UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
DEPARTAMENTO DE JORNALISMO
GABRIEL DUWE DE LIMA
A ERA DA MÚSICA CONECTADA
O impacto do modelo de
streaming
no mercado fonográfico
Florianópolis Dezembro de 2016
Gabriel Duwe de Lima
A ERA DA MÚSICA CONECTADA
O impacto do modelo de
streaming
no mercado fonográfico
Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Jornalismo, do Centro de Comunicação e Expressão, da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para a aprovação na disciplina Técnicas de Projetos em Comunicação, ministrada pelaProfa.
Daiane Bertasso, no segundo semestre de 2016.
Orientador indicado: Flávia Guidotti
Florianópolis Dezembro de 2016
FICHA DO TCC – Trabalho de Conclusão de Curso – JORNALISMO UFSC
ANO 2016
ALUNO Gabriel Duwe de Lima
TÍTULO A era da música conectada - O impacto do modelo de streaming
no mercado
fonográfico ORIENTADOR Flávia Guidotti
MÍDIA ImpressoRádio
X TV/Vídeo
X Foto
X Web site
X Multimídia
CATEGORIA Pesquisa Científica Produto Comunicacional
Produto Institucional (assessoria de imprensa)
X Produto Jornalístico (inteiro) Local da apuração:
Reportagem
livro-reportagem ( )
( ) Florianópolis ( X ) Brasil ( ) Santa Catarina ( ) Internacional ( ) Região Sul País: ____________ ÁREAS Grande reportagem multimídia, Web site, Cultura, Música, Serviços de streaming RESUMO Este projeto de Trabalho de Conclusão de Curso trata de informações
referentes aos serviços de streaming de música como Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal e Google Play Music. O objetivo do trabalho é explicar como uma plataforma ainda nova impulsionou o mercado fonográfico mundial a ter o primeiro crescimento de receita financeira desde 2005 e já fidelizou 60 milhões de assinantes que pagam pelo serviço. Ao mesmo tempo, ainda há muita resistência da classe artística e até mesmo de gravadoras contra o novo sistema. Se a nível mundial há casos conhecidos, principalmente com Taylor Swift e Adele, no Brasil é o movimento Procure Saber – que tem integrantes como Caetano Veloso, Lenine, Erasmo Carlos, Emicida e Frejat – que está atuando para aumentar o pagamento de direitos autorais pelos serviços de
streaming
. Ao mesmo tempo, há pesquisadores que afirmam que uma
parcela considerável desse público deixou a pirataria para consumir música de forma legal, seja utilizando o formato pago ou o gratuito. Baseado em dados e nestas diferentes opiniões, será produzida uma grande reportagem multimídia que analisa o mercado do streaming de música, com a história, o público, a regulamentação no Brasil, a distribuição de receita e a diferença entre as empresas que oferecem o serviço.
EMENTA DO PROJETO
a. Título do projeto: A era da música conectada - O impacto do modelo de streaming
no
mercado fonográfico
b. Natureza do projeto: Reportagem multimídia online c. Aluno(s) responsável(is): Gabriel Duwe de Lima d. Suporte do projeto: Web Site
e. Semestre programado para realização: 2017.1
f. Custos e fontes de financiamento: Estimativa de investimento de R$ 833,00, valor pago pelo próprio estudante
RESUMO
Este projeto de Trabalho de Conclusão de Curso trata de informações referentes aos serviços de streaming de música como Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal e Google Play Music. O objetivo do trabalho é explicar como uma plataforma ainda nova impulsionou o mercado fonográfico mundial a ter o primeiro crescimento de receita financeira desde 2005 e já fidelizou 60 milhões de assinantes que pagam pelo serviço. Ao mesmo tempo, ainda há muita resistência da classe artística e até mesmo de gravadoras contra o novo sistema. Se a nível mundial há casos conhecidos, principalmente com Taylor Swift e Adele, no Brasil é o movimento Procure Saber – que tem integrantes como Caetano Veloso, Lenine, Erasmo Carlos, Emicida e Frejat – que está atuando para aumentar o pagamento de direitos autorais pelos serviços de streaming
. Ao mesmo tempo, há pesquisadores que afirmam que uma
parcela considerável desse público deixou a pirataria para consumir música de forma legal, seja utilizando o formato pago ou o gratuito. Baseado em dados e nestas diferentes opiniões, será produzida uma grande reportagem multimídia que analisa o mercado do streaming de música, com a história, o público, a regulamentação no Brasil, a distribuição de receita e a diferença entre as empresas que oferecem o serviço.
