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DOUTRINA NACIONAL

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Academic year: 2021

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D O U T R I N A N A C I O N A L

A R E S P O N S A B I L I D A D E D O S C U L T O R E S D O D I R E I T O N A C O N S T R U Ç Ã O D E N O V O S R U M O S P A R A O D I R E I T O D O T R A B A L H O

J O R G E L U I Z S O U T O M A I O R « »

Quase sempre quando se aborda o tema da reavaliação do direito do trabalho frente às transformações no mundo moderno, parte-se de um pres­

suposto: o de que as relações de trabalho, em decorrência dos fenômenos da globalização e da evolução da informática, estão mudando. Além disso, constata-se a existência de uma crise econômica e aponta-se o direito do trabalho como seu principal culpado.

São essas, por assim dizer, as novas verdades fundantes que se põem à base do raciocínio jurídico, que conduzem à conclusão de que o direito do trabalho precisa de novos rumos.

Essa visão, trazida para a teoria geral do direito do trabalho, implica a alteração da identificação do direito do trabalho, que passa a ser visto como direito ao trabalho, com alteração de sua própria função, que deixa de ser a da proteção do trabalhador, para ser a da coordenação dos interesses do trabalho e do capital.

Essa abordagem, que tem se verificado entre nós há pelo menos uns 5 (cinco) anos, abriu campo para o implemento de técnicas de flexibiliza­

ção do direito do trabalho. Essas técnicas já produziram efeitos concretos no mundo real e da análise dos dados que se extraem da realidade á que proponho fazermos uma reavaliação profunda dessa questão.

A história de flexibilização do direito do trabalho no Brasil não é re­

cente. Inicia-se em 1967, com a criação do FGTS. De lá pra cá, o emprega­

dor pode dispensar o trabalhador sem qualquer motivação; foram criadas modalidades de contrato determinado, como o contrato temporário (Lei n.

6.019/74) e mais recentemente, o contrato provisório (Lei n. 9.601/98) — vale lembrar que na CLT já Unhamos a previsão do contrato a prazo (art.

443) (que são, todas elas, modalidades de contratação precária, ou seja,

*■> Juiz d o Trabalho. Livre-docente e m Direito d o Trabalho pela U S P .

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que possibilitam a redução de alguns direitos do trabalhador); revitaliza­

ram-se as cooperativas de trabalho; e foi dada nova roupagem para a con­

tratação por empresa interposta (chamada agora de terceirização).

A realidade demonstra, no entanto, que as técnicas de flexibilização do direito do trabalho ao contrário de atacarem o problema do desemprego tém alimentado a lógica do desemprego e provocado uma crescente des­

valorização do trabalho humano, o que, por certo, está gerando o agrava­

mento de nosso maior problema social: a má distribuição de renda (há uma camada cada vez maior de miseráveis e uma camada cada vez menor de pessoas cada vez mais ricas). Em outras palavras, aqueles que hoje pres­

tam serviços mediante a utilização desses mecanismos são os “emprega­

dos* de ontem (v/cfe o exemplo das cooperativas de trabalho). Ou seja, as referidas técnicas não geraram empregos, eliminaram os empregos que existiam (com prejuízos, é claro, para o próprio custeio da Seguridade Social).

Também os empregos tradicionais, digamos assim, estão em cres­

cente desvalorização. As normas coletivas estão a cada ano que passa reduzindo mais os direitos dos trabalhadores e a própria legislação — que já é bastante rala, se verificarmos atentamente — tem sido interpretada de forma cada vez menos favorável ao trabalhador (por exemplo, a natureza salarial das parcelas pagas ao trabalhador tem sido negada em número cada vez maior — videexemplo do atual Decreto n. 3.048/99, que não con­

sidera salário-de-contribuição uma séria de parcelas pagas ao trabalhador, antes consideradas como tal, com novo prejuízo para o custeio da Seguri­

dade Social).

Paralelamente a isso, a Justiça do Trabalho é deixada em total aban­

dono, no que se refere ao seu aprimoramento administrativo (aparelhamento, pessoal, número de juízes e desvalorização da função judicante — baixos salários), e, por consequência disso — e não porque o processo do traba­

lho seja complexo — é que uma lide trabalhista pode durar muito tempo e isso faz com que o "ex-empregado’ aceite fazer acordos muitas vezes es­

púrios, sendo, até mesmo, um incentivo para que o empregador não cum­

pra a legislação trabalhista.

