ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING
PROGRAMA DE MESTRADO E DOUTORADO EM GESTÃO INTERNACIONAL
NEUSA SANTOS DE SOUZA NUNES
DESINVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO DAS
EMPRESAS MULTINACIONAIS DE SANEAMENTO NA AMÉRICA DO SUL
SÃO PAULO 2018
NEUSA SANTOS DE SOUZA NUNES
DESINVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO DAS
EMPRESAS MULTINACIONAIS DE SANEAMENTO NA AMÉRICA DO SUL
Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do título de DOUTORA em Administração, com ênfase em Gestão Internacional, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM.
Orientador: Prof. Dr. Frederico Araújo Turolla
SÃO PAULO 2018
FICHA CATALOGRÁFICA
FOLHA DE APROVAÇÃO
NEUSA SANTOS DE SOUZA NUNES
DESINVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO DAS
EMPRESAS MULTINACIONAIS DE SANEAMENTO NA AMÉRICA DO SUL
Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do título de DOUTORA em Administração de Empresas com ênfase em Gestão Internacional pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM.
Aprovado em: ___/____/ 2018.
BANCA EXAMINADORA
1. Presidente da banca e orientador: Prof. Dr. Frederico Araújo Turolla
ESPM | Escola Superior de Propaganda e Marketing Ass____________________________________
2. Membro interno: Prof. Dr. Ilan Avrichir
ESPM | Escola Superior de Propaganda e Marketing Ass____________________________________
3. Membro interno: Prof. Dr. Mário Henrique Ogasawara
ESPM | Escola Superior de Propaganda e Marketing Ass____________________________________
4. Membro externo: Profa. Dra. Fernanda Esperidião
UFS | Universidade Federal de Sergipe Ass____________________________________
5. Membro externo: Prof. Dr. Marco Antonio Jorge
UFS | Universidade Federal de Sergipe Ass____________________________________
Ao Ivanil Nunes, meu marido, e às minhas filhas, Estela e Estéfani.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao meu orientador, Professor Fred Turolla, pela atenção durante o desenvolvimento deste trabalho. Agradeço aos professores da banca, Rodrigo Bandeira de Mello e Mário Osagawa pela qualificação dessa tese. Aos professores Fernanda Esperidião, Ilan Avrichir, Marco Antonio Jorge e Mário Osagawara disposição em contribuir com meu trabalho.
Especialmente, agradeço ao Prof. Ilan, por quem tenho muito carinho e admiração, por mais esta última banca – prometo. Agradeço à ESPM, pela bolsa de estudos e a Secretaria do PMDGI na figura da Jo Andrade Marques de Melo. Aos meus amigos do doutorado, Aldo Brunhara, Fábio Câmara, Marcello Monteiro e Adriana Camargo. Agradeço também ao Gabriel Vouga, à Paulette Siekierski e ao Guto Griecco, que leram um pouco dessa tese. Agradeço à Rafaela Cordeiro e ao Dennys Eduardo Rossetto que me ajudaram a estilizar as tabelas e figuras.
Agradeço a minha família, por tolerar tudo isso e ainda me incentivar. Hhashtag #inesquecível, para todos.
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo propor um modelo conceitual dos fatores institucionais que influenciam no processo de desinvestimento direto estrangeiro de empresas do setor de saneamento básico (abastecimento de água e coleta e tratamento de esgotos) no âmbito sul- americano, em especial os casos da Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia e Uruguai. Este tema se mostra relevante, pois a América do Sul foi uma das regiões mais afetadas pelo cancelamento de contratos de parceria pública-privada em infraestrutura ao longo de 30 anos. Como foco principal analisaram-se os contratos de parcerias público-privadas (PPP), com participação do setor privado estrangeiro, nos quais o parceiro privado internacional cancelou, de alguma forma, sua participação, no período entre 1990 e 2010. Para alcance do objetivo proposto, optou-se pelo método de estudo de caso múltiplo estruturado por meio de análise documental e entrevistas. Os casos estudados mostraram-se relevantes, pois diversos países sul-americanos engajaram em estratégias de modernização de suas economias recebendo aportes substanciais de investimento direto estrangeiro, mas houve saída maciça desses investidores. Em particular, este trabalho propõe que a saída de três empresas (Agbar, Veolia e Suez) de suas operações em países sulamericanos (Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia e Uruguai), está relacionada a fatores comuns que incluem a regulamentação ex post da concessão e a renegociação contratual.
Palavras-chave: Desinvestimento Direto Estrangeiro; Estratégia; Gestão internacional;
Infraestrutura; Parceria Pública-Privada.
ABSTRACT
This paper aims to propose a conceptual model of the institutional factors that influence the foreign direct divestment of companies in the basic sanitation sector (water supply, collection and sewage treatment) in Latin America, particularly in Argentina, Brazil, Bolivia, Colombia and Uruguay. This issue is relevant because South America was one of the regions most affected by the cancellation of public-private partnership agreements in infrastructure over the last 30 years. The focus was the public-private partnership (PPP) contracts, with participation of the foreign private sector, in which the international private partner somehow canceled its participation in the period between 1990 and 2010. To reach the objective proposed, we chose the multiple case study method structured through documentary analysis and interviews. The cases studied were relevant, since several South American countries engaged in strategies to modernize their economies receiving substantial direct foreign investment, but there was a massive exit from these investors. In particular, this paper proposes that the exit of three companies (Agbar, Veolia and Suez) from their operations in South American countries (Argentina, Brazil, Bolivia, Colombia and Uruguay) is related to common factors that include ex post regulation of the concession and contractual renegotiation.
Keywords: Foreign Direct Divestment; Strategy; International Management; Infrastructure;
Private Public Partnerships.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Cadeia produtiva do monopólio natural ... 21
Figura 2: Determinantes das Decisões de Desinvestimento ... 33
Figura 3: Modelo conceitual. ... 40
Figura 4: Nuvem de palavras. ... 64
Figura 5: Fatores de desinvestimento: tarifa e concessão... 74
Figura 6: Fatores de desinvestimento: concessão e regulação. ... 75
Figura 7: Fatores de desinvestimento: regulação e contrato. ... 77
Figura 8: Mapa do desinvestimento. ... 80
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Características do setor de saneamento e suas repercussões ... 20
Tabela 2: Características da decisão de desinvestimento doméstico ... 27
Tabela 3: Razões para o Desinvestimento Direto Estrangeiro ... 29
Tabela 4: Vantagens e Desvantagens da Concessão ... 35
Tabela 5: Metodologia de regulação de preços em saneamento básico ... 36
Tabela 6: Fatores que influenciam o DDE na indústria de saneamento ... 38
Tabela 7: Relação de contratos cancelados ... 39
Tabela 8: Desenvolvimento do estudo ... 43
Tabela 9: Categorias temáticas utilizadas no desenvolvimento do roteiro de entrevista ... 45
Tabela 10: Apresentação das empresas estudadas ... 46
Tabela 11: Fontes de dados ... 47
Tabela 12: Perfil dos Entrevistados ... 47
Tabela 13: Matriz de amarração ... 48
Tabela 14: Ranking das maiores multinacionais internacionalizadas ... 50
Tabela 15: Contratos de PPP encerrados antes do término na América Latina ... 52
Tabela 16: Perfil econômico e social da Argentina ... 55
Tabela 17: Perfil econômico e social da Bolívia ... 56
Tabela 18: Perfil econômico e social da Brasil ... 59
Tabela 19: Perfil econômico e social da Colômbia ... 60
Tabela 20: Perfil econômico e social do Uruguai ... 61
Tabela 21: Governança Regulatória ... 62
