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II CAPÍTULO – CONTORNOS E INSTRUMENTOS DA AJUDA

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Academic year: 2019

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Agradecimentos... 4

Glossário de termos e abreviaturas... 5

Resumo e palavras-chave... 7

Abstract and key words... Lista de tabelas, gráficos e ilustrações... 8 9 INTRODUÇÃO... 11

I PARTE - ENQUADRAMENTO TEÓRICO... 14

I CAPÍTULO - CONCEITOS E CONSIDERAÇÕES ACERCA DA GUERRA CIVIL E DA REBELIÃO... 15

1. Os conceitos de guerra, de guerra civil e de rebelião... 15

2. Os condicionalismos e a viabilidade da rebelião... 18

3. As causas da guerra civil... 21

4. O mapa das guerras civis no tempo e no espaço... 29

5. As consequências da guerra civil ... 34

5.1 – As consequências económicas... 35

5.2 – As consequências sociais... 38

5.3 – As consequências psicológicas... 42

6. Os actores da guerra... 43

6.1 – As relações entre Governo e forças rebeldes: pós-conflito e o papel da economia... 43

6.2 - O papel da diáspora... 45

6.3 - A influência dos Governos hostis e das potências regionais... 48

6.4 – A influência das grandes potências mundiais ... 51

6.5 – O papel da comunidade internacional... 54

7. A guerra e o (sub-)desenvolvimento... 59

7.1 – Perspectivas da relação entre conflito e desenvolvimento... 59

7.2 – Aspectos culturais, políticos e económicos da relação conflito/ desenvolvimento... 62

8. Síntese e conclusões... 64

II CAPÍTULO – CONTORNOS E INSTRUMENTOS DA AJUDA INTERNACIONAL EM CENÁRIOS DE GUERRA CIVIL... 66

1. Evolução histórica e motivações da ajuda... 66

2. Instrumentos jurídicos e sua eficácia... 69

2.1 – O Direito Internacional Humanitário e os Direitos Humanos... 70

2.2 – As Convenções de Genebra e os Protocolos Adicionais... 71

2.3 – A Carta Humanitária / Projecto Esfera e outros instrumentos... 72

2.4 – A eficácia dos instrumentos jurídicos... 75

3. Análise da Ajuda Pública ao Desenvolvimento... 78

3.1 - Ajuda pública ao desenvolvimento... 78

3.1.1 - Ajuda humanitária (Emergência)... 83

3.1.2 - Ajuda alimentar... 88

(2)

3.1.4. – Desenvolvimento (Ajuda-projecto, ajuda-programa, cooperação

técnica, projectos de investimento e de equipamento)... 94

3.1.5 - Donativos e empréstimos concessionais... 96

3.1.6 - Anulação e reescalonamento da dívida... 100

4. Síntese e Conclusões... 101

III CAPÍTULO - O IMPACTO DA AJUDA INTERNACIONAL NAS GUERRAS CIVIS... 105

1. Os receptores da ajuda ... 105

2. O timing da ajuda... 108

3. O impacto da ajuda humanitária no conflito e as teorias dos maximalistas e os minimalistas humanitários... 111

4. O financiamento do desenvolvimento ... 118

5. A influência da ajuda no orçamento estatal dos receptores ... 120

6. A dependência da ajuda VERSUS os condicionalismos dos doadores. O caso da abordagem do Banco Mundial – “Boas Políticas Mais Dinheiro?”... 125

7. Os objectivos dos doadores ... 130

8. Os incentivos para a paz e os desincentivos para a guerra... 135

9. A abordagem Do No Harm (não prejudicar)... 137

10. Síntese e conclusões ... 140

II PARTE – ESTUDOS DE CASO... 144

IV CAPÍTULO – ESTUDO DE CASO NO CONTINENTE ASIÁTICO: A GUERRA CIVIL NO SRI LANKA... 145

1. Caracterização do país... 145

2. Breve história do país... 148

3. Especificidades da guerra civil... 151

3.1 – As estratégias do Governo e do LTTE... 151

3.2 – As causas da guerra civil... 154

3.3 – A influência da diáspora... 155

3.4 – A influência dos actores externos... 156

3.5 – A mediação do conflito pela Noruega... 157

4. A ajuda internacional e a sua influência no conflito... 159

4.1 – Descrição geral... 159

4.2 – As estratégias da ajuda internacional... 164

4.2.1 - Os principais tipos de ajuda... 164

4.2.2 - A ajuda humanitária VERSUS o desenvolvimento... 168

4.2.3. - O apoio da ajuda internacional aos esforços de paz... 171

4.3 – A influência da ajuda no conflito ... 174

5. Síntese e conclusões... 176

V CAPÍTULO – ESTUDO DE CASO NO CONTINENTE AFRICANO: A GUERRA CIVIL EM ANGOLA... 180

1. Caracterização do país... 180

2. Breve história do país... 183

3. Especificidades da guerra civil... 189

3.1 – As causas da guerra civil... 189

(3)

3.3 – A influência (política) da ONU... 196

4. A ajuda internacional e a sua influência no conflito... 199

4.1 – Descrição Geral... 199

4.2 – As estratégias da ajuda internacional... 205

4.2.1 – Os principais tipos de ajuda ... 205

4.2.2 – A ajuda humanitária VERSUS o desenvolvimento... 209

4.3 – A influência da ajuda no conflito... 210

5. Síntese e conclusões... 214

VI CAPÍTULO - O PAPEL DA AJUDA INTERNACIONAL NO PROLONGAMENTO DAS GUERRAS CIVIS: PISTAS PARA UMA ACÇÃO FUTURA... 1. O papel negativo da Ajuda no Sri Lanka e em Angola: análise comparativa dos dois estudos de caso ... 2. Pistas para uma acção futura ... 3. Síntese e conclusões ... 217 217 232 238 CONCLUSÕES... 240

ANEXOS... 246

Anexo 1- Excerto da ”Carta Humanitária e Normas Mínimas de Resposta Humanitária em Situação de Desastre” do Projecto Esfera relativo a “papéis e responsabilidades”... 247

Anexo 2 – Lista dos países da OCDE (membros e não membros do CAD), dos observadores e dos países receptores da ajuda... 248

Anexo 3 - Critérios para as ONGs na reabilitação pós-guerra... 250

Anexo 4 – Fluxos de APD para o Sri Lanka de 1980 a 2002... 253

Anexo 5 - APD por sector e por ano (1980-2002) para o Sri Lanka... 254

Anexo 6 - Fluxos de APD para o Sri Lanka por tipo e por doador (1980- 2002)... 257

Anexo 7 - Fluxos de APD para o Sri Lanka por doador e por ano (1980-2002)... 259

Anexo 8 - Lista dos países e organizações internacionais participantes na Conferência de Tóquio sobre a reconstrução e o desenvolvimento do Sri Lanka de 9 e 10 de Junho 2003... 261

Anexo 9 - Fluxos de APD para Angola de 1975 a 2002... 262

Anexo 10 - APD por sector e por ano (1975-2002) para Angola... 263

Anexo 11 - Fluxos de APD para Angola por tipo e por doador (1975-2002)... 266

Anexo 12 - Fluxos de APD para Angola por tipo e por doador (1975-2002)... 267

(4)

AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, quero agradecer ao meu orientador de dissertação, Professor Doutor Ennes Ferreira, pela disponibilidade, apoio, incentivo e acompanhamento ao longo deste trabalho.

Quero também agradecer à minha família, ao Tiago e aos meus amigos pela paciência que tiveram comigo durante este tempo e pedir desculpa pela ausência em momentos importantes.

Quero, sobretudo, agradecer à minha mãe por ter sido incansável a ler e reler o meu trabalho até que estivesse aceitável! E ao meu pai pelas observações importantes que fez e por todo o apoio dado.

Gostaria ainda de referir o contributo de toda a equipa de professores do Mestrado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional, que durante um ano nos deram conhecimentos e pistas importantes para a elaboração da dissertação, e nos estimularam a trabalhar na área da cooperação.

