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Comentario Biblico Broadman - Vol 12 - Hebreus a Apocalipse.pdf

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Academic year: 2021

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Emanuence Digital

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Volume 12

Comentário Bíblico Broadman

Emanuence Digital

e

Mazinho Rodrigues

Emanuence Digital

e

Mazinho Rodrigues

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Comentário

Bíblico

Broadman

Volume 12

Hebreus - Apocalipse

TRADUÇÃO DE ADIEL ALMEIDA DE OLIVEIRA

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Todos os direitos reservados. Copyright ( c ) 1969 da Broadman Press. Copyright 0 1 9 8 3 da JUERP, para a língua portuguesa, com permissão da Broadman Press.

O texto bíblico, nesta publicação, é da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira, baseada na tradução em português de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em hebraico e grego.

220.7

Ail-Com Allen, .Clifton J., ed. ger.

Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Editor Geral: Clifton J. Allen. Tradução de Adiei Almeida de Oliveira. 2.® ed. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1987.

Vol. 12.

Titulo original: The Broadman Bible Commentary

1. Bíblia — Novo Testamento — Comentários. 2. Novo Testamento — Comentários. I. Título.

3.000/1987

Código para Pedidos: 21.635

Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira

Caixa Postal 320 — CEP: 20001 Rua Silva Vale, 781 — CEP: 21370 Rio de Janeiro, RJ, Brasil

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COMENTÁRIO BlBLICO BROADMAN

V olume 12

Junta Editorial

EDITOR GERAL

Clifton I. Allen, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais

da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Editores Consultores do Velho Testamento

John I. Durham, Professor Associado de Interpretação do Velho Testamen­ to e Administrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­ te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos.

Roy L. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­ rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos. Editores Consultores do Novo Testamento

J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos.

Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison, Seminário Batista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos.

CONSULTORES EDITORIAIS

Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.

William J. Fallis, Editor Chefe de Publicações Gerais da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.

Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.

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Prefácio

O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de um a fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informações essenciais.

Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser considerados como a posição oficial do editor.

O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de um a Junta Consultiva. Esta ju nta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo.

No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos

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escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles.

A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “ de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores dos comentários.

Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer um a combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem.

Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, dever ético e missões mundiais dá igreja.

O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no mundo de Deus.

Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.

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Sumário

Hebreus Charles A. Trentham

Introdução... 11

Comentário sobre o T e x to ... 26

Tiago Harold S. Songer Intro du ção ... 121

Comentário sobre o Texto ... 128

I Pedro Ray Summers Introdução... ' ... 167

Comentário sobre o Texto ... 176

II Pedro Ray Summers Introdução... ... 203

Comentário sobre o Texto ... 206

I-n-n i João Edward A. McDowell Introdução... 223

Comentário sobre I J o ã o ... 230

Comentário sobre II J o ã o ... 264

Comentário sobre III J o ã o ... ... 268

JUDAS Ray Summers Introdução... 273

Comentário sobre o Texto ... 276

Apocalipse Morris Ashcraft Intro d u ção... .. 283

Comentário sobre o Texto ... 302

Artigos Gerais

Adoração na Bíblia Charles A. Trentham

Ética na Bíblia William M. Pinson, Jr.

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Hebreus

CHARLES A. TRENTHAM

Introdução

Se você perguntar por que alguém tentaria acrescentar algo ao já volumoso trabalho de pesquisa a respeito do livro de Hebreus, seria suficiente responder que a publicação, em 1965, do novo material a respeito de Melquisedeque, derivado dos Rolos do Mar Morto, rea­ vivou o interesse da comunidade cristã em examinar novamente o livro de He­ breus. Propiciou também alguns indí­ cios para se identificar as pessoas a quem este documento foi originalmente dirigi­ do. James A. Sanders, Professor de Ve­ lho Testamento no Union Theological Seminary, em Auburn, agora crê que eram pessoas que tinham alguma afini­ dade com a seita dos essênios, que ha­ viam-se refugiado na comunidade de Qumran. Porém, os eruditos estão divi­ didos com respeito à importância do material proveniente de Qumran, em re­ lação a Hebreus. Feine-Behm-Kümmel assim resume a situação:

Além do mais, certos estudiosos, em anos recen­ tes, e de várias maneiras, têm tentado estabelecer 0 fato de que o mundo intelectual de Qumran influenciou Hebreus (Schnackenburg, Betz), ou pelo menos que Hebreus é um apelo para ex- membros da seita dos essênios residentes em Qumran, cujas tendências eram similares às do autor (Kosmala, Yadin). Coppens, por outro lado, demonstrou, convincentemente, que não são apa­ rentes os paralelos entre Hebreus e o mundo intelec­ tual de Qumran; pelo contrário, a linguagem carac­ terística de Qumran não tem analogia em Hebreus. 1

No entanto, este documento assume uma nova e enorme vitalidade, quando

1 Feine-Behm-Kümmel: Introduction to the New Testa* ment(Nashville: Abingdon Press, 1966). pp. 278.

considerado como sendo dirigido, pelo menos em parte, aos convertidos, dentre os essênios, à nova comunidade cristã, e que ainda estavam se apegando tenaz­ mente às doutrinas essênias, recusando- se a avançar para uma fé cristã madura.

Logo que foram descobertos os Rolos do Mar Morto, o pulso de muitos erudi­ tos se acelerou, quando eles se defron­ taram com a possibilidade de abrir mão de muitos dos preciosos pressupostos que têm sido integrantes de nossa crença tradicional. A pessoa que ousasse entrar nas trevas agourentas das cavernas de Qumran, com sua vela tremeluzente à mão, fazia-o com grande agitação. Sabia que os ventos da verdade podiam soprar a sua vela, fazendo com que reiniciasse o trabalho com dados que eram até então desconhecidos pelos melhores eruditos, e por isso requeriam uma reinterpretação da fé cristã a partir de manuscritos mais antigos e mais dignos de confiança, e de materiais que fazem descrições muito mais claras das circunstâncias em que os primeiros arautos de Cristo fizeram soar a sua mensagem.

Esta consideração é particularmente pertinente ao estudo de Hebreus, visto que grande parte do que tem sido dito a respeito deste documento, no passado, é tão negativo e baseado em conjecturas que ele continua sendo o livro mais enig­ mático do Novo Testamento. A sua longa batalha para obter um lugar no cânon do Novo Testamento é, por si mesma, tão intrigante quanto a recomendação do seu

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estudo para o sério estudante das ori­ gens cristãs.

Ao tratar dos assuntos introdutórios principais, estaremos perguntando que forma teve originalmente este manuscri­ to: Era uma carta, um sermão, ou am­ bos? Podemos dizer algo com certeza a respeito de quem o escreveu? Podemos atribuir uma data em que ele foi escrito? A quem foi dirigido, e por que motivo foi escrito?