Tabela 22: Comparativo entre as entrevistas e a literatura ... 71
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ... 11
1.1 Tema ... 14
1.2 Setor investigado ... 16
1.3 Problema de pesquisa e objetivos ... 16
1.4 Contribuição ... 17
1.5 Delimitação do estudo ... 18
1.6 Estrutura da tese... 19
2. REFERENCIAL TEÓRICO DE INTERNACIONALIZAÇÃO ... 20
2.1 Ambiente Institucional ... 23
2.2 Desinvestimento Direto Estrangeiro ... 26
2.2.1 Desinvestimento em ambiente doméstico ... 27
2.2.2 Desinvestimento Direto Estrangeiro ... 28
2.2.3 Determinantes do Desinvestimento Direto Estrangeiro ... 31
2.2.4 O DDE na indústria de infraestrutura ... 34
2.2.5 Especificidades do DDE na indústria do saneamento ... 37
2.2.6 Modelo conceitual ... 40
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 41
3.1 Seleção dos casos e coleta de dados ... 46
3.2 Matriz de amarração ... 48
4. A ECONOMIA DA INDÚSTRIA DE SANEAMENTO ... 49
4.1 A indústria de água e esgoto (saneamento básico) ... 49
4.3 Ambiente Institucional e Econômico dos países com DDE ... 52
4.3.1 Argentina ... 55
4.3.2 Bolívia ... 56
4.3.2 Brasil ... 57
4.3.3 Colômbia ... 60
4.3.4 Uruguai ... 61
4.3.5 Governança Regulatória ... 61
5. RESULTADOS ... 64
5.1 Agbar ... 66
5.2 Suez ... 66
5.3 Veolia ... 68
5.4 Desinvestimento de Agbar, Suez e Veolia ... 68
6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 73
6.1 Tarifa e concessão ... 73
6.2 Concessão e marco regulatório ... 75
6.3 Marco regulatório e contrato ... 76
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 81
8. REFERÊNCIAS ... 84
1. INTRODUÇÃO
O desinvestimento direto estrangeiro (DDE) tornou-se um aspecto integrante da estratégia global das empresas multinacionais (EMNs), mas continua sendo uma área negligenciada entre as academias internacionais de negócios e estratégia (BRAUER, 2006). O desinvestimento internacional é um fenômeno predominante e deve ser visto como parte integrante do processo de internacionalização. As decisões de desinvestimento internacional de uma empresa são influenciadas por sua imagem e identidade organizacional. No entanto, a teoria e a pesquisa sobre internacionalização têm sido centradas na diversificação, ou crescimento e expansão (Wan, Chen, Yiu, 2015). Sendo que não há uma abordagem mais holística para a internacionalização, que inclua o processo de desinvestimento internacional (Fletcher, 2001).
O DDE é amplamente praticado por EMNs de um número crescente de países em diversas economias anfitriãs (BRAUER, 2006).
O progresso adicional no desenvolvimento do conhecimento e compreensão do DDE exige a consideração das contribuições pioneiras de Jean J. Boddewyn para este assunto de crescente relevância estratégica (BRAUER, 2006). A pesquisa acadêmica sobre o comportamento de saída das empresas pode ser rastreada até o trabalho de desinvestimento estrangeiro por Boddewyn e Torneden (1973) e Gilmour (1973). Boddewyn e Torneden (1973) apontam amplas evidências sobre o crescimento do número de desinvestimentos de empresas multinacionais. O DDE é amplamente utilizado por EMNs envolvidas em todos os tipos de atividade industrial. O desinvestimento é visto como custoso, traumático, embaraçoso e é rejeitado pelos governos, trabalhadores e opinião pública - todos se ressentem, porque há impacto sobre o crescimento econômico, o nível de emprego e as relações entre capital e trabalho (Tornedon e Boddewyn, 1973). O processo de decisão e gerenciamento da DDE representa um dos grandes desafios para os executivos (BRAUER, 2006).
A explicação para o DDE de Boddewyn (1979) é principalmente financeira - ou seja, baixo desempenho. No entanto, uma dimensão estratégica está se tornando mais aparente à medida que algumas empresas se desfazem de subsidiárias que não se “encaixam” mesmo se forem lucrativas. Finalmente, os fatores organizacionais e pessoais afetam definitivamente o processo de tomada de decisão que leva ao desinvestimento. Em conclusão, o desinvestimento está se tornando parte do repertório das multinacionais. Fatores econômicos encabeçam as explicações de desinvestimento, e isto pode estar relacionado ao prolongado baixo desempenho da subsidiária ou divisão, a incapacidade das EMNs de sustentarem suas perdas e a falta de capital para modernização ou expansão (BODDEWYN,1979).
A pesquisa sobre internacionalização trata o desinvestimento internacional principalmente como uma imagem espelhada da expansão internacional (Brauer, 2006), resultado do baixo nível de desempenho e / ou operações estrangeiras que interrompe o crescimento e a expansão das operações internacionais (Berry, 2010). Portanto, a taxa de saída das empresas geralmente é positivamente relacionada à taxa de entrada dentro de uma indústria (Alvareze López 2008).
Saída refere-se a uma decisão de longo prazo de deixar o mercado, nos termos de desinvestimento e alienação que também foram usados de forma intercambiável em pesquisas anteriores sobre a saída (BRAUER, 2006). A literatura existente sobre DDE usa alguns sinônimos para o fenômeno, que sejam: retirada, desinvestimento, alienação, disposição, abandono, retirada e devolução, que permite supor que o desinvestimento internacional é percebido como o lado "sombrio" da internacionalização (WAN et al,2015).
O fenômeno do desinvestimento internacional é geralmente entendido como a redução das operações internacionais de uma empresa (Benito e Welch, 1997; Boddewyn, 1979; Chng e Pangarkar, 2000). No entanto, é fato que as empresas, em média, vendem cerca de metade de seus negócios anteriormente adquiridos internacionalmente ou de outra forma (Kaplan e Weisbach, 1992; Porter, 1987). Para outros pesquisadores o desinvestimento internacional é uma estratégia corporativa proposital que faz parte das estratégias de expansão global de uma empresa (CALOF E BEAMISH, 1995; FLETCHER, 2001; WELCH E LUOSTARINEN, 1988).
Entre as explicações de DDE duas perspectivas dominam: a) econômica e racional e b) teoria da agência (Hoskisson, Johnson e Moesel, 1994). Usando modelos econômicos, os estudiosos consideram que as atividades de saída das empresas são respostas amplamente racionais a mudanças nas circunstâncias econômicas, como a deterioração da atratividade dos negócios de um país anfitrião. Embora possa ser economicamente razoável calcular o risco e o retorno, as empresas nem sempre consideram esses cálculos antes de descartar unidades de baixo desempenho (Decker e Mellewigt, 2007; Shimizu e Hitt, 2005), os gestores manterão as unidades de baixo desempenho a fim de colher os últimos benefícios e maximizar o lucro a curto prazo (Cho e Cohen, 1997). A teoria da agência afirma que existem conflitos de objetivos entre os gerentes e a organização, os gerentes são sempre egoístas (Eisenhardt, 1989). Isso revela que o interesse pessoal gerencial desempenha um papel importante no pensamento organizacional (Perrow 1986), e se revelam ofertas de incerteza uma plataforma para o comportamento ao tomar uma decisão de saída.
Nesta tese se pesquisa o DDE em um setor de infraestrutura monopolizado, de saneamento básico – abastecimento de água e esgotamento sanitário - entendido como um conjunto de atividades que compreendem os procedimentos adotados numa determinada região para proporcionar uma condição higiênica e saudável para os habitantes (Madeira, 2010). No Brasil, segundo a Lei 11.445, promulgada em 5 de janeiro de 2007, que estabeleceu as diretrizes nacionais e definiu um marco regulatório para o setor, o conceito de saneamento básico está exposto o no artigo 3, inciso I, como um conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de: abastecimento de água potável; esgotamento sanitário; limpeza urbana e drenagem e manejo das águas pluviais urbanas (BRASIL, 2007), sendo que as duas primeiras atividades são o objeto desta tese.