(5)

GLOSSÁRIO DE TERMOS E ABREVIATURAS

ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados AI – Amnistia Internacional

APD – Ajuda Pública ao Desenvolvimento AsDB – Asian Development Bank

AsDF – Asian Development Fund

BAD – Banco Asiático para o Desenvolvimento

BM – Banco Mundial

CAD – Comité de Ajuda ao Desenvolvimento CAP – Apelo Consolidado

CICV – Comité Internacional da Cruz Vermelha

Conflict trap – Armadilha do conflito

CP – Construção da Paz

CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa DIH – Direito Internacional Humanitário

DU – Direitos Humanos

DUDH – Declaração Universal dos Direitos Humanos

Spillover - Efeito de Dominó

FAA – Forças Armadas Angolanas

UNFAO – United Nations Food and Agriculture Organization

FICV/CV – Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho

FMI – Fundo Monetário Internacional

FNLA – Frente Nacional para a Libertação de Angola

Free-Rider – Aquele que aproveita a acção dos outros, beneficiando da mesma.

HIPC Initiative– Heavily Indebted Poor Countries Initiative

ICRC – International Committee of the Red Cross IDA - International Development Association IDE – Investimento Directo Estrangeiro IDH – Índice de Desenvolvimento Humano

IFAD – International Fund for Agricultural Development

IFRC/RC – International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies ILO –International Labour Organization

IOM – International Organization for Migration

IPAD – Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento LICUS – Low-Income Countries Under Stress

LTTE - Liberation Tigers of Tamil Eelam

MINARS – Ministério da Assistência e da Reinserção Social MMSL – Missão de Monitorização do Sri Lanka

MNUA – Missão das Nações Unidas em Angola Modelo do Dual-Gap – Modelo dos Dois Hiatos

MONUA – Missão de Observação das Nações Unidas em Angola MPLA – MovimentoPopular para a Libertação de Angola

NEPAD – Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano

(6)

OCHA – Office for the Co-ordination of Humanitarian Affairs ODA – Official Development Assistance

OFO – Outros Fluxos Oficiais OGE – Orçamento Geral do Estado OIs – Organizações Internacionais

ONGs – Organizações Não Governamentais

ONGDs – Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento ONU – Organização das Nações Unidas

OUA - Organização para a Unidade Africana

PAM – Programa Alimentar Mundial

PCIA -Peace and Conflict Impact Assessment

PED – Países em Desenvolvimento

PIB – Produto Interno Bruto

PIBpc – Produto Interno Bruto per capita PNB – Produto Nacional Bruto

PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PVD – Países em vias de desenvolvimento

RDC – República Democrática do Congo

SADC – Southern Africa Development Community UCAH – Unidade de Coordenação da Ajuda Humanitária

UE – União Europeia

UNAVEM – United Nations Angola Verification Mission UNICEF – United Nations Children’sFund

UNDP – United Nations Development Programme

UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization UNHSP – United Nations Human Settlement Programme

UNODG – United Nations Office on Drugs and Crime UNWFP – United Nations World Food Programme

UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola UNPF – United Nations Population Fund

UPA / FNLA – União dos Povos de Angola / Frente Nacional de Libertação de Angola

WFP – World Food Programme WHO – World Health Organization

(7)

RESUMO

No século XXI, continuam a predominar nos países pobres guerras civis travadas por razões como a ambição da secessão do Estado e luta pela inclusão, alimentadas por diversos factores (recursos naturais, clivagens étnicas, diáspora), e com graves consequências para essas sociedades. É nesse contexto que actua a ajuda internacional com o compromisso de salvar vidas e de minimizar o sofrimento humano.

Esta dissertação reflecte sobre a possível influência da APD no agravamento e no prolongamento dos conflitos. Por um lado, a ajuda internacional está associada a interesses políticos, económicos e geoestratégicos que poderão determinar o comportamento dos doadores. Por outro, existem aspectos técnicos da distribuição da ajuda pelos actores humanitários que influenciam a dinâmica da paz e da guerra.

Essa hipótese é testada à luz dos casos das guerras civis no Sri Lanka e em Angola. Apesar de ser indiscutível que, em ambos os casos, a ajuda internacional tenha desempenhado um papel fundamental na distribuição de bens básicos, ela terá sido marcada por alguns trâmites menos positivos na sua actuação e interferido em questões de carácter político, indo além dos seus objectivos básicos de distribuição de ajuda de forma neutra, imparcial e universal.

A problemática da ajuda em contextos de guerra civil será sempre marcada por problemas e pela diversidade de posições sobre os seus princípios, os seus objectivos e os seus instrumentos. Esta dissertação visou apenas lançar algumas pistas para reflexão futura com o objectivo fundamental de melhorar o impacto da ajuda.

(8)

ABSTRACT

At the beginning of the 21st century we are still faced with a bi-polarized world

between poor and rich countries. The former are marked by civil war where conflict exists between local governments and groups of insurgents who are fighting for self-governance or inclusion. Civil war is sustained by several factors (natural resources, ethnic tension, diaspora) and causes serious damage to those societies. International aid generally intervenes in this context, the basic objective being to save lives and minimize human suffering.

This dissertation reflects upon the impact Official Development Assistance has on prolonging such conflicts. On the one hand, international aid is linked to political, economic and geostrategic interests that might determine donors’ behaviour and decisions. On the other hand, there are technical issues related to the role of humanitarian actors and development agencies which might negatively impact upon the dynamics of peace and war.

The hypothesis of the negative influence of aid is analysed in the case studies of both the Sri Lankan and Angolan civil wars. Although it is undeniable that international aid has played a crucial role in both countries, it may have been characterized by some less positive aspects. International aid in these countries may have interfered in political issues, going beyond the basic aim of aid distribution in a neutral, impartial and universal way.

The predicament of aid in the context of civil war is dominated by a range of problems and by the diversity of positions and approaches concerning principles, aims and instruments.

This dissertation aims to explore ideas for future reflection with the primary objective of improving the success of aid.

(9)

LISTA DE TABELAS, GRÁFICOS E ILUSTRAÇÕES

Tabelas:

Tabela 1 – Ajuda Alimentar da OCDE entre 1997 e 2003 51

Tabela 2 – Fluxos de Recursos Líquidos Oficiais dos Países Doadores (% do

PIB) 110

Tabela 3 – Despesas militares como share do PIB; 1997-2002 122

Tabela 4 – A APD ao Sri Lanka e a Angola em 2000, 2001 e 2002 221

Tabela 5 – Peso relativo dos sectores das APD de 1973 a 2003 na OCDE

(total) 227

Tabela 6 – Aplicação das premissas de DOYLE & SAMBANIS (2000) 239

Gráficos:

Gráfico 1 – Comparação do PIBpc nos anos 60 e 90 33

Gráfico 2 – Países da África Subsariana com decréscimo do PIBpc de 1960 para 1990

33

Gráfico 3 – Peso relativo da APD por tipo de 1973 a 2003 (OCDE) 82

Gráfico 4 – Principais doadores de APD entre 1973 e 2003 (OCDE) Gráfico 5 – Evolução da APD de 1973 a 2003

Gráfico 6 – A ajuda humanitária de emergência por objectivo entre 1973 e 2003

Gráfico 7 - Destino da APD (Emergência) da OCDE entre 1973 e 2003

82 83 85

86

Gráfico 8 – A APD dada ao Sri Lanka por ano e por tipo de 1980 a 2002 161

Gráfico 9 – Peso relativo dos vários tipos de APD dada ao Sri Lanka de

1980 a 2002 162

Gráfico 10 – Peso relativo dos principais tipos de APD por sector

(1980-2002) 162

Gráfico 11 – APD Bilateral e Multilateral dada ao Sri Lanka por doador

(1980-2002) 163

Gráfico 12 – Evolução da APD (1980-2002) pelos 5 principais doadores (OCDE)

164

Gráfico 13 – A APD dada a Angola por ano e por tipo de 1975 a 2002 202

Gráfico 14 – Peso relativo dos vários tipos de APD dada a Angola de 1975 a

2002 203

Gráfico 15 – Peso relativo dos principais tipos de APD por sector de 1975 a 1989

Gráfico 16 – Peso relativo dos principais tipos de APD por sector de 1990 a 2002

203

204

Gráfico 17 – APD Bilateral e Multilateral dada a Angola por doador (1975-2002)

205

Gráfico 18 – Evolução da APD (1975-2002) pelos 6 principais doadores (OCDE)

206

(10)

Gráfico 20 – O efeito da APD sobre as despesas militares e sobre as despesas 229 sociais do Estado angolano

Gráfico 21 – O efeito da APD sobre as despesas militares e sobre as despesas 230 sociais do Estado cingalês

Ilustrações:

Ilustração 1 – Mapa do Sri Lanka 147

(11)

INTRODUÇÃO

A realidade geo-económica que caracterizou a última metade do século XX e que se assume, de forma cada vez mais intensa, no início do século XXI, é traçada por duros conflitos e guerras civis que desrespeitam os direitos humanos e matam civis indiscriminadamente.

