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Saúde mental e trabalho : reconstrução de identidade e emancipação social = Mental health and work: reconstrução de identidade e emancipação social

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

CAMILA MARIA DE ALMEIDA LIMA

SAÚDE MENTAL E TRABALHO:

RECONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE E EMANCIPAÇÃO SOCIAL

MENTAL HEALTH AND WORK:

IDENTITY RECONSTRUCTION AND SOCIAL EMANCIPATION

CAMPINAS 2019

(2)

SAÚDE MENTAL E TRABALHO:

RECONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE E EMANCIPAÇÃO SOCIAL

Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestra em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde, na área de Política, Gestão e Planejamento

Orientadora: PROFA. DRA. LUCIANA TOGNI DE LIMA E SILVA SURJUS

CAMPINAS 2019

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Universidade Estadual de Campinas Biblioteca da Faculdade de Ciências Médicas

Maristella Soares dos Santos - CRB 8/8402

Lima, Camila Maria de Almeida,

L628s LimSaúde mental e trabalho : reconstrução de identidade e emancipação social / Camila Maria de Almeida Lima. – Campinas, SP : [s.n.], 2019.

LimOrientador: Luciana Togni de Lima e Silva Surjus.

LimDissertação (mestrado profissional) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ciências Médicas.

Lim1. Saúde mental. 2. Trabalho. 3. Economia solidária. 4. Programas de sustentação de renda. 5. Inclusão social. I. Surjus, Luciana Togni de Lima e Silva, 1977-. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Ciências Médicas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Mental health and work : identity reconstruction and social emancipacion

Palavras-chave em inglês: Mental Health

Work

Solidarity Economy

Income maintenance programs Social inclusion

Área de concentração: Política, Gestão e Planejamento

Titulação: Mestra em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde Banca examinadora:

Luciana Togni de Lima e Silva Surjus [Orientador] Bruno Ferrari Emerich

Fernando Sfair Kinker

Data de defesa: 27-02-2019

Programa de Pós-Graduação: Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde

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CAMILA MARIA DE ALMEIDA LIMA

ORIENTADORA: Profa. Dra. Luciana Togni de Lima e Silva Surjus

MEMBROS:

1. PROFA. DRA. LUCIANA TOGNI DE LIMA E SILVA SURJUS

2. PROF. DR. BRUNO FERRARI EMERICH

3. PROF. DR. FERNANDO SFAIR KINKER

Programa de Pós-Graduação em SAÚDE COLETIVA: POLÍTICAS E GESTÃO EM SAÚDE da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.

A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na Secretaria do Programa da FCM.

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Aos meus pais, Ana Lucia e Osmar, por sempre estarem ao meu lado com o apoio para a vida e para a carreira profissional, sendo sempre meu porto seguro de afeto inquestionável e incondicional.

À minha irmã Catia, sem ela eu não teria conseguido ir tão longe! Com seu apoio de irmã mais velha e de estudiosa exemplar que sempre foi, com certeza me inspirou e mostrou desde a escolha pela graduação que os caminhos da universidade pública eram possíveis, bem como da pós-graduação. Foi minha “professora” exigente e com broncas necessárias desde a infância e hoje me salva e apoia para que eu avance.

Ao Lucas, pela persistência nesses tempos de distância, sei que insistimos juntos nos quilômetros que unem nossa história. Agradeço pela compreensão e pela ajuda com algumas importantes contribuições de seu conhecimento durante a realização desse Mestrado.

Ao Marco, meu cunhado-irmão, seu papel foi fundamental, que junto de minha irmã, sempre me incentivou a ingressar no Mestrado, depositando em mim muita confiança. Agradeço também pela amizade em todos os momentos de diversão e risadas, e aos ensinamentos que gosta de compartilhar e muito contribuem para minha formação crítica.

Aos amigos e parceiros de meu percurso de trabalho: Lívia, Eline, Telma, Fernanda e Fernando, obrigada pela compreensão no tempo que trabalhamos juntos para que eu pudesse cursar o Mestrado e pelas valiosas oportunidades profissionais que me proporcionaram, sou muito grata. Construímos amizades especiais com muito carinho.

