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(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE COMUNICAÇÃO Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. CLARISSA JOSGRILBERG PEREIRA. ENTRE LIMITES E POSSIBILIDADES: O ESTUDO DOS GÊNEROS JORNALÍSTICOS NAS FRONTEIRAS DE MATO GROSSO DO SUL. Dissertação apresentadaem cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Curso de Mestrado, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. José Marques de Melo.. São Bernardo do Campo – SP, 2013.
(3) FICHA CATALOGRÁFICA. Pereira, Clarissa Josgrilberg P414e. Entre limites e possibilidades: o estudo dos gêneros jornalísticos nas fronteiras de mato grosso do sul / Clarissa Josgrilberg Pereira. 2013. 130 f.. Dissertação (mestrado em Comunicação Social) --Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2013. Orientação : José Marques de Melo. 1. Gêneros jornalísticos 2. Jornalismo impresso 3. Brasil - Fronteiras Mato Grosso do Sul 4. Cultura - Mato Grosso do Sul (Estado) I. Título. CDD 302.2.
(4) FOLHA DE APROVAÇÃO. A dissertação Entre limites e possibilidades: o estudo dos gêneros jornalísticos nas fronteiras de Mato Grosso do Sul , elaborada por Clarissa Josgrilberg Pereira, foi defendida no dia ....... de ....................... de 2013, tendo sido: (_) Reprovada (_) Aprovada, mas deve incorporar nos exemplares definitivos modificações sugeridas pela banca examinadora, até 60 (sessenta) dias a contar da data de defesa. (_) Aprovada (_) Aprovada com louvor. Banca Examinadora: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________. Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa:____________________________________ Projeto temático: _____________________________________.
(5) DEDICO. Ao meu sustento: meu Deus, minha família de sangue e de coração..
(6) “Fazemos a história que nos faz...” (MORIN, Edgar).
(7) AGRADECIMENTOS. Agradeço primeiramente a Deus por sempre me abençoar, me por nos caminhos corretos e me cercar de pessoas maravilhosas. Entre elas, está toda minha família, a qual agradeço incessantemente por todo apoio em toda essa trajetória, por ser minha base, meu tudo. À minha mãe, meu exemplo. Ao meu pai, meu suporte. A minha irmã Thaís, pelo companheirismo e especialmente por me salvar com os ensinamentos sobre o uso dos bancos de dados do Excel. A minha irmã Mariana, pela constante atenção, preocupação e ligação. Ao meu irmão Julio, pelas mensagens de amor e confiança. A minha vó Maria Aldivina (em memória) por ter me ensinado, quando criança, que eu era a maluquinha da casa que sabia onde queria chegar. Ao meu mais que cunhado, Rui, por toda ajuda e pela constante disposição em ajudar. Ao meu tio Rui Josgrilberg e família pelas acolhidas iniciais e pelo apoio. Ao meu orientador José Marques de Melo com quem obtive aprendizados indescritíveis e incalculáveis. Agradeço pela oportunidade única, pelo acompanhamento em toda a trajetória, pelas portas que abriu, pela confiança e, principalmente, pelos ensinamentos que vão muito além sobre os gêneros jornalísticos, versam sobre a vida. Agradeço a todos os meus colegas de mestrado pelas conversas, discussões, desabafos e trocas. Em especial às que se tornaram muito mais que colegas, a Tyciane Vaz, primeira a me colher no curso, a Marília Saveri, pela companhia e pelas leituras intermináveis, a Tancy Costa, pelas conversas e almoços. As mais que amigas: Milena Cardinal, com quem morei, por toda a companhia, todas as reflexões e por tudo que passamos juntas longe de casa; e a Maria Alice, cujos papeis em minha vida são muitos (professora, primeira orientadora, vizinha, amiga, exemplo...). A ela, agradeço especialmente pelo incentivo, por ter me mostrado que a pesquisa era sim para mim, por ter confiado, por ter me posto no mundo profissional e acadêmico, por ter me ensinado a caminhar nesses dois universos, por ter soltado a minha mão no momento certo para que eu seguisse, mas sem nunca ter saído de perto. A Marielly amiga de toda a vida, por não ter deixado a distância mudar nada e ao Gabriel por ter me dado apoio, bons anos, bons momentos. Ainda, não poderia deixar de agradecer a todos os professores do Programa de Mestrado que muito contribuíram com minha formação. Em especial, a Cicília Peruzzo pelas ajudas metodológicas mesmo quando eu não mais era sua aluna e a Magali Cunha pelas ricas.
(8) contribuições dadas na qualificação. Aos funcionários da pós-graduação por sempre estarem postos a ajudar, impossível não mencionar Kátia e Vanete. E, ainda, à equipe da Cátedra de Comunicação, especialmente, a Rônia pela prontidão em contribuir. Agradeço, e muito, a Sonia Jaconi por me permitir acompanhá-la durante um ano e meio em suas aulas na graduação do curso de Rádio TV e Internet da Metodista. Nesses momentos de estágio aprendi não só sobre comunicação, mas também sobre didática, bom senso, bom relacionamento e sensatez. Meu muito obrigada, Sonia, por confiar em mim e me dar espaço para eu conhecer de perto o mundo das salas de aulas e ter podido ter a certeza de que escolhi o caminho certo. Agradeço ainda Camila Pina pela tradução e a todos que contribuíram direta e indiretamente com a pesquisa, especialmente, os entrevistados fronteiriços. Por fim, agradeço a Capes que me permitiu tudo isso e me possibilitou realizar um sonho, sem a qual eu não teria conseguido..
(9) LISTA DE TABELAS. Pág.. TABELA 1 - Semana construída dos jornais da fronteira entre Brasil e Paraguai ................... 67 TABELA 2 - Semana construída dos jornais da fronteira entre Brasil e Bolívia ..................... 68 TABELA 3 - Presença dos elementos no Jornal Regional .......................................................... 70 TABELA 4 - Presença dos elementos no Jornal ABC Color ....................................................... 70 TABELA 5 - Presença dos elementos no Diário Corumbaense .............................................. 77 TABELA 6 - Presença dos elementos no La Estrella del Oriente .............................................. 78 TABELA 2 - Semana construída dos jornais da fronteira entre Brasil e Bolívia ..................... 68 TABELA 3 - Presença dos elementos no Jornal Regional .......................................................... 70 TABELA 4 - Presença dos elementos no Jornal ABC Color ....................................................... 70 TABELA 5 - Presença dos elementos no Diário Corumbaense .............................................. 77.