I. Carta ou Sermão?

Aquilo que hoje chamamos de Epístola aos Hebreus pode ter sido o primeiro sermão cristão registrado em nosso Novo Testamento. Alguns eruditos fazem ob- jeções a este ponto de vista, dizendo que nenhum sermão poderia apresentar uma teologia tão envolvente nem poderia es­ perar-se que alguma congregação assimi­ lasse um pensamento tão profundo e intrincado de uma só vez. É verdade que este discurso tem pouca semelhança com as homílias breves, monotemáticas e agu­ das dos nossos dias. No entanto, a prega­ ção nos púlpitos dos períodos da Refor­ ma e do movimento Puritano tem seme­ lhança com Hebreus, tanto na riqueza de conteúdo quanto na extensão da compo­ sição. Ao mesmo tempo, não pode ser negado que, como argumenta Dinkler, Hebreus pode ser uma combinação de vários sermões coligidos e combinados pelo autor deste volume.2

A continuidade lindamente equilibra­ da desta discussão argumenta, entretan­ to, em favor da unidade da obra em questão. O autor chama a sua obra de “palavra de exortação” (13:22), e no próprio documento não há nada que indique que ele é um a carta, até a sau­ dação pessoal deste versículo. A palavra “carta” não aparece no manuscrito. A tradução “Vos escrevi uma carta” (13: 22, KJV) fica melhor simplesmente como “vos escrevi” .

2 E. Dinkler: “ Letter to the Hebrews", IDB, Vol. E-J (Nashville: Abingdon Press, 1969), p. 572.

Hebreus não começa como carta. Ini­ cia-se abruptamente, com dois advérbios retumbantes. É possível que o primeiro parágrafo tenha sido gasto, mediante o uso, no manuscrito original. Pode até ser que tenha sido removido deliberadamen­ te. Por exemplo, Harnack argumentava que é bem provável que, se uma mulher o escreveu, o primeiro parágrafo foi apa­ gado ou retirado, por causa do baixo conceito em que eram tidas as mulheres naquela época.

De qualquer forma, Hebreus soa como um sermão. Note como o escritor se refere repetidamente ao ato de falar: “Porque não foi aos anjos que Deus su­ jeitou o mundo vindouro, de que fala­ mos” (2:5). “ Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e que acom­ panham a salvação, ainda que assim falamos” (6:9). “E que mais direi?” (11:32).

O longo debate a respeito de se a obra em questão é uma carta ou um sermão pode ser resolvido com a conclusão pos­ sível de que ela era, a princípio, um ser­ mão a uma congregação em particular, de cristãos palestinos, tendo sido mais tarde enviada como carta para a igreja em Roma.

Se a aceitarmos como sermão, teremos um opulento vislumbre do elevado mérito literário de parte da pregação cristã pri­ mitiva, pois trata-se de uma obra-prima de prosa cristã do primeiro século. Con­ tém o grego mais puro e mais belo do Novo Testamento. As cadências rítmicas e as maravilhosas erupções de pura elo­ qüência têm ganho, para o autor, o tí­ tulo de “ O Isaías do Novo Testamento” . Edmund Gosse, distinto literato in­ glês, escreveu a respeito do impacto que a leitura de Hebreus, feita por seu pai, causou em sua mente sensível e jovem, quando ele era criança (citado por James Moffatt, p. xxx).

A extraordinária beleza da linguagem — por exemplo, as cadências e as imagens incomparáveis do primeiro capítulo — causaram uma impressão sobre minha imaginação, e foram (penso eu) a

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minha primeira iniciação na mágica da literatura. Eu era incapaz de definir o que sentia, mas certa­ mente eu sentia um nó na garganta, que era, em sua essência, uma emoção puramente estética, quando o meu pai lia, com sua voz pura, grandiosa, retumbante, passagens como “ Os céus são obra de tuas mãos; eles perecerão, mas tu permaneces; e todos eles, como roupa, envelhecerão, e qual um manto os enrolarás, e como roupa se mudarão; mas tu és o mesmo, e os teus anos não acabarão.”

II. Autoria

A pergunta seguinte relaciona-se com quem escreveu Hebreus. Os mais antigos manuscritos não mencionam um autor. Os primeiros sinais da carta aparecem na igreja ocidental, quando, em 95 d.C., Clemente de Roma escreveu à igreja em Corinto e citou a passagem em Hebreus referente à superioridade de Cristo, em comparação com os anjos. Embora Cle­ mente esteja escrevendo de Roma para Corinto, não dá nenhuma indicação de que ela foi escrita por Paulo. Nos pri­ meiro, segundo e terceiro séculos, a igre­ ja ocidental não declarou que ela foi escrita por Paulo. Mas Clemente e Her- mas de Roma, escrevendo pouco antes e depois do fim do primeiro século, conhe­ ciam o livro em questão, tinham-no em elevada estima e citaram-no; porém não lhe deram um título nem um autor. So­ mente no quarto século, Hilário tomou- se o primeiro Pai da igreja ocidental a dizer que Paulo era o seu autor. Se a con­ gregação de Roma foi a primeira a rece- bê-lo como carta, parece que essa igreja ocidental foi a primeira a reconhecê-lo como de autoria paulina.

A primeira reivindicação de autoria paulina veio da igreja oriental, de Pan- taenus de Alexandria, em 180 d.C. Al­ guns comentaristas diminuem o valor do testemunho de Pantaenus, dizendo que ele era demasiadamente zeloso pela igre­ ja oriental. Os alexandrinos eram bons cristãos. Eles desejavam que uma carta de Paulo tivesse sido dirigida pessoal­ mente a eles. Quando Pedro escreveu às igrejas da Dispersão, na Ãsia Menor, para encorajá-las na fidelidade, em vista

do retomo do Senhor, disse: “O nosso amado irmão Paulo vos escreveu” (II Pe­ dro 3:15). Pantaenus disse que Hebreus é essa carta. Se Hebreus não é essa carta, então ela perdeu-se. Sabemos que algu­ mas das cartas de Paulo se perderam.

Clemente de Alexandria, aluno de Pantaenus, escrevendo no começo do terceiro século, contendia que Paulo es­ crevera este livro em hebraico, e que Lucas o havia traduzido para o grego, pois ele podia facilmente perceber que o grego deste autor era diferente do de Paulo.3 Para sustentar o seu argumento, ele indicava a semelhança entre o grego de Hebreus e o do Evangelho de Lucas e do livro de Atos. Clemente explica que Paulo não mencionou o seu nome, no começo da epístola, porque não queria suscitar de novo o antagonismo dos ju ­ deus contra ele, visto que ele era conhe­ cido como o “Apóstolo aos Gentios” .

Como um todo, a igreja oriental acei­ tava Paulo como o autor desta carta, e ela foi recebida no seu cânon como tal. Ainda assim, precisa ser lembrado que a comunidade de Alexandria tinha as suas dúvidas concernentes à autoria de He­ breus. Dentre os que duvidavam estava Orígenes, homem de considerável estatu­ ra, que viveu em Alexandria entre 186 e 253 d.C. Ele escreveu: “Não foi sem razão que os antigos a passaram a nós como sendo de Paulo.” '* Mas notou que o estilo não é paulino. Disse que o mais provável é que a carta fora escrita por um discípulo desconhecido de Paulo. Oríge­ nes é o autor da conclusão mais citada, que é freqüentemente mal interpretada, por ser tirada fora do contexto. Aqui está o que ele realmente disse:

Se for para eu dar a minha opinião, devo dizer que os pensamentos são do apóstolo, mas a dicção e a fraseologia são de alguém que se lembrava dos ensinos apostólicos e escreveu a seu bei prazer o que havia sido dito por seu mestre. Portanto, se alguma igreja sustentar que esta epístola é de Paulo, que ela seja elogiada por isto. Não foi sem razão que 3 Eusébio, Church Hlstory, VI. 14. 2,3 (veja IB, XI, 581). 4 Ibld., 13,14, p. 582.

