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As Suas Responsabilidades Cívicas (2: 11-17)

Comentário sobre o texto

II. Vida em Sociedade (2:11-3:12)

1. As Suas Responsabilidades Cívicas (2: 11-17)

11 A m a d o s, e x o rto -v o s, c o m o a p e r e g r i­ n o s e fo r a s te iro s , q u e v o s a b s te n h a is d a s

c o n c u p is c ê n c ia s d a c a r n e , a s q u a is c o m b a ­ te m c o n tr a a a l m a ; 12 te n d o o vo sso p r o c e ­ d im e n to c o rr e to e n tr e o s g e n tio s, p a r a q u e , n a q u ilo e m q u e f a la m m a l d e v ó s, co m o de m a lfe ito re s , o b s e rv a n d o a s v o s s a s b o a s o b ra s , g lo rifiq u e m a D e u s n o d ia d a v is ita ­ çã o . 13 S u je ita i-v o s a to d a a u to r id a d e h u m a ­ n a p o r a m o r do S e n h o r, q u e r a o r e i, c o m o s o ­ b e r a n o , 14 q u e r a o s g o v e rn a d o r e s , co m o p o r ele e n v ia d o s p a r a c a s tig o d o s m a lfe ito re s , e p a r a lo u v o r d o s q u e fa z e m o b e m . 15 P o r ­ q u e a s s im é a v o n ta d e d e D e u s, q u e , fa zen d o o b e m , f a ç a is e m u d e c e r a ig n o r â n c ia d o s h o m e n s in s e n s a to s , 16 c o m o liv r e s , e n ã o te n d o a lib e rd a d e c o m o c a p a d a m a líc ia , m a s co m o s e r v o s de D e u s. 17 H o n ra i a to d o s. A m ai a o s ir m ã o s . T e m e i a D e u s. H o n ra i a o re i.

Em seu relacionamento com as autori­ dades constituídas, os crentes têm uma responsabilidade definida de manifestar boa conduta. Pedro dirige-se aos seus leitores como peregrinos e forasteiros, mas recomenda que eles tenham proce­

dimento correto entre os gentios. As

palavras peregrinos e forasteiros podem significar que esses cristãos não eram cidadãos romanos. Ou essas palavras podem ser uma referência metafórica ao fato de que, antes de tudo, eles eram cidadãos dos céus, embora vivessem em um mundo que fosse estranho a essa cidadania. Em qualquer circunstância, eles eram obrigados a manifestar uma conduta correta em relação ao Estado.

Pedro recomendou-lhes: que vos abs-

tenhais das concupiscências da carne, as quais combatem contra a alma. Super­

ficialmente, isto parece ser uma decla­ ração genérica a respeito de uma vida correta em meio à luta entre o bem e o mal. Deste ponto de vista, ela se rela­ cionaria com a mesma espécie de luta pelo poder, entre a carne e a alma (ou carne e espírito) que Paulo discute em Gálatas 5:16-25. Procedimento correto, da parte dos cristãos levará os gentios que são seus vizinhos a refletirem em suas boas obras. Estes chegarão à con­ clusão de que os cristãos não são mal­

feitores. O resultado será a conversão dos

gentios e que glorifiquem a Deus por

causa da conduta cristã. Esta é a inter­ pretação que Selwyn (p. 170 e 171) pre­ fere. Há alguma dificuldade em se de­ terminar o significado de dia da visita­

ção. Se Selwyn está certo, esta expressão,

provavelmente, se refere ao dia em que Deus sondará os corações dos gentios; levá-los-á à convicção e conversão, de forma que eles glorifiquem a Deus.

Se, todavia, os versos 11 e 12 se rela­ cionam diretamente com os versos 13 e 14, Pedro está tratando de procedimento

correto em relação à lei romana. Suetô-

nio, escritor romano que viveu na época da perseguição que Nero moveu contra os cristãos, usou a palavra “ malfeitores” para se referir aos cristãos, quanto à sua má atitude para com o Estado, resistin­ do-lhe. Se é isto o que Pedro quer dar a entender aqui, a expressão o dia da

visitação se relaciona com o tempo quan­

do os cristãos iriam ser levados a julga­ mento, devido à acusação de estarem resistindo ou desobedecendo à lei estatal. Se eles mantivessem um procedimento

correto, as evidências demonstrariam

que não eram malfeitores, mas que eram gente correta. Os seus vizinhos gentios dariam a Deus o crédito pela conduta dos cristãos. Assim entendida, esta passagem expressa a existência de uma persegui­ ção contra os cristãos que não tinha sanção governamental, mas podia estar procurando-a.