Isso tudo, como dito, está alimentando a lógica do desemprego e au­

mentando a pobreza dos trabalhadores como uma bola de neve.

Essa situação ainda provoca efeitos de natureza econômica e políti­

ca muito sérios.

Sob o ponto de vista econômico, há perda na qualidade da produção (o trabalhador está no trabalho já pensando na futura reclamação trabalhista que moverá em face de seu atual empregador e não possui qualificação — problema gerado pela falência do sistema educacional); e menor circulação da moeda, com consequente diminuição do consumo (o trabalhador é o con­

sumidor da produção, mas como ganha pouco, consome pouco, a produção não escoa e diminui o lucro, novamente o resultado é aumento do desempre­

go e mais desvalorização do trabalho, para manutenção do lucro). Videexem­

plo da Mercedes-Benz, cuja fábrica foi recentemente instalada em Juiz de

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F o r a / M G (mais precisamente e m janeiro deste ano). A referida empresa, por

óbvio, veio produzir n o Brasil para obter lucro e para tanto tinha a s e u favor

m ã o - d e - o b r a barata, isenção fiscal e u m m e r c a d o c o n s u m i d o r pretensamente promissor. M a s , a realidade lhe traiu. O m e r c a d o s i m plesmente n ã o absor­

veu, n a quantidade esperada, o produto posto à venda, devido o s e u preço

elevado, a p e s a r d a m ã o - d e - o b r a barata e d a isenção fiscal. Agora, cerca d e 1 0 m e s e s depois d e s u a instalação, a M e r c e d e s já anuncia a dispensa d e 1 5 0 e m p r e g a d o s , c o m previsão d e m a i s dispensas até o final d o ano.

S o b o prisma político, o s trabalhadores — o u a s p e s s o a s q u e e s f ã o à procura d e trabalho — a c a b a m considerando q u e o trabalho q u e lhes é d a d o é u m a esmola, p e r d e n d o p l e n a m e n t e a consciência d e s u a dignida­

de, e n ã o s e identificam m a i s c o m o cidadãos. C o n s e q u e n t e m e n t e , a classe trabalhadora s e despolitiza, c o m nítidos efeitos perversos p a r a a d e m o c r a ­ cia (não h á u m a oposição política, c o m apoio popular, c a p a z d e fazer resis­

tência a o bloco dominante).

Isso tudo provoca, e t e m provocado, basta olhar à n o s s a volta, a u ­ m e n t o d a conflitualidade (especialmente n a esfera trabalhista), a u m e n t o d a criminalidade, p e r d a d e valores éticos e principalmente morais. N u m a s o c i e d a d e o n d e o trabalho n ã o vale nada, o “jeito” é buscar “s e d a r b e m ”, e n g a j a n d o - s e e m a l g u m c ambalacho.

H á , c o n s e q u e n t e m e n t e , o enfraquecimento d a n a ç ã o e o esfacela­

m e n t o d o próprio Estado. Dissemina-se a corrupção, d e s t r o e m - s e a s insti­

tuições, d espreza-se o direito. Vive-se u m a situação d e q u a s e guerra civil

basta ler o s jornais.

E m t e r m o s trabalhistas, o que se instaura em nossa sociedade é uma

c o m p e t i ç ã o "darwinista” (o “salve-se quem puder”), que nos conduz todos,

s e m exceção, cada vez mais para o fundo do poço.

É preciso alterar o rumo dessa história, urgentemente. E, devemos fazer isso enquanto é tempo. Enquanto o Brasil tenha algo que seja caro para o capital, qual seja, um elevado número de consumidores. Quando a miséria aumentar mais, nenhuma alteração será possível— e estamos bem perto disso — e a fuga de capital estrangeiro e das empresas estrangeiras, que se está tentando evitar com tais mecanismos de flexibilização do direito do trabalho, acabará ocorrendo, aí sim, de forma irreversível.

É neste ponto que advirto para a responsabilidade que tomba sobre os ombros dos operadores do direito (doutrinadores e juízes, que repre­

sentam uma elite que tem o privilégio de pensar, pois em nossa sociedade pensar é um privilégio). A sua responsabilidade — a nossa responsabilida­

de — é muito grande, pois, no fundo, são os doutrinadores que criam o direito, pois o direito é um dado cultural, que se constrói por ato de inteli­

gência. O direito não é uma inexorabilidade que se instala entre os ho­

mens. Trata-se de resultado da vontade humana.