Palavras-chave: Jornalismo; Indústria cultural; Música; Serviços de streaming
; Grande
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ………. ... 07 1.1 Justificativa ……….. ... 10 1.2 Objetivos ………....……... 13 1.2.1 Objetivo Geral ……….... ... 13 1.2.2 Objetivos Específicos ………. ... 13 2. DESCRIÇÃO ………. ... 14 3. DESENVOLVIMENTO ………... 17 4. CRONOGRAMA ………... 19 5. ORÇAMENTO ……….. ... 20 6. FINALIDADES ………...………... 21 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ……….... ... 22 8. BIBLIOGRAFIA ………... ... 25ANEXO A – Termo de Aceite do orientador ………... – ANEXO B – Termo de Autorização de Uso do Laboratório ... –
1. INTRODUÇÃO
A decisão que levou a cantora estadunidense Taylor Swift a retirar o seu catálogo de músicas das plataformas de streaming em 3 de novembro de 2014 surpreendeu a indústria fonográfica e os fãs da cantora. Afinal, sua música Shake it Off havia sido a mais executada no Spotify, o principal serviço de streaming
, na semana anterior. A cantora alegou que a
retirada de suas músicas foi uma forma de protestar contra a atual forma de remuneração dos direitos autorais pelos serviços de streaming
. Entretanto, o embate entre artistas e serviços
que disponibilizam a música no formato digital não é novidade no mercado da música, e tem precedentes desde o surgimento do MP3 . 1
O primeiro serviço de grande alcance que permitiu o compartilhamento e consumo de música pela internet foi o Napster
. Lançado em 1999 num período de popularização da
internet, o programa possibilitava o compartilhamento de músicas entre usuários de diferentes locais do mundo através de uma conexão P2P (peer to peer
, em que alguém disponibiliza o
arquivo na internet para que outra pessoa possa fazer o download
). Nesse caso, o Napster
servia apenas como intermediário: o usuário digitava o que estava procurando e o programa apresentava os resultados de acordo com o que os demais estavam disponibilizando. Criava-se então uma conexão de rede direta entre o computador dos usuários, sem passar pelos servidores do Napster
.
No filme Downloaded
(2013), o qual retrata a história do Napster, ex-funcionários da
empresa afirmam que o programa foi o primeiro a possibilitar o consumo de arquivos MP3 pela internet de forma segura e organizada. Antes, o download
chegava a demorar até 14
horas e não dava certo, mesmo após mais de uma tentativa. E o sucesso do software não demorou para se tornar realidade. Após cinco meses, o programa já tinha quatro milhões de canções em circulação. Em março de 2000, a “comunidadeNapster
”, como era comumente
chamada por seus usuários, tinha mais de 20 milhões de membros. A repercussão do software
começou a preocupar as grandes gravadoras da indústria
fonográfica e alguns artistas. A Associação Americana da Indústria de Gravações (RIAA pela sigla em inglês) entrou com um processo contra o Napster
em dezembro de 1999 alegando
quebra de direitos autorais. Os principais artistas a militarem contra o programa, pelo
1 Abreviação de MPEG-1/2 Audio Layer 3, o formato foi lançado em 1995 e tornou-se popular por possibilitar a
compressão do áudio sem perda de qualidade perceptível ao ouvido humano, algo praticamente inédito entre as mídias digitais.
apresentado em Downloaded
, foram o Metallica, banda de rock metal, e Dr. Dre, produtor
musical e rapper
. O baterista do Metallica, Lars Ulrich, chegou a levar pessoalmente ao
escritório do Napster
diversas caixas de papel com o nome de 26 mil usuários que estariam
disponibilizando de forma indevida as músicas da banda nosoftware
. Além disso, ele reuniu
cerca de 20 veículos de imprensa no local para filmar a cena e reclamar da ilegalidade do serviço. Já Dr. Dre disse em entrevistas que era contra esse sistema de distribuição de música e iria lutar contra ele “até o último dia de sua vida”.
Porém, da mesma forma como acontece atualmente, na época vários artistas se posicionaram de forma favorável ao Napster
. Segundo a matéria de Aquino (2000) para o
Portal Terra, o Limp Bizkit, banda de hardcore que fez sucesso na década passada, posicionou-se a favor do Napster
e das novas tecnologias, de forma que o software gastou
US$ 1,8 milhão para patrocinar a turnê do grupo. Já o rapper Chuck D, ex-integrante do grupo Public Enemy, afirmou que o futuro da música era ser livre e que a indústria fonográfica deveria se adaptar aoNapster
. Ao inaugurar um site com notícias de rap em 2000, Chuck D
criou um concurso para premiar a melhor música de apoio ao Napster
.