Agradeço à Eline que desde o primeiro dia que ingressei na Prefeitura de Sorocaba foi minha parceira de tantas experiências, enfrentando os desafios da Saúde Mental quando nos inserimos na Atenção Básica. Desbravamos caminhos para construir outra lógica de cuidado na árdua tarefa de mostrar a importância do apoio matricial, nem que para isso tivéssemos que explicar quantas vezes fossem necessárias, os objetivos da Reforma Psiquiátrica.

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Patrícia, Carol e Fernanda, vocês tornam meus dias com muito sentido. O trabalho e a competência empenhados em tudo que fazem são admiráveis. Sou realizada por fazer parte dessa equipe. Agradeço pela compreensão que tiveram com as horas necessárias ao meu Mestrado, por valorizarem minha formação. Gratidão pela oportunidade de aprendizados profissionais, amizade e afeto.

Especialmente ao Odair, figura a quem tenho grande admiração por seu profissionalismo, ética e integridade ímpares, agradeço pelo apoio desde a seleção para o Mestrado, para que eu conseguisse junto à Prefeitura Municipal de Sorocaba conciliar as atividades acadêmicas. Também agradeço por ouvir suas histórias de vida, de superação e empenho; elas tiveram contribuição para meu crescimento.

Aos usuários do Sistema Único de Saúde com os quais tive contato ao longo de meus percursos, por me ensinarem muitas coisas sobre a vida...

Agradeço pelas discussões e pelo grupo de estudos preliminares à produção de dados desta pesquisa, junto aos profissionais Celso Ricardo, Felipe Teixeira e Professora Dra. Ana Aranha, que contribuíram quanto ao tema da Economia Solidária.

Agradeço a toda equipe do “Ponto Benedito” pela abertura à participação na pesquisa e pelo acolhimento de minha proposta. Todos colaboraram muito para que as etapas se efetivassem com sucesso.

Aos psicólogos Diego e Adriano, pela grande ajuda na condução do Grupo Focal, nas funções de observador e relator.

À minha orientadora, Professora Dra. Luciana Togni de Lima e Silva Surjus, pelos valiosos ensinamentos na construção dessa pesquisa. Seu conhecimento em Saúde Mental é extraordinário e contribuiu imensamente para meu avanço formativo. Agradeço também pela forma afetuosa e a delicadeza com que me orientou, respeitando minhas tradições.

Aos Professores Dr. Bruno Ferrari Emerich e Dra. Simone Ramalho pelas preciosas contribuições e discussões no exame de qualificação, que puderam nortear a condução da pesquisa. Também à Professora Dra. Daniele Sacardo, pela

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qualificação e defesa.

Aos Professores Dr. Bruno Ferrari Emerich e Dr. Fernando Sfair Kinker, por comporem a banca de defesa dessa dissertação de Mestrado Profissional, contribuindo para a lapidação dessa pesquisa.

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Que as nuvens não eram de algodão Um dia me disseram Que os ventos às vezes erram a direção E tudo ficou tão claro Um intervalo na escuridão Uma estrela de brilho raro Um disparo para um coração A vida imita o vídeo Garotos inventam um novo inglês Vivendo num país sedento Um momento de embriaguez, nós Um dia me disseram Quem eram os donos da situação Sem querer eles me deram As chaves que abrem esta prisão E tudo ficou tão claro O que era raro ficou comum Como um dia depois do outro Como um dia, um dia comum A vida imita o vídeo Garotos inventam um novo inglês Vivendo num país sedento Um momento de embriaguez, nós Um dia me disseram Que as nuvens não eram de algodão Um dia me disseram Que os ventos às vezes erram a direção Quem ocupa o trono tem culpa Quem oculta o crime também Quem duvida da vida tem culpa Quem evita a dúvida também tem, também tem Somos quem podemos ser Sonhos que podemos ter” (Somos quem podemos ser. Canção de Engenheiros do Hawaii).

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Lima CMA. Saúde mental e trabalho: reconstrução de identidade e emancipação social. 210 p. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Políticas e Gestão em Saúde da Universidade de Campinas – UNICAMP. Campinas/SP; 2019.

