• Nenhum resultado encontrado

Passara uma hora desde o amanhecer e ainda não havia sinal de Kirk. Simon caminhava lentamente, parando periodicamente para checar seu relógio. Ele lançava olhares para a princesa adormecida. Ela estava encolhida embaixo do cobertor ino, sua cabeça encostada no braço do sofá. Levou cada grama de persuasão para convencê-la a descansar enquanto ele vigiava e inalmente, os olhos dela se fecharam.

Mesmo após ele a ter salvado dos atacantes, ela não con iava completamente nele.

Enquanto isso o aborrecia, ele conseguia entender sua reticência. Em seu lugar, ele provavelmente não con iaria também. Mas ele admirava sua tenacidade. Ela era diferente de qualquer mulher que ele já conhecera.

E realmente, parecia que ela tinha habilidades consideráveis em se livrar de atacantes indesejáveis. De que outra forma ela teria escapado de dois homens no quarto? A con iança dela no corredor enquanto ela lhe dava instruções de qual homem ele deveria derrubar não tinha precedentes. Ela claramente sabia que as chances lhe eram favoráveis.

Não era a primeira vez desde que ela foi atacada que ele se amaldiçoava por não ter tido mais cuidado. A a irmação dela de que a Coroa Inglesa estava envolvida no plano para assassiná-la havia caı́do em ouvidos surdos. Até agora. Se ela tivesse sido assassinada ele teria sido o único culpado por ter relaxado na segurança dela. Mas isso não aconteceria novamente.

Ele se aproximou da forma ainda imóvel dela e lentamente e abaixou sua mão sobre a cabeça dela. Ela esteve perto de desmaiar quando eles chegaram ao esconderijo.

Provavelmente muitas noites passaram desde a última vez que ela dormira pela última vez.

Os dedos dele deslizaram entre a massa sedosa de cabelos dela. Ele passou uma mecha sobre os ombros dela, apreciando a suavidade sob a pele áspera dele.

O olhar dele escorregou para a gola da camisa desabotoada em sua garganta como se ela tivesse buscado aliviar a con inação do material severo. Ele assistiu o leve subir e descer do peito dela, a ondulação de seus seios provocando uma visão deslumbrante. Deus-Todo-Poderoso! Ela tinha evidentemente amarrado os seios como parte de seu disfarce ridı́culo. Ele teria notado tal impressionante amostra de feminilidade antes. Não havia dúvida em sua cabeça.

Uma pele branco-leitosa, vista por uma única falha através do material de sua camisa. Ele ansiava por tocá-la, ver se era tão sedosa quanto parecia.

Ela era um problema de primeira ordem. Ela o fazia com que ele avaliasse pensamentos que icariam melhor se fossem ignorados. O fazia sentir emoções perigosas, que ele não

experimentara antes. Emoções que seriam capazes de arrancar as barreiras protetivas de sua alma.

Como uma mulher tão miúda era capaz de trazer à superfı́cie a barreira de solidão a qual ele não tinha permitido sentir desde que era um garoto desesperado pela aprovação do seu pai? Há muito tempo ele tinha fechado a porta de precisar de alguém. Autocon iança era um traço que ele aprendeu desde muito cedo. De uma maneira dura. Ao se aproximar dos outros, ele não dava o poder para que eles o machucassem novamente. E ele visava manter dessa forma.

Ele se afastou da princesa adormecida, sua mão arrastando-se relutantemente do cabelo dela. Era frustrante pensar se ele se permitisse cuidar do bem-estar dela, ele poderia muito bem abrir a porta para tal dor.

Ele faria sua tarefa. Ele era imensamente orgulhoso de sua pro issão. Ele veria a princesa ser conduzida de maneira segura até o trono, mas ele não permitiria a si mesmo sentir nada mais além de compaixão por suas perdas.

Um barulho no corredor o sobressaltou, afastando os seus pensamentos. Ele praguejou por sua falta de atenção e pegou a faca escondida em sua bota. Seus pensamentos impróprios sobre a princesa devem ser treinados se ele quisesse mantê-los vivo. Ele correu até a porta e esperou com a respiração presa que o intruso se aproximasse.

Momentos depois, três pancadas curtas soaram, seguida por uma e depois mais três. Ele soltou o ar e cautelosamente abriu a porta. Kirk entrou e fechou a porta atrás dele.

— Eu estava preocupado. — Ele falou avaliando o lugar.

— Nós estamos seguros. Por enquanto. — Simon falou soturnamente.

Kirk passou uma pequena cesta para ele.

— Achei que você apreciaria alguma comida. Onde está a princesa?

Simon sinalizou por cima do ombro e depois levou um dedo aos lábios.

— O que diabos aconteceu? — Kirk questionou em um tom sussurrado. — Eu cheguei a sua casa e encontrei dois corpos e um mordomo em di iculdade.

— Timmons está bem?

— Ele está bem. Estava limpando a carni icina. Parecia o inferno. Agora, diga-me, quem eram estes homens?

— Eu não sei. — Simon respondeu sombrio.

Ele vasculhou a cesta e selecionou um pequeno pedaço de pão. O resto ele poderia guardar para Isabella. Deixando de lado o restante da comida, ele encarou Kirk.

— Nós temos um problema.

Kirk ergueu uma sobrancelha.

— Bem, isso é bastante óbvio. Mas continue.

— Isabella tem motivos para acreditar que o regente deseja a morte dela. Eu não acreditei nela... até agora.

O rosto de Kirk virou uma máscara de choque.

— Certamente você não está sugerindo...

— Não tenho certeza do que estou sugerindo. — Ele interrompeu. — Mas esta não é a primeira vez que Isabella é atacada desde a sua chegada à Inglaterra. A primeira vez foi após ela receber uma carta do regente para se encontrar com o seu representante. A segunda foi ontem à noite. — Cruzou a sua mente que ele estava aceitando completamente a narrativa dela.

Seus instintos diziam que ela estava sendo verdadeira.

Ele fez uma pausa para deixar que as suas palavras fossem absorvidas por Kirk e lhe dirigiu um olhar penetrante.

— Os homens chegaram horas depois que o regente foi informado da localização de Isabella.

Kirk passou uma mão entre os cabelos e depois blasfemou.

— Por que nós não fomos informados que ela estava na Inglaterra se, de initivamente, o regente sabia? Nós fomos os primeiros a sugerir que ela poderia estar aqui depois que encontramos o corpo do prı́ncipe em Harwich.

— Boa pergunta. — Simon murmurou.

— Isto é um desastre, Merrick. O que nós faremos agora?

— Eu pensei um pouco mais durante toda a noite. Nós não podemos icar aqui. Isto é mais do que certo. Eles estarão procurando por nós.

Kirk assentiu e depois sua expressão icou preocupada.

— Talvez nós devemos considerar que a Inglaterra está por trás dos assassinatos.

Simon sacudiu a cabeça como se sua veemência pudesse distorcer a realidade.

— Não. Eu não posso acalentar tal pensamento. Não irei.

Kirk parecia tão magoado quanto Simon sentia. Haveria outras forças trabalhando. Ele não imaginava que seu próprio governante poderia estar por trás de algo tão repreensı́vel. Ele precisava ver o Duque de Ardmore imediatamente. Ele foi o homem que recrutou Simon e, era o homem que sempre dava a Simon suas atribuições. Ele deveria saber mais sobre Leaudor do que ele poderia dividir com Simon.

Ele lançou um olhar para Isabella e depois voltou a olhar para Kirk.

— Eu quero que você ique com Isabella e se certi ique que ela não vá a lugar nenhum.

Kirk o olhou surpreso.

— Aonde você vai?

— Preciso fazer alguns arranjos para a nossa viagem. — Enquanto ele falava, seu olhar vagou para Isabella. — Eu preciso tirá-la de Londres tão logo possı́vel até que nós elaboremos nosso próximo passo. Eu preciso de tempo para interrogá-la.

Kirk anuiu.

— O antigo alojamento de caça seria o melhor. Uma vez que você decida o próximo passo, deixe-me uma mensagem aqui. Eu estarei logo atrás.