Não há dúvidas a respeito do signifi­ cado dos versos 13 a 17. Eles se referem aos cristãos em seu relacionamento com a lei cívica. Passagens semelhantes se encontram em Romanos 13, I Timóteo 2:1-7 e Tito 3:1-8. Todas estas passagens expressam uma situação em que o gover­ no estatal era considerado como bené­ fico para os cristãos, e não hostil a eles. Por conseguinte, eles eram instados à obediência à lei civil e a sustentarem o governo em oração. A situação no livro do Apocalipse era totalmente diferente. Ali, o Estado estava assumindo o lugar de Deus, e os cristãos eram instados a resistir a ele até a morte.

Nesta passagem de I Pedro, a autori­ dade civil se empenha pelos mesmos objetivos que o cristianismo se empenha, isto é, o bem de todos os homens. A lei civil, adequadamente constituída e exer­ cida, garante para todos igualmente o que é bom e protege a todos igualmente contra o que é mau.

Siyeitai-vos era um termo militar ou

cívico que significa “estejai em sujeição a” . Por amor do Senhor comunicava a esse imperativo uma motivação cristã. Porque pertence a Cristo, o crente tem a obrigação de obedecer à lei civil. Isto inclui obediência a todos os níveis de autoridade governamental. O rei era o governante supremo, ou soberano. Os

governadores eram os agentes do rei para

fazer cumprir a lei. Como simples agen­ tes eles eram encarregados do exercício duplo da punição para todos os que cometessem o mal e do louvor para os que praticassem o bem.

Pedro considerava o fato de os cristãos fazerem o bem como questão da vonta­

de de Deus para eles. Era do desejo de

Deus que eles praticassem o bem, a fim de silenciar as acusações que contra eles se faziam, por pessoas mal informadas e mal-intencionadas — a ignorância dos

homens insensatos.

O elevado princípio de conduta ex­ presso no v. 16 é o próprio âmago da vida cristã. Os crentes são livres, mas nunca devem usar a sua liberdade como des­ culpa para fazerem o mal. A liberdade cristã não dá licença para o antinomia- nismo — a idéia de que a pessoa é livre, e por isso não é obrigada a obedecer à lei. Pelo contrário, o crente é obrigado a um poder controlador maior, o reconheci­ mento de que ele é um servo de Deus. Paulo argumentou, em Romanos 5 e 6, que o amor coloca a pessoa sob respon­ sabilidade maior de viver corretamente do que a lei alguma vez poderia fazê-lo. Este foi o ponto de vista de Jesus, expres­ so em Mateus 5:20-28.

Portanto, em sua vida toda, o crente deve exercitar um a conduta apropriada

em todos os relacionamentos. Ele deve honrar a todos, respeitar todos os ho­ mens como pessoas. Ele deve amar aos

irmãos, exercitar uma estima particular

por aqueles que são seus irmãos em Cristo. Ele deve temer a Deus; esta pa­ lavra (temei) denota temor reverente diante de Deus. Ele deve honrar ao rei como pessoa que é responsável, em últi­ ma análise, pela lei e pela ordem civil. Este fato certamente reflete as condições de uma época antes que Roma e alguns de seus imperadores se tornaram inimi­ gos e perseguidores dos cristãos. Foi cha­ mada atenção para Guthrie (p. 120) quanto à sua incapacidade de imaginar tal injunção de obediência ao imperador, depois do banho de sangue ocorrido no governo de Nero em 64 d.C.

Primeira Pedro coloca-se ao lado de Romanos 13, em prescrever obediência civil como a conduta apropriada para os crentes. Esta ordem assegura que o go­ verno civil está sendo conduzido para o bem de todos. Quando ele se afasta desta posição, contudo, está sujeito a ser desa­ fiado. O cidadão crente, nessa conjun­ tura, torna-se uma consciência para o Estado, no sentido de apontar para os seus erros.