NOS LIMITES FINAIS DO PERÍODO
ARCAICO: A VITÓRIA DE TER HVERBO
DE POSSE" E AUXILIAR DE TEMPO
COMPOSTO
E A SUA EMERGÊNCIA
COMO HVERBO EXISTENCIAL"
AbstractThis text deals with aspects of the use of the verbs ter and haver in old Portuguese final phase. It summarizes some precedent studies we developped on ter/haver in possessive structures and in compound tenses; its focus, however, is the emergency ofter in existencial sentences in that time.
Palavras-chave: lingüística histórica; história da lín-gua portuguesa; morfossintaxe.
1 Preliminares
o
objetivo principal deste trabalho se centra em evidências documentadas sobre a emergência do uso do verbo ter como "verbo existencial" nos limites finais do período arcaico da língua portuguesa ou iní-cios do período moderno, também designado de clás-sico por outros autores.Insere-se essa questão em um dos projetos indi-viduais do grupo de pesquisa "Programa para a histó-ria da língua portuguesa (PROHPOR)" do Departamen-to de Letras Vernáculas e do Programa de Pós-gradua-ção em Letras e Lingüística da UFBa., intitulado "Re-lações semântico-sintáticas entre os verbos ser/estar/ haver/ter no período arcaico do português: variação e mudança". Sobre vários aspectos da temática desse projeto já divulguei dados e interpretações sobre a va-riação de ser/estar em estruturas atributivas (1997, 1999a); de ser/haver/ter em estruturas de tempo com-posto (1996, I 999b) e de haver/ter em estruturas pos-sessivas (1996, 1998). Focalizarei aqui ser/haver/ter, já analisados em dados do século XIII (1997), nos
me-ados do século XVI, como "verbo existencial". Os limites finais do período arcaico não é consensual. Como discuti em artigo de 1994, os espe-cialistas divergem e alguns já situam os inícios do português moderno nos começos do século XVI; ou-tros escolhem 1572, data da publicação de "Os Lusiadas", como O momento inaugural desse perío-do. Enquanto não se dispuser de estudos
intralin-güísticos
cronologicamente seriados decaracterísti-cas lingüísticaracterísti-cas que tipificam o período arcaico, não se poderá ter, evidentemente, uma delimitação
intralingüística desse período. No âmbito do "Pro-grama para a história da língua portuguesa (PROHPOR)", tem-se trabalhado com um fator sociolingüístico, como operacional para definir o li-mite final do período arcaico. Considera-se o início da gramaticização da língua portuguesa por Fernão de Oliveira em 1536, seguida da primeira proposta de normativização prescritiva explícita, inaugurada por João de Barros em 1540, com a sua chamada Obra Pedagógica, como uma baliza relevante para a deli-mitação desse período.
Neste trabalho os dados sobre que fundarei as minhas observações se concentrarão na Obra Peda
-gógica (Buescu 1971) de João de Barros (Gramáti-ca da língua portuguesa (GLP), Ortografia (ORT), Diálogo em louvor da nossa linguagem (DLNL) e Diálogo da Viciosa Vergonha (DVV), na sua totali-dade e numa amostra da Primeira e da Segunda Dé-cada da Ásia (Baião e Cintra 1988), também desse autor, trabalhos escritos por esse erudito quinhentis-ta nos meados do século XVI, admitindo assim que essa documentação seja representativa dos finais do período arcaico/inícios dos tempos modernos.
2 Breve síntese de
ferI/verbo
de
pos-se"
e
auxiliar de tempo comp
o
sto
em João de Barros
Apresentarei aqui sumariamente o que desen-volvi em trabalhos anteriores sobre o recesso de ha-vere o sucesso de ter como "verbo de posse" na Obra Pedagógica de João de Barros, apresentado à ANPOLL de 1998 e sobre a seleção de ter como au-xiliar de tempo composto, intencionalmente feita e coerentemente usada por esse gramático-escritor na Obra Pedagógica e, em amostra, da Primeira Déca-da Déca-da Ásia, em Comunicação ao Congresso da ABRALIN deste ano. Em ambos os casos, João de Barros se apresenta como inovador, seleciona ter e não haver como "verbo de posse" e como auxiliar de tempo composto.