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os antigos a passaram a nõs como sendo de Paulo. Porém, quem realmente escreveu esta epístola, Deus o sabe... A declaração de alguns que se foram antes de nós é de que Clemente, bispo dos romanos, escreveu esta epístola, e de outros, que Lucas, autor do Evangelho e de Atos, a escreveu.5

É significativo lembrar que, na igreja ocidental, a autoria paulina não foi acei­ ta antes do quarto século. Hebreus não é mencionada no Fragmento Muratoriano (coleção dos livros do Novo Testamento feita por Muratori — uma das primeiras coleções de Escrituras) nem nas listas canônicas do tempo de Eusébio, que fez a obra mais notável de crítica do Novo Testamento do período patrístico. Este pai da história eclesiástica diz que o livro era questionado em Roma, porque não fora escrito por Paulo. Irineu (130-200 d.C.) e Hipólito (150-222 d.C.) conhe­ ciam a carta, mas negavam que Paulo a tivesse escrito. Tertuliano, primeiro grande pai latino, a atribuía a Barnabé.

Da metade do quarto século em dian­ te, o cânon ocidental assimilou o cânon oriental, e Hebreus foi incluída. No en­ tanto, Agostinho admitiu que aceitava Hebreus como concessão à opinião orien­ tal, e só no começo do quinto século foi que um sínodo oficial da igreja ocidental teve a coragem de falar das quatorze cartas de Paulo (sendo Hebreus a déci- ma-quarta).

O desconforto a respeito desta obra ir­ rompeu de novo durante a Reforma. Erasmo, um dos líderes da Reforma, du­ vidava da obra em termos literários. Di­ zia que Clemente de Roma a escrevera. A sua declaração se baseava nas palavras de Clemente I para a igreja em Corinto, que são idênticas a declarações de He­ breus.

Lutero duvidava da autoria paulina de Hebreus por razões doutrinárias, e foi o primeiro a sugerir que Apoio — o rival amigável de Paulo, e o homem eloqüen­ te que era poderoso nas Escrituras — era o seu autor. Este ponto de vista é, hoje em dia, esposado por um erudito moder­

5 Ibld , 13,14, p. 581 e 582.

no não menos importante do que T. W. Manson. Calvino sugeriu que Lucas era não meramente o tradutor, mas o escri­ tor de Hebreus.

As discussões teológicas contra a auto­ ria paulina são bastante convincentes. Há algumas semelhanças superficiais na cristologia dos dois escritores, isto é, o escritor de Hebreus, seja ele quem for, e Paulo. A preexistência de Cristo, a in­ tercessão de Cristo e a expiação e reden­ ção através da morte podem dar azo a uma derivação paulina. A escatologia do escritor também é muito semelhante à de Paulo. Contudo, a principal preo­ cupação do escritor é com o sacerdócio de Cristo. Nenhuma menção deste assun­ to é feita nas cartas de Paulo que nos são conhecidas. A maior ênfase de Paulo é o Cristo ressurrecto. Hebreus 13:20 é a única referência específica à ressurrei­ ção em todo o documento.

A doutrina da salvação também é ex­ posta de maneira bem diferente. Em Gálatas, Paulo contende que, pela morte de Cristo, fomos redimidos da maldição da lei; e em Romanos, ele enfatiza a redenção do poder da carne. Nenhuma destas idéias é encontrada em Hebreus. A forte ênfase de Paulo da justificação pela fé não aparece em Hebreus. Nesta carta, o objetivo do sacrifício é que pos­ samos nos aproximar de Deus (10:22).

O conceito de fé difere de modo m ar­ cante. Em Paulo, fé é uma auto-entrega a Cristo, aos pés da cruz, no poder da ressurreição. Em Hebreus, fé é vista como uma convicção da realidade do mundo invisível e como corolário da leal­ dade ao mundo invisível, que se nos toma conhecido em Cristo.

A ausência das passagens “em Cris­ to” , passagens místicas que compõem o âmago do evangelho paulino, levou Mar- tinho Lutero a concluir que Hebreus 2:2, 3 não podia ter sido escrito pelo mesmo homem que escrevera Gálatas 1:1,12. Calvino concordava com Lutero quanto a este aspecto.

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A cuidadosa sintaxe do autor de He­ breus difere radicalmente da espontanei­ dade explosiva de Paulo. Paulo era como um riacho que desce a montanha aos borbotões, precipitando-se sobre as ro­ chas, sem ter tempo para uma sintaxe impermeável, ritmo ou insinuações poli­ das. O estilo de Paulo era de extrema li­ berdade, em matéria de estilo. É quase impossível, psicologicamente, que Paulo tenha escrito Hebreus.

É muito mais fácil dizer-se quem não escreveu Hebreus do que dizer qualquer coisa de certo a respeito de quem o fez. No entanto, há certas coisas que sabemos a respeito deste autor. Primeiramente, sabemos que era hebreu. Ele tinha um conhecimento profundo do judaísmo e da história judaica. Era um mestre da Mi- drash, a exegese das Escrituras Judaicas.

O referido escritor era mais judaico do que Paulo, por um lado, e mais grego do que Paulo, por outro. Isto nos leva à segunda coisa que sabemos a respeito dele. Ele era um judeu helenista. A sua afinidade com Filo, que sintetizara a re­ velação de Deus a Moisés com a filosofia grega, deixa-se entrever freqüentemente. A sua afinidade com a doutrina platô­ nica de dois mundos, que o leva a ver este mundo como um reflexo nebuloso do mundo superior, real, é evidência deste fato. Além deste ponto, não podemos prosseguir. A sugestão de Apoio como o escritor tem seus pontos fortes. Contudo, é muito difícil entender por que nin­ guém, antes de Lutero, parece ter suge­ rido esta possibilidade.

Tertuliano escreveu: “Pois ainda existe um livro escrito por Barnabé, aos he­ breus.” 6 E então ele passa a citar He­ breus (cap. 6) a respeito da impossibili­ dade de um segundo arrependimento. Tertuliano diz que havia uma tradição unificada, concernente à autoria deste livro por Barnabé. Sabemos que este era um levita, o que se enquadraria bem com o profundo conhecimento do escri­

6 Ibid., p. 582.

tor acerca da adoração levítica. Barnabé era de Chipre, ilha alexandrina quanto à cultura. O próprio nome dele significa “filho da consolação” , que expressa os dons necessários para escrever uma com­ posição notória, por seu consolo e enco­ rajamento. Barnabé era amigo de Timó­ teo e companheiro de Paulo, o que pode explicar um sabor paulino em trechos do documento em pauta. Permanece o fato de que não temos nenhuma linha que seja reconhecidamente da autoria de Bar­ nabé, pela qual possamos julgar o seu estilo ou pensamento.

Harnack, G. H. Moulton e Randall Harris apegam-se à autoria conjunta de Ãqüila e Priscila, mestres de Apoio. Se Priscila teve parte em escrever Hebreus, podemos atribuir a isso a omissão do seu nome, lembrando a aversão de Paulo ao fato de mulheres serem líderes ou fala­ rem na igreja. O édito de Cláudio, em 49 d.C., fez com que Ãqüila e Priscila se tomassem refugiados e fossem banidos de sua terra natal.

