dia é descrito, hora p o r hora. Ele começa às 9 horas, c o m u m a ronda pelos trabalhos de construção e destruição nos arredores do Louvre, onde u m a nova rua está sendo aberta, seguindo em direção ao Carroussel. O h o m e m observa vitrines de gráficas, toma sua xícara matinal de chocolate, olha pôsteres de peças de teatro, conversa c o m atores que c o n h e c e e ainda a d m i r a outras vitrines de gráficas, antes de chegar aos bulevares, à tarde:

Por volta das 14 horas, ele está nos bulevares, onde segue até o Passage des Panoramas. Já analisou cada loja, examinou cada gorro novo, anúncio novo, brinquedo novo, todos os romances novos, todos os pentes para coque novos, codos os ônibus novos, todos os vestidos novos e todas as placas das lojas novas. Embora não seja um espião da polícia, não deixa de reparar nos locais onde a calçada precisa de conserto, nos antros de jogos de azar [...] toldos pouco seguros e vasos de flores perigosamente situados em parapeitos de janelas.53

/ ' U m dia, s e n t a d o e m u m café, o u v i n d o a conversa de u m g r u p o de atores, nosso B o n - H o m m e d e c i d e escrever u m d i á r i o sobre t u d o que observa, c o m o u m a f o r m a de lidar c o m sua i n s ô n i a .5^

D e p o i s disso, o jlâneur parece ter ficado fora de circulação até a m e t a d e da década de 1820, q u a n d o foi tema de dois vaudevilles - o Le Fiâneur, de u m ato, em 1826, e o La Joumée d'un jlâneur [O dia de u m jlâneur], com quatro atos, em 1827 - apresentados no Théâtre de la Porte Saint M a r t i n e n o T h é â t r e des Variétés, respectivamente. E m ambos, o jlâneur em questão é u m pai de família distraído, sempre parando para ver

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a c o n t e c i m e n t o s à sua volta e se e n c o n t r a n d o i n j u s t a m e n t e preso, depois de chegar p e r t o demais de um desses acontecimentos.5 5 As duas comédias c o m e ç a m c o m cenas que se passam na rua. E m Le Fiâneur, as instruções de palco d e m a n d a m que apareçam em cena n a d a m e n o s que sete v e n d e -dores de diferentes tipos, b e m c o m o u m posto da infantaria, trabalha-dores passando, e assim p o r diante.5 6 "Vida longa a Paris!", canta o herói de Le Fiâneur. "Para olhos observadores/Ela é uma imagem em movimento."5 7

E m 1831, o j o r n a l Le Figaro definiu o Jlâneur c o m o alguém que f r e q ü e n t a v a t o d o s os espetáculos gratuitos, que fazia da r u a a sua sala de estar e d e t o d a s as vitrines, a sua mobília.5 8 Guias para a cidade t a m b é m c o m e ç a r a m a usar o Jlâneur como pseudônimo.5 9

P l a c a s e a r t e

, / Í D e s d e as i m p r o v á v e i s e n o r m e s , a p o n t o de d e s a f i a r e m a g r a -v i d a d e - p l a c a s da cidade do século X V I I I , p a s s a n d o pelos pôsteres e cartazes, até as várias exibições digitais ou e m n e o n dos dias de h o j e , a p u b l i c i d a d e c o n s t i t u i u m dos aspectos mais s u r p r e e n d e n t e s da r u a u r b a n a m o d e r n a / A q u i , n o v a m e n t e , Paris e Londres a b r i r a m o c a m i n h o . Placas p e n d u r a d a s c o m o f o r m a t o de coisas ou a n i m a i s g r a n d e s e p e -sados - c o m e ç a r a m a aparecer c o m o u m a m a n e i r a de fazer p r o p a g a n d a q u e era legível t a n t o para os alfabetizados q u a n t o para os analfabetos. E n t r e t a n t o , n o p e r í o d o a n t e r i o r àquele e m q u e essas placas e r a m u m a p r á t i c a c o m u m , esses o b j e t o s p o s s u í a m , t a m b é m , a f u n ç ã o de a u -x i l i a r f o r a s t e i r o s e m o r a d o r e s a se l o c a l i z a r e m . Parisienses e l o n d r i n o s ficavam, l i t e r a l m e n t e , p e r d i d o s s e m eles, t o r n a n d o s e l o g o e s t r a n g e i -ros e m sua p r ó p r i a c i d a d e . ^ N a falta de n ú m e r o s de ruas, pacotes o u visitantes d e Paris e L o n d r e s e r a m e n d e r e ç a d o s ou c o n d u z i d o s a u m a casa por' u m a "placa X " ou u m a "placa Y " /