O caso gerou tanta repercussão que também foi discutido no Congresso dos Estados Unidos. Conforme apresentado em Downloaded
, além de Lars Ulrich, a cantora Alanis
Morissette depôs contra o serviço digital. Como defesa, os advogados doNapster
alegavam
que o software
não era responsável por piratear conteúdo ou violar direitos autorais, apenas
facilitava a troca de músicas entre os usuários, algo que os mesmos poderiam fazer fora da internet. A reportagem de Fantinel para o Portal Terra (2000) apresenta uma pesquisa realizada a pedido do Napster
que constatou que entre cerca de 1.600 usuários do programa
28,3% das pessoas aumentaram a compra de CDs, 63,6% continuam comprando a mesma quantidade, e 8,1% afirmaram que diminuíram a compra de discos após começarem a utilizar o programa. Dessa forma, a defesa alegava que o software
afetava positivamente os artistas,
pois as pessoas utilizavam o serviço para conhecer novas músicas e depois consumirem os produtos dos músicos.
Apesar dos esforços, a Corte Federal de São Francisco obrigou em fevereiro de 2001 que o Napster
limitasse os seus serviços, começando a utilizar um filtro em suas pesquisas
para evitar que o serviço impactasse as gravadoras. Em outra passagem de Downloaded
, o
fundador Shawn Fanning destaca que tentou buscar junto às gravadoras um acordo, considerado por ele mesmo impossível, de forma a oferecer um pacote de assinatura paga aos
usuários para conseguir remunerar os artistas – um modelo semelhante ao que as plataformas de streaming praticam hoje. Porém, ele não teve muito sucesso e no ano seguinte pediu falência e vendeu a empresa – que manteve o nome e atualmente distribui músicas no formato de streaming
.
O maior legado do Napster
foi discutir o modelo de consumo musical que estava
vigente e buscar novas soluções com as mudanças tecnológicas que estavam emergindo. Tanto que, no ano seguinte, a Apple lançou a iTunes Store, primeira loja virtual com o objetivo de comercializar música. Anos mais tarde, começaram a surgir as plataformas de
streaming – como Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal e Google Play Music. Diferentemente do Napster e de sites que comercializam música digital, como iTunes e Amazon, nas plataformas de streaming
a música é executada diretamente do servidor através da
transferência de dados online, sem a necessidade de que o usuário realize algumdownload
. O
jornalista Gustavo Brigatti (2014), em texto publicado pela Zero Hora, define o streaming como
[...] um formato de distribuição de conteúdo multimídia que dispensa o download de arquivos. Em vez de baixar uma música e guardá-la no aparelho, o usuário ouve a música em tempo real como se fosse uma transmissão de rádio - porém, por meio de uma conexão com internet. No caso das empresas que oferecem serviços de
streaming
, como o Deezer e Spotify, o catálogo musical é amplo e disponível para
audição de acordo com o tipo de assinatura do usuário.
O serviço torna-se legal, apesar de não ser regulamentado por diversos governos nacionais – inclusive no Brasil –, à medida em que pagaroyalties
sobre as execuções de cada
artista. Além disso, apenas os músicos e a gravadora (se houver) podem adicionar canções e álbuns à página do artista, o que garante liberdade de escolha sobre o que deve ser disponibilizado. Entre as plataformas que oferecem o serviço, há diferentes formas de monetizar o negócio. O Spotify e o Deezer oferecem a possibilidade de planos gratuitos, em que o usuário não paga pelo serviço mas tem propaganda entre as músicas e limite para a escolha de faixas. Já para utilizar a Apple Music e Google Play Music, outros serviços disponíveis no Brasil, o usuário deve pagar uma mensalidade – assim como para utilizar de forma ilimitada o Deezer e o Spotify.
Dessa forma, é possível ouvir diversas músicas de forma gratuita ou pagar um valor relativamente baixo para poder consumir milhares de canções - algo praticamente irreal há alguns anos. Os serviços de streaming
que já nasceram na “Era da Internet” e não se adaptaram a pagar por música – segundo o site do Spotify, 79% de sua base de usuários é composta por uma faixa etária de 18 a 34 anos. Logo, o streaming
se apresenta como uma nova forma de consumir música, adaptada a uma
realidade diferente.