Exemplificando: se há dois anos atrás tivéssemos dito — e tivemos oportunidade para isso — que a Convenção n. 158 da OIT estava vigente em nosso ordenamento, teriamos evitado que a lógica do desemprego se intensificasse de lá para cá.

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Não o fizemos, e o que se verificou? Verificou-se que logo em segui­

da, recordo-me bem, a Fábrica da Ford, em Taubaté, dispensou 1.500 em­

pregados e o seu representante disse na TV, com a maior cara lavada: “a Ford não volta atrás". E o que o ordenamento jurídico previa quanto a isso?

Nada.

Mas, não se parou por af. Mais tarde, enquanto se anunciava a trami­

tação no Congresso Nacional de um projeto de lei que criava uma nova modalidade de contratação, a do contrato provisório, que reduzia ainda mais os direitos trabalhistas (verbas rescisórias e FGTS), os doutrinadores em- basavam, juridicamente, a idéia. O resultado concreto foi o de que, na ex­

pectativa do advento da nova lei, as montadoras, e muitas outras empre­

sas, dispensaram um número enorme de empregados.

No momento atual, ao invés de estarmos ainda fomentando essa ló­

gica — que me parece extremamente perversa — adotando ainda o discurso de que o direito do trabalho está em descompasso com seu tempo (o que não deixa de ser fundamento para a flexibilização espúria, pois mesmo as boas idéias podem ser utilizadas para fins maléficos), devemos pensar em como tornar o direito do trabalho mais rígido, para fazer frente aos avanços ilimitados dos interesses do capital, principalmente para proteção daquilo que me parece essencial, qual seja, a manutenção do emprego, possibili­

tando, a partir disso, então, que se aparem as arestas que eventualmente o direito do trabalho possa ter (o que não me parece real, mas em todo caso...).

Devemos retomar o dado histórico do direito do trabalho, para demonstrar a importância do direito do trabalho, pois a realidade de um mundo capita­

lista sem o direito do trabalho já se conheceu. Devemos, em razão disso, revitalizar os princípios do direito do trabalho e destacar, principalmente, a sua função primordial, que é a da distribuição de renda. Não devemos, pois, alimentar a lógica do desemprego impregnada na teoria da flexibiliza­

ção, vez que isso nos conduz a um buraco sem fundo. Uma flexibilização hoje não representa melhoria na economia e acaba significando o requeri­

mento de uma nova flexibilização amanhã. Com efeito, já se acena para a extinção da multa de 40% sobre o FGTS e até tramita no Congresso uma proposta de Emenda Constitucional, que possibilita a redução de todo e qualquer direito trabalhista por negociação coletiva, o que, sem a menor dúvida, atende apenas a interesses econômicos e alimenta ainda mais a lógica do desemprego, provocando mais desvalorização para o trabalho.

Em suma, olhando para a realidade que está à nossa volta, não vejo nenhuma alteração substancial nas relações de trabalho que pudesse jus­

tificar o caminho que se tem tentado impor ao direito do trabalho. Diz-se que o trabalho formal acabou, mas o que vejo são pessoas trabalhando em jornada extraordinária e outras trabalhando com todas as características de uma relação de emprego, sem a respectiva anotação da CTPS. Diz-se que no futuro o homem terá tempo para sobrelevar-se no ócio, e o que vejo é que não haverá futuro para 4/5 da população mundial, que morrerá de fome. Diz-se que não há dinheiro para sustentar o direito dos trabalhado­

res, previsto na CLT, e o que vejo são empresas gastando grandes quanti­

as para contestarem reclamações de aviso prévio.

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Nem mesmo a teoria dos limites do poder econômico justifica o cami­

nho que nos tem sido imposto, pois os limites humanos são estabelecidos por nossa consciência, É por isso que, mais do que uma crise econômica, vivenciamos a perversidade de uma crise de natureza ideológica.