O modo de entrada na indústria de saneamento básico reflete o previsto em Buckley e Casson (1976) e Williamson (1985). Nesta indústria, a necessidade de diluir custos e ganhar escala impulsiona a firma para realização de grandes investimentos no exterior que ocorre predominantemente com aquisição e fusão. A firma internacional é guiada pela janela de oportunidade criada no ambiente institucional do país de destino. Para tanto, a variável tamanho da firma é determinante na sua capacidade de assumir riscos no exterior (SARKAR, CAVUSGIL E AULAKH, 1999).
Janela de oportunidade é o termo usado para designar os períodos, geralmente limitados, em que se oferece a participação privada a operação de negócios de infraestrutura. É frequente, em vários países, que tais oportunidades estejam associadas a períodos de reforma institucional, privatização ou movimentos de desregulamentação, durante o período de poucos anos, relacionados a uma agenda de uma administração, nacional ou subnacional. A literatura evidencia, entretanto, que o custo político deste tipo de reforma no setor de infraestrutura é elevado, de forma que é frequente que as reformas sejam interrompidas e, até mesmo, que haja rupturas ou renegociações (SARKAR, CAVUSGIL E AULAKH, 1999; GUASCH, 2004;
GUASCH, LAFFONT AND STRAUB, 2007).
As janelas de oportunidade nos países da América do Sul coincidiram com um movimento econômico liberalizante, que permitiu a participação de EMNs do segmento de saneamento no processo de licitação aberto nos países: Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia e Uruguai, estudados nesta tese. A licitação pública é um procedimento administrativo que tem como objetivo apontar o melhor contrato, a partir da observação das propostas apresentadas, de acordo com o princípio da isonomia. De tal modo que a licitação pública conforme o princípio da isonomia, confere lisura às avenças públicas, pois que através dele se determina o teor de
tais negócios, com quem e em quais condições os mesmos serão efetivados. Em outros termos, a licitação visa à obtenção do melhor preço, do melhor produto e do melhor fornecedor (DEMSETZ, 1968). O desenho do processo licitatório, por sua vez, é um elemento chave do ambiente institucional relevante à entrada em serviços públicos como saneamento (Ducci,2007;
Guasch et al, 2005). Nos diversos países e até mesmo dentro dos países, o desenho e a operacionalização das licitações varia sensivelmente em termos da tecnicidade, grau de transparência, entre outros (YESCOMBE, 2011).
1.1 Tema
O tema desta tese é desinvestimento direto estrangeiro (DDE) em setor regulado de água e saneamento básico. A partir de 1990, empresas multinacionais (EMNs) investiram na América do Sul, após reforma econômica liberalizante ocorrida naqueles países, por meio de concessão e privatização. No entanto, algumas destas empresas saíram da operação com o contrato em andamento, principalmente na Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia e Uruguai, caracterizando o DDE. A América do Sul foi a região mais afetada pelos cancelamentos dos contratos de parcerias público-privadas em infraestrutura, no período de 1990 a 2010 (WORLD BANK, 2014).
O DDE é caracterizado como a decisão de uma empresa em sair de um contrato em andamento em um mercado externo (World Bank, 2014), e tem recebido atenção dos pesquisadores da área de negócios internacionais (Tornedon e Boddewyn, 1973; Gilmour ,1973; Boddewyn,1979; Spanhel e Johnson, 1982; Kaplan e Weisbach, 1992; Porter, 1987;
Hoskisson, Johnson e Moesel, 1994; Calof e Beamish,1995; Cho e Cohen,1997;Welch e Luostarinen,1998; Fletcher, 2001; Shimizu e Hitt,2005; Brauer, 2006; Duhaime e Grant, 2006;
Decker, Mellewigt, 2007; Berry, 2010; Tan e Sousa, 2015; Wan, Chen, Yiu, 2015) entre outros.
Especificamente, no Brasil, o fenômeno foi estudado por Ribeiro e Borini (2010) e Siqueira (2015). No primeiro caso, estudou-se uma multinacional brasileira (Petrobras) desinvestindo no exterior (Ribeiro e Borini, 2010), enquanto no segundo, Siqueira (2015) investigou o desinvestimento de multinacionais do setor de infraestrutura no Brasil. Ducci (2007) realizou um estudo sobre DDE na América do Sul, no qual identificaram-se 25 casos de saída de contratos em andamento em países como Argentina, Bolívia, Brasil, Uruguai e Venezuela, sendo que 7 (sete) destes casos ocorreram no Brasil. Guasch, Laffont e Straub (2005) estudaram 1000 (mil) concessões concedidas na América Latina e em países caribenhos
entre 1989 e 2000, abrangendo os setores de telecomunicações, energia, transporte e água, considerando-se isso a temática do DDE mostra-se relevante.
Para estudar o DDE é preciso contextualizar o investimento direto estrangeiro (IDE). IDE é uma estratégia de internacionalização, segundo a qual uma empresa estabelece presença física no exterior por meio da produção e da aquisição de ativos principais como capital, tecnologia, força de trabalho, terrenos, instalações industriais e equipamento (CAVUSGIL; KNIGHT;
RIESENBERGER, 2010). O IDE tem sido amplamente investigado na literatura de negócios internacionais. A abordagem de Penrose (1959) sobre os determinantes do IDE é a primeira grande contribuição sob o enfoque da Organização Industrial. Hymer (1976) apresenta uma nova leitura da teoria do IDE conhecida como teoria do poder de mercado que é resultante da criação de barreiras concorrenciais que, por sua vez, é diferenciada do investimento estrangeiro direto em portfólio. O argumento fundamental é que o IDE é consequência do crescimento da firma, ou seja, as firmas têm grande propensão para se expandir, e isso significa diversificação e penetração em novos mercados – sejam estes internos ou externos.
Os aspectos que levam uma empresa a investir em outros países têm sido investigados sob múltiplas perspectivas teóricas (BUCKLEY, 2017; ANDERSSON, 2000; WILLIAMSON, 1985; BUCKLEY; CASSON, 1976), considerando-se casos de diferentes mercados (BUCKLEY; CHENG; CLEGG; VOSS, 2018; ADAMS, 2009; BEVAN; ESTRIN, 2004;
ZHANG, 2001). Em particular, a teoria desenvolvida por Dunning (1980) explica a extensão, a forma e o padrão do investimento em outros países para desenvolver a produção da empresa.
A escolha pela localidade está baseada em três tipos de vantagens, identificadas pela sigla OLI (Ownership, Location e Internalization). As vantagens de propriedade do ownership specific advantages permitem que a empresa multinacional mantenha o domínio do recurso utilizado em outro país.
A internacionalização é geralmente definida como expansão através das fronteiras de regiões e países em diferentes localizações geográficas ou mercados (Geringer et al., 1989). De modo geral, a maioria dos estudos vê a internacionalização como uma estratégia para obter vantagem competitiva (Hitt, Hoskisson e Ireland, 1994) ou para explorar as oportunidades e imperfeições do mercado externo (Rugman e Verbeke, 2004). Além dos fatores relacionados ao desempenho, os fatores ambientais e específicos da empresa (por exemplo, globalização da indústria, diversificação de produtos e concorrência estrangeira nos mercados domésticos) apresentam uma mudança fundamental na concorrência baseada em estrangeiros que, por sua vez, afeta o grau e âmbito da internacionalização (WIERSEMA e BOWEN, 2008).
1.2 Setor investigado
A partir de 1990, ocorreu um aumento da participação do setor privado na indústria de infraestrutura, especialmente concentrado nos países em desenvolvimento da América Latina e subdesenvolvidos do continente africano (MADEIRA, 2002). Naquele período, predominou a orientação em vários dos maiores países da América Sul no sentido de privatizar empresas públicas e de estabelecer parcerias público-privadas (PPP) com o propósito de prestação de serviços públicos. Devido às reformas liberalizantes em diversos países da América do Sul, houve um importante fluxo de investimento direto estrangeiro (IDE) em atividades de infraestrutura (MADEIRA, 2002).