Esse consumo musical se configura por traços de interação, modos de compartilhamento entre os ouvintes, difusão em tempo real, on-line ou offline. Isso por conta da ascensão tecnológica que proporcionou um desenvolvimento maior nos espaços digitais. Pode-se pensar que essa ascensão está ligada aos novos processos personalizados que os canais auditivos vêm proporcionando. (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2014, p.2)
Apesar do consumo nas plataformas de streaming
ser diferente do modelo do Napster,
ambos os serviços apresentaram uma forma diferente do usuário se conectar com a música, quebrando o modelo padrão da indústria fonográfica que estava estabelecido anteriormente. É interessante notar como grande parte das críticas e soluções apresentadas não são novas, conforme descrito acima, estão apenas adaptadas a uma nova situação. A diferença é que agora há mais de uma opção de plataforma de streaming
sendo oferecida e todas atuando
dentro de uma legislação que remunera artistas e gravadoras, tornando mais difícil que alguns agentes do mercado queiram impedir o funcionamento do serviço, como ocorreu com o
Napster
.
1.1. Justificativa
Os serviços destreaming
estão mudando o modelo pelo qual a indústria fonográfica se
consolidou nas últimas décadas. Se o surgimento doNapster
ocorreu de forma simultânea ao
início da queda de arrecadação das gravadoras, em 2015 os serviços de streaming aumentaram suas receitas financeiras mundiais em 45% e levaram a indústria fonográfica ao primeiro crescimento em dez anos, segundo relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica – IFPI (2016) . O documento também constata que 2015 foi o primeiro ano em 2 que as receitas digitais mundiais, que somaram US$ 6,7 bilhões, superam as vendas físicas, que arrecadaram US$ 5,8 bilhões.
Nos Estados Unidos, o ano de 2015 também marcou o primeiro ano em que a arrecadação com o streaming
foi maior do que os downloads digitais e vendas físicas,
segundo relatório da Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos (RIAA) .3
Enquanto o setor gerou US$ 2,4 bilhões de lucro e hoje representa 34,3% dos ganhos do mercado fonográfico, a participação dos downloads
digitais caiu para 30% e as vendas físicas
para 28,8%. Na prévia do relatório de 2016 da RIAA , que considera os meses de janeiro a 4 junho, é possível antecipar que as receitas com o streaming
já são de 47% e podem
representar mais de metade do mercado fonográfico estadunidense até o fim do ano.
No Brasil o quadro não é diferente. Segundo notícia divulgada no site da Folha de São Paulo em 21/04/2015, o “streaming passou a representar a maior parte (51%) do faturamento de música digital no país, deixando em segundo plano o proveniente de downloads (de serviços como o iTunes), que passou a representar 30% do total, e o de telefonia móvel (ringtones) com os restantes 19%”. Além disso, os números de 2014 da Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD) indicam que a renda com discos caiu 15%, enquanto as vendas digitais, que são lideradas pelo streaming
, subiram 30%.
Esses dados mostram uma realidade em transformação no mercado da música tanto no Brasil quanto em importantes mercados internacionais como Estados Unidos. Essas mudanças ainda não foram bem assimiladas por alguns integrantes da indústria fonográfica, gerando muitas críticas de artistas e gravadoras. O CEO da Warner Music, Stephen Cooper, criticou na revista Billboard o formato de distribuição dos serviços destreaming
, enquanto 180 artistas –
incluindo Taylor Swift e Paul McCartney – assinaram uma carta aberta ao Congresso dos Estados Unidos solicitando a revisão da lei de direitos autorais estadunidense, a Digital Millennium Copyright Act (DMCA).
Uma das principais reivindicações do grupo é acabar com o modelo de consumo gratuito, em que o serviço é mantido com os anúncios e propagandas. O motivo pode ser encontrado no relatório da IFPI sobre o mercado mundial de 2015. Os 68 milhões de usuários que assinam o serviço de streaming – pagando uma forma de mensalidade – geraram US$ 2 bilhões de receita. Já o formato gratuito, utilizado por 900 milhões de usuários, rendeu apenas US$ 634 milhões para o mercado fonográfico. Isso significa que três assinantes de alguma plataforma de streaming
geram mais para os artistas, gravadoras e distribuidoras que 100
3 Disponível em
<http://www.riaa.com/wp-content/uploads/2016/03/RIAA-2015-Year-End-shipments-memo.pdf>. Acesso em 05
dez. 2016
4 Disponível em <http://www.riaa.com/wp-content/uploads/2016/09/RIAA_Midyear_2016Final.pdf>. Acesso
usuários que utilizam o serviço no modelo gratuito com propagandas. Nos Estados Unidos, em 2015 a receita com discos de vinil (US$ 416 milhões) superou a dostreaming
pago com
propaganda, que somou US$ 385 milhões.
Apesar disso, o crescimento de plataformas como o Apple Music e o Tidal, em que o usuário deve pagar para utilizar o serviço, está alterando a situação do mercado estadunidense. Segundo o relatório parcial de 2016 da RIAA, nos Estados Unidos o número de assinantes passou de 9,1 milhões para 18,3 milhões em um ano, representando crescimento de 101%. O número de assinantes do Spotify, que era inferior a 30 milhões em 2015 e agora já ultrapassou a marca de 40 milhões no mundo, também indica que o ano de 2016 deve encerrar com crescimento considerável no número de usuários pagos do serviço de streaming
e,
consequentemente, de receita para o mercado fonográfico.
A dificuldade em gerar receitas a partir dos usuários que não pagam pelo serviço é perceptível no caso do Spotify. Apesar de ter mais de 100 milhões de usuários cadastrados no mundo, a empresa sofre com sucessivos prejuízos operacionais. Segundo notícia distribuída pela Agência Reuters, 80% de receita do Spotify é direcionada a gravadoras e artistas, o que refletiu no prejuízo operacional de 184,5 milhões de euros em 2015 e 165,1 milhões em 2014. Outra notícia, produzida pelo Financial Times e divulgada no site da Folha de São Paulo, destaca que “Nenhum dos serviços mais populares registrou lucro até agora e algumas pessoas duvidam de que um dia venham a fazê-lo”.
Se há um grupo de 180 artistas atuando para a mudança na lei de direitos autorais nos Estados Unidos, no Brasil a situação é semelhante. A gestão de direitos autorais no país é tão polêmica que esteve recentemente no STF (Supremo Tribunal Federal). O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) ajuizou um processo que questiona a nova lei de arrecadação e distribuição, sancionada em 2013, que transfere para o governo federal a atribuição de supervisionar e regular o órgão. Em outubro de 2016, o STF decidiu manter a lei, julgando que a mudança é constitucional (MASCARENHAS, 2016).
Esse e outros debates sobre mudanças na lei de direitos autorais têm a Associação Procure Saber como principal representante dos artistas. O grupo – formado por diversos músicos, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Marisa Monte, Frejat, Emicida, Lenine, Nando Reis, entre outros – foi criado por conta da discussão das biografias não-autorizadas, e atualmente é quem reivindica mudanças na forma de distribuição das receitas de streaming
Além do debate sobre as implicações econômicas do streaming
, o novo modelo de
ouvir música provocou mudanças sociais. Segundo estudo produzido pelo governo da Austrália e divulgado neste ano, a popularização dos serviços de streaming contribuiu para a5 redução da pirataria. No caso da música, o número de pessoas que consumiram produtos ilegais em 2016 foi de 32%, enquanto em 2015 era de 37%. Ao mesmo tempo, o percentual de pessoas que utilizam o Spotify subiu de 19% para 30% em 2016, enquanto o Google Play cresceu de 11% para 15% – corroborando a tese de que, apesar de não contribuir muito para as receitas da indústria fonográfica, o formato gratuito colabora com a redução da pirataria.
Mas afinal, levando em conta todos esses dados e discussões, qual é o impacto do serviço de streaming
no mercado de música atual e como isso reflete na situação brasileira?
Com essas transformações, a relação da música e usuários, artistas, gravadoras e distribuidoras foi muito alterada, criando novas possibilidades de mercado e disponibilizando a cultura de forma acessível ou gratuita. Como eu me interesso pelo tema de música há vários anos, considero esse um assunto pertinente para realizar uma apuração jornalística e explicar ao público as principais mudanças ocasionadas pelo serviço de streaming
, inclusive com a
possibilidade de continuar a pesquisa após a graduação.
1.2. Objetivos
1.2.1. Objetivo Geral
Analisar o mercado de streaming
de música no mundo e seus impactos no Brasil,
incluindo aspectos históricos, o público, a regulamentação, a distribuição de receita, as diversas opiniões e a diferença entre as empresas que oferecem o serviço, além de casos e dados internacionais de relevância.
5 Disponível em
<https://www.communications.gov.au/sites/g/files/net301/f/online-copyright-infringement-2016-final_report-acc
1.2.2. Objetivos Específicos
● Explicar o que é o serviço de streaming
e como ele influencia o mercado fonográfico
mundial;
● Contextualizar aspectos históricos e de regulamentação do serviço no Brasil; ● Conhecer qual é o público que consome o serviço de streaming
de música no Brasil e
porque escolheu essa plataforma;
● Questionar a resistência de parte da classe artística e de gravadoras em relação ao
novo sistema;
● Investigar a opinião dos pesquisadores da área musical sobre o serviço de streaming
;
● Explicar as principais diferenças entre as plataformas que oferecem o serviço de streaming
2. DESCRIÇÃO
O projeto busca analisar o impacto dos serviços de streaming
de música, ou seja,
excluindo plataformas como o Youtube – que, apesar de ser um site com a finalidade de reprodução de vídeos, é muitas vezes utilizado para ouvir canções. Também serão excluídas as plataformas sem parceria com as gravadoras musicais, como o SoundCloud, já que este não paga pelos direitos autorais de artistas e funciona como um site em que os artistas e produtores independentes podem disponibilizar as suas músicas – algo muito limitado para o objetivo da pesquisa. Por fim, não serão analisados individualmente os serviços que ainda não estão disponíveis no Brasil, como o Pandora.
Dessa forma, foram selecionadas cinco empresas: Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play Music e Tidal. Serão apresentadas as principais diferenças de preço e serviço entre essas empresas, de forma a apresentar aos usuários as vantagens e desvantagens de cada uma. Também serão descritas as informações gerais e casos mais populares de cada plataforma, como a exclusividade de alguns artistas em lançarem álbuns novos no Tidal, por exemplo.
Além de dados de relatórios recentes sobre o mercado da indústria fonográfica e a comparação entre as plataformas, serão ouvidas muitas fontes testemunhais. Entre elas estão os representantes brasileiros do Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play Music e Tidal, com a possibilidade de algum contato internacional por e-mail. Os representantes das principais gravadoras brasileiras, como Universal, Sony e Warner, também serão procurados para conceder entrevista. Para contrapor essa realidade, selos independentes como a Deckdisk e o Laboratório Fantasma também terão espaço. O objetivo é tentar a entrevista presencial com a maioria destes, mas em caso de inviabilidade, principalmente por conta do deslocamento, o telefone e o e-mail poderão ser os recursos utilizados.
Os artistas também serão procurados para conceder entrevista. Levando em conta a agenda restrita de grande parte dos músicos, as produtoras que organizarem o show desses artistas em Florianópolis serão procuradas com antecedência para a possibilidade de uma entrevista rápida com os artistas. Caso não seja possível, também existe a possibilidade de contato por telefone e e-mail. Como o objeto de pesquisa do projeto é amplo, não há escolha por artistas específicos – o que facilita a busca por entrevistas. O objetivo é conseguir ao
menos três artistas diretamente ligados a alguma gravadora e outros três independentes, para mostrar como os músicos em situações distintas reagem sobre os serviços de streaming
Serão procurados músicos, preferencialmente, ou representantes legais do movimento Procure Saber, formado por artistas brasileiros que contestam a distribuição das receitas de direitos autorais no país. Para contrapor e ampliar o debate sobre a regulamentação do serviço no Brasil, também é importante ter o depoimento de algum representante do Ecad.
Outras possíveis fontes testemunhais são associações e entidades de classe como a Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD) e distribuidores de música, como a ONErpm, as quais podem mostrar outros argumentos para a análise do serviço de streaming .
Por ser um fenômeno recente, as pesquisas sobre o tema são extremamente restritas. Até existem alguns artigos sobre o tema no Brasil, mas nenhum trabalho científico mais aprofundado foi encontrado para ser utilizado como referência. Há alguns livros comerciais, como o “Como a música ficou grátis” de Witt (2015). Serão procurados pesquisadores que tenham algum trabalho na área de indústria cultural, preferencialmente brasileiros, para conceder entrevista para o projeto.
A fundamentação teórica da pesquisa também relacionará o tema às pesquisas do escritor Chris Anderson, que lançou a teoria da cauda longa e fez pesquisas sobre a realidade do mercado cultural trabalhar com o custo marginal próximo de zero. As pesquisas do autor apresentam uma nova realidade de consumo cultural, em que os hits – como o próprio classifica desde músicas até programas de TV de massa – perdem força para o mercado descentralizado, conectado em rede e que permite acessar a conteúdos antes indisponíveis.
Essa massa de nichos sempre existiu, mas, com a queda do custo de acessá-la – para que consumidores encontrem produtos de nicho e produtos de nicho encontrem consumidores –, ela, de repente, se transformou em força cultural e econômica a ser considerada. [...] Agora, numa nova era de consumidores em rede, na qual tudo é digital, a economia de distribuição está mudando de forma radical, à medida que a internet absorve quase tudo, transmutando-se em loja, teatro e difusora, por uma fração mínima do custo tradicional. (ANDERSON, 2006, p.6)
Nesse cenário, os serviços de streaming podem ser relacionados como uma ferramenta emergente que disponibiliza milhares de músicas, que vão além doshits
, para um público que
está em transformação por conta da sociedade em rede. Para complementar a teoria da cauda longa, Anderson (2009) lançou Free - grátis: o futuro dos preços
, onde analisa a queda no
custo de distribuição com a internet e a ampliação de uma cultura dominante de gratuidade no consumo cultural após a popularização da web – caso dos serviços de streaming
.
