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Open Transmudação da educação superior no Brasil e a UFPB no limiar do século XXI

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Academic year: 2018

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

ROMERO ANTONIO DE MOURA LEITE

TRANSMUDAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL E A

UFPB NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

(2000-2012)

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ROMERO ANTONIO DE MOURA LEITE

REESTRUTURAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL E A TRANSMUDAÇÃO NA UFPB NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

(2000-2012)

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, do Cento de Educação da Universidade Federal da Paraíba – PPGE/CE/UFPB, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Educação.

ORIENTADORA: Profa. Dra. ADELAIDE ALVES DIAS

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L533t Leite, Romero Antonio de Moura.

Transmudação da educação superior no Brasil e a UFPB no limiar do século XXI (2000-2012) / Romero Antonio de Moura Leite.-- João Pessoa, 2013.

193f. : il.

Orientadora: Adelaide Alves Dias Tese (Doutorado) – UFPB/CE 1. Educaçao superior - Brasil. 2.

Transmudação. 3. Reestruturação e

expansão. 4. REUNI. 5. Modelo de universidade.

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ROMERO ANTONIO DE MOURA LEITE

REESTRUTURAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL E A TRANSMUDAÇÃO NA UFPB NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

(2000-2012)

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, do Cento de Educação da Universidade Federal da Paraíba – PPGE/CE/UFPB, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Educação.

Aprovada em: ____ / ____ / ______

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________

(Nome do orientador, sua titulação e Instituição a que pertence)

_________________________________________________

(nome, titulação e instituição a que pertence)

_________________________________________________

(nome, titulação e instituição a que pertence)

(5)

À Hélia,

Cada vez mais minha vida.

Aos meus filhos Thiago e Diogo, unidades de meu todo, pelos estímulos.

Ao meu neto Matheus, de quem espero ler a tese. As noras Érica e Fernanda, minhas filhas.

(6)

AGRADECIMENTOS

À minha turma do PPGE.

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R E S U M O

Esta pesquisa situou-se no campo temático da educação superior no Brasil, compreendido de forma mais específica pelas relações entre educação, Estado e políticas de educação superior. Objetivou examinar o processo de transmudação nesse nível de educação configurado pelo estado de mudanças que acontece no início deste século (2000-2012). O percurso que seguimos nos permitiu a apreciação e a compreensão do que ocorre nas universidades públicas federais, assentadas em suas tensões históricas, nas expectativas da sociedade contemporânea e nas recentes políticas para a educação superior, com destaque para o REUNI, a fim de se analisar as perspectivas dessas instituições quanto ao contexto em que se situam, conformando-se num novo modelo de universidade que se distingue pela heteronomia e características de corte neoprofissional e competitiva, revelado pelo dimensionamento desproporcional das atividades acadêmicas de ensino, e a introdução de princípios comuns à vida empresarial. Nosso ponto de partida da investigação é a flexibilização, diversificação e diferenciação do sistema de educação superior intensificada no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso e que permanece assumindo formas distintas nos governos Lula. Desenvolvemos uma investigação das políticas reformistas para a educação superior, contextualizadas histórica e socialmente, com base nas suas diversas manifestações. Para tanto, servimo-nos de diferentes produtos documentais, bem como de entrevistas, conversas e observações de reuniões de órgãos institucionais da UFPB, nossa referência básica. A pesquisa evidenciou a permanência da disputa concorrencial no âmbito da educação superior, assumindo novos contornos nas instituições privadas. Por outro lado, um processo de reorganização das universidades federais justificado pela perspectiva política de lhe dar “competitividade” no mercado, ao tempo em que atenderia, em parte, as suas funções sociais. O REUNI, por ser a principal política nesse sentido e introduzir alguns elementos do modelo em construção, sofre verificação mais apurada. A recente reestruturação e a expansão experimentada pela UFPB, fundamentalmente a partir da implantação do REUNI, os contornos de organização e estruturação interna; as gestões administrativa, financeira e acadêmica; o tratamento dado a autonomia universitária; a relação com o governo federal, o cotidiano das relações sociais na comunidade universitária, apresentam mudanças que indicam se conformar a um novo modelo de universidade.

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LISTA DE QUADROS

QUADRO 01 Evolução do orçamento total por grupo de despesas de acordo com o relatório de gestão (1996 – 2004) da

Universidade Federal da Paraíba ... 96

QUADRO 02 –Evolução do número de docentes ativos de acordo com o relatório de gestão (1996 – 2004) da

Universidade Federal da Paraíba ... 97

QUADRO 03 –Número de cursos criados de acordo com o relatório de gestão (1996– 2004) da Universidade Federal

da Paraíba ... 98

QUADRO 04 –Número de alunos matriculados de acordo com o relatório de gestão da (1996-2004) da

Universidade Federal da Paraíba ... 99

QUADRO 05 Número de alunos diplomados de acordo com o relatório de gestão (1996 – 2004) da

Universidade Federal da Paraíba ... 99

QUADRO 06 Evolução da matricula de alunos da pós- graduação

Stricto sensu na UFPB de acordo com o relatório de gestão

(1996 – 2004) da Universidade Federal da Paraíba ... 101

QUADRO 07 –Dimensão Acadêmica da

UFPB - Evolução 2004-2007-2012 ... 164

QUADRO 08 Evolução da Relação Aluno

Matriculado-Professor (RAMP) ... 166

QUADRO 09 Evolução da produção acadêmica por professor RPAPP ... 167 QUADRO 10 Cursos de graduação criados pelo Programa

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LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 01 Evolução do número de professores

das IFES (REUNI) ... 167

GRÁFICO 02 Evolução do número de vagas das IFES (REUNI) ... 172

GRÁFICO 03 Recursos públicos da União aplicados na

Educação Superior (IFES) ... 173

GRÁFICO 04 –Recursos públicos da União aplicados na Educação

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LISTA DE SIGLAS

ANATEL – Agência Nacional de Telecomunicações

ANDES-SN – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior

ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de

Educação Superior

BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento

BIRD – Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento

BM – Banco Mundial

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Nacional

CCT – Centro de Ciência e Tecnologia

CMN – Conselho Monetário Nacional

CONSEPE – Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão e Curador

CONSUNI – Conselho Universitário

CPA – Comissão de Política Aduaneira

EAD – Educação a Distância

EAN – Escola de Agronomia do Nordeste

ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio

EUA – Estados Unidos da América

FASUBRA – Federação de Sindicatos de Trabalhadores de Universidades

Brasileiras

FMI – Fundo Monetário Internacional

FUNDACT – Fundação para o Desenvolvimento da Ciência e da Técnica

IES – Instituições de Educação Superior

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IFET – Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia

LDB – Lei de Diretrizes e Bases

MARE – Ministério da Administração e da Reforma do Estado

MEC – Ministério da Educação

MERCOSUL - Mercado Comum do Sul

NAFTA – Acordo de Livre Comércio da América do Norte

NDHIR – Núcleo de Documento e Informação Histórica Regional

NEPREMAR – Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Recursos do Mar

NUDOC – Núcleo de Documentação Cinematográfica

NUPPA – Núcleo de Processamento de Alimentos

OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico

OEA – Organização dos Estados Americanos

OMC – Organização Mundial do Comércio

OMS – Organização Mundial de Saúde

ONU – Organização das Nações Unidas

ONGs – Organizações Não-governamentais

OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo

PDRAE – Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado

PEC – Proposta de Emenda Constitucional

PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação

PNE – Plano Nacional de Educação

PND – Programa Nacional de Desestatização

PNB – Produto Nacional Bruto

PNUD – Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas

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PRAI – Pró-Reitoria para Assuntos do Interior

PROES – Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade

Bancária

PT – Partido dos Trabalhadores

REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das

Universidades Federais.