Especificamente, no setor de saneamento básico (abastecimento de água e coleta, e tratamento de esgotos), diversas empresas multinacionais prospectaram e efetivamente investiram em países do continente, em uma entrada relativamente concentrada no tempo, desafiando antigos incumbentes públicos que atuavam nos mercados locais. Entretanto, boa parte desses novos entrantes não permaneceu no mercado sul-americano. A partir do final da década de 1990, iniciou-se um movimento de saída de capitais desse setor, e a maior parte das multinacionais que entraram no mercado sul-americano deixaram suas operações no continente (GUASCH et al., 2005; DUCCI, 2007; WORLD BANK, 2014).
Entre os setores de infraestrutura, o setor de saneamento foi o mais atingido pelo desinvestimento (GUASCH et al., 2005). Em 2005, os projetos com participação privada chegavam a 37% dos compromissos de investimento, desde 1990. Esses projetos cancelados representaram 11% dos projetos de água com participação privada, o que sugere que os problemas afetaram, principalmente, os grandes projetos. A América do Sul liderou o recebimento deste tipo de investimento, e também obteve o maior volume de cancelamento (WORLD BANK, 2014). Levando-se em consideração tais dados, esta pesquisa merece ser empreendida, pois permanece a lacuna sobre quais os fatores que levaram a esses cancelamentos de investimentos que são tipicamente orientados ao longo prazo.
1.3 Problema de pesquisa e objetivos
O problema de pesquisa que aqui se coloca é: como o ambiente institucional influencia a decisão de desinvestimento direto estrangeiro no setor de saneamento básico por multinacionais na América do Sul?
Esta questão ainda se desdobra nas seguintes questões complementares:
1) Em qual medida a decisão política sobre o modo de regulação e o estabelecimento de preços máximos (price cap) na região representa uma fragilidade que induz a renegociação e consequente rompimento contratual?
2) Quais as diferenças entre os ambientes institucionais do ente federado que permite a uma mesma operadora cumprir o contrato em uma unidade relevante no país e desinvestir em outra?
O objetivo geral que norteia este trabalho é identificar aspectos que relacionem as características do ambiente institucional ao cancelamento de contratos de IDE no setor de infraestrutura, de forma a acrescentar conhecimento para o desenvolvimento de uma teoria específica sobre DDE na indústria de saneamento básico.
Os objetivos específicos são:
1) Caracterizar a relevância da decisão governamental de impor preços máximos nessa indústria;
2) Diferenciar os entes federados de acordo com os ambientes institucionais construídos a partir das variáveis sociais descritas por Guasch et al. (2005).
1.4 Contribuição
A contribuição deste trabalho se volta para a compreensão do fenômeno da internacionalização de um setor regulado de infraestrutura no aspecto específico das decisões de desinvestimento direto estrangeiro (DDE). No caso, o setor de saneamento é um dos setores de infraestrutura marcados por falhas de mercado mais intensas, em particular, o caráter de monopólio natural (BAUMOL, 1986; BRAEUTIGAM, 1989; BONARDI, 2004; TUROLLA, 2007).
Inicialmente, a literatura de DDE foi abordada por autores como Boddewyn (1973,1979, 2010) discutindo se esta seria um espelho da literatura de IDE. O trabalho seminal de Sarkar, Cavusgil e Aulakh (1999), por sua vez, define que o setor de telecomunicações, um setor regulado de infraestrutura marcado por falhas de mercado, merece uma abordagem específica no tocante aos determinantes do seu IDE. Outros setores regulados de infraestrutura vão na mesma linha por serem marcados por falhas de mercado intensas, como o monopólio natural (TUROLLA, 2013).
Dessa forma, por meio de um paralelismo entre o DDE e o IDE que, segundo Sarkar, Cavusgil e Aulakh (1999), possui características específicas, pode-se avaliar que o DDE em
setores regulados de infraestrutura também apresenta características idiossincráticas que justificam a presente investigação.
A indústria de saneamento básico caracteriza-se, fundamentalmente, pela presença de elevados custos fixos em capital específico que produzem um dilema econômico entre eficiência produtiva e alocativa (BESANKO; DRANONE; SHANLEY; SCHAEFFER, 2006).
O estudo do DDE em ambiente regulado agrega idiossincrasias típicas deste setor, como aquelas relacionadas às questões sociais e políticas: a) consulta civil para a privatização – plebiscito; b) limitada transparência técnica – contratos com assimetria informacional; c) concessão versus privatização e questões econômicas, sendo estas: ajuste tarifário versus subsídios; o alto custo das primeiras instalações; crises econômicas; regulação; idiossincrasias essas que só cabem a setores regulados, sendo que essas características particulares do setor de infraestrutura são relevantes para a análise do DDE.
Finalmente contribui-se ao indicar que as janelas de oportunidade surgidas simultaneamente nos países da América do Sul estimularam a tomada de decisão da EMNs, que por sua vez tinham determinado em seus planejamentos estratégicos a expansão para países emergentes, a participarem dos processos de licitação. A janela de oportunidade que antecede ao processo de licitação culmina com a seleção da firma internacional, que por sua vez, só conhecerá o contrato completo após ter vencido a licitação. A pesquisa mostrou que a firma internacional recebe um contrato com variadas assimetrias informacionais que só somente poderão ser solucionadas com renegociação e regulamentação, sendo que ambas as alternativas são ex post, observou-se que devido a isso o contrato passa exibir desequilíbrio econômico e consequente aumento do nível de exposição ao risco destas firmas nas economias emergentes.
Como as firmas internacionais têm ações negociadas nas bolsas mundiais, não toleram a rejeição do mercado. Este cenário foi inviabilizante para a operação e resultou na saída antecipada das EMNs dos países analisados.
1.5 Delimitação do estudo
A delimitação do tema deste trabalho é o DDE ocorrido no período entre 1990 e 2010, no setor de saneamento básico, considerando a operação de IDE das três maiores EMNs do setor, sendo elas: Agbar, Suez e Veolia (PINSENT MASONS, 2010) nos países da América do Sul. O objeto de pesquisa são os contratos de PPP, com participação do setor privado estrangeiro, nos quais o parceiro privado internacional cancelou sua participação de alguma forma, no período em questão. Tratam-se de contratos de longo prazo, nos quais a saída do investidor pode se dar por
meio da venda de sua participação ou do cancelamento do próprio contrato (WORLD BANK, 2014).
De maneira geral, a saída de uma empresa multinacional de um contrato de parceria pública-privada (PPP) em andamento pode ser denominada desinvestimento direto estrangeiro (WORLD BANK, 2014). Dessa forma, a análise desta tese diz respeito aos distratos nessa indústria. Os dados sobre os contratos cancelados são secundários e retirados dos documentos elaborado pelo World Bank (2013, 2014) e pelos governos nacionais e regionais como o Ministério das Cidades (2008).
1.6 Estrutura da tese
Além desta primeira seção – Introdução –, a tese divide-se em: Referencial Teórico de Internacionalização fundamentado no Novo Institucionalismo Econômico; Procedimentos Metodológicos; Resultados; Discussão dos Resultados, Considerações Finais e Referências.
2. REFERENCIAL TEÓRICO DE INTERNACIONALIZAÇÃO
Nesta seção se analisa o setor de saneamento básico, discutindo as características do setor que criam a necessidade de uma regulação eficiente para estimular a participação privada e, ao mesmo tempo, alcançar a universalização do acesso a serviços de qualidade, que são fundamentia para o bem-estar da população. O setor de saneamento básico é uma atividade econômica tipicamente monopolista, monopólio este exercido pelo Estado, ao qual cabe delegar às empresas o direito de explorar estes serviços, por meio de concessões públicas ou de outras formas de parceria público-privada. Esta indústria oferece um serviço com alto grau de essencialidade, e apresenta uma demanda tipicamente inelástica com relação ao preço e às externalidades (MADEIRA, 2002). O Tabela a seguir caracteriza o setor de saneamento.
Tabela 1: Características do setor de saneamento e suas repercussões
Características Físicas
Maioria dos ativos (redes de água e esgoto) enterrados.
