Sua Majestade,
Meu Amor
The Vault Collection 02
Maya Banks
Sinopse
Uma princesa em fuga deve completar uma empreitada mística para poder ocupar o seu lugar de direito no trono de seu país.
A princesa Isabella Chastaine mantém em suas mãos o destino de sua pequena nação insular. Literalmente. Escapando dos homens que assassinaram seus pais, ela fugiu para a Inglaterra com o mapa sagrado que descrevia a localização das relı́quias antigas, itens necessários para que o novo governante pudesse subir ao trono, itens enterrados profundamente nas cavernas de mármore de sua terra natal.
Simon Rothmore, Conde de Merrick, serviu ielmente à Coroa Britânica desde que foi recrutado por uma agência secreta de elite. Sua nova tarefa, decifrar os enigmáticos assassinatos da famı́lia real de Leaudor, o levou até o último membro remanescente da famı́lia:
a Princesa Isabella.
Traı́da por todos aqueles que eram próximos a ela e profundamente descon iada da possibilidade do envolvimento da Inglaterra, Isabella jura retornar ao seu paı́s e procurar justiça por sua famı́lia. Ela não permitiria que ninguém, especialmente o arrogante conde inglês, interferisse em sua empreitada.
Mas o amor tem uma maneira única de unir as mais improváveis almas. Juntos, eles atravessam dois paı́ses, descobrem dolorosas traições, completam a missão e forjam um novo destino que nenhum deles sonhou ser possı́vel.
Dedicatória
Para Sassy. Saudades. Espero que você esteja dando-lhe um inferno e fumando um cigarro.
Para Amy e Karin por se manterem ao meu lado por tanto tempo. Estou há um tempo nesta história e vocês nunca me deixaram perder a fé nela.
Para T.J. por ler a história e ser honesto em sua opinião. Por sempre ter fé em mim e na minha escrita. E bom inalmente estar aqui
Para Jess, apenas porque eu te amo.
Prólogo
Harwich, Inglaterra Janeiro de 1815
Era um dia miserável para morrer.
Simon Rothmore, Conde de Merrick, puxou seu pesado sobretudo mais apertado ao redor dele para afastar o frio abrangente causado pela chuva. Ele lançou um olhar para baixo, em direção ao corpo encharcado e envolto em lama e gelo.
O prı́ncipe Davide Chastaine, ilho mais novo do Rei de Leaudor, mal havia desembarcado de seu navio quando se encontrou com a morte. Os bastardos icaram esperando por ele.
Simon se abaixou para dar uma olhada mais de perto. Por todas as aparências, o prı́ncipe fora morto há muitas horas. A morte dele havia sido rápida e misericordiosa, se pudesse chamá-la assim. Um corte aberto em seu pescoço sugeria o uso de uma faca grande e o sangue seco emaranhado no topo de sua cabeça, sem dúvida, de um golpe violento.
Ele se levantou e deu às costas, virando-se para seu parceiro, Adam Kirkland.
— Nós estamos muito atrasados. — Era uma a irmação desnecessária, mas expressava toda a frustração que ele sentia por seu fracasso. Ele e Kirk haviam supervisionado e se esforçado para rastrear e proteger os dois membros remanescentes da famı́lia real leudoriana, após o assassinato dos outros. Agora restava apenas um.
Kirk assentiu, sua respiração escapando em um visı́vel sopro.
— Por que o prı́ncipe veio até aqui? Isso não faz sentido, a menos…. — Sua voz falhou e ele encarou Simon intencionalmente.
— Ao menos que a princesa esteja aqui. — Simon terminou.
— Toda a inteligência apontava que ela estava na América.
Simon sugou o ar gelado e se afastou da cena macabra do prı́ncipe. Começou a chover mais forte e ele gesticulou para os dois homens que estavam parados ao lado do corpo. Ele se asseguraria que ele retornasse para Leaudor, para um enterro apropriado.
Enquanto ele e Kirk se apressavam através do aguaceiro, ele re letiu sobre este último acontecimento. Os dois se acomodaram no con inamento quente da carruagem fechada de Simon para iniciar a viagem de volta a Londres. Ele voltou a estudar a expressão pensativa de Kirk, certo de que re letia a dele.
— E se ela estiver aqui? E se ela apenas ingiu que fugira para a América? Qual outra razão para o prı́ncipe sair de seu esconderijo e embarcar para a Inglaterra?
— Eu não sei, mas certamente isso nos coloca em um dilema. Os agentes enviados à
América poderiam muito bem estar procurando nos locais errados.
Simon inclinou para trás, o princı́pio de uma dor de cabeça o atormentando.
— Se eu estiver certo, é nosso dever encontrá-la antes que os outros o façam. O Regente está muito preocupado e quer que nós descubramos o motivo por trás dos assassinatos. E se há
alguma implicação para a Inglaterra. Ele esfregou suas têmporas, tentando diminuir a tensão.
— Maldição. Ver todas essas mortes nunca é fácil. Eu tinha esperanças que, com Napoleão seguramente preso em Elba, que nós apreciarı́amos tempos mais calmos.
— Talvez você devesse pensar em se aposentar e assumir as obrigações de conde. — Kirk disse calmamente. — Nós estamos vivendo nesta vida por muito tempo. Ninguém reclamaria por ver a continuação de sua linhagem.
Simon sorriu. Viver uma vida que ele nunca pretendeu levar. Não era mais atraente agora do que foi logo após a morte de seu irmão.
Ele prosseguiu como se Kirk não tivesse mencionado sua responsabilidade como Conde de Merrick.
— Nosso tratado com a França é muito importante para permitir que qualquer distúrbio o ameace. Nós fomos tolos ao ignorar os eventos em Leaudor, visto os fortes laços deles com a França.
— Mas com apenas um membro restante da famı́lia real, como nós iremos encontrá-la antes de quem a quer morta? — Kirk perguntou, passando uma mão agitada entre os cabelos.
Simon olhou para o homem que era muito mais um irmão do um parceiro. Certamente era mais irmão do o que sua própria carne e osso, havia sido. Kirk parecia tão cansado quanto Simon. Os dois haviam passado muitas horas, dias procurando pelo Prı́ncipe e pela Princesa de Leaudor.
— Nós não temos garantias, mas nós devemos ser diligentes em nossos esforços. A princesa pode muito bem o destino de Leaudor em suas mãos.
Kirk acenou em concordância, depois abaixou uma mão para o assento com intuito de segurar a si mesmo enquanto eles passavam por um ponto mais acidentado da estrada.
Simon se inclinou para trás para manifestar o assunto que mais o incomodava.
— Eu não gosto do fato do prı́ncipe ter sido morto em solo inglês. A Inglaterra poderia facilmente ser considerada culpada por Leaudor e a França poderia capitalizar a oportunidade de tentar in luenciar Leaudor para icar do lado deles. Apesar de pequena, Leaudor tinha um poderoso e bem mantido exército. Sozinhos, eles não representavam ameaça à Inglaterra. Mas unidos a um paı́s como a França, eles seriam um inimigo poderoso.
— Então você acha que a França poderia estar por trás de toda a coisa. — Kirk sorriu. — E uma estratégia brilhante diante da conversa sobre o tratado entre França e Inglaterra no Congresso de Viena. Ninguém suspeitaria que eles sabotariam seus próprios aliados.
— Eu não estou muito certo sobre o que pensar. — Simon meditou. Eu sei que o Rei Fernando estava determinado a manter Leaudor neutro em qualquer con lito entre a França e a Inglaterra. Embora a maior parte de seu legado ser francês, eles comerciam muito mais com a Inglaterra. Com Fernando removido do poder e sua famı́lia aniquilada, o próximo governante poderia estar mais inclinado a aceitar uma aliança com a França.
— Mais uma razão para encontrar a princesa o mais rápido possı́vel. — Kirk murmurou.
— Verdade. E do nosso máximo interesse encontrá-la e ver o trono restaurado para os Chastaines. Custe o que custar.
Capítulo Um
Londres, Inglaterra Fevereiro de 1815
Era um bom dia para morrer.
Mas talvez ela já estivesse morta, seu corpo apenas recusava reconhecer o que o coração sabia.
A Princesa Isabella Genevieve Elizabeth Chastaine caminhava ao longo da Ponte Westminster, a agonia infundida a cada passo. Aquele era o local que deveria ter sido o ponto de encontro com Davide, quando ele chegasse à Inglaterra. Foi o único lugar que eles puderam pensar diante da pequena parada antes que eles partissem para Leaudor.
O vento gelado soprava sobre ela, fazendo com que arrepios descessem por sua espinha.
Ela desejou ter luvas e um casaco, qualquer coisa para mantê-la aquecida. A fuga para a Inglaterra não permitia nada além das roupas que ela vestia e elas eram muito elegantes para que ela permanecesse na clandestinidade. Ela as trocara por comida, um vestido e algumas roupas de menino. Mas o seu escasso suprimento de comida acabara. E agora, o tempo dela também.