(10) LISTA DE GRÁFICOS. Pág.. GRÁFICO 1 - Gêneros jornalísticos nos textos sobre a fronteira paraguaia ............................. 71 GRÁFICO 2 - Formatos jornalísticos dos textos sobre a fronteira paraguaia ........................... 72 GRÁFICO 3 - Marco geográfico dos textos jornalísticos que abordam a fronteira paraguaia 72 GRÁFICO 4 - Autoria dos textos jornalísticos que abordam a fronteira paraguaia ................. 73 GRÁFICO 5 - Tipos de fontes ouvidas nos textos que abordam a fronteira paraguaia ........... 74 GRÁFICO 6 - Gêneros jornalísticos nos textos sobre a fronteira boliviana ............................. 78 GRÁFICO 7 - Formatos jornalísticos dos textos sobre a fronteira boliviana ........................... 79 GRÁFICO 8 - Marco geográfico dos textos jornalísticos que abordam a fronteira boliviana . 79 GRÁFICO 9 - Autoria dos textos jornalísticos que abordam a fronteira boliviana .................. 80 GRÁFICO 10 - Autoria das imagens que abordam a fronteira boliviana ............................... 80 GRÁFICO 11 - Tipos de fontes ouvidas nos textos que abordam a fronteira boliviana ......... 81 GRÁFICO 12 - Presença dos gêneros jornalísticos nos jornais da fronteira paraguaia ........... 85 GRÁFICO 13 - Presença dos formatos informativos nos jornais da fronteira paraguaia ........ 86 GRÁFICO 15 - Presença dos formatos interpretativos no jornal ABC Color .......................... 88 GRÁFICO 16 - Presença dos formatos utilitários no jornal ABC Color ................................ 88 GRÁFICO 17 - Presença da categoria “outros” nos jornais da fronteira paraguaia .................. 89 GRÁFICO 18 - Presença dos gêneros jornalísticos nos jornais da fronteira boliviana ............ 91 GRÁFICO 19 - Presença dos formatos informativos nos jornais da fronteira boliviana ........ 92 GRÁFICO 20 - Presença dos formatos opinativos nos jornais da fronteira boliviana.............. 92 GRÁFICO 21 - Presença dos formatos utilitários nos jornais da fronteira boliviana ............. 93 GRÁFICO 22 - Presença da categoria “outros” nos jornais da fronteira boliviana ................. 94.
(11) LISTA DE IMAGENS. Pág.. IMAGEM 1 - Mapa da fronteira com o Paraguai ......................................................................... 53 IMAGEM 2 - Mapa da fronteira com a Bolívia ............................................................................ 57 IMAGEM 3 - Ficha de análise de matérias proposta por Kayser ................................................64 IMAGEM 4 - Ficha de análise de matérias utilizadas .................................................................. 65 IMAGEM 5 - Coluna e charge presente no jornal ABC Color ............................................... 97 IMAGEM 6 - Página opinativa do jornal Diário Corumbaense .............................................. 98.
(12) LISTA DE QUADROS. Pág.. QUADRO 1 - Exemplificação da notícia como formato ............................................................. 26 QUADRO 2 - Gêneros e formatos brasileiros ............................................................................... 36 QUADRO 3 - Gêneros e formatos bolivianos ............................................................................... 41 QUADRO 4 - Gêneros e formatos paraguaios .............................................................................. 43 QUADRO 5 - Comparativo dos gêneros e formatos brasileiros, paraguaios e bolivianos ..... 45 QUADRO 6 - Temas presentes nos textos que abordam a fronteira paraguaia ......................... 75 QUADRO 7 - Comparativo entre o jornal brasileiro e o boliviano ............................................ 77 QUADRO 8 - Temas presentes nos textos que abordam a fronteira boliviana ......................... 82 QUADRO 9 - Comparativo entre os formatos classificados e os encontrados no Paraguai ... 90 QUADRO 10 - Comparativo entre os formatos classificados e os encontrados na Bolívia ... 95.
(13) SÚMARIO. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 16 1. INTRODUÇÃO AOS GÊNEROS .............................................................................. 19 1.1 Gêneros, origem e definição ............................................................................. 19 1.2 Gêneros jornalísticos, origem e definição ........................................................ 23 1.3 Gêneros híbridos? Uma discussão que vale a pena...........................................26 1.4 Os gêneros jornalísticos e a perspectiva funcionalista......................................30 2. GÊNEROS JORNALÍSTICOS BRASILEIROS, BOLIVIANOS E PARAGUAIOS . 35 2.1 Gêneros jornalísticos brasileiros ...................................................................... 35 2.2 Entendendo os gêneros jornalísticos bolivianos .............................................. 38 2.3 A incógnita dos gêneros jornalísticos paraguaios ............................................ 41 2.4 Confluências e discrepâncias dos gêneros dos três países ................................ 44 2.5 Porque falar em gênero e fronteira? ................................................................ 45. 3. FRONTEIRA TERRITORIAL: A LINHA GEOGRÁFICA TRANSPOSTA PELA CULTURA ................................................................................................................... 48 3.1 Entendendo o conceito de fronteira e de cultura .............................................. 48 3.2 Entendendo a fronteira mato-grossense do sul com o Paraguai ....................... 53 3.3 A fronteira entre Bolívia e Mato Grosso do Sul ............................................... 55 3.4 Panorama midiático da fronteira com a Bolívia ............................................... 58 3.5 Panorama midiático da fronteira com o Paraguai ............................................. 60. 4. ANÁLISE MORFOLÓGICA E A PRESENÇA DOS GÊNEROS NOS JORNAIS DAS FRONTEIRAS .................................................................................................... 61 4.1 O que é a análise morfológica? ....................................................................... 61 4.2 Brasil e Paraguai .............................................................................................. 68 4.3 Brasil e Bolívia ................................................................................................ 76 4.4 As fronteiras, traçando um diagnóstico conjunto ............................................ 82. 5. ALÉM DO TEMA FRONTEIRA, UM DIAGNÓSTICO SOBRE A EXISTÊNCIA DOS GÊNEROS NOS JORNAIS ANALISADOS ...................................................... 84 5.1Fronteira existente entre Brasil e Paraguai ....................................................... 84.
(14) 5.2 Fronteira entre Brasil e Bolívia........................................................................ 90 5.3 Diagnóstico conjunto sobre a presença dos gêneros nos jornais fronteiriços .. 95. 6. OS GÊNEROS PELA ÓTICA DOS SUJEITOS ENVOLVIDOS NO PROCESSO COMUNICACIONAL DAS FRONTEIRAS............................................................... 99 6.1 Entendendo a produção jornalística na fronteira com o Paraguai ................... 99 6.2 O jornalismo da fronteira entre Brasil e Paraguai pela ótica dos leitores ...... 103 6.3 Entendendo a produção jornalística na fronteira com a Bolívia .................... 105 6.4 O jornalismo da fronteira entre Brasil e Bolívia pela ótica dos leitores ........ 109 6.5 Traçando paralelos entre a produção e a recepção dos jornalismos fronteiriços ............................................................................................................................. 111 CONCLUSÃO....................................................................................................................... 113 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................... 117 APÊNDICE ........................................................................................................................... 123.
(15) Resumo. É em Mato Grosso do Sul que está a maior cidade com fronteira seca do país, Ponta Porã, assim como a principal ligação com a Bolívia, o município de Corumbá. Este estudo objetiva analisar o perfil dos jornais impressos das duas principais fronteiras de Mato Grosso do Sul, por meio do diagnóstico dos gêneros jornalísticos presentes nesse tipo de mídia fronteiriça. Tal escolha deve-se ao fato de que esses locais não são constantes alvos de pesquisa, há poucos estudos na área de comunicação sobre a fronteira e, até onde se buscou conhecer, nenhum que relacione essa localidade com a produção dos gêneros jornalísticos. Por meio da análise morfológica, analisamos a amostra (obtida pela técnica da semana construída) dos jornais de maior circulação dessa área fronteiriça, na busca de identificar quais são os gêneros jornalísticos presentes nos jornais em análise e como eles se constituem em uma área de intensa troca cultural. Na fronteira paraguaia, foram estudados os jornais Jornal Regional e ABC Color e na fronteira boliviana, os jornais Diário Corumbaense e La Estrella del Oriente. Também foram realizadas entrevistas com os jornalistas desses veículos para entendermos a produção dos gêneros, bem como, a título de ilustração, entrevistamos alguns leitores dos veículos acima mencionados para compreendermos a visão que possuem dos veículos analisados e descobrir quais são os gêneros jornalísticos de sua preferência. Entre os resultados encontrados, temos que a fronteira não é notícia na fronteira e que o caráter interiorano da mídia interfere mais na produção jornalística do que o diferenciado cenário cultural da fronteira.. Palavras-chave Gêneros jornalísticos. Jornalismo impresso. Fronteira. Cultura..