Na arena internacional, a ajuda aos países e às populações vítimas da guerra

tornou-se fundamental para assegurar a sua sobrevivência e as condições mínimas de dignidade humana, considerando que as guerras tendem a proliferar em contextos de pobreza económica e subdesenvolvimento.

No entanto, o envolvimento de actores estatais bilaterais e multilaterais, bem como de organizações internacionais (OIs) e organizações não-governamentais (ONGs) em cenários de conflito, tem suscitado questões acerca do impacto do papel desses organismos no desenrolar do conflito.

A ajuda prestada às populações dos países em guerra está, de forma tão intensa,

embrenhada em interesses políticos, económicos e geoestratégicos, que se torna difícil dissociá-la da política internacional.

Face a este cenário, coloca-se a possibilidade de existência de alguma perversão da ajuda internacional, sendo o objectivo central desta dissertação reflectir sobre os eventuais aspectos negativos da ajuda e lançar, desta forma, pistas para uma melhoria da actuação futura dos doadores.

(12)

A experiência de terreno e o contacto com as autoridades locais e com os financiadores nacionais e internacionais (realizámos também um estágio no então Serviço de Ajuda Humanitária da Comissão Europeia, onde pudemos observar a perspectiva do financiador internacional) têm-nos permitido aperceber de algumas dificuldades inerentes à ajuda e da forma como esta actua e define prioridades e actividades.

Apesar de consideramos que a ajuda é sempre fundamental e imprescindível , por vezes, nalguns casos, sentimos que existem falhas e que ela poderia ser melhor. A hipótese de partida é que a ajuda em cenários de guerra poderá, em determinadas situações, contribuir para o prolongamento do conflito, dado que a assimetria da sua distribuição e absorção no terreno pode ser diferente. A ajuda internacional tem de obter autorização de entrada no país por parte do Governo, o que exclui, à partida, a outra parte – a rebelião armada.

Quanto à metodologia a aplicar, esta consistirá na abordagem dos principais conceitos sobre a guerra civil e rebelião e sobre a ajuda internacional no contexto das guerras civis, com o objectivo de aprofundar e compreender a problemática envolvente. Seguidamente, serão analisados os casos de duas guerras civis: Sri Lanka e Angola, com o objectivo de tentar comprovar empiricamente as ideias reflectidas no enquadramento teórico.

Os dois casos foram seleccionados com o objectivo de analisar um caso no continente asiático e outro no continente africano, e porque estes são exemplos paradigmáticos de guerras prolongadas onde, à partida, parece que a ajuda internacional terá tido um elevado protagonismo.

Além disso, são também dois casos que aportam algumas características comuns (agravo político, base étnica forte), mas que também divergem nos seus objectivos: no Sri Lanka, a rebelião luta pela independência, enquanto que em Angola pretende a inclusão.

Em termos de estrutura da dissertação, esta aporta duas partes. Na primeira, o

(13)

guerras civis no tempo e no espaço, às consequências económicas, sociais e psicológicas da guerra, aos actores da guerra e, por fim, à relação entre conflito e (sub)desenvolvimento.

O segundo capítulo trata a questão dos contornos e instrumentos da ajuda internacional em cenários de guerra civil, analisando aspectos como a evolução histórica e as motivações da ajuda e os instrumentos jurídicos e a sua eficácia. Iremos ainda fazer uma análise da ajuda pública ao desenvolvimento para tentar perceber se os tipos e fluxos de ajuda podem ter algum tipo de influência no desenrolar de uma guerra civil, bem como levantar algumas interrogações sobre as formas adequadas de ajudar as populações em sofrimento.

O terceiro capítulo visa analisar o impacto da ajuda internacional nas guerras civis, através da revisão de um conjunto de ideias e conceitos sobre os receptores e o timing da ajuda. Reflectimos também sobre como e porque se ajuda.

A segunda parte da dissertação trata dois estudos de caso: Sri Lanka e Angola, em relação aos quais é feita uma breve caracterização e resenha histórica do país. Seguidamente são analisadas algumas especificidades das duas guerras, designadamente o tipo de relação entre o Governo e as forças rebeldes, as causas da guerra e a influência das grandes potências mundiais. É também traçado o quadro da ajuda ao país, das estratégias implementadas e da influência que terá tido no conflito.

(14)

I PARTE

(15)

I CAPÍTULO

CONCEITOS E CONSIDERAÇÕES ACERCA DA GUERRA

CIVIL E DA REBELIÃO

Este primeiro capítulo visa definir dois conceitos-chave desta dissertação – “guerra civil” e “rebelião” - e traçar os aspectos fundamentais de uma guerra civil, designadamente as suas principais causas e as consequências que provoca. O enquadramento geral da guerra civil e das características que lhe são inerentes é fundamental para que, posteriormente, possamos reflectir sobre os moldes em que a ajuda pode actuar nesse contexto.

Desta forma, iremos abordar as causas comuns da guerra civil e analisar as suas condicionantes, ou seja, as condições necessárias para levar adiante uma rebelião. Traçado o perfil de uma guerra civil, vamos aplicá-lo no tempo e no espaço, listando as principais tendências que tiveram lugar na segunda metade do século XX, principalmente nos anos 90.

Segue-se depois uma análise das principais consequências da guerra civil a nível económico, social, psicológico, as quais são abordadas numa perspectiva local, regional e global.

Por último, observaremos estas questões pelo prisma dos actores envolvidos na guerra civil, sejam eles as partes directamente envolvidas (Governo e forças rebeldes), as vítimas da guerra, ou forças exteriores influentes (os Governos vizinhos, as potências regionais e mundiais, a comunidade internacional e as diásporas).

1. Os conceitos de guerra, de guerra civil e de rebelião

CLAUSEWITZ (1832:1)1 considera a guerra “um acto de violência para levar o

inimigo a fazer a nossa vontade”. Assim, diz o autor, “a violência, ou seja, a força física (...) é, pois, o meio; a submissão compulsória do inimigo à nossa

1Clausewitz (1780-1831) foi um soldado prussiano que combateu contra os exércitos da Revolução

Francesa e de Napoleão. Oficial do exército com responsabilidades militares e políticas no seio do Estado prussiano, aos 38 anos, Clausewitz tornou-se major–general do exército e, mais tarde, mudou-se para os círculos intelectuais de Berlim, onde escreveu o livro On War (no alemão original “Vom Krieg”), que

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vontade é o objectivo último”2. O autor explica ainda que, para que o objectivo se atinja plenamente, o inimigo tem que ser desarmado, sendo este o verdadeiro objectivo das hostilidades na teoria, já que assume o lugar do objectivo final, colocando-o como algo que não pertence bem à guerra.

BONIFACE (1997:165-166) afirma que Clausewitz via a guerra como um elemento instrumental e intencional, e explica que foi dessa concepção política ou racional da guerra que resultou a famosa fórmula de CLAUSEWITZ (1832:10): “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios”. A guerra pode ser também entendida de outras formas. Segundo SANTOS (2000:204-205), a concepção cataclísmica vê a guerra como uma catástrofe inevitável. A concepção escatológica considera a guerra a forma de alcançar um estádio superior da vivência do Homem na Terra, sendo essa uma situação de pureza exigida pela religião.