/ T o m a n d o . . c o m o e x e m p l o apenas três placas c o m u n s , as i n d i c a ç õ e s , p o á e r i a m r e c o m e n d a r : vire à e s q u e r d a n o . G a t o D o r m i n d o , passe p e l o F i m d o M u n d o e c o n t i n u e até e n c o n t r a r as Estrelas. C o m o se vê, as placas t r a n s f o r m a v a m até m e s m o u m a p e q u e n a c a m i n h a d a e m algo m á g i c o , c h e i o de c o n e x õ e s e contrastes b i z a r r o s . A fascinação p o r essas placas d i v e r t i d a s , a tristeza p o r sua r e m o ç ã o e a n o s t a l g i a p o r sua p e r d a r e p r e s e n t a m o u t r o elo e n t r e Jlâneurs de Paris e de Londres nos séculos X V I I I e X I X . B o n - H o m m e prestava m u i t a a t e n ç ã o à placa d e cada loja n o v a q u e aparecia nos bulevares, e B a u d e l a i r e t a m b é m insistia e m q u e o Jlâneur sé mantivesse sempre atualizado c o m relação a elas/

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/ A p e s a r de quase n e n h u m a dessas placas d o século X V I I I , e n e m m e s m o as d o i n í c i o do século X I X , existirem mais, e m Londres ainda é possível ter u m a idéia da sua n a t u r e z a inusitada, pois muitas placas de' pubs permaneceram e, em alguns casos — como, por exemplo, a T h e A n g e l —, passaram a indicar u m a região.^Ém Paris, elas desapareceram c o m p l e t a m e n t e ^ f c o m o e x e m p l i f i c a m as e n o r m e s placas presentes e m cidades chinesas c o n t e m p o r â n e a s , elas p o d e m representar u m obstáculo considerável à ventilação, assim c o m o u m risco à segurança dos p e d e s -tres q u e c a m i n h a m abaixo desses objetos imensos. Tais preocupações, c o m b i n a d a s ao i n c ô m o d o gerado pelo r u í d o que elas f a z i a m por causa d o vento, l e v a r a m as autoridades, e m ambas as capitais, a aprovar leis e m 1761 que d e c r e t a r a m que todas as placas p e n d u r a d a s fossem removidas ou pregadas d i r e t a m e n t e sobre a f a c h a d a /

/ E m 1768, e m Paris, p l a n e j o u s e u m a r e g u l a m e n t a ç ã o da n u m e ração das casas, c o m o i n t u i t o de criar m a n e i r a s mais racionais de c i r -c u l a ç ã o pela -cidade. P o r é m , -criar u m a r e g u l a m e n t a ç ã o era u m a -coisa; c i m p l e m e n t á - l a , na prática, era o u t r a b e m diferente,"À n u m e r a ç ã o dos '{ i m ó v e i s foi adiada pela aristocracia, q u e se recusava a ver suas m a n s õ e s

[hôtels particuliers] humilhadas pela atribuição de u m simples número, assim c o m o se negava a ter luzes de r u a p e n d u r a d a s nelas.. E m 1799, a lei q u e proibia p e n d u r a r placas teve de ser d e c r e t a d a n o v a m e n t e , e o m e s m o a c o n t e c e u c o m a dos n ú m e r o s , e m 1805.61^/