RJU – Regime Jurídico Único

SINAES – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior.

TELEBRÁS – Sistema Brasileiro de Comunicações

TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação

UEPB – Universidade Estadual da Paraíba

UFCG – Universidade Federal de Campina Grande

UFPB – Universidade Federal da Paraíba

UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação

UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância

URNE – Universidade Regional do Nordeste

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ...14

2 GLOBALIZAÇÃO, AJUSTE ESTRUTURAL E ESTADO AJUSTADO E SEUS DESDOBRAMENTOS PARA A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR ...28

2.1 AJUSTE ECONÔMICO E GLOBALIZAÇÃO ...35

2.2 AS DESIGUALDADES SOCIAIS NA GLOBALIZAÇÃO HEGEMÔNICA ...39

2.3 AJUSTE POLÍTICO E GLOBALIZAÇÃO ...44

2.4 A CULTURA NA GLOBALIZAÇÃO HEGEMÔNICA ...49

2.5 ESTADO AJUSTADO NO BRASIL...63

2.5.1 Estado ajustado e a execução das políticas privatistas ...71

3 A UFPB DESMEMBRADA ...78

3.1 FRAGMENTAÇÃO E MUDANÇA – PRIMEIRO MOVIMENTO DO DESMEMBRAMENTO DA UFPB ...94

3.1.1 Situação acadêmica ...98

4 TRANSMUDAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR ...111

4.1 REORGANIZAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO GOVERNO LULA I (2002-2006) ...119

4.1.1 Pacto social e Estado de classe ...121

4.1.2 Reformulações na educação superior. Das intenções e dos gestos ...126

4.1.2.1 A Reforma da educação superior em uma lei: dos anteprojetos ao Projeto de Lei 7200/2006 ...138

5 INFLEXÕES NA TRANSMUDAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR E OS IMPACTOS NA UFPB ...145

5.1 EDUCAÇÃO SUPERIOR E OS MODELOS INSTITUCIONAIS EM TRANSIÇÃO ...147

5.2 REUNI: A EXPANSÃO E O OVO DA SERPENTE ...151

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...177

(15)

1 INTRODUÇÃO

Destacamos nas considerações finais da dissertação1 por mim apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que da questão da autonomia, de hegemonização da concepção neoliberal, derivou um projeto de universidade mediado pelo mercado e que a estratégia do governo federal, para a obtenção desse intento, no período considerado, variou conforme o poder de reação dos que perceberam nesses movimentos governamentais a submissão das universidades federais ao deus mercado, onipotente e onisciente, e nessa trajetória se observou desde o confronto direto, conceitual, ressignificando-o, até as dissimuladas e eficazes medidas pulverizadas em atos infraconstitucionais (LEITE, 2007, p. 129).

Anunciávamos que os possíveis próximos passos na pós-graduação teriam como objeto de estudo mudanças e permanências na política para a educação superior, consideradas a partir do governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, eleito junto com um programa de governo que assinala perspectivas mudancistas galgadas na não aceitação da desresponsabilização do Estado com as políticas sociais e, portanto, de superação de uma concepção determinista de totalidade submissa aos movimentos de mercado, no caso da educação.

Um distintivo de qualidade possível proclamado pelo então recente governo tem dupla referência no percurso histórico de suas lideranças e naquele do principal partido político de sustentação, o Partido dos Trabalhadores, e nas formulações teóricas embasadoras de seus posicionamentos sobre a educação, em particular a educação superior, respondentes a possíveis interesses das classes populares.

Na perspectiva apontada pelo governo, a missão das Instituições de Ensino Superior teria que ser voltada ao desenvolvimento da nação.

Em documento preliminar sobre proposta de reforma da educação superior2, encaminhado pelo Ministério da Educação (MEC) à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Educação Superior (ANDIFES), afirma-se que a reforma

1 Autonomia Universitária na UFPB: os Anos 1990, dissertação apresentada em 2007.

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Deve ter a capacidade de promover uma profunda reflexão sobre a missão das Instituições de Educação Superior (IES), de modo a reavivar vínculos e explicitar compromissos com valores caros à sociedade brasileira, essenciais à superação dos desafios que a nação estabeleceu (MEC, 2004, p. 04)

Ainda segundo este documento, a missão, construída no debate público que os encaminhamentos da proposição de Reforma estimulariam,

Deveria significar um ponto de equilíbrio entre a soberania popular e a autonomia do fazer acadêmico, de tal modo que a sociedade reconheça, na missão proposta, a expressão de um compromisso para o qual se mobilizam recursos humanos, materiais e financeiros (MEC, 2004, p. 05).

No documento proposto pelo MEC, caberia às Universidades

A missão de criar, desenvolver, sistematizar e difundir conhecimentos, em suas áreas de atuação, a partir da liberdade de pensamento e de opinião, tendo como meta participar e contribuir para o desenvolvimento social, econômico, cultural e científico da nação, promovendo a inclusão da diversidade étnico-cultural e a redução das desigualdades sociais e regionais do país. As demais instituições de ensino superior, consideradas suas vocações e níveis de organização, devem igualmente assumir a responsabilidade com a atualização do conhecimento e a implementação de processos pedagógicos que valorizem a iniciativa dos estudantes, o trabalho em equipe, o espírito crítico e inovador (MEC, 2004, p. 05)

Numa aproximação nossa com o exposto no documento do MEC, consideramos que, mais do que nunca, a educação estende-se como um processo ao longo de toda a vida e as IES devem assumir como sua missão a viabilização do acesso à aprendizagem permanente, contribuindo para a elevação dos níveis de informação de toda a sociedade. Do mesmo modo, as instituições têm compromisso em contribuir para o desenvolvimento e melhoria da educação, em todos os níveis.

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Na história coube ao movimento estudantil levantar a questão de reforma universitária pela primeira vez no Brasil, em 1960/61, nos dois Seminários Nacionais de Reforma Universitária da UNE, em Salvador (BA) e Curitiba (PR). Na Declaração da Bahia, primeiro dos importantes documentos programáticos do movimento estudantil sobre a reforma universitária, podemos ler:

De maneira alguma atrairia a consideração [pelos estudantes] de uma Universidade tomada abstratamente, retirada do processo histórico que a Nação atravessa. Incumbe-nos esboçar a missão de uma Universidade existencialmente entendida, comprometida com as necessidades concretas do povo brasileiro. Universidade historicamente datada e sociologicamente situada na segunda metade do século XX, num País em fase de desenvolvimento (POERNER, 1979, p. 190-195).

Há uma aparente convergência de compreensão da missão da universidade. Uma situada no início dos anos sessenta do século passado oriunda daquele movimento social, outra expressa num documento governamental do limiar do século XXI. Na práxis, movimento estudantil e governo estabelecem relações eivadas de contradições dadas as suas gêneses.