Como afirma SANTOS (2000:204-205), “numa guerra real, há uma mistura de todas estas concepções. (...) A guerra, e portanto todas as armas que não são utilizadas, visam a paz, mas é uma paz que seja favorável aos vencedores. É isso

que se pretende quando se parte para uma guerra”3.

No âmbito da nossa dissertação, limitamos o conceito de guerra ao de “guerra civil”, que é “um conflito armado declarado no seio de um Estado e que opõe as suas autoridades a um ou mais agrupamentos insurreccionais”, de acordo com BONIFACE (1997:166).

Antes de mais, importará diferenciar“guerra civil” de “guerra internacional” e de

“violência comum”. Ao contrário da guerra internacional, a guerra civil “é travada fora de uma estrutura de regras e inteiramente dentro de um território

nacional”, segundo COLLIER et al. (2003:11). Por outro lado, e também em

oposição à violência comum, a guerra civil “implica uma organização rebelde equipada com armamento e staff recrutado a tempo inteiro”.

(17)

A guerra civil ocorre em resultado da rebelião, que, segundo um dicionário

comum4, significa insurreição ou revolta. COLLIER & HOEFFLER (2002b:3)

afirmam que “ a rebelião é, de certa forma, análoga a outros três tipos de

organização: movimentos protestantes, exércitos e crime organizado”5. Os

autores detalham que a forma mais parecida, em termos de análise política, é o protesto, na medida em que ambos abordam um problema de coordenação. No entanto, ao invés do protesto, a rebelião tem que ter sustentabilidade económica para pagar aos seus combatentes.

Além disso, e tal como um exército, a rebelião tem que resolver os seus problemas de hierarquia e coesão por forma a conseguir que os seus combatentes arrisquem a vida por um objectivo militar. Todavia, em oposição ao movimento protestante e ao exército, a rebelião tem que gerar rendimentos para pagar e alimentar os combatentes, apesar de não ser produtiva. Neste último aspecto, assemelha-se ao crime organizado, pese embora as diferenças no número de membros e na escala das respectivas acções.

Reunidas estas condições, a guerra civil “ocorre quando uma organização rebelde identificável desafia militarmente o Governo e a violência resultante provoca mais de 1.000 mortes relacionadas com o combate, correspondendo pelo menos 5% a cada um dos lados”, segundo COLLIER et al. (2003:11).

Os conflitos internos variam na sua intensidade, desde pequenas ocorrências a acções de limpeza étnica e genocídio. Por isso mesmo, MUSCAT (2002:6) enumera quatro níveis de violência, distinguidos pelos analistas como forma de controlar e monitorizar estes acontecimentos: (1) tensão política, envolvendo menos de 25 assassinatos políticos por ano, (2) conflito político violento, provocando menos de 100 fatalidades políticas por ano, (3) conflitos de baixa intensidade, entre 100 e 1000 fatalidades políticas e (4) conflito de alta intensidade ou guerra civil, com mais de 1.000 mortos por ano.

A organização rebelde caracteriza-se por ser tipicamente pequena (entre 50 e 5.000 membros) e fortemente hierárquica, estando o seu poder concentrado num

4 Porto Editora.

(18)

líder carismático, como indicam COLLIER et al. (2003:54). Contudo, algumas chegam mesmo a ter 150.000 membros. Estas organizações são relativamente comuns nos países muito pobres, sendo a razão da sua formação uma explicação possível para a guerra civil.

2. Os condicionalismos e a viabilidade da rebelião

Os motores da rebelião apenas se podem concretizar em guerra civil se houver viabilidade financeira e militar da rebelião. A viabilidade militar difere de sociedade para sociedade, bem como a sua influência no risco de conflito.

Um primeiro factor é o terreno. Por exemplo, é mais fácil para os grupos rebeldes organizarem-se em zonas rurais com baixa densidade populacional do que em áreas urbanas. Estatisticamente, verifica-se que há maior risco de rebelião em países com zonas interiores pouco povoadas ou com uma extensa área montanhosa.

Um outro factor capital é a capacidade de actuação do Governo, já que deter uma rebelião na sua fase inicial requer a presença local das autoridades locais e o desejo por parte da população de ter acesso à informação. Governantes menos eficientes tendem a tentar prevenir a rebelião aumentando as suas despesas militares convencionais. Quanto maior é a possibilidade de rebelião, maior é a percentagem de PIB que os Governos gastam em despesas militares. No entanto, o risco não é flexível às despesas militares, ou seja, essas despesas podem ser ineficientes na detenção da rebelião.

A rebelião é cara, o que é agravado pelo facto das actividades militares não gerarem lucro. Este é o grande problema da rebelião enquanto organização de negócio, pois se não conseguir ultrapassar o problema de financiamento, o grupo rebelde será inviável.

Segundo COLLIER & HOEFFLER (1998:565), a actual conduta nas guerras civis é dispendiosa para os rebeldes, devido ao custo de oportunidade da força de trabalho rebelde e devido à interrupção da actividade económica provocada pelo estado de guerra. Os autores acrescentam que ambos os custos podem aumentar

(19)

população com rendimentos mais elevados tem mais a perder durante uma rebelião do que uma população com baixos rendimentos. Os custos podem ainda aumentar com a duração da guerra, devido à capacidade militar do Governo e dos rebeldes.

Quanto a soluções, segundo COLLIER et al.(2003:73), existem três

possibilidades: os grupos rebeldes podem ser iniciados por alguém que já tenha riqueza; podem procurar doações ou podem ter negócios comerciais.

Posto isto, a questão inevitável é quem financia a guerra? Em primeiro lugar, os Governos estrangeiros hostis, tendo este meio algumas vantagens, na medida em que evita a pressão internacional pela forma encoberta como é feita, e por ser controlável, não resultando em problemas domésticos6. Em segundo lugar, as diásporas, sediadas nos países industrializados, que não sofrem as consequências da violência e não estão em contacto diário com o inimigo. Em terceiro lugar, a manutenção de negócios comerciais que permitam aos rebeldes financiar as actividades e a aquisição de armas. É, por exemplo, o caso da produção ilegal de drogas para venda nos países ricos, a qual tem enorme importância para os rebeldes7. A estes aspectos poderemos acrescentar a pilhagem, apontada por

ARMIÑO (1997:15)como forma de sobrevivência pelas tropas indisciplinadas.

Num estudo realizado, COLLIER & HOEFFLER (1998:571-572) concluíram que o incentivo da rebelião aumenta com a maior probabilidade de vitória e com os ganhos condicionais em caso de vitória, mas decresce com a duração esperada da guerra e com os custos da coordenação rebelde. Para qualquer potencial rebelião, há uma duração esperada da guerra em relação à qual a rebelião toma uma posição racional. Além disso, quer a probabilidade da guerra, quer a sua duração, podem ser explicadas por um conjunto de variáveis, designadamente

(1) o rendimento per capita (quanto maior for o rendimento per capita, maior o

risco de guerra, devido ao efeito desse rendimento no custo de oportunidade da

rebelião); (2) os recursos naturais(quanto mais recursos, maior o risco de guerra,

6 COLLIER

et al. (2003), p.74

7 COLLIER

et al. (2003), p.144. Quanto a esta questão, os autores defendem que há que aliciar os

(20)

devido ao maior desejo dos rebeldes de capturarem o Estado. Porém, a partir de certo nível, o risco diminui devido à capacidade financeira do Governo de se defender adquirindo material militar); (3) a população (quanto mais numerosa for a população, maior é o risco de guerra devido à maior atracção pela secessão), (4) a fragmentação da população (as sociedades mais fragmentadas têm menos tendência para a guerra, tal como as sociedades muito homogéneas. A maior probabilidade de guerra civil reside nas sociedades polarizadas em dois grupos que têm uma probabilidade de guerra civil 50% mais elevada).