O s irmãos C h a r l e s - G e r m a i n e Gabriel de Saint-Aubin, filhos de pai e m ã e bordadores da classe média, e r a m a quinta-essência do/Jáneur-artista d o século X V I I I em Paris. E m b o r a o estilo deles fosse mais galant que o de H o g a r t h , eles certamente eram bons na representação e m desenho da vida cotidiana nas ruas e nos bulevares. Isso está claro n o Livre de caricatures [Livro de caricaturas] q u e c r i a r a m para sua própria diversão, u m e x -traordinário palimpsesto visual, que a t u a l m e n t e faz p a r t e da coleção do W a d d e s d o n M a n o r . O Livre é cheio de desenhos com diversos temas recorrentes, invenções, sátiras políticas e jogos c o m palavras e ilustrações. /^Uma página retrata a remoção de placas de r u a , decretada e m 1761 (Fig. 11). N e l a , u m policial c a m i n h a c o m dificuldade, sob o peso de uma espada e n o r m e e a t o r t u r a de u m sol brilhante, e m direção a seu colega, que está o c u p a d o d e s t r u i n d o u m a , t a m b é m e n o r m e , placa e m f o r m a de b o t a / Ò fato de acontecimentos c o m o esse h a v e r e m atraído a atenção dos irmãos Saint-Aubin — artistas talentosos q u e passavam horas a d m i r a n d o e dese-n h a dese-n d o e m casas de leilão parisiedese-nses e dese-n o Salodese-n adese-nual — idese-ndica que eles, dese-na verdade, não pensavam nelas e m n e n h u m o u t r o aspecto além do estético.

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F i g u r a 11 — C h a r J c s - G e r m a i n d e S a i n c - A u b i n , Construir é belo, mas destruir é sublime, 1761, n o Livre de caricatures tant bont.t* que mauvaises, c. 1 7 4 0 - 1 7 7 5

, / T a m b é m era esse o caso de B o n n e l l T h o r n t o n , u m jornalista de L o n d r e s que, e m 1762, o r g a n i z o u u m a exposição de placas de lojas e de pubs na B o w Street. D e certo modo, essa notável "Grande exposição de p i n t u r a s e m placa" representava u m ataque c o n t r a os grandes c o n n e -cedores de arte, s u g e r i n d o que eles e r a m tão cegos q u e p a g a r i a m para ver q u a l q u e r exposição, c o n t a n t o que ela fosse a n u n c i a d a c o m o mostra de arte de alta q u a l i d a d e e que houvesse u m catálogo. Essa sátira p o d e t a m b é m ter sido reflexo d o desgosto dos artistas ingleses causado pela preferência q u e seus pretensos p a t r o c i n a d o r e s m a n i f e s t a v a m p o r artistas italianos e franceses. Essa predileção se devia à crença de que a Inglaterra era u m a nação comercial demais para p r o d u z i r " a r t e de alta qualidade". / Ç o m o d e m o n s t r a o p o b r e p i n t o r de placas e m B e e r Street (Fig. 12),,de H o g a r t h , na ausência de e n c o m e n d a s m e l h o r e s , artistas ingleses ^inclusive H o g a r t h ) r e c o r r i a m à pintura de placas para o p r ó p r i o sustento,! P o r o u t r o lado, a Exposição de pinturas e m placas p o d e t a m b é m ser vista corrio u m a celebração de u m tipo de " a r t e de rua", q u e era, ao m e s m o t e m p o , " ú t i l " e " d e alta qualidade". C e r t a m e n t e , os o r g a n i z a d o r e s da e x p o s i ç ã o — e t a m b é m o p r ó p r i o H o g a r t h (que p o s s i v e l m e n t e estava

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envolvido d i r e t a m e n t e nesse e m p r e e n d i m e n t o ) — acreditavam que os ingleses e r a m os melhores pintores de placa da Europa.6 2

F i g u r a 12 - W i l l i a m H o g a r t h , Beer Street, 1751

/ ' / P o r é m , essas placas grotescas e r a m g e r a l m e n t e pintadas de f o r m a ^ ^ r u d i m e n t a r e, p a r a m u i t o s , c o n s t i t u í a m u m o b s t á c u l o à criação de "a cidade p o l i c i a d a " / C o m o resultado, críticos c o m o Addison, Mercier e os

VS^

irmãos S a i n t - A u b i n e r a m ambivalentes c o m relação à remoção de placas, t a n t o e m Paris c o m o e m L o n d r e s . E m 1711, M r . S p e c t a t o r havia o f e r e -c i d o seus serviços ao p ú b l i -c o -c o m o " S u p e r i n t e n d e n t e " de pla-cas, talvez i n s p i r a d o p o r u m p e r s o n a g e m da peça Les Fâcheux [Os importunos] (1662), de M o l i è r e .6 3$ U g u m a s placas - M r . S p e c t a t o r alegou - f a z i a m c o n e x õ e s a l t a m e n t e e n g a n a d o r a s ou não religiosas e n t r e diferentes tipos de pessoa. P o r e x e m p l o , u m a p r o s t i t u t a p o d e r i a ser e n c o n t r a d a o n d e