Durante todo o período arcaico, o "verbo de posse" preferencial foi o verbo haver, continuando a
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herança do latim, em que o verbo básico para a ex-pressão de posse é habere (Gaffiot 1934:s. v. haberei.
Examinada a Obra Pedagógica de João de Barros, encontraram-se 115 ocorrências de haver e 353 de ter, em todas as possibilidades sintáticas em que esses verbos eram usados, não apenas nas estru-turas possessivas; nessas há 18 ocorrências de haver e 338 de ter, "verbo de posse". Analisadas qualitati-vamente as ocorrências de haver, arcaizante, verifi-quei que em apenas 2% o uso de haver era conserva-dor; nas outras ocorrências de haver "verbo de posse", ou o autor transcrevia outros textos, na maio-ria bíblicos, com base, provavelmente, em manuscri-tos mais antigos, ou utilizava metalingüisticamente ha
-ve r na análise que faz sobre esse -verbo na sua
Gra-mática. Os 2% arcaizantes remanescentes variavam
no mesmo contexto com o verbo ter (p. ex.: haver
vergonha/ter vergonha; haver nome/ter nome; haver
causa/ter causa; haver regra/ter regra). Considerei
esses 2% como "resíduos arcaizantes" no uso de ha -ver "-verbo de posse" em João de Barros e concluí que se poderia afirmar que já era nele ter o verbo para expressar a posse.
Quanto ao verbo ter, como auxiliar de tempo composto, o autor, na sua Gramática, explicita a re-gra de que nos "tempos per rodeo" com particípio passado, o verbo auxiliar deve ser ter e não haver;
haver será para ele o verbo que formará o "tempo per
rodeo vindoiro", ou seja, o futuro. Nesse trabalho examinei não só a Obra Pedagógica (4. 266 linhas de texto), como também uma amostra da Primeira
Dé-cada da Ásia (2. 133 linhas) e me surpreendi com a
coerência notável na escrita de João de Barros: nun
-.ca, nocorpus analisado - 52 ocorrências ao todo (note-se que a baixa freqüência do tempo composto é cons-tante em todos os documentos do período arcaico por mim analisados) - ocorre haver, mas sempre ter, como auxiliar de tempo composto. Segue assim o preceito de sua Gramática e não prossegue no uso variável de
haver/ter, como na documentação arcaica, em que
haver será o verbo preferencial nessas estruturas,
quando o particípio passado é de verbo transitivo. Não tratarei aqui do uso variável de ser/ter/haver com par-ticípio de verbos não-transitivos (cf. 1999b) em que, por vezes, João de Barros se mantém arcaizante, se -lecionando ser com esse tipo de verbo.
Assim, tanto no que se refere às estruturas de posse quanto ao tempo composto de verbos transiti-vos, João de Barros, no corpus analisado, já se apre-senta como um representante do português moderno ou clássico.
Mostrarei a seguir o que nos diz o mesmo
corpus, reforçado por uma amostra complementar da
Segunda Década da Ásia (2. 133 linhas também),
sobre overbo que preenche as estruturas semantica-mente "existenciais", que "entram na classe fechada de "verbos funcionais", não predicadores, mas ope
-radores funcionais em que a predicação se estabelece entre oselementos da 'cada' das orações existenciais." (cf. Franchi, Negrão e Viotti 1998: 110).
3 Indícios de ferI/existencial" em
J
oão
de Barros
Um breve percurso sobre a seleção do verbo "existencial" no período arcaico do português mos-tra que concorriam nesse contexto os verbos ser e
haver. Ser, existencial, continua o uso latino do
ver-bo esse. Contudo, já no chamado "latim vulgar"
habere, verbo de posse no latim padrão, está docu
-mentado nos séculos IV e V como existencial, segun-do Grandgent, na sua Introdução ao latim vulgar (1952: 27-28).