O ruı́do das carruagens cruzando a ponte de um lado para o outro tinha um ritmo constante. Ela as olhava, mas sem enxergar. A distância, a fumaça subia pelas inúmeras fábricas.
Como ela odiava aquele lugar. As cidades lotadas, os odores ofensivos, as pesadas capas escuras que pareciam encobrir os telhados. Embora o dia de hoje marcasse uma surpreendente prorrogação de tais condições.
Ela olhou para cima. Pela primeira vez o céu de Londres não estava escuro com as sombras das nuvens. O azul brilhante indicava melhores condições da primavera e ela piscou contra a luz do sol. Ela admirava como poderia ser tão visualmente bonito e pacı́ ico enquanto o mundo dela havia chegado ao im. Com certeza a tela acinzentada era mais apropriada.
Como ela sentia falta da beleza natural de sua terra natal. As colinas verdejantes inclinavam-se gentilmente até a base da robusta cordilheira que se estendia por toda frente norte de Leaudor. A oeste, o Penhasco de Mármore erguia-se como um orgulhoso monumento, mostrando a força de seu paı́s. Se ela ao menos fosse forte.
Ela avançou até chegar ao meio da ponte. O desconforto causado pelo frio severo combinava com a dor bruta que arranhava a sua garganta, atraindo -a a gritar. Entretanto, ela observava estoicamente o Tâmisa e tragava rapidamente para esvaziar as reservas e esmagar o
choro que se avolumava em sua garganta. Quão fácil seria deslizar pela lateral da ponte e mergulhar indolormente nas águas abaixo? Ela sentiria a mão da morte a envolvendo?
Ela sacudiu a cabeça, repreendendo-se por distrair-se com esse pensamento. Não era hora de atolar-se em autopiedade. O seu povo precisava dela. Ela tinha um dever a cumprir, um legado para proteger e, o mais importante, ela tinha que se vingar.
Uma lágrima quente escorregou por sua bochecha gelada. Davide. O bondoso Davide estava morto. A única pessoa que havia sobrado em seu mudo se fora. Quando ela leu as notı́cias em um jornal londrino, ela não quis acreditar.
Os dedos curvaram-se ao redor da pedra fria da lateral, cuja aspereza arranhava suas mãos nuas. Seu vestido ino oferecia pouca proteção contra o frio mordaz, mas ela sentia pouco além da tristeza que nublava a sua mente e alma.
Ela perdeu tudo que lhe era importante e nunca se sentira mais sozinha do que neste momento. Uma nova onda de desespero a atingiu com força, seus joelhos cederam e ela se inclinou em direção à ponte para se apoiar. As lágrimas dela molharam a pedra e ela assistiu elas escorrerem, talvez até se misturando às águas do Tâmisa.
Pelo canto de seu olho, ela viu dois homens se aproximando. Lentamente, ela se endireitou e virou levemente a cabeça para observar a fonte de sua atenção. Eles olhavam diretamente para ela, a aparência grosseira deles aumentou o medo dentro dela. Ela piscou rapidamente para dissipar as lágrimas. Com a visão clara agora, ela arriscou nova olhada. Ela não acreditava em coincidências e esta não era a primeira vez que ela via aqueles dois.
Eles se moviam com propósito até ela, sem nenhuma tentativa de parecerem sutis. Poucos meses atrás, tal ação não teria causado nenhum alarme, mas as tentativas de assassinatos a deixara descon iada. De tudo e de todos. A raiva rapidamente superou a sua dor, apesar do medo a ligindo sua consciência.
Eles não eram muito grandes e ela icou con iante de que poderia escapar, mas ela não gostava disso, a inal era superada em números. E ultimamente, as probabilidades haviam sido tudo, menos favorecidas.
Ela rapidamente avaliou suas opções. Ela poderia icar e confrontar os dois homens. Ela poderia correr, mas provavelmente ela não iria muito longe com suas atuais roupas. Ou ela poderia pular pela ponte e arriscar-se no Tâmisa.
O nariz dela se enrugou em repúdio. A forma como ela via isso, nenhuma das opções fornecia muito conforto. As mãos dela agarraram a lateral da ponte mais uma vez. Ela teria que rezar para que a tutela do Padre Ling nas artes da luta não a deixasse na mão agora.
Uma mão quente fechou-se sobre a dela.
— Eu não faria isso, se fosse você. As águas são muito geladas nesta época do ano.
Ela se virou pronta para a batalha. Como este homem chegara tão perto sem que ela notasse?
— O que está tentando fazer, senhor? — Ela perguntou, tentando colocar indignação su iciente em sua voz para fazê-lo desistir. Mas ela achava que saı́ra mais como um resmungo aterrorizado.
— Perdão por assustá-la, madame, eu apenas procurei prevenir um incidente dos mais desagradáveis.
Ela estreitou os olhos enquanto avaliava rapidamente esta nova e tenebrosa situação.
— E que incidente seria esse? — Ela vasculhou os arredores para ver onde os dois ru iões estavam e icou satisfeita em ver que o progresso deles fora interrompido por um momento.
Voltando sua atenção para o homem à sua frente, ela pegou o lábio inferior entre os dentes como se decidisse se ele lhe queria fazer mal.
— Perdoe minha presunção, mas parecia como se você estivesse contemplando saltar pela lateral da ponte. — Sua voz profunda chegou até ela com um ligeiro toque de preocupação.
Ela relaxou um pouco e o olhou ixamente.
— O seu galanteio é apreciado, senhor, mas eu não tinha essa intenção. — Uma pequena pontada de culpa a mordeu quando ele recordou que havia, brevemente, contemplado aquilo.
— Qual é o seu nome? — Ele perguntou, com um pouco mais de interesse brilhando em seus olhos escuros.
Ela se retesou novamente quando o pegou olhando para os homens parados a certa distância. A suspeita aumentou seus sentidos e ela estudou o estranho intensamente. Ele estava muito bem vestido para estar com aqueles homens. O sobretudo dele se abria para revelar o corte caro de seu colete. Calças lisas envolviam coxas musculosas e Hessians1 polidas que brilhavam à luz do sol. Seu forte sotaque britânico carregava o mais aristocrático acento, certamente um passo acima dos ru iões que a observava à distância. Mas os seus instintos gritavam que ele era mais perigoso em cada pedaço, mesmo enquanto sorria tão calorosamente para ela.
— Meu nome é B-Beth. — Ela falou, odiando-se por gaguejar a mentira.
Ele estreitou os olhos e empurrou uma mecha de cabelos castanhos escuros para trás de sua orelha esquerda. Era um gesto de impaciência, como se ele não acreditasse nela de jeito algum.
Ele a olhou duro.
— Bem, Beth, é algo que simplesmente minha consciência não permite, deixar uma mulher em apuros. Se perdoar o meu atrevimento, parece que você precisa de uma boa refeição e de uma lareira. Minha casa não é distante daqui. Eu providenciarei que você tenha a ambos.
O medo logo superou a curiosidade que ela sentia pelo homem que aparecera do nada.
Ela engoliu com di iculdade por causa do pânico que apertava a sua garganta.
— Não é necessário.
— Eu insisto. — Ele disse delicadamente, embora o conjunto de sua mandı́bula lhe dissesse que era mais uma ordem do que uma cortesia.
Ela não armaria uma cena. Ela não poderia atrair atenção indesejada. Ela respirou de maneira instável.
— Ou você prefere esperar e ver o que aqueles dois homens vindo nesta direção planejaram para você?
Raiva, quente e irregular, cortou dentro dela. Não, este não era um transeunte comum.
Mas quanto ele sabia? E ele pretendia machucá-la?
— E como vou saber que você não está com eles? — Ela soltou em uma tentativa de atrasá-lo, até que o seu cérebro confuso pudesse elaborar um plano de ação.
Ela comparou o estranho à sua frente com os dois homens parados, a observando atentamente. Ele era mais alto e mais musculoso que os homens em questão, mas ele era apenas um. E um era melhor do que dois. Mesmo se ela conseguisse fazer com que ele se fosse sem ela, ela ainda teria dois outros bandidos para enfrentar.
O homem à sua frente ignorou a sua pergunta e, para surpresa dela, pegou o braço dela e a guiou para longe dos personagens de aparência sinistra.
Ela se retesou, com toda a intenção de puxar o braço do aperto dele, mas ela pensou melhor ao ver os dois homens à sua direita começaram a avançar. Firmando sua decisão, ela esforçou-se a relaxar e permitiu que o homem a escoltasse para longe.
Se ele suspeitava que ela era uma mulher pateticamente fraca em necessidade extrema de assistência, ele estava enganado. Mortalmente enganado. Mas ela atuaria aquela peça se fosse melhor para ela. Depois ela atacaria quando ele menos esperasse.
Ela havia escapado de situações mais sérias do que essa e, ela não chegaria tão longe e sobreviveria ao impossı́vel apenas para falhar agora.
* * *
O coração de Simon batia estrondosamente enquanto ele levava a princesa pela ponte. Ele ergueu a mão para chamar uma carruagem de aluguel que estava se aproximando e esperou até
que saı́ssem.
A sorte o acompanhou neste dia. Uma dica de um informante de rua o levou até um prédio decadente nos cortiços. Ao mesmo tempo em que ele chegava, a princesa saı́a do prédio a pé.
Ele a havia seguido o dia inteiro, curioso por ver se ela se encontraria com alguém e esperou pela melhor oportunidade a se aproximar. Aparentemente, ele não era o único que tinha interesse nela, a julgar pelos outros dois homens que a seguia e ele teve que agir rápido para assegurar a segurança dela.
Ele olhou para ela, notando a rigidez de seu rosto. Os pulsos dela pareciam inos em seu aperto e ele se preocupou em não pôr muita pressão. Ela deve estar congelando, mas algo em sua isionomia o fez recuar em oferecer seu casaco. Talvez fosse um orgulho remanescente, mesmo escondido em roupas leves e inegavelmente desconfortáveis. Se sua aparência fosse uma indicação, ela não fazia uma refeição decente em semanas.
Ele a ajudou a entrar na carruagem e ela empoleirou-se cuidadosamente na beira do assento. Enquanto eles pulavam e balançavam pelas ruas cheias de Londres, ele a analisava intensamente.
Ela alternava entre olhar pelas janelas e para suas próprias mãos. Em qualquer lugar, menos nele. Ele era capaz de sentir a tensão emanando dela em ondas e ele sentia uma vontade insana de confortá-la de alguma maneira. Ele franziu o cenho e continuou com a sua avaliação.
Ela era bonita. Estonteante. Seus olhos enternecedores re letiam o peso de toda uma vida.
Os soldados que voltavam da guerra no continente não possuı́am tanto tormento em seus rostos.
Os cabelos escuros dela providenciavam um dramático pano de fundo para olhos que lembrava as águas verde azuladas de uma baı́a tropical. Cı́lios longos e pretos tremularam e descansaram sobre suas bochechas quando ela fechou os olhos brevemente. Ele tinha a nı́tida impressão de que ela lutava contra as lágrimas, embora quando ela abriu os olhos e o encarou diretamente, todos os sinais de sofrimentos haviam desaparecido.
Ele rapidamente desviou o olhar, irritado por ela ter conseguido confundi-lo. Os sentimentos que ela despertava nele era um luxo que ele não poderia ter. Ele tinha uma missão, e ninguém, nem mesmo uma beleza frágil de olhos tristes interferiria.
O cocheiro deu a volta na casa de Simon como fora instruı́do enquanto Simon mantinha um olho na janela para se certi icar que não foram seguidos. Após a terceira volta, a carruagem parou do lado de fora de sua modesta casa de tijolos. Ele saiu e depois a ajudou a descer da carruagem. Ela se libertou de suas mãos assim que seus pés tocaram a rua de pedras. Ela olhou furtivamente ao redor, seus lábios comprimidos, formando uma linha tensa.
— Por aqui. — Ele disse, direcionando-a pelo caminho até a porta. Parecia que ela voaria a qualquer momento e ele tinha pouca vontade de perseguir alguém neste frio miserável.
Uma vez lá dentro, Simon a conduziu até a sala de estar onde um fogo queimava na lareira.
— Peço desculpas por eu não ter uma criada adequada para oferecer-lhe assistência. — Ele disse. — Eu não emprego uma equipe completa. Entretanto, tenho certeza de que a minha governanta a ajudará no que precisar.
A princesa ignorou a sua declaração enquanto se aquecia perto da lareira. Suas mãos delgadas se estendiam em direção ao fogo e seus olhos nem ao menos piscavam diante das chamas trêmulas.
— Você vai preferir comer aqui em frente ao fogo ou esperar para comer na sala de jantar?
Ela se virou parando um momento antes de falar.
— Não é necessário que me ofereça uma refeição. Você já foi muito bondoso. Eu realmente tenho que partir.
Essa foi a maior frase que ela falou e ele absorveu a cadência de sua voz. Embora ela tentasse um sotaque inglês, o acento cantado dos leaudorianos, que soavam quase como o irlandês, era bem evidente em sua fala. Talvez fosse porque ela falava muito pouco.
— Eu não quero ouvir você dizer que vai embora sem antes ter uma refeição decente.
Alguma coisa indetectável brilhou nos olhos dela. Era raiva? Ela rapidamente suavizou sua reação e adotou uma expressão branda a qual ele já estava se acostumando. Ela mostrava uma disciplina formidável sobre as suas emoções.
— Muito bem, eu gostaria que fosse aqui.
Ele assentiu e depois chamou o único outro criado que ele empregava. Timmons, seu mordomo há nove anos.
— Traga a mesa pequena do meu escritório para perto do fogo, assim nós poderemos jantar em frente a ele. — Ele orientou o homem imponente. Depois em voz baixa, assim a princesa não ouviria, ele instruiu a Timmons que preparasse o quarto de hóspedes.
— Imediatamente, Meu Lorde.
Em reação ao tratamento de Timmons, a princesa se virou e o encarou, surpresa.
— Quem é você? — Ela questionou.
— Simon Rothmore, Conde de Merrick, ao seu serviço. — Ele disse com uma ampla reverência. — Sinto muito por não ter me apresentado mais cedo.
Não pareceu muito feliz com o seu anúncio a inal. Ela apertou os lábios e se virou imediatamente para o fogo.
Alguns minutos depois, Timmons arrumava a mesa e colocava duas cadeiras ao redor para que eles se sentassem. Ele em seguida chamou a Sra. Turnbull, que veio equilibrando uma travessa de sopa fumegante, pão quente e um prato de carne.
Simon puxou uma cadeira e gesticulou para que a princesa se sentasse e então caminhou para tomar assento em frente a ela. Ele esperava que esta posição lhe desse oportunidade de estudá-la mais atentamente. Este jogo que eles praticavam, testava seriamente sua paciência.
Ela claramente pretendia ignorar o fato de que ele sabia que ela estava em perigo e encenava toda a coisa como se ele estivesse fazendo caridade para uma mulher que precisava de uma refeição quente. Não que ela não pudesse se bene iciar de uma.
Ela sentou-se com uma graça que contradizia sua aparência maltrapilha. As mãos dela tremeram quando ergueu a colher para experimentar a sopa. Ele franziu a testa ao se perguntar quando ela fez uma boa refeição. Poderia muito bem ter sido antes de os pais dela terem sido assassinados.
Ele a observava comer em silêncio. Ela estava quieta. Muito quieta. Parecia que não falava nada que não fosse cuidadosamente pensado. Ele precisava que ela falasse se quisesse ganhar sua con iança.
— Conte-me... Beth. De onde você é? Seu sotaque é quase intrigante.
A colher dela bateu na mesa e levantou o rosto consternada.
— Isso importa?
— Não, não. E claro que não. Estava sendo apenas curioso. — A tentativa dele em estimulá-la apenas fez com que ela se agitasse mais. Não ofereceria livremente qualquer informação.
Ela pôs a palma da mão sobre a mesa e se levantou.
— Eu realmente tenho que ir agora. Já abusei o bastante de sua generosidade.
— Besteira. — Ele se levantou e delicadamente envolveu sua mão ao redor do cotovelo dela, levando-a em direção a porta antes que ela protestasse mais. — Parece que você precisa de um descanso. Eu insisto que se retire até um dos quartos que eu preparei para você. Há um fogo aceso, assim você icará confortável. Nós conversaremos mais quando você tiver descansada.
Novamente ela se retesou e ele pôde ver as rodas girando em sua mente, assim como os de uma carruagem em fuga. A expressão dela tornou-se glacial e ela apenas assentiu em concordância. Para falar a verdade, ele nunca cruzara com uma pessoa que falasse tão pouco quanto ela.
Ele lhe mostrou o quarto no im do corredor, do lado oposto ao seu. Ele deu uma breve explicação sobre onde ela poderia encontrar as coisas que ela precisava e fechou a porta.
Tirando uma chave de seu bolso, ele silenciosamente a trancou por fora, esperando que ela não tivesse ouvido o clique suave. Ela icaria furiosa se tentasse abrir a porta, mas ele não poderia perdê-la agora.
Ele desceu as escadas, pretendendo enviar uma mensagem para Kirk.
— Timmons, eu preciso que você envie uma mensagem imediatamente, — Ele chamou enquanto se apressava até seu escritório.
Ele sentou-se e rapidamente escreveu uma mensagem, depois ixou seu selo pessoal e a con iou a seu mordomo. Inclinando-se de costas em sua cadeira, ele levou as mãos à sua nuca.
Encontrar a princesa lhe deu um enorme senso de alı́vio. Mas ela não estava a salvo ainda.
Ele estremeceu ao pensar no que poderia ter acontecido com ela hoje, se ele não tivesse intervindo na ponte. Os dois homens que a seguiam não pareciam o tipo que lidariam com ela gentilmente.
Imagens do irmão mais novo dela vieram a sua cabeça ao mesmo tempo em que Simon a imaginava caı́da na neve, o sangue emaranhado a seu cabelo e seus lindos olhos, mortalmente fechados.
Não se ele pudesse evitar. Muita coisa dependia da sobrevivência dela. O destino de que seu próprio paı́s poderia descansar com o restabelecimento da monarquia leaudoriana.
Ele levantou-se de sua cadeira e caminhou até parar em frente à janela. Olhava para a rua, recordando sua conversa com Kirk no dia em que o corpo do prı́ncipe fora encontrado. Kirk estava certo? Deveria pensar em se aposentar do Serviço Secreto de Sua Majestade?
Devotara toda a sua vida adulta a proteger os interesses da Inglaterra. Para desistir agora e abraçar uma posição como conde deixava um gosto ruim em sua boca. Era o que seu pai teria desejado.
Uma careta tomou o rosto dele ao pensar no seu pai. Não agora. Nunca permitiria que seu pai ditasse o curso de sua vida. Ele estava além da idade de tentar agradar seu senhor. Não que isso resultasse em algo bom.
Mas assim como seu dever com a Inglaterra estava em primeiro plano em seus pensamentos, o dever em relação a seu tı́tulo surgia como um prenúncio de uma tragédia. Um dever que ele nunca quis ou esperou.
— Maldição, Edward. — Ele murmurou. — Como você pôde fazer isso?
Um vislumbre de movimento na rua atraiu a sua atenção e ele viu Kirk descendo de uma carruagem e caminhando até a porta de Simon.
Alguns minutos depois, Kirk entrava no escritório de Simon, cheio de expectativa.
— Onde ela está?
Simon levou um dedo à boca.
— Ela está no quarto de hóspedes. Eu não quero perturbá-la.
— Como a encontrou? Nós procuramos em todos os lugares previstos.
— Eu recebi uma dica de um dos meus informantes esta manhã. Ela estava em um quarto alugado em uma área de initivamente perigosa da cidade. Eu estou surpreso por ela ter sobrevivido por tanto tempo.
Kirk assentiu.
— E agora? Você a levará até o palácio para ver o Regente? Ele provavelmente oferecerá
sua proteção e uma viagem segura de volta a Leaudor com um contingente de soldados ingleses. Ele está um pouco ansioso para restaurar a estabilidade do trono Leaudoriano.
— Eu acho que está correto em seu pensamento. Eu gostaria de ir até o palácio e arranjar o encontro com o Regente. Eu ganharei tempo para tentar e descobrir o máximo possı́vel sobre a princesa. Mas o principal é, ela estará segura no palácio.
— E longe das suas mãos. — Kirk disse com um sorriso. — Depois talvez você possa fazer uma pausa necessária. Fique um tempo naquela sua propriedade por um tempo e cace.
Estava na ponta de sua lı́ngua negar possuir uma propriedade. Velhos hábitos eram difı́ceis de mudar. Era incomum para ele possuir muita coisa. A vida dele como um agente não era propı́cia para ter mais do que as necessidades básicas.
Mas ele sabia que Kirk se referia à propriedade do pai de Simon. Aquela em que Simon havia crescido. E foi embora tão rápido quanto foi possı́vel. Um movimento que nunca lhe causou remorsos até o suicı́dio de seu irmão.
Ele não poderia adiar para sempre, a inal. Talvez Kirk estivesse certo. Talvez ele precisasse que um descanso e retornar para o lugar que um dia ele chamou de lar. Mas primeiro, ele tinha que levar uma princesa ao palácio.
— Vá até o palácio. — Ele orientou Kirk. — Diga a Sua Majestade que eu levarei a princesa à conveniência dele.
Kirk desapareceu pela porta e Simon lentamente se dirigiu para as escadas. Chegou o momento de ser claro com a princesa.
Ele parou um momento do lado de fora da porta dela, decidindo o melhor curso de ação.
Era uma pessoa direta e não havia razão para desviar disso agora. O melhor seria soltá-la e deixar que ela soubesse que ele estivera ciente da identidade dela, depois seguir a partir disso.
Isso, se ela não estivesse pronta para golpeá-lo na cabeça por trancá-la no quarto.
Destrancou a porta e a empurrou. Uma corrente de ar frio o atingiu diretamente no rosto.
— Que inferno…? — Murmurou enquanto terminava de entrar no quarto. O olhar dele vasculhou ao redor o quarto, agora, vazio até a janela aberta ao lado da cama.
A mulher tola pulara pela janela do segundo andar? Ele se preparou para olhar para baixo, meio esperando vê-la caı́da no chão lá embaixo. Mas tudo o que viu foram pequenas marcas de pés levando da janela até o portão de saı́da pelo jardim.
Ela se fora.
Capítulo Dois
Isabella caiu da janela sobre o chão suave, encolhendo-se ao sentir uma pontada em seu tornozelo. Rapidamente recuperada, ela se apressou a atravessar o pequeno jardim e sair pelo portão até o beco.
Ela parou no meio io e acenou freneticamente para uma carruagem que passava. O último dinheiro que ela possuı́a teria que ser gasto com o aluguel da carruagem. A refeição que ela acabara de comer a sustentaria até que ela pudesse pensar em uma forma de reabastecer seus fundos. Ela saltou para dentro da carruagem e incitou o cocheiro a avançar.
Ela olhava cegamente pela janela, o trá ico lá fora era um borrão. Os punhos se fecharam ao seu lado, suas unhas penetrando dolorosamente em suas palmas. O alı́vio diminuiu um pouco da tensão localizada em seu peito, mas ela sabia que ainda tinha muito a percorrer.
Quão próximo ela esteve de um desastre? E quem era o homem que havia entrado arrogante e propositalmente em seu caminho? Ela pôs o lábio inferior entre os seus dentes e o mordeu consternada. Este inglês teria ligações com a coroa britânica? E se ele tivesse...
Ela interrompeu o pensamento, a raiva fazendo-a a apertar os dentes contra seu lábio. O gosto ruim e metálico de sangue se espalhou por sua lı́ngua e ela relaxou o queixo.
Por que outra razão ele, um conde, ofereceria sua assistência a uma mulher comum e humilde? Ele sabia quem ela era? A ideia enviou uma nova onda de medo percorrer o corpo dela.
Havia muita coisa no conde que simplesmente não fazia sentido. Por que ele não vivia na área mais elegante? O conhecimento de Isabella sobre Londres era limitado, mas mesmo ela, sabia que a maioria dos seus pares vivia em Mayfair ou St. James. E por que ele não empregava uma equipe completa? Tal fato sugeria a ela que ele passava pouco tempo em sua residência.
Ela sacudiu a cabeça, odiando que o conde havia penetrado tão rudemente no topo de suas prioridades.
Ela devia voltar para casa. Agora que Davide não a encontraria na Inglaterra, a responsabilidade por seu paı́s recaı́a diretamente sobre os seus ombros. Ela era a única herdeira do trono e, se ela fosse incapaz de retornar e tomar a coroa, o caminho de Jacques para reinar estaria desimpedido.
A única esperança dela era que ele não tivesse sucesso em sua missão, porém ela não deveria contar com ele para preservar as tradições de seu paı́s, o que esteve em vigor por séculos. Ele já havia provado que ele faria o que fosse necessário para deter este objetivo. O que era a viagem sagrada para o Penhasco de Mármore quando ele havia feito coisa pior?
O estômago dela se agitou e o medo a paralisou brevemente. E se ela fosse incapaz de completar sua missão? Ela fechou os olhos. Falhar não era uma opção. Contemplar tal coisa seria admitir a derrota.
Uma unha quebrou e ela soltou os dedos de seu aperto de aço. Sob nenhuma circunstância ela permitiria que um assassino traidor acabasse com tudo pelo que o pai dela havia trabalhado.
Quando a carruagem inalmente parou, ela saltou e correu até o prédio onde ela alugava um quarto. Ela rapidamente analisou seus escassos pertences e pegou apenas as coisas que ela poderia facilmente carregar.
Não dando importância para o tecido, ela arrancou a roupa de seu corpo, abaixou-se e, debaixo da cama, ela puxou um par de calças que ela havia escondido ali. Ela en iou as pernas nas calças que tanto se assemelhava àquelas que Davide havia usado no último dia que ela o vira. Lágrimas encheram os seus olhos e ela com raiva, as secou. Sua dor a deixava desconfortável, mas ela não podia ceder à dor esmagadora que crescia dentro dela. A vida dela dependia das ações que ela izesse agora, neste momento.
Quando ela terminou de vestir as calças, ela pegou o vestido descartado e rasgou a saia dele em longas tiras. Envolvendo as tiras ao redor dos seios, amarrou as pontas na frente e as escondeu na costura. Ela passou a camisa pela cabeça e as en iou dentro da calça.
Curvando-se sobre o pequeno catre, ela remexeu nos tecidos atrás da pequena peça de pergaminho enrolado que ela havia soltado da barra de seu vestido. Ela puxou a gola da sua blusa e en iou o mapa no meio das tiras amarradas a seus seios. Ela pegou o seu anel com a insı́gnia real, sua mão fechando-se reverentemente ao redor do objeto que era sua herança.
Jogando-o dentro de uma bolsa, ela puxou as cordas com força e en iou na parte de dentro da cintura de suas calças.
Eles eram tudo o que lhe foi deixado de valor. A maior parte do dinheiro dela foi gasto atrás de informações sobre Davide. E depois, em uma das pequenas e doentias ironias da vida, ela leu sobre a morte dele em um jornal. Oculto em preto e branco, ao que tudo indicava sem importância, um mero aperitivo de interesse para os ingleses.
Ela lançou um rápido olhar ao redor do quarto, certi icando-se de não ter deixado nada que indicasse sua identidade. Após olhar para as suas unhas quebradas, ela levou seus dedos até a boca e roeu as longas unhas até um tamanho mais aceitável. Como última medida, ela en iou o seu cabelo em um chapéu mole e saiu do quarto.
Com cuidado para ajustar sua caminhada, ela imitou os passos de um jovem garoto enquanto ela ia em direção à rua. Ela precisava de um lugar para pensar. Algum lugar que ela pudesse formular um plano para voltar para casa.
Instintivamente, ela caminhou em direção às docas. Levaria horas para chegar lá a pé, no entanto, se ela pudesse se esconder em um barco como ela izera quando deixou Leaudor, ela ganharia um valioso tempo para planejar seu percurso.
Por enquanto ela deveria obter a maior distância possı́vel de Lorde Merrick.
A cada quarteirão que ela passava, ela tomava o cuidado de observar ao redor para se certi icar que ninguém a seguia ou que ela não era notada. Mas quando ela não viu nada diferente do que outros pobres cidadãos desesperados que praticamente corriam em um esforço de se manterem quentes.
Ela assoprou sobre suas mãos geladas depois as esfregou nas calças. Seus pés estavam dormentes dentro de uma pequena bota na qual ela en iara seus pés descalços, fazendo com que o ato de caminhar fosse uma agonia.
Com uma hora de caminhada, ela parou de repente. O seu pânico havia com que ela quase cometesse um erro estúpido. Rapidamente ela se virou, apressando-se a seguir na direção contrária. Pense, Isabella, pense! As docas seriam o primeiro lugar em que eles procurariam por ela. Provavelmente havia um bom número de pessoas a vigiando, apenas esperando que ela embarcasse em algum navio.
Tão determinada quanto estava para retornar para casa, ela não poderia se dar ao luxo de perder tempo. E ela permitira que o conde a atrapalhasse totalmente.
Ela escolheu as ruas menores e detrimento as vias principais. O frio se arrastava por cada poro do corpo dela. Ela tinha que encontrar um lugar onde ela pudesse estar segura por um tempo. Algum lugar quente.
Deus, por que sua mente não funcionava? Senso comum e praticidade eram os pontos fortes dela, mas agora eles desvaneciam na escuridão enquanto ela se debatia para elaborar um plano para voltar para casa.
Incapaz de dar outro passo com seus pés congelados, ela se jogou no chão em um beco próximo, rezando para que ninguém percebesse que era uma mulher. Mesmo o disfarce de rapaz não a ajudaria nesta área da cidade, como ela rapidamente aprendera durante sua estadia ali. Havia muitos bandidos que sentiam prazer com garotos assim como sentiam com as mulheres.
Abraçando seus joelhos apertados ao peito, ela se sacudia para frente e para trás, tentando aquecer o seu corpo. Apoiou sua cabeça sobre os joelhos. A exaustão mantinha um aperto forte sobre ela. Chamava-a, embalando-a cada vez mais profundamente em sua toca.
Pense, ela ordenou, batendo os dedos em desespero. Não poderia pegar um navio. Era muito óbvio. Também não poderia marchar até o palácio e exigir uma audiência com o prı́ncipe.
Alguém com posição real a traı́ra uma vez, talvez até fosse o próprio regente. Não lhe daria uma segunda chance.
Ela teria que ir sozinha. Dover não era uma possibilidade. Ela chegara à Inglaterra por Dover e os portos estariam sob vigilância. E esperavam que ela fosse para o norte na tentativa de diminuir o tempo de viagem até Leaudor.
Sul. Era isso. Ela iria para o sul, por Brighton. Ela poderia penhorar seu anel e usar os recursos para embarcar em um navio para Leaudor. Seria arriscado, mas se ela oferecesse
dinheiro su iciente, ela tinha certeza que encontraria um capitão disposto.
Sentindo-se um pouco melhor sobre o seu plano de ação, ela fechou os olhos por um momento. Ela só precisava descansar por alguns minutos. Depois ela descobriria um jeito de chegar a Brighton. Seus olhos fecharam e ela icou anestesiada pelo frio. Sim, apenas alguns minutos.
O vento soprava ao redor dela, levantando o chapéu de sua cabeça e uma rajada de ar frio atingiu o seu pescoço. No fundo das reentrâncias de sua mente, um alarme soou que o cabelo dela estava exposto, mas o encantamento do sono a levava cada vez mais longe em seu abraço.
* * *
Começara a chover e o vento aumentou, levando o vento mordaz para dentro do seu casaco, como se ele não estivesse usando nada. Simon se retirou das docas, sua preocupação aumentando à medida que ele se lembrava da falta de proteção que o limitado guarda-roupa da princesa oferecia.
Ele havia ido imediatamente até o quarto que ela havia icado, apenas para encontrá-lo vazio. A única coisa que icara foram vestı́gios de seu vestido. Freneticamente ele procurou nas áreas próximas, depois seguiu até as docas, pensando que ela poderia tentar conseguir uma passagem para casa. Mas a princesa perdida, aparentemente tinha outras ideias.
Ao subir à carruagem, ele orientou o cocheiro a começar com um pequeno cı́rculo ao redor da área. Ele iniciou a busca por cada rua em um grande raio ao redor do cortiço onde ela icara. Ela não poderia ter ido muito longe, levando em consideração o tempo que ela havia escapado da sua casa.
Ele tinha pressa. A escuridão cairia em breve e ele teria poucas chances de encontrá-la nos becos sombrios dos subúrbios. Ao amanhecer, ela possivelmente estaria a quilômetros de distância e com isso, acabaria sua chance de encontrá-la novamente. Isso se ela sobrevivesse à
noite no distrito infestado de criminosos.
A medida que a carruagem lentamente vagava de uma rua para a outra, ele mantinha seu olhar treinado em cada movimento, em cada pessoa. Ele via coisas que muitas outras ignorariam, mas então, ele tinha anos de prática. Em sua linha de trabalho, um olhar atento signi icava a diferença entre a vida e a morte.
Ao mesmo tempo em que as sombras cresciam, sua impaciência aumentava. Ela deveria ser seguramente escoltada até o palácio real para icar sob a proteção do regente. Em vez disso, ela fugira e agora poderia estar em sério perigo.
A ideia de ela ser machucada apertava suas vı́sceras e fez sua resolução de encontrá-la ainda mais forte. Ela não sabia disso ainda, mas ele era a melhor esperança de ela permanecer viva.
— Pare! — Ele gritou. Estava fora da carruagem antes que ela parasse completamente.
Ele correu para o beco, rezando para o que pensou ter visto fosse realidade.
A princesa estava deitada enrolada em uma bola apertada, seu cabelo escuro espalhado sobre ela. Vestia calças e camisa de homem, mas o seu cabelo era seu caminho para a morte. Ao seu lado estava caı́do um chapéu esfarrapado, provavelmente servia para completar o seu disfarce.
Ele se ajoelhou ao seu lado, a preocupação aumentando quando tocou a sua pele pálida e a sentiu gelada. Sacudiu-a gentilmente, mas ela não se moveu. O medo se instalou na boca de seu estômago. Erguendo-a em seus braços, ele apressou-se para voltar à carruagem e gritou o endereço de sua casa da cidade.
Durante o percurso, ele envolveu o seu casaco ao redor dela e esfregou seus braços, tentando desesperadamente aquecê-la. A respiração dela era fraca, seu peito mal subia com seu esforço. Ela parecia vulnerável e indefesa em seus braços.
Os ossos em sua face possuı́am estruturas delicadas e seus lábios cheios a mais adorável nuance de rosa. Seus cı́lios escuros repousavam sobre as pequenas manchas que indicavam sua fatiga. Ela era uma mulher que um homem instintivamente quisesse protegê-la, um sentimento que não combinava muito bem com ele. Em sua posição, ele não poderia se dar ao luxo de ter fraquezas. O quanto antes ela saı́sse de seus cuidados e fosse entregue em segurança para o regente, melhor.
Momentos depois, eles pararam em frente à sua casa e ele se apressou a entrar, carregando seu corpo leve com ele. Ele gritou uma série de ordens para Timmons e para a Sra.
Turnbull e eles agilizaram em cumpri-las.
Passando pelo dormitório em que ele a trancara mais cedo, ele seguiu seu caminho até o seu próprio quarto e a deitou na cama. Um fogo queimava na lareira e o calor invadiu seus ossos. Ele só esperava que pudesse aquecê-la rápido o bastante.
— Nós deverı́amos chamar um médico. — A Sra. Turnbull disse ao entrar no quarto com uma bandeja de sopa e chá.
— Não. Nós não podemos. — Simon murmurou.
Ela o olhou pasma.
— Eu não preciso recordá-la que, em minha linha de trabalho discrição é algo de extrema importância.
— Mas a pobrezinha está perto de morrer congelada!
— Você tem muitas habilidades médicas. Eu con io em sua aptidão. Tenho certeza de que você terá uma Beth rosa-saudável antes do amanhecer.
As bochechas da velha senhora icaram ligeiramente avermelhadas e um sorriso agradável se espalhou por seu rosto.
— Sim, bem, é claro que eu posso. Pedirei alguma privacidade. Isso quer dizer que você
não poderá icar.
Ela o encarou salientando isso e, com um suspiro, ele se levantou.
— Estarei lá embaixo, em meu escritório. Avise-me se precisar de algo. Se ela recobrar a consciência, noti ique-me imediatamente. E, sobre qualquer circunstância, deixe-a sozinha. — Ele alertou.
Em seu escritório, ele serviu um pouco de conhaque e se esquentou perto do fogo. A princesa havia provado ser uma tarefa muito mais complicada do que ele pensara. De fato, ele a imaginara caindo aliviada em seus braços e implorando por sua proteção. Em vez disso, ela fugiu.
Uma ruga se formou no cano de sua boca. Ganhar sua con iança provou-se impossı́vel. E a con iança dela era essencial para que ele cumprisse sua missão. A segurança da Inglaterra era sua maior prioridade. E até que ele pudesse descobrir a razão por trás dos assassinatos dos familiares dela, ele não poderia dar-se ao luxo de ser negligente em sua missão.
— Meu senhor, o Sr. Kirkland está aqui para vê-lo. — Timmons avisou da porta.
— Traga-o aqui.
Simon esfregou a sua nuca e aprumou sua postura enquanto esperava por Kirk. Segundos depois, Kirk atravessava a porta, com vincos estragando o seu rosto.
— Onde você esteve? — Kirk perguntou.
— E uma longa história. — Simon murmurou. — Quais as notı́cias que você traz do palácio?
— Sua Majestade deseja que você apresente a princesa para ele pela manhã.
Simon fez uma careta. Isso queria dizer que ela deveria passar a noite sob o seu teto e ele dormiria pouco para garantir que ela não escapasse mais uma vez.
— Informe à Sua Majestade que eu apresentarei pessoalmente a Sua Alteza a ele, pela manhã.
Kirk assentiu.
— Eu entregarei a sua mensagem a ele pessoalmente.
Ele virou-se e caminhou resolutamente para fora da sala, deixando Simon parado ao lado do fogo.
Simon girou e deixou sua bebida na mesa. A Sra. Turnbull permitindo ou não, ele iria ver como a princesa estava evoluindo. Estava na hora de eles terem uma conversa franca.
Ele subiu as escadas até o seu quarto e bateu levemente à porta. Sem esperar por uma resposta, ele a abriu e entrou.
— Você não deveria estar aqui. — A Sra. Turnbull o repreendeu de sua posição ao lado da cama da princesa.
— Como ela está? — Simon perguntou, ignorando as reprimendas da mulher.
— Pergunte a ela?
Lentamente a cabeça da princesa virou e ela olhou diretamente para ele com seus olhos da cor do oceano. Ele não era capaz de ler nada em suas profundezas, nenhuma dica do que ela
estava pensando. Ele cruzou o quarto e parou ao lado da cama.
— Deixe-nos a sós por uns momentos, Sra. Turnbull.
A Sra. Turnbull ia começar a protestar, mas ele a silenciou com um olhar ameaçador.
Grunhindo para si mesma, ela saiu, mas deixou a porta aberta.
Ele voltou sua atenção à princesa.
— Como se sente?
— Estou bem. — Ela disse com irmeza.
— Então, Vossa Alteza, acho que nós temos muito a conversar.
Capítulo Três
Isabella piscou sobressaltada, mas rapidamente se esforçou para mascarar qualquer reação sua à a irmação dele. O coração dela batia descontroladamente em uma rápida sinfônica, no entanto ela forçou uma nota de perplexidade em sua voz.
— Meu senhor, temo que você foi mais afetado pelo frio do que eu. Por que se dirige a mim assim?
— Não precisa ser evasiva, Vossa Alteza. Há muito em jogo. Eu sei quem você é. Eu sabia antes mesmo de interceptá-la na ponte.
Ela a encarava, seu ar prévio de inocência sumiu. Intensos olhos castanhos, quase tão escuros quanto os seus cabelos, a itavam inquietantemente. Ela estremeceu involuntariamente. O homem a quem ela estivera tão con iante em escapar mais cedo se fora.
Em seu lugar havia um adversário formidável, um capaz de atravessar as camadas de mentiras que ela criara.
— Peço perdão, meu senhor, mas eu acho que está me confundindo com outra pessoa.
Ele sentou-se na cama, ao lado dela e ela precisou de cada grama de disciplina para não se afastar dele.
— E imperativo que nós tenhamos uma conversa franca. Não apenas a sua vida está em risco, mas a segurança do meu paı́s está vulnerável.
— Você está me ameaçando? — Esquecida momentaneamente de seu medo as ixiante, ela foi tomada por uma raiva fervescente. Ela não seria ameaçada e nem intimidada. Ela á
perdera demais para se esconder como uma donzela infeliz. Se o inglês pensava que ela era uma mulher fraca e desamparada, então ele teria uma surpresa.
O rosto dele icou mais duro.
— Na realidade não, Vossa Alteza. Eu procuro protegê-la daqueles que tentam feri-la. Eu deveria ter sido mais comunicativo, mas não quis assustá-la até que eu tivesse certeza absoluta de sua identidade.
— Perdoe-me por eu não me jogar a seus pés em gratidão. — Ela disse asperamente. — Eu não con io em ninguém.
— Em seu lugar, eu também não con iaria.
— Chega de adulação. Se você acha que eu sou a princesa de quem fala, não há nada que eu possa fazê-lo para persuadi-lo do contrário. Eu não me importo com quem você acha que eu sou. Eu apreciei a sua ajuda, mas eu devo partir imediatamente.
— Eu nunca disse que eu achava que você era uma princesa. — Ele disse docemente.
Maldito deslize e que desgraça ele ter rapidamente identi icado o seu erro. Ela olhou rapidamente pelo quarto, avaliando as suas possibilidades.
— Eu não aconselho a sair pela janela. — Ele disse com um leve sorriso. — A roseira lá
embaixo não proporcionará uma aterrissagem confortável.
— Você pretende me manter prisioneira?
— Se necessário.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Com qual autoridade você vai me manter aqui contra a minha vontade? — A mente dela pensava enquanto ela procurava distraı́-lo com sua pergunta. Como ela poderia escapar?
Este homem poderia muito bem ter sido enviado pelo Regente para eliminá-la. Mas por que ele demorava? Ele poderia a ter matado facilmente antes, mas em vez disso, ele parecia mais preocupado com o seu bem-estar.
A menos que ele quisesse extrair informações antes de matá-la. Ela apertou os lábios em uma linha irma. Ele claramente não tinha ideia com quem ele estava lidando. Ele não tiraria nada dela e nem teria sucesso em sua tentativa de terminar com o reinado dos Chastaines. Ela era a rainha agora e, até o seu último suspiro, ela serviria a seu povo e continuaria o legado de seu pai.
— Obviamente nós tivemos um péssimo começo. Eu não pretendo machucá-la. E exatamente o inverso. Eu estive desesperado para encontrá-la assim que poderia protegê-la.
Meu único lamento foi não ter encontrado o seu irmão a tempo.
A mais pura agonia rasgou através de seu peito. A respiração rápida dela a fez se sentir tonta e ela mordeu o interior da bochecha para controlar a enxurrada de lágrimas em seus olhos. Por alguns segundos ela lutou para controlar suas emoções.
— O que você sabe sobre o meu irmão? — Ela quis dizer isso como se fosse uma ordem, mas saiu como uma súplica e ela piscou diante da dor que ela ouvia em sua própria voz.
Para seu crédito, ele não a provocou com sua súbita mudança de negar sua identidade. Os olhos dele estavam suavizados por pena. Ele esticou uma mão e cobriu a dela, mas ela a puxou ao mesmo tempo em que uma sensação calorosa tomava o seu braço.
Ela o olhava com cautela, esperando sua resposta, temendo o que ele teria a dizer.
— A única coisa que eu sei é que ele foi morto assim que saiu do navio em Harwich.
O tom dele re letia simpatia, mas então, isso poderia ser uma ação para obter a sua con iança.
— Nós achávamos que vocês dois haviam ido para a América, mas quando encontramos o corpo dele, nós percebemos que você, provavelmente, estaria aqui.
— Quem exatamente é "nós"? — Ela perguntou, suas suspeitas sobre ele aumentando a cada minuto.
— As pessoas para quem eu trabalho.
— E quem são elas?
Ele a observou por um longo momento, como se tentasse decidir se deveria con iar nela.
Ele quase riu. Ele não tinha nada a temer, ao contrário dela.
— Eu trabalho para um pequeno ramo do Serviço Secreto de Sua Majestade. Nós recebemos instruções do regente e temos interesse no que é melhor para a Inglaterra como objetivo. Nosso braço foi criado pelo Rei George logo depois que Bonaparte foi nomeado cônsul vitalı́cio em 1802. Dois anos depois, fui recrutado e comecei a minha carreira na agência.
— Nosso principal propósito era monitorar as atividades de Bonaparte e descobrir para a coroa, quaisquer planos que possuı́am potencial para minar o trono inglês. Talvez, você possa ver agora a razão do que aconteceu em Leaudor, ter atraı́do a nossa atenção.
— Realmente. — Ela disse com amargura. — Longe disso, a Inglaterra estar preocupada com assassinatos da famı́lia real se não os ameaça de alguma forma.
Ele icou em silêncio, nem defendeu e nem concordou. Ela já havia falado demais. Ela roubou um vislumbre da janela. Com roseiras ou sem, a fuga era prioridade.
— Vossa Alteza, o prı́ncipe regente, está preocupado com a sua segurança e deseja uma audiência com você pela manhã. E minha responsabilidade acompanhá-la ao palácio e protegê- la.
Ela bufou.
— Eu espero que você não leve suas obrigações muito a sério.
Ele ergueu uma sobrancelha, evidentemente surpreso com a explosão dela.
— Não tenho certeza se eu entendi o que você quis dizer.
— Deixe-me ser bem clara, então. Eu não tenho intenção em ir a qualquer lugar com você.
Principalmente ao palácio. — Ela se esforçou para sentar-se, jogando os pesados cobertores.
Ela soltou um suspiro de irritação quando uma onda de fraqueza a abateu, deixando-a trêmula e com a respiração pesada.
Mãos irmes a deitaram sobre os travesseiros.
— Você deve descansar e recuperar as suas forças. Você passou por uma grande provação.
Eu sei que você não tem motivo para con iar em mim, mas no momento, eu sou o que você tem.
Ela fechou suas mãos em punhos por baixo dos cobertores e trincou os dentes, frustrada.
Mas a sua temporária fraqueza poderia servir para seus propósitos. Quando a guarda dele estivesse completamente baixa, ela escaparia novamente. Só que desta vez ela daria o seu melhor em sua fuga.
Recostando-se na cama, ela fechou os olhos e suspirou o que ela esperava soar como derrota.
— Você está certo, claro.
— Nós precisamos conversar, Princesa. Mas ao fazer isso, eu preciso que você seja honesta comigo.
Ela abriu os olhos e o olhou com receio para ele.
— O que exatamente você deseja discutir? — Claramente, este era um homem acostumado a fazer tudo do seu jeito. Não havia arrogância em seus modos, apenas certa con iança que irradiava a cada movimento.
— Eu preciso lhe fazer algumas perguntas. Perguntas dolorosas. Mas se eu for ajudá-la, precisarei de suas respostas.
— O que o faz pensar que eu preciso de sua ajuda? — Ela perguntou estreitando seus olhos.
Ele pareceu surpreso com a reação dela.
— Talvez nós possamos ajudar um ao outro.
— Faça as suas perguntas. — Ela disse em um tom exausto.
* * *
Simon mordeu a sua lı́ngua pela centésima vez em frustração. Enfurecida e não muito animada em conversar, ela não divulgara nada.
Agora a sua irritação crescente somado à grande curiosidade sobre esta mulher incomum estava sobrecarregando a sua mente. Ela era diferente de qualquer pessoa que ele conhecera, homem ou mulher. Mesmo em seu estado de fraqueza, ela o desa iou e não lhe deu clemência.
— Talvez nós devêssemos esperar até que estivesse mais descansada. — Ele ofereceu.
Claramente ela não tinha planos de cooperar com ele.
— Eu não tenho planos em icar em sua companhia por mais tempo, meu senhor. Eu sugiro que você pergunte o que quer saber agora.
— Aonde você irá? Parece que você tem poucas chances, além de con iar em mim.
— Sua con iança é admirável, mas exagerada. Eu consegui sobreviver sozinha por todos estes meses e não preciso de sua proteção.
Ela levantou o queixo em desa io e seus olhos queimavam radiantemente a sua determinação. Ela obviamente acreditava em cada palavra que dizia. Ele não gostava muito da ideia de levá-la ao palácio contra a sua vontade, mas ele faria se fosse necessário.
— Você sabe quem é o responsável pelos assassinatos de seus pais e do seu irmão?
— Se eu soubesse, você acha que eu estaria me escondendo na Inglaterra como uma covarde comum?
O desgosto escorria de sua voz assim como a geleia de um bolinho.
— Percebo. Você tem alguma ideia do motivo que eles foram assassinados?
Ela mordeu o lábio.
— Talvez você devesse perguntar a seu próprio governo.
Ele a olhou nefastamente.
— Com certeza você não está sugerindo que a Inglaterra tenha alguma relação com este ataque abominável.
Ela pressionou os lábios e olhou rebeldemente para frente, recusando-se a dizer qualquer coisa a mais.
Ele se levantou e começou a andar. A pequena moçoila era boa. Muito boa. Ela havia conseguido atraı́-lo para um assunto que ela sabia que ele cairia. Ele quase sorriu. Ela era uma criatura instável.
Ele parou e a olhou novamente. Estava na hora de ser irme com ela fazê-la renunciar a fuga.
— Estou lhe oferecendo minha ajuda, Vossa Alteza. Minha proteção e a do meu paı́s. Eu iquei indignado com esta farsa que ocorreu tanto em Leuador quanto em nossa costa. — Ele se aproximou da cama. — E claro, eu estou preocupado com as rami icações do que ocorreu e o que isso pode signi icar para a Inglaterra, mas eu nunca toleraria um ato de violência tão sem sentido, não importa o culpado. E você tem a minha palavra como cidadão inglês de que eu não a quero ferida e farei tudo em meu poder para encontrar o responsável pela morte de sua famı́lia.
— E não sua palavra como um nobre? — Ela perguntou acusadoramente.
— Minha palavra como cidadão inglês tem mais valor do que a minha palavra como Conde de Merrick. — Ele disse obscuramente.
Um brilho de incerteza cruzou o rosto dela, o primeiro sinal de alguma coisa que denotava vulnerabilidade.
— Seu sentimento é apreciado, meu senhor, mas se você estivesse em meu lugar, con iaria facilmente no primeiro homem que se comprometesse com sua proteção?
— Suponho que não. — Ele disse com relutância.
— Eu tenho as minhas razões para não con iar na Inglaterra. — Ela disse em voz baixa. — E eu não posso me permitir a cometer erros e comprometer novamente o futuro do meu paı́s.
— Do que você está falando? — Ele perguntou perspicazmente. As dicas vagas estavam começando a irritá-lo. Se houvesse uma razão para ela não con iar em seu governante, ele malditamente gostaria de ouvir sobre o assunto.
Um lamento genuı́no cruzou o rosto dela antes que mais uma vez ela mascarasse sua resposta.
— Embora a ideia de ser capaz de con iar em alguém me atraı́a, há muito risco para que eu o faça. Aprecio a sua generosidade, mas eu devo me separar de você. Se você realmente ignorar o que estou falando, então eu o colocarei em risco por icar aqui.
Simon trincou os dentes, pronto para explodir. Era tudo o que ele poderia fazer para não sacudi-la. O que ela estava fazendo com ele? Após tantos anos sendo um agente frio e imperturbável, uma mera mulher escorregadia o deixou prestes a abandonar o pro issionalismo e uivar de frustração.
— Talvez após o seu descanso, você enxergue as coisas de maneira diferente. — Ele disse em um tom seguro. Ele virou e caminhou até à porta. As botas dela, retiradas pela Sra. Turnbull,
sem dúvida, descansavam ao lado da porta. Ele se abaixou e as pegou. Deixe-a escapar, mas descalça. Antes de sair do quarto lançou um olhar para a princesa. Ela nem ao menos olhava para ele.
Com uma ofensa sussurrada fechou a porta atrás dele, trancando-a e guardando a chave em seu bolso. Desta vez, ele não sentia remorsos por trancar a porta.
Lá embaixo, ele chamou Timmons.
— Ponha um homem em pé sob a janela e na frente da porta do meu quarto. Sob nenhuma circunstância é permitida a entrada ou saı́da de qualquer um daquele quarto. — Ele jogou as botas de Isabella para Timmons. — Seque-as perto do fogo. Elas estão bastante úmidas.
Timmons assentiu.
— Algo mais, meu senhor?
— Peça a minha carruagem.
* * *
— Eu não sou mais capaz de dissuadir o prı́ncipe. — Kirk disse. — Ele deseja ver a princesa pela manhã em sua sala de reunião privada.
Simon bateu seu punho na mesa.
— Há algo errado nesta situação toda e eu não consegui tirar uma palavra da princesa. Já
vi amêijoas com a boca mais aberta.
— Talvez ela relate os problemas dela para o prı́ncipe.
— Duvido. — Simon disse sombriamente. — Ela teme ir até a coroa. Ela não me dirá o porquê.
— Deixe que o regente lide com o assunto. — Kirk aconselhou. — Você fez tudo o que podia.
— Eu sei, mas há algo que ela não vai me dizer. E eu suspeito que seja alguma coisa importante.
— Eu sei o quanto você odeia a ideia de forçá-la, mas parece que você não tem outra escolha. Você deve levar a princesa pela manhã.
Isso não dava tempo a Simon ganhar a con iança dela. E o fato de ele levá-la ao palácio contra a sua vontade apenas cimentaria a ideia de que ele estava agindo contra os interesses dela. O Diabo o levasse! O trabalho dele raramente lhe apresentava um quebra-cabeça que o atormentasse como o atual.
— Não se martirize, Merrick. Sua Majestade me pediu para que lhe transmitisse sua gratidão pela velocidade com que você localizou a princesa. Ele estava muito preocupado sobre as consequências que pudessem ter no caso de um novo governante em Leaudor que não fosse um dos membros remanescentes da famı́lia Chastaine.
Então porque ele se sentia como se estivesse cometendo uma traição do pior tipo? Ele deveria se sentir orgulhoso. Cumprira sua tarefa e, como normalmente, fora bem-sucedido onde outros haviam falhado. Mas desta vez, tudo o que sentia era um vazio dolorido.
Olhos azuis turquesa assombravam a sua mente. Um rosto frágil escondendo a força estrutural e uma suavidade que era enganosa. Ela já havia sido magoada o su iciente e ali estava ele, preparando-se para entregá-la ao prı́ncipe como um pedaço de carne no mercado.
Kirk bateu em seu ombro.
— Vá para casa e durma um pouco. Você parece como o inferno e terá um horário com o regente.
Simon assentiu para Kirk e saiu do prédio que abrigava o escritório deles pelos últimos cinco anos. Em um local inde inido, estava longe de possuir os confortos usuais de um conde.
Mas então, sua própria casa na cidade estava localizada em uma área que atendia mais a comerciantes, médicos e procuradores do que membros da aristocracia.
Enquanto ele subia em sua carruagem, ele levou seus pensamentos para como teria sido a sua vida se ele tivesse seguido os caminhos de seus antepassados. Uma casa em Mayfair quando o Parlamento tivesse sessões. E icaria na sua casa de campo em Hertfordshire ao norte de Londres fora da temporada. Incontáveis assuntos da sociedade. Mulheres vãs e mimadas, todas disputando seus dinheiro e prestı́gio, sem mencionar o tı́tulo de Condessa de Merrick.
Todas as coisas que seu irmão teria abraçado com alegria. Ou assim ele pensava. Tristeza e raiva se reviravam dentro dele e fazia seu peito se apertar. Por que Edward? Por que você fez isso?
Seu pai, que nunca soube muito bem o que fazer com ele antes da morte de seu irmão, focou sua atenção nele nos meses seguintes à morte de Edward. Implorando que ele voltasse para casa e vivesse a vida que se esperava de um futuro conde.
O conde havia dado grandes passos para superar as brechas intransponı́veis entre ele e Simon; como se algumas palavras bem colocadas pudessem superar uma vida inteira ignorando seu ilho mais novo. Era muito tarde.
Até então, Simon havia estado muito ocupado em sua posição na agência para desisti-la tão prontamente. E muito ressentido com um pai que nunca o deu o devido valor e que agora esperava que ele largasse tudo e retornasse ao rebanho.
Simon crescera sozinho, embora tivesse Edward e seu pai por perto. Talvez esse fosse o motivo pelo qual ele se identi icava tanto com a situação difı́cil da princesa. Ele sabia muito bem o desconforto da solidão e mesmo após ter crescido e gostar dela.
O pai dele nunca perdoou o fato de que a sua mãe morrera dando à luz a ele. Desde suas primeiras lembranças, ele sentia o ressentimento de seu pai, sua determinação em esbanjar toda a atenção e amor em Edward. Sempre Edward. As coisas teriam sido diferentes se sua mãe não houvesse morrido? Eles teriam apreciado a proximidade de uma vida familiar se ela tivesse sobrevivido?
No inal, um tı́tulo que seu pai nunca pensou que ele poderia manter tornou-se dele, pois menos de um ano após a morte de Edward, seu pai morreu dormindo. Eles nunca se reconciliaram. Simon nunca teve a oportunidade de lhe perguntar o porquê.
Enquanto a carruagem parava em frente à sua casa, ele suspirou, uma forte melancolia tomou conta dele como uma nuvem negra em um dia de primavera. Não importa o quanto ele se resignou com o seu futuro, ele ainda teria que chegar a um acordo com ele. Ele sacudiu sua cabeça, tentando fazer com que aquela capa de tristeza se dissipasse. Talvez Kirk estivesse certo. Talvez ele precisasse de algum tempo longe da agência. Um tempo para resolver a bagunça que ele herdara.
Cansado, ele subiu os degraus de sua casa e atravessou a porta. A ideia de levar a princesa ao palácio contra a vontade dela deixava um gosto ruim em sua boca.
Ele lertou rapidamente com a ideia de deixar o assunto quieto até o amanhecer, mas até
lá, ela provavelmente já teria encontrado um jeito de fugir novamente. Resolvendo confrontar a princesa persistente, ele caminhou até o seu quarto e tirou a chave de seu bolso.
Quando abriu a porta, sentiu um fulgor de culpa por perturbá-la quando ela, tão visivelmente, necessitada de um descanso. Então ele olhou ao redor do quarto e a encontrou parada na janela, suas costas viradas para a porta. Ela estava usando as mesmas calças de quando ele a encontrou e seu traseiro era claramente visı́vel pelo material leve. Um material extremamente leve.
Os suaves contornos do corpo dela estavam lá, em toda a sua glória, para a sua contemplação. Ele quase fez um ruı́do de repulsa. De auto-repulsa. Pois, por mais que tentasse, não era capaz de desviar seus olhos das agradáveis formas. Ele sentiu um estranho movimento, não de todo desagradável, trabalhando profundamente em seu corpo.
A ideia de que alguém pudesse confundi-la com um rapaz era risı́vel. Ela tinha sorte de que fora ele quem a encontrara e não alguém que se interessasse pelo bem-estar dela.
Seus pés descalços apareciam pelas pernas das calças e ele sentiu uma culpa momentânea por ter levado as suas botas. Ele fez uma nota mental para certi icar que a Sra.
Turnbull providenciasse meias para ela.
Quando a porta se fechou com um suave clique, ela girou o corpo, seu longo cabelo escuro balançando ao redor dela. Mesmo desarrumada ela era magnı́ ica. Ela ixou os olhos nele.
— Meu carcereiro voltou.
— Noto que o seu temperamento não melhorou em minha ausência.
A isionomia fechada que ele começava a odiar, ocupou todo o seu rosto. Ele conseguia imaginar o ódio borbulhando em baixo da fachada calma.
Ele sentou-se na cama e encontrou o olhar dela sobre ele.
— Eu tentei fazer com que con iasse em mim e percebi que não é algo que eu posso conseguir no pouco tempo em que nos conhecemos. Então eu não tenho escolha, a não ser