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h a v i a u m a placa c o m o " O A n j o " , e n q u a n t o o u t r a s pessoas respeitáveis talvez se sentissem o f e n d i d a s p o r i m a g e n s de c r i a t u r a s i n e x i s t e n t e s na n a t u r e z a , c o m o sereias e javalis azuis. N o e n t a n t o , está c l a r o q u e essa " d e v o ç ã o " a u m a polícia é i r ô n i c a e q u e M r . S p e c t a t o r se d i v e r t e com. as e s t r a n h a s placas u r b a n a s .6 4

O s esforços dos parisienses para m a n t e r as placas sob c o n t r o l e h a -v i a m tido início quase u m século antes, e m 1666, q u a n d o o B u r e a u de ..La Voirie estabeleceu u m i m p o s t o a ser p a g o p o r q u e m as pendurasse.6 5

M a i s de u m século depois, c o n t u d o , elas a i n d a estavam lá, e m g r a n d e q u a n t i d a d e , c o n s t i t u i n d o u m a f o n t e de c o n s t r a n g i m e n t o para M e r c i e r e m seu Tableau de Paris.66 Ele descreveu coisas m o n s t r u o s a s : u m a bota tão g r a n d e q u a n t o u m b a r r i l , u m a luva tão e n o r m e que p o d i a abrigar u m a criança de 3 anos e m cada d e d o ; u m b r a ç o s e g u r a n d o u m a espada que se projetava sobre a r u a toda. S e m elas, Paris t i n h a " u m a n o v a face, p o r assim dizer, barbeada e penteada".6 7

P o r t a n t o , da m e s m a f o r m a c o m o a c o n t e c e u c o m A d d i s o n , a n t e -r i o -r m e n t e , M e -r c i e -r t a m b é m se dive-rtiu c o m os deslizes s e m â n t i c o s e j o g o s c o m palavras (e c o m imagens) q u e essas m e s m a s placas

possibilita-vam.6^ H o g a r t h a m a v a ser u m Jlâneur nas ruas onde os pintores de placa realizavam seu t r a b a l h o , e M e r c i e r t a m b é m se deleitava c o m as lojas de placas de s e g u n d a m ã o , n o Q u a i de la Mégisserie.6/'"Ali", ele observou, " t o d o s os reis d o planeta d o r m e m p a c i f i c a m e n t e u n s ao l a d o dos outros: Luís X V I e G e o r g e III t r o c a m beijos fraternais, o rei da Prússia d o r m e c o m a i m p e r a t r i z da R ú s s i a , o i m p e r a d o r está e m pé de i g u a l d a d e c o m uõ eleitores. Lá, finalmente, o turbante e a tiara (a tiara papal, o u seja, o islamismo e o cristianismo) se m i s t u r a m . "7 0 M e r c i e r chega até a i m a g i n a r o q u e essas placas d i r i a m se p u d e s s e m falar u m a s c o m as outras.7 1

/ A invenção, p o r volta de 1820, de u m j o g o de cartas c o m base nas placas de Paris e a - p u b l i c a ç ã o , n o m e i o dessa m e s m a d é c a d a , de u m ..dicionário h i s t ó r i c o e crítico das placas da c i d a d e c o i n c i d i r a m c o m o a p a r e c i m e n t o — m e n c i o n a d o a n t e r i o r m e n t e — d o Jlâneur (assim chama-d o ) .7/ U m a verdadeira p r e o c u p a ç ã o de a n t i q u á r i o s c o m a p e r d a desses e m b l e m a s levou à criação, e m 1880, de u m m u s e u d a cidade, e m Paris, c o n h e c i d o h o j e c o m o M u s é e C a r n a v a l e t . A t é e n t ã o , três placas f a m o -sas j á h â v i a m sido preservadas n o H o t e l de C l u n y , n a ausência de u m m u s e u mais a p r o p r i a d o para recebê-las.7 3 E m L o n d r e s , as placas de r u a s o b r e v i v e r a m ao P a v i n g À c t de 1762. E m 1856, G e o r g e D o d d calculou q u e e m L o n d r e s havia n a d a m e n o s q u e 55 Cisnes, 9 0 C a b e ç a s d e Reis, 120 Leões [.;.] mas apenas u m H o m e m B o m .7 4

