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DIOGO DA SILVA ROIZ DEUS NA HISTÓRIA, OU UMA HISTÓRIA DE DEUS

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DEUS NA HISTÓRIA, OU UMA HISTÓRIA DE DEUS

DIOGO DA SILVA ROIZ

LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier. Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasilei-ra, 2007. 126p.

ão é recente a tentativa de se escrever uma história (do conceito) de Deus, como é o caso da coletânea de ensaios Deus na Filosofia do Século XX (1998) e de muitos outros textos, como o de Karen Armstrong, Uma história de Deus (1998), o de Franco Ferrucci,

A história de Deus (1999), o de Gerald Massadie, História geral de Deus (2001), o de John Bowker, Deus: uma breve história (2002),

ou, ainda, Qual Deus? Uma pergunta a partir da história (2006), de Paolo de Benedetti.

O historiador francês Jacques Lê Goff (1924), hoje mundialmente reco-nhecido como o maior medievalista ainda vivo do século XX, em muitos artigos e livros procurou delinear a forma como Deus foi pensado e cultuado na civilização do Ocidente medieval. Não é pre-ciso aqui detalhar seus textos já bastante conhecidos e citados. No entanto, vale ressaltar que esta entrevista oferecida ao historiador Jean-Luc Pouthier (que era redator-chefe da revista de história das religi-ões Le Monde de la Bible) foi organizada no final de 2002 e deu origem ao livro O Deus da Idade Média, publicado em 2003 pela

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editora Bayard, e, em 2007, foi publicado no Brasil pela editora Civi-lização Brasileira. Circunscreve um período bastante produtivo de Jacques Lê Goff nestes últimos anos. Neste mesmo ano de 2003, havia sido publicada outra entrevista oferecida a Jean-Maurice de Montremy, Em

busca da Idade Média, no qual o autor (re)avalia sua trajetória

intelec-tual, as razões que o levaram a gostar de história e se tornar um medievalista, e os livros As raízes medievais da Europa e Uma história do corpo na

Idade Média (em co-autoria com Nicolas Truong). Por um lado,

sabe-se que, desde meados da década de 1970, Jacques Le Goff tem ofereci-do periodicamente entrevistas discorrenofereci-do o Movimento ofereci-dos Annales, do qual faz parte, e sobre a civilização do Ocidente medieval, que sem-pre foi seu objeto de pesquisa. O que traz de novo essas entrevistas mais recentes é o perfil temático, vindo a detalhar melhor alguns temas que o autor apenas havia citado ou discutido pouco em suas obras. Por outro lado, esses livros também têm revelado ‘novas’ sínteses que o autor vem fazendo sobre o período, como é o caso de As raízes

medie-vais da Europa, que acrescenta a seu hoje clássico A civilização do oci-dente medieval,publicado originalmente em 1964.

Foi com pouco mais de 78 anos que o autor discorreu de forma muito lúcida sua interpretação de como os homens e as mulheres da Idade Média entendiam e interpretavam Deus. No papel de entrevistador, Jean-Luc Pouthier indica, na introdução do livro, que Deus também é um assunto de história e o

objeto destas conversas é a concepção de Deus no Ocidente medieval. As religiões se voltam, de um modo geral, para pessoas sagradas, ou mesmo divinas. Uma grande virada na história da humanidade foi a substituição do culto de uma pluralidade, senão de uma multidão de deuses no paganismo antigo (ainda que uma concepção unitária de divindade procurasse emergir mesmo neste caso), pela crença em um só Deus. Não se trata aqui de evocar a religião no conjunto do cristia-nismo medieval – sobre isso existe uma rica bibliografia [que é parcial-mente elencada no final do texto, e discutida por Le Goff no decorrer da entrevista]. Deus, sim, é o assunto que nos interessa, é o assunto que abordamos, é a nossa busca (LE GOFF, 2007, p. 9).

Com esse intuito, o livro-entrevista foi dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo, De que Deus se Trata?, busca-se definir quando

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535535 , Goiânia, v. 5, n. 2, p. 533-539, jul./dez. 2007 surgiu o culto a um único Deus e o que estava sendo entendido por isso. Em suas respostas, Jacques Le Goff começa por dizer que:

A Antiguidade tardia é o período em que o Deus dos cristãos se torna o Deus único do Império romano. Esse Deus é um Deus oriental que consegue se impor no Ocidente. Os primeiros grupos cristãos se desenvolveram um pouco à maneira de uma seita, que faz conquistas e cujo número de membros cresce. E esses grupos foram favorecidos, nos séculos II e III, pelo interesse cada vez maior em torno das divindades e dos cultos salvadores: cultos de terapeutas, que cuidam simultanea-mente das doenças do corpo e alma, e da existência humana (LE

GOFF, 2007, p. 18).