Difícil determinar o estado de conservação; custo de manutenção elevado; e complexidades para determinação de vazamentos nas tubulações.
Mudança lenta no padrão.
Poucos ganhos de eficiência mediante avanços tecnológicos e ativos com vida útil prolongada
Qualidade dos produtos de complexa verificação
pelo usuário.
Necessidade de estrutura adequada para monitoramento da qualidade de produtos e serviços ofertados pelas concessionárias.
Redes integradas em aglomerados urbanos.
Envolvimento de mais de um ente federado na gestão dos serviços e expansão de infraestrutura associada ao planejamento urbano.
Essencialidade no uso e consumo dos
produtos (água e esgoto).
Atendimento independente da capacidade de pagamento do usuário e geração de externalidades positivas e engativos para a saúde pública, meio ambiente, recursos hídricos, entre outros.
Características econômicas
Custo fixo elevado Pouca flexibilidade para a periodização dos investimentos Ativos específicos de
longa maturação.
Monopólio ntural, inexistência de usos alternativos e baixo valor de revenda;
possibilidade de remota saída das concessionárias do mercado (não constestável); e pouca atratividade para investimentos.
Assimétria de informações.
Demais atores do setor dependem da informação técnica e econômico- financeira disponibilizada pelas concessionárias.
Demanda inelástica. Possibilidade de extração de rendas significativas pelo prestador de serviços.
Economia de escala. Viabilidade da prestação de serviço por uma só empresa.
Economia de escopo. Custos comum na operação de serviços de água e esgoto e tratamento de esgotos, tornando mais viável a prestação de serviços por uma única empresa.
Fonte: Reproduzido de Galvão e Paganini (2009)
O investimento neste setor é elevado, inclusive por demandar constantes investimentos em obras de melhoramento (TUROLLA, 2007). Devido a isso, os contratos de parceria pública- privada são tipicamente de longo prazo, com um grande volume de ativos específicos que caracterizam um monopólio natural (BAUMOL, 1986; BRAEUTIGAM, 1989; BONARDI, 2004; GUASCH et al., 2005).
Serviços como abastecimento de água, gás, eletricidade, telecomunicações, e alguns modais de transporte como os trilhos, possuem características de monopólio natural, decorrentes de economia de escala e escopo. Devido a tais características, o desenvolvimento de concorrência é improvável, e se houver tais particularidades, não terá característica econômica dada a duplicação de ativos. O avanço tecnológico, especificamente no setor de telecomunicações, tem eliminado alguma das características de monopólio natural, como consequência a privatização nestes setores conduz a monopólios privados que apontam para externalidades como lucros extraordinários, redução do bem-estar do consumidor – dada a redução de escolhas e preços monopólicos. Para se prevenir, o governo deve estabelecer forte capacidade regulatória (KIRKPATRICK; PARKER; ZHANG, 2006). A figura a seguir apresenta as etapas da cadeia produtiva do setor de saneamento, destacando a presença de monopólio natural.
Figura 1: Cadeia produtiva do monopólio natural Fonte: Reproduzido de Galvão e Paganini (2009)
As características de monopólio natural resultam que o custo total mínimo da indústria seja alcançado por uma única firma. Neste contexto, é necessário mitigar qualquer tipo de abuso de poder, seja no formato preços elevados, serviços de má qualidade, não prestação de serviços (Madeira,2010). Esta condição impõe regulação independetemente de a prestação de serviço ser pública ou privada Groom, Halpern, Ehrhardt (2006). As regras regulatórias policiam receitas e custos de produção de serviços públicos privatizados, por isso protegem consumidores da exploração monopólica, enquanto também apontam um compromisso do governo com os investidores, pois se a credibilidade regulatória é fraca ou ausente, decisões de investimento são prejudicadas, devido às falhas de mercado (KIRKPATRICK et al., 2006;
TIROLE, 2015).
A falha de mercado mais relevante é o poder de mercado, ou seja, apenas uma empresa oferta àquele bem ou serviço. Neste segmento, sob o ponto de vista econômico, a concorrência é ineficaz, porque demandaria duplicação de redes, nem mesmo a desverticalização do setor é
indicada (MADEIRA, 2000). Para Jouravlev (2004), e Solane e Jouravlev (2006), o setor é integrado verticalmente; dada a impossibilidade de competição em qualquer fase do processo de abastecimento e esgotamento, a integração permite as economias de escopo e a impossibilidade de tarifar os processos do serviço por partes.
Em setores com essa falha de mercado, a existência de monopólio é quase uma regra.
Dado os altos investimentos iniciais, e o longo prazo para o payback, a viabilidade econômica ocorre por meio de economias de escala e escopo. Para tanto, a indústria atinge o custo total mínimo sendo a única firma no mercado, formando assim um monopólio natural que se caracteriza por custo fixo elevado e custo marginal baixo (BESANKO et al., 2005).
Nessa circunstância, regular para minimizar a perda de eficiência do monopólio induz ao prejuízo, situação caracterizada pelo fato da intersecção da curva de demanda com a curva de custo marginal se dar abaixo do custo médio. Neste caso, impor um preço de concorrência resulta em lucro negativo. Essa falha de mercado é atenuada por uma agência reguladora que impõe um preço que é igual ao custo médio, apesar da dificuldade de definir os custos de um monopólio (BESANKO et al., 2005).
Turolla (2002) destaca que as externalidades positivas e negativas formam um segundo conjunto de falhas de mercado associado ao setor de saneamento básico, incidindo sobre o meio ambiente, recursos hídricos e saúde pública. A regulação técnica sobre essas externalidades compreende um pacote com requisitos mínimos para garantir regularidade de fornecimento e qualidade da água para a população, incluindo o descarte de água servida, devidamente tratada com critérios ambientais reconhecidos.
As externalidades positivas mais comuns são: melhoria da saúde e qualidade de vida da população e a geração de empregos, a agregação de valor a outras atividades e setores, e o aumento da atividade econômica das empresas que fazem parte do fluxo desta cadeia de valor (MADEIRA, 2000). Complementa Turolla (2002) que a expansão da infraestrutura de saneamento deve ser considerada um meio de redução da pobreza, assim as externalidades positivas geradas pelas falhas de mercado do setor incidem principalmente sobre o bem-estar da parte da população mais pobre.
A assimetria informacional é mais uma característica do setor que se constitui em uma falha de mercado, e está relacionada às condutas comerciais e técnicas, referindo-se especialmente à dependência dos demais atores de informações técnica e econômica disponibilizadas pelas firmas do setor, exemplificada pela dificuldade de se obter um corpo
técnico com condições de identificar e medir adequadamente os custos de monopólio (MADEIRA, 2000) e/ou a impossibilidade de avaliação dos consumidores quanto à qualidade da água recebida e seu retorno ao ecossistema (TUROLLA, 2002).
As falhas de mercado devem ser atenuadas com a intervenção do Estado. Desde o Consenso de Washington, o papel do Estado intervencionista evoluiu para um modelo de intervenção na economia chamado regulação. Um sistema de regulação é necessário neste mercado para minimizar essas falhas de mercado. A utilização desse padrão de intervenção se justifica quando a indústria é um monopólio natural, sobre o qual se busca mitigar os riscos de cobranças abusivas, a má qualidade e uma prestação de serviços insuficiente (MADEIRA, 2000).
O tipo de regulação usual no setor se enquadra em dois modelos: 1) A tradição anglo- saxã que prevê uma agência governamental independente que regula a firma concessionária; e, 2) A tradição francesa ou por processos, formato no qual a relação entre o poder concedente e a concessionária é regida por contrato (MADEIRA, 2000; TUROLLA, 2000).
A regulação por agência implica que haverá supervisão ao cumprimento da legislação, aplicação de penas se couber, outorga de licenças e determinação de preços ou estrutura tarifária. A regulação por processos é uma modalidade que reflete a competição de mercado que ocorre com base em um marco legal adaptado às condições locais em contratos de prestação de serviços. Há um controle social exibido na eleição dos dirigentes que outorgam os contratos.