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r

O h o m e m - s a n d u í c h e

O n d e fica, nisso cudo, o nosso h e r ó i , o Jlâneur} C o m o ele próprio se apresenta na q u a r t a edição de The Spectator (com redação de Steele), Mr. S p e c t a t o r p a r e c e u m a f i g u r a f a m i l i a r , q u e p o d e r i a até ser c h a -m a d a de b a u d e l a i r i a n a , se n ã o datasse de Spec é silencioso, ^ s o l i t á r i o , e f r e q ü e n t a lugares públicos, n ã o para "se m o s t r a r " , mas para tf* satisfazer a sua curiosidade. Ele e n c o n t r a solidão e m m e i o às massas, / ^ ^ r c l e s f r u t a n d o u m a espécie de " O b s c u r i d a d e Pública". E m b o r a seja u m a y presença c o m u m n a m u l t i d ã o , q u a n d o f a l a m dele — se é que f a l a m —,

c h a m a m - n o "Sr. C o m o - É - M e s m o - o - N o m e ' ' " / C o m o o " h o m e m da m u l t i d ã o " de Baudelaire, M r . Spec aprecia o a n o n i m a t o , assim c o m o a excentricidade. Ele n u n c a fala, mas possui u m apetite para " c o m u n i c a r a P l e n i t u d e d o m e u C o r a ç ã o " q u a n d o escreve para nós, seus c o m p a -n h e i r o s i-nvisíveis. H á até u m a se-nsação de q u e o a u t o r está b u s c a -n d o a si m e s m o q u a n d o p r o c u r a m a t e r i a l , assim c o m o o Jlâneur apaga a si m e s m o e n q u a n t o escreve, d e s f a z e n d o s e das impressões que c a r i n h o -samente a c u m u l o u . " M r . Spec" está d e c i d i d o "a i m p r i m i r o seu eu, se possível, antes de morrer".7 6

y^he Spectator também retratou uma cidade com percepção de si mes-y,/ ma c o m o u m a entidade cultural, c o m o " a j r i d a d e ^ i i m j m u n d i ^ d i s t i j i t o

dá corte.7 7 A q u i , diferentes classes sociais, gêneros e profissões p o d i a m se misturar. A entrada nesse mundç> era assegurada n ã o por títulos de y.^!- nobreza, m a s gela familiaridade c o m códigos de c o m p o r t a m e n t o

res-j e i t o s o e atencioso. O c o n c e i t o de honnêteté [honestidade] na França do século X V I I mostrava alguma^semelhança c o m esses c ó d i g o s , . e m sua

agarente preferência p o r u m " d e s p i r - s e " descontraído d a s f o r m a l idades ^ ^jf jía corte^Entretanto. honnêteté era u m costume aristocrático, praticado

não na cidade, m a s nas s o c i a l m e n t e excludentes festividades bastante ^ ^ e n f a d o n h a s e banais, c o m o as Jêtes àiampêtres e os bailes realizados em

. St C l o u d e Auteuil.7 8 Esse " m u n d o " ainda estava c e n t r a d o na corte, e t/i** não na " c i d a d e " ^

ífyJP- fjE claro que a palavra "Jlâneur" não existia no século XVIII, e só c o m e ç o u a ser usada na década de 1820. O fiâneur só se concretizou mais tarde, e m 1840-1841, c o m o a p a r e c i m e n t o de vários trabalhos de E d g a r J ^ A Í l a n PoeT~Charles.Djckens e Louis_ H u a r t , t o d o s eles_apresentando * c a m i n h a n t e s solitários e p r e p a r a n d o o cenário para o famoso ensaio de

^ B a u d e l a i r e , dg_1845.79^D mais i m p o r t a n t e deles foi Physiologie du Jlâneur V^ [Fisiologia d o Jlâneur], de Huart, acessível na época e m troca de apenas \)í

\ u m francoT/tsse t r a b a l h o foi inspirado na f a m a d e Georges C u v i e r e

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outros cientistas de a n a t o m i a comparada, q u e a d o t a r a m u m a investigação a p a r e n t e m e n t e científica ou filosófica sobre a relação e n t r e o ser h u m a n o e o u t r o s vertebrados//