Simon sorriu levemente. Kirk o conhecia muito bem.

— Eu retornarei em breve.

— Tome cuidado. E retorne logo. Nós não estamos seguros aqui por muito tempo.

Simon o saudou e saiu pelo vão da porta.

* * *

Isabella acordou, amaldiçoando a si mesma por ter caı́do no sono. Ela se sentou, olhando ao redor procurando por Merrick. Quando ela viu um homem parado do outro lado do quarto, de costas para ela, imediatamente ela icou em alerta.

Tão quieta quanto possı́vel, ela se empoleirou no sofá. Ela congelou quando ele se virou.

— Ah, você acordou.

Ela se afastou com cautela, cada músculo preparado para se defender.

— Quem é você e onde está Merrick?

Ele ergueu as mãos de maneira aplacadora.

— Meu nome é Adam Kirkland, porém sou mais conhecido como Kirk.

Ela estreitou os olhos.

— Onde ele está? — Ela perguntou novamente.

— Ele saiu por um momento. Ele estará de volta em breve. Ele pediu para que eu icasse com você e a mantivesse segura até o seu retorno.

Ela estudou o rosto dele, procurando por qualquer sinal de mentira, mas, assim como Merrick, ela encontrou nada além de uma resolução de aço. Embora não fosse tão imponente quanto Merrick em estatura, ele claramente era um homem capaz de cuidar de si mesmo.

Cabelos castanho-claro, bem cortados, repousava exatamente sobre o colarinho. Seus olhos azuis, ao contrário dos escuros e sombrios de Merrick, pareciam brilhar com um charme natural. Como se estivesse ciente do escrutı́nio dela, ele lhe deu um sorriso largo, com dentes levemente tortos.

— Se já acabou com a sua inspeção, Vossa Alteza, talvez possa comer.

Ele se abaixou e pegou uma cesta da pequena mesa e lhe estendeu.

Com dedos trêmulos, ela a pegou e olhou dentro.

— Como eu saberei se não está envenenado? — Ela perguntou cheia de suspeitas.

Ele riu.

— Envenenamento é uma bagunça. Não é muito rápido ou prazeroso. Se eu quisesse matá-la, eu teria simplesmente cortado sua garganta enquanto você dormia.

A mão dela voou para o pescoço e ela esfregou e massageou repetidas vezes. Ele tinha um ponto. Lentamente ela voltou sua atenção para a cesta, movendo-se pela sala para icar bem distante dele e examinar o conteúdo dela com maior atenção.

O seu estômago roncou quando ela viu um pedaço de pão, queijo e uma coxa de frango.

Fingindo agir como se tivesse decoro, ela reprimiu a vontade de devorar a comida em uma única mordida e tentou pegar delicadamente a comida oferecida.

Os dedos dela tremiam e balançavam enquanto ela partia um pequeno pedaço de pão e o levava a boca. O último jantar, embora gostoso, era uma memória distante na névoa entre tantas refeições perdidas.

Enquanto ela lambia o dedo, ela olhou novamente para Kirk, que estava a observando com diversão. Ela segurou o olhar, recusando-se a abaixá-lo até que ele inalmente desviou os olhos. Ela rapidamente consumiu o resto da porção que ela separara para si mesma e guardou cuidadosamente o restante para Merrick.

— Que horas são? — Ela perguntou, cruzando os braços sobre o peito.

— Quase meio-dia. — Ele respondeu sem se virar.

Ela voltou ao sofá e deslizou para baixo do cobertor com que dormira. A sala havia esfriado consideravelmente e seus pés pareciam blocos sólidos de gelo.

— Sinto muito. — Kirk falou em uma voz contrita. — Eu deveria ter acendido o fogo.

Minha mente está ocupada por outros assuntos.

— Tais como? — Ela perguntou, observando como ele colocava mais carvão no forno.

Ele riu.

— Bombeando-me com perguntas, Princesa?

Ele fechou a porta do forno com um clique e se virou para ela com os olhos brilhando diabolicamente.

— Eu responderei às suas perguntas, se você responder as minhas.

— Merrick o deixou aqui para me interrogar? — Ela questionou.

— Você não con ia em ninguém, não é? — Ele balançou a cabeça. — Merrick arriscou a vida dele por você. Se nós a quiséssemos mortas, você estaria a sete palmos do solo neste momento.

— Não me faça sermões. — Ela sibilou. — Eu tenho boas razões para não con iar em ninguém.

Eles foram interrompidos por uma série de batidas na porta. Kirk abriu a porta e Merrick entrou. Merrick imediatamente olhou ao redor da sala e parou quando a localizou.

Ele deixou cair um saco de estopa nas costas do sofá.

— Eu lhe trouxe algumas coisas. — Ele falou. — Vista-os. Nós devemos seguir nosso caminho.

Ela se levantou rapidamente, um milhão de perguntas vindo a seus lábios.

Ele levantou uma mão.

— Eu explicarei assim que se vestir.

Perplexa, ela fechou a boca e pegou o saco. Ela achou um par limpo de calças, uma camisa, assim como um casaco pesado e um chapéu. Mas o seu maior prazer foi um par de botas

forradas com pele. Após sofrer com o péssimo par que Merrick havia descartado, ela não esperava en iar os pés dela em um novo calçado.

Ela pegou suas roupas e olhou apressada ao redor por um lugar discreto para se trocar.

Merrick pigarreou e depois sinalizou em direção a um canto mal iluminado. Ele gesticulou para Kirk se virar, fazendo o mesmo.

O olhar dela não abandonou os dois homens enquanto ela ia para o canto. Ela se posicionou atrás de uma poltrona esfarrapada, o único item a lhe fornecer certa discrição e rapidamente trocou as roupas.

Os homens conversavam apressadamente, suas cabeças inclinadas e próximas. Depois eles apertaram as mãos no que parecia um gesto de amizade e apoio.

— Eu não pude ver o duque. — Merrick disse em voz baixa. — Você deve ir e vê-lo por mim. Descubra o que está acontecendo e me reporte quando puder.

Kirk assentiu e segundos depois, ele atravessava a porta e partia. Ela franziu o cenho, se perguntando o que eles haviam discutido.

Ela pegou as botas, parando quando ela achou uma escova de cabelo en iada dentro de uma delas. O conde havia pensado em tudo. Estranhamente, ela icou tocada por sua consideração. Colocando a escova de lado por enquanto, ela en iou os pés nas botas, deliciando-se com a sensação de calor provocada pela pelagem.

Deixando o saco de lado, ela voltou para o sofá e dirigiu um olhar indagador ao conde.

— Para onde você propõe que nós vamos? — Ela perguntou.

Enquanto ela esperava pela resposta dele, ela puxou suas longas mechas encaracoladas sobre o ombro e começou a escová-los.

— Aqui, permita-me. — Ele disse, indo sentar-se ao lado dela no sofá.

Para sua surpresa, ele pegou a escova dela e começou a trabalhar nos seus cabelos embaraçados.

— Levaria muito tempo. — Ele disse impacientemente. — E nós não temos muito tempo.

Apesar de sua entonação brusca, mas seus movimentos era uma contradição direta. Ele era muito cuidadoso enquanto gentilmente desembaraçava seus cabelos.

Ela fechou os olhos enquanto ondas de prazer a varriam. Pequenos arrepios se espalharam por seu couro cabeludo, descendo por sua coluna e ela fez tudo o que podia para não gemer alto.

— O que faremos agora? — Ela perguntou em voz baixa.

Ele parou, deixando a escova pendurada em seus cabelos.

— Acho que depende se você concordar em icar comigo e não sair correndo pela janela mais próxima.

Ela se afastou e virou-se para encará-lo, ignorando a sua al inetada. Ela ainda não estava inteiramente segura se ele era completamente con iável, mas ele representava a melhor chance

de sair da Inglaterra viva. Respirando profundamente, ela levou uma mão aos lábios, esfregando-os.

— Eu preciso de sua ajuda, Merrick.