A análise da Universidade contemporânea sugere uma crise ou crises articuladas numa totalidade. Boaventura de Sousa Santos (1995), identifica três formas de expressão da crise com que se defronta a universidade: a crise de hegemonia, resultante das contradições entre as funções tradicionais da universidade e as que ao longo do século XX lhe foram atribuindo; a crise de legitimidade, provocada por ter a universidade deixado de ser uma instituição consensual em face da contradição entre a hierarquização dos saberes especializados através das restrições do acesso e da credenciação das competências, por um lado, e as exigências sociais e políticas da democratização da universidade e da reivindicação da igualdade de oportunidades para os filhos das classes populares, por outro; e a crise institucional, decorrente da contradição entre a reivindicação da autonomia na definição dos valores e objetivos da universidade e a pressão crescente para submeter esta última a critérios de eficácia e de produtividade de natureza empresarial ou de responsabilidade social.

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reforma do Estado é pano de fundo de um novo modelo de educação superior? São questões a serem respondidas em nossa pesquisa e tratadas em nosso estudo.

Importante assinalar que a universidade não é criatura do Estado Moderno, ao contrário da maioria dos demais órgãos da administração pública. Surge, ainda, à parte dos interesses de quaisquer dos grupos que formava a sociedade histórica. Como comunidade que constrói sua identidade a partir da valorização do conhecimento em si, a universidade manteve, com os interesses privados (igreja ou potentados locais) relações de permanente tensão. Desde o início, a universidade surge como espaço público anterior e fora da alçada do Estado.

Gramsci, ao retomar e aprofundar o conceito de sociedade civil de Hegel e Marx, amplia a própria concepção e funções do Estado. A questão da sociedade civil está intimamente relacionada com a questão do Estado, que não é um ente solto num limbo social. É a gestão de interesses de indivíduos, grupos, categorias e classes sociais (SALES, 2006, p. 82).

Derivam deste entendimento dois tipos de gestão da sociedade. Em contextos em que ainda não surgiram associações de defesa e implementação de interesses econômicos, políticos, culturais, religiosos e afetivos dos diferentes grupos e das diferentes categorias e classes sociais, a gestão da sociedade é feita quase que exclusivamente por dirigentes e funcionários do aparelho governamental, o que Gramsci denomina Estado Restrito. O segundo tipo de gestão é a que se realiza não somente através de representantes de pretensos interesses gerais no aparelho governamental, mas também, através de representantes dos interesses de grupos, categorias e classes sociais. A esse novo tipo de gestão compartilhada por representantes governamentais e civis, Gramsci chama de Estado Ampliado.

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É pouco provável que uma reforma da educação superior possa atingir um ponto de equilíbrio entre a soberania popular e a autonomia do fazer acadêmico, de tal modo que a sociedade reconheça, na missão proposta, a expressão de um compromisso para o qual se mobilizam recursos humanos, materiais e financeiros (MEC, 2004, p.5), se no desenvolvimento das ações do Estado os representantes civis não compartilhem da gestão da sociedade e não sejam sujeitos da sua história. A participação social é condição e essência da democracia, que pressupõe sujeitos históricos, necessariamente, conscientes de sua autonomia.

A polissemia da palavra de origem grega autonomia sugere um percurso histórico de diversidade na formulação de conceito atinente à temática. O conceito de autonomia tem sido construído nas diversas contextualizações históricas, econômicas, políticas e culturais que conformam a trajetória das sociedades.

Enquanto categoria relacionada mais especificamente ao conhecimento e ao seu produtor, encontra em Gramsci (1978) uma marcante sistematização.

Reconhecendo as particularidades da produção de conhecimento frente à de bens e serviços, no capitalismo, e percebendo que o embate entre capital e trabalho se expressava, naquele contexto histórico, de forma bastante clara, por intermédio do antagonismo entre as classes fundamentais, Gramsci propunha, como contraponto à postura/visualização do intelectual por ele chamado de intelectual tradicional, outra, vinculada às classes, a do intelectual orgânico. Sua ação consistiria em formular, de modo abrangente, para a classe à qual se articula, táticas e estratégias de luta política.

É dessa concepção, associada à visualização da especificidade do trabalho intelectual e à percepção da natureza dialética - e não reflexiva - das relações entre cultura e economia, que resulta a categoria autonomia - necessariamente relativa - dos intelectuais e daprodução intelectual (NÁDER, 2004).

Consideramos que a autonomia, enquanto condição política para a realização de uma reforma universitária, deve ser compreendida na relação totalizante como princípio histórico-filosófico da educação.

A reforma universitária que tivemos no Brasil3 não foi a do movimento estudantil, mas a da ditadura civil-militar iniciada em 1964. Data daí a introdução da “lógica tecnocrática” na gestão universitária, conduzindo a vida acadêmica nas

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universidades públicas a um patamar antes desconhecido de burocratização e racionalização: departamentalização, sistema de créditos, instituição do ciclo básico, vestibular unificado, fragmentação do grau acadêmico de graduação, institucionalização da pós-graduação etc. O governo militar apropriou-se das reivindicações dos estudantes e de alguns intelectuais brasileiros de esquerda, em 1968, especialmente a ampliação do número de vagas, visando à democratização e a deselitização do ensino superior (igualdade de oportunidade para todos), e a organização de uma estrutura racional de pesquisa científica visando o desenvolvimento, e deu uma resposta de registro trocado. A questão do acesso foi resolvida pela fantástica expansão de uma rede privada mercantilista, e a produção científica foi comandada por uma gestão tecnocratizada, condizente com as estruturas profundas de um capitalismo monopolista militarizado em implantação (FERNANDES, 1989).

Impressiona como alguns dos efeitos da Reforma Universitária de 1968 promovida pelo governo militar são perduráveis. Acentuou-se a expansão da rede privada mercantilista, inclusive na pós-graduação, e sentem-se ranços de domínio tecnocratizante na gestão da produção científica.

No conjunto acima referido, que parece amalgamar um processo de reforma da educação superior, há fortes elementos dessa permanência combinados com outros, mais recentes, de assinatura neoliberal.

A problematização aqui iniciada conduz o nosso estudo a apresentar a tese de uma predominância de atualização de modernização conservadora na reforma universitária em curso ou de uma supremacia da permanência em detrimento de mudanças substantivas.

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situam, conformando-se num novo modelo de universidade, neoprofissional, heterônomo e competitivo (SGUISSARDI, 2004), revelado pelo crescimento das universidades de ensino ou escolas profissionais desconforme com o modelo neohumboldtiano4, em que se associam e interagem ensino, pesquisa e extensão, também pela tendência a passagem de uma universidade com autonomia – caso das estaduais paulistas e privadas – e sem autonomia – caso das federais, demais estaduais e municipais – para uma universidade heterônoma e competitiva.

Na atual conjuntura caminha-se para a conclusão de um processo de ajuste das universidades federais ao modelo de Estado, de perfil neoliberal, implementado a partir dos anos 1990, caracterizado pela parcial subsunção ao mercado, alinhando-se em parte ao preconizado pelos agentes multilaterais.

A reestruturação e expansão do sistema de educação superior observadas no período suscitam temas como o processo de massificação e crescimento da demanda; funções e objetivos da educação superior no século que se inicia; demanda cada vez mais diversificada e suas novas necessidades; relação da universidade com as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs); a indissolubilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão; autonomia das ciências e liberdade acadêmica; formação e mudança dos perfis profissionais; a educação continuada na formação permanente; a interdisciplinaridade; relações das universidades públicas com o Estado e o setor produtivo; impacto da globalização do capital nos planos e programas; financiamento da educação superior.

Dessas temáticas podem decorrer investigações e reflexões sobre o papel da universidade e da educação superior num contexto de intensa velocidade de mudanças, especialmente na construção de conhecimentos e em relação à formação, o que pode sugerir questões referentes ao tratamento que dá a universidade aos problemas da contemporaneidade; às mudanças em curso nas universidades públicas federais.

Neste sentido, são insinuados elementos de outro modelo de universidade, o que nos remete a questões de como se encontram a gestão, a organização acadêmica, a produção científica, os currículos, a integração e os compromissos da universidade com a sociedade e com o país? Há uma nova identidade, uma nova

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imagem da universidade pública a partir das políticas adotadas? Como vem sendo gestada essa identidade no cotidiano da universidade?

A análise da reestruturação da educação superior no Brasil nos aproxima e permite informar de muitas dessas questões. Parece permear as políticas de educação superior uma lógica econômica e produtivista que implicam em outro modelo de sistema, principalmente nas universidades federais.

Neste sentido, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federias (REUNI), como um “ovo de serpente”, introduz nas universidades federais os princípios do novo modelo predominantemente gerencial dos quais destacamos a exigência de um patamar mais elevado da relação aluno-professor ou número maior de alunos por sala de aula, condicionando a contratação de novos professores - vale ressaltar o déficit histórico de pessoal docente para atendimento da demanda então existente; ampliação de vagas e criação de cursos de graduação e reforço ao ensino à distância, umbilicalmente atrelados ao financiamento para consecução de metas de acordo com um modelo gerencial e autonomia relativa, em conformidade ainda com um ideário neoliberal. Na outra face e em complementaridade o Programa Universidade para Todos (PROUNI), criado pela Medida Provisória 213/2004 e institucionalizada pela Lei 11.096, de 13 de janeiro de 2005, se encarrega de dar sustentação a demanda por certificação profissional criada e ditada pelo mercado.

A diversificação e diferenciação do sistema, como base das políticas adotadas para responder a demanda por expansão, bem como a integração de diferentes procedimentos de avaliação, credenciamento e recredenciamento que visam à flexibilidade e competitividade do sistema observadas na década de 1990, são aprofundadas e estimuladas nesse limiar de século. Crescente o número de centros universitários, faculdades integradas, instituições isoladas, cursos superiores de curta duração e cursos sequenciais. Consolida-se o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como instrumento de acesso e em substituição aos vestibulares tradicionais. Incrementam-se os programas de ensino à distância, onde se destaca a criação da universidade aberta do Brasil5. Nas Instituições Federais de Educação

5 O Sistema UAB foi criado pelo Ministério da Educação no ano de 2005, em parceria com a ANDIFES e Empresas Estatais, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação com foco nas Políticas e a Gestão da Educação Superior (BRASIL, CAPES, 2012). Disponível em:

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Superior (IFES), uma nova matriz orçamentária que privilegia o número de alunos na graduação.

Avolumam-se os questionamentos e ações governamentais sobre os históricos mecanismos de unidade do sistema, no caso das instituições federais: autonomia universitária, indissolubilidade entre ensino, pesquisa e extensão, carreira única, avaliação institucional, gestão democrática.

A mudança de modelo universitário centrado na autonomia para um modelo centrado na heteronomia caracteriza-se pelo aumento de poder de definição da missão, da agenda e dos produtos das universidades por setores externos (Estado e a indústria, principalmente). A introjeção desse modelo pelas universidades significa que sua prática cotidiana (suas funções, prioridades e organização interna, suas atividades, estrutura disciplinar e meritória etc) estaria cada vez mais subsumida pela lógica do mercado e do Estado avaliador e controlador (SCHUGURENSKY, 2002, p. 117).

Apresenta-se como necessidade a investigação da vida acadêmica e da especificidade histórico-social de cada instituição situada nesse contexto. Como se dá a inserção/adaptação ou como se desenvolvem resistências não segue um padrão, embora possam ocorrer elementos de confluência. Afunilar para a apreensão da especificidade da cultura institucional e do processo de produção e socialização do conhecimento em cada universidade, como expressão da reforma da educação superior por meio das políticas públicas. Portanto, como pólos que se complementam nessa pesquisa, devem ser consideradas as políticas públicas em curso e as ações e reações das instituições como expressão e resultado de suas identidades. Para tanto, investigamos as repercussões dessas políticas públicas expressas em seus específicos desenvolvimentos institucionais acadêmico-administrativos, bem como nos aspectos constitutivos da identidade institucional, com destaque para o cotidiano de suas comunidades universitárias (movimentos, processos e tendências).

Nosso estudo, portanto, leva-nos a identificar e interpretar como as políticas de educação superior anteriores se articulam com as atuais concorrendo para a conformação de um novo modelo de universidade pública.

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Estão disponíveis diversas perspectivas teórico-metodológicas para que se possa captar a realidade dessas mudanças. Desde aquelas que consideram os aspectos quantitativos como suficientes como aquelas que se satisfazem com os elementos qualitativos. Consideramos prioritariamente, neste estudo, sem desprezar outros caminhos, as dimensões qualitativas presentes em elementos acadêmicos que organizam e expressam o espaço-tempo do trabalho nas IFES, em particular, como o são as formas de gestão, os mecanismos de financiamento, a avaliação institucional, os currículos de formação dos profissionais e a produção científica. São estes os elementos principais das políticas de educação superior no período e podem ser considerados os fomentadores de sua nova lógica de reconstituição e reestruturação, mais sensíveis que são às mudanças nas relações de produção do trabalho acadêmico.

A universidade de que nos ocupamos nesse trabalho é uma instituição social, científica e educativa, cuja identidade está fundada em princípios, valores, regras e formas de organização que lhe são próprias. Uma instituição que tem seu reconhecimento e legitimidade social vinculados, historicamente, a sua capacidade autônoma de lidar com as ideias, de buscar o saber, de inventar e descobrir o conhecimento. Ao realizar esse processo, a universidade interroga, critica, reflete, cria e forma, ocupando um papel fundamental na construção democrática, que implica compromisso com a luta pela democratização dos meios de produção da vida humana (CHAUÍ, 1998). Mantendo-se fiel a sua natureza e a sua vocação primeira como campo de reflexão, crítica, descoberta e invenção do conhecimento novo, comprometido com a construção e consolidação de uma sociedade democrática, a universidade se atualiza por meio da capacidade histórica de imergir-se em condições objetivas dadas, em cada tempo-espaço.

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curso na educação superior, impossibilitando ou redirecionando o projeto de universidade.

Afirma-se que a universidade se despindo de sua identidade histórica, torna-se suscetível de embrenhar-torna-se nos processos de reprodução do poder e das estruturas vigentes e não em sua transformação. Diante do instituído torna-se, neste caso, operacional e funcional, partícipe da estrutura de poder social e das estratégias de manutenção da ordem social. Compromete, em decorrência, sua existência, perde sua autonomia, padroniza-se e submete-se aos interesses diretos do mercado, do Estado ou de ambos.

Admitimos ainda que as universidades respondem de formas distintas ao processo de ajustamento e reestruturação do sistema. Consideramos que cada universidade, cada centro de ensino, coordenação de curso e/ou departamento, em razão dos campos de trabalho, da cultura institucional, das disputas acadêmicas, políticas, culturais e profissionais, age e reage de maneira singular às demandas da sociedade contemporânea, às políticas educacionais e às pressões e possibilidades regionais e locais. Entende-se aqui por cultura institucional o que lhe dá identidade básica, resultante do que é instituído (estrutura, normas etc), e os instituintes formados pelos valores, práticas, etc., a vida cotidiana, produzida historicamente.

Na UFPB, o processo de transmudação6 é melhor apreendido levando-se em

consideração crítica as principais ações e medidas tomadas nesse início de século XXI, bem como no cotidiano dos conselhos superiores (CONSUNI – Conselho Universitário, CONSEPE – Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão e CURADOR) e nos conselhos setoriais (de Centro, nos colegiados departamentais e de cursos), na legislação produzida e nos documentos normativos, informativos e orientadores das políticas educacionais implementadas. Também importante para a compreensão desse processo é o acompanhamento sistemático das reivindicações e debates dos segmentos organizados da comunidade universitária, bem como levamos em conta as conversas informais com gestores acadêmicos e membros dos colegiados de deliberação acadêmico-administrativos.

Dirigindo-nos ao cotidiano, permite a análise dos processos, movimentos e tendências nas áreas de gestão, financiamento, graduação, pesquisa,

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graduação, extensão e avaliação, objetivando também por sua abrangência construir uma visão totalizadora dessa transmudação.

Seguimos um plano de investigação e exposição que procurou contemplar no desenrolar do estudo:

1) identificação e análise de documentos oficiais e também alguns não-oficiais, publicações técnicas, periódicos, jornais e outros, bem como na legislação (resoluções, portarias e outros documentos) produzida pelos conselhos superiores e pelos conselhos setoriais; este trabalho centra-se no período compreendido pelos últimos anos do governo FHC e os dos mandatos subsequentes dos governos Lula e Dilma, visando à apropriação dos principais movimentos e processos de configuração e reconfiguração da educação superior em curso;

2) levantamento e análise da legislação da educação superior no período já referido, a partir do Diário Oficial da União (DOU), da internet, de periódicos especializados em legislação da área;

3) observação de reuniões de conselhos superiores, setoriais e da administração superior, pretende compreender e analisar o cotidiano da gestão universitária;

4) entrevistas abertas e conversas informais com professores e gestores acadêmicos e administrativos, com a finalidade de complementar os dados e os objetivos da análise documental e da observação sistemática;

5) ampliação e sistematização necessariamente permanente da literatura sobre o objeto de estudo, em especial o campo da educação superior.

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Ainda no espectro das dificuldades se coloca a obtenção de dados mais qualitativos, que possam dizer do cotidiano do trabalho acadêmico, capazes de permitir análises mais substantivas das práticas acontecidas no dia a dia e que possam contribuir para o movimento mutacional em curso.

Destaco, pela sua importância num processo como este, a questão do poder. Embora por si só mereça uma pesquisa exclusiva, decorrente dentre outros motivos da especificidade de seu desenvolvimento em cada universidade, esta questão estará presente nesta pesquisa, na história de constituição do poder e no estabelecimento de ações e políticas na UFPB.

A investigação, a organização e a análise dos dados, delineiam a estruturação da pesquisa. O estudo levou-nos a optar pela sua exposição em quatro capítulos.

No primeiro capítulo situamos e analisamos os aspectos relacionais de globalização e ajuste estrutural desencadeados mais fortemente na última década do século passado. Priorizamos nosso estudo na conformação do Estado ajustado e sua relação com as políticas sociais, onde destacamos as relacionadas à educação e em especial as dirigidas à educação superior. As alterações em sequência, expõem a manutenção de um Estado ajustado, agora forte em sua expressão, com dois momentos caracterizados nos governos de Lula, onde se busca inicialmente a acomodação política e econômica a fim de não gerar desconfianças nas forças de mercado e em seguida, após um jogo de sedução em que todos são sedutores e seduzidos, estabelece-se um pacto em que aparentemente todos ganham.

No capítulo segundo, um processo histórico que demudou a UFPB com o seu desmembramento, dando origem a uma instituição reorganizada em sua estrutura político-administrativa, processo esse coincidente com os momentos de transição que se anunciam distintos de outros em que se percorria a ponte entre o nada e o lugar algum para que se mantivesse a ponte.

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de reorganização do sistema; um segundo aspecto relacionado ao trabalho e a vida acadêmica no sentido das condições de sua produção para o que nos valemos da contribuição marxista, e ainda, as disputas entre forças de adaptação e resistências, como também de improvisação e inovação, presentes no mundo universitário e científico, onde requisitamos a participação de Bordieu para a discussão das perspectivas e possibilidades nesse processo de transmudação.

As mudanças e permanências na UFPB são expostas no quarto capítulo. Como esta universidade constrói sua inserção nesse processo, como é transmudada, faz o seu conteúdo. Em discussão, portanto, a natureza, as funções e as finalidades acadêmicas das universidades federais e como está situada a UFPB em tal contexto, uma vez admitida as possibilidades de especificidade em sua reestruturação e reorganização. Recorre-se aos documentos primários da reforma da educação superior em curso e das principais políticas governamentais e seus impactos, a descrição analítica dos principais indicadores acadêmicos da UFPB e também as anotações de entrevistas, de observações e do levantamento de dados. Como age e reage esta universidade, resistindo, adaptando-se, inovando, improvisando, é parte da dialética envolvida num processo de transmudação. Neste caso, consideramos a gestão, o financiamento, a graduação e a pós-graduação, a pesquisa e a avaliação, elementos fundamentais pela sua importância revelada e pelas diversas políticas implantadas e/ou alteradas. A análise dos documentos e das resoluções da universidade, da participação e acompanhamento em reuniões de colegiados acadêmico-administrativos, e das conversas informais, integra a base da organização do capítulo e sua construção conta com as apropriações de elementos teóricos expostos em outros capítulos.

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2 GLOBALIZAÇÃO, AJUSTE ESTRUTURAL E ESTADO AJUSTADO E SEUS DESDOBRAMENTOS PARA A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR

Este capítulo analisará os processos de ajuste sofrido pelo Estado a partir do ideário neoliberal globalizado e seus rebatimentos na elaboração e proposição de políticas sociais, com destaque para as políticas de educação superior. Consideramos relevante tecer tais análises tendo em vista que o que se configurou como ajuste estrutural do capitalismo, fortemente assentado em sua dimensão econômica e disseminado em todas as outras: social, política e cultural, assume relevância para o nosso estudo da educação superior no Brasil.

Em julho de 1944, representantes de 45 países assinaram o denominado Acordo de Bretton Woods7 com o objetivo de planejar a estabilização da economia internacional e das moedas nacionais. Também criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). No ano seguinte foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU).

A importância desses organismos vai se confirmando à medida que desempenham o papel interveniente na elaboração de políticas sociais, na definição das prioridades econômicas, no financiamento da infra-estrutura de suporte para o desenvolvimento industrial das economias dependentes ou no estabelecimento de diretrizes internacionais para as áreas sociais. Em âmbito internacional, o papel desses organismos configurou-se como um poder de Estado, pois não havia mais possibilidade de que as antigas unidades básicas territoriais - Estados-nação - resolvessem seus problemas internamente (MARTINS, 2002, p. 54).

Nos últimos decênios do século XX, os Estados-nação viram-se desmantelados pela força da economia transnacional e por forças internas, que vêm privilegiando grupos econômicos, étnico-religiosos ou secessionistas, instaurando uma crise no modelo de Estado constituído pelo advento das revoluções burguesas e pela consolidação do regime econômico capitalista (HOBSBAWM, 1995).

No início dos anos de 1970, o mundo capitalista - acentuadamente os países hegemônicos – entra em crise, desfaz-se de suas referências anteriores: um sistema de proteção social, solidariedade republicana e uma democracia com participação

7 Assinado em 1994, em New Hampshire

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importante da sociedade civil e da sociedade política, com atuação dos partidos políticos. Essa crise alimentará e consolidará uma elaboração política e ideológica que tem no denominado Consenso de Washington8 sua expressão mais significativa: o neoliberalismo9.

Segundo Fiori (1996), essa matriz neoliberal se formou entre 1968 e 1973, com a convergência de diversos fatos econômicos e políticos, que produziram uma verdadeira ruptura nos rumos da história sócio-econômica e política nos países de economia capitalista. Para exemplificar, podemos citar os movimentos estudantis e operários na França, em maio de 196810, e o fim do padrão ouro em relação ao dólar – em 1971, findou o acordo monetário acordado em Bretton Woods que previa a conversibilidade do dólar em ouro -, expressando, assim, um marco na (re)produção do conhecimento no mundo contemporâneo.

Na visão neoliberal, o Estado do bem-estar social11 foi considerado um dos maiores responsáveis pela crise, esta entendida como as mudanças pelas quais passam tanto o Estado, quanto a sociedade capitalista, processo que se dá engendrando novas relações, resultantes de contradições entre os diversos sujeitos da sociedade política e da sociedade civil. O Estado do bem-estar foi uma das

8 Em novembro de 1989, reuniram-se na capital dos Estados Unidos funcionários do governo norte-americano e dos organismos financeiros internacionais ali sediados - FMI, Banco Mundial e BID - especializados em assuntos latino-americanos. O objetivo do encontro, convocado pelo Institute for International Economics, sob o título "Latin American Adjustment: How Much Has Happened?", era proceder a uma avaliação das reformas econômicas empreendidas nos países da região. Para relatar a experiência de seus países também estiveram presentes diversos economistas latino-americanos. Às conclusões dessa reunião é que se daria, subsequentemente, a denominação informal de "Consenso de Washington"... Nesse encontro foi ratificada a proposta neoliberal que o governo norte-americano vinha insistentemente recomendando, por meio das referidas entidades, como condição para conceder cooperação financeira externa, bilateral ou multilateral.

9 O neoliberalismo se apresenta como uma redefinição do liberalismo clássico. Um conjunto de ideias políticas e econômicas capitalistas que defende a não participação do estado na economia, a total liberdade de comércio para garantir o crescimento econômico e o desenvolvimento social. Defensor da pouca intervenção no mercado de trabalho, da política de privatização das estatais, da livre circulação de capitais e ênfase na globalização, a abertura da economia para a entrada de empresas multinacionais e a adoção de medidas contra o protecionismo econômico e a diminuição de impostos e tributos considerados excessivos.

10 Movimento de múltipla potencialidade que se tornou ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais. Marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs), defensores das minorias e dos direitos humanos. Uma reação às pressões de 20 anos de Guerra Fria e uma rejeição aos processos de manipulação da opinião pública pela mídia que atuava como “aparelhos de Estado” incutindo os valores do capitalismo e, simultaneamente, ao “socialismo real”, ao marxismo oficial.

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soluções buscadas pelo capitalismo, no sentido de superar a crise dos anos 192012, nos países de capitalismo avançado, atribuindo-se ao Estado o duplo papel de financiador e subsidiador da acumulação privada e de provedor de políticas sociais compensatórias, como saúde, educação, seguridade social, seguro desemprego, transporte, entre outras. Tais políticas sociais, entendidas como direito social dos cidadãos, e não revestidas de caráter caritativo, atuam na reprodução da força de trabalho que também beneficia o capital.

Fiori (1996) apresenta-nos o que seria um resumo do ideário neoliberal originado no Consenso: em primeiro lugar, os países “periféricos” deveriam buscar a estabilização econômica, e essa estabilização exigiria uma política monetária rígida e austera, com cortes de salário dos funcionários públicos, demissões, corte das contribuições sociais, reforma da previdência social etc. Em segundo lugar, era preciso desonerar fiscalmente o capital, para que se pudesse aumentar sua competitividade no mercado internacional, desregulado e aberto. Assim, por exemplo, para que as pequenas empresas situadas nos países periféricos pudessem entrar nesse jogo, teriam que aumentar sua competitividade. Isso implicava uma desoneração fiscal, flexibilização dos mercados de trabalho, diminuição da carga social com os trabalhadores e diminuição dos salários. Em terceiro lugar, era necessário desmontar radicalmente o modelo econômico anterior de crescimento industrial por substituição de importações e a liberação do comércio, do investimento e do financiamento. Percebemos que, na verdade, trata-se de uma política, de fato, de ajuste econômico, com impactos na redução dos benefícios das políticas sociais, conforme veremos mais adiante.

Para tanto, a materialização das ideias do Consenso de Washington exigia, entre outras, a realização de reformas estruturais, como a desregulamentação da economia, sobretudo do mercado financeiro e do trabalho. Requeria, também, a necessidade de implementar a privatização das empresas em poder do Estado.

Com o triunfo do neoliberalismo, características tais como equidade, crescimento e intervencionismo estatal são substituídas por liberdade de mercado, eficiência corporativa e desregulamentação da economia. Essas mudanças

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levam a uma ruptura do paradigma econômico então vigente, provocando alterações substanciais na formulação e condução de políticas para a sociedade.

Santos (2002), com quem aqui dialogamos mais intensamente, analisando o processo de globalização, considera em seu entendimento resultante da análise do fenômeno, que para além da essencial dimensão econômica devemos atribuir igual atenção às dimensões política, social e cultural. Para este autor, trata-se de um processo que envolve diferentes relações sociais que se articulam em conjuntos e que se expressão não de forma única e homogênea, mas em “globalizações”. Em sua definição,

Globalização é o processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival (SANTOS, 2008, p. 438).

E considera, em suas explicações conceituais com as quais guardamos alguma identidade, que diferentemente do que se tentou hegemonizar, as características dominantes da globalização não comportam linearidade no processo e tampouco se configura um processo consensual. Assinalamos que por encerrar contradições inerentes às complexas dimensões do processo, em particular as oriundas das relações sociais e políticas, a globalização é geneticamente conflituosa.

A globalização, longe de ser consensual, é, como veremos, um vasto e intenso campo de conflitos entre grupos sociais, Estados e interesses hegemônicos, por um lado, e grupos sociais, Estados e interesses subalternos, por outro; e mesmo no interior do campo hegemônico há divisões mais ou menos significativas. No entanto, por sobre todas as suas divisões internas, o campo hegemônico atua na base de um consenso entre os seus mais influentes membros. É esse consenso que não só confere à globalização as suas características dominantes, como também legitima estas últimas como as únicas possíveis ou as únicas adequadas (SANTOS, 2002, p. 2).

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denomina localismo globalizado, forma de globalização em que determinado fenômeno, entidade, condição ou conceito local é globalizado com sucesso, a exemplo do ajuste estrutural capitalista, imposição de uma nova ordem internacional, um dos processos que fundamenta, em nosso entender, as políticas sociais, aí incluídas as educacionais, adotadas por governos brasileiros no fim do século XX. Uma segunda forma que chamou globalismo localizado diz consistir “no impacto específico nas condições locais das práticas e imperativos transnacionais que emergem dos localismos globalizados” (idem, p. 438). Cita como exemplo a eliminação do comércio tradicional e da agricultura familiar ou de subsistência e, podemos acrescentar, a subsunção do conhecimento técnico-científico em condição subalterna, que será refletido no processo de educação superior. A gravidade da situação se apresenta pelo fato de que a produção do conhecimento científico é realizada nas e pelas universidades públicas, em especial as federais, no caso brasileiro. Faz parte do imperativo transnacional a desintegração, a marginalização, a exclusão das condições locais ou, uma dissimulada reestruturação desde que parametrizada pela subalternidade.

É a articulação desses dois processos, operando em conjunção, que configuram um modo de produção de globalização, a globalização hegemônica, que se tornou mais conhecida pela denominação de neoliberal, que na expressão de Santos (ibidem, p. 438) é “versão mais recente do capitalismo e imperialismo globais”. Segundo este autor, o sistema mundo é uma trama de localismos globalizados e de globalismos localizados e das resistências que eles suscitam, caracterizados por uma divisão internacional de produção da globalização que assume um padrão em que os países centrais se especializam em localismos globalizados, enquanto sobra aos países ditos periféricos a escolha entre as várias alternativas de globalismos localizados.

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Trata-se de um conjunto muito vasto e heterogêneo de iniciativas, movimentos e organizações que partilham a luta contra a exclusão e a discriminação sociais e a destruição ambiental produzidas pela globalização neoliberal, recorrendo a articulações transnacionais tornadas possíveis pela revolução das tecnologias de informação e de comunicação. (SANTOS, 2008, p. 439).

Convém acentuar que na exploração da idéia de cosmopolitismo promovida por Santos (2008, p. 439), o destaque crítico quanto ao internacionalismo proletário presente na obra de Marx, no nosso entender, chama a atenção para elaboração de uma insurgência subalterna politicamente organizada dirigida pela classe operária, o que a limita, mas, apesar de não ser explícito, considera os outros grupos sociais subalternos no processo. O que seria mais difícil enxergar no século XIX, no mundo atual, de acordo com Santos, e ao qual nos acostamos, os grupos sociais subalternos e as classes oprimidas não são redutíveis à categoria de classe que só tem a perder os seus grilhões.

Para além da classe operária descrita por Marx, o cosmopolitismo subalterno e insurgente inclui grupos sociais que são vítimas de exclusão social não diretamente classista (discriminação sexual, étnica, racial e religiosa), bem como vastas populações do mundo que nem sequer tem grilhetas, ou seja, que não são suficientemente úteis ou aptas para serem diretamente exploradas pelo capital. Por esta razão, cosmopolitismo subalterno e insurgente não implica uniformização ou homogeneização, nem se rege por uma teoria geral de emancipação social que neutralize as diferenças, autonomias e identidades ideológicas, regionais, culturais, entre os movimentos ou associações. (SANTOS, 2008, 440).

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Uma demonstração dessa forma contra-hegemônica de globalização foi a organização do Fórum Social Mundial, que em suas edições mostrou as possibilidades de sua ocorrência e significados para lutas sociais, políticas e culturais, como também apresentou as debilidades que contribuem para o seu definhamento. Mesmo assim, o cosmopolitismo subalterno e insurgente afirma numa experiência como essa a existência de alternativas à globalização hegemônica, neoliberal. Cabe aqui a compreensão de que a globalização é finita porque provisória, parcial e reversível porque resulta da luta permanente entre dois modos de produção de globalização.

Complementando o segundo modo de produção, outro processo contra-hegemônico se dá no surgimento de lutas transnacionais por valores, ou recursos que, pela sua natureza, são tão globais como o próprio planeta e que Santos (2008, p. 441) denominou patrimônio comum da humanidade. Refere-se, por exemplo, a sustentabilidade da vida humana na Terra ou a temas ambientais.

Para a nossa compreensão e análise do modo de produção da globalização neoliberal consideramos como âncora do consenso necessário entre seus membros o que se tornou conhecido como “consenso de Washington”. Em meados da década de oitenta, foi subscrito pelos Estados centrais do sistema mundial, abrangendo o futuro da economia mundial, as políticas de desenvolvimento e especificamente o papel do Estado na economia.

O consenso neoliberal propriamente dito é um conjunto de quatro consensos13 dos quais decorrem outros, afirma Santos (2002, p. 27). Os diferentes consensos que constituem o consenso neoliberal partilham uma idéia-força que, como tal, constitui um meta consenso14. Integram este meta consenso duas ordens de ideias.

13 Refere-se aos consensos: 1) econômico, cujas principais inovações institucionais são as restrições drásticas à regulação estatal da economia; os novos direitos de propriedade internacional para investidores estrangeiros, inventores, criadores de inovações suscetíveis de ser objeto de propriedade intelectual (ROBINSON, 1995, p. 373); 2) estado fraco ou estado mínimo, o mais central, baseia-se na idéia de que o Estado é o oposto da sociedade civil e potencialmente seu inimigo. A economia neoliberal necessita de uma sociedade civil forte e para que ela exista é necessário que o Estado seja fraco; 3) democracia liberal, visa dar forma política ao estado mínimo, recorrendo à teoria política liberal que defende a convergência entre liberdade política e liberdade econômica, as eleições livres e os mercados livres. 4) primado do direito e do sistema judicial, formulador de um novo quadro legal adequado à liberalização dos mercados, dos investimentos e do sistema financeiro (SANTOS, 2000, p. 12)

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Uma primeira é a idéia de que entramos num período em que desapareceram as clivagens políticas profundas, principalmente as que opunham os projetos socialistas ao capitalismo. Com a simbólica derrubada do Muro de Berlim, presume-se que as rivalidades entre os paípresume-ses hegemônicos, que no século XX provocaram duas guerras mundiais, desapareceram, dando origem à interdependência entre as grandes potências, à cooperação e à integração regionais. Hoje em dia, existem conflitos no Oriente e na Ásia, em que os países centrais participam de forma velada ou não. Nessas áreas de instabilidade, apesar de interesses em disputa, os ditos países centrais buscam manter o controle utilizando-se de mecanismos como a intervenção seletiva, a manipulação da ajuda internacional ou o controle por meio da dívida externa. Considera-se também que os conflitos entre capital e trabalho nesse período pós-fordista tem sido desinstitucionalizados sem que provoque reações superlativas devido à fragmentação da classe operária e o surgimento de novos compromissos de classe menos institucionalizados em contextos menos corporativistas (SANTOS, 2002, p. 28).

É também parte desse meta-consenso, a idéia de que desapareceram igualmente as clivagens entre diferentes padrões de transformação social. Decreta-se o fracasso dos processos políticos revolucionários e dos reformistas. Se por um lado, o desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a queda do Muro de Berlim, significariam o fim do paradigma revolucionário, por outro lado, a crise do Estado de Bem-Estar Social nos países centrais e semi-periféricos significa a derrota do paradigma reformista. A transformação social deixa de ser uma questão política e passa a ser uma questão técnica. É a idéia do fim da história apregoada por Fukuyama (1992). Este meta consenso e os que decorrem subjazem às características dominantes da globalização em suas múltiplas expressões: econômica, social, política e cultural.

2.1 AJUSTE ECONÔMICO E GLOBALIZAÇÃO

Retomemos em parte alguns elementos de análise já iniciada sobre o ajuste econômico, considerando-o na relação com o processo de globalização, antes

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conceituado, e acrescentemos outros que nos permitam melhor contextualizar o neoliberalismo e suas repercussões nas políticas adotadas pelo governo brasileiro.

O início da década de oitenta é marcado pela emergência de uma nova divisão internacional do trabalho, baseada na globalização da produção levada a cabo pelas empresas multinacionais, gradualmente convertidas em atores centrais da nova economia mundial.

Destacamos as seguintes principais marcas desta nova economia mundial: a financeirização da economia ou o domínio da economia pelo sistema financeiro e pelo investimento em escala global, privilegiando-se o denominado capital não produtivo; a flexibilização dos processos de produção coma sua pulverização em vários países; consequente redução dos custos de transporte; profícua e intensiva revolução nas tecnologias de informação e de comunicação; desregulação das economias nacionais; primazia das agências financeiras multilaterais. Naquele momento histórico, destacava-se a emergência de três grandes capitalismos transnacionais: o americano, baseado nos Estados Unidos da América (EUA) e nas relações privilegiadas deste país com o Canadá, o México e a América Latina; o japonês, baseado no Japão e nas suas relações privilegiadas com os quatro pequenos tigres e com o resto da Ásia; e o europeu, baseado na União Européia e nas relações privilegiadas desta com o Leste Europeu e com o Norte de África. Estas transformações atravessaram todo o sistema mundial, ainda que com intensidade desigual a depender da posição dos países no sistema mundial (SANTOS, 2002, p. 29).

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eliminando a sua universalidade, e transformando−as em meras medidas compensatórias em relação aos estratos sociais inequivocamente fragilizados pela atuação do mercado.

Uma das características da nova geografia que se configurou é que o investimento estrangeiro direto, do qual, durante uns tempos, a América Latina foi o maior beneficiário, dirigiu−se para a Ásia, onde a taxa anual de crescimento aumentou em média 37% por ano entre 1985 e 1989. Por outro lado, uma mudança no perfil do comércio mundial, antes concentrado nas matérias−primas, outros produtos primários e recursos manufaturados, a partir dos anos oitenta do século passado, caracterizado pelo crescimento geométrico da taxa dos fluxos financeiros (SASSEN, 1998, p. 14). Portanto, já naquele momento estava delineado institucionalmente um novo regime internacional, baseado na ascendência do sistema financeiro e dos serviços internacionais. As empresas multinacionais são agora um importante elemento na estrutura institucional, juntamente com os mercados financeiros globais e com os blocos comerciais transnacionais. De acordo com Sassen (1998, p. 18), todas estas mudanças contribuíram para a formação de novos locais estratégicos na economia mundial: zonas de processamento para exportação, centros financeiros offshore e cidades globais. Uma das transformações mais dramáticas produzidas pela globalização econômica neoliberal residia na enorme concentração de poder econômico por parte das empresas multinacionais: das 100 maiores economias do mundo, 47 são empresas multinacionais; 70% do comércio mundial é controlado por 500 empresas multinacionais; 1% das empresas multinacionais detém 50% do investimento direto estrangeiro.

A globalização econômica é sustentada pelo consenso econômico neoliberal cujas três principais inovações institucionais são: restrições drásticas à regulação estatal da economia; novos direitos de propriedade internacional para investidores estrangeiros, inventores e criadores de inovações suscetíveis de ser objeto de propriedade intelectual; subordinação dos Estados nacionais às agências multilaterais tais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Dado o caráter geral deste consenso, as receitas em que ele se traduziu foram aplicadas, ora com extremo rigor, ora com alguma flexibilidade, afirma Santos (2002, p. 31).

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neoliberal, uma vez que este é transformado pelas agências financeiras multilaterais em condições – quase determinações - para a renegociação da dívida externa através dos programas de ajustamento estrutural. Mas, dado o crescente predomínio da lógica financeira sobre a economia real, mesmo os Estados centrais, cuja dívida pública tem aumentado consideravelmente, estão sujeitos às decisões das agências financeiras de rating, ou seja, das empresas internacionalmente acreditadas para avaliar a situação financeira dos Estados e os consequentes riscos e oportunidades que eles oferecem aos investidores internacionais.

Recordemos que as políticas predominantes no pós-guerra estavam fundamentadas no denominado bem-estar social, estruturadas a partir de elementos econômicos em que a presença do Estado na sociedade se fazia marcante. Podemos citar essa presença pela intervenção do Estado nas forças do mercado, para proteger determinados grupos, pela geração de política de pleno emprego, imprescindível porque os salários dos cidadãos se percebem por meio do trabalho produtivo ou do aporte de capital e ainda pela institucionalização de redes de proteção social para cobrir necessidades a que, dificilmente, os salários normais poderiam satisfazer e a institucionalização de ajuda para os que não estão inseridos no mercado de trabalho.

O Estado do Bem–estar social, historicamente, recebe essa denominação por ser considerado aquele que melhor contribuiu para o reconhecimento da cidadania social de seus membros, principalmente em alguns países europeus. O cumprimento dos elementos dessa agenda, no período pós-guerra, extrapolou o perfil dos governos democráticos, transformando-os de governos provedores em democráticos gestores.

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É nesse caldeirão político e econômico que, entre 1973 e 1980, a economia e a política mundial entram em crise, gerando a histórica e conhecida instabilidade econômica. Os países mais ricos começaram a viver um longo período de recessão, ocorreu a desaceleração do crescimento econômico, o aumento da inflação, o desemprego e a redução dos gastos públicos de natureza social, dentre eles, os da área educacional. Essa situação explica a virada conservadora que aconteceu em nível mundial (1979-1982), particularmente, nos EUA, no âmbito político, o confronto com o mundo socialista, e no âmbito econômico-financeiro, a elevação das taxas de juros e a revalorização do dólar.

Esse “desequilíbrio” levou a uma “necessária” retomada da hegemonia estadunidense, mediante a criação de uma matriz neoliberal encabeçada por esse país e pela Inglaterra, como forma de controle do mundo periférico. Para tal, urgia abrir os mercados, desregulamentar a economia e minimizar o Estado, dando concretude aos principais objetivos do Consenso de Washington.

A esse respeito, Ianni (2001) argumenta que “é no contexto do globalismo que o liberalismo se transfigura em neoliberalismo”. Para ele, a nova divisão transnacional do trabalho e da produção, a crescente transformação dos mercados nacionais em mercados regionais e em um mercado mundial, o desenvolvimento dos meios de comunicação, a formação de redes de informática, a expansão das corporações transnacionais e a emergência de organizações multilaterais constituem, no atual processo de globalização capitalista, formas de expansão das bases sociais e de polarizações de interesses que se expressam no neoliberalismo. A implementação dessas políticas provocou ajustes estruturais cujas consequências veremos a seguir.

2.2 AS DESIGUALDADES SOCIAIS NA GLOBALIZAÇÃO HEGEMÔNICA

Imagem

GRÁFICO 01  –  Evolução do número de professores das IFES (REUNI).
GRÁFICO 02  –  Evolução do número de vagas das IFES (REUNI).
GRÁFICO 03  –  Recursos públicos da União aplicados na Educação Superior (IFES).
GRÁFICO 04  –  Recursos públicos da União aplicados na Educação Superior (IFES)                             como percentual do PIB

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