H u a r t c o n c l u i u q u e a s u p e r i o r i d a d e d o ser h u m a n o sobre outros / a n i m a i s estava e m sua habilidade para ser um. Jlâneur.^Sua. obra estava e n t r e os pelo m e n o s 70 tipos de "fisiologia" u r b a n a que a p a r e c e r a m n o s início da d é c a d a de 1840 — i n c l u i n d o The Englishman irt Paris [O inglês

e m Paris] —, muitas delas ilustradas c o m p e q u e n a s xilogravuras de H o n o r é D a u m i e r , M . - A . A l o p h e ou T h é o d o r e Maurisset.8 1 C o m i m a g e n s e t e x t o influenciados pelas gravuras de C r u i k s h a n k , essas fisiologias, p o r sua vez, levaram A l b e r t S m i t h e David B o g u e a p u b l i c a r e m , e m 1848, a Physiology of a London Idler [Fisiologia de u m londrino ocioso] e a Natural History of the Idler upon Town [História natural do ocioso na cidade].8^

As calçadas e r a m o local p r e d i l e t o dos fiâneurs. "Passeio!", Huart exclama, "paraíso a salvo d a l a m a , r e f ú g i o d o Jiâneur, eu te saúdo! Todos os m o m e n t o s m a i s felizes da m i n h a j u v e n t u d e t r a n s p a r e c e m e m suas p e -dras."8 3 Esse escritor nos p r o p o r c i o n o u u m dos m e l h o r e s relatos de c o m o O p o n t o de vista d o Jiâneur contrastava c o m o de u m pedestre qualquer. if i ?Ao_ver u m n o v o .tecido na. v i t r i n e de u m a loja — ele explica —, u m v e r

-d u r e i r o s i m p l e s m e n t e -diria a si m e s m o q u e era u m p a n o bonito_e q u e pçidia ficar b e m e m sua esposa; e seguiria a d i a n t e , após alguns segundos.

^ U m Jiâneur ficaria paralisado por duas horas^ estudando o design e a cor,

s c o n s i d e r a n d o o seu lugar n a história da m o d a , assim c o m o as relações "entre_o fabricante, o f o r n e c e d o r e o v e n d e d o r . Essas reflexões estariam a . u m a distância indescritível d o alcance da vista de u m t r a n s e u n t e c o -m u -m . / //E s s e é u m e x e m p l o da pretensão d o Jiâneur de ser u m "príncipe" de u m r e i n o q u e , e m b o r a p a r c i a l m e n t e i m a g i n á r i o , é, s e m d ú v i d a , mais rico q u e o r e i n o m u n d a n o q u e h a b i t a m o s .

//O flâneur pode até ser u m príncipe, mas sua passagem pelas ruas y ^ d a c i d a d e n ã o é isenta de provações. E x a t a m e n t e c o m o M r . Spectator " " j ^ observa — " d i a r i a m e n t e , t e n h o alguns desgostos" —, os fiâneurs do século 11 X I X t i n h a m , às vezes, de e n f r e n t a r certas h u m i l h a ç õ e s y C o n t u d o , l o n g e d e sugerir q u e a fiânerie era impossível, essas provações, se é que t i n h a m a l g u m efeito, a j u d a v a m a excluir os covardes e leigos, a estimular, n o flâneur, à percepção de si mesmo como m e m b r o de uma minoria

onis-ciente e invisível.8*

A série d e g r a v u r a s de G e o r g e C r u i k s h a n k Grievances of London [ Q u e i x a s d e L o n d r e s ] (Fig. 7), d e 1812, m o s t r a v a o t i p o d e e n c o n t r o s n a calçada e n t r e d â n d i s e t r a b a l h a d o r e s q u e a g u a r d a v a m os fiâneurs