Segundo os resultados do estudo de COLLIER & HOEFFLER (1998:570), as quatro variáveis têm aplicação prática no caso africano, continente marcado pela

ocorrência de muitas guerras civis desde a década de 60. Os autores sublinham

que o continente reúne, em média, as condições para uma probabilidade de elevada ocorrência de guerra civil, devido aos baixos rendimentos e à baixa taxa de exportação de bens primários. A pesar contra a guerra estão os elevados custos de coordenação da rebelião devido à fragmentação etno-linguística e ao facto das sociedades não terem sido polarizadas pelas primeiras guerras. Em suma, devido à pobreza.

Conhecidas as motivações e condições mais comuns da rebelião, o que poderá

ser feito para prevenir a guerra? Como indicam COLLIER et al.(2003:79), uma

(21)

FEARON (2002:2) resume a incidência da guerra civil numa constatação que explica como sendo uma tautologia produtiva: “as guerras civis tendem a durar muito tempo quando nenhum dos lados consegue desarmar o outro, provocando uma paralisação militar. São relativamente rápidas quando as condições favorecem uma vitória decisiva”.

Mesmo após o fim do conflito, a tendência é para que surjam novos conflitos, pois o país terá caído na “armadilha do conflito” (conflict trap). Segundo COLLIER et al. (2003:83), as estatísticas indicam que, no final da guerra, um país tem 44% de risco de voltar a viver novo conflito nos 5 anos seguintes, pois os factores que inicialmente provocaram a guerra (baixos rendimentos, por exemplo) continuam presentes.

3. As causas da guerra civil

O que levará os grupos rebeldes a desencadear rebeliões e a transformá-las em guerra civil no seu próprio país? As causas do conflito tendem a ser categorizadas da seguinte forma, segundo COLLIER et al.(2003:4)8: os grupos de direita tendem a achar que esta se deve a conflitos étnicos e religiosos de longa duração, mas a verdade é que “(...) a etnicidade e a religião são muito

menos importantes do que normalmente se pensa”9; os grupos de centro acham

que o problema é a falta de democracia e que a violência ocorre onde não existem oportunidades para uma resolução pacífica; e os grupos de esquerda

8 A obra destes autores trata-se de um relatório do Banco Mundial que analisa questões relacionadas com

o tipo de políticas de desenvolvimento adequadas a cenários de guerra civil. A pesquisa assenta em três premissas essenciais. A primeira delas é a certeza de que a guerra civil tem efeitos extremamente adversos, que “quem manda na guerra” não pondera, designadamente o facto de as principais vítimas serem as crianças e outros não combatentes; as consequências que a guerra civil traz para os países vizinhos, provocando uma redução do rendimento económico e o aumento da doença; e o facto de o território passar a estar fora do controlo de um governo reconhecido, tornando-se um “epicentro do crime e da doença.” A segunda premissa é que os riscos da guerra civil diferem consoante as características do país. A evidência mostra que a guerra se concentra num pequeno grupo de países em desenvolvimento, sendo os de maior risco os PED marginalizados e os países apanhados na “armadilha do conflito” (conflict trap). A terceira premissa sustenta que as acções internacionais credíveis deveriam reduzir

substancialmente a incidência global da guerra civil, através de uma aposta forte na melhoria do gestão dos recursos naturais, a nível internacional. Se os cidadãos acreditarem que os recursos são bem utilizados, haverá menor probabilidade de eclosão de uma guerra civil.

9 COLLIER

(22)

explicam a guerra civil por desigualdades económicas ou pelo legado do colonialismo.

Segundo COLLIER et al.(2003), autores de um relatório que será bastante

esmiuçado neste capítulo, nenhuma destas explicações é suficiente.

Antes de avançarmos com estas causas, seria importante fazer referência à teoria de COLLIER & HOEFFLER (2002b:2), que analisa justamente as motivações da

rebelião, através de um modelo de escolha racional da rebelião pela cobiça 10, em

que os autores contrastaram as suas premissas às de um modelo de injustiça11.

O modelo de rebelião por cobiça explica que esta é motivada pela extorsão dos rendimentos dos bens primários de exportação12, sendo ponderado um cálculo económico dos custos e a sobrevivência militar. O modelo da rebelião por injustiça, por sua vez, explica que esta é motivada por ódios que podem ser intrínsecos às diferenças étnicas e religiosas no seio da comunidade; pelo sentimento de revolta face à maioria étnica ou à repressão política; ou a desigualdades económicas, num contexto em que os beligerantes se sentem discriminados ou marginalizados.

Os autores introduziram ainda a possibilidade de um efeito de feed-back, em que o risco de um conflito aumenta devido à injustiça gerada pelo próprio conflito. Na rebelião por injustiça, este fenómeno gera um ciclo vicioso. Na rebelião por cobiça, a injustiça induzida só aumenta o risco de conflito se essa injustiça tiver aumentado o potencial financeiro da rebelião, designadamente através do acesso aos recursos da diáspora.

Para testar estes modelos, COLLIER & HOEFFLER (2002b:26) fizeram uma

análise de regressão aos conflitos ocorridos entre 1960 e 1999, da qual

10 No texto original, o terno utilizado é “

greed” (tradução nossa).

11 No texto original, o termo utilizado é “

grievance” (tradução nossa).

12 Segundo COLLIER

et al., existem duas formas de os rebeldes usarem os bens de exportação para a

violência: (1) vender os futuros direitos dos lucros da guerra (ex. direito de exploração das reservas de petróleo) ou (2) extorsão das companhias de recursos naturais (pelo rapto, roubo, sabotagem de infra-estruturas).

(23)

concluíram que o modelo da injustiça explica pouco a rebelião. Já o modelo da cobiça traduz bem a realidade dos países em estudo, sendo o acesso aos bens primários de exportação o factor mais influente no risco de conflito.

Por fim, os dois autores testaram um modelo integrado de cobiça/injustiça, tendo descoberto que apenas uma fonte de injustiça - o domínio étnico - tem efeito no modelo da cobiça. Assim, países cujo maior grupo étnico representa entre 45 e 90% da população, têm um risco redobrado de conflito, devido à maior tendência da maioria para explorar a minoria.

Esta premissa não se aplicará, porém, no caso africano. Segundo COLLIER & HOEFFLER (2000:12), esta excepção dever-se-á ao facto de, nas poucas sociedade africanas aparentemente caracterizadas pelo domínio étnico, o maior grupo étnico ser, na verdade, dividido em sub-grupos distintos.

Retomando o relatório de COLLIER et al.(2003:4) e tendo por base a teoria descrita, podemos afirmar que as características económicas do país serão muito mais importantes do que as razões étnicas e religiosas. Se analisarmos o mapa de guerras civis de SMITH (2003:10-11), verificamos que estas se concentram nos países pobres e em desenvolvimento, o que se explicará pelo facto de as populações não virem satisfeitas as suas necessidades básicas e por terem que lutar pelos recursos escassos. Por exemplo, um país em declínio económico é

mais dependente dos bens primários de exportação e tem um rendimento per

capita baixo e desigualmente distribuído, sendo o risco de guerra civil elevado. Neste contexto, é bem mais fácil, por exemplo, contratar jovens pobres que aceitem fazer violência e terrorismo em troca de dinheiro.

(24)

comum e assemelham-se linguística, religiosa e culturalmente (mais do que quaisquer outros grupos).

Assim, apesar de uma guerra civil ser intensamente política, a maioria dos autores defende que a razão chave do conflito é a falha do desenvolvimento económico. E sobre este assunto TOMMASOLI (2003:7) faz uma afirmação interessante: “as guerras civis são, até certo ponto, uma continuação da economia por outros meios”13.

A uma situação de pobreza económica, adiciona-se um Estado fraco, não democrático e incompetente, incapaz de gerir a riqueza de recursos naturais, que são uma fonte de financiamento das organizações rebeldes, sustenta o relatório de COLLIER et al.(2003:4).