E nem se diga que essa é uma visão sociológica, não alcançada pelo direito, pois a própria Constituição Federal fixou como princípio fundamen­

tal da República Federativa do Brasil, a “dignidade da pessoa humana” e “o valor social do trabalho” (art. 1B). Mesmo a possibilidade de flexibilização, mediante a via da negociação coletiva, criada pelo art. 7® da Constituição, pode ser afastada, juridicamente, condicionando-se a eficácia de tal pre­

ceito ao implemento das condições reais necessárias para que com o pre­

texto da flexibilização simplesmente não se eliminem os direitos dos traba­

lhadores, pois a própria Constituição fixou o parâmetro ideal a ser seguido para tanto, qual seja, a regra do inciso I, do mesmo artigo 7®, "proteção contra dispensa arbitrária ou sem justa causa”. A eficácia desta última nor­

ma não é plena, mas, por certo, enuncia um valor, que deve ter relevância na formação do sistema jurídico. A lei complementar não foi editada, mas a inércia legislativa não pode negar a eficácia de um preceito valorativo fixa­

do pela constituinte. Essa visão pode, até mesmo, afastar a constituciona- lidade de todas as normas infraconstitucionais criadas para eliminar direi­

tos trabalhistas, enquanto a regra constitucional da proteção contra dis­

pensa arbitrária não for implementada.

Muitos outros aspectos jurídicos podem ser levantados, como forma de resistência à precarização das relações de trabalho, tais como: a proibi­

ção de trabalho em jornada extraordinária (mediante ação civil pública); o maior rigor na interpretação das regras de segurança e medicina do traba­

lho, impondo o pagamento de adicional de insalubridade com base no valor do salário contratual e não sobre o salário mínimo; a cumulação dos adicio­

nais de insalubridade e de periculosidade quando presentes os dois riscos (é importante ressaltar que os acidentes do trabalho no Brasil matam mais pessoas que em muitas guerras e o que o custo econômico com os aciden­

tados é bastante elevado); o reconhecimento da solidariedade das empre­

sas tomadoras dos serviços, nos casos de terceirização, considerada váli­

da apenas nas hipóteses restritas de trabalho especializado por tempo determinado; a interpretação restritiva para as modalidades de contrata­

ção por tempo determinado.

Essas são mudanças que, efetivamente, poderiam dar novos rumos ao direito do trabalho, recuperando a sua função de preservar a dignidade do trabalhador e de ser um importante fator de realização de justiça social.

Mas, não á propósito, neste momento, discutir a fundo essas propos­

tas, o que se está querendo demonstrar, concretamente, é que a responsa­

bilidade dos cultores do direito não pode ser descartada no que se refere à realidade que está sendo construída no mundo do trabalho. Dizer que o direito se constrói pelos “atores sociais" e esperar que alguma alteração dessa situação venha da sociedade é fechar os olhos para a realidade. No Brasil, a miséria é cada vez mais intensa e as pessoas à procura de traba­

lho estão em real estado de necessidade. Esperar que dessas pessoas

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a d v e n h a u m a r e a ç ã o política para a reconstrução d o direito d o trabalho é o m e s m o q u e dizer q u e o s miseráveis s ã o o s únicos culpados p o r s u a m i s é ­ ria (a e x e m p l o d o q u e dizia Malthus: o p o b r e é o culpado p o r s u a pobreza, afinal ele s e reproduz muito). C a b e lembrar, o surgimento d o direito d o tra­

balho, ainda q u e identificado c o m a luta d o s trabalhadores por m e l h o r e s c o n d i ç õ e s d e trabalho, s ó foi possível pela consciência d o E s t a d o capitalis­

ta d e q u e p a r a sobreviver, diante d a a m e a ç a d o m a r x i s m o e d o socialismo, deveria criar n o r m a s d e proteção social ( n a s c e n d o o E s t a d o d o B e m - E s ­ tar). Hoje, s e m a a m e a ç a política d o E s t a d o socialista, n ã o h á interesse d o capital e m impor-se limites. S e o limite n ã o for imposto pelo direito social, n ã o h a v e r á limite. E c a b e a q u e m constrói o direito revitalizar a f u n ç ã o distributiva d o direito social d o trabalho, o q u e pressupõe, d e certa forma, a s s u m i r u m a postura "antimodernista”, o q u e p o d e ser m a l visto diante d o s e n s o c o m u m . É importante afastar, d e u m a v e z por todas, a perversa idéia q u e tenta n o s c o n v e n c e r d e q u e é a p o b r e z a d o s trabalhadores q u e vai resolver o s p r o b l e m a s e c o n ô m i c o s d o país.

Jundiaí, fevereiro d e 2000.

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