Neste formato, quando há transparência de informação, a tarifa e rentabilidade da empresa são estabelecidas pelo mercado, e, com isso, há menor exigência do setor público no processo (TUROLLA, 2002).
2.1 Ambiente Institucional
Duas abordagens se destacam em relação ao ambiente institucional, notadamente a sociológica e a econômica. Enquanto o ambiente institucional sociológico foca o processo por meio do qual as ações coletivas da sociedade e os valores são a base para o desenvolvimento e a manutenção do ambiente institucional na sociedade, o ambiente institucional econômico foca as implicações do institucionalismo sobre o comportamento do investimento, o funcionamento dos mercados e a geração de riquezas.
Segundo Scott (1995), o ambiente institucional é constituído por três domínios: o domínio regulatório, o normativo e o cognitivo. O domínio normativo, relacionado à cultura,
valores, normas e crença do país é o compartilhamento de entendimentos, significados ou lógicas de apropriação. Já o domínio cognitivo está relacionado à maneira como o outro internaliza as representações simbólicas em um ambiente; diz respeito, portanto, à estrutura cognitiva para interpretar e compreender o mundo (SCOTT, 1995).
O domínio regulatório representa o espaço de operação das empresas de acordo com normas e regras estabelecidas pelos atores relevantes tais como clientes, governo, organizações e público em geral, os quais definem o “padrão” para as estruturas e procedimentos (DIMAGGIO; POWELL, 1983; MEYER; ROWAN, 1977).
A nova economia institucional argumenta que o desenvolvimento econômico não é simplesmente o resultado da acumulação de recursos econômicos sob a forma de capital físico e humano, mas também é uma questão de “construção institucional” que reduz as imperfeições da informação, maximiza os incentivos econômicos e reduz os custos de transação (KIRKPATRICK et al., 2006). Há várias definições para Instituições, a mais citada é de Douglas North, sob o termo "Tabela institucional", que se refere ao conjunto informal e formal de "regras do jogo" que restringem as interações em questões políticas, econômicas e sociais (NORTH, 1990,1991).
O ambiente institucional econômico é multidimensional, complexo e policêntrico, composto por várias instituições interdependentes que compreendem as organizações e as instituições. As instituições representam as regras do jogo em uma sociedade, ou mais formalmente, são as restrições concebidas para a interação humana, portanto, o propósito das regras é definir como as organizações irão atuar (NORTH, 1990, 1991).
Das instituições formais e informais que compõem o ambiente institucional, as formais que merecem destaque são: regulatória, política e econômica. De modo geral, estes três tipos de instituição formal constituem e definem o estabelecimento de ordem dentro da qual ocorrem os negócios no país. Cada uma destas instituições é promulgada por áreas do governo, baseada na soberana autoridade para conceber sistemas jurídicos e de controle, que estabelecem as regras, monitoram a adesão a essas regras, e disciplinam a não conformidade. Os diferentes tipos de instituição estão identificados na sociedade pelas funções a que certas leis e supervisão governamental se aplicam (HOLMES et al., 2012).
Nesta perspectiva, um "bom" ambiente institucional é aquele que reduz a incerteza e promove a eficiência, contribuindo assim para um desempenho econômico mais forte. Incluída nesta estrutura institucional estão as leis, políticas, normas sociais e convenções que são a base
para o sucesso da produção e troca de mercado (KIRKPATRICK; PARKER; ZHANG, 2006).
Centrado no Estado, o conceito de regulação define o que se refere às leis editadas pelo Estado;
enquanto centrado na sociedade, analistas e pesquisadores da globalização tendem a apontar para a proliferação da regulação institucional além do Estado (LEVI-FAUR, 2011). Embora o conteúdo e o escopo regulatório possam variar, essas instituições regulatórias, na prática, codificam as expectativas da sociedade e as preferências em relação ao poder e autoridade das organizações (NORTH, 1990).
As exigências informacionais e institucionais necessárias para atingir mercados eficientes são rigorosas em função da racionalidade instrumental que os players detêm, podendo conduzir a modelos equivocados, assim a arbitragem e o feedback informacional corrigem os modelos e punem os comportamentos desviantes, conduzem os players sobreviventes ao modelo correto (FOGEL; NORTH, 1993).
Nesse sentido, Fogel e North (1993) apontam que, se a eficiência de mercado depende de forma implícita de requisitos ainda mais rigorosos para o funcionamento do modelo, nesta situação, a disciplina do mercado competitivo resultará em significativos custos de transação, então, instituições e, consequentemente o mercado, induzirão os players à aquisição de informações essenciais que os levará a corrigir seus modelos.
O conceito de regulação econômica tem sido revisto ao longo do tempo, desde ser visto como uma forma de erradicar o mercado até na década de 1960 como uma forma de envolver o Estado na atividade econômica (KIRKPATRICK; PARKER; ZHANG, 2006). Já na década de 1980, era uma forma de legitimar a intervenção do Estado no mercado (KIRKPATRICK;
PARKER; ZHANG, 2006). Mais recentemente, o Estado é visto pelo papel de regulamentar, ou seja, prevê a saída da produção a favor do setor privado em setores competitivos e o uso da regulamentação governamental em setores com significativas falhas de mercado (WORLD BANK, 2013). Os setores de infraestrutura são marcados pela elevada intensidade de falhas de mercado, sendo, portanto, os candidatos naturais à regulação e a mecanismos de participação do setor privado sob regulação governamental (KIRKPATRICK et al, 2006; KESSIDES, 2004;
RAMAMURTI, DOH, 2004; RAMAMURTI, 2003; RAMAMURTI, 1996).
A regulação econômica define tarifas que asseguram o equilíbrio econômico dos contratos, e essa regulação leva a mecanismos que induzem à eficiência da prestação do serviço.
Dessa forma, a regulação incide sobre a estrutura por meio de uma resposta do operador público, leilão de franquia, defesa da concorrência e agência reguladora. Incide sobre as práticas econômicas para atenuar o poder de mercado via defesa da concorrência, Ministério Público e
Agência Reguladora, ou atores similares em diferentes jurisdições. A tarifa é outro objeto de regulação que tem como resposta a exclusão dos mecanismos de mercado para encontrar o equilíbrio de mercado (GUASCH et al., 2005).
A regulação atua sobre o acesso universal ao serviço, abrandando as externalidades, via obrigações contratuais e metas regulatórios. A qualidade, no que diz respeito à assimetria informacional, está contida na regulação no que se refere à vigilância sanitária; fiscalização e regulação técnica, e, por fim, a proteção ao meio ambiente que se justifica pela necessidade de proteger os bens públicos é alcançada via legislação sobre recursos hídricos (GUASCH et al., 2005; VISCUSI et al, 2005; BALDWIN et al, 2012).
2.2 Desinvestimento Direto Estrangeiro
A decisão de desinvestir e o gerenciamento desse processo representa um desafio aos executivos de empresas multinacionais (EMNs). Este desafio tem sido potencializado pelo crescente e diversificado número de economias de acolhimento e pelo fato das EMNs estarem presentes em todo tipo de atividade industrial (BODDEWYN, 1983).
O World Bank (2014) trata o DDE como cancelamento ou distress, assim são considerados cancelados os projetos para os quais o setor privado revelou-se em uma das seguintes formas: a) vendeu ou transferiu o seu interesse econômico de volta ao governo antes de cumprir os termos do contrato, removendo toda a gestão e todo o pessoal; cessando a operação, prestação de serviço ou a construção de 15% ou mais do período de licença ou concessão, na sequência da revogação da licença ou rejeição do contrato; b) por distress que são aqueles projetos em dificuldade, nos quais o governo ou operador tem solicitado a cessação do contrato ou arbitragem internacional. O DDE ainda pode ser definido como a decisão de uma empresa para dispor de uma parte significativa de seus ativos (DUHAIME; GRANT, 2006).
A decisão de desinvestir foi tratada nos trabalhos de Gilmour (1973), Porter (1976) e Nees (1978, 1979). Estes autores se referem ao desinvestimento em ambiente doméstico. O desinvestimento direto estrangeiro é foco dos trabalhos de Spanhel e Johnson (1982), Boddewyn (1983), Duhaime e Grant (2006), Berry (2013) e Boddewyn (1985). E, especificamente, no setor de infraestrutura, são alguns trabalhos sobre DDE: Guasch, Laffont e Straub (2005); Ducci, (2007); Kirkpatrick, Parker; Zhang, (2006); Lobina, Kishimoto, Petit (2014) e Siqueira (2015). Estes trabalhos são comentados, a seguir.
2.2.1 Desinvestimento em ambiente doméstico
A literatura sobre gestão de investimento é menos desenvolvida do que a literatura econômica sobre investimento direto estrangeiro (IDE). No entanto, para ampliar o entendimento sobre como ocorre o desinvestimento, pesquisadores têm procurado caracterizar as diferenças entre investimento e desinvestimento, nacional e estrangeiro e, com isso, apontando as diferenças notáveis entre desinvestimento doméstico e estrangeiro (BODDEWYN, 1985). Esta seção trata do desinvestimento doméstico. Os trabalhos sobre desinvestimento têm focado em como são tomadas as decisões de alienação e com base em quais fatores são realizados. A Tabela, a seguir, resume as características da decisão de desinvestimento doméstico, dos percursores do tema.
Tabela 2: Características da decisão de desinvestimento doméstico
Autor Desinvestimento Doméstico Perspectiva
Gilmour (1973) Decisão tática e pessoal Gerencial
Porter (1976) Decisão econômica Organização Industrial
Nees (1979) Decisão executiva Gerencial
Fonte: Elaborado pela autora.
Sobre o desinvestimento doméstico, Gilmour (1973) o caracterizou como sendo uma decisão mais tática e pessoal do que estratégica e organizacional. O seu entendimento é resultado de uma análise de desinvestimento no mercado dos Estados Unidos. As decisões de desinvestir, naqueles casos, foram resultado de análises pessoais e não organizacionais, e representaram uma forma de reação às crises daqueles períodos, e, portanto, não poderiam ser interpretadas como alternativas de uma análise estratégica. Para o autor, desinvestimentos domésticos raramente são estratégicos, e são, de modo geral, respostas aos estímulos ambientais e mentais que não foram previstos (GILMOUR, 1973).
Para Gilmour (1973), a motivação para o desinvestimento pode ser descrita de quatro formas. A primeira, é uma questão orçamental, ou seja, o retorno sobre o capital investido está abaixo do esperado; a segunda, é uma questão estratégica, algo como uma grande discrepância entre os objetivos da firma e o ambiente no qual está inserida; a terceira, é de ordem comportamental quando, por exemplo, a firma muda o repertório de investimento; e a última é a necessidade de realocação de recursos.
Porter (1976) contribuiu sobre este tema por meio da identificação das barreiras de saída, no ambiente interno. O autor explica como é difícil a tomada de decisão de desinvestir, dada a existências de barreiras, reforçando que questões estruturais e gerenciais envolvem tal decisão.
Em estudos sobre investimento e desinvestimento na Europa, sendo França (MAROIS, 1979 apud BODDEWYN, 1985) e Bélgica (NEES, 1978, 1979) os principais centros dessa discussão, pesquisadores pontuaram diferenças da decisão de investir e desinvestir. Enquanto a decisão de investimento surge nos níveis mais baixos da hierarquia organizacional, quando o investimento é relativamente pequeno e a firma descentralizada, para a decisão de desinvestimento, o nível operacional não possui a mesma força.
Estas unidades de nível inferior operam com expectativas normais de crescimento corporativo e de engrandecimento divisional ou pessoal. Devido a isso, a equipe de profissionais da firma naturalmente resiste a qualquer pensamento de contenção ou abandono.
Assim, embora o nível operacional possa ter informações necessárias para decidir, o nível superior não pode se valer para tomar a decisão de alienar, uma vez que, contrariamente aos casos de investimento, estes profissionais não têm nenhum motivo para fazê-lo (NEES, 1978, 1979).
Dessa forma, existe no processo de desinvestimento a Tabela de um “gerente” que ocupa um lugar de destaque na hierarquia da firma. Esta Tabela difere nas estratégias de investimento e desinvestimento. No desinvestimento, um “novo homem” surge com mais suporte do que os outros (NEES, 1978, 1979). Isso ocorre porque na situação desinvestimento os compromissos já existem e precisam ser desfeitos (GILMOUR, 1973).
Em uma situação de investimento, a exigência é de um executivo com suporte, e que não contrarie as políticas internas da firma, já no caso de desinvestir altos executivos, um conselho e o nível gerencial precisam estar convencidos de que houve um erro de julgamento no passado (NEES, 1979).
2.2.2 Desinvestimento Direto Estrangeiro
É de se notar que o tópico de saída de investimentos é popular na literatura de Negócios Internacionais no que se refere à instabilidade ou morte de joint ventures internacionais (KOGUT, 1988; EDEN, 2009), mas pouco endereçado no contexto de IDE. O Desinvestimento Direto Estrangeiro (DDE) é um aspecto da estratégia global, referente aos aspectos pós entrada no país de destino. A tomada de decisão de uma empresa para dispor de uma parte significativa de seus ativos, ocorre devido ao desempenho insatisfatório das operações (DUHAIME;
GRANT, 2006). Dessa forma, o desinvestimento é, portanto, uma resposta padronizada e
estratégica (BODDEWYN, 1983). O Tabela, a seguir, ilustra pesquisas que identificam as razões para o DDE.
Tabela 3: Razões para o Desinvestimento Direto Estrangeiro
Razões para o DDE Autores
Atividade de baixa performance econômicas Boddewyn (1979)
Deliberação ou redução voluntária. Spanhel e Johnson (1982)
Fim da atividade controlada pela subsidiária. Boddewyn (1983) Econômico; Comportamental; Estrutural. Duhaime e Grant (2006) Baixo crescimento e baixa atratividade de mercado;
Incerteza e instabilidade política; Regulação. Berry (2013) Nacionalização; Expropriação; Spin-offs; Subsidiárias
quebradas (alto passivo); Fade-out e harvest. Boddewyn (2014) Fonte: Elaborado pela autora (2018).
A opção pelo DDE ocorre nos níveis da subsidiária, da firma e da indústria ou país. Os principais fatores para a alienação são: baixo crescimento e baixa atratividade de mercado, incerteza, instabilidade política e regulação (BERRY, 2013). A autora ressalta ainda que o baixo desempenho é o principal causador do desinvestimento, mas considera os estudos que apontam a substituição de pessoal precedendo a decisão de desinvestimento, ou seja, uma questão tipicamente comportamental da firma (BERRY, 2013).
A primeira motivação para desinvestir, ou seja, a tomada de decisão de uma empresa para dispor de uma parte significativa de seus ativos, ocorre devido ao desempenho insatisfatório das operações, portanto, é de origem econômica. Os demais fatores de decisão de alienação são: a força da unidade, ou seja, de ordem comportamental da firma, e de unidade de interdependência e solidez financeira em relação à média da indústria, entendido como um fator estrutural da EMNs (DUHAIME; GRANT, 2006).
A alternativa de DDE é uma estratégia complexa e resulta de ações empreendidas por várias pessoas ou coligações diante de um todo, igualmente complexo, assim não se pode dizer que a ação de desinvestir é tomada por uma pessoa em especial ou que resulta de um único momento em particular (BODDEWYN, 1985). Os fatores para desinvestir, acrescentados nesta releitura do autor sobre fatores causadores do DDE são: nacionalização, expropriação, spin-offs e alto passivo da subsidiária (BODDEWYN, 1985).