Este estudo tem como objetos de interesse os sentidos e os significados do trabalho para a constituição da identidade dos sujeitos, dentre aqueles que vivenciaram a invalidação social devido às condições de transtornos mentais e/ou deficiência intelectual. Partindo da hipótese que as atividades de trabalho impactam na construção da identidade, na promoção e produção de saúde mental, a presente pesquisa se propõe a compreender, a partir do ponto de vista dos participantes, de que modo a inserção em projeto de geração de trabalho e renda incide no histórico de vida das pessoas com transtornos mentais e/ou deficiência intelectual, tanto no sentido simbólico quanto da contratualidade social. Trata-se de um estudo qualitativo, hermenêutico-narrativo com a produção de dados baseada em diálogos de grupo focal constituído por trabalhadores de um empreendimento econômico solidário, abarcando também uma caracterização do modo de organização do trabalho nesta perspectiva. Os resultados demonstram que os participantes da pesquisa têm se percebido nos papeis de trabalhadores e cidadãos mais autônomos e que o trabalho possibilita trocas materiais e imateriais, fortalecendo a contratualidade e o resgate do laço social. Conclui-se que o acesso ao trabalho permite a validação social e o encontro de sentidos e significados nas funções laborais, as quais têm efeito na forma como os indivíduos se sentem e se percebem, assim como no reconhecimento da sociedade sobre eles. Certamente, tais fatores influenciam na reconstrução de identidades, diminuindo o estigma da identificação como doentes.

Palavras-chave: Saúde Mental, Trabalho, Economia Solidária, Geração de Renda, Inserção Social.

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Lima CMA. Mental health and work: identity reconstruction and social emancipation. 210 p. Professional Master's in Collective Health: Policies and management in health. University of Campinas – UNICAMP. Campinas/SP, Brazil; 2019.

This study has as interest objects the senses and the meanings of work for the subjects‟ identity constitution, among those who experienced social invalidation due to mental disorders and/or intellectual disability conditions. Stating from the hypothesis that work activities impact on identity construction, mental health promotion and production, the present research proposes to understand, by the participants‟ point of view, how insertion in work and income generation project affects people life history with mental disorders and/or intellectual disability, both in symbolic sense and social contractuality. It is a qualitative, hermeneutic-narrative study with data production based on dialogues of focal group constituted by workers of a solidarity economic enterprise, also encompassing a work organizing characterization in this perspective. The results demonstrate that the research participants have been perceived themselves as more autonomous workers and citizens, developing material and immaterial exchanges, increasing contractuality and social bond rescue. It concludes that access to work allows social validation, discovery in laborative functions senses and meanings, which have effect on the way how individuals feel and perceive themselves, as well as on the society recognition about them. Certainly, such factors influence on identities reconstruction, reducing the stigma of identification as patients.

Keywords: Mental Health, Work, Solidarity Economy, Income Generation, Social Insertion.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Compreensão da metodologia de pesquisa através do círculo hermenêutico...

36

Figura 2 - Representação esquemática do processo da revisão integrativa de literatura... 49

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1 Introdução... 14

1.1 O sentido imaterial do trabalho e sua representação simbólica: contribuições da tradição da Sociologia e da Psicossociologia do trabalho... 17

1.2 Trabalho e Saúde Mental: uma tradição analisada no âmbito da Reforma Psiquiátrica... 21 1.3 Economia Solidária – uma tradição de interface para caminhos possíveis... 27

1.4 Objetivos da pesquisa... 32

2 Metodologia... 33

2.1 Método... 33

2.2 A pesquisadora e seus pontos de partida... 36

2.3 Notas sobre a questão da identidade... 42

2.3.1 Relação ente trabalho e identidade... 46

2.4 Revisão de literatura: sistematizando as produções científicas e produzindo um primeiro diálogo com o campo... 47

2.5 Identificando eixos para análise e esboçando um roteiro para aproximação com o campo... 51

2.6 Campo da pesquisa... 54

2.6.1 Caracterizando o campo pesquisado... 55

2.7 Técnicas de produção de dados... 58

2.8 Método de análise... 62

3 Resultados... 64

3.1 Contato e pactuação com o campo e com os sujeitos... 64

3.2 Realização do grupo focal com trabalhadores do empreendimento de geração de renda e Economia Solidária... 66

3.3 A construção narrativa... 68

(13)