AGERBACK (1996:27) sublinha que a pobreza não é por si só uma causa suficiente do conflito, o que é comprovado pela existência de países pobres que não estão em guerra. A autora afirma que “a causa não é tanto a falta de recursos per se, como injustiça”, mas sim a existência de “estruturas económicas e políticas que mantêm o domínio de um grupo no centro do poder sobre um grupo na periferia, ao ponto de negar os mais básicos direitos económicos, sociais e políticos”14. Esta situação é traduzida pelos conceitos de “violência estrutural” ou “injustiça estrutural” e é ilustrado pelo caso do apartheid na África do Sul. Doadores e analistas tendem ainda a considerar a elevada corrupção como a primeira explicação de um conjunto de problemas de desenvolvimento, diz BILLON (2003:15). Porém, o autor afirma que a corrupção não é por si só um factor suficiente ou necessário do conflito armado, devendo antes ser entendido como um sintoma da falha no desenvolvimento e a forma mais eficaz de indivíduos ou grupos cooperarem com uma economia política de incerteza, escassez e desordem.

Analisando a questão de um outro prisma, SMITH (2003:14-15) sublinha que a transição global para a democracia no final do século XX trouxe benefícios importantes em termos de liberdade, cumprimento da lei e paz, e admite que as

13 TOMMASOLI (2003), p.7.

(25)

democracias estabelecidas são mais estáveis que as ditaduras. Ainda assim, o autor afirma que “apesar da democracia estar relativamente segura face à guerra,

o seu caminho está cheio de perigos”15. As estatísticas indicam que, na viragem

para o novo milénio, estavam em guerra civil 12% das democracias estabelecidas, 45% dos regimes de ditadura (de um só partido) e 30% dos regimes em transição democrática.

Para COLLIER et al. (2003:5), há uma distinção fundamental que deve ser feita

entre dois grupos de países em desenvolvimento (PED). O primeiro grupo tem um nível de rendimento médio e um ambiente institucional que permite o seu processo de desenvolvimento. O segundo são os PED com um rendimento muito baixo e incapazes de adoptar políticas institucionais que conduzam aos trilhos do desenvolvimento. Para este segundo grupo, os riscos de guerra civil têm sido crescentes e a sua incidência aumentou particularmente nos últimos 40 anos. Aliás, segundo COLLIER & HOEFFLER (1998:568), a probabilidade de ocorrência de guerra civil é de 0.63 num país com rendimentos baixos e de apenas 0.15 num país menos pobre, à semelhança do que acontece com a duração da guerra, inferior nos países com mais rendimentos.

Apesar da primazia das causas económicas, muitas rebeliões têm também uma dimensão étnica ou religiosa. “Onde a guerra civil é justificada com base na ameaça de um grupo étnico diferente, de uma raça ou nação, de medo mútuo ou de uma escala de ódio e violência, a reconciliação é uma perspectiva distante. E o risco de retorno da guerra é extremamente elevado”, afirma SMITH (2003:16-17). Ainda assim, no início do século XXI, a maioria dos países com diversidade étnica não estavam em guerra.

Curiosamente, constataram COLLIER e HOEFFLER (2002)16, uma maior

diversidade étnica e religiosa reduz significativamente o risco de conflito, apesar de tornar também mais difícil a realização de trabalho comum. Já uma diferenciação étnica mais limitada – ou seja, a existência de poucos grupos étnicos diferentes - pode constituir um problema, na medida em que o maior

15 SMITH (2003), pp.14-15.

16 “Greed and Grievance in Civil Wars” (

(26)

grupo étnico de uma sociedade multi-étnica forma a maioria, aumentando o risco de rebelião em 50%. Metade dos PED têm justamente estas características de domínio étnico.

O problema da diferenciação étnica pode acentuar-se quando se descobre um recurso natural valioso no país. ROSS (2002:3) afirma que uma das mais importantes descobertas no âmbito da pesquisa sobre as causas da guerra civil é que os recursos naturais desempenham um papel fundamental na manutenção, no prolongamento e no financiamento dos conflitos. Os recursos que provocam esse tipo de problemas são essencialmente o petróleo e os recursos minerais valiosos

como o ouro, os diamantese outras pedras preciosas, explica o autor. Por vezes,

recursos como a madeira podem também influenciar o conflito. ROSS (2002:3) explica ainda que, se as considerarmos um recurso natural, as drogas desempenharam um papel fundamental em vários conflitos.

COLLIER et al. (2003:60) explicam que, normalmente, os recursos naturais

estão concentrados numa determinada área do país, pelo que o primeiro problema é quem é o dono dos recursos: essa região ou o Estado, o que pode gerar conflito.

Os autores exemplificam com o caso da droga na Colômbia17.

Porém, sobre este aspecto, COLLIER & HOEFFLER (1998:568) acrescentam que a existência de recursos naturais apenas aumenta inicialmente o risco e a duração da guerra civil, sendo que, posteriormente, essa probabilidade diminui. Os autores indicam que a probabilidade máxima ocorrida foi de 27% para o risco de rebelião e de 24% para a duração da guerra. Além disso, a posse de recursos naturais é mais perigosa num país com poucos recursos (a probabilidade é de 0.56) do que num país sem recursos (a probabilidade é de 0.12).

Também ROSS (2002:4) esclarece que os recursos naturais nunca são a única fonte do conflito, na medida em que os conflitos são provocados por um conjunto

17 Segundo

The World Fact Book, a Colômbia é um produtor ilícito de cocaína, opium e cannabis e o

(27)

de acontecimentos (pobreza, clivagens étnicas ou religiosas, governos instáveis). Porém, eles aumentam o perigo de eclosão de guerra civil. O autor esclarece ainda que a dependência dos recursos naturais torna o conflito inevitável, embora melhores políticas reduzam a probabilidade de os recursos gerarem conflito e ajudem a canalizar a riqueza para a educação, saúde e redução da pobreza.

Quanto aos incentivos para os movimentos secessionistas, ROSS (2002:15) explica que a abundância de um recurso natural incentiva efectivamente as populações, embora esse tipo de insurreição tenha a priori um conjunto de características: (1) antes do recurso ser explorado, a população já tem uma identidade distinta (étnica, religiosa ou linguística) que a mantém afastada da maioria da população; (2) a crença comum de que o poder central se está a apropriar injustamente da riqueza e de que essa região seria mais rica se fosse um estado independente e (3) muitas vezes, essa população arcou com os custos do processo de extracção, através da apropriação de terras, dos danos ambientais e da imigração de força de trabalho para a região.

Os rebeldes têm também normalmente uma agenda política, ainda que não convencional. ARMENGOL (2003:50) refere o binómio autonomia-independência como uma das causas mais comuns da guerra, a qual implica a existência de grupos minoritários (ou maioritários nalguns casos) que reclamam o poder político a partir de afirmações identitárias que não foram satisfeitas.

HIRSHLEIFER (2001)18analisa a rebelião como o uso de recursos para explorar

os outros com o objectivo de obter ganhos económicos. O autor sublinha a importância dos mal-entendidos, na medida em que cada lado pode sobrestimar os seus objectivos militares, o que fará com que novas guerras comecem e as guerras em curso persistam19.

No entanto, a este nível, sustentam COLLIER et al.(2003:89), deparamo-nos

com um paradoxo, pois verificamos que, historicamente, a rebelião não acontece nem em situações de injustiça, nem em casos extremos de abuso de poder. As

18 “The dark side of the force. Economic Foundations of Conflict Theory”

in COLLIER et al.. (2003),

p.63.

19 “The dark side of the force. Economic Foundations of Conflict Theory”

(28)

rebeliões parecem estar associadas ao desejo de apropriação de bens. Desta perspectiva, os Estados com maior fluxo de ajuda são atractivos para dominar, apesar de reunirem menos condições propícias à rebelião.

Por vezes, a secessão não é suficiente, pois certos recursos lucrativos requerem o domínio do aparelho do Estado. O caso mais óbvio é quando esse recurso é a ajuda externa. Para estes países, a ajuda é uma parte substancial do orçamento

governamental, afirmam COLLIER et al. (2003:63) pelo que, indirectamente,

financia muitos postos de emprego do sector público e contratos disputados politicamente. No entanto, a ajuda externa é dirigida ao Governo legitimamente reconhecido, pelo que o grupo rebelde só receberá toda a ajuda se substituir a este ou parte dela se com ele fizer um “power sharing agreement”. Assim, um grande fluxo de ajuda torna um Estado mais atractivo para ser “capturado” ou dominado pelas forças rebeldes, aumentando o risco de rebelião.

COLLIER e HOEFFLER (2003)20 têm uma opinião contrária, pois sustentam que

a ajuda não parece aumentar o risco de rebelião. Afecta o risco de conflito positivamente, na medida em que influencia o crescimento. Afirmam que “há um risco considerável de que o conflito recomece e a ajuda poderá directamente reduzir esse risco para lá dos efeitos no crescimento e na redução da pobreza”21.

A estas causas, SMITH (2003:12-13) adiciona o desrespeito pelos DH. Quando

um Estado recorre à violência, a oposição opta, numa primeira fase, pelo silêncio. No entanto, sustenta o autor, se as condições de desrespeito pelos DH se agravam, a oposição não vê outra alternativa que não o recurso à violência. Note-se, no entanto, que esta ideia vai contra a teoria de COLLIER e HOEFFLER (2002)22, segundo a qual a rebelião por injustiça tem pouca expressão na justificação da rebelião.

Por último, acrescentaríamos a esta lista a causa histórica relacionada com o papel dos colonizadores no passado dos países em guerra civil. A divisão

20“Aid, Policy and Peace: reducing the risks of civil confict”

in COLLIER et al. (2003), p.64

21 COLLIER & HOEFFLER (2002a), p.2 22 “Greed and Grievance in Civil Wars”.

(29)

territorial feita “com régua” poderá não ter ponderado o factor cultura desses povos.

COELHO (2003:176) refere o caso dos “conflitos intestinamente desenvolvidos no seio dos movimentos nacionalistas” como um dos factores que explica como países saídos das guerras coloniais tiveram potencial de violência para as guerras civis. Recorrendo ao exemplo das ex-colónias portuguesas, o autor explica que Portugal tomou medidas administrativas e para-militares, no sentido de integrar homens das aldeias em movimentações de autodefesa, de perseguição e de

detecção de combatentes nacionalistas23, de que resultaram as sanzalas protegidas

em Angola, os aldeamentos em Moçambique ou as tabancas na Guiné-Bissau,

“verdadeiros espaços concentracionários de produção de violência”24. Além

disso, as autoridades coloniais transferiram para esses aldeamentos um mecanismo de autodefesa, constituído por milícias recrutadas localmente e

treinadas apressadamente25. O resultado foi a competição sistemática e violenta

entre esses grupos e as populações pelo acesso aos escassos recursos. Por detrás disso, estava o “crescimento de uma nova forma de violência, surda ainda, paralela à da guerra que entretanto alastrava, mas já generalizada no território”26.

4. O mapa das guerras civis no tempo e no espaço

As características do estado de guerra alteraram-se nos últimos 50 anos, passando as guerras internacionais a ser raras e as guerras civis mais comuns, principalmente no pós-Guerra Fria em que o aumento da eficácia das normas e instituições internacionais nos processos de manutenção e construção da paz não foi suficiente para prevenir os conflitos internos.

ERIKSSON, WALLENSTEEN & SOLLENBERG (2003:593) indicam que, de 1946 a 2002, ocorreram 226 conflitos armados, dos quais 116 ocorreram a partir de 1989 em 79 territórios no mundo inteiro. MUSCAT (2002:6) especifica que, dos 101 conflitos ocorridos entre 1989 e 1996, 95 eram internos.

(30)

Recuperando as distinções feitas entre vários níveis de violência27, as estatísticas

indicam que, em 1997, decorriam 17 conflitos de alta intensidade (Congo –

Ex-Zaire, Afeganistão, Algéria, República do Congo – Brazzaville -, Ruanda, Sudão, Sri Lanka, Turquia, Colômbia, Albânia, Índia-Paquistão, Burma, Burundi, Iraque, Índia - Assam e Bihar - e Tajaquistão), 70 conflitos de baixa intensidade e 74 conflitos políticos violentos. Desses 161 conflitos, apenas 11 não eram internos. MUSCAT (2002:6) alerta ainda para o facto do número de países envolvidos (110) ser inferior ao número de conflitos, devido ao facto de alguns países como a Etiópia, a Índia e a China, terem vários conflitos internos28.

Já entre 1997 e 2001, segundo SMITH (2003:12-13), decorreram guerras civis na América Latina (México, Colômbia e Perú); em África (Algéria, Líbia, Nigéria, Senegal, Guiné-Bissau, Guiné Conacri, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Ghana, Nigéria, Niger, Chade, República Centro-Africana, Sudão, Etiópia, Uganda, Somália, Ruanda, República Democrática do Congo (RDC), Congo, Angola e Burundi), na Europa de Leste (Macedónia, Jugoslávia, Rússia, Cazaquistão, e Tazaquistão), no Próximo Oriente (Albânia, Egipto, Israel, Turquia, Líbano, e Iraque), no Médio Oriente (Afeganistão e Paquistão) e na Ásia (Índia, Nepal, Bangladesh, Burma, Camboja, Filipinas e Indonésia). Esse mapa indica-nos também que, das 73 guerras ocorridas entre 1997 e 2001, 47

eram guerras civis. COLLIER et al.(2003:93) indicam mesmo que, em 2001,

todos os conflitos eram guerra civis à excepção de um (o Afeganistão).

Em 2002, o número de guerras diminuiu de 11 para 5 (Burundi, Colômbia, Caxemira, Nepal e Sudão), segundo ERIKSSON, WALLENSTEIN & SOLLENBERG (2003:593), uma vez que terminaram as guerras no Afeganistão, na RDC e no Sri Lanka, e uma vez que as guerras na Argélia, em Angola, na Rússia, no Ruanda e no Iraque, implicaram menos de 1000 mortes em combate. Ainda em 2002, rebentou um novo conflito na Costa do Marfim e recomeçaram

27 Sobre este assunto, rever as distinções feitas no ponto I.1.

28

MUSCAT (2002:6) explica que estas listas variam de ano para ano, uma vez que alguns conflitos se resolvem, enquanto outros eclodem ou evoluem de uma situação de baixa intensidade ou conflito político violento para um cenário de maior gravidade.

(31)

os conflitos no enclave de Cabinda e no Congo-Brazaville. Os autores acrescentam que, à semelhança dos anos anteriores, também em 2002 a maioria dos conflitos eram internos (26 em 31)29.

A fórmula que melhor ilustra o mapa das guerras civis é a incidência global da guerra civil30, que, segundo COLLIER et al. (2003:94), é determinada pelo risco médio de que ocorra uma rebelião em dada altura e pela duração média de uma guerra em curso. Se estes dois factores se mantiverem constantes durante um longo período, a incidência global da guerra terá atingido um nível de auto-sustentabilidade: o número de guerras a iniciar será balançado pelo número de guerras a terminar, sendo constante o stock de guerras civis activas.

No entanto, o declínio global do risco de rebelião e a longa duração do conflito mudaram a incidência global de guerra civil auto-sustentável. Assim, enquanto a incidência global aumentou nos últimos 40 anos, a incidência auto-sustentável diminuiu um pouco, devido a dois factores, o aumento do número de países pobres independentes e a extensão do desenvolvimento económico que tem tornado o mundo um lugar mais seguro.

Olhando historicamente a evolução das guerras31, constata-se que, na década de

50, a possibilidade de eclosão da guerra civil diminuiu pelo facto de muitos PED serem ainda colónias, adicionando a isso o facto de os países tenderem a estar em paz no seu primeiro ano de independência.

Da década de 50 para a de 70, houve um aumento da incidência do conflito que se poderá explicar pela existência de um maior número de países pobres independentes.

Além disso, até aos finais dos anos 80, os conflitos tiveram menor tendência para terminar, atingindo o seu auge em 1990. A partir daí, ao longo da primeira metade da década, a paz generalizou-se. É o caso da América Latina que viveu a década de 80 fortemente marcada por conflitos, mas que mostrou depois um notável desenvolvimento desde o fim da Guerra Fria. Também na Ásia, o período

29 ERIKSSON, WALLENSTEIN & SOLLENBERG (2003), p.594.

30 HEGRE (2003), p.243 explica que a incidência da guerra é a melhor forma de medir o alcance da

guerra civil como um problema global, devido à falta de medidas correctas que indiquem o número de pessoas mortas em conflito todos os anos e a quantidade de destruição física.