Outro teórico que pode ser utilizado como referência é Douglas Kellner, representante da terceira geração da Escola de Frankfurt e com diversos estudos relacionados com a área de cultura de mídia. O autor será utilizado para a introdução do projeto, principalmente no relatório teórico, pois estuda conceitos importantes como mídia, cultura de massa e indústria fonográfica. Como as opções para referência teórica são restritas, boa parte da fundamentação do trabalho será realizada com as fontes testemunhais e dados obtidos por relatórios.
Após a conclusão das entrevistas e da apuração dos dados, as informações serão compiladas no formato de Grande reportagem multimídia. Segundo Longhi (2015), esse gênero jornalístico tem como características a multimidialidade, uso dehiperlinks
e conteúdo
pensado para o ambiente digital, utilizando para suporte ferramentas como HTML5, CSS, narrativas imersivas e texto longform
. A autora destaca a ascensão desse gênero como
narrativa jornalística, já que a grande reportagem multimídia “vem consolidando-se como um dos formatos mais inventivos do jornalismo online, especialmente se levarmos em conta os grandes jornais de referência, que têm investido recursos e formação em equipes de profissionais com esse objetivo” (p. 12).
Além de possibilitar o uso de diversas mídias tradicionalmente utilizadas no jornalismo, como áudio, imagens e vídeos, a Grande reportagem multimídia também permite incorporar ferramentas criadas para a plataforma online. “As infografias dos meios digitais se tornaram peças jornalísticas depuradas, que integram textos, imagens estáticas e dinâmicas, 3D, sons, e cada vez maiores doses de interatividade” (LONGUI, 2009, p.3 apud SALAVERRÍA, 2007). Longui (2009) ainda explica que a infografia interativa faz parte de uma nova forma de produção de conteúdo online, chamada de jornalismo imersivo, a qual reúne informações em diversos formatos e deixa que o usuário crie a sua experiência.
3. DESENVOLVIMENTO
Por ser um projeto executado de forma individual, eu serei o responsável por realizar todas as tarefas. Da mesma forma, algumas etapas exigirão recursos financeiros para serem concluídas, sendo que todas elas serão custeadas por mim.
O primeiro passo é aumentar a pesquisa bibliográfica sobre o assunto, o que deve iniciar em dezembro de 2016 e ser continuada enquanto as demais ações estiverem sendo realizadas. Da lista de bibliografia há alguns livros que podem ser encontrados pelo acervo da Biblioteca Central da UFSC. Porém, há outros que não constam no acervo, e serão adquiridos com recursos pessoais para aprimorar a pesquisa.
Após o fim do semestre letivo da UFSC, no início de dezembro, as entrevistas jornalísticas com as fontes testemunhais para o projeto começarão a ser planejadas. As primeiras fontes serão contatadas no início de janeiro, e a previsão é que até o mês de março todas as entrevistas sejam concluídas. Como muitas fontes testemunhais do projeto trabalham em empresas com sede na cidade de São Paulo, estão programadas duas viagens durante esse período para entrevista utilizando as potencialidades da reportagem multimídia, como gravação em vídeo, áudio e fotografia.
Como um dos objetivos do trabalho é explicar a diferença entre as empresas que oferecem o serviço destreaming
, a apuração em São Paulo terá como um dos objetivos gravar
vídeos com os representantes das diferentes plataformas. A ideia é compilar os depoimentos em um vídeo que, com o auxílio de infográficos ilustrativos, possam explicar o que é o
streaming
e a diferença dos serviços de acordo com os representantes das próprias empresas.
Durante esse período, entre as viagens para São Paulo serão entrevistadas fontes testemunhais em Florianópolis. No caso de shows com artistas musicais na capital catarinense, entrarei em contato com a produtora para verificar a possibilidade de gravar entrevista, preferencialmente em áudio, já que o projeto incluiu relatos e opinião de artistas sobre o serviço de streaming
.
Já com fontes que não possam conceder entrevista presencial, serão realizados contatos por telefone, com uma autorização prévia para poder utilizar a linha telefônica da universidade. E ainda em caso de indisponibilidade, a última opção é o contato por e-mail. Assim, há muitas formas para conseguir contato com as fontes, utilizando o suporte que o formato de reportagem multimídia oferece.