4 Discussão... 88

4.1 Eixo 1: “Histórias de vida e percepções sobre si”... 88

4.2 Eixo 2: “Percurso de cuidado em Saúde Mental”... 89

4.3 Eixo 3: “Experiências de trabalhos anteriores”... 93

4.4 Eixo 4: “Renda e trocas materiais no mercado formal”... 97

4.5 Eixo 5: “Experiências na Economia Solidária e Geração de Renda”... 98

4.6 Eixo 6: “Renda e trocas materiais possibilitadas pelo empreendimento econômico solidário”... 102

4.7 Eixo 7: “Percepções de si a partir da experiência atual de trabalho”... 103

4.8 Eixo 8: “Valor social do trabalho econômico solidário”... 105

4.9 Eixo 9: “Perspectivas e desejos”... 106

5 Considerações Finais... 107

REFERÊNCIAS... 112

ANEXO I: Roteiro para o Grupo Focal... 121

ANEXO II: Roteiro de caracterização aplicado ao empreendimento econômico-solidário... 123

ANEXO III: Transcrição das falas do Grupo Focal... 124

ANEXO IV: Parecer consubstanciado do CEP (inicial)... 161

ANEXO V: Parecer consubstanciado do CEP (final)... 176

ANEXO VI: A) TCLE aos trabalhadores dos empreendimentos... B) TCLE aos responsáveis pelos empreendimentos... 199 204 ANEXO VII: Autorização para coleta de dados... 210

(14)

1. Introdução

A questão da autonomia e emancipação social tem centralidade quando o debate é em torno da inclusão de pessoas em desvantagem social devido ao estigma a que estão sujeitas principalmente aquelas em condições de sofrimento psíquico e deficiência intelectual. Neste estudo mantiveram-se, além das pessoas com transtornos mentais, aquelas com deficiência intelectual, entendendo que muitas das questões são comuns à invalidação social de ambas as populações que seguem sendo as mais institucionalizadas e as menos incluídas no trabalho formal. (1, 2). Para isso, é preciso trazer à luz desdobramentos que relacionam saúde mental e formas de (re)inserção social, considerando-se desde seus aspectos concretos no âmbito das trocas econômicas até o caráter simbólico dessa atividade como meio de constituição da identidade do sujeito.

Ao se analisar a atividade laboral sob a óptica econômica, tem-se o meio pelo qual os indivíduos garantem sua sobrevivência numa sociedade capitalista, ampliando autonomia na medida em que efetivam trocas materiais. Já do ponto de vista subjetivo, entende-se que o trabalho pode funcionar como um constituinte no processo de construção da personalidade e o desenvolvimento dessa atividade sendo um favorecedor do laço social, gerando o sentimento de pertença na civilização, conforme destacado por Freud (3).

Quando se fala em (re)inserção social, aborda-se a possibilidade de uma nova inserção diferenciada ao considerar que as pessoas com transtorno mental ou deficiência intelectual, as quais são aqui referidas, em uma análise mais crítica, não necessariamente estiveram excluídas da máquina social. Para tanto, adota-se na presente dissertação o termo “invalidação” social ao invés de “exclusão” social (mais utilizado comumente) uma vez que se entende que exista, sim, um lugar bem delimitado para essas pessoas dentro da máquina social capitalista. Há uma posição reservada para ocuparem que, com ela, desdobram-se outras posições; por exemplo: com o lugar da doença mental, fortalecem-se os lugares da Psiquiatria, da indústria farmacêutica, e por aí se segue. Para Castel (4), a associação entre trabalho e inserção relacional é uma forma que pode levar à inscrição dos sujeitos na estrutura social. Ao não encontrar a pertença na comunidade e um lugar estável no mundo do trabalho, os indivíduos não encontram um lugar designado e se mantém numa flutuação na estrutura social. Aquiesce-se com o autor em sua

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reflexão, o fato das pessoas que sofrem com a desfiliação, ao não ter um lugar social reconhecido, estão sujeitas à invalidação social e a sociedade determina seu lugar. Compreende-se que a flutuação é uma situação diferente da exclusão.

