DIREITO CIVIL CONSTITUCIONAL
Janaina de Sousa Bastos Bacharel em Direito pelas Faculdades Jorge Amado Advogada especializada em Direito Civil e Direito do Trabalho.
A Constituição Federal de 1988, inaugurando novos tempos, representou a passagem do Estado Liberal para o Estado Social. Mas essa mudança deu-se de forma gradual. Sabe-se, por certo, que os fatos históricos nem sempre são acompanhados pelo ordenamento jurídico na mesma dinâmica. A regulação de determinados direitos surge com as necessidades geradas em sociedade. Leonardo Mattietto, em obra coordenada por Gustavo Tepedino, pondera nesse sentido que "é preciso partir da noção de que qualquer instituto jurídico está sujeito há uma relatividade histórica, na variedade de suas formas e transformações".1
Em nossa sociedade isso não ocorreu de forma diversa. O século XIX, época liberal, foi marcado por um grande crescimento econômico mundial, conseguido por meio de dogmas de plena liberdade e de igualdade formal, importante para a viabilização de negócios, onde a autonomia da vontade e a força obrigatória dos contratos reinavam absolutas. Passada esta época veio a necessidade de criação de uma nova Constituição Federal sob outros postulados, e o artigo 1º e 170 desta atual Constituição refletem esta passagem do liberal para o social, na medida em que elevam o homem ao patamar de fim último do ordenamento jurídico. Ínsitos a estas mudanças na ordem constitucional, devem os juristas a estas se submeterem, para todo o ordenamento jurídico olhar através destas novas lentes constitucionais. Gustavo Tepedino, na introdução de sua obra, Problemas de direito civil-constitucional, acentua que:
1MATTIETTO, Leonardo. In TEPEDINO, Gustavo (Coord.).Problemas de Direito Civil-Constitucional. Rio
O legislador contemporâneo, instado a compor, de maneira harmônica, o complexo de fontes normativas, formais e informais, nacionais e supranacional, codificadas e extracodificadas, deve valer-se das prescrições narrativas e analíticas, em que consagram expressamente critérios interpretativos, valores a serem preservados, princípios fundamentais como enquadramentos axiológicos com teor normativo e eficácia imediata, de tal modo que todas as demais regras do sistema, respeitados os diversos patamares hierárquicos, sejam interpretadas e aplicadas de maneira homogênea e segundo conteúdo objetivamente definido.2
Neste iter realizado pelo constituinte, foram estabelecidos novos fundamentos constitucionais, pilares de toda hermenêutica jurídica, que passaram a ter como axiomas principais a preservação da dignidade da pessoa humana e a justiça social. Findou-se a era de proteção à pura e simples liberdade do homem, para dar início à preocupação com sua subsistência, bem como viabilizar o exercício de uma real liberdade e da igualdade material entre os indivíduos. Logo, toda a legislação infraconstitucional deve submeter-se a estes novos ditames constitucionais por estes serem os requisitos que validarão esta ordem infraconstitucional, dada a superioridade hierárquica das normas e princípios da Carta Magna. Sobre estes fatos, em sua obra Direito Civil: Teoria Geral, fala Cristiano Chaves que desta forma “proclama-se, não sem razão, que a constituição da república de 1988 promoveu verdadeira reconstrução da dogmática jurídica, a partir da afirmação da cidadania como elemento propulsor".3
Os novos fundamentos constitucionais acima explicitado são imensamente importantes na regulação das relações entre os indivíduos, ou seja, no campo do direito privado e, em conseqüência, diretamente incidentes no direito civil, eterno berço do direito privado. À luz
2TEPEDINO, Gustavo (Coord.).Problemas de Direito Civil-Constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2000,
p.11.
de Paulo Luiz Netto Lôbo4, falando historicamente, os ordenamentos civis por anos a fio foram um instrumento regulador somente das relações privadas, das relações interindividuais. Após o Estado Liberal Francês e sua Codificação Napoleônica, os diplomas civis em todo o mundo disciplinaram o homem em suas relações sob o prisma patrimonial. Era a proteção do homem titular de um direito de propriedade que iria proporcionar o idealizado crescimento econômico da época, fortalecendo o capitalismo que solidificava suas bases.
Nesta seara, não há como se definir um conceito fixo para o direito civil, pois este não é estático, mudando conforme o momento histórico. Falando-se, entretanto, desta época liberal do código de Napoleão, pode-se dizer que o direito civil era sua imagem, "regulava as relações entre as pessoas privadas, seu estado, sua capacidade, sua família e, principalmente, sua propriedade, consagrando-se como reino da liberdade individual".5
Contemporaneamente este conceito mudou, refletindo-se agora, na visão de Maria Celina B. Moraes, como:
"Uma série de regras dirigidas a disciplinar algumas das atividades da vida social, idôneas a satisfazer os interesses dos indivíduos e dos grupos organizados, através da utilização de determinados instrumentos jurídicos. Afastou-se do campo de direito civil (propriamente dito) aquilo que era a sua real nota sonante, isto é, a defesa da posição do indivíduo frente ao estado (hoje matéria constitucional), alcançável através da predisposição de um elenco de poderes jurídicos que lhe assegurava absoluta liberdade para o exercício da atividade econômica6".
4LÔBO, Paulo Luiz Netto.Constitucionalização dos Direitos Civis. Disponível em:
<www.ibdfam.com.br/public/artigos.aspx?codigo=108> . Acesso em 05 mar. 2004.
5MORAES, Maria Celina B.A caminho de um Direito Civil Constitucional. Disponível em:
<www2.uerj.br/~direito/publicacoes/mais_artigos/a_caminho_de.html>. Acesso em: 05 mar. 2005.
O brilhante professor Cristiano Chaves de Farias traz o conceito de direito civil nos seguintes termos: "é o ramo do direito privado tendente a reger as relações humanas. Enfim, é o direito comum a todas as pessoas, disciplinado o seu modo de ser e de agir. É, pois, o direito da vida do homem7".
O ilustríssimo autor italiano Pietro Perlingieri, em sua obra Perfis do direito civil
-Introdução ao direito civil constitucional, traduzida por Maria Cristina De Cicco utiliza o
termo despatrimonialização do direito civil para evidenciar a superação do individualismo e do patrimonialismo dizendo que:
O termo, certamente não elegante, ‘despatrimonialização’, individua-se uma tendência normativa-cultural; se evidencia que no ordenamento de operou uma opção, que lentamente, se vai concretizando, entre personalismo (superação do individualismo) e patrimonialismo (superação da patrimonialidade fim a si mesma, do produto civismo, antes, e do consumismo, depois, como valores)8.
Filia-se a este pensamento por entendê-lo inteiramente concatenado com a ordem constitucional brasileira, tendo o ordenamento civil importantíssimo papel na consecução desse fim, por lidar mais diretamente com as relações interpessoais. Por isso, repita-se, esse é o campo perfeito para a plenitude da execução da finalidade constitucional que é o respeito à dignidade da pessoa humana.
Desta importante conceituação pode-se aferir que essas mudanças no código civil deram-se na proporção em que o Estado passou a intervir nas relações entre as pessoas, especialmente no campo legislativo. Isso modificou os moldes deste direito que antes guardava ares de “base hierárquica” de todo o ordenamento jurídico. Muitos dos direitos
7FARIAS, Cristiano Chaves de.Direito Civil: Teoria Geral. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2005. p. 32. 8PERLINGIERI, Pietro.Perfis do Direito Civil. Trad. Maria Cristina De Cicco. Rio de Janeiro: Renovar,
que regulava foram transferidos para a proteção constitucional, adquirindo com um isto uma superioridade em relação a suas normas. Maria Celina completa que,
O novo peso dado ao fenômeno (a intervenção estatal) importa em rejeitar a idéia de invasão da esfera pública sobre a privada, para admitir, ao revés, a estrutural transformação do conceito de direito civil, ampla o suficiente para abrigar, na tutela das atividades e dos interesses da pessoa humana, técnicas e instrumentos tradicionalmente próprios do direito público como, por exemplo, a aplicação direta e das normas constitucionais nas relações jurídicas de caráter privado9.
Paulo Luiz Netto Lôbo, falando sobre matérias antes ínsitas no âmbito público, diz em seu artigo que geralmente esse fenômeno da constitucionalização do direito civil era confundido com a publicização do mesmo. Entretanto, a diferença entre eles é clara, pois a primeira pode ser entendida como a submissão do "direito positivo aos fundamentos de validade constitucionalmente estabelecidos" e a segunda como "o processo de intervenção legislativa infraconstitucional".10 Isto leva a crer que o fato da Constituição Federal tratar de assuntos relacionados ao direito civil não significa tê-lo tornado público, pois as relações entre particulares são por natureza de direito privado. Esta inserção somente quer significar o estabelecimento dessa nova Ordem Constitucional que traz em seu bojo princípios dotados de força normativa e de plena executoriedade, que devem ser observados por toda sociedade e pelo Estado, seja pelo poder judiciário, legislativo ou executivo. Logo, sendo o Código de Civil uma lei hierarquicamente inferior à Constituição Federal, como já dito, deve observar seus preceitos, sob pena de se tornar inconstitucional e ser excluída do
9MORAES, Maria Celina B.A caminho de um Direito Civil Constitucional. Disponível em:
<www2.uerj.br/~direito/publicacoes/mais_artigos/a_caminho_de.html>. Acesso em: 05 mar. 2005.
10LÔBO, Paulo Luiz Netto.Constitucionalização dos Direitos Civis. Disponível em:
sistema. A Carta Magna submete toda a legislação infraconstitucional a seus requisitos de validade. Maria Celina fala que:
Desse modo, a normativa fundamental passa a ser a justificação direta de cada norma ordinária que com ela deve se harmonizar. Negar tal atitude hermenêutica significaria admitir um ordenamento assistemático, inorgânico e fragmentado, no qual cada núcleo legislativo corresponderia a tecido axiológico próprio, desprovido da unidade normativa, traduzindo se em manifesto desrespeito ao princípio da legalidade constitucional11.
Pietro Perlingieri, falando sobre a supremacia da Constituição como norma hierarquicamente superior, ápice da pirâmide que representa o ordenamento jurídico como um todo, diz que "o respeito à constituição, fonte suprema, implica não somente a observância de certos procedimentos para emanar a norma (infraconstitucional), mas, também, a necessidade de que seu conteúdo atenda aos valores presentes (e organizados) na própria constituição".12
O Código Civil, portanto, deve ecoar a disciplina das relações humanas privilegiando a dignidade da pessoa humana conforme fito constitucional. Maria Celina conclui que "tais são os fundamentos daquilo que se começa a delinear como a fundação de um direito civil constitucional, um direito civil efetivamente transformado pela norma constitucional13". À luz de Pietro Perlingieri, a Constituição Federal não deve significar somente um limite às normas infraconstitucionais, pois estas, a partir do momento que não ofendam normas constitucionais, são autônomas em relação a estas, sendo que as normas constitucionais só
11MORAES, Maria Celina B.A caminho de um Direito Civil Constitucional. Disponível em:
<www2.uerj.br/~direito/publicacoes/mais_artigos/a_caminho_de.html>. Acesso em: 05 mar. 2005.
12PERLINGIERI, Pietro. In Perfis do Direito Civil, Intodução ao Direito Civil Constitucional. Rio de Janeiro.
Ed. Renovar. Pág.10.
13MORAES, Maria Celina B.A caminho de um Direito Civil Constitucional. Disponível em:
atuariam subsidiariamente como fonte interpretativa. As regras da Carta Magna podem ser aplicadas até mesmo diretamente às relações de direito civil, na falta de regras específicas desta. O importante é a preservação sempre do respeito às normas constitucionais.14Nesse mesmo sentido Leonardo Mattietto, em obra coordenada por Gustavo Tepedino, acentua que:
Os valores e princípios constitucionais devem ter a sua eficácia reconhecida, ademais, não somente quando assinalados pelo legislador ordinário, que estréia transposto para a legislação infraconstitucional, mas também diretamente às relações entre os indivíduos (a denominada eficácia direta), inclusive em virtude da determinação segundo a qual ‘ as normas que definem os direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata’ (constituição, art. 5º,§ 1º).15
E, com estas pontuações define se o que seja direito civil-constitucional. Faz-se necessário ressaltar que não há o porque de confundi-lo com a regulação constitucional das matérias civis, fazendo Leonardo Mattietto grande observação em seu artigo nesse sentido:
Não se confunda, com a expressão direito civil constitucional, a designação do conjunto de dispositivos sobre os institutos civilísticos tradicionais, como a propriedade, a família e a empresa, que recebem tratamento específico no texto da constituição. Direito civil constitucional é o direito civil como um todo, já aqui não há como divisar nenhuma parte do direito civil que fique imune a incidência dos valores e princípios constitucionais. Logo, não só os institutos que receberam previsão constitucional compõem o direito civil constitucional, mais a inteira disciplina civilística, nesse juízo renovado.16
Com tudo isso, pode-se dizer que, não estamos diante de um Novo Direito Civil, mas com certeza nos deparamos com sua renovação frente aos novos preceitos constitucionais, deixando de ser um diploma estanque e emergindo socialmente na proteção de algo muito
14PERLINGIERI, Pietro.Perfis do Direito Civil. Trad. Maria Cristina De Cicco. Rio de Janeiro: Renovar,
1997, p.11-2.
15MATTIETTO, Leonardo. In TEPEDINO, Gustavo (Coord.).Problemas de Direito Civil-Constitucional.
Rio de Janeiro: Renovar, 2000. p. 171.
16MATTIETTO, Leonardo. In TEPEDINO, Gustavo (Coord.).Problemas de Direito Civil-Constitucional.
superior ao patrimônio, a proteção aos indivíduos em todas as suas relações. E desta maneira deve ser visto o Código Civil, como mais um meio de propagação dos preceitos constitucionais nas relações que disciplina.
BIBLIOGRAFIA
FARIAS, Cristiano Chaves de.Direito Civil: Teoria Geral. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2005.
LÔBO, Paulo Luiz Netto.Constitucionalização dos Direitos Civis. Disponível em: <www.ibdfam.com.br/public/artigos.aspx?codigo=108> . Acesso em 05 mar. 2004.
MATTIETTO, Leonardo. In TEPEDINO, Gustavo (Coord.).Problemas de Direito
Civil-Constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2000
MORAES, Maria Celina B.A caminho de um Direito Civil Constitucional. Disponível em: <www2.uerj.br/~direito/publicacoes/mais_artigos/a_caminho_de.html>. Acesso em: 05 mar. 2005.
PERLINGIERI, Pietro.Perfis do Direito Civil. Trad. Maria Cristina De Cicco. Rio de Janeiro: Renovar, 1997.
TEPEDINO, Gustavo (Coord.).Problemas de Direito Civil-Constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2000