Escola de Arquitectura
João Sérgio Sequeira Rodrigues Braga da Cruz
O castelo português de Alcácer Ceguer:
transformações morfológicas nos sécs. XV
e XVI
VOLUME I
Escola de Arquitectura
João Sérgio Sequeira Rodrigues Braga da Cruz
O castelo português de Alcácer Ceguer:
transformações morfológicas nos sécs. XV
e XVI
VOLUME I
Tese de Mestrado
Área: Cultura Arquitectónica
Ramo: História da Arquitectura
Trabalho efectuado sob a orientação do
Prof. Doutor Jorge Manuel Simão Alves Correia
II
DECLARAÇÃO
Nome: João Sérgio Sequeira Rodrigues Braga da Cruz
Endereço electrónico: [email protected] Telefone: 914 992 256 Número do Bilhete de Identidade: 11977826
Título dissertação:
O CASTELO PORTUGUÊS DE ALCÁCER CEGUER Transformações morfológicas nos sécs. XV e XVI Orientador:
Professor Doutor Jorge Manuel Simão Alves Correia Ano de conclusão: 2015
Designação do Mestrado ou do Ramo de Conhecimento do Doutoramento: Cultura Arquitetónica / História da Arquitetura
É AUTORIZADA A REPRODUÇÃO INTEGRAL DESTA TESE/TRABALHO APENAS PARA EFEITOS DE INVESTIGAÇÃO, MEDIANTE DECLARAÇÃO ESCRITA DO INTERESSADO, QUE A TAL SE COMPROMETE;
Universidade do Minho, 13 de Julho de 2015
III
» AGRADECIMENTOS
Ao professor Jorge Correia, orientador desta dissertação e responsável pela minha integração na equipa de levantamento das ruínas de Alcácer Ceguer, pelo estímulo, acompanhamento e crítica ao longo destes últimos anos, acreditando sempre que «desta é que ia ser».
À Direction du Patrimoine Culturel du Royaume du Maroc, à Direction Régionale de la Culture Tanger-Tétouan, e ao Monsieur Conservateur du Site Archeológique de Ksar es-Seghir, Abdelatif El Boudjay, pela permissão no estudo e acesso às ruínas do antigo castelo português de Alcácer Ceguer.
À arquiteta Ana Lopes, companheira de equipa nas campanhas magrebinas, pela sua permanente disponibilidade em ajudar e pela curiosidade pelo trabalho.
Aos restantes membros da equipa de trabalho de campo do Projeto de Investigação «Villes et architectures d’origine portugaise au nord du Maroc: Asilah et Qsar es-Sghir» (desenvolvido pelo Centro de História d’Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa e pela a Escola de Arquitetura da Universidade do Minho), em particular à Zulmira Pereira, pela entreajuda e camaradagem.
A Vinagre & Côrte-Real, pela compreensão ao longo dos meses em que tive que partilhar o meu calendário laboral, com o académico.
A todos os meus amigos, em particular Dora, Joana, Mafalda, Bruno, Pedro, Manel, Zé, Rosinda, Ana, Diana e Guilherme, por tudo. Ao Leandro, pelo tempo que lhe roubei. Ao Pepe, pela motivación.
Por fim, à minha família, pela preocupação constante, ao meu irmão, pelo seu apoio incondicional e à minha mãe, por estar sempre comigo.
V
» RESUMO
O CASTELO PORTUGUÊS DE ALCÁCER CEGUER: transformações morfológicas nos sécs. XV e XVI
A vila de Alcácer Ceguer, ou Qsar es-Seghir, foi um local estratégico para a Expansão Portuguesa nos séculos XV e XVI. No contexto específico de uma praça norte-africana de carácter predominantemente militar, o estudo do seu castelo permite distinguir modos de atuação particulares, seja em termos bélicos, edificativos ou urbanísticos.
Estendendo-se por quatro reinados e quase um século, a ocupação portuguesa (1458-1550) corresponde a um período de aperfeiçoamento da tecnologia bélica e da arquitetura militar, onde o crescente domínio da pólvora e a evolução do poder de fogo tiveram um papel determinante. As transformações morfológicas ocorridas no castelo de Alcácer Ceguer exigiram uma investigação à luz dessa conjuntura de transição, tentando identificar de que modo a sua arquitetura foi assimilando, quer as sucessivas políticas régias, quer as inovações na arte da guerra e de fortificar. De todas as suas fases evolutivas, destacaram-se as intensas reformas no reinado de D. Manuel I, quando assomaram à praça os mestres Diogo Barbudo, Martim Lourenço, Francisco Danzilho e Diogo Boitaca.
O recurso à documentação coeva e a elaboração de modelos planimétricos e tridimensionais foram essenciais para a reconstituição do que poderão ter sido as diferentes fases construtivas do castelo. Através da análise e especulação, foram elaborados desenhos de produção original, onde se reconhecem e justificam possíveis intenções dos mestres/arquitetos/construtores, tais como os traçados e dimensionamentos escolhidos ou as regras e geometrias aplicadas.
VII
» ABSTRACT
THE PORTUGUESE CASTLE OF ALCÁCER CEGUER:
morphological transformations in the 15th and 16th centuries
The town of Alcácer Ceguer, or Qsar es-Seghir, was a strategic location for the Portuguese Expansion in the fifteenth and sixteenth centuries. In the specific context of a predominantly North African military site, the study of its castle allow us to distinguish belligerent, constructive or urban modes of action.
Spanning four reigns and nearly a century, the Portuguese occupation (1458-1550) corresponds to a period of training of weapons technology and military architecture, where the increasing mastery of gunpowder and the evolution of firepower were crucial. Morphological changes in Alcácer Ceguer’s castle demanded an investigation regarding this transitional condition, trying to identify how its architecture was assimilating either the consecutive royal policies or the innovations in warfare and fortification. Within these evolutionary, the intense reforms during the reign of King Manuel I stand out, looming masters Diogo Barbudo, Martim Lourenço, Francisco Danzilho and Diogo Boitaca.
The use of coeval documentation and the preparation of planimetric and three-dimensional models were essential to the reproduction of what may have been different construction phases of the castle. Through analysis and speculation, original drawings were prepared where possible intentions of masters/architects/builders are recognized and justified, such as the chosen layouts and dimensioning or the applied rules and geometries.
IX
» SUMÁRIO
Introdução, 11
Parte I | Enquadramento temático e histórico, 19
1. A expansão portuguesa no Norte de África, 21 2. A vila de Alcácer Ceguer (Qsar es-Seghir), 27
2.1. Antecedentes da ocupação portuguesa: de Ribat a Qsar es-Seghir, 29 2.2. A conquista, 37
2.3. Ocupação da vila, 39 2.4. O período Manuelino, 45
2.5. O Seinal e o abandono da praça, 57
Parte II | O castelo de Alcácer Ceguer, 69 3. Formação e evolução do castelo, 71
3.1. Adaptação das estruturas islâmicas, 73 3.2. Couraça(s), 83
3.3. Frentes da Vila e da Ribeira, 117 3.4. Torre de menagem, 139
3.5. Casa do capitão e dependências, 145 3.6. Baluarte da Praia, 155
4. Da apropriação ao esforço modernizador do início do séc. XVI, 167
4.1. As estruturas residenciais do séc. XVI: duas hipóteses, 181 4.2. A capacidade militar e retórica da fortificação, 187
5. Síntese conclusiva, 201
Bibliografia, 209
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Qsar es-Seghir foi uma vila do Norte de África que integrou de forma estratégica o plano de expansão e (re)conquista cristã do reinado de D. Afonso V, o Africano. A conquista portuguesa aos mouros, em meados do séc. XV, encetou uma ocupação que se estendeu por quase um século (1458-1550), perdurando até ao reinado de D. João III. Abandonada pelos portugueses no séc. XVI, a vila então apelidada de Alcácer Ceguer nunca foi reocupada, restando em evidência grande parte do seu estrato urbanístico e arquitetónico.
De grande importância foram as várias campanhas arqueológicas desenvolvidas nos anos 70 do séc. XX, por uma equipa norte-americana. Encabeçadas por Charles L. Redman, estas missões em muito contribuíram para a descoberta e preservação de inúmeros elementos arqueológicos, tanto do estrato português como dos estratos islâmicos. Ainda há muito por escavar em Qsar es-Seghir, no entanto, os resultados das escavações norte-americanas1
De igual modo, ao longo das últimas décadas, vários investigadores se debruçaram sobre a ocupação portuguesa no Norte de África. Trabalhos como os de Rafael Moreira
estão longe de se esgotarem enquanto pontos de partida para diversos estudos e interpretações acerca da pequena vila fortificada.