Basaglia (5) fundamenta que em nossa sociedade, o desviante torna-se um problema real ao rejeitar os valores de produção e consumo do capital. O problema do desviante é tornado então em um problema científico, que irá requerer adequadas técnicas e ideologias próprias para resolvê-lo. Assim, na lógica do capital, o desviante como uma face perdedora é transformado em uma face da vitória do capitalismo, ao ser assumido como um problema técnico para o qual as mais apropriadas soluções técnicas estão prontas.

[...] o negro, o doente mental, o desviante, o pobre – faces diferentes do mesmo problema – por meio das ideologias que foram elaboradas, são agora reconhecidos também pela nova sociologia como “parte integrante” do sistema social. Mas não se trata da conquista de uma participação ativa no sistema social. Em vez disto, eles se tornam instrumentos úteis a toda a sociedade [...] reduzida como está a uma dimensão homogênea totalmente controlada por um centro de poder cada vez mais restrito (5, p. 169).

Através da análise da história da loucura, não fica difícil assimilar que a loucura teve diferentes compreensões ao longo dos tempos. Entender o processo de banimento requer uma arqueologia da alienação. A concepção e atitudes da sociedade frente à loucura, historicamente, apoiaram-se em fundamentos (mesclados ou sequenciados a depender da época) como julgamento moral, ético, mercantil e científico. A consciência que segrega, condena ou desaparece com o louco, está em fusão com certas concepções jurídicas, econômicas e políticas do indivíduo na sociedade (6).

Bauman (7) discorre que existe uma criação e anulação dos estranhos, que cada sociedade constrói seus estranhos:

[...] enquanto os estranhos modernos tinham a marca do gado da aniquilação [...], os pós-modernos [...] são úteis precisamente em sua qualidade de estranhos: sua estranheza deve ser protegida e cuidadosamente preservada (7, p. 43).

Quando se propõe a ideia da “invalidação social”, entende-se que há um desvalor e uma não validação enquanto membro legítimo da sociedade; no entanto, há a invalidação que o mantém aqui com a qualidade de estranho.

(16)

A pertinência dessa discussão para a área da Saúde Coletiva é poder refletir ativamente sobre propostas que sejam relevantes para a atenção em Saúde Mental, compreendendo a fertilidade do campo intersetorial1 para se recriar as formas de cuidados para além da óptica psicologizante, psiquiatrizante e do assistencialismo tutelar. Destarte, quando se pensa o processo de Reforma Psiquiátrica, deve-se considerar a relevância do direito ao trabalho como um dos direitos sociais fundamentais.

Refletindo sobre a capacidade e as intervenções dos sujeitos sobre si mesmo e sobre o meio em que vivem, tanto quanto as influências e ações deste meio sobre os sujeitos tem-se uma coprodução do contexto social. Ressalta-se, nesse sentido, a teoria Paidéia em sua argumentação de que os sujeitos necessitam atuar sobre o mundo com capacidade de análise. Para Campos (8, p.34), “trata-se de inventar modos de cogestão do ato e do processo clínico e sanitário em geral”. Contribuindo com essa questão, Figueiredo e Furlan (9) destacam a concepção de saúde relacionada à potência dos sujeitos para inventar estratégias de sobrevivência frente às condições de sua realidade.

Diante de muitos desafios no contexto social dos dias de hoje, fala-se de uma sociedade formada culturalmente pela díade produção e consumo. Na cultura capitalista contemporânea, elementos contraditórios (submissão/subordinação, iniciativa/criação, desfrute do desejo) são entrelaçados no processo de constituição dos sujeitos. Há uma dominante expectativa social por Sujeitos da Disciplina e do Trabalho quais possam internalizar o controle e as regras, mas que também contenham elementos de Sujeito Hedonista qual almeja o consumo de objetos de prazer para que seu trabalho seja fundamentado nessa busca. Por este ponto de vista, tal busca deve ser, acima de tudo, insaciável a fim de poder manter seus esforços de mão de obra sempre ativos e em constante movimento para se alcançar, desde que dentro dos padrões sociais do desejo e do consumo, as “recompensas” nos prazeres. Além disso tudo, há ainda mais uma expectativa social, a pelo Sujeito Empreendedor de si mesmo, o selfmademan, pautado na meritocracia e em um “darwinismo social”, levando à esperança de um sucesso profissional quase independente das problemáticas do sistema, das leis e das

1

A intersetorialidade foi tema da IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial, a última ocorrida no Brasil, em 2010, incluindo a articulação com estratégias de geração de emprego e renda (30).