Em extenso corpus por mim pesquisado (5.
961 linhas de um conjunto detextos) do século XIII (1997), primeiro momento documentado da língua portuguesa pela escrita, encontrei a predominância de ser como verbo "existencial" (ser 56% e haver 44%), notando-se que a seleção de ser se verificou preferencialmente em documentos notariais (no
Tes-tamento de Afonso lI, a documentação notarial edita
-da por Clarin-da Maia, no Foro Real de Afonso X) e a de haver, predominando nas Cantigas de Santa Ma
-ria, documento literário, portanto. Embora nãotenha
feito uma quantificação dos verbos existenciais no estudo dos Diálogos de São Gregório (cf.Estruturas
trecentistas 1989: 513-514 e 524-525), texto religioso
do século XIV, anterior a 1389, ficou evidente a predo-minância de haver e raro o uso de ser existencial.
Ao findar o século XV, na Carta de Caminha (1996:
182-193), encontrei apenas haver como " existen-cial" e uma ocorrência, em que já o verbo ter pode ser interpretado como existencial. Adiante volta -rei a esse dado.
A questão em que me centrarei daqui por di-ante é verificar a emergência de ter"existencial" em João de Barros, uso generalizado hoje pelo menos no português brasileiro falado, mas ainda censurado por gramáticas prescritivistas.
Na clássica Syntaxe histórica portuguesa de Epiphânio Dias (1959), ao tratar do que designa de orações impessoais, afirma que "haver acompanha-do de objeto direto, significa no seu conjunto a exis-tência de uma pessoa ou coisa" (p.17) e não mencio-na a possibilidade do verbo ter no passado do portu-guês nesse tipo de contexto. Said Ali, no seu estudo sobre haver e ter, parte da sua obra Dificuldades da
língua portuguesa, afirma que:
"na genuína oração existencial não há lugar para possuir nem ainda para ter. Em todos os
documentos de português literário, antigo ou
moderno, debalde buscaremos entre a imen
-sa multidão de orações do tipo há homens
bons e maus neste mundo provas da possibi
-lidade de se substituir há por qualquer dos
supostos equivalentes" (1957: 118)
Na sua Gramática histórica da língua
portu-guesa (1964), afirma também que "haver, fazendo às
vezes de existir, usa-se no singular ainda quando se refira à existência de muitos seres expressos por subs
-tantivo plural" (p.305); mais adiante, contudo, desta -caque "em escritores notáveis do século XIX tem-se
apontado váriosexemplos de orações existenciais com houveram, houvessem etcno plural". E continua: "mas
a novidade vem de mais longe. De Matias Aires de 1752, século XVIII". Osdados pesquisados, aque a seguir me referirei, permitem recuar a"novidade" para o século XVI.
Nos dados de João deBarros, em textos esc ri-tos nos anos quarenta e cinqüenta do século XVII, encontrei evidências, embora raras, tantodo ter"e xis-tencial", não mencionado pelos clássicos estudos de
sintaxe histórica antes referidos, como do haver exis-tencial com concordância, encontrado como " novi-dade" por Said Ali noséc. XVIII.
Esses dois aspectos dahistória dosverbos exis-tenciais no português já tinham aflorado nos dados de 1500 da Carta de Caminha: nesse documento ocor-rem 24 contextos de haver como verbo existencial, emgeral seguido dolocativo próprio a todooperíodo
arcaico, nas grafias <hi, y,i>
Há, contudo, uma seqüência em que ter pode serinterpretado como existencial:
(1) ...se metiam en almadias duas ou tres que hy
tiinham (CPVC -fel. 5,31-32)
Ainterpretação "existencial" teria o sujeito
0
e a interpretação como "verbo de posse", com o su-jeito marcado na flexão. A questão da concordânciamarcada na forma plural do verbo favorece a inte
r-pretação possessiva, contudo a Carta também nos
fornece outro dado sugestivo que é o de haver, exis-tencial, flexionado:
(2)nõduvido queper esse sertaão ajam muitas aves (CPVC -fol. 10-11)
Esse haver flexionado não pode ser interpre-tado como verbo de posse, já que esse tipo de verbo
exige dois argumentos nominais. Em outras
seqüên-cias da Carta, com SN seguinte no plural, o haver existencial vaiestar sempre no singular (cf.fólios 7v, 3-4;9, 8-9; 10, 1-2;1l, 14).
No exame da Obra Pedagógica deJoão de Bar -ros,escrita em 1540 e na amostra analisada das Déca-das, iniciadas logo depois, encontrei evidências, em -borararas,dapossibilidade já devariação entrehaver! tercomo verbo "existencial" etambém da concordân -ciadehaver comoSN que osegue no plural.
Os dados gerais encontrados no conjunto da
Obra Pedagógica e na Primeira Década, quanto à
seleção do verbo "existencial" por João de Barros são
osdaTabela I: Tabela 1
GlP
ORT
DLNL DW Déc.I Total ser 01 O O O 05os
haver 10 02 08 25 34 79 ter 01 01 O O 02 04 Total 12 03 08 25 41 89Nas 89 ocorrências de contextos " existen-ciais" predomina, tal como no período arcaico, o verbo haver, verbo "existencial" preferencial; o etimológico, provindo do latim padrão, ser, ainda
ocorre com baixa freqüência de uso, seis vezes. O
inovador ter aponta em quatro ocorrências que in-terpretei como "existencial".
Aocorrência na GLP está numa seqüência em que o gramático João de Barros teoriza sobre over -bo haver, funcionando como o que hoje sedenomina deverbo suporte (Neves 1996:201-227):
(3) Temos mais este verbo [hlei, [h]ás que éde
genero diverso pelo oficio que tem. Quando se
ajunta com nome soprimos muitos verbos da
língua latina que a nossa não têm: [h]ei vergo-nha, [h]ei medo, [h]eifrio e outros muitos que tem quando ô ajuntamos a nomes substantivos desta calidade. (GLP 327, 19 - 328,2)
A ocorrência na Ortografia, finaliza uma se-qüência de características que apresenta oortógrafo
João de Barros sobre a letra <n>:
(4) Ésta lêtera Nàçerca denós sérve noprinçipio e fim da sílaba e nunca em fim de diçam... E muitas vezeso til ô escusa doseu trabalho quan-doéfinal de sílaba, comofâ: ao
m.
Tem máis,queàsvezes sequer dobrado em algüas dições
que reçebemos dos latinos, como anno.
As duas ocorrências na Primeira Década es -tão em narrativas descritivas de fatos históricos so-bre que escreve João de Barros nesse texto:
(5) Porque partido Antã Gõçalves teue no
cami-nho hüu têmporal tã grande, que dizia Baltasar quejá vira o
ti
desejaria, mas não sabia se o poderia contar.(Déc
r
,
31, 5)(6) Concertou-se com o infante dom Anrique
so-bre o que nellas [nas ilhas] tinha, e elle
passouse a ilha de Madeira onde assentou sua
uiuenda (Déc I,46-38)
Com esses indícios, estendi mais ocorpus e examinei uma amostra, de extensão correspondente
à da Década Primeira, na Década Segunda,
levan-tando apenas as ocorrências que avalio como " ino-vadoras", no caso, as "existenciais" com overbo ter; por essa razão não apresentei os dados na Tabela 1 que inclui as "existenciais" com ser e haver.
Encontrei mais uma ocorrência de ter exis-tencial (cf. (7» e outra (cf. (8» em que haver " exis-tencial" concorda com o SN plural que osegue:
(7) O qual rey senhoreária da ilha de Gerü ate a
de Baharem, tendo per vezinho hum rey per
nome Gordunxâ, cujo estado era na terra da
Pérsea de fronte desta ilha Gerum em hüa
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comarca per nome Mogotá tj quer dizer polmar em língua Persea rustica, e em Perseo antigo Ormuz: onde tinha hüa cidade deste nome que
nos te-mpos passados foy tã celebre que
Ptolomeu ... (Déc 11, 48, 36- 49, 1)
(8) Cá neste tempo éra em Lisboa tã grãde peste tj ouuerã muytos dias de cêto e vinte pesóas [mor-rerem]... no proprio mauio de Tristã da Cunha primeiro que partissem morrerã seys ou sete (Déc 11, 4, 5)
Com os dados da amostra da Década Segunda, foram encontradas, portanto, cinco ocorrências de ter existencial nos finais do período arcaico e um de ha-ver existencial concordando com o SN subseqüente, a "novidade" do século XVIII, segundo Said Ali, como referido antes. Usos tão comuns hoje no português brasileiro falado, pelo menos. A concordância com o SN plural subseqüente é considerada "correta" com o verbo existir, equivalente semântico de ter e haver "existenciais", item verbal que só entrará no léxico do português no século XVIII, segundo os dicionários histórico-etimológicos deJ.P.Machado (1990: s.v.) e de A.G. Cunha (1982: s.v.). De fato, no exame que já fiz em alguns glossários exaustivos de textos do período arcaico (o do Foro Real, séc.XIII; o dos Di-álogos de São Gregório, séc. XIV; o da Versão galega da Cronica geral de Espanha, séc. XIV; o da Cronica do Pedro, de Fernão Lopes) não encontrei documentado esse item verbal nesse período históri
-co do português.
Para concluir, quero assinalar o percurso diacrônico do processo de gramaticalização dos ver
-bos haver e ter no período arcaico do português até a sua provável fase final. Ambos são no latim "verbos plenos", segundo Gaffiot (1934: s. v.
haberei,
a acepção principal de habere é "ter em posse" e que subseqüentemente ocorre em usos figurados com "ter na mão", "obter".Tenêre
depoistenere
(id: s. v.tenêre;
tem como acepção básica "ter algo na mão", "obter", sendo acepções secundárias "manter", "reter". Grandgent, como já foi referido, informa que no "la-tim vulgar" habere já ocorre com a acepção genérica de verbo existencial, verbo funcional, portanto, o mesmo não sendo atestado para tenere.Quando o português aparece documentado pela escrita no século XIII, é haver o verbo generali-zado para qualquer tipo de posse (de objetos mate-riais adquiríveis e posse inerente); ao longo desse pe-ríodo ter vai se expandindo para os diversos tipos de posse, primeiro a posse de objetos materiais e por fim a posse inerente (cf. Mattos e Silva 1997, 1999a) e exclui haver nesses contextos de posse pelos meados do século XVI (cf. 2) em alguns casos podendo ser interpretado como verbo suporte (p.ex.: haver medo > ter medo; haver vergonha> ter vergonha); o verbo haver, que não era auxiliar no latim, será o mais sele-cionado para a formação dos "tempos compostos", que são inovações românicas, e será superado por ter, pelo menos na teoria e no uso de João de Barros (cf.
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Mattos e Silva 1999b); como "existencial" haver, do-minante no período arcaico, supera o etimológico ser e já no século XVI ter "existencial" entra na cena da língua portuguesa, como verbo funcional existencial.
Assim esses verbos, em ritmos diferentes, mas paralelos, pelo menos do que se apreender da docu
-mentação já examinada, seguem percursos análogos, com evidente recesso histórico de haver e sucesso de ter - verbos plenos (p. ex.: eu havia uma morada,
depois eu tinha uma morada); verbos-suporte (p. ex.: haver vergonha, haver medo, depois ter vergonha,
ter medo); verbos auxiliares formadores dos tempos compostos (ter suplantando haver no correr da histó
-ria); verbos funcionais, que expressam a existência, preferencialmente haver, mas ter abrindo seu espaço no século XVI.
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