2, Pedro Dias3 ou Jorge
Correia4
Uma análise sistemática dos vestígios arqueológicos/arquitetónicos de Alcácer Ceguer, tal como os documentos da época, permite aprofundar o conhecimento do quotidiano português nas localidades do Algarve de além-mar, mais especificamente na margem sul do estreito de Gibraltar. Dos espaços habitacionais às estruturas militares, passando pelos diversos equipamentos e espaços públicos, o modo de construir reflecte modos de habitar distintos do reino de Portugal, determinados por regras próprias de governação e actuação sobre estas praças predominantemente militares.
, consolidaram conceitos e temáticas relacionadas com o urbanismo e a arquitetura militar, reunindo e analisando casos de estudo que justificam estudos monográficos mais aprofundados.
O estudo do estrato português – numa abordagem particular ao castelejo da vila – permite identificar um conjunto de intenções construtivas e arquitetónicas decorrentes dos propósitos militares e propagandísticos dos diferentes reinados em causa. Enquadrado num perímetro muralhado mais vasto,
1 Resultados apresentados e interpretados parcialmente em diversos artigos de 1978 a 1980 e que, posteriormente, foram integrados em estudo monográfico mais aprofundado: REDMAN, Charles L. – Qsar es-Seghir: An Archaelogical View of Medieval Life. London/Orlando, Florida: Academic Press Inc, 1986. 2 MOREIRA, Rafael – «A época manuelina» e «A arte da guerra no Renascimento» in HISTÓRIA das Fortificações Portuguesas no Mundo. Direção de Rafael Moreira. Lisboa: Alfa, 1989; Idem – A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa. Porto: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994.
3 DIAS, Pedro – A Arquitectura dos Portugueses em Marrocos, 1415-1769. Coimbra: Livraria Minerva Editora, 2000.
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de traçado em circunferência e pontuado de pequenos torreões circulares, o castelo surge da apropriação de uma das portas da urbe islâmica, a Bab al-Bahar (Porta do Mar). Desde a instalação da casa do primeiro capitão da vila, ao sistema mais complexo que ainda hoje se pode observar, o castelo cresce e sofre importantes transformações morfológicas, resultantes da interferência régia, do traço dos mestres intervenientes e dos propósitos militares e operacionais da própria vila. Construído em redor da preexistência islâmica, o castelo privilegia a relação com o mar e com a metrópole através da construção de uma longa couraça. Enquanto último reduto defensivo da vila, reforçaram-se as defesas contra o inimigo: ergueram-se muros, torres e ameias, organizaram-se sistemas de adarves e escavaram-se cavas, construiu-se o baluarte da Vila e depois o da Praia, rasgaram-se portas, seteiras e bombardeiras.
De toda a evolução morfológica do castelo, as maiores transformações viriam a surgir com a entrada do séc. XVI, durante o reinado de D. Manuel I. Para formalizar uma política régia de afirmação internacional e de grande ímpeto construtivo, da corte manuelina são destacados os mestres Diogo Barbudo e Martim Lourenço e, pouco mais tarde, Francisco Danzilho e Diogo Boitaca. Marcando fortemente o carácter arquitetónico e urbanístico de cidades e vilas portuguesas do Algarve de além-mar, os mestres procuraram traduzir o crescente domínio da pólvora em traçados e reformas de maior eficácia e melhor desempenho militar, permitindo aos sistemas fortificados o acolhimento de dispositivos pirobalísticos cada vez mais avançados. Em Alcácer Ceguer, Francisco Danzilho foi responsável pela modernização de pontos fulcrais para a acção defensiva e atacante da vila, provendo os mais importantes pontos de contacto com o exterior de sistemas pré-abaluartados como o Baluarte da Porta de Ceuta (hoje muito arruinado), o Baluarte da Porta de Fez (a bloquear o antigo acesso) e, no castelejo, o Baluarte da Praia (dotado de dois níveis de canhoneiras e uma espaçosa praça de armas).
Abarcando um período de grandes mudanças e aperfeiçoamento da tecnologia bélica e da arquitetura militar, o castelo de Alcácer Ceguer, com a sua imponente couraça, abraça e adapta a preexistência muçulmana e assume-se como bastião de defesa e soberania sobre uma envolvente em estado de guerra latente, ou iminente. Enquanto fortificação, parte de pressupostos tardo-medievais para, mais tarde, adquirir elementos proto-modernos, enquadrando-se numa arquitetura de transição, correspondente aos constantes avanços das técnicas de guerra e às necessidades retóricas do rei D. Manuel I.
Propõe-se o estudo arquitetónico do Castelo de Alcácer Ceguer, enquanto sistema fortificado e de autoridade da vila, no contexto de apropriação e manutenção de pontos estratégicos para a expansão portuguesa no Norte de África. Incidindo no intervalo temporal de meados do séc. XV até meados do séc.
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XVI, a investigação recorreu à historiografia e ao levantamento arquitetónico das estruturas existentes para a produção original de modelos planimétricos e tridimensionais do castelo, contribuindo para o reconhecimento e reconstituição de diferentes fases construtivas e arquitetónicas. No contexto evolutivo da arquitetura militar, estes modelos foram alvo de análise e interpretação à luz dos gostos e políticas da época, mestres/arquitetos intervenientes, sistemas de medidas utilizados, regras ou geometrias, em articulação com possíveis intenções de desenho decorrentes da evolução da capacidade de fogo.
Organização
São apresentados dois volumes. O primeiro integra todo o corpo de texto da investigação, complementando-o com as ilustrações consideradas necessárias ao acompanhamento e compreensão das matérias expostas. O segundo volume, de anexos, reúne documentos essenciais para a realização do trabalho, entre os quais alguns registos da época e o levantamento métrico do castelo, efetuado em 2011 no âmbito do projeto «Villes et architectures d’origine portugaise au nord du Maroc: Asilah et Qsar es-Sghir», resultante de protocolo entre o Centro de História d’Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa, a Escola de Arquitetura da Universidade do Minho e a Direction du Patrimoine Culturel/Direction Régionale de Culture de la région Tanger-Tétouan (Marrocos)5. Como complemento paralelo à leitura da tese, o
volume II compila ainda as imagens de reconstituição especulativa tridimensional, de acordo com as principais fases construtivas do castelo português, identificadas no volume I.
A dissertação estrutura-se em duas partes. Na primeira parte, de teor introdutório, os capítulos 1 e 2 avaliam o estado da arte, apresentando uma sucinta resenha histórica acerca da expansão portuguesa no Norte de África e debruçando-se sobre as origens da Alcácer Ceguer/Qsar es-Seghir e o período de ocupação portuguesa (da conquista ao abandono).
Na segunda parte, é feita uma aproximação ao castelo português, tomando-o como matéria de análise para o reconhecimento da sua formação e evolução morfológica, no contexto da arquitetura militar de transição e do advento da pirobalística. No capítulo 3 individualizam-se e analisam-se diversos sectores e estruturas da fortificação, de forma diacrónica, para no capítulo seguinte ser realizada uma leitura global e integrada do conjunto acastelado do séc. XVI, em todas as suas vertentes programáticas, formais e funcionais. O recurso à documentação da época e à ilustração é constante, contribuindo para o esclarecimento e especulação das várias fases construtivas. Termina-se esta parte com uma síntese das principais conclusões reveladas ao longo da tese.
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1. Expansão portuguesa no Norte de África
No início do séc. XV, durante o reinado de D. João I (1385-1433), abre-se um novo capítulo na história de Portugal. Conserva-se o espírito de cruzada contra os muçulmanos, nascido nos séculos anteriores, mas o desejo português de expansão e de conquista de território islâmico, motivado pela dimensão simbólica que tal representava perante o mundo e a fé cristã, intensifica-se e extravasa as fronteiras ibéricas.
A conquista de Ceuta pelos portugueses, em 14156, veio encetar um período de ocupações no
Norte de África que se prolongaria por um século, resultando em permanências que se estenderam até ao séc. XVIII. Deu continuidade à Reconquista Cristã para sul do estreito de Gibraltar7
Em 1437, com D. Duarte (1433-1438), dá-se uma tentativa de conquista de Tânger que redunda em fracasso
e inaugurou um ambicioso programa de Expansão além-mar. A presença cristã neste entreposto magrebino, além de trazer maior controlo sobre a navegação do mar do Estreito, veio consolidar uma posição intermédia que permitiria focar a atenção portuguesa em localidades vizinhas.
8. Contudo, novas arremetidas sobre as cidades e vilas norte-africanas viriam a ser
promovidas pelo seu sucessor, D. Afonso V (1438-1481). Com um novo fôlego, em 1458 é tomada a pequena povoação de Qsar es-Seghir (Alcácer Ceguer). Sucedem-se as tentativas falhadas de ocupar Tânger, entre 1462 e 1464, compensadas por um assalto bem-sucedido a Anafé9, em 1468/69, que
porém não se ocupa. Em 1471, investe-se estrategicamente contra Arzila, com sucesso, conduzindo finalmente à ocupação de Tânger, dias depois10
6 A 21 de Agosto de 1415, D. João I e os seus filhos D. Pedro, D. Duarte e D. Henrique tomaram de assalto a cidade de Ceuta (OLIVEIRA E COSTA, João Paulo – «Os Primórdios» in História da Expansão e do Império Português. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2014, p. 37).
.
7 Idem, ibidem, p. 17.
8 Encabeçada pelo infante D. Henrique, irmão do rei, a expedição resultou em fracasso e no cativeiro do infante D. Fernando, que apenas seria libertado pelos mouros em troca da devolução da cidade de Ceuta. Tal facto não aconteceu e D. Fernando acabou por morrer em Fez (Idem, ibidem, pp. 43-45). É lembrado até hoje como o Infante Santo.
9 Hoje em dia a cidade de Casablanca.
10 Vendo-se encurralada entre Arzila, a sul, e as praças de Alcácer Ceguer e de Ceuta, a nascente, Tânger foi imediatamente abandonada pelos seus habitantes, não oferecendo qualquer oposição aos portugueses (OLIVEIRA E COSTA, João Paulo – «Os Primórdios» in História da Expansão…, op. cit., pp. 64-65).
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7. 1572 (cópia de original do início do século XVI). Septa. BRAUN, Georg, HOGENBERG, Frans, NOVELLANUS, Simon –
Civitates Orbis Terrarum. Antuerpiae Coloniae: Apud Philippum Gallceum/Apud Auctores, 1572. Biblioteca Nacional de Lisboa
– C.A.57v, fl. 56-56v
8. 1572 (cópia de original do início do século XVI). Arzilla. BRAUN, Georg, HOGENBERG, Frans, NOVELLANUS, Simon –
Civitates Orbis Terrarum. Antuerpiae Coloniae: Apud Philippum Gallceum/Apud Auctores, 1572. Biblioteca Nacional de Lisboa
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Numa conjuntura pacificada11, D. João II (1481-1495) lança ainda uma expedição contra Anafé,
em 1487, e ensaia a fundação de uma fortaleza na Graciosa, em 1489, mas ambas revelam-se sem condições para ocupação12. Alarga a influência portuguesa no sul do Magrebe, mas acaba por fazê-lo com
o seu profundo espírito negocial, privilegiando as relações comerciais em detrimento de onerosas conquistas13
Porém, com D. Manuel I (1495-1521) ressurge o desejo de conquista, alimentado pelos ideais de cruzada contra o infiel
. Valendo-se das disputas entre o rei de Fez e a dinastia sádida emergente, aceita os pedidos de proteção das populações locais em troca da instalação de feitorias. Surgem assim as suseranias de Azamor, em 1486, e Safim, em 1488.
14. Negoceia uma suserania em Meça, em 1497, mas considera insuficiente o
estabelecimento de feitorias e ambiciona o total domínio económico da região15. Aproveitando o legado do
seu antecessor, acaba por tomar Safim, em 1508 e Azamor, em 1513. Além da ocupação de urbes consolidadas, incentiva a pontuação estratégica da costa atlântica magrebina através da fundação de fortalezas: Santa Cruz de Cabo de Guer16, em 1505, Mogador ou Castelo Real, em 1506, e os castelos de
Mazagão e Aguz, que erguidos em 1514 e por volta de 1519, respetivamente, constituíam pontos avançados de Azamor e Safim. A insistência em estabelecer uma fortaleza mais a norte resultaria no desastre de Mámora, em 151517
O reinado de D. Manuel I destaca-se pela grande atividade construtiva. Não só se investe intensamente nos locais mais a sul, mas também nas praças setentrionais. Num quadro concertado entre o esforço modernizador das estruturas militares e a aplicação de uma linguagem arquitetónica própria, de
.
11 O domínio lusitano de quatro praças no Norte de África, em 1471, levou a que o rei de Fez se sujeitasse a um acordo de paz que se estendia por vinte anos, prorrogáveis por mais dez. Como consequência deste tratado, os portugueses renunciavam à conquista de mais posições no território sob a jurisdição daquele rei (GUEVARA, 1940, p. 28, apud CORREIA, Jorge – Implantação da cidade portuguesa no Norte de África: da tomada de Ceuta a meados do século XVI, 2008,2008, p. 51). De igual modo, em 1479, a assinatura do tratado de Alcáçovas vinha consolidar a paz com Castela (GARCIA, José Manuel – Breve Panorama Bio-bibliográfico sobre D. João II, 1995, p. 12).
12 Anafé volta a ser considerada inadequada para uma permanência a longo prazo e, portanto, voltou a não ser ocupada (CORREIA, 2008, p. 316). Na Graciosa, a hostilidade dos povos que ali habitavam, as más condições do local e um cerco infligido pelo rei de Fez conduziram ao abandono da fortaleza (Idem, ibidem, pp. 319-320)
13 CID, Pedro de Aboim Inglez – A Torre de S. Sebastião da Caparica e a Arquitectura Militar do tempo de D. João II. 2007, pp. 43-44.
14 «D. Manuel I renova o velho sonho de D. Afonso V de tornar-se rei de Fez e Marrocos […]» (MOREIRA, Rafael – «A época manuelina» in HISTÓRIA das Fortificações Portuguesas no Mundo, 1989, p. 118).
15 O domínio económico de toda a franja litoral magrebina encobria ainda o desejo de controlo marítimo, protegendo as rotas portuguesas que por ali passavam (CORREIA, 2008, p. 53).
16 O castelo, de iniciativa privada de João Lopes de Sequeira, contou com o consentimento estratégico de D. Manuel I. Em 1513, o rei comprá-lo-ia (CORREIA, 2008, p. 324). Pouco tempo após a sua construção surgiria o castelo de Ben Mirao, mais a norte, que se pensa estar relacionado com o mesmo promotor (Idem, ibidem, pp. 328-332).
17 Depois das experiências goradas da Graciosa e de Anafé, voltava-se a tentar uma posição entre as praças setentrionais e os locais mais a sul. No entanto, a má implantação da fortaleza e o cerco muçulmano que tentava impedir a construção, resultou numa evacuação desastrosa (Idem, ibidem, p. 343-346).
24
9. 1572 (cópia de original do início do século XVI). Tingis, Lusitanis,Tangiara. BRAUN, Georg, HOGENBERG, Frans, NOVELLANUS, Simon – Civitates Orbis Terrarum. Antuerpiae Coloniae: Apud Philippum Gallceum/Apud Auctores, 1572. Biblioteca Nacional de Lisboa – C.A.57v, fl. 56-56v
10. 1572 (cópia de original do início do século XVI).Tzaffin. BRAUN, Georg, HOGENBERG, Frans, NOVELLANUS, Simon –
Civitates Orbis Terrarum. Antuerpiae Coloniae: Apud Philippum Gallceum/Apud Auctores, 1572. Biblioteca Nacional de Lisboa
25
afirmação régia18
No entanto, depois de umas décadas de relativa estabilidade, a queda de Santa Cruz de Cabo de Guer, em 1541
, convocam-se ao continente africano mestres de obras como Diogo e Francisco de Arruda, Francisco Danzilho e Diogo Boitaca.
19, vem abalar a estrutura das possessões portuguesas no Norte de África. Numa altura em
que as praças já se encontravam arquitetónica e militarmente obsoletas face ao poder de fogo inimigo, D. João III (1521-1557) vê-se obrigado a rever a sua posição no contexto magrebino20
A concentração de recursos em apenas três locais asseguraria a sua sobrevivência por longos anos. A refortificação das duas cidades do Estreito estenderia a ocupação lusa até meados do séc. XVII
. Em favor da modernização de Tânger, Ceuta e Mazagão, dá-se desmantelamento das restantes praças. Entre 1541 e 1550, são abandonadas Safim, Azamor, Arzila e Alcácer Ceguer.
21,
enquanto a transformação do antigo castelo de Mazagão em vila-fortaleza moderna permitiria a sua permanência na coroa portuguesa até 176922.
18 À «acumulação de opções» da qual decorre a arquitetura manuelina, soma-se o «peso brutal da iconografia heráldica» própria de D. Manuel I (PEREIRA, Paulo – «A invenção do estilo manuelino» in HISTÓRIA da Arte Portuguesa (1995-1997), Vol. 4, p. 53).
19 A antiga fortaleza tinha, entretanto, evoluído para uma vila acastelada (CORREIA, 2008, pp. 325-328). 20 OLIVEIRA E COSTA, João Paulo – «O Império Marítimo» in História da Expansão…, 2014, p. 132.
21 As duas cidades tiveram destinos díspares. Após a restauração da independência, em 1640, Ceuta não reconheceu D. João IV como seu rei e manteve-se fiel à coroa espanhola. Em 1661, Tânger foi cedida à coroa britânica, por ocasião do casamento da princesa D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra (DIAS, Pedro – A Arquitectura dos Portugueses em Marrocos, 1415-1769, 2000, p. 34 e 76).
22 Um cerco infligido pelo sultão alauita Mohammed III levaria o Marquês de Pombal a decidir pela evacuação da praça e a transferência dos seus habitantes para o Brasil, onde foi fundada a Nova Mazagão (Idem, Ibidem, p. 22).
27
2. A vila de Alcácer Ceguer (Qsar es-Seghir)
Na idade média, Qsar es-Seghir23 foi uma pequena vila que se estabeleceu a sul do estreito de
Gibraltar, quase a meia distância entre as cidades de Tânger e Ceuta24
Em 1458 deu-se a sua conquista de pelos portugueses. Aos vários séculos de ocupação islâmica, sucederam-se 92 anos de ocupação portuguesa que encerram transformações morfológicas de motivação fundamentalmente militar. Face ao objetivo principal de manutenção da praça, as fortificações e estrutura urbana viriam a sofrer alterações de modo a privilegiar configurações, perímetros e traçados capazes de melhorar a sua defesa e superar o inimigo. Não obstante, mas de forma secundarizada, o seu tecido urbano intramuros ficaria também marcado pela ocupação habitacional, oficinal, religiosa e comercial
. Rodeada de pequenas montanhas, teve a sua implantação muito próxima do nível do mar, na margem oriental do rio com o mesmo nome.
25. A
praça muralhada foi abandonada totalmente pelos portugueses em 1550 e desde então teve ocupações locais esporádicas e efémeras, com pouca expressão. Hoje em dia mantém-se como campo arqueológico.
Cumprindo os desígnios de quatro reinados da dinastia de Avis, as obras de fortificação de Alcácer Ceguer, e do seu castelo, representaram a legitimação do reino português em território inimigo. Dos primeiros reforços construtivos de conservação e consolidação da praça, a partir de 1458, ao planeamento e abandono de uma nova fortificação na colina sobranceira à vila, em 1550, passando pelo investimento manuelino da viragem do séc. XV para o XVI, os portugueses buscaram sempre a eficácia através da arquitetura, fosse esta alicerçada pelos grandes avanços na arte da guerra, ou pela dimensão retórica de afirmação política.
23 O nome de origem árabe foi adaptado pelos portugueses aquando da ocupação da vila, passando a designar-se ‘Alcácer Ceguer’. Após o seu abandono o topónimo árabe foi recuperado e, hoje em dia, é utilizado para se referir à localidade que se desenvolveu em redor das ruínas da antiga vila muralhada. 24 Na zona costeira da região de Anjra, um território de confluência de três regiões geográficas distintas: Habt, Jabala e montanhas do Rife.
29
2.1. Antecedentes da ocupação portuguesa: de Ribat a Qsar es-Seghir
Pouco se sabe acerca do nascimento da povoação que viria a chamar-se Qsar es-Seghir26. Registos
historiográficos27 mencionam a existência de um pequeno castelo28 e povoado no séc. VIII d.C.29, na
margem sul do estreito de Gibraltar, cujas funções militares e portuárias desempenharam um papel estratégico na invasão árabe no Norte de África e Península Ibérica30
Desde cedo surgiram várias designações para o lugar, directamente relacionadas com o mar e com a sua influência no modo de vida da povoação. Consta que no séc. X, o entreposto foi apelidado de Marsa Bab al Yem (porto da porta do mar)
. A localização privilegiada levou a que se tornasse um importante ponto de embarque de tropas islâmicas, determinadas a conquistar território europeu.
31, indiciando já a existência de uma porta virada para o
oceano. No séc. XI, destacam-se dois topónimos que denunciam igualmente a afinidade marítima: Madinat al-Yam32, que em português significa vila do mar, e Qsar al-Majaz33, cujo nome – que significa
castelo da travessia (ou da passagem) – denuncia a sua importância enquanto local de transposição entre os dois lados do estreito. O aparecimento do vocábulo Qsar, que estará presente nas denominações subsequentes, manifesta a consolidação do local enquanto posto militar, evidenciando a perenidade de uma fortificação, ou sistema fortificado, provavelmente de referência regional.
26 O vocábulo árabe Qsar, que significa castelo, também pode ser escrito na forma Ksar, sendo precedido, por vezes, pelos pronomes El - ou Al- . O nome poderá ser encontrado nas variantes Qsar Sghir, Ksar Sghir, Qsar es-Seghir, Ksar es-Seghir, El-Qsar Seghir, Al-Qsar Seghir, El-Qasr Seghir, Al-Qasr Seghir, entre outras.
27 ENCYCLOPÉDIE de l'Islam, 1960-2005, IV, p. 759, apud CORREIA, 2008, p. 142; ELBOUDJAY, [s.d.] p. 3.
28 Mais precisamente um ribat, também chamado de arrábita, em português. Ribat é um termo árabe para pequenas fortalezas-convento, habitadas por monges-guerreiros. Estas construções estão associadas à guerra santa, pois foram construídas na fronteira do Islão, durante os primeiros anos da conquista árabe muçulmana do Norte de África e, mais tarde, na Península Ibérica.
29 Vestígios arqueológicos apontam para a ocupação, ainda no séc.VIII, de um aglomerado situado apenas 750 metros a sul do local onde surgiria Qsar Masmuda, mais tarde Qsar es-Seghir. Este local, chamado Dhar d'Aseqfane, foi escavado nos últimos anos e remonta ao período romano. Implantado numa pequena colina na margem direita do rio El Qsar (ou rio Qsar Seghir), que então seria navegável até certo ponto, estaria ligado à atividade pesqueira e teria tido o seu pico de ocupação entre o séc. VI a.C. e o séc. IV d.C.. Todavia, a descoberta de moedas e vestígios cerâmicos em recentes escavações arqueológicas, levam a crer que a sua ocupação se tenha estendido até ao séc. XII (ELBOUDJAY, [s.d.], p. 2). Este povoado pode, portanto, ter coexistido com o povoado localizado na embocadura do rio, que deu origem a Qsar es-Seghir. Dada a proximidade, pode até estar estreitamente relacionada com a sua formação, facto que resta averiguar. Ainda devido à curta distância que separa os dois locais, poderá ter gerado confusão em alguns cronistas, que atribuíram topónimos ao aglomerado a norte, junto à costa, quando na verdade poderão respeitar à localidade mais interior, a sul (CRESSIER, Patrice – «Al Qasr al-Saghîr, ville ronde» in KSAR SEGHIR – 2500 ans d’échanges intercivilisationels en Méditerranée, 2012, pp.61-64).
30 Em 711 d.C. dá-se a 1ª invasão árabe na Península Ibérica. 31 ELBOUDJAY, [s.d.], p. 3;
32 Idem, ibidem.
30
31
A sua actividade enquanto porto e estaleiro naval na Alta Idade Média foi referida por vários cronistas da época. Durante o período da dinastia Almorávida34, no séc. XI, Al Bekri apontou Qsar Awwal35
como sendo o nome do lugar, assinalando a presença de florestas de onde provinha madeira para a construção naval e as condições favoráveis de entrada dos barcos na foz do rio, percorrendo o seu leito até ao castelo36. Ainda no mesmo século, a povoação seria identificada como Qsar Masmuda, o ponto de
embarque para a segunda travessia do terceiro sultão almorávida Youssef Ibn Tachfin37. Apelidada
segundo o nome da tribo berbere Masmuda, que habitaria o noroeste magrebino, esta designação perduraria pelo menos até ao séc. XII, segundo as crónicas de Idrissi38
As invasões das dinastias magrebinas
.
39 nesta região, tais como as incursões sucessivas em
território do al-Andalus40, levaram à consagração deste entreposto como principal ponto de embarque, em
detrimento de outras localidades. A partir de 116141, no reinado do califa almôada Abd al-Moumen, a
cidade vizinha de Tânger perdeu grande parte da sua importância. No tempo de Yaqub al-Mansur, seu sucessor, o caminho rochoso e de difícil acesso terrestre, assim como o carácter comercial e pouco favorável à permanência e passagem de exércitos, determinaram o abandono de Ceuta enquanto local privilegiado de embarque42. Graças a estes dois governantes, Qsar Masmuda transformou-se num
importante estaleiro de construção naval, alcançando o estatuto de porto militar mais utilizado para o atravessamento do estreito43, a par do seu correspondente ibérico, o porto de Tarifa44
34 Dinastia que assume o controlo da região de meados do séc. XI a meados do séc. XII.
.
35 Durante este período, o cronista Al Bekri nomeia o lugar como sendo Qsar al-Awwal, que significa «o 1º castelo», para diferenciá-lo de Qsar al-Kutâma, que corresponde à actual Ksar el-Kebir/Alcácer Quibir (AL BEKRI, (1965), p. 206, apud CRESSIER, op. cit., pp.61-64).
36 AL BEKRI, (1918), p. 206, apud CORREIA, 2008, p. 142. 37 No ano 481 do calendário da Hégira (ELBOUDJAY, [s.d.], p. 3).
38 Alguns autores apontam Qsar Masmuda como sendo o primeiro, ou dos primeiros nomes da povoação, já referenciado aquando da primeira invasão árabe na Península Ibérica, em 711 d.C. (Cf. ENCYCLOPÉDIE de l’Islam, 1960-2005, IV, p.759, apud CORREIA, op. cit., p. 142; REDMAN, 1986, p. 22). Porém, segundo o cronista Al-Idrissi, que viveu entre 1099 e cerca de 1166, esta designação ainda seria utilizada na primeira metade do séc. XII (IDRISSI, 1866, p. 202, apud CORREIA, op. cit., p. 142).
39 Os Almorávidas (de meados do séc. XI a meados do séc. XII), os Almôadas (de meados do séc. XII a meados do séc. XIII) e os Merínidas (de meados do séc. XIII até ao séc. XV). Estas dinastias originaram movimentos religiosos e militares, controlando grande parte do Noroeste Africano, com grande influência sobre os governantes muçulmanos que se instalaram no Sul da Península Ibérica. Viriam também a exercer grande controlo sobre o fluxo das armadas Cristãs na entrada do mar Mediterrâneo. (REDMAN, 1986, p. 10)
40 Território correspondente à Península Ibérica, na época. 41 GOZALBES BUSTO, 1980, p. 244, apud CORREIA, 2008, p. 142.
42 MÁRMOL Y CARVAJAL, Luis del – Descripción general de Africa, sus guerras y vicisitudes, desde la fundación del mahometismo hasta el año 1571, Granada, 1573-1599, capítulo LIII, fol. 126, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 69;
43 ELBOUDJAY [s.d.], p. 3.
44 Em detrimento de Algeciras, até então o ponto recetor privilegiado dos exércitos norte-africanos. Apesar da preferência almôada por Tarifa ou Qsar Masmuda, o porto de Ceuta e Algeciras permanecem grandes portos, favorecendo as relações comerciais. (GOZALBES CRAVIOTO, 1993, pp.11-13).
32
13. Planta dos vestígios islâmicos escavados em Qsar es-Seghir, com as principais estruturas militares e equipamentos públicos, segundo Charles L. Redman (missão arqueológica americana)
33
Presume-se que a designação Qsar es-Seghir tenha surgido no período de governação de Yaqub al-Mansur45. A preferência por este local, enquanto entreposto militar, levou-o a construir uma fortificação
que o pudesse albergar e ao seu exército, indispensável na preparação e ressaca das investidas sobre a Península Ibérica. Não existem indícios acerca do aproveitamento da edificação que com certeza já existiria. Contudo, a presença do novo castelo viria a influenciar a denominação que o local tem até hoje. Qsar es-Seghir significa «castelo pequeno» e, apesar do seu nome transparecer a presença de uma construção de expressão reduzida, parece tratar-se sobretudo de uma designação comparativa, dada a existência de palácios de maiores dimensões, em várias cidades de domínio almôada46. A par da
construção militar, al Mansur foi também responsável pela construção de «muchas casas y mesquitas», tal como pelo povoamento «de muchos marineros, mercadores, officiales, y otras gentes».47
Com a ascensão da dinastia Merínida, que veio suplantar a Almôada em 1269, Qsar es-Seghir manteve o estatuto de porto privilegiado para o atravessamento do Oceano Hercúleo
A sua política foi fundamental para o desenvolvimento de Qsar, permitindo a transformação de uma pequena povoação em cidade.
48 rumo ao
al-Andalus. A par da dependência militar neste ponto do estreito – que originou um grande investimento na sua fortificação – deu-se também um progressivo crescimento da cidade enquanto entreposto comercial49.
Tal impulso no desenvolvimento deveu-se aos dois primeiros governantes merínidas: Abu Yusuf Yaqub ibn Abd al-Haqq e o seu filho e sucessor Abu Yaqub Yusuf al-Nasr. Em 1287, com a hegemonia dinástica consolidada, o segundo sultão asseguraria a defesa da vila com a construção da maior parte das estruturas militares50. A Yaqub Yusuf al-Nasr é atribuída51
45 MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 69.
a construção de uma muralha circular de cerca de duzentos metros de diâmetro, pontuada por 29 torres semi-circulares e por três portas monumentais:
46 Luis del Mármol y Carvajal (ibidem) dá o exemplo do palácio de Alcácer Quibir.
47 Tradução livre do castelhano para português: «[…] muitas casas e mesquitas […] de muitos marinheiros, mercadores, oficiais, e outras gentes» (Idem, ibidem).
48 Nome atribuído à zona marítima compreendida entre a Península Ibérica e o Norte de África, no estreito de Gibraltar (ou estreito Hercúleo). Remonta à mitologia grega, dada a sua localização entre duas grandes elevações rochosas conhecidas como as «Colunas (ou pilares) de Hércules». Estas elevações assinalam a única abertura entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, correspondendo ao rochedo de Gibraltar, a norte, e ao monte Musa, a sul. 49 Importante ponto de transbordo de cereais e mantimentos destinados ao reino muçulmano no al-Andalus (REDMAN, 1986, p.10), encabeçado pela dinastia Nasrida e com capital em Granada, no Sul da Península Ibérica.
50 IBN ABI ZAR, 1972, p. 407, apud REDMAN, 1986, p. 30.
51 Abdelatif Elboudjay ([s.d.], p. 3) atribui a construção de várias edificações militares ao primeiro governante merínida, em 1287 (686 da Hégira). Esta atribuição parece estar incorreta, uma vez que Abu Yusuf Yaqub ibn Abd Haqq morre em 1286, dando lugar ao seu filho e sucessor Abu Yaqub Yusuf al-Nasr, que reinaria de 1286 até 1307 (CRESSIER, 2012, pp.65-67).
34
14. Alcácer Ceguer. Reconstituição esquemática da cidade islâmica, segundo Jorge Correia [Legenda: 1. Bab al-Bahar (Porta do Mar); 2. Bab Sebta (Porta de Ceuta); 3. Bab Fes (Porta de Fez)?; 4. Mesquita maior; 5. Hammam (banhos públicos); 6. Futuro perímetro da vila portuguesa; 7. Zona residencial; 8. Rio; 9. Praia]
35
Bab al-Bahar (Porta do Mar), Bab Fes (Porta de Fez) e Bab es-Sebta (Porta de Ceuta)52. É ainda provável
que, durante o seu reinado, se tenha dado um novo investimento em vários equipamentos públicos, tais como a mesquita principal e o hammam (banhos públicos). Nos planos económico, social e urbano, Qsar es-Seghir alcançaria um pico de prosperidade sem precedentes. Dentro de muralhas a população ultrapassaria os mil habitantes53 e – em grande parte devido ao crescimento das zonas oficinais54
Em 1292, a tomada de Tarifa pelas tropas castelhanas viria a comprometer a entrada e presença dos mouros na Península Ibérica. O florescimento de Qsar es-Seghir, que até então se apoiava na relação e domínio islâmico dos dois lados do Estreito, daria lugar à perda de importância militar e comercial da vila
e habitacionais – a sua mancha de ocupação urbana estaria perto da totalidade da área intramuros.
55
52 Ainda hoje são visíveis e marcantes os vestígios da muralha, torres e portas de Qsar es-Seghir, tendo sofrido alterações durante o período de ocupação portuguesa. Enquanto as portas monumentais são claramente de origem islâmica, o traçado da muralha com as suas torres, ainda hoje têm uma datação pouco esclarecida. A justificação para a conformação circular da muralha, excecional nas cidades do Magrebe, permanece envolta em especulação e é alvo de diversas teorias, para as quais ainda faltam campanhas arqueológicas cujos resultados possam contribuir com mais esclarecimentos. Para além das teorias que relacionam Qsar es-Seghir com a influência oriental, nomeadamente com o modelo praticado em Bagdad, Patrice de Cressier levantou recentemente outras questões que permitem aprofundar e interpretar diversamente a razão da escolha de um traçado perimetral assumidamente circular, tal como o posicionamento das suas portas nos vértices de um triângulo equilátero. O investigador põe em evidência a faceta merínida enquanto construtores de novas cidades, relacionando-a com a particularidade da localização do entreposto no Estreito. Fazendo uma leitura comparativa com as cidades de traçado circular islâmicas, pré-islâmicas e ainda as de domínio cristão, admite a singularidade de Qsar es-Seghir, sem referências à radialidade e centralidade da organização intramuros do modelo oriental. Conclui que o resultado arquitetónico resulta de uma política merínida concreta, com um forte programa ideológico, não de exaltação do soberano – como em outras cidades – mas de intervenção ofensiva no al-Andalus através da via marítima (CRESSIER, 2012, pp.61-89).
. O investimento merínida esvaziar-se-ia de funcionalidade, e o porto magrebino acabaria por entrar em declínio, ao longo do séc. XIV.
53 REDMAN, 1986, pp. 238-239.
54 Os habitantes da cidade contariam com as mais diversas profissões, desde mercadores a carpinteiros, ferreiros, armeiros, construtores de barcos e tecelões (Idem, ibidem, pp. 10 e 30).
55 Segundo Redman, Qsar es-Seghir conseguiu manter a sua atividade comercial durante parte do séc. XIV, apesar do desinvestimento e desinteresse dinástico na localidade portuária e nas suas estruturas (Idem, ibidem, pp. 41-43).
36
15. Rei D. Afonso V, O Africano
16. Infante D. Henrique, impulsionador dos Descobrimentos, presente nas conquistas de Ceuta (1415) e de Alcácer Ceguer (1458). Frontispício das Crónicas dos Feitos da Guiné, escritas entre 1452 e 1453 por Gomes Eanes de Zurara. Bibliothèque Nationale, Paris
37
2.2. A conquista
Em 1458, respondendo ao apelo papal de cruzada religiosa, D. Afonso V preparou-se para uma grande investida contra Constantinopla56. Segundo as crónicas da época57
e Gomes Eanes de Zurara, foi reunida uma frota de várias dezenas de embarcações e milhares de homens
, de Damião de Góis, Rui de Pina
58. Porém, o rei tomou consciência de que tal empreendimento seria demasiado ambicioso e
decidiu redireccionar o seu exército para a conquista de uma localidade mais próxima do reino, no Norte de África59. Lançada a expedição, o monarca ainda ponderou uma investida contra Tânger mas,
acompanhado pelo infante D. Henrique, seu tio, foi recordado60 da quase inexpugnabilidade das suas
muralhas e da arremetida falhada em 1437. Demovido, a viagem prosseguiu com o objetivo inicial de conquistar a pequena vila portuária de Qsar es-Seghir. Considerando a sua dimensão e enfraquecimento pela desistência do investimento merínida, quando comparada com Tânger as probabilidades de conquista eram imensamente maiores.
Na localização de Qsar es-Seghir residia a principal razão para escolha de D. Afonso V. No ponto mais próximo da Península Ibérica e a escassos 20 quilómetros de distância de Ceuta e de Tânger, o seu porto ter-se-ia tornado um refúgio para piratas muçulmanos61
56 Constantinopla, capital cristã do império Bizantino durante vários séculos, não resiste às investidas do império Otomano e é conquistada em 29 de Maio de 1453. Nos anos seguintes, com a esperança de resgatar a cidade, o Papa Calisto III apela à cruzada religiosa contra os turcos-otomanos (MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 69).
, cuja interferência com a navegação cristã do Estreito constituía uma ameaça directa ao domínio português. A proximidade com a cidade de Ceuta tornava-a igualmente uma ameaça, porém, caso fosse ocupada pelos portugueses tornar-se ia um ponto avançado para a conquista de Tânger e aliviaria Ceuta dos assaltos constantes.
57 Estas crónicas subsistem como os principais documentos acerca da conquista e primeiras décadas desta praça, constituindo um corpo de referência para diversos autores e estudos: PINA, Rui de [1440-1522] – Chronica d’El-Rei D. Affonso V. Lisboa: Escriptorio, [1790] 1901; ZURARA, Gomes Eanes de [c.1410-c.1474] – Crónica do Conde D. Duarte de Meneses. Edição diplomática de Larry King. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, [1793] 1978; GÓIS, Damião de [1502-1574] – Crónica do Príncipe D. João. Edição crítica e comentada por Graça Almeida Rodrigues. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, [1567] 1977. 58 O número de embarcações e homens que compunham a expedição diverge consoante as fontes. Luis del Mármol y Carvajal (1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, pp. 69-70) refere uma armada composta de «17.000 hombres de pelea» e «180 velas», enquanto o cronista Eanes de Zurara [1790] aponta para 25.000 os homens que compunham a guarnição e Rui de Pina [1793] para 80 o número de embarcações que compunha a frota. 59 PINA [1790], apud REDMAN, 1986, p. 36.
60 Estariam ainda presentes D. Pedro, seu primo, e D. Sancho de Noronha, Conde de Odemira e, na época, capitão de Ceuta. Juntamente com o infante D. Henrique ter-se-ão também insurgido contra a conquista de Tânger (SANCEAU, 1961, pp. 93-94).
38
17. Planta das ruínas da mesquita/igreja de Qsar es-Seghir/Alcácer Ceguer, segundo Charles L. Redman (missão arqueológica americana)
39
Ao desembarcarem, os portugueses depararam-se com quinhentos cavaleiros mouros, muitos soldados de pé62 e tranqueiras63 que dificultavam a aproximação às muralhas. Este primeiro embate,
ainda na praia, acabou por levar à retirada dos mouros, que se refugiaram no interior da vila e nas colinas vizinhas. Enquanto restabeleciam as suas defesas, reparando e reforçando os muros da vila, o exército português reorganizava-se e apetrechava-se do armamento trazido nas embarcações. Numa nova e forte investida, as tranqueiras foram derrubadas e o combate passou a travar-se junto aos muros e portas da vila que, muito provavelmente corresponderiam às já mencionadas Bab al-Bahar (Porta do Mar), Bab es-Sebta (Porta de Ceuta) e, possivelmente, Bab Fes (Porta de Fez). Após várias tentativas frustradas em derrubar as portas, cujo recobrimento com chapa de ferro os impedia de queimá-las64, escalaram os
muros, mas o esforço revelar-se-ia igualmente infrutífero. Foi o recurso a peças de artilharia de grande dimensão, finalmente, que permitiu abrir brechas na muralha65
Depois de entregues os prisioneiros cristãos e feitos cativos alguns mouros, foi dada permissão à população muçulmana para reunir os seus pertences e partir livremente. Aos 23 dias de Outubro
e levar à rendição da população.
66 de
1458, o monarca português, de epíteto O Africano, entrou na vila com a sua comitiva e converteu a mesquita principal em igreja, consagrando-a a Nossa Senhora67. Qsar es-Seghir tornava-se a segunda
praça a ser conquistada pelos portugueses no Norte de África.
2.3. Ocupação da vila
Antes de partir, D. Afonso V nomeou D. Duarte de Meneses68
62 MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 70.
como capitão de Alcácer Ceguer. Aos soldados que ficaram na praça, o rei prometeu reforços, mantimentos e ordenou a imediata reconstrução
63 GÓIS (1977), p. 36; Cf. MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 71. 64 PINA (1901), pp. 776-777; Cf. MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 71. 65 MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 71.
66 GÓIS (1977), p. 38.
67 As crónicas de Rui de Pina e de Damião de Góis contradizem-se quanto à designação da igreja. O primeiro cronista atribui a dedicação a Santa Maria da Misericórdia, enquanto o segundo refere a evocação de Nossa Senhora da Conceição. Para um aprofundamento desta questão, consultar CORREIA, 2008, p. 167, nota de rodapé 212.
68 D. Duarte de Meneses, que viria a carregar o título de conde de Viana, ter-se-ia já responsabilizado de tomar conta da praça de Ceuta na ausência e impossibilidade do seu pai, D. Pedro de Meneses. Por duas vezes exerceu o cargo de governador interino (1430-1434 e 1437-1438), substituindo aquele que foi o primeiro capitão de Ceuta. Permaneceu no comando da vila de Alcácer Ceguer desde 1458 até 1464, ano em que foi morto numa rusga em território inimigo, no sentido de Tetuão. Veio a suceder-lhe enquanto capitão da praça, o seu filho D. Henrique de Meneses, que mais tarde acumularia a capitania de Arzila (CORREIA, 2008, pp. 68-69; REDMAN, 1986, p. 37; SANCEAU, 1961, pp. 90-126).
41
de panos de muros e valas69. Sob a liderança de D. Duarte, foram reforçadas as fortificações e feitos os
possíveis melhoramentos na antecipação de prováveis cercos e retaliações do inimigo. A preocupação do capitão mediante a planura do local determinou que se erguessem trincheiras e que se cavasse um fosso em torno da praça70. Era provável que, dada a proximidade do rio, a água entrasse na cava e formasse
um canal71. Contudo, sobre o alcance e profundidade das operações efectuadas no perímetro amuralhado
ainda existem muitas dúvidas. Para lá da certeza da abertura do fosso, da reparação dos troços mais afectados pelos bombardeamentos portugueses e do aproveitamento das portas islâmicas, resta ainda clarificar qual o traçado da muralha que foi herdado, mantido e transformado pelos portugueses72
Pouco tempo após a tomada da vila, no final de 1458, os portugueses viram-se cercados pelo inimigo
.
73. Com o seu exército, o sultão de Fez aproximou-se de Alcácer Ceguer e fixou-se em seu redor
com a intenção de reavê-la. Apesar da clara desvantagem numérica74, os portugueses resistiram cercados
no seu interior durante 8 semanas75, até que o exército inimigo, mal organizado e cansado, se retirou.
Durante o assédio, a armada portuguesa que ainda se encontrava em Ceuta veio em auxílio da praça, mas a costa repleta de mouros impossibilitou a sua aproximação. Tal facto terá impulsionado a ordem de edificação de uma couraça76, imediatamente após o assalto, com o objectivo de facilitar a prestação de
socorro a partir do mar. A construção do espigão foi iniciada em 22 Março de 1459 e, apesar dos riscos que rodeavam a obra, fora de muros, contou com cal e cantaria vindos do reino e ficou concluída no espaço de cerca de três meses77. Dos intervenientes na sua construção, restam conhecidos apenas dois
nomes, presentes na vila desde a sua conquista: o besteiro de contos Pêro Lopes78
69 GÓIS (1977), p. 36.
e o carpinteiro Vasco
70 ZURARA (1978), pp.122-123. 71 CORREIA, 2008, p. 152.
72 «É possível que durante esta operação se tenha procedido à correção e regularização do traçado da muralha […]» (CORREIA, Ibidem, p. 150) Jorge Correia levanta várias questões acerca da interferência da ocupação portuguesa no perímetro muralhado de herança islâmica, considerando a hipótese de tal desenho regular se tratar de uma obra posterior a 1458 (Idem, ibidem, p.146). Por conseguinte, esta possibilidade de um traçado circular muralhado de autoria portuguesa foi alvo de análise na investigação de Patrice Cressier (2012, pp.75-77), que a ponderou com algumas reservas.
73 Segundo Luis del Mármol y Carvajal (1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 72) o cerco inicia-se por volta do mês de Dezembro. De acordo com Elaine Sanceau (1961, pp. 97-103), o cerco ocorre de 13 de Novembro de 1458 a 2 de Janeiro de 1459. Já na crónica de Zurara, o dia 11 de Novembro parece marcar o início de um assédio que duraria mais de 50 dias.
74 MÁRMOL Y CARVAJAL, 1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 72. 75 REDMAN, 1986, p. 37.
76 No caso das praças implantadas próximas do mar e/ou rio, este dispositivo arquitetónico pode ser definido como um braço que se estende parcial ou totalmente desde o perímetro muralhado até à água, ou quase. Estabelece um canal protegido que procura garantir a comunicação entre o interior e o exterior de uma praça, com maior segurança, em caso de cerco ou perigo iminente.
77 PINA (1901), pp. 784-785.
78 Carta de privilégio a Pêro Lopes, besteiro do conto, por serviços na tomada de Alcácer, na construção da couraça e no cerco do rei de Fez, Tentúgal – 1 de Setembro de 1462 (IAN-TT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 1, fl. 63, doc.6-63v), in FARINHA, 1990, II, pp. 248-249, apud CORREIA, 2008, p. 154.
42
43
Martins79
Em meados de 1459, o sultão de Fez cerca novamente Alcácer Ceguer .
80. À semelhança do
primeiro cerco, a praça resiste e o desfecho é o mesmo. Desde então, os anos seguintes foram passados em relativa segurança, com as prováveis escaramuças com os mouros vizinhos e as rusgas que se tornariam habituais em prol da exploração dos arredores da vila81
Importa referir que foi no rescaldo dos dois assaltos inimigos, que se deram os primeiros passos na edificação daquilo que viria a ser o castelo de Alcácer Ceguer. Para além da implantação da couraça e da aceleração do melhoramento das estruturas militares da praça, ter-se-á iniciado a construção de um reduto fortificado associado à Porta do Mar (Bab al-Bahar). A par das exigências militares, o investimento em torno da antiga porta islâmica terá sido aproveitado para criar as condições necessárias para a habitação do capitão e da sua família
.
82
Em 1471, com a tomada de Arzila e Tânger, os portugueses passaram a deter quatro praças no Norte de África. Dois anos depois, a perspectiva de um planeamento conjunto leva à nomeação de Rodrigo Anes
.
83 como mestre das obras dos lugares de África, entre os quais Alcácer Ceguer. O domínio de
uma região que outrora tinha sido do reino de Fez, entretanto pacificada por tratados entre o sultanato merínida e o monarca português84, conduziu a um período de relativa acalmia militar. Como
consequência, a natureza da comunidade de Alcácer transformar-se-ia gradualmente85. As escavações
arqueológicas levam a crer que de uma população quase exclusivamente militar e masculina se evoluiu para uma comunidade que integrava mulheres e crianças.
Contrariamente ao sucedido em Ceuta e, posteriormente, nas outras vilas conquistadas86
79 Carta de privilégio a Vasco Martins pelos serviços prestados na tomada da vila de Alcácer, nos dois cercos que el-rei de Fez pôs à mesma vila e no fazimento da couraça, Lisboa – 8 de Julho de 1463 (IAN-TT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 9, fl. 116, doc.6-63v), in SOUSA VITERBO (1899-1922), II, p. 152.
, em
80 O cerco dá-se durante 53 dias, segundo Mármol y Carvajal (1573-1599, fol. 125-127, in GOZALBES BUSTO, 1975, p. 73). Este intervalo está de acordo com as datas apontadas pelo cronista Rui de Pina, que afirma que o segundo cerco ocorre de 2 de Julho a 24 de Agosto de 1959.
81 Os portugueses exploraram o território, no sentido de Tânger, com vista a um possível assalto a partir de Alcácer Ceguer. Em 1463 e 1464 deram-se três ataques navais à cidade vizinha, que se revelaram infrutíferos. As rusgas no sentido de Tetuão foram mais proveitosas, mas culminaram na morte do primeiro capitão de Alcácer, D. Duarte de Meneses (REDMAN, 1986, p. 37).
82 ZURARA (1978), p.235.
83 Carta de nomeação de Rodrigo Anes mestre das obras dos lugares de África, Lisboa – 5 de Setembro de 1473, IAN-TT, Chancelaria de D. Afonso V, liv.33, fol.211v, in SOUSA VITERBO (1899-1922), I, p. 40 (Anexo I).
84 Em 1471, o controlo português da margem Sul do estreito de Gibraltar, assim como a parte Norte da costa atlântica magrebina, conduziu à elaboração de um tratado de paz entre o D. Afonso V e o sultanado merínida, por cerca de vinte anos, prorrogáveis por mais dez (GUEVARA, op. cit., p.28, apud CORREIA, 2008, p. 181).
85 REDMAN, 1986, p. 38.
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Alcácer Ceguer não foram encontradas evidências do arrasamento de uma parte da vila islâmica e o consequente investimento construtivo numa nova frente muralhada. Dada a pequena dimensão da praça herdada, tudo indica que após a conquista, uma operação imediata de redimensionamento urbano, designada de atalho87, não seria justificável. As principais obras de fortificação incidiram no melhoramento
e possível regularização dos panos de muralha, privilegiando a frente marítima através da construção de uma couraça e um castelo que servisse, simultaneamente, de casa do capitão.
Como se pode inferir dos estudos acerca da ocupação portuguesa no Norte de África88, a utilidade
da herança islâmica nunca foi completamente menosprezada após a tomada de uma vila ou cidade magrebina. Enquanto praça portuguesa em solo africano, Qsar es-Seghir seria apelidada de Alcácer Ceguer, de modo que, mais do que rebaptizar, os portugueses aproveitariam o nome islâmico, aproximando-o da fonética e grafia lusas. Um certo pragmatismo e economia de meios desenvolvem-se especialmente nos primeiros planos de fortificação da praça. Ao invés de arrasar tudo e construir de novo, tiraram proveito das estruturas existentes, envolvendo-as, camuflando-as, acrescentando nova construção e adaptando as preexistências consoante as novas funcionalidades ou exigências de ordem militar.
2.4. O período Manuelino
A segunda metade do séc. XV e os primeiros trinta anos do séc. XVI foram especialmente prolíficos ao nível edificatório, com acentuação na viragem do século, entre cerca de 1490 e 153089. É
precisamente neste período, marcado pelo reinado de D. Manuel I, que se assiste a uma extraordinária renovação construtiva em Portugal e além-mar. Com efeito, a legitimação do trono90
87 «[…] principal instrumento de controlo espacial que os portugueses empregaram nas cidades ocupadas no Norte de África. Como recurso formal, implicava a diminuição da superfície urbana útil, quase sempre arrastando consigo um encurtamento do perímetro amuralhado, através da introdução estratégica de um ou mais panos de muralha nova e secante em relação ao contorno islâmico preexistente. Procurava encolher-se o comprimento defensável com vista a uma colocação mais rentável dos meios militares, tão escassos quanto fundamentais para a manutenção da conquista recente. Como consequência política, o atalho "decidia" o abandono e subsequente arrasamento de toda a área excluída […]» (CORREIA, 2008, p. 353).
e a riqueza a que o
88 Nomeadamente através dos trabalhos de investigação desenvolvidos por Pedro Dias, Rafael Moreira e Jorge Correia, assim como pela análise arqueológica elaborada por Charles L. Redman.