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exclusões sociais para os quais as deficiências do mercado formal não seriam limites. Estes três modos de conformação dos sujeitos certamente reforçam a lógica de mercado e da sociedade em função das elites meritocráticas (10).

Ao pensar, mais especificamente, nas pessoas em situação de marginalização ou invalidação social (termo adotado nesta dissertação) devido ao estigma quanto aos transtornos mentais ou deficiência intelectual, tem-se a priori um posicionamento de que não se enquadram “satisfatoriamente” na expectativa social sobre os modos de conformação explanados por Campos (10). Apesar de ser parte da mesma sociedade e, por isso, constituídos por influências de cada modo de conformação (sujeitos da disciplina, hedonista e empreendedor), em sua maioria não encontram oportunidades concretas de fazerem parte da lógica do mercado, já que não são aceitos pelos meios formais de produção. Dentre diversos motivos, encaixa-se aqui o estigma da loucura enquanto indisciplina e fuga das regras e padrões normativos de funcionamento mental, pois mesmo nos contextos de disponibilidade de vagas de trabalho2 são restringidos nos seus desejos e, em parte, concretamente impedidos de participar de relações de trocas por não possuírem renda própria, bem como sofrem com o não reconhecimento como sujeitos produtivos e criativos.

Tecendo aproximação sobre a temática do trabalho e sua interface com o campo da Saúde Mental, será apresentado a seguir o que se propõe como as principais tradições nas produções sobre o tema, que podem contribuir para a compreensão histórica do que se vivencia e impulsionar a avançar frente aos desafios encontrados.

1.1 O sentido imaterial do trabalho e sua representação simbólica: contribuições da tradição da Sociologia e da Psicossociologia do trabalho

Existem diversos autores que discutem o papel do trabalho na sociedade contemporânea. Pretende-se utilizar aqui alguns deles para sustentar o posicionamento da presente dissertação e argumentar no sentido de conferir a validade teórica que uma tarefa acadêmica necessita ao se debruçar sobre a temática do trabalho.

2

Mesmo via Lei de Cotas, que ainda não consegue ser cumprida integralmente pelas empresas, ficando vagas em aberto. Maior aprofundamento sobre esse debate pode ser encontrado em Surjus (2) e Clemente e Shimono (11).

(18)

Dessa forma, Antunes (12) discute sobre a centralidade do mundo do trabalho na sociedade e o papel atribuído a essa atividade. Esse autor afirma que não é possível se pensar na sociedade atual sem o trabalho, expandido sua definição para uma atividade muito maior do que a simples execução de um ofício. O trabalho foi criado pelo homem e para o homem, foi essa atividade que possibilitou à humanidade o domínio sobre a natureza. O que se vê atualmente é uma transformação da forma que o mesmo é pensado e realizado. De forma geral, o trabalho se configura como um organizador tempo-espacial da rotina de vida, ou seja: mora-se perto ou longe do trabalho, dedica-se tempo à família antes ou depois do horário de trabalho, ou em época de férias, viaja-se a trabalho ou a lazer em decorrência do trabalho, dentre vários outros exemplos simples do cotidiano.