Seja quem for que tenha escrito He­ breus, era um peregrino na terra. As passagens “Porque não temos aqui cida­ de permanente” (13:14) e “E com instân­ cia vos exorto a que o façais, para que eu mais depressa vos seja restituído” (13: 19), mostram o complexo de pessoa deslo­ cada que o escritor possuía (13:14,19). O uso de muitas metáforas náuticas é ainda maior evidência de um tipo de vida nômade: “nós, os que nos refugia­ mos” (6:18). “Para que em tempo algum nos desviemos (sejamos levados à deriva, para fora do ancoradouro)” (2:1). “Re­ cuar” é um termo técnico que significa recolher as velas (10:38).

O fato de que não conseguimos identi­ ficar o autor não diminui o valor desta obra. Pelo contrário, ela fala positiva­ mente a respeito da riqueza da comuni­ dade cristã primitiva em termos de ta­ lento e de cultura. Fala-nos que Paulo não era o único grande mestre da igreja primitiva. Havia um enorme talento ex­ presso através deste escritor, cujo prin­

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cipal interesse parecia encorajar as pes­ soas temerosas, pertencentes à comuni­ dade cristã, a reterem a sua fé e esperan­ ça em Cristo.

ITT. Época em Que Foi Escrita

Não existe nenhuma evidência histó­ rica clara, dentro da Epístola aos He­ breus, que nos ajude a estabelecer a data exata de sua composição. Todavia, po­ demos estabelecer os limites prováveis, dizendo que não pode ter sido escrita depois de 95 d.C., pois a essa época Clemente de Roma já a havia citado em sua epístola a Corinto. No caso de admi- tir-se que ela foi escrita por Paulo, deve ter sido composta antes de 64 d.C., quan­ do, provavelmente, teve lugar o martírio de Paulo. Timóteo é mencionado no de­ curso da obra; portanto, deve ter sido escrita antes de seu martírio, que, prova­ velmente, ocorreu durante a perseguição movida por Domiciano, na oitava ou nona década do primeiro século. Há uma tradição, contudo, de que Timóteo teve morte natural em Éfeso.

Tudo o que podemos dizer com cer­ teza é que a carta foi escrita duran­ te um período de perseguição. Assim mesmo, não é fácil determinar que período de perseguição. Várias possibi­ lidades se abrem diante de nós. A perse­ guição movida por Nero, em Roma, em 64 d.C., é uma delas. Se Hebreus foi escrita originalmente para os cristãos de Roma, a perseguição sob Nero se enqua­ dra perfeitamente. Esta data não é pos­ sível, entretanto, se, como sugerimos aci­ ma, a obra foi primeiramente um sermão para cristãos palestinos, e mais tarde enviada como carta a Roma, porque a perseguição movida por Nero limitou-se a Roma. A dificuldade com a data du­ rante o reinado de Nero é a palavra do escritor: “Ainda não resististes até o san­ gue, combatendo contra o pecado” (12:4). Na perseguição sob Nero, muitos foram mortos. Eram até cobertos de pixe e incendiados nos jardins de Nero. A

época durante o reinado desse déspota não é muito satisfatória.

Outra escolha pode ser a perseguição no reinado de Domiciano, de 81 d.C. até o fim da década de noventa. O problema com esta data é que a suposta persegui­ ção durante o reinado de Domiciano foi uma tentativa de obrigar o povo à ado­ ração de Domiciano. Não há menção de tal coisa em Hebreus. A perseguição daquelas pessoas parece ter tomado a forma de escárnio, por causa de sua crença na Parousia, como se encontra em II Pedro 3:4: “ Onde está a promessa da sua vinda?”

Um fator principal a ser considerado no estabelecimento de uma data é a ausência de uma referência à queda de Jerusalém e à destruição do Templo he- rodiano, pelos romanos, em 70 d.C. Uma referência a acontecimento como este teria fortalecido de tal forma os argu­ mentos do escritor, em relação à reali­ dade do santuário celestial em contrapo­ sição à natureza nebulosa, imaterial, do santuário terreno, que é inconcebível que tal calamidade tenha sido omitida de sua discussão. Grande parte da força de seu argumento pode ter sido removida pelo fato de que o escritor de Hebreus não faz referência ao Templo. A sua preocupa­ ção é o tabernáculo, que era o centro da adoração de Israel antes da chegada a Canaã.

Conceda-se que o argumento do autor — “não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a vindoura” (13:14) — bem pode ser uma referência à queda de Jerusalém. Pode também ser a descrição de um povo que está do lado de fora da religião estabelecida da Cidade Santa — um povo peregrino, que está “fora do arraial” (v. 13). Ao mesmo tempo, pre­ cisamos admitir que o apelo da cidade celestial provavelmente seria muito maior para um povo que viva sendo saqueada, pelos romanos, a cidade que considerava outrora como inviolável.

Dizer “Não temos aqui cidade perma­ nente” para pessoas que podiam ver ain­

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da intactas as muralhas sagradas de Sião, e que criam que o próprio Deus era o defensor da Cidade Santa, não podia ser um argumento convincente. Se o es­ critor se detivesse em explicar em maio­ res detalhes o que queria dizer, ao falar em “cidade permanente” às pessoas que haviam andado por entre as ruínas calci­ nadas de Jerusalém, seria laborar sobre o óbvio, e reabrir as chagas que ainda estavam dolorosas demais para serem tocadas.

Outra data significativa, que até aqui tem sido desconhecida ou ignorada, na busca de uma data em que Hebreus tenha sido escrita, é junho de 68, quando a comunidade de Qumram foi destruída pelos romanos. Visto que alguns dos primeiros ouvintes deste sermão podem ter sido recém-convertidos da seita essê- nia na comunidade de Qumran, bem pode ser que eles tenham sofrido perse­ guição dupla. Primeiro, pode ter sido pela sua essênia, que contendia pela idéia de que só os essênios eram o verda­ deiro Israel, a quem a promessa daví- dica de um Messias fora feita e a quem um sumo sacerdote, como Melquisede- que, haveria de vir. Depois, quando fo­ ram convertidos ao cristianismo, eles en­ frentaram não apenas a perseguição das forças militares romanas, que começou por causa da revolta judaica de 66 d.C., mas também os sofrimentos a eles impos­ tos pelas mãos dos próprios judeus, que estavam tentando desesperadamente re­ viver os fogos latentes do judaísmo. Isto, combinado com a demora da Parousia, estava começando a abater o seu moral de cristãos. As suas mãos estavam enfra­ quecendo. Os seus joelhos estavam come­ çando a tremer.

Marcus Dods insiste, baseando-se na passagem “Todo sacerdote apresenta-se dia após dia, ministrando” (10:11), que o Templo estava ainda de pé, o que colo­ caria a data em que Hebreus foi escrita em época posterior a 70 d.C. Westcott apega-se à data da perseguição movida por Nero, entre 64 e 67, enquanto

Har-nack e Holtzmann preferem o período da perseguição sob Domiciano, entre 90 e 96. Sem dúvida, o enorme prestígio des­ tes eruditos não pode ser negado. Porém precisa ser lembrado que eles não tive­ ram acesso aos Rolos do M ar Morto, e à luz que estes fizeram jorrar sobre o cris­ tianismo palestino do primeiro século.

Para mim, parece mais satisfatório es­ colher uma data entre 68 e 70 d.C., quando a comunidade de Qumran foi destruída e havia começado o saque de Jerusalém. Uma pressão maciça era re­ querida para afogar o entusiasmo fer­ vente da comunidade cristã primitiva, e estes acontecimentos teriam propiciado as pressões que o documento que esta­ mos estudando descreve.