31 COLLIER

(32)

de 1950-2001 foi marcado por uma elevada incidência de guerras civis e, na África Subsariana, registou-se um aumento dos conflitos. Durante a década de 80, a África tinha uma incidência média inferior, embora hoje seja a única região

que não viu um decréscimo da mesma32.

Já no final da década de 90, estavam em curso tantas guerras, como antes do final da guerra fria, segundo SMITH (2003:8).

Segundo o modelo de COLLIER e HOEFFLER (2002)33, a tendência para a

guerra não melhorou nem piorou muito ao longo dos tempos. Apesar do fim da Guerra Fria ter trazido algum tempo de paz e de ter implicado um corte no financiamento de várias guerras potenciais, a queda da URSS deixou rebentar algumas guerras civis que antes tinham sido reprimidas. “As oportunidades de paz eram muito mais baixas nas décadas de 80 e 90 do que anteriormente” afirmam COLLIER, HOEFFLER & SODERBOM (2004:268).

Este fenómeno é explicado por um modelo de COLLIER & HOEFFLER

(1998:571-572)34, que recorre a um conjunto de variáveis explicativas da guerra,

entre as quais o rendimento económico do país. O modelo diz que, quanto maior for o rendimento do país, mais curta é a guerra civil, pois a guerra é mais dispendiosa em países com níveis de rendimento elevado. Pelo contrário, os países pobres recorrem ao armamento convencional, o que os dissuade de terminar a guerra.

Assim, se compararmos a década de 60 com a de 90, dizem COLLIER E

HOEFFLER (2002)35, verificamos que, na primeira, os países independentes

tinham um rendimento maior que nos anos 90, o que reduzia o risco de rebelião. Por exemplo, se virmos essa evolução ao nível de um conjunto de países previamente seleccionado pela OCDE em cada região do mundo em desenvolvimento, constatamos que a média global aponta para o crescimento do PIB pc, excepto na Oceânia, como nos indica o gráfico 1.

32 COLLIER

et al. (2003), p.114.

33 “Greed and Grievance in Civil Wars”

in COLLIER et al.. (2003),p. 98.

34 Rever o modelo que já detalhámos no ponto I2 relativo aos condicionalismos e motivações da rebelião. 35 “Greed and Grievance in Civil Wars”

(33)

Gráfico 1 – Comparação do PIBpc nos anos 60 e 90 330 200 1100 1180 1980 350 540 990 2130 2230

0 500 1000 1500 2000 2500

África Subsariana Ásia Oceânia América Latina Norte de África e Médio Oriente

R eg es d o M u n d o

PIB pc PIBpc em 1990 ($)

PIBpc em 1960 ($)

Fonte: FUHRER (1996)

Porém, se nos debruçarmos sobre os países da OCDE (com informação

disponível sobre o PIBpc nos dois espaços temporais)36, confirmamos que existe

um conjunto de países cujo PIBpc em 1990 era inferior ao PIBpc em 1960. É o caso do Sahel, do Zaire, do Sudão, de Moçambique, do Ghana, de Madagáscar e da Zâmbia, como podemos verificar no gráfico 2.

Gráfico 2 - Países da África Subsariana com decréscimo do PIB pc de 1960 para 1990 490 300 590 230 220 520 530 430 340 530 360 220 410 370 80 390 760 940 230 420

0 200 400 600 800 1000

Sahel Zaire Sudão Quénia Moçambique Ghana Costa do Marfim Camarões Madagascar Zâmbia P se s

PIB pc PIBpc em 1990 ($)PIBpc em 1960 ($)

Fonte: Fuhrer (1996)

36 Note-se que tabela que está na base dos dois gráficos apenas contém informação relativa a alguns

(34)

O aumento da duração da guerra é ainda explicado pelo facto da rebelião se ter tornado uma forma de vida para os rebeldes. Se lutar é tão lucrativo, os rebeldes têm poucos incentivos para fazer a paz37.

Por último, a incidência da guerra civil muda também consoante as regiões, o que se explica pelo facto de determinadas regiões partilharem características comuns que afectam o risco de conflito. Além disso, as guerras civis provocam o efeito de dominó nos países vizinhos. Assim, se um país tem um elevado número de conflitos, este facto aumentará também o risco nos países que ainda se encontrem em situação de paz.

5. As consequências da guerra civil

Os perpretores da guerra civil utilizam o argumento de que a guerra é o catalisador necessário para o progresso social, na medida em que o líder rebelde pode achar que os terríveis custos da guerra são um mal necessário para se conseguirem melhorias futuras38. Esta ideia está na base de teoria da “guerra como parteira do desenvolvimento”, na medida em que as perdas podem ser o

mote para o desenvolvimento39. Como assevera AGERBACK (1996:29), “(...)a

experiência no Zimbabwe, Nicarágua, Eritréia e África do Sul mostra que o conflito também pode criar novas estruturas sociais e formas de trabalho, e a solução política que ele traz pode trazer novas possibilidades para o desenvolvimento”40.

Todavia, de forma geral, a guerra provoca a catástrofe económica e social, por dois grandes motivos: em primeiro lugar, a destruição dos recursos do inimigo para subjugá-lo politicamente é o objectivo estratégico destas guerras, como aponta ARMIÑO (1997:15); em segundo lugar, os recursos deixam de ser canalizados para as actividades produtivas para passarem a ser usados na violência, como afirmam COLLIER et al. (2003:12).

37 A este propósito, COLLIER

et al. (2003) sublinham que esta condição faz acreditar que a

implementação de medidas para reduzir o fluxos de fundos poderia levar os rebeldes a sentarem-se à mesa de negociações.

38 COLLIER

et al.. (2003), p.19.

(35)

Este ponto visa analisar os resultados da guerra civil, destacando três principais tipos de consequências para o país, para a região e para as populações: as consequências económicas, sociais e psicológicas.

5.1– As Consequências Económicas

Uma guerra provoca inevitavelmente consequências negativas para a economia nacional, primeiramente devido à perda de recursos humanos (por morte ou doença) e de recursos materiais ou desvio no seu uso (do sector civil para o militar).

ARMIÑO (1997:22) afirma que o desvio de recursos públicos para fins militares faz com que estes deixem de estar disponíveis para o investimento no desenvolvimento económico e social. Esta é também a posição de COLLIER & HOEFFLER (1998:169) que apontam a diversão dos gastos públicos em actividades que potenciam output para a acção militar.

Esse tipo de consequências é normalmente medido pela contabilidade das despesas militares ocorridas durante a guerra. Segundo COLLIER et al. (2003:14),

os países com um PIBpc inferior a 3.000 USD tendem a gastar 2.8% do PIB em despesas militares em tempo de paz. Quando se inicia uma guerra, esse valor aumenta para 5%, fazendo descer as despesas públicas afectas a sectores como a saúde e as infra-estruturas e agravando o rendimento e os níveis dos indicadores sociais.

O afastamento dos recursos produtivos é acompanhado pela redução da mão de obra produtiva devido ao êxodo da população, e por uma perturbação da circulação comercial devido à falta de segurança e à existência de minas antipessoais no país em guerra, segundo ARMIÑO (1997:22).

Imagem

Gráfico 1 – Comparação do PIBpc nos anos 60 e 90 330200 1100 1180 1980350540990 2130 2230 0 500 1000 1500 2000 2500África SubsarianaÁsiaOceâniaAmérica LatinaNorte de África e Médio Oriente
Gráfico 3 – Peso relativo da APD por tipo de 1973 a 2003 (OCDE)
Gráfico 4 – Principais doadores de APD entre 1973 e 2003 (OCDE) 050.000100.000150.000200.000250.000300.000
Gráfico 6 – A ajuda humanitária de emergência por objectivo entre 1973 e 2003
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Referências

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