Antunes (12) contesta a óptica de alguns autores defensores do fim da centralidade do trabalho no contemporâneo capitalista, que se recusam a reconhecer na classe trabalhadora e no trabalho elementos positivos quanto a um sentido ativo e transformador que podem exercer. Posiciona-se que existam grandes limitações de alguns estudos que concebem o trabalho apenas sob um viés negativo, polarizado, quando desconsideram as dimensões que este apresenta no mundo do capital, restando apenas uma visão idealizada e romântica onde só seria possível vivenciar um sentido de vida fora do trabalho, no tempo livre, enquanto no tempo de trabalho pareceria nunca ser possível encontrar sentido para vida. Diversos argumentos defendem que se teria chegado à perda da centralidade da categoria trabalho devido às tendências de maior intelectualização do trabalho fabril, incrementação do trabalho qualificado ou mesmo de desqualificação e de subproletarização. Antunes (12) discorda e considera que tais argumentos não permitem concluir que se tratando do contexto de uma sociedade produtora de mercadorias esses seriam fatores que levariam o trabalho à perda da centralidade (ANTUNES, 12).

Antunes (12) reafirma o já exposto por Kurz (13), que mesmo com as diferentes formas da vida social ao longo da história, até hoje esta só poderia incluir o trabalho. Também que seria uma ingenuidade, uma ideia de paraíso, fantasiar uma sociedade em que não houvesse o trabalho. O autor resgata em Lukács e Marx o papel do trabalho na sociabilidade humana e apoia-se na defesa de seus pressupostos de que o trabalho é o intercâmbio entre homem e natureza, sendo um

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componente que torna possível a transformação do homem em um ser social, não meramente biológico.

Ao se adotar essa perspectiva para analisar o conceito de trabalho, pode-se expandir os diálogos para autores que estabelecem a relação entre o trabalho e a identidade. Enriquez (14) afirma que o trabalho passou a ser tão valorizado na sociedade que o simples fato de perdê-lo pode levar o sujeito a deixar para trás parte daquilo que o constitui como indivíduo, que o identifica socialmente. Como exemplo: “fulano de tal é aquele que trabalha na empresa X”, ou o ditado “quem não trabalha é um parasita da sociedade”. Esses tipos de construções fazem com que o sujeito ao perder esse trabalho perca também parte de sua identidade. Ao passar por isso, terá suscitado a emergência de grande volume de sofrimento, aspecto que pode levar tal sujeito a uma longa lista de consequências como isolamento social, adoecimento, etc.

Utiliza-se como fundamento a reflexão sobre o trabalho possuir importante significado para a estruturação social do homem em seu tempo; porém, não se podem menosprezar todas as problematizações necessárias quanto aos efeitos degradantes que o trabalho possa gerar e aos impactos nas/das relações de classe (em conceito marxista) que se atrelam e cristalizam por meio dele como segregações, exploração e sofrimento. Neste ponto, toda essa defesa não é ingênua quanto aos complexos aspectos negativos do trabalho e concorda-se com Antunes (12) quando não se deixa um entendimento equívoco de que suas teses estariam vangloriando o trabalho como centro totalizante:

É importante reafirmar que o trabalho, entendido como protoforma da atividade humana, não poderá jamais ser confundido como o momento único ou totalizante; ao contrário, o que aqui estamos procurando reter é que a esfera do trabalho concreto é ponto de partida sob o qual se poderá instaurar uma nova sociedade. O momento da omnilateralidade humana (que tem como formas mais elevadas a arte, a ética, a filosofia, a ciência etc.) transcende evidentemente em muito a esfera do trabalho (a realização das necessidades), mas deve encontrar neste plano a sua base de sustentação (12, p. 91-92).

A discussão entre tempo livre e tempo de trabalho é entendida na linha de pesquisa seguida como uma divisão que não tem um dos eixos maximizados como o mais positivo, mas sim, a inter-relação entre os dois de uma forma que possam ser integralizantes ao sentido de vida. Se for encontrado um sentido no trabalho, assim

(20)

como nas outras esferas sociais como na arte além das várias possibilidades criadoras e de lazer do tempo livre incluindo o ócio, é aí onde o homem pode se humanizar e atingir sua emancipação enquanto ser social (15).

[...] o direito ao trabalho é uma reivindicação necessária não porque se preze e se cultue o trabalho assalariado, heterodeterminado, estranhado e fetichizado (que deve ser radicalmente eliminado com o fim do capital), mas porque estar fora do trabalho, no universo do capitalismo vigente, particularmente para a massa de trabalhadores e trabalhadoras (que totalizam mais de dois terços da humanidade) que vivem no chamado Terceiro Mundo, desprovidos completamente de instrumentos verdadeiros de seguridade social, significa uma desefetivação, desrealização e brutalização ainda maiores do que aquelas já vivenciadas pela classe-que-vive-do-trabalho (15, p. 175-176, grifos do autor).

Tal linha de raciocínio é fundamental para marcar a importância do trabalho na vida humana quando incorporada a uma diversidade de outras dimensões produtoras e vida e de emancipação.

Enriquez (16) questiona se o trabalho é a essência do homem. Sua resposta é “não”, ainda que em tempos modernos tenha se tornado talvez um de seus mais importantes atributos. Ele elenca vários outros atributos que constituem também a existência da vida humana, como a linguagem, a amizade, o amor, o ócio, o lazer, a dedicação ao bem público, os mitos, as religiões, as ideologias, o brincar, a festa, a dilapidação, a guerra, etc. Resgatam-se na história as diferentes visões atribuídas ao trabalho, o qual em muitas épocas foi desvalorizado, citando a elevação do lúdico e do tempo livre bem como do ócio que pode ser encontrada na literatura de Rousseau, Nietzsche e Thoreau. Estes pensadores vangloriavam em seus escritos as horas de passeio e de caminhada na natureza ao ar livre como os momentos que verdadeiramente dariam sentido à existência. Com a conclusão de que o trabalho não é o essencial da vida, mas diante do realismo dos papéis que este ocupa e é vivenciado atualmente, Enriquez (16, p. 173) descreve condições para um trabalho criativo e não alienado, sem grandes ilusões como destaca, mas ciente de que “as sociedades que não sonham são sociedades que morrem”.

Compreende-se que encontrar condições é sempre uma sobrevivência psíquica e social (e até mesmo física – pensando nos direitos trabalhistas que tangem às lesões corporais e o adoecimento) frente à degradação real que o trabalho possa acarretar. É uma conciliação de desejos e potências do ser humano

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com as situações ofertadas pelo mundo pós-moderno à prática dos trabalhadores, é a modulação da vida do trabalho real com as expectativas profissionais e com a vida do lazer, do afeto (afeto não somente descolado do trabalho, mas em suas várias possibilidades) e outras vivências necessárias. Por esse entendimento, mais uma vez, lembra-se que o objetivo deste estudo é identificar o sentido do trabalho na vida humana, sem desconsiderar as problematizações de seus efeitos negativos, embora não seja aprofundada a discussão desta última vertente no propósito desta dissertação.

1.2 Trabalho e Saúde Mental: uma tradição analisada no âmbito da Reforma Psiquiátrica

Para Yasui e Santiago (17), conforme concebida por Foucault, a loucura como doença mental teria sido de responsabilidade do capitalismo, e não da psiquiatria. No capitalismo, ao não se ajustar dentro da ordem social vigente, não possuindo assim valor para o mundo do trabalho, o “louco” é considerado inadequado, anormal e patológico. Na história das instituições, a concepção do trabalho como ocupação do tempo possui resquícios antes mesmo da psiquiatria como condenação do ócio para o controle da desordem social. Posteriormente, a prescrição médica propõe o trabalho como prática curativa, associada aos manicômios; com o nascimento da Psiquiatria, Pinel utiliza o trabalho como recurso terapêutico no tratamento moral quando posiciona a loucura como patologia no contexto da lógica do desvio moral do século XVIII e início de século XIX, exercendo dessa maneira uma função coercitiva e disciplinar.

Durante a Segunda Guerra Mundial, na França, muitos questionamentos foram gerados e o trabalho como fator de tratamento fora repensado. À vista disso, forjou-se um contexto de ampliação das altas hospitalares já que muitos egressos, para sobreviverem aos ataques inimigos e à crise econômica, retornaram para a comunidade e foram integrados ao trabalho em fazendas de suas regiões. Mais tarde, reflexões proeminentes dessa época endossaram a proposta da Psiquiatria Social e de Setor, bem como a Psicoterapia Institucional de La Borde, entre as décadas de 1960 e 1980, com os protagonistas da Reforma francesa, destacando-se Bonnafé, Tosquelles, Le Guillant, Sivadon, Oury e Guattari. Estