A Cortina e a Heterotopia do Lar
Cultura Material, Design de ComunicaçãoAna Beatriz Gama, grupo 19
Artigo completo submetido a 8 de Junho de 2018.
Resumo
Este artigo visa relacionar o conceito de heterotopia desenvolvido por Michel Foucault e seus seis princípios com a cortina como objeto de permanência no contexto doméstico íntimo. Manifestando-se como ruptura com normas sociais partilhadas e com o mundo real, isolamento, abertura para introspecção e ilusão e elemento de justaposição, a cortina torna possível a transformação do lar em uma heterotopia. Palavras chave: heterotopia, espaço doméstico, convenção, ilusão, intimidade, tempo, isolamento
Introdução
A cortina enquanto objeto manifesta-se de várias formas no contexto doméstico. Dentre as diversas
articulações, ela é espectadora de um convívio ao mesmo tempo que é indiferente ao mesmo; ela
define um limite entre o exterior e o interior como duas realidades separadas, aludindo à intimidade
e a privacidade e impondo introspecção e imaginação àquele que se encontra enclausurado. Partindo
dos princípios que constituem uma heterotopia de acordo com Foucault, este artigo contrapõe-os
com as várias manifestações e possíveis interpretações da cortina no espaço íntimo do lar—tirando
exemplos do cinema como de uma obra literária de Jean Baudrillard. Através da sua permanência
marcante, a cortina pode então ser vista como uma condicionante para a reprodução de uma
heterotopia no espaço doméstico.
Desenvolvimento
O conceito de heterotopia desenvolvido por Michel Foucault trata de espaços de alteridade, espaços tanto mentais quanto físicos, que coexistem com lugares já existentes. O filósofo procurou estudar espaços onde se observavam relações de poder através da sua própria objetivação, como por exemplo prisões, escolas, o corpo, a loucura e a sexualidade. De acordo com Foucault, a própria sociedade e seus valores dão origem à heterotopia, traçando seis princípios a volta do conceito: heterotopias são espaços onde normas comportamentais são suspendidas, refletem a sociedade na qual estão inseridas, justapõe espaços reais simultaneamente, constituem sistemas de não livre acesso, se relacionam com espaços pré-existentes e não vinculam-se ao tempo no seu sentido tradicional. Na constituição do lar, a cortina pode ser interpretada como uma condicionante para a existência do contexto doméstico como heterotopia.
Através da sua permanência, a cortina determina a separação entre duas realidades—sendo estas a realidade partilhada e universal, e a realidade pessoal, interior ou subjetiva—consequentemente facultando o abandono convenções comportamentais construídas pela sociedade onde se insere o espaço íntimo. No contexto doméstico, seus habitantes têm liberdade em ditar suas próprias convenções, podendo se aproximar ou desprender por completo daquelas socialmente partilhadas. Foucault enuncia dois tipos de heterotopia: a heterotopia de crise e a de desvio. A primeira faz referência à espaços sagrados ou proibidos reservados à indivíduos que se relacionam à sociedade em que estão inseridos como em crise. Este caso pode ser ilustrado por um indivíduo em crise que foge à ambientes do gênero para se expressar de acordo com suas necessidades e vontades. No seu espaço íntimo, a cortina funciona como um elemento de isolamento que o liberta de convenções sociais impostas ao mesmo. Nesta mesma lógica, este exemplo também se aplica à heterotopia de desvio, caracterizada por Foucault como um espaço onde pessoas agem fora das normas partilhadas como em hospícios, hospitais e prisões. A permanência da cortina no espaço doméstico então acaba por possibilitar a existência de uma “heterotopia doméstica” similar às heterotopias estudadas pelo filósofo.
O isolamento imposto pelo fechar da cortina pode ser interpretado como como um bloqueio entre o exterior e o interior. Ao abrir a cortina, o habitante do espaço íntimo se expõe aos valores e pré-conceitos da realidade externa que o envolve. Esta dinâmica é explicitada no cinema, de forma ainda mais evidente quando se trata do voyeurismo. Em Rear Window (1954), de Alfred Hitchcock, o protagonista Jefferies espreita a vida dos seus vizinhos através da sua janela (imagem 1). Os apartamentos da bailarina e dos Thorwald representam de formas distintas o fascínio do protagonista com a sua vida de solteiro, que junto ao de Miss Lonelyhearts são observados ao longo do filme. Já o espaço doméstico do casal recém-casado permanece como um mistério a Jefferies devido às cortinas fechadas (o isolamento do casal) deixando o protagonista a imaginar suas atividades íntimas. A cortina no contexto doméstico serve então para reforçar a ideia de um sistema de
abertura e fechamento (de não livre acesso) como descrito por Foucault no seu estudo, onde existe uma separação com a sociedade e suas normas.
Além disto, a heterotopia do lar acaba por representar um espaço de introspecção ou como descrito por Foucault, um espaço de ilusão—exemplificado no seu estudo por bordéis. No lar, o fechar da cortina quebra a ligação com o mundo real estimulando a reflexão e imaginação ao indivíduo. Mesmo que não relacionada diretamente com o espaço doméstico, a cortina manifesta-se da mesma forma como um elemento marcante das obras do cinematógrafo David Lynch desde Blue Velvet (1986), ganhando maior expressão na série Twin Peaks (1990). Um dos seus cenários, o Red Room, é um lugar circunscrito por cortinas vermelhas, um espaço entre o mundo real e o imaginário e de revelação para o protagonista Dale Cooper (imagem 2). Dentro dele, o passagem do tempo se distingue do tempo na sua forma tradicional, assim como elaborado no conceito de heterotopia.
“[Lynch’s curtained space] often acts as the venue of revelation, sanctuary and reflection for the protagonist, and as such becomes the protagonists sacred space” (Daye, 2013)
A cortina também constitui um dos vários objetos na justaposição simultânea de espaços reais da heterotopia de Foucault. Numa constituição tradicional da casa como explorada por Jean Baudrillard em O Sistema dos Objetos (1968), a cortina não é só um elemento carregado de valor mas também testemunha dos acontecimentos da vida íntima. Seja ela velha, nova, herdada de gerações ou pré-existente, leve, grossa, translúcida ou aveludada, sua presença imponente conjuga-se com outros elementos do ambiente doméstico pertencentes a diferentes eras e localizações.
Conclusão
A cortina assume um papel definidor para a representação do espaço íntimo doméstico como uma heterotopia doméstica. Diante aos seis princípios que constituem uma heterotopia de acordo com Michel Foucault, a cortina manifesta-se como ruptura com normas sociais partilhadas e com o mundo real, isolamento, abertura para introspecção e ilusão e por fim elemento de justaposição, através da análise de diferentes momentos de um habitante e o seu lar e de exemplos ilustrativos de obras cinematográficas importantes.
Imagens
Imagem 1. Jefferies em Rear Window, Alfred Hitchcock (1954)
Referências Bibliográficas
Baudrillard, Jean. O Sistema dos Objetos (1968)
Daye, Michael. Light the Cigarette, Fold Back the Silk: Defining David Lynch as a liminal film-maker (2013). Film International, Vol:11 Issue: 6
Foucault, Michel. Of Other Spaces: Utopias and Heterotopias (1967). [acessado online: http:// web.mit.edu/allanmc/www/foucault1.pdf]