(16) Resumen. Es en Mato Grosso do Sul, que se encuentra la más grande ciudad con frontera seca del país, Ponta Porã, así como la principal conexión con Bolívia, el municipio de Corumbá. Este estudio tiene como objetivo analizar el perfil de los principales periódicos de la frontera de Mato Grosso do Sul, a través del diagnóstico de los géneros periodísticos presentes en este tipo de medio de comunicación. Esta elección se debe al hecho de que estos lugares no son objetivos constantes de la investigación, son pocos los estudios en el área de la comunicación en la frontera, y en el que buscamos saber, ninguno que se relaciona este lugar con la producción de los géneros periodísticos. A través del análisis morfológico, analizamos la muestra (determinado por la técnica de la semana construida) de los principales periódicos de la zona fronteriza, con el fin de identificar cuáles son los géneros periodísticos presentes en los periódicos en cuestión y la forma en que constituyen un área de intenso intercambio cultural. En la frontera con Paraguay, se estudiaron los periódicos Jornal Regional y ABC color y en la frontera boliviana, el Gazeta Corumbaense y La Estrella del Oriente. Se realizaron entrevistas con periodistas de los periódicos escogidos para comprender la producción de géneros, así como, a modo de ilustración, se entrevistó a algunos lectores de los medios antes mencionados para entender la visión de los vehículos que han examinado y averiguar cuáles son los géneros periodísticos de su elección . Entre los resultados, tenemos que la frontera no es una novedad en la frontera y que el carácter provinciano de los medios interfiere más en la producción de noticias que el diferenciado escenario cultural de la frontera. Palabras-clave Géneros periodísticos. Periodismo impresso. Frontera. Cultura..
(17) Abstract. It is in Mato Grosso do Sul, where the largest city with land border in the country is located, Ponta Pora, as well as the city of Corumbá as the main connecting route to Bolivia. This study aims to analyze the profile of the printed newspapers of the two major border cities in Mato Grosso do Sul, through the diagnosis of journalistic genres present in this type of frontier media. This choice is due to the fact that these places are not constant targets of research, there are few studies in the area of communication related to boundary issues, as far as we know, none of those connects that location with the production of journalistic genres. Through morphological analysis, we analyzed the sample (obtained by the technique constructed week) of major newspapers on this border area, in order to identify what are the journalistic genres present in the newspapers in question and how they constitute an area of intense cultural exchange. In the Paraguayan border, the studied newspapers were Jornal Regional and ABC Color and in the Bolivian border, the newspapers Gazeta Corumbaense and La Estrella del Oriente. Interviews with journalists from those newspapers were also conducted to understand the production of genres, as well as, by way of illustration, we interviewed some readers of the aforementioned way of communication to understand their vision and find out what are their preferences concerning journalistic genres. Among the results, we have that the boundary matter is not news at the border and that the backwoods characteristic of the media interferes more in news production than the unusual cultural setting of the border.. Key-words Journalistic genres. Print media. Frontier. Culture..
(18) 16. INTRODUÇÃO. Esse trabalho surge por uma questão bem pessoal da pesquisadora: a vivência na fronteira de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul e a formação em jornalismo. Foi por meio da presença constante nessa localidade que se tornou possível perceber as particularidades locais, ora positivas e ora negativas. Ao começarmos a investigar os estudos sobre essa região não foi difícil perceber que ela é silenciada, pois são poucos os estudos acadêmicos que a abordam. Com isso, decidimos, então, estudar a fronteira, mais especificamente, a mídia impressa das duas principais fronteiras de Mato Grosso do Sul. Ou seja, a existente entre Ponta Porã, Brasil, e Pedro Juan Caballero, Paraguai, e a existente entre Corumbá, Brasil, e Puerto Quijarro, Bolívia. Na fronteira paraguaia os impressos analisados são o Jornal Regional, veículo brasileiro produzido na cidade pontaporanense e o ABC Color, veículo paraguaio de circulação nacional, produzido em Assunção. Já na fronteira boliviana analisamos o Diário Corumbaense, produzido em Corumbá, e o Estrella del Oriente, impresso boliviano produzido na cidade de Santa Cruz e único que chega diariamente na fronteira. A decisão de estudar o jornalismo impresso surge pelas características das próprias localidades. Na fronteira boliviana não há, por exemplo, jornalismo online. Nas cidades brasileiras não há produção de jornalismo televisivo local. As rádios brasileiras praticamente não contemplam programação jornalística. Dessa forma, analisar a mídia impressa mostrou-se o mais condizente para essa localidade, principalmente ao levarmos em consideração que não encontramos estudos da tipologia que desenvolvemos na mídia impressa dessa região. A presente pesquisa analisa toda a mídia impressa citada acima, mas tem o principal foco no estudo dos gêneros jornalísticos. A partir da compreensão teórica de que os gêneros são produtos culturais questionamo-nos como se dá a formação dos gêneros jornalísticos em um local que é formado por duas culturas distintas. É por meio desse questionamento inicial decidimos, então, descobrir quais são os gêneros jornalísticos que moldam o perfil dos jornais impressos de maior circulação na mídia fronteiriça das cidades de Ponta Porã (Br), Pedro Juan (Py), Corumbá (Br) e Puerto Quijarro (Py)? A análise dos principais impressos dessas regiões objetivou diagnosticar o perfil desses veículos jornalísticos por meio dos gêneros e formatos jornalísticos. Além disso, também objetivamos mapear os gêneros e formatos jornalísticos dos impressos analisados e comparálos entre os países que abordamos nesse estudo. Entendendo que só a análise do meio poderia nos ofertar uma visão limitada sobre o processo comunicacional em que as mídias analisadas estão envolvidas, incluímos em nossos objetivos a averiguação da compreensão que os.
(19) 17. jornalistas que trabalham nos jornais analisados possuem sobre o jornalismo local, a fronteira e a produção dos gêneros e formatos jornalísticos; também incluímos em nossos objetivos a apuração da percepção que os leitores possuem sobre os veículos em análise e sobre os gêneros jornalísticos presentes neles. Para realizarmos esse estudo utilizamos da metodologia proposta na análise morfológica, bem como das técnicas da semana construída e das entrevistas abertas e semiestruturadas. A análise morfológica é pautada em vários estágios a serem cumpridos para que se possa resultar dados de análise confiáveis. Devido a isso, explicamos o passo a passo dessa metodologia no quarto capítulo, o que inicia a análise de dados. Importante expor que devido à particularidade dos locais analisados acreditávamos que encontraríamos formatos jornalísticos diferenciados dos já classificados, uma vez que eles são construídos socialmente e na fronteira precisam responder às expectativas de duas culturas distintas. Todavia, isso não se fez presente. O que descobrimos, na verdade, é que antes da diferenciado cenário cultural da fronteira interferir na produção jornalística, interfere o caráter interiorano das mídias. Ao analisarmos a literatura sobre os gêneros e formatos jornalísticos presentes nos três países que esse estudo aborda, ou seja, Brasil, Paraguai e Bolívia, descobrimos que os dois últimos não possuem mais taxionomias que contemplam o fazer jornalístico dessas localidades, essas encontram-se ultrapassadas. Acreditamos na importância do desenvolvimento dessa pesquisa por dois aspectos. O primeiro pauta-se no próprio estudo dos gêneros jornalísticos, o qual carrega, em sua essência, uma relevância, pois são os gêneros que, de certa forma, normatizam a comunicação e estabelecem regras que permitem que haja uma relação prévia entre o produtor e o receptor. Portanto, se os gêneros variam conforme o contexto em que estão inseridos, logo, comparar os gêneros bolivianos com os brasileiros, bem como os paraguaios com os do Brasil, torna-se relevante uma vez que o jornalismo fronteiriço fala aos mesmos leitores. O segundo aspecto está na localidade. O Brasil é o país da América Latina que mais possui fronteiras; ao todo, são dez países que o cercam. Segundo o Ministério da Integração, 11 estados, 588 municípios e 10 milhões de habitantes estão na faixa de fronteira do país. Ainda de acordo com o Ministério, 27 % do território nacional é fronteiriço. Nesse sentido, devido à representatividade desses dados o estudo de questões ligadas à fronteira torna-se relevante. No último (2012) Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado pela Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), por exemplo, apenas três trabalhos apresentados falavam sobre fronteiras territoriais e comunicação, conforme constam dos anais do evento. O que demonstra que não se tem pesquisado muito.