As características da decisão do DDE: baixas barreiras de saída, comprometimento pessoal menor, maior distanciamento psicológico, percepção mais negativa de risco e
idiossincrasias – favorecem a persuasão dos superiores para a tomada de decisão (BODDEWYN, 1985).
A percepção comum é de que ambientes externos são mais arriscados, se não hostis, assim como a racionalização da decisão de desinvestir e a maior exposição impulsiona a decisão de desinvestimento para níveis organizacionais mais elevados. O IDE é geralmente visto como intrinsecamente mais instável, dada as pressões constantes e mesmo crescentes de governos e os trabalhadores nacionais em prol do “nativo”. Este fato, somado a que o investimento estrangeiro é um negócio no qual o investidor tende progressivamente a perder a sua vantagem comparativa, torna mais fácil racionalizar o DDE (BODDEWYN, 1983).
A decisão de encerrar as operações estrangeiras é feita pela matriz. O encerramento de uma planta nem sempre é exato, dada a dificuldade de mensurar todas as perdas e os custos cortados; tais incertezas desfavorecem que as multinacionais tenham estabelecido os critérios para o desinvestimento, assim como para o investimento. A ausência de critérios fortes e significativos obriga que a decisão pelo DDE envolva um gerente do topo da multinacional. O desinvestimento estrangeiro é menos “pessoal”, pois a firma está longe espacialmente e emocionalmente ou psiquicamente (BEHRMAN, 1969).
O DDE é impactado pelas variáveis ambientais internacionais, como aquelas que compõem crises econômicas e políticas (GRUNBERG, 1981). Ainda contam com a decisão de desinvestir, com a experiência do tomador de decisão, a interdependência da firma multinacional, o estágio de desenvolvimento da companhia internacional, o efeito da companhia na estrutura organizacional, e com o papel do sistema de controle no processo de decisão (WILSON, 1980; SPANHEL, 1981).
Boddewyn (1983) teorizou sobre o DDE utilizando-se do paradigma eclético de Dunning (1980) que aponta três condições para o IDE, conhecidas por OLI – Ownership, Location e Internalization. A teoria desenvolvida por Dunning (1980) explica a extensão, a forma e o padrão do investimento em outros países para desenvolver a produção da empresa.
As vantagens de propriedade do Ownership Specific Advantages permitem que a empresa multinacional mantenha o domínio do recurso utilizado em outro país. As vantagens comparativas entre países (Location-specific advantages) seriam as responsáveis por explicar a escolha de um local para o investimento. As vantagens de internalização (internalization specific advantages) surgem ao construir uma estrutura no exterior para internalizar as operações que poderiam ser realizadas pelo mercado (DUNNING, 1980).
No caso do IDE, todas as condições do paradigma eclético devem ser satisfeitas, mas para o DDE, não. Enquanto o ownership é condição sine qua non para o IDE, no caso de DDE ainda que exista propriedade, a firma pode optar por desinvestir quando há incentivo para internalizar a vantagem de propriedade, ou seja, internalização e vantagem de localização podem ocorrer separadamente (BODDEWYN, 1983).
No IDE, há interrelação entre os três fatores, e isso continua presente no DDE. Sem o ownership, o investimento não acontece, e o desinvestimento ocorre se a vantagem competitiva já estiver desaparecida, pois a firma deixa de ter vantagem competitiva sobre as firmas de outras nacionalidades; ou, ainda que mantenha tais vantagens, não é rentável internalizá-las. A firma não considera rentável internalizar fora do país de origem, sendo mais vantajoso o mercado externo para exportar e o mercado interno para produzir, ou abandonar ambos os mercados.
Cabe observar que, para o IDE, todas as condições do paradigma eclético precisam ser satisfeitas ao mesmo tempo, enquanto que, para o DDE, basta uma delas (BODDEWYN, 1983).
Dessa forma, o DDE se caracteriza por possuir discrepâncias mais difíceis de serem detectadas em relação ao IDE. Ainda se caracteriza por baixas barreiras de saída se comparada ao desinvestimento doméstico. O comprometimento do “novo homem” é menor se comparado à decisão de IDE. Dada a distância física e psicológica, e a percepção de risco no exterior, há uma facilitação na persuasão dos superiores e o comprometimento organizacional para a tomada de decisão pelo DDE. Existe, ainda, uma justificativa de insider e outsider mais complexa, e, por fim, a aprendizagem organizacional é mais simples se comparada ao IDE (BODDEWYN, 1983).
2.2.3 Determinantes do Desinvestimento Direto Estrangeiro
Em um estudo de 59 desinvestimentos realizado por grandes empresas americanas no período de 1975-1980, Duhaime e Grant (1984) identificaram três fatores com influência significativa na decisão de alienação: baixa solidez financeira (retorno sobre o patrimônio) da empresa alienante em relação à sua média industrial; desempenho fraco e perspectivas das unidades cedidas, e baixa interdependência entre a unidade cedida e outras áreas das atividades do desinvestidor. A estrutura financeira do cedido (por exemplo, nível de alavancagem), apego gerencial, e o ambiente econômico geral não teve influência significativa sobre o desinvestimento.
Hamilton e Chow (1993) desenvolveram uma pesquisa com 36 CEOs (Chef Executive Officers) de grandes empresas na Nova Zelândia, com 208 alienações entre 1985-1990. A maior
parte (78%), assumiu a forma de uma venda completa dos ativos envolvidos para outra empresa.
A maioria dos desinvestimentos remanescentes envolveu outros acordos, como spin-off, buy- out de administração ou apenas liquidação. Outra característica notável, que está de acordo com o que Duhaime e Grant (1984) encontraram nas 59 unidades analisadas em seu estudo, é que alienações representam pequenas partes da empresa alienante: 62% das 208 alienações envolveram menos de 5% do total de ativos da empresa, e 82% menos de 10%. No entanto, o fator mais importante identificado nessa pesquisa foi o baixo retorno alcançado nas unidades alienadas, seguido por suas baixas perspectivas de crescimento.
Um estudo realizado por Belderbos e Zou (2009) revelou que uma conTabelação de plataformas de fabricação do país fornece valor de opção para a empresa, oferecendo opções de crescimento futuro e trocando opções para ajustar a distribuição das atividades de fabricação em locais sob incerteza (KOGUT; KULATILAKA, 1994a, 1994b). Ao mesmo tempo, os resultados confirmam que as conTabelações de afiliados multinacionais devem ser consideradas como uma carteira de opções, e que as características da carteira afetam as probabilidades de avaliação e desinvestimento de opções de afiliadas individuais. Isso é parecido com as descobertas anteriores sobre a avaliação de opções reais de alianças tecnológicas (VASSOLO et al., 2004), em que as alianças com características de desempenho tecnológico sobrepostas encontradas, possuem taxas de resiliência mais altas. Os resultados implicam que as decisões de desinvestimento de afiliados devem ser consideradas no contexto de uma estratégia de empresa multinacional mais ampla e sua posição em conTabelações de planta internacional, e não como decisões separadas, como tem sido a abordagem na maioria dos trabalhos anteriores sobre desinvestimentos estrangeiros.
Tong e Reuer (2007) argumentam que, com maior dispersão, os custos marginais de coordenação e utilização de opções de troca aumentam. Outros moderadores do valor da opção de portfólio de afiliados que foram apresentados são a distância cultural entre países do portfólio, dificultando a coordenação efetiva (TONG; REUER, 2007) e heterogeneidade no valor das opções de afiliados relacionadas ao modo de entrada e linha de negócios (TONG et al., 2008). As descobertas de Belderbos e Zou (2009) sugerem que uma explicação alternativa plausível seria que as empresas multinacionais diferem no grau de redundância em seu portfólio de afiliados internacionais, e que essa redundância provavelmente será maior para redes de plantas mais densas.
A figura, a seguir, desenvolvida por Hamilton e Chow (1993), ilustra os principais fatores que determinam as decisões de desinvestimento.