Época de incertezas e de perseguições , na qual os imperadores não encon-travam na religião romana o mesmo apoio “com que se beneficiavam desde a época de Augusto” e o deus Esculápio assumia grande impor-tância para o exército romano, que, ao lutar na Pérsia, teve contato

também com o culto de Mitra. Foi neste período turbulento que so-breveio a decisão do imperador Constantino “depois do édito de Mi-lão (313), de não apenas tolerar a nova religião, mas até mesmo de recorrer ao Deus dos cristãos, do qual espera[va] sua salvação e a do Império. Uma salvação que inicialmente é uma salvação terrestre, polí-tica, mas que, a natureza da religião cristã, logo se torna de natureza religiosa” (LE GOFF, 2007, p. 19). Não sendo, assim, de se estranhar que “em 392, Teodósio faz do cristianismo a religião do Estado”. De modo que:

Assim se realizam, no correr do século IV, a transformação do cristi-anismo de religião perseguida em religião do Estado e a transforma-ção de um deus rejeitado em um Deus oficial. Os homens e as mulheres que viveram na Europa ocidental passam, em poucos decênios, do culto de uma multiplicidade de deuses a um Deus único. Existia cer-tamente no paganismo greco-romano uma tendência crescente a con-siderar que os diferentes deuses constituíam mais ou menos uma pessoa coletiva, que era deus. Esse deus, porém, se escreve com um d minús-culo. É o deus de Cícero. Quando chega o cristianismo, Deus assu-me um D maiúsculo. Isso marca com clareza a tomada de consciência da passagem para o monoteísmo [...]. O que resistiu mais a que se

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estabelecesse o novo Deus não foram os antigos deuses pagãos, mas certas práticas ligadas à magia, ou antes àquilo que o cristianismo cha-mará de superstição: culto das árvores, culto das fontes: e isso vai con-tinuar, pouco mais ou pouco menos, em surdina, durante a Idade Média

(LE GOFF, 2007, p. 19-21).

Vale dizer que tais práticas foram tão duradouras por que tinham origens rurais, e naquele período mais de 90% da população vivia no campo e era analfabeta. O contato com povos bárbaros fez variar aquelas atitudes, mas não mudar suas características fundamentais. “O Deus dos homens e das mulheres da Idade Média, portanto, é também o Deus dos chefes. Esse caráter continuará a se manifestar por muito tempo depois do período da conversão” (LE GOFF, 2007, p. 22). Por outro lado, o autor destaca nas suas respostas que o “cristianismo é uma religião de iguais que promete a vida eterna aos fiéis virtuosos. Nisso estão dois encantos maiores. Além disso, o peso fundamental do cristianismo, exercendo sua influência ao longo de toda a Idade Média, é que o Deus do Cristianismo se encarnou, se fez homem. A Pessoa do Deus homem, Jesus, viveu entre os homens como um irmão” (LE GOFF, 2007, p. 25-6). Le Goff (2007, p. 30) indica ainda que foi

a Idade Média que criou o Bom Deus. E o Bom Deus suscitou heróis, homens e mulheres, cristãos muito especiais que vieram a substituir os antigos heróis pagãos: os santos, intermediários entre Deus e os simples fiéis [...]. Para tornar-se santo, é preciso morrer. E a melhor maneira de morrer para tornar-se santo é evidentemente o martírio. A santidade cria uma união estreita entre mártir e santo. [Portanto, o Deus da Idade Média estava] a frente de um universo completo, no qual as pessoas tinham talvez até uma consciência nítida desse “papel e desse poder.

Le Goff encerra sua exposição neste primeiro capítulo falando sobre a im-portância da idéia de Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) para a cristandade ocidental, como parte de seus dogmas.

No segundo capítulo, Duas Figuras Maiores, o Espírito Santo e a Virgem Maria, indica-se como ambos, o Espírito Santo e a Virgem Maria, foram tomando papéis centrais no cristianismo durante a Idade

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537537 , Goiânia, v. 5, n. 2, p. 533-539, jul./dez. 2007 dia. Primeiro, o Espírito Santo se ajustava às novas atividades da so-ciedade feudal, com suas características artesanal, urbana e suas or-dens mendicantes. Ele assume a centralidade em certas atividades, como nas confrarias e nos hospitais. Já no caso da Virgem Maria, o “tema que se espalha é o da Virgem, com seu manto protetor. À me-dida que as necessidades se intensificam na sociedade, que as reivindi-cações se multiplicam, os homens têm necessidade de uma extensão, de uma diversificação das manifestações de Deus” (LE GOFF, 2007, p. 56-7). E, junto a essa imagem, insere-se a do menino Jesus. Aqui, apresenta-se a especificidade que se foi formando entre o campo e a cidade medieval, nas representações que fizeram de Deus e de Cristo, e do Espírito Santo e da Virgem Maria. Por outro lado, entre os sécu-los XIV e XV, na medida em que se difundem aquelas representa-ções, o autor argumenta que outras duas imagens de Deus foram muito divulgadas e amplamente conhecidas, a do Deus “bom”, que é providência, e a do Deus “mau”, que é cólera.

No capítulo seguinte, A Sociedade Medieval e Deus, avança-se na discussão sobre o duplo perfil de Deus, o da providência e o da cólera, e Le Goff ressalta que isso perpassa ainda a imagem que se fez de Cristo, pois o “Cristo do fim da Idade Média é, portanto, um Deus ambivalente: Ele é Deus na majestade do juízo final, e também o deus crucificado da Paixão” (LE GOFF, 2007, p. 75). O autor demonstra como a sociedade feudal e a Igreja se entrelaçam, tendo no centro Deus, e como a idéia de justiça se torna fundamental, até na criação do Pur-gatório, nos séculos XII e XIII, como lugar intermediário no qual as pessoas poderiam pagar por seus pecados, e, nesse mesmo período, como a Igreja se preocupa com a composição da idéia de uma mulher virtuosa, reprodutora da sociedade e companheira do marido. Essas características foram fundamentais não apenas para o desenvolvimento do cristianismo da Idade Média, como ainda das relações políticas e econômicas. Diz Le Goff (2007, p. 82-3):

Na idade Média, no sistema político feudal, como de um modo geral no conjunto da existência, a Igreja desempenha[va] um papel essencial. É preciso ver isso de um nível econômico e social muito humilde, o do imposto, do pagamento de foros. A Igreja cobra dízimos e sustenta os senhores que cobram foros. E na vida do dia-a-dia, nos sermões, a Igreja afirma que o dízimo não é dado à ela, o que seria um tanto

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constrangedor, mas a Deus, ou, com mais rigor, a São Pedro. Por outro lado, os padres, os monges, explicam que pagar os foros aos senhores é fazer a vontade de Deus, porque Deus lhes confiou um poder de comando que corresponde a suas intenções. Nesse mundo feudal, penso que nada de importante se passa sem que seja relacionado a Deus. Deus é ao mesmo tempo o ponto mais alto e o fiador desse sistema. ‘e o Senhor dos senhores’. De tal modo que, em 1789, o fim espetacular do sistema feudal implicará um empreendimento conjunto de descristianização. O regime feudal e a Igreja eram de tal forma ligados que não era possível destruir um sem pelo menos abalar o outro.

No último capítulo, Deus na Cultura Medieval, preocupa-se em dimensionar a forma como a bíblia foi organizada e interpretada no período, e a maneira como aquelas leituras eram representadas diante dos fiéis, ou ainda, por meio de quadros e esculturas. Para Le Goff (2007, p. 95), o “Deus dos teólogos da Idade Média era seguramente o Deus da Bíblia. Sua parte propriamente cristã, o Novo Testamento, intro-duzia Jesus, o filho de Deus. O Deus cristão do monoteísmo vinha do Antigo Testamento, mas era muito diferente do Deus dos judeus. Aliás, os cristãos deixaram de usar o nome de Javé”. Por outro lado, ressalta que a

imagem do homem, tal como se apresenta, claro que com diferenças, nuanças, nos princípios do cristianismo e nos Padres da Igreja, so-freu na Idade Média duas profundas novidades e mutações. De um lado, o homem é objeto de uma promessa de salvação, quer dizer, de um retorno a Deus [...]. E o homem se torna de certa maneira o centro do mundo, criado por Deus e prometido a salvação. De outro lado, o homem em si mesmo não é fonte de nenhum valor. Todos os valores vêm de Deus (LE GOFF, 2007, p. 111).

Conclui o capítulo indicando que uma

virada aparece desde o início do século XIII, com São Francisco de Assis. A imagem do Cristo se impõe mais e mais, dá-se um aconteci-mento inaudito: pela primeira vez um homem recebe os estigmas de Cristo. E o humanismo do fim da Idade Média é marcado por um

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tema cada vez mais insistente: uma imitação de Jesus Cristo (LE GOFF,

2007, p. 114).

Na pequena conclusão que encerra o livro, os autores (porque nesse ponto já não se estabelece o diálogo, da questão e resposta, dos capítulos anterio-res) indicam os pontos fundamentais que foram discutidos e complementam diferenciando o judaísmo do cristianismo, dizendo que é

o Deus da cólera que era o mais marcado por essa história antiga de Deus que Javé representava, enquanto, durante a Idade Média, a imagem do Deus dos cristãos se orientava em duas direções diferentes: de um lado o protetor, o que logo seria chamado o Bom Deus e que apare-cia também na escultura gótica como um Belo Deus, enquanto o Deus judeu não tinha rosto, e do outro lado o Deus sofredor, o Deus da Paixão (LE GOFF, 2007, p. 120).

Portanto, diante da leitura desse livro-entrevista, o leitor perceberá a mes-ma preocupação com a precisão do discurso, com a análise das fontes e a interpretação da bibliografia e da iconografia (que também com-põem o livro) que Jacques Le Goff estabeleceu tão bem em toda sua obra e que nesta aparece na forma de uma bela discussão, um diálogo proveitoso, especialmente para os leitores (pois mantém suas caracte-rísticas de um discurso falado oferecido por um ‘velho’ mestre habi-tuado com o ofício de ser professor e de ser pesquisador). Mais ainda para nós brasileiros, que temos tanto raízes culturais africanas e indí-genas, quanto católica e ibérica, na qual algumas características do cristianismo da Idade Média, que foram transplantadas para a Amé-rica Portuguesa, são ainda hoje perceptíveis em certas regiões do país.

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