(20) 18. sobre fronteiras na área da comunicação. Todavia, a análise do jornalismo de fronteira é fundamental, pois é por meio dele que os fronteiriços tornam-se representados. Além do já exposto, é preciso levar em consideração, ainda, que há poucos estudos na área da comunicação sobre a Bolívia e, principalmente, sobre o Paraguai e, mais escassos ainda são os que relacionam esses países da América Latina em um mesmo estudo. Para conseguirmos realizar a proposta exposta e responder à questão de investigação, estruturamos nossa pesquisa em seis capítulos, três teóricos e três práticos. O primeiro teoriza sobre os gêneros, desde sua origem até sua definição, bem como expõe a teoria funcionalista, um dos principais aportes teóricos que utilizamos nesta pesquisa. O segundo aborda especificamente os gêneros e formatos jornalísticos e traz as taxionomias presentes tanto no Brasil, quanto na Bolívia e no Paraguai, bem como a comparação entre elas. O terceiro capítulo discute as especificidades da fronteira, traz a visão cultural que temos sobre ela e os esclarecimentos específicos das localidades estudadas como breve histórico e panorama midiático da região. O quarto capítulo traz as primeiras análises dos dados coletados, mas apenas dos que abordam especificamente a fronteira, bem como também traz a explicação sobre a análise morfológica, metodologia base desta pesquisa. No quinto capítulo temos a análise de todos os gêneros e formatos jornalísticos encontrados nos impressos analisados, estudando assim os textos cujas temáticas não abordaram a fronteira, mas estavam presentes nos jornais fronteiriços. Por fim, o sexto capítulo é a compilação e discussão das entrevistas realizadas tanto com os jornalistas dos veículos, quanto com os leitores. Acreditamos que esse último capítulo foi de suma importância para pesquisa, pois permitiu-nos relacionar melhor os dados, bem como ter melhor compreensão sobre o processo comunicacional em que os jornais analisados estão inseridos..
(21) 19. Capítulo I – INTRODUÇÃO AOS GÊNEROS A compreensão histórica dos fenômenos, sejam quais forem, sempre traz importantes reflexões, pois possibilita a contextualização do surgimento de fatos, o desenvolvimento das leituras feitas sobre eles, a evolução ou não das análises e assim por diante. Por isso, dedicamo-nos primeiro a compreender a história e a definição dos gêneros para, então, conseguirmos compreender os gêneros jornalísticos.. 1.1 Gêneros, origem e definição. A cultura oral foi responsável por originar os gêneros denominados primários. Os gêneros secundários, por sua vez, são mais complexos e se originam, geralmente, na escrita. Para ficar mais claro, vejamos o que diz Sheila Grillo (2004, p.47) sobre essa diferenciação: “[...] gêneros do discurso secundário aparecem em circunstâncias de uma troca cultural (principalmente escrita) mais complexa e relativamente mais evoluída, e que absorvem os gêneros primários que são constituídos em circunstâncias de uma troca verbal espontânea”. Precisamos nos atentar à palavra “espontânea” da citação acima, logo não podemos afirmar que em um telejornal, por exemplo, exista um gênero primário, uma vez que é oral, pois ele não é espontâneo. Os telejornais são produzidos, escritos, roteirizados e lidos, portanto não tem origem oral. Para tornar mais clara a diferença, vejamos o que Bakhtin (2010, p.263) diz sobre essa questão: É de especial importância atentar para a diferença essencial entre os gêneros discursivos primários (simples) e secundários (complexos) não se trata de uma diferença funcional. Os gêneros discursivos secundários (complexos – romances, dramas, pesquisas científica de todas as espécies, os grandes gêneros publicísticos, etc.) surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) – artístico, científico, sociopolítico, etc. No processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples), que se formam nas condições de comunicação discursiva imediata.. Aristóteles consensualmente é tido como o pioneiro a desenvolver os estudos sobre gêneros. O pensador não os diferenciou entre primários e secundários, tal distinção foi feita depois. Todavia, em sua obra “A Poética” está a primeira identificação feita sobre os gêneros da área das artes, os quais foram divididos em comédia e tragédia; uma vez que os estudos.
(22) 20. que desenvolveu sobre o gênero lírico foram perdidos. Acredita-se que, após isso, Aristóteles tenha feito a divisão dos gêneros do discurso. Contudo, não se sabe ao certo qual foi a ordem cronológica dessas classificações, conforme aponta o prefácio da obra “A Retórica”, (ARISTÓTELES, [s/d], p.18):. Digamos que a Arte Retórica, do mesmo modo que a poética, datam da segunda estada de Aristóteles em Atenas. Na primeira destas obras, encontramos alusões a acontecimentos que ocorreram entre 338 e 336. É possível que a Arte Poética tenha sido redigida anteriormente à arte retórica. As referências de uma à outra, embora frequentes, de tal modo se emaranham que se torna impossível valer-nos delas para estabelecer uma sucessão cronológica a retórica remete seis vezes para a poética e a poética uma vez para a retórica.. Já na obra “A Retórica” o pensador dedicou-se à divisão dos estudos dos gêneros do discurso. Maria Silveira esclarece que para realizar essa definição, Aristóteles levou em consideração “os interlocutores (os auditórios), os valores e as intenções do orador. Desse modo, temos o gênero judiciário, o gênero deliberativo e o gênero epidíctico” (SILVEIRA, 2004, p.49). Sobre esses gêneros, Aristóteles os define como: O discurso deliberativo nos induz a fazer ou a não fazer algo. Um destes procedimentos é sempre adotado por conselheiros sobre questões de interesse particular, bem como por indivíduos que se dirigem a assembleias públicas a respeito de questões de interesse público. O discurso forense [judiciário] comporta a acusação ou a defesa de alguém [...]. O discurso demonstrativo [epidíctico] ocupa-se do louvor ou da censura de alguém (ARISTÓTELES, 2011, p.53).. A produção dos gêneros é um fenômeno social, histórico e cultural, logo está relacionada à condição humana. Dessa forma, podemos afirmar que a definição de Aristóteles exposta anteriormente está diretamente associada ao momento histórico em que viveu e à estrutura da sociedade a que pertenceu, ou seja, a polis grega. Isso porque um dos fatores que determinam os gêneros é a cultura e o contexto dela. Antônio Marcuschi (2002, p.19) define os gêneros como “[...] fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social. Fruto de trabalho coletivo, os gêneros contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia-a-dia”. É possível afirmar que os gêneros acompanham a evolução humana e, inclusive, o desenvolvimento tecnológico e é por isso que se torna viável o surgimento de novos gêneros nas sociedades. É por essa perspectiva que Bakhtin afirma que.
(23) 21. a riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo (BAKHTIN, 2010, p.262).. Entretanto, esse desenvolvimento que ocorre com os gêneros não pode ser visto como algo frenético e desenfreado. Eles passam sim por mudanças, mas, também possuem certa estabilidade, caso contrário haveria uma constante incomunicação na sociedade. Dessa forma, Bakhtin (2010, p.262) afirma que “cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso”. Marcuschi (2002, p.19) também fala sobre a estabilidade dos gêneros ao basear-se em Bakhtin e aponta que “seguramente, esses novos gêneros não são inovações absolutas, quais criações ab ovo 1, sem uma ancoragem em outros gêneros já existentes. O fato já fora notado por Bakhtin [1997] que falava na ‘transmutação’ dos gêneros e na assimilação de um gênero por outro gerando novos”. Essa estabilidade dos gêneros está associada à função que eles exercem. Segundo Bakhtin (2010, p.266), “em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo; é a esses gêneros que correspondem determinados estilos. Uma determinada função (científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) [...]”. Com isso criamos certo modelo de comunicação aos sabermos em quais tipos de comunidades discursivas estamos inseridos, ou seja, sabemos o que esperar e como nos portar diante do discurso religioso, jornalístico, científico, político. Até aqui falamos sobre os gêneros do discurso, pois é por meio deles que o estudo nesta área surge. Contudo, a definição do termo carrega consigo uma grande abrangência, o que contribui para várias confusões. No dicionário essa palavra é definida como:. [...] Classe cuja extensão se divide em outras classes, as quais em relação à primeira, são chamadas espécies. 2. Lóg. Um dos predicáveis (q.v.): característica(s) que uma coisa tem em comum com outra , e que lhe(s) determina(m) a essência, quando acrescida da diferença (8). [C.f, nesta acepç.., classe (22).] 3. P. ext. Qualquer agrupamento de indivíduos, objetos, fatos, ideias, que tenham características comuns; espécie, classe, casta, variedade, ordem, qualidade, tipo: Frequentava todo gênero de gente; Que gênero de conversa é esta?; Nesta rua há todo gênero de casas. 4. Maneira, modo, estilo: Não concordo com gênero de vida. 5. Nas obras de um artista de uma escola, cada uma das categorias que, por tradição, se definem e 1. Expressão que significa “desde o ovo até às maças, expressão proverbial que significa do começo ao fim do jantar e, por extensão, do começo ao fim de alguma coisa” (FARIA, 1962, p.691)..
(24) 22. classificam segundo o estilo, a natureza ou a técnica: os gêneros literários pictóricos. 6. Classe ou natureza do assunto abordado por um artista: gênero dramático; gênero romântico. 7. Antrop. A forma culturalmente elaborada que a diferença sexual toma em cada sociedade, e que se manifesta nos papéis e status atribuídos a cada sexo e constitutivos da identidade sexual dos indivíduos. 8. Biol. Categoria taxionômica compreendida entre a família e a espécie. [V. grupos taxonômicos.] 9.E. Ling. Categoria gramatical (q.v) que dispõe os nomes de uma língua em classe (como feminino, masculino, neutro, animado, inanimado), de acordo com: (a) a referência pronominal (a casa/ela; o menino/ele); (b) a concordância com os modificadores (a menina bonita/ o gato gordo); (c) a presença de determinados afixos (como, p.ex., triz). 10. Geom. Anal. Diferença entre o número máximo de pontos duplos que uma curva unicursal pode ter e o número dos que ela realmente possui; deficiência. 11. Geom. Anal. Metade do número de cortes que devem ser feitos em uma superfície para que ela se torne simplesmente conexa. ~V. gêneros. Gênero de vida. Conjunto de atividades habituais, provenientes da tradição, mercê das quais o homem assegura a sua existência, adaptando a natureza em seu proveito. Gênero humano. A espécie humana: a humanidade. Comum de dois gêneros. E. Ling. V: comum de dois. Fazer gênero. Bras. Gir. Fingir ser o que não é. Não o fazer o gênero de. Bras. Gir. Fingir ser o que não é. Não estar conforme a opinião ou gosto de (alguém); não agradar a (FERREIRA, 2009, p.975).. Por meio da definição contida no dicionário, temos que o significado de gênero permeia várias esferas, desde a sociocultural, em que há o gênero masculino e feminino, até à relacionada à gramática. Também temos uma definição mais associada ao comportamento “fingir ser o que não é”, o que nos remete às falas comuns como “fulano está fazendo gênero”. Para o estudo dos gêneros jornalísticos, temos duas importantes definições: “Nas obras de um artista de uma escola, cada uma das categorias que, por tradição, se definem e classificam segundo o estilo, a natureza ou a técnica”, que é relacionada ao estilo, e “característica(s) que uma coisa tem em comum com outra”, relacionada à espécie. Essas duas conceituações nos levam para locais distintos, o que faz com que o pesquisador, ao estudar gêneros, precise expor primeiramente de qual gênero está falando e qual é o conceito que ele tem sobre esse termo; pois, por meio, dessas duas definições acima descritas o termo gênero pode tanto se referir ao produto comunicacional, quanto à esfera comunicativa. Esta tomada de posição torna-se necessária para que o leitor compreenda de qual perspectiva o autor fala e/ou analisa determinado material empírico. Na área da linguística essa questão fica uma pouco menos confusa ao utilizar-se o termo gênero textual. Este, segundo Marcuschi (2002, p. 22-23), é tido “como uma noção propositalmente vaga para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio-comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica”. Pelo mesmo viés de pensamento, Sergio Costa (2009, p.19) diz que “[...] os estudos sobre gêneros centram-se no texto e tentam.
(25) 23. organizar a variedade textual, propondo diversas tipologias envolvendo tanto o conceito de gênero (realização empírica de texto) quanto o de tipo [...]”. Seguindo-se esse conceito, temos como exemplos de gêneros textuais a bula de remédio, a receita, o ofício, o relatório, o resumo, a resenha e diversos outros. Dessa forma, ao pensarmos em um gênero já criamos um modelo de expectativa sobre ele, já sabemos que ao pegarmos uma bula de remédio para ler encontraremos termos técnicos e as contraindicações de um remédio. É nessa construção prévia de uma comunicação e de uma confiança que o gênero se estabelece e que seu estudo se justifica. Todavia, o gênero também pode estar relacionado ao estilo, ou seja, se é dramático, de suspense, de informação entre vários outros. Passemos agora a compreensão específica dos gêneros pertencentes ao discurso jornalístico.. 1.2 Gêneros jornalísticos, origem e definição O foco deste tópico é a discussão sobre os gêneros jornalísticos. Todavia, não podemos fazê-la sem antes nos debruçarmos um pouco sobre o que entendemos por jornalismo e pelo seu fazer. Para os jornalistas, um grande e importante norteador de sua função é o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, produzido pela Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas. Entre os vários tópicos que indicam a forma correta de atuar estão “divulgar os fatos e as informações de interesse público” e “a opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade” (FENAJ - online). Autores como Mauro Wolf (1995), Nilson Lage (2001) e Mario Erbolato (1978) também auxiliam no debate do que é o jornalismo, principalmente, ao discutirem os critérios de noticiabilidade e/ou valores notícias como formas de identificar o que deveria ser publicado como um conteúdo jornalístico. Marques de Melo (2003) também faz essa discussão ao debater a complexidade que critérios como de atualidade, periodicidade e universalidade têm na prática. Em uma definição mais abrangente, o autor aponta que. O jornalismo é concebido como um processo social que se articula a partir da relação (periódica/oportuna) entre organizações formais (editoras/emissoras) e coletividades (públicos receptores), através de canais de difusão (jornal/revista/rádio/televisão/cinema) que asseguram a transmissão de informações (atuais) em funções de interesses e expectativas (universos culturais ou ideológicos) (MARQUES DE MELO, 2003, p.16)..
(26) 24. A definição acima exposta é de grande importância uma vez que leva em consideração todo o processo em que é feito o jornalismo, independentemente da realidade em que esteja inserido. Concordamos com Marques de Melo (2003, p.16) quando afirma que O jornal, assim como a revista, ou o rádio e a televisão constitui instrumento indispensável para o exercício do jornalismo, mas não exclusivamente. É possível encontrar um jornal que contenha apenas matérias jornalísticas. Mas é possível encontrar jornal que só contenha anúncios (propaganda) e nenhuma matéria vinculada ao universo da informação de atualidades. Logo, o jornalismo articula-se necessariamente com os veículos que tornam públicas suas mensagens, sem que isso signifique dizer que todas as mensagens ali contidas são de natureza jornalística.. Todavia, muitas vezes, nas mídias de interior, o que se tem de jornalismo está longe de ser o ideal ao levarmos em consideração os critérios de noticiabilidade ou o caráter publicístico que possui. Por outro lado, é, por sua vez, o que há disponível à população local, é o que a ela é entregue como jornalismo. Nessa perspectiva, os estudos dos gêneros jornalísticos contribuem, uma vez que permitem o diagnóstico da identidade de uma mídia impressa. Além disso, como diz Marques de Melo (2003, p.41) é um “[...] ponto de partida seguro para descrever as peculiaridades da mensagem (forma/conteúdo/temática) e permitir avanços na análise das relações socioculturais (emissor/receptor) e político-econômicas (instituição jornalística/ Estado/corporações mercantis/movimentos sociais) que permeiam a totalidade do jornalismo”. Os estudos dos gêneros jornalísticos têm consensualmente Jacques Kayser como o pioneiro dessa área. Conforme explica Marques de Melo (2010, p.13) “há um consenso, entre os pesquisadores do jornalismo, a respeito do pioneirismo de Jacques Kayser no estudo contemporâneo dos gêneros jornalísticos”. Além de iniciar os estudos dos gêneros nos jornais, Kayser também desenvolveu os estudos utilizando a análise morfológica, a qual consiste na metodologia adotada para o desenvolvimento desta pesquisa e cuja explicação pode ser encontrada no quarto capítulo deste trabalho. Já no Brasil, os estudos dos gêneros jornalísticos foram iniciados por meio do jornalista e pesquisador Luiz Beltrão. Nessa área, o autor publicou os livros “A Imprensa Informativa” (1969), “Jornalismo Interpretativo” (1976) e “Jornalismo Opinativo” (1980). Seguindo os passos de Beltrão, José Marques de Melo também contribuiu com os estudos e as classificações dos gêneros jornalísticos presentes na imprensa brasileira. Em 1985, como fruto de sua tese de livre docência, ele publica “Jornalismo Opinativo”, o qual foi reeditado em 2003 sob o título de “A opinião no jornalismo brasileiro”..
(27) 25. Além disso, Marques de Melo fez diversas orientações e artigos nessa área; em 2008 encabeçou a criação do grupo de pesquisa que discute essa temática e é acoplado a Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). No ano de 2010 organizou o livro “Gêneros Jornalísticos no Brasil”. Foram inúmeras as atuações do pesquisador a fim de fomentar mais as discussões nessa área. Dessa forma, esse campo também vem sendo frutificado por ex-orientandos de Marques de Melo que continuam a desbravar o campo dos gêneros jornalísticos como Tyciane Vaz e Francisco de Assis. Autores como Chaparro e Lia Seixas também somam à lista de importantes contribuições dadas ao estudo dessa área, a qual não cabe ser esgotada aqui. Até 2003 as pesquisas dos gêneros jornalísticos seguiam uma definição mais consensual. Nas pesquisas desse período, categorizavam-se esferas comunicativas como as pertencentes ao jornalismo, nas quais se incluíam a interpretativa, a opinativa e a informativa. E como gêneros jornalísticos, definia-se o “produto” propriamente dito, ou seja, a reportagem, o artigo e a notícia, por exemplo. Esse posicionamento está presente na tese de livre docência do professor José Marques de Melo (2003, p.42) como, por exemplo, no trecho: “vimos que historicamente a diferenciação entre as categorias jornalismo informativo e jornalismo opinativo emerge da necessidade sociopolítica de distinguir os fatos (News/stories) das suas versões (comments) [...]” (2003, p.42). No mesmo livro, na página 51, o autor também traz a reportagem, o artigo e a crônica como gêneros. Quando verificamos a bibliografia referente aos gêneros presentes na mídia televisiva geralmente também encontramos a mesma definição acima mencionada. Em “Televisão levada a sério”, de Arlindo Machado, e em “Gêneros e formatos na televisão brasileira”, de José Carlos de Souza há a definição de categorias como a jornalística e a de entretenimento; e a de gêneros como “o produto”, ou seja, programa de auditório, série, novela, documentário, reality show, etc. Já o termo formato, na televisão, passa a ser “[...] a ‘forma’, a característica que ajuda a definir o gênero” (SOUZA, 2004, p.45). Ou seja, o formato seria o “ingrediente” que vai configurar o gênero como, por exemplo, o formato ao vivo de um telejornal. Por outro lado, os estudos mais relacionados ao jornalismo, em especial, ao jornalismo impresso veem geralmente o formato como sendo a própria notícia e o gênero como, o que nos estudos de televisão, estaria mais próximo à categoria como, por exemplo, a opinativa. Essas definições são possíveis de serem encontradas no livro “Gêneros Jornalísticos no Brasil”, de 2010 e no “Gêneros Jornalísticos, teoria e práxis”, de 2012, entre outros títulos. A última classificação feita por Marques de Melo e publicada por seus orientandos da época é esta presente na obra 2010, em que são definidos como gêneros o diversional, o informativo,.
(28) 26. interpretativo, utilitário e o opinativo. Sobre essa questão, Lia Seixas faz uma importante contribuição ao afirmar que “no campo jornalístico, além da divisão de gêneros jornalísticos que seriam os gêneros do jornalismo, também existe uma divisão do fazer jornalístico em gêneros de jornalismo. Informativo, interpretativo, de aprofundamento, investigativo, opinativo, diversional [...]” (SEIXAS, 2012, p.41). Essa questão retoma a própria etimologia da palavra em que gênero pode representar tanto o estilo quanto os produtos. Já sobre a alteração que houve com o passar do tempo dos gêneros em formatos, compreendemos que contribui para se alcançar uma padronização de nomenclaturas. Ao levarmos em consideração a mídia em que o gênero está inserido, ele poderia exercer ora função de formato, ora de gênero. Em uma estrutura rígida como jornal impresso, por exemplo, a entrevista pode ser um gênero, já em um telejornal a entrevista pode ser um formato do gênero telejornal. Essa flexibilidade que o formato e o gênero adquirem conforme a plataforma em que estão inseridos muitas vezes confunde e trai o próprio pesquisador. Por isso torna-se compreensível unificar o pensamento de que notícia é um formato independentemente do meio em que esteja inserida. O quadro a seguir sistematiza essa informação:. Quadro 1 – Exemplificação da notícia como formato Meio Classificação Gênero de Jornalismo. TV. Impresso. Informativo. Informativo. Gênero do Jornalismo. Telejornal. Formato. Notícia. Notícia. Fonte: autoria própria.. Para encerrar esse tópico esclarecemos que realizamos uma parte introdutória e conceitual sobre os gêneros e os gêneros jornalísticos. Contudo, as discussões e reflexões sobre as tipologias dos gêneros estão contidas no capítulo dois, uma vez que por esse estudo ser sobre a fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia, dedicamo-nos à compreensão das tipologias que também estão presentes nesses dois últimos países. Agora, passamos a outra discussão necessária: a da existência ou não dos gêneros híbridos. Tal posicionamento é essencial nesta fundamentação teórica, uma vez que influencia na análise dos jornais aqui estudados..
(29) 27. 1.3 Gêneros híbridos? Uma discussão que vale a pena. Falar sobre a questão do hibridismo dos gêneros é algo necessário para todos os estudos que envolvem essa temática, pois trata-se de um posicionamento teórico que interfere na análise do material empírico selecionado. É por este motivo que dedicamos este tópico a essa discussão. A maior parte dos trabalhos acadêmicos atuais que envolvem os gêneros do jornalismo traz o hibridismo como fruto de seus resultados. Entretanto, se por um lado muitos acreditam nele, por outro, poucos pararam para refletir sobre ele. Não encontramos, por exemplo, nenhuma definição sobre o “gênero híbrido”. Então o que seria esse híbrido? Olhando pelo viés da linguística temos a definição pautada no dicionário (FERREIRA, 2009, p. 1036) em que “diz-se de vocábulo composto de elementos de línguas diversas”, logo, por essa definição poderia ser, por exemplo, uma palavra brasileira cuja origem fosse inglesa ou russa. No caso dos gêneros do jornalismo como transportaríamos esse conceito? Seria uma notícia que começasse por uma charge? E se fosse tal gênero não iria gerar uma incomunicabilidade ou, pelo menos, uma quebra de confiança no leitor? Por toda a bibliografia aqui levantada cremos que a palavra hibridismo tornou-se esvaziada. Um gênero só surge após preencher algumas características como a de forma, conteúdo e tema (MARQUES DE MELO, 2003). Por essa perspectiva, não há uma função, uma forma ou um conteúdo que definam os gêneros híbridos; logo, esses materiais identificados por híbridos não podem ser um gênero do jornalismo. Não dizemos que todos esses itens precisam aparecer na mesma proporção, mas é preciso que um gênero contenha características mínimas para ser composto. Aliás, seriam os gêneros híbridos gêneros jornalísticos? Ou, ainda, poderiam os gêneros jornalísticos misturarem-se a outros discursos como o religioso e o humorístico e, ainda assim, seria jornalismo? Cremos que não, pois deixaria de ser jornalismo, uma vez que não seguiria os critérios básicos de noticiabilidade e de ética que pautam a profissão jornalística. Temos, por exemplo, o programa Custe o Que Custar (CQC) da Band, que se apropria de formatos jornalísticos, mas que não é um programa de jornalismo, e sim de humor. Dessa forma, vemos os gêneros híbridos como uma zona de exclusão que vem sendo utilizada para abrigar gêneros novos, gêneros em transição ou de difícil classificação. Em seu livro “Redefinindo os gêneros jornalísticos”, Lia Seixas (2009, p.27) aponta que “atualmente, entretanto, vivemos um momento de reivindicações da análise processual, da dinâmica, das interfaces, do hibridismo. Essas reivindicações começam com Bakhtin, que.
(30) 28. passa a requerer uma linguística que não exclua a situação da enunciação [...]”. Entretanto, ao que parece o hibridismo está relacionado às imbricações que hoje existe entre as mídias, o que não significa que exista entre os gêneros. A mesma questão aparece em outro trecho (2009, p.59) ao afirmar que “a semiótica, por sua vez, instigada pela multimidialidade dessas novas mídias, ou melhor, pelo hibridismo dos sistemas comunicacionais, passou a defender e investigar a noção de gênero num ambiente que parecia anacrônico a tal noção”. Por essa perspectiva exposta por Lia Seixas já se torna possível falar em hibridismo, pois ela refere-se a sistemas comunicacionais híbridos o que é facilmente visto e exemplificado pela internet. Quando pensamos nas esferas comunicativas também é possível refletirmos sobre o híbrido. É viável, por exemplo, pensarmos em um programa televisivo que seja constituído de entretenimento e de informação. Nos gêneros de jornalismo, também é possível identificar uma notícia que seja pertencente ao gênero de informação e utilitário por também possuir o formato “cotação”. Logo se o híbrido for considerado pela relação entre duas esferas diferentes e o gênero pensado por meio do estilo, neste caso, abre-se uma perspectiva para pensar em uma relação entre o híbrido e o gênero de jornalismo. Por outro lado, quando pensamos nos gêneros do jornalismo não conseguimos compreender o que seria esse híbrido. No livro “A televisão em busca de interatividade”, (2009, p.34) Ana Carolina Temer e Márcia Tondato, fazem a primeira menção à questão do hibridismo ao falarem que “[...] a partir da década de 1990 pela hibridização dos gêneros, o telejornal que ficcionaliza e a ficção que noticia, e pela interatividade, as trocas só acontecem no formato, exportamos Você Decide, e importamos Big Brother”. Tal definição já é arriscada, pois não conseguimos visualizar, por exemplo, que um telespectador aceitaria que o Jornal Nacional começasse com uma piada. Em todo o livro não há uma contextualização do significado da palavra hibridismo e nem o que caracterizaria um gênero híbrido do jornalismo. Ao longo do texto, as autoras vão discorrendo sobre as matérias superficiais e sensacionalistas que hoje ocupam grande espaço na televisão brasileira, sem que levem em consideração critérios de utilidade e interesse público. Todavia, cremos que é preciso distinguir a questão da formação dos gêneros da questão da formação do jornalismo. A nosso ver, seguindo a linha dessas autoras a questão não passa a ser da imbricação de gêneros, mas sim da perda das características essenciais do jornalismo. Ora, se deixa de ser jornalismo, se deixa de existir os valores notícias e assim por diante passa a ser impossível estudar os gêneros jornalísticos em uma categoria que não a pertence..
(31) 29. Sabemos que a obra tem como enfoque a ficção e não o jornalismo, bem como também sabemos que acreditar no hibridismo ou não é uma questão de posicionamento teórico; logo, não são esses aspectos que questionamos, e sim a ausência de uma definição do que seria o hibridismo citado na obra. Dessa forma, por não haver nada que, de fato, sustente a teorização e a existência do híbrido nos gêneros do jornalismo, não cremos nessa tipologia. Concordamos com Grillo (2004, p.41) ao dizer que “um dos aspectos característicos dos gêneros, portanto, é a sua relação ambivalente com gêneros anteriores”; logo, vemos que é possível que haja transformações nos gêneros, pois esses não são estáticos, mas não que seja viável a criação de novos gêneros sem que haja uma base que o sustente; principalmente, nos gêneros jornalísticos, pois enquanto os literários podem surpreender pela sua ruptura, nos jornalísticos é a fidelidade dos gêneros que garantirá a não frustração do leitor. É por essa perspectiva que Grillo (2004, p.47) teoriza,. Enquanto nos gêneros literários a qualidade da obra é medida pela ruptura com o passado, o que provoca um efeito de estranhamento no leitor, responsável por experiências estéticas, capazes de desautomatizar a visão corrente do mundo (este é o caso de gênero polifônico em Dostoiévski), nos gêneros pragmáticos, aí incluídos os gêneros da imprensa, a memória do gênero procura reafirmar o horizonte de expectativas do leitor com vistas a facilitar a comunicação e a evitar o estranhamento e o possível ‘afugentamento’ do leitor.. Dessa forma, vemos que a manutenção dos gêneros jornalísticos é interesse essencial dos veículos de comunicação que não querem correr risco algum de dizimar seus leitores. Logo as mudanças dos gêneros jornalísticos ocorrem cautelosamente, além disso, torna-se arriscado falarmos em hibridismo, uma vez que admitido o caráter transitório do gênero este pode estar apenas em um momento de transformação, ou seja, alterando-se para ser outro e não sendo dois. Silveira (2005, p.51) explica em seu livro que no final do século XVIII houve um momento de transição, das canções de gesta 2 surgiram as novelas e, nesse momento de transição, esse gênero foi classificado por impuro; entretanto, hoje, já é estabelecido e reconhecido. Chamamos, ainda, a atenção para o processo: da gesta surgiram as novelas, ou seja, de um formou-se outro. Não é possível encontrar um produto que seja gesta e novela ao mesmo tempo. Para fomentarmos um pouco mais essa breve discussão sobre o hibridismo ainda apontaremos uma última questão: a da transgressão. A importância do domínio dos gêneros 2. “[...] canções que celebram grandes feitos. 3. Acontecimentos históricos; história” (FERREIRA, 2009, p.980)..
(32) 30. está na liberdade do autor em transitar por eles e em ousar no uso deles, de forma responsável, a fim de que consiga alcançar seus objetivos, pois quando ignoramos os gêneros, esvaziamos o sentido das mensagens e deixamos de ser livres (BAKHTIN, 2010). Para exemplificarmos, na tese de doutorado “A transgressão sertaneja do gênero relatório: revelação do escritor no texto do prefeito Graciliano Ramos”, Sonia Jaconi, aponta que Graciliano Ramos ao escrever relatórios enquanto era prefeito manteve a característica do gênero, mas o transgrediu ao usar, por exemplo, da ironia e da primeira pessoa. Logo, na conclusão da autora, ele tinha conhecimento e domínio sobre o gênero relatório e por meio disso o transgrediu, não gerando outro, um híbrido, pois manteve as características essenciais a este gênero, mas alterando-o de forma a alcançar seus objetivos, os quais eram, no mínimo, o de chamar a atenção. Após expormos nosso posicionamento teórico sobre o hibridismo, passemos a explicação sobre a teoria comunicacional que nos serve de aporte para o estudo dos gêneros jornalísticos.. 1.4 Os gêneros jornalísticos e a perspectiva funcionalista Quando falamos nos estudos dos gêneros há sempre duas teorias que são relacionadas a eles, a Formalista e a Funcionalista; conforme explica Silveira (2005, p.25) [...] pode-se falar em dois paradigmas que prevaleceram na linguística no século XX: o formalismo e o funcionalismo. A tendência formalista investiga como os elementos e os padrões da língua são formados ou organizados; já a tendência funcionalista investiga como esses elementos e padrões são postos em uso.. Entretanto, quando especificamos os estudos dos gêneros jornalísticos é a Teoria Funcionalista que passa a ser intrinsicamente relacionada às pesquisas dessa área. Tal relação pode ser justificada por duas questões básicas, uma é a de que os principais estudiosos dos gêneros jornalísticos no Brasil como Luiz Beltrão e José Marques de Melo possuem escancarada afinidade com essa teoria e, assim, transpassam isso nos estudos por eles desenvolvidos. A segunda questão está no fato de que os estudos dos gêneros dos jornais focam o veículo midiático, ou seja, o meio e, como veremos adiante, o funcionalismo explica, de certa forma, a análise específica do meio. Entretanto antes de abordar especificamente os conceitos do funcionalismo é preciso contextualizar algo importante: sua origem. Tal perspectiva teórica surge em meio ao boom da comunicação de massa e objetiva explicá-la. Para Robert Merton e Paul Lazarsfeld (1990, p. 106) o olhar sobre os meios de comunicação origina com “a preocupação manifesta quanto às.
(33) 31. funções dos mass media [a qual] deve-se, em parte, à observação válida de que estes meios tomaram para si a tarefa de conformar o público de massa ao status quo social e econômico”. A Teoria Funcionalista tem origem norte-americana e é uma das primeiras correntes teóricas surgidas para tentar explicar a inserção dos meios de comunicação de massa na sociedade. Na visão de Roberto Santos (1999, p.16) essa teoria “[...] procura respostas para a organização dessas sociedades, de seus costumes e tradições, creditando às funções exercidas pelos membros e instituições que as formam o segredo de sua sobrevivência”. Na corrente teórica funcionalista a sociedade é análoga a um organismo, logo cada parte deverá exercer sua função para que o todo possa funcionar corretamente. Carlos Alberto Ávila Araújo (2011, p.6) explica que “a natureza organísmica da abordagem funcionalista toma como estrutura o organismo do ser vivo, composto de partes, e no qual cada parte cumpre seu papel e gera o todo, torna esse todo funcional ou não”. É importante expor que na base do funcionalismo está a visão positivista, logo, a corrente teórica funcionalista surge no contexto de que a ciência, para ser validada como tal, precisa ser objetiva e, portanto, necessita demonstrar dados exatos. Além disso, o behaviorismo, teoria advinda da psicologia, que crê na relação existente entre estímulo e resposta, também influencia o pensamento funcionalista. Por esta perspectiva, uma das funções da comunicação diagnosticada por alguns teóricos dessa corrente é a de perpetuar valores e cabe ao público responder a esse estímulo e bem agir na sociedade. Dessa forma, é possível considerar que a principal preocupação presente na Teoria Funcionalista não é o indivíduo, mas sim a sociedade. O autor Paulo Serra, em seu livro “Manual da Teoria da Comunicação”, considera que o pensamento funcionalista faz parte das teorias que consolidam o que ele chama de paradigma dominante e o divide em duas fases. Na primeira a presença do behaviorismo é bem marcante, pois a comunicação seria “vista essencialmente como um processo de propaganda que visa levar os indivíduos a responderem de forma mais ou menos dócil, uniforme e homogénea aos estímulos que lhes são fornecidos pelos media” (SERRA, 2007, p.66). Em seguida, o autor expõe que “o segundo sub-período, que vai dos anos 40 aos inícios dos anos 60, simultaneamente de continuidade e ruptura com o primeiro, corresponde à sociologia funcionalista do pós-II Guerra Mundial” e explica que já nesta segunda fase a Teoria Matemática começa ganhar fôlego e espaço. São vários os autores que propuseram alguns modelos de comunicação, entre eles Wright, Lazarsfeld-Merton e, o mais conhecido, Harold Lasswell. Na obra “Elementos de Teoria e Pesquisa da Comunicação e dos Media”, Pedro Jorge Souza (2006, p.79) explica que.
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