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-distraídos. E m b o r a fossem dolorosos, esses e n c o n t r o s e r a m celebrados c o m o algo que tornava a c i d a d e u m lugar e m o c i o n a n t e e c o l o r i d o para v.iver.8^Ás situações desagradáveis e embaraçosas vividas pelos fiâneurs e r e p r e s e n t a d a s p o r C r u i k s h a n k , D a u m i e r e o u t r o s , nas décadas de 1_820, 1830 e 1840.,..visavam a r i d i c u l a r i z a r a id_eia de que o.Jiâneur via a c i d a d e c o m o n a d a m a i s _ q u e . u m a _ c o l e ç ã o de impressões visuais. A cidade possui u m a solidez física que c o n s t a n t e m e n t e (e c o m i c a m e n t e ) i n t e r r o m p e as c a m i n h a d a s arejadas dos jiâneurs.^A cidade assombra o Jiâneur, e m todos os seus ângulos. E a lama que voa sobre as roupas finas

de M e r c i e r ; é o o b j e t o c a r r e g a d o pelo a ç o u g u e i r o que c u t u c a o o l h o d o d â n d i de C r u i k s h a n k ; é o volet [folha de janela] da loja que acerta o Jiâneur de Huart n o rosto (Fig. 13); é o vaso de flòr que ameaça cair sobre a cabeça d o B o n - H o m m e .8^ '

F i g u r a 1 3 — A r t i s t a d e s c o n h e c i d o , F l â n e u r atingido por uma folha de janela, e m L o u i s H u a r t , La Physiologie du Jiâneur, 1841

A década de 1820 t a m b é m t e s t e m u n h o u o a p a r e c i m e n t o dos p r i -meiros h o m e n s - s a n d u í c h e , coxihe c i d qsem,,francês c o m o hommes affiches [ h o m e n s pôsteres] ou ajjiches ambulantes [pôsteres ambulantes]... _ Nessg aspecto, mais u m a v e ^ jLondres t o m o u a dianteira. jj/Dentro de 20 anos, aquelas c o m b i n a ç õ e s simples de dois cartazes ligados p o r tiras de c o u r o h a v i a m cedido lugar a ambiciosas engenhocas puxadas p o r cavalos ( m o e -dores de café enormes, templos egípcios, cilindros grandes c o m pôsteres pregados) e a roupas que obscureciam as pessoas que iam dentro. J E m vez

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de carregar, o u usar sobre o c o r p o , cartazes c o m o n o m e de u m a marca p o p u l a r de graxa preta, p o r e x e m p l o , o h o m e m - s a n d u í c h e se t o r n o u o p r ó p r i o p r o d u t o . O esboço, feito p o r G e o r g e Scharf, de u m a lata a m b u -^y"1 lante [íjc] de graxa preta da marca Warens (1840) (Fig. 14) mostra nada

m e n o s (lu e s ei s desses infelizes h o m e n s - l a t a a n d a n d o e m fila.90 C o m o o Jlâneur de Huart, Scharf era fascinado por esses homens e pôsteres, cuja

g r a n d e z a m i r a b o l a n t e ele r e t r a t a v a . ^

A p e s a r de haver se desenvolvido inicialmente na A l e m a n h a , a Iitogra-fta foi usada gela primeira vez na publicidade e m Londres. E im^ressores ^ .fc, parisienses,__ansiosos p o r aprender as mais recentes técnicas de litografia ^ e m cores, c o m o j u l e s C h é r e t , l e v a r a m a nova tecnologia paraJParis. C o m o resultado, houve mudanças, não só na aparência das ruas parisienses, mas t a n i b é m na i m a g e m qüé ã cidade t i n h a de si m e s m a .yÒs pôsteres de Chéret ^ p a r a os teatros e music halls de M o n t m a r t r e trouxeram as cores vivas e as ninfas alegres (denominadas chérettes, e m homenagem ao seu criador) que [P^ f o r a m i m p o r t a n t e s na composição da Gay Paree do Capítulo 4. Á

F i g u r a 14 - G e o r g e S c h a r f , Homens-lata (à e s q u e r d a ) , 1 8 3 4 - 1 8 3 8

P o r volta da d é c a d a d e 1840, estava se t o r n a n d o difícil d i s t i n g u i r e n t r e o Jlâneur e a placa. U m a caricatura de 1849 mostra u m francês vol-t a n d o para o seu hovol-tel e m L o n d r e s e p o r vol-t a n d o sobre o c o r p o u m c o n j u n vol-t o de cartazes c o m o o d o s h o m e n s - s a n d u í c h e . Q u a n d o o g e r e n t e p e r g u n t a p o r q u e ele está vestido d a q u e l a m a n e i r a t ã o estranha, o h o m e m explica:

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