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Especificidades do DDE na indústria do saneamento

No documento ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING (páginas 38-41)

2.2 Desinvestimento Direto Estrangeiro

2.2.5 Especificidades do DDE na indústria do saneamento

Mercados monopolistas caracterizam-se por falhas de mercado, que podem ser divididos em três grupos: poder de mercado, externalidades e assimetrias informacionais. Especificamente, as falhas de mercado na indústria de saneamento se resumem às indivisibilidades técnicas;

poder monopólico; coordenação de conduta; assimetria informacional; externalidades positivas e negativas; e custos de transação e de coordenação (VISCUSI et al, 2005; BALDWIN et al, 2012; TUROLLA, 2013B).

Entre os setores de infraestrutura, o setor de saneamento básico foi o mais atingido pelo desinvestimento. Em 2005, os projetos com participação privada chegavam a 37% dos compromissos de investimento, desde 1990. Estes projetos cancelados representaram 11% dos projetos de água com participação privada, o que sugere que os problemas afetaram principalmente os grandes projetos. A América do Sul liderou o recebimento desse tipo de investimento, e obteve o maior volume de cancelamento do World Bank (2013). Em seguida, são feitas considerações sobre o desinvestimento direto na indústria de saneamento, considerando as suas características econômicas. A Tabela, a seguir, sintetiza os fatores que influenciam o DDE, na indústria de saneamento.

Tabela 6: Fatores que influenciam o DDE na indústria de saneamento

Autor Subsidiária Firma Indústria ou País

Ducci (2007) Quebra do equilíbrio

Siqueira (2015) Viabilidade de Negócios Concorrência Setorial

Adversidade Macroeconomica Fonte: Elaborado pela autora.

As motivações para o DDE apresentada no Tabela partem de três níveis de tomada de decisão, quais sejam: a subsidiária, a firma ou a indústria. Dessa forma, a decisão de desinvestir pode ocorrer ao nível da subsidiária se a imposição de um limite de preço conduzir ao lucro negativo para firma. No entanto, se a motivação do DDE se deve à corrupção, a tomada de decisão pode significar sair do país ou da indústria, conforme Guasch et al. (2005). Para Lobini et al. (2014), a empresa não investe o previsto no contrato, e impõe a exclusão dos mais pobres por meio de altas tarifas.

O trabalho de Siqueira (2015) sobre DDE no Brasil apontou que fatores internos de firma impactaram a decisão de DDE. O custo fixo operacional alto com poucos aumentos de receitas, gerou operações com margens inoperáveis por longo período. Como não conseguiram perspectiva de melhoria da produtividade, margem e, consequente redução de custos, o aspecto operacional interno da EMN contribuiu para a decisão de DDE.

As causas e consequências da saída de operadores da indústria de saneamento básico foram o tema da pesquisa de Ducci (2007). Nesse trabalho, foram analisados 14 casos em quatro países latino-americanos, nomeadamente: Argentina, Bolívia, Uruguai e Venezuela. Ainda, avaliou-se globalmente a situação destes operadores no Brasil, Colômbia e México.

Identificaram-se como causas de saída das grandes multinacionais do setor de saneamento de países da América do Sul: as decisões estratégicas a nível mundial, os conflitos sociais e políticos, e a quebra do equilíbrio econômico e financeiro (DUCCI, 2007).

Dos casos analisados no estudo, destacam-se aqueles nos quais as EMNs saíram da região para se concentrar novamente na região de origem, ou seja, por estratégia da firma, aqueles nos quais a saída foi motivada por mudança na política setorial. Ocorreram outros casos em que a saída se deu graças aos conflitos sociais e políticos promovidos de modo geral por aumentos de preços das tarifas e falta de transparência nos processos. E, por fim, casos em que

houve uma conjugação de fatores causadores da saída. Nestes últimos, de modo geral, mesmo com preços de tarifas reajustados, os objetivos da firma não foram alcançados, impactando no equilíbrio econômico da operação (DUCCI, 2007). A Tabela, a seguir, aponta os casos de

01 Brasil Município Manaus-AM Águas do Amazonas 2006

02 Brasil Município Campo Grande-MS Águas Guariroba 2006

03 Brasil Município Nova Friburgo-RJ

Concessionária de Águas e Esgotos de Nova Friburgo

(CAENF) 2006

04 Brasil Município Limeira-SP Águas de Limeira 2006

05 Brasil Município Mineiros do Tietê-SP Saneciste 2006

06 Brasil Município Ribeirão Preto-SP Ambient 2006

07 Brasil Município (com

10 Argentina Província Buenos Aires Veolia 2008

11 Bolívia País Governo nacional Suez 2007

12 Argentina Província Buenos Aires Suez 2006

13 Uruguai Região Maldonado Águas de Bilbao 2004

14 Uruguai Região Maldonado Agbar 2004

15 Argentina Província Buenos Aires Suez/Agbar 2002

16 Argentina Província Buenos Aires Suez/Agbar 2002

17 Chile País Governo nacional Thames e Anglian 2001

18 Argentina Província Buenos Aires Azurix 2001

19 Argentina Província Mendoza Águas de Argentina 2001

20 Argentina Província Buenos Aires Azurix 2001

21 Bolívia País Governo nacional Betchel 2000

22 Argentina Província Buenos Aires Enron 1999

23 Venezuela País Governo nacional FCC 1998

24 Venezuela País Governo nacional FCC 1998

25 Bolívia País Governo nacional CGE 1997

Fonte: Adaptados de World Bank (2014); Relatório das Cidades (2008).

Um estudo da ONU (2016) aponta uma tendência de reestatização no setor de saneamento básico, isso porque a privatização mostrou-se inadequada, e nos últimos 15 anos, 35 países reestatizaram (LOBINA; KISHIMOTO; PETIT, 2014) apontando que a remunicipalização deve-se aos seguintes fatores: à baixa performance da empresa privada, ao baixo investimento, às disputas por custo operacionais baixos e preços de tarifas crescente, às contas de água crescentes, à dificuldade no monitoramento do operador privado, às ausências de transparência financeira, à redução da força de trabalho e à baixa qualidade do serviço. A remunicipalização

tem sido acelerada. Governos têm feito esforços para que a remunicipalização suceda ao final dos contratos. Os números ilustram este cenário: 92 casos ocorreram após o fim do contrato e 69 casos não foram renovados no período entre 2001 e 2014, o que sugere que encerrar o contrato é mais viável do que permanecer com a privatização no longo prazo. A eficiência igual ou superior do serviço público no setor e preços mais baixos são observáveis nestes casos, conforme menciona Lobina, Kishimoto e Petit (2014).

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