Após o fim do período de entrevistas, iniciará o período para redação e edição do material, o que deve ocorrer ao longo do mês de abril. Com o conteúdo filtrado e editado – que inclui texto, vídeo, áudio, imagens e infográficos –, iniciará o período para a criação do ambiente virtual, com a adaptação de um Web Site ao modelo que estiver de acordo com a quantidade e qualidade do material pesquisado. Essa fase deve ser concluída até a metade do mês de maio.
Com o conteúdo finalizado e a plataforma pronta, começará a fase de revisão de conteúdo, o que deve acontecer no fim do mês de maio. Dessa forma, o projeto deve ser finalizado até o mês de junho, com tempo de preparação para a apresentação da defesa final do projeto.
4. CRONOGRAMA
2016 2017
DEZ JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL
Entrega final do projeto de TCC Pesquisa e revisão bibliográfica Entrevistas com fontes testemunhais Redação e edição do texto 1-20 Criação e adaptação da plataforma online 21-30 1-15 Revisão final do projeto 16-31
Depósito das cópias do TCC para banca Defesa final
5. ORÇAMENTO
Para a execução do projeto, serão utilizados os equipamentos disponíveis nos laboratórios de telejornalismo, radiojornalismo e fotojornalismo do Departamento de Jornalismo da UFSC. Além disso, serão utilizados como suporte alguns equipamentos já adquiridos previamente.
Abaixo consta a lista dos equipamentos do Departamento que deverão ser utilizados no projeto:
● Câmera digital de vídeo; ● Tripé e microfone lapela; ● Gravador de áudio;
● Câmera digital fotográfica DSRL;
● Lentes e flash para câmera digital fotográfica.
Como o projeto utilizará o suporte de um Web Site multimídia, a plataforma escolhida para o projeto será o Readymag. Como determinadas funções importantes dosoftware
estão
disponíveis apenas na versão paga, será necessário realizar a assinatura do programa durante os meses de maio, junho e julho. Atualmente a versão premium tem custo de US$ 16 por mês, o que custaria 48 dólares no período mencionado. Levando em consideração o câmbio atual fixado em R$ 3,20 para cada dólar, o investimento na plataforma seria de aproximadamente R$ 153,60.
Outro custo projetado é de duas viagens para a cidade de São Paulo com o objetivo de entrevistas presencialmente as fontes testemunhais. No site da empresa Viação Catarinense consta que atualmente o trajeto Florianópolis - São Paulo tem o custo de R$ 120 reais com o ônibus semi leito. Como seriam duas viagens, o gasto aproximado com o ônibus seria de R$ 480.
Soma-se a isso a compra de livros que não estão disponíveis na Biblioteca Central da UFSC, de forma a complementar a pesquisa. Não há uma previsão concreta, mas a previsão é de gastos de até R$ 200 para complementar a bibliografia da pesquisa.
Com isso, a soma superficial de investimento para o projeto é de aproximadamente R$ 833,00, valor que será custeado pelo próprio estudante. Além disso, não haverá equipe ou profissional adicional contratado, apenas auxílio voluntário de amigos e familiares.
6. FINALIDADES
O projeto proposto é uma oportunidade para pôr em prática diversos conhecimentos adquiridos durante a graduação. Como o formato escolhido é o de grande reportagem multimídia, será possível treinar técnicas de entrevista, apuração, redação, fotografia, edição de imagens, edição de vídeo, gravação de vídeos, gravação de áudio e infografia. Além disso, serão importantes vários conhecimentos teóricos adquiridos durante a formação, como teorias do jornalismo e da comunicação, métodos de pesquisa em comunicação e ética no jornalismo.
Apesar de não tratar de um interesse direto da sociedade, o projeto tem como objetivo abordar a temática da indústria cultural e suas transformações, temas que são relevantes para a formação intelectual dos cidadãos. Além disso, apresenta e esclarece a função de novas ferramentas que oportunizam o acesso cultural gratuito ou de baixo custo da população, servindo também como um importante instrumento de inclusão social.
Por ser uma pesquisa praticamente pioneira no Brasil – não foram encontradas quaisquer pesquisas científicas no país com profundidade maior do que um artigo –, o projeto também é uma contribuição praticamente inédita aos estudos sobre a indústria cultural. Dessa forma, existe a possibilidade de que a pesquisa seja continuada após a graduação, com a preocupação em problematizar a implicação dos serviços destreaming
em outras questões da
indústria cultural.
Por fim, o projeto será produzido em uma plataforma de Grande Reportagem Multimídia, o que significa que ficará disponível na internet para acesso e consulta de pesquisadores e da sociedade em geral.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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