89 PEREIRA, Paulo – «A nova conjuntura quatrocentista» in HISTÓRIA da Arte Portuguesa (1995-1997), Vol. 4, p.11.
90 D. Manuel era primo do rei D. João II, seu antecessor, sendo a sua ascensão ao trono improvável. Contudo, a morte repentina de D. Afonso, o único filho legítimo de D. João II, levou a que herdasse a coroa. A sua secundarização na linha sucessória implicava maior esforço de reconhecimento internacional para a legitimação de um trono que, à partida, não lhe era destinado.
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reino tinha acesso91, vertidos num plano de «refundação»92 e de afirmação internacional, desencadeou um
enorme investimento propagandístico e edificatório em todo o território português, incluindo no Norte de África. Como tal, a governação de D. Manuel compreendeu um crescente fornecimento de recursos materiais e humanos às praças norte-africanas, relativamente aos anos anteriores. Nas possessões setentrionais, desde logo a melhoria do pagamento dos capitães e militares93 terá despoletado condições
mais atractivas para a captação e fixação de novos recrutas, tal como de mão-de-obra que suportaria os novos empreendimentos94. Face ao crescente domínio das armas de fogo por parte dos mouros,
tornava-se urgente a reforma das fortificações95
Em Alcácer Ceguer, a grande atividade construtiva do início do séc. XVI encontra-se bem documentada em registos coevos, entre os quais várias instruções régias, regimentos e trocas de correspondência, assim como o auto de medição
.
96 levado a cabo por Diogo Boitaca e Bastião Luiz em
1514. Estes documentos atestam um real planeamento de obras a efectuar na vila, dando conta do seu andamento e boa execução. Diversamente de outras localidades tomadas pelos portugueses no Norte de África, não chegaram aos nossos dias registos iconográficos acerca do aspecto geral da vila de Alcácer Ceguer97
91 A circulação de bens decorrente da expansão portuguesa contribui grandemente para o enriquecimento e dinamismo da economia portuguesa na época de D. Manuel I (PEREIRA, op. cit., p. 13). O monarca herdava de D. João II um grande investimento na fundação de feitorias no litoral e interior africano que resultava numa «[…] linha comercial de ouro e escravos bem compensadora dos sacrifícios financeiros […]» (MOREIRA, Rafael – «A época manuelina» in HISTÓRIA das Fortificações Portuguesas no Mundo, 1989, p. 101).
.
92 Este fenómeno de afirmação e legitimação do governo de D. Manuel I traduz-se numa quantidade significativa de iniciativas de edificação, «cartas de foral» concedidas e no respetivo assentamento de pelourinhos por todo o reino (PEREIRA, Paulo – «A nova conjuntura quatrocentista» in HISTÓRIA da Arte… (1995-1997), Vol. 4, p. 13).
93 REDMAN, 1986, p.38.
94 «São esses recursos abundantes de que passa a dispor o Estado que permitem abrir a porta a especialistas estrangeiros – nomeadamente, técnicos de armamento (fundidores, bombardeiros) e de construção naval – e a mão-de-obra qualificada para as fortificações, sobretudo as companhas de “biscainhos” procedentes das montanhas das Astúrias e Biscaia que, contratados à temporada, vinham às centenas trabalhar simultaneamente como pedreiros e combatentes» (MOREIRA, Rafael – «A época manuelina» in HISTÓRIA das Fortificações…, 1989, p. 108).
95 O clima de insegurança devia-se também ao grande fluxo migratório dos muçulmanos para o continente africano, após a queda de Granada, em 1492. Atravessando o Estreito, instalavam-se em locais próximos das praças portuguesas, como Tetuão e Xexuão (OLIVEIRA E COSTA, João Paulo – «O Império Marítimo» in História da Expansão e do Império Português, 2014, p. 116).
96 Livro das medidas de Arzila, Alcácer, Ceuta e Tânger, feitas por mestre Boytac e Bastião Luiz em 1514 (IAN-TT, Núcleo Antigo, n.º 769, fls.6-36), in VIEIRA GUIMARÃES, 1916, pp. 206-219 (Anexo V).
97 Várias praças portuguesas em território magrebino estão bem documentadas iconograficamente em pinturas do início do séc. XVI, reproduzidas no Civitates Orbis Terrarum (BRAUN, Georg, HOGENBERG, Frans, NOVELLANUS, Simon – Civitates Orbis Terrarum. Antuerpiae Coloniae: Apud Philippum Gallceum / Apud Auctores, 1572. Tomo I).
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22. Projeto da couraça de Alcácer Ceguer. In Regimento a Pêro Vaz que vay a Alcácer fazer as obras d’Alcacer, Lisboa – 22 de
Junho de 1502. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa (IAN-TT, gaveta XV, maço 18, n.º26, fl. 3)
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As primeiras instruções e regimento foram concedidos a Pêro Vaz98, em 1502, para que se
encarregasse da vedoria das obras de melhoria e prolongamento da couraça de Alcácer Ceguer. Para acompanhá-lo na empreitada, enquanto mestre das obras, partiu Fernão Gomes, um pedreiro oriundo de Faro99. O primeiro documento100
Uns dias mais tarde, conjuntamente com o segundo documento
reúne as directivas acerca das obras a realizar, instruindo de que modo seria feito o acrescentamento da estrutura existente, assim como o seu remate contra o mar. Na extremidade dos muros do espigão seriam erguidos dois cubelos, com talha-mares na base. Para cima, duas câmaras interiores corresponderiam a dois níveis de fogo. A ligar os torreões construir-se-ia um portal que possibilitasse o seu encerramento. Assim que esta obra estivesse concluída, seriam ainda intervencionados os muros da praça, caso houvesse danos a reparar. Depois da única instrução de obra que não se confina à couraça, o documento orienta Pêro Vaz acerca dos pagamentos e despesas, assim como do fornecimento e transporte de mão-de-obra, equipamento e materiais indispensáveis à execução da obra, tais como cal e madeira.
101 dado ao vedor das obras, em
que se ordenam mais alguns pagamentos a efetuar, foi enviado um desenho com a representação da couraça e dos cubelos, de modo a complementar as instruções. Trata-se de um testemunho de considerável importância iconográfica, onde a imagem é apresentada com o esquematismo próprio da época102, mas revelando intenções axonométricas que permitem uma leitura clara e orientadora do
conjunto. Exceto na articulação com o perímetro muralhado, a representação é facilmente identificável com a atual ruína do espigão103
98 Instruções a respeito das obras da vila de Alcácer Seguer, Lisboa – 16 de Junho de 1502 e Regimento a Pêro Vaz que vay a Alcácer fazer as obras d’Alcacer, Lisboa – 22 de Junho de 1502, in AS GAVETAS da Torre do Tombo, 1960-1977, V, pp.213-217 (Anexo II)
. Deverá ser tido em conta, no entanto, o carácter indicativo do desenho, podendo não coincidir exatamente com o real construído.
99 Segundo Rafael Moreira (1989, p.122), o mestre pedreiro Fernão Gomes seria provavelmente o mesmo que viria a trabalhar na fortificação de Quíloa, na costa da atual Tanzânia.
100 Instruções a respeito das obras…, in AS GAVETAS da Torre do Tombo, 1960-1977, V, pp.213-217 (Anexo II). 101 Regimento a Pêro Vaz…, in AS GAVETAS da Torre do Tombo, 1960-1977, V, pp.213-217 (Anexo II).
102 A partir do séc. XIV, as convenções góticas de representação do espaço não previam o desenho fiel ao real, ou com perspetiva linear. A representação recorria à rotação dos planos, apresentando muitas vezes a totalidade (ou quase) das faces de um elemento arquitetónico, o que é impossível perspecticamente. Era também costume o «achatamento» dos alçados, retirando a dimensão de profundidade que, por sua vez, seria demonstrada apenas em planta. Dos poucos exemplos de representação de projetos de arquitetura militar, o desenho da couraça de Alcácer Ceguer, do séc. XVI, denota este registo esquemático e de achatamento, especialmente na parte da muralha de onde parte o espigão. Todavia, existe já algum esforço de representação da profundidade, tendencialmente axonométrico (veja-se PEREIRA, Paulo – «A viragem do século XV» in HISTÓRIA da Arte Portuguesa (1995-1997), vol. 3, p.73). 103 Em 2013, o arco na extremidade da couraça ruiu, facto que não se terá em conta nesta tese, uma vez que o levantamento métrico e fotográfico que lhe serve de base é anterior.
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24. Ruínas do castelo de Alcácer Ceguer: frente voltada ao rio
25. Ruínas do castelo de Alcácer Ceguer: frente voltada para o interior da vila, com o seu baluarte