IV. Destinatários

A única indicação positiva a respeito dos destinatários de Hebreus consta da declaração ambígua em 13:24: “Os de Itália vos saúdam” , que pode referir-se aos que residiam em Roma, ou romanos que estavam então residindo em algum outro lugar. Os manuscritos Sinaiticus e Vaticanus fazem constar o título desta carta simplesmente como “ Pros He- braious” . É claro que este foi escrito posteriormente. No entanto, ele nos diz que os cristãos de época bem primitiva a consideravam como dirigida a judeus em uma comunidade que estava ameaçada de extinção. O escritor insta com os des­ tinatários para saírem completamente “fora do arraial” (13:13). A. S. Peake cria que isto só podia significar um rom­ pimento completo com o judaísmo. A. B. Davidson também esposava esta opinião.

James Moffatt e E. F. Scott têm opi­ nião diversa, de que os destinatários eram gentios. Eles insistem que o escritor não estava se referindo à apostasia em relação ao judaísmo, mas à apostasia em relação ao Deus vivo. A freqüência de citações do Velho Testamento não signi­ ficaria, necessariamente, que os ouvintes originais eram judeus, pois este escritor

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cria que o Velho Testamento era para todos os cristãos. Evidentemente, Paulo também cria assim, pois ele encheu as suas cartas a Corinto com citações do Velho Testamento.

Uma passagem de grande relevância, a esta altura, é 6:1,2: “Pelo que, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançan­ do de novo o fundamento de arrependi­ mento de obras mortas e de fé em Deus, e o ensino sobre batismos e imposição de mãos, e sobre ressurreição de mortos e juízo eterno.” Esta passagem não é, ne­ cessariamente, dirigida a judeus, mas, pelo contrário, refere-se a doutrinas que haviam sido ensinadas a todos os cris­ tãos, logo que se haviam convertido e entrado na comunidade cristã. De fato, arrependimento, fé, ressurreição de mor­ tos e juízo eterno já constavam no Velho Testamento, e os judeus conheciam estas doutrinas.

Além do mais, as falhas mencionadas em Hebreus eram mais provavelmente verdadeiras em relação aos gentios do que aos judeus. “Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas; porque bom é que o coração se fortifique com a graça, e não com alimentos, que não trouxeram proveito algum aos que com eles se preocuparam” (13:9). O que se depreende, aqui, não é um afastamento temeroso da ortodoxia judaica, mas um rompimento aberto com o gnosticismo. James Moffatt contende que esta passa­ gem não apresenta nenhum traço do judaísmo como atração competitiva. Tal­ vez ele esteja indo longe demais.

Outros comentaristas combinam as opiniões acima, sugerindo que Hebreus foi escrita para cristãos, não tendo em vista judeus ou gentios, porém a tenta­ ção, comum a todos os cristãos, de es­ friar, perder o interesse e se tornarem andarilhos religiosos. Eles consideram o título “Hebraious” como simbólico. Esta palavra significa peregrinos ou viajores. Em Gênesis 14:13 (LXX), Abrão, o he­ breu, significa “o homem do outro lado

do rio” . Este ponto de vista concorda com o significado etimológico da palavra “hebreu” ; porém enfatizar demais este significado é um pouco forçado.

Sabemos que os destinatários eram uma segunda geração de ouvintes. A mensagem original havia sido “confir­ mada pelos que a ouviram” (2:3). Eles não haviam surgido na aurora brilhante da fé cristã. Estavam perdendo parte do entusiasmo primitivo, e estavam ficando negligentes em sua fé, talvez, por causa da demora da Parousia. As tensões es­ tavam começando a fazer-se sentir. “Ne­ cessitais de perseverança” (10:36). Aque­ le impulso ou tendência estava encon­ trando expressão na sua antipatia pela igreja. Portanto, o escritor os conclama para não deixarem de se reunir (10:25). William Manson, em suas conferências de Baird, os considera como cristãos judeus que se estavam esquecendo da ordem de evangelizar o mundo. O maior interesse do escritor é conclamar os cris­ tãos, que estão dispostos a continuar envolvidos indolentemente em suas ori­ gens judaicas, a avançar para uma liber­ dade maior em Cristo.

Se, como foi sugerido anteriormente, os destinatários são hebreus, na forma dupla de sermão e carta, então precisa­ mos atentar ainda mais para identificar os ouvintes originais, que melhor teriam entendido o seu significado, e que po­ dem, desta forma, ajudar-nos a entendê- la da maneira como ela foi emitida ori­ ginalmente.

Comecemos do pressuposto de que, como carta, ela foi remetida para Roma. As evidências para esta conclusão encon­ tram-se na familiaridade com que tanto Clemente quanto Hermas de Roma tra­ tam esta carta, pouco antes e logo depois de 100 d.C. O término epistolar “ Os de Itália vos saúdam” , também concorda com isto. Esta é a única evidência subs­ tancial que podemos oferecer.

Se ela foi entregue primeiramente co­ mo sermão, é muito mais importante identificar os ouvintes originais se

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quiser-mos dar uma importância de monta aos argumentos teológicos intrincados e ema­ ranhados. Muitas localizações dessa con­ gregação original têm sido sugeridas, in­ clusive Jerusalém, Samária, Antioquia, Cesaréia, Colossos, Éfeso e Alexandria, bem como Roma.

Os Rolos do Mar Morto nos compe­ liram a enfrentar as afinidades óbvias entre a hermenêutica e a cristologia de Hebreus e as formas de pensamento da seita dos essênios em Qumran. O ma­ terial de Qumran, recentemente publica­ do, a respeito da figura veterotestamen- tária de Melquisedeque, nos dá indícios para uma compreensão mais completa da pessoa e obra de Cristo como o grande Sumo Sacerdote no santuário celestial. Este é o âmago da cristologia de He­ breus. Isto nos encoraja a crer que os ouvintes deste sermão podiam fazer parte de uma congregação cristã em uma cida­ de da região de Decápolis, talvez Gerasa, a moderna Jerasha. Da congregação, tal­ vez, faziam parte recém-convertidos den­ tre os essênios.

Contra este ponto de vista, alguns co­ mentaristas têm mantido o forte tom helenista da argumentação do autor. Pa­ ra rebater esta idéia, pode ser mencio­ nado que nada há, neste documento, tão exclusivamente helénico que ele possa ser chamado não-palestino. De fato, a Pa­ lestina não estava isolada do mundo ao seu redor. Ela fazia parte da cultura da bacia do Mediterrâneo tanto quanto qualquer outra região geográfica. Há, em Hebreus, muita coisa que sugere formas de pensamento palestino, e nada conclu­ sivamente contra a Palestina como o local em que estava a congregação origi­ nal de ouvintes.

Pode ser alegado que o fato de que o autor não se sente à vontade na língua hebraica possa militar contra este ponto de vista. Deixem-me replicar que havia muitos judeus na Palestina que não sa­ biam ler nem falar hebraico, da mesma forma como, no quinto século a.C., mui­ tos judeus não entendiam hebraico quan­

do Esdras leu para eles a lei, como está registrado no capítulo oito de Neemias.

Sabemos que os ouvintes entendiam o Velho Testamento da maneira como ele era costumeiramente explicado nas sina­ gogas e nas seitas essênias. Estavam tam ­ bém muito familiarizados com o sistema sacerdotal judaico. E não eram estranhos também às formas de pensamento e à retórica grega. Pelo menos alguns deles estavam familiarizados com a ontologia platônica, gnóstica e de Filo. Estavam suficientemente helenizados para não se sentirem antagonizados pela combinação de escatologia veterotestamentária com mais pontos de vista helénicos. Este fato tem levado muitas pessoas a serem do parecer de que Alexandria foi o local da congregação original, parecer que certa­ mente não pode ser descartado.

Sabe-se, agora, que havia uma con­ gregação cristã que, em grande parte, se convertera de essênios da Alexandria, e que era chamada os “Therapeuti” . Para mim, contudo, parece que é mais prová­ vel que a congregação a que Hebreus foi dirigida era como aquele grupo citado em Atos 6 a 8, que tinha, como seus membros, cristãos notáveis como Estêvão (primeiro m ártir cristão), Filipe, Próco- ro, Nicanor, Pármenas, Nicolau e Timão.

Há uma passagem em Eclesiástico (44- 50) de que os essênios de Qumran gos­ tavam muito, e que descreve a história dos infiéis e dos fiéis no antigo Israel. É muito análoga ao conteúdo de Hebreus 3, 4 e 11. A passagem de Eclesiástico e o material de Hebreus têm notável seme­ lhança com o sermão de Estêvão, o hele­ nista palestino e primeiro mártir cristão. Este sermão está registrado em Atos 7.

V. Objetivo

O que o autor desejava comunicar aos seus leitores? Ele estava preocupado com o problema da defecção religiosa, de en­ tusiasmo desvanecente, e da perda de coragem e de zelo por parte dessa con­ gregação cristã primitiva.

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Nessa conjuntura, observemos este problema em profundidade. Podemos nós determinar as causas dessa defec­ ção?7 Verifiquemos, primeiramente, três causas genéricas:

1. A primeira era o formalismo reli­ gioso. O escritor de Hebreus descreve a verdadeira adoração como aproximação de Deus, mas aquelas pessoas haviam permitido que ela degenerasse e se tor­ nasse o cumprimento de certos atos, ritos e cerimônias. Assim, o autor os sacode, tirando-os de sua complacência, de sua passividade, perguntando, de fato: “ Na verdade, vocês já viram a majestade do Deus de quem deveriam estar se aproxi­ mando? Realmente conhecem, vocês, o que significa falar com o Senhor dos exércitos, o Rei da glória? Podem vocês fazer isto e considerá-lo como coisa ca­ sual e rotineira? Quem já alguma vez teve a consciência, embora limitada, da presença de Deus, e não clamou: ‘E para estas coisas quem é idôneo?’ ”

Toda adoração é inadequada, a não ser que ajude as pessoas a se aproxima­ rem de Deus. A única pergunta válida, depois de um culto de adoração, é: “Tive um encontro com Deus?”

2. A segunda causa de sua defecção foi demasiada familiaridade com a ver­ dade divina. Nada pode ser mais mortí­ fero. Hebreus 5:12 nos diz que essas pessoas haviam estado a manejar a ver­ dade de Deus de maneira perfunctória, e por tanto tempo, que ela havia perdido a sua eficácia. Eles a conheciam tão bem, a essa altura, que deviam ser “mestres” .

Hebreus 6:1,12 nos diz que eles eram espiritual e intelectualmente preguiço­ sos. A verdade de Deus, quando manu­ seada de maneira descuidada, torna-se o cheiro de morte para morte. O remédio de tão mortal familiaridade encontra-se em reconhecer o esplendor inerente ao evangelho. O escritor magnifica o en­

7 Há anos, sentado em um a aula de teologia de Hebreus, no New College, em Edimburgo, ouvi James Stewart discutir este problema. Ele citou seis causas para esta defecção: três gerais e três específicas. A ele devo a lista que se segue.

canto da primitiva ortodoxia religiosa e a emoção essencial à fé cristã.

Assim, ele pergunta aos seus ouvintes (parafraseando): “Vocês já perceberam quem Cristo é? Voltem-se para o funda­ dor de sua fé, e pensem nele até serem tomados pela realidade do que Deus está tentando nos dizer.” Veja de novo o pró­ logo magnificente (1:2-4). Se você come­ çar a se desviar, volte e pondere acerca da sublime cristologia da fé cristã.

Pense também a respeito de sua sote- riologia. Você já entendeu o que foi feito por Deus, em Cristo, para nossa salva­ ção? Se você voltar de sua defecção, lembre-se que é cidadão de dois mundos, e não de um apenas, e que você está ancorado já no mundo por vir (6:5).

Observe de novo, diz o escritor, o ver­ dadeiro significado da fé cristã como “ firme fundamento das coisas que se esperam” (11:1). Se demasiada familiari­ dade religiosa remove o esplendor de nossa religião, então “ convém atentar­ mos mais diligentemente” para ela (2:1). Levante-se de seu estupor e despreocupa­ ção. Acima de tudo, diz ele, “considerai, pois, aquele” (12:3). Para não perder de vista o esplendor do evangelho, volte a Belém, onde o Verbo se fez carne, para habitar entre nós (João 1:14), e à Gali- léia, onde ele viveu por nós, e ao Calvá­ rio, onde ele morreu por nós, e ao túmulo vazio, e ao Monte das Oliveiras, onde somos elevados com ele a lugares celes­ tiais (Ef. 1:20). Que não se passe nem um dia sem que nos coloquemos deliberada­ mente extasiados diante daquilo que se tomou tão familiar que agora o consi­ deramos corriqueiro.

3. A terceira razão geral para essa defecção religiosa foi a complacência, a passividade. “Porque, devendo já ser mestres em razão do tempo, ainda neces­ sitais de que se vos tome a ensinar os princípios elementares dos oráculos de Deus, e vos haveis feito tais que precisais de leite, e não de alimento sólido” (5:12). Portanto, o pregador insiste com os seus ouvintes: “Vocês estão se desviando. Pre­

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cisam avançar para um a mais plena ma­ turidade.” Ele faz abundante uso do termo teleis, isto é, teleiõn (maduro ou plenamente crescido, 5:14); teleiõtêta (maturidade ou pleno crescimento, (6:1);

teleiõsaí( tom ar perfeito, 2:10).

A Lei nunca foi capaz de produzir per­ feição. Também não existe um crente perfeito. Precisamos ter uma escatologia para a qual estamos nos movendo. O crente precisa viver nessa tensão dinâmi­ ca entre o que ele é e o que ele deve tomar-se.

Vejamos, agora, as três causas especí­ ficas dessa defecção religiosa, e como o escritor as encara.

1. Havia severa perseguição. Em 10: 32,33, a nossa atenção é chamada para as grandes dificuldades e aflições que caracterizaram a era apostólica. Os cris­ tãos não eram indiferentes, mas uma ter­ rível tempestade havia feito estourar o seu ancoradouro, e eles estavam à mercê das vagas de perseguição.

A princípio, Roma era amiga da igre­ ja, defendendo-a contra os judeus, po­ rém mais tarde esta política se inverteu. Em 49 d.C., houve um tumulto em Roma, e Cláudio expediu um édito ex­ pulsando todos os cristãos e judeus.

Além disso, a comunidade cristã havia chegado à decisão de que os gentios não precisavam ser circuncidados para se tor­ narem cristãos. Visto que não precisa­ vam circuncidar-se, eles não tinham ne­ nhuma conexão com a religião estabele­ cida dos judeus. Portanto, estavam sujei­ tos ao julgamento de Roma, que proibia todas as religiões que não estivessem es­ tabelecidas.

A ira de Roma também se acendeu contra os cristãos por aquilo que ela considerava superstições estranhas. Ro­ ma ficou confusa devido ao que se fazia por detrás de portas fechadas, onde a Ceia do Senhor era observada. A reli­ gião de Isis e de Cibele praticava imorali­ dade por detrás de portas fechadas. Se­ riam os cristãos culpados da mesma coi­ sa? Os cristãos falavam do fim do mundo

pelo fogo. Significaria isto que eles pre­ tendiam acender esse fogo? Os cristãos foram acusados de começar o incêndio de Nero, de acordo com o décimo-quinto livro dos Anais de Tácito.

Em 64 d.C., quando a perseguição começou, durante o reinado de Nero, milhares e milhares de cristãos, cujo nome não sabemos, foram condenados à morte. Sabemos o nome de dois deles, que morreram mais ou menos nessa épo­ ca: Paulo e Pedro. E então os cristãos se defrontaram com outro período de per­ seguição. Em face de tal perseguição, o pregador os faz lembrar que precisam de paciência(10:36-12:l). “ Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu opró­ brio” (13:13).

O pregador encoraja fortaleza em face da perseguição, avivando a memória de seus ouvintes. Ele os conclama a se lem­ brarem de três coisas: (1) Lembrem-se de seu nobre passado (6:9,10). (2) Lem- brem-se de seus líderes, que já morre­ ram, e imitem a fortaleza deles (10:32; 13:7), e também os fiéis heróis de Israel (11:1 e ss.). (3) Acima de tudo, lem­ brem-se dos sofrimentos de Jesus — “o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a ignomí­ nia, e está assentado à direita do trono de Deus” (12:2). “Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta” (13:12). Saiamos também fora do arraial. É suficiente, para o discípulo, ser como o seu mestre, e, para o servo, ser como o seu Senhor.

2. A segunda causa específica de sua defecção religiosa foi a demora da Parou-

sia. Não se via nenhum sinal do segundo

advento. Os crentes estavam desanima­ dos. Então perguntavam: “ Por que espe­ rar mais?” Por isso, começaram a perder interesse e a se desviar da fé.

Como é que o pregador trata desse problema? Ele começa com uma afirma­ ção da certeza da segunda vinda. A sua demora não significa que ela não aconte­ cerá. “Cristo... aparecerá segunda vez” (9:28). Foi observado que esta é a única

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vez, em o Novo Testamento, que as pala­ vras “segunda vez” são usadas para des­ crever a vinda final de Cristo. Seja qual for a idéia que se tenha a esse respeito, o

eschaton aparece em todo o pensamento

neotestamentário.

O pregador diz: “Aquele que há de vir virá” (10:37). Por isso, ele conclama os seus ouvintes para que cada um “mostre o mesmo zelo até o fim” (6:11). Ele lhes assegura que mesmo então eles podiam vi­ ver no poder de uma escatologia realizada. Esse é o significado de “ a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” (11:1). Ele nos diz que os crentes, na verdade, já provaram “os poderes do mundo vindouro” (6:5).

3. A terceira causa específica dessa defecção religiosa foi transigência ética. Alguns membros da TOmunídaíe cristã estavam imaginando que podiam conti­ nuar a se identificar com Cristo e ao mesmo tem pq^se^ronSím ãrem com o padrão de uma sociedade pagã. >

A crítica e o desprezo de seus vizinhos estavam começando a produzir efeito. Os77 “cristãos eram desprezados pelos seus pró-

príos círculos familiares com tal menos-J

cabo que ninguém mais os recebia. Eles L-eram também expostos à zombaria pú­

blica (Kh33^_— como ‘fescarmentofí5> e spectaculum” (Vulg.). Paulo escreveu: “Somos feitos espetáculo (tea­ tral) ao mundo” (I Cor. 4:9). A sedução de doutrinas estranhas estava se apode­ rando deles (13:9). O pregador também fala de certas pessoas que eram profanas ou completamente secularizadas (12:16).

O pregador também lhes avisa o que a sua transigência estava causando. Ele faz áciisações as mãis abàladorãs. .Eles estavam crucificando de novo o Filho de Deus. ÊiêTeram culpados de “pisar o Tnlho deTJeus” , e de ter “por profano o sangue do pacto, com que foi santifica­ do” (10:29). Ele os chama para fora de sua transigência, para fazer um a decla­ ração ineludível de auto-entrega. Eles

precisavam romper com as convenções e sair fora do arraial.

Toda a mensagem de Hebreus, como a

v e ía c o H ^ iiM W e ^ r n Qolsversículos:

“Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu opróbrio” (13:12,13). Es-' tas passagens práticas não podem ser consideradas como digressão do argu­ mento do autor, como algumas pessoas as consideram. Pelo contrário, estas pas­ sagens práticas são o centro. A teologia do pregador tem por objetivo reforçar estas exigências práticas.

Na exigência“saiamos. pois, a ele fora do arraial” ,(James S. Stewãrtjconsidera três fatores: (T) o arraial de ferro, uma tõrtaíêzareligiosa segura; (2) um a força alheia, o mundo; e (3) um pugilo de almas heróicas, intrépidas, saindo da fortaleza para o mundo estranho, e con­ tinuando com sua luta.

O pregador vê a igreja no contexto do ExodoTO p ^ c o é colòcado entre õ Egi- to, terra da servidão, e Canaã, terra da promessa. Levítico nos diz que o arraial era o lugar sagrado, a única habitação da luz em um deserto tenebroso. Exodo nos fala dos perigos que há fora do arraial. Sair era arriscar-se a não conseguir vol­ tar.

Naqueles dias, o povo de Deus era uma caravana em movimento. Eles não ti­ nham cultura nem eram institucionaliza­ dos nem secularizados. Quando chega­ vam a um oásis no deserto, a maioria sempre dizia: “Habitemos aqui.” Os lí­ deres sempre tinham que incitá-los avan­ te.

Desde Abraão até João Batista,.estaioj a história de Israel: o árraial de Deus mundo secular. Os profetas de Deus eram as almas intrépi­ das que se moviam além do povo, fora do arraial. Por este motivo, eles foram ator­ mentados e afligidos.

O pregador de Hebreus diz que esta situação correspondia à da igreja de sua. época. A igréjãTêstàva éstáfíca A fim de

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levantar esse acampamento estático, ele vê uma força expedicionária composta de uma pessoa única, solitária. FoiQesusj) que saiu fora das portas do arraiaTe foi crucificado. Desta forma ele iniciou a jornada escatológica. Ele tomou-se a ‘consciência de sua igreia. exigindo que os seus remidos o sigam. Não pode haver T ito m o n em deieccãorPrecisam os^^n^

tinuar essa jornada escatológica. O cla­ mor é: “Avante, para a cidade de Deus!” Ã luz destas influências que levam à defecção, h á, portanto, um aq u ád ru p k ^ convocação: (Primeiro^ é*o'~apelò Â auto- *emTOg a r a compIitâTaedicação, sem ne- nfíííma tentativa de conciliar ou agradar àqueles que querem fazer a fé mais com­ patível com a sociedade. O símbolo do cristianismo é uma cruz — morte para o eu, morte para tudo o que impede essa

jomada^^«^

ÇfsegundoNs o apelo para avançar. Isto soa como um smo através de todo o sermão. Nada é mais devastador para a fé cristã "do aue_ó!:=p e n s ã m g f S 3 Í ^ ^ chegamos à perfeição, e precisamos, por- tantoTgastarom Shor de nossas energias defendendo as nossas doutrinas e glorifi­ cando a presente condição da igreja ins­ titucional. A igreja, no melhor de sua expressão, é uma cabana ou tenda de deserto, que precisa ser desarmada a cada geração e levada avante em direção à cidade permanente.

Ofterceirojé um apelo para a evance; lizaçãõTFSzui muito tempo que os ouvin- B rdesre sermão deviam estar lá fora, no mundo, ensinando a outros, procurando ganhar para Cristo um mundo que lhe era completamente alheio (5:12). Da ma­ neira como estavam, eles eram como crianças, arrastando-se infantilmente de volta ao jardim de infância, preferindo o leite, que os conservasse tenros, em vez da carne, que os tornaria fortes para a batalha.

Ofquãrtcjé um apelo final para uma fé

vieoroM^reaGBãd^domundbm^sívd:

“Porque não tem ^"aqu r’CTa3e’ perma“ nente, mas buscamos a vindoura” (13:

14). Grande parte de nossa energia é consumida pelos nossos esforços para fortificar, o nosso acampamento de breve duração na came, com saúde e seguran­ ça financeira. Deliberadamente, Deus tomou esta jornada precária. Ele tom a o caminho perigoso, para que possamos parar e lembrar que somos peregrinos aqui, e para nos lembrar que estamos no fim dos tempos. Portanto, precisamos continuar com o “eschaton.”

O escritor de Hebreus se preocupa em fazer oposição ao sincretismo, que estava ameaçando a comunidade cristã, devido à influência das idéias sacerdotais essê- nias. Portanto, ele se alonga em demons­ trar que tudo o que era verdadeiro, con­ forme o padrão veterotestamentário, foi completamente cumprido e superado em Jesus Cristo — o Filho de Deus, o Servo real e o grande e eterno Sumo Sacerdote. Ele insiste que somente a comunidade cristã é o verdadeiro Israel, que entrará no sábado final, o descanso de Deus no san­ tuário celestial. Toda a vida do crente precisa ser vivida como se, a qualquer momento, ele possa ser chamado para enfrentar a verdade final. A verdade final é que a única e dominadora realidade é que somente Deus é o juiz do homem, e que ele também é o Deus de tudo. Não há consolo nisto, pois o pregador vai além, lembrando-nos que “o nosso Deus é um fogo consumidor” (12:29). A igreja do primeiro século não era uma fortaleza de separação, nem ancoradouro de repouso. Ela fazia parte da ordem vigente. Era uma comunidade de banidos para “fora do arraial” (13:13), onde os seus comun- gantes são constantemente lembrados que não estão a salvo de todos os perigos. Eles estão avançando em direção a um lugar e um tempo quando todas as teo­ rias precisarão enfrentar o fogo consumi­ dor da verdade, que se fez conhecida no Filho de Deus. Ê um fogo que não pode ser apagado por nenhuma reserva de boas obras, mas apenas pela graça de Deus, que se fez conhecida a nós nAque- le que é o Onico em quem realmente

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Deus e o homem se encontram. Ele é Àquele que já está na posse do santuário celestial, intercedendo, advogando o seu sacrifício, e que já está entronizado em majestade à direita do Deus altíssimo.

A verdade final é e sempre foi dele. Porque isto é verdade, esforçamo-nos para ter paz com todos os homens e por uma vida de amor fraternal com todos os homens, porque o nosso juiz é o Deus deles. E, também por este motivo, há força para as mãos cansadas e para os joelhos trementes, nos tempos os mais

perigosos.

Esboço de Hebreus

I. A Palavra Final de Deus Para a Época Final (l:l-3:6)

1. Introdução (1:1-4)

2. Acima de Todos os Anjos (1:5- 2:5)

1) Superior em Sua Natureza (1:5-14)

2) A Palavra de Jesus versas a Palavra dos Anjos (2:1-5) 3. Superior em Obra Redentora

(2:6-18)

1) A Necessidade da Encarna­ ção (2:6-9)

2) Jesus: Herói e Sacerdote (2:10-13)

3) O Âmago do Assunto (2: 14-18)

4. Maior do Que Moisés (3:1-6) II. Encontrando o Verdadeiro Des­

canso de Deus (3:7-4:13)

1. Perigo da Incredulidade e De­ sobediência (3:7-19)

2. O Temor de Deus Criativo (4:1-3)

3. O Dia Marcado (4:4-8) 4. Nosso Descanso Final (4:9-11) 5. Palavra de Advertência

(4:12,13)

III. Nosso Grande Sumo Sacerdote (4:14-5:10)

1. A Natureza do Sumo Sacerdote (4:14-16) 2. Qualificações do Verdadeiro Sumo Sacerdote (5:1-10) 1) Qualificações Humanas (5:1-6) 2) Qualificações Morais (5:7-10) IV. Aplicação (5:11-6:20) 1. ContraaPreguiça(5:ll-14) 2. Crucificam a Cristo Novamente

(6 :1- 12) 3. Confirmação da Certeza (6:13-20) 1) A Promessa (6:13-17) 2) A Âncora da Esperança (6:18,19)

3) Precursor e Sumo Sacerdote

(6:20)

V. O Ponto Central do Argumento (7:1-28) 1. Melquisedeque (7:1-3) 2. A Superioridade de Melquise­ deque (7:4-10) 3. Um Sacerdócio Divino (7:11-14) 4. Um Sacerdócio Eficiente (7:15-19) 5. Um Sacerdócio Eterno (7:20-22) 6. Um Sacerdócio Perpétuo (7:23-25) 7. O Sacerdócio Perfeito (7:26-28) VI. O Novo Tabernáculo (8:1-6) VII. A Nova Aliança (8:7-9:28)

1. Interior e Eficiente (8:7-13) 2. O Lugar da Velha Aliança

(9:1-28) 1) A Arca da Aliança (9:1-5) 2) Um Sistema de Exclusão (9:6-10) 3) Um Tabernáculo Superior (9:11) 4) Um Sacrifício Superior (9:12-23) 5) A Esperança Superior (9:24-28)

VIII. A Ültima Vontade de Deus (10:1-39) 1. O Fracasso da Lei (10:1-4) 2. O Sacrifício Final (10:5-10) 3. O Perdão Final (10:11-18) 4. O Convite (10:19-25) 5. A Advertência (10:26-31) 6. O Encorajamento (10:32-39)

(23)

IX. O Significado de Fé (11:1-40) 1. Substância e Evidência (11:1,2) 2. Crença no Criador (11:3) 3. Os Fiéis do Velho Testamento

(11:4-34)

4. Sumário de Horrores (11:35-38)

5. Adiamento da Promessa (11:39,40)

X. Palavras de Encorajamento e Dis­ ciplina (12:1-24)

1. Conclamação Para Completar aC arreira(12:l,2)

2. Necessidade de Disciplina (12:3-17)

3. AChegadaFinal(12:18-24) 4. A Advertência Final (12:25-27) 5. Uma Conclamação Para Grati­

dão e Adoração (12:28,29) XI. Uma Conclamação Para a Virtude

e o Sacrifício (13:1-16)

1. Aplicação das Virtudes Cristãs (13:1-8)

2. Os Sacrifícios Que Deus Apro- va(13:9-16) XII. Conclusão (13:17-25) 1. Apelo (13:17-19) 2. Bênção (13:20,21) 3. Oração (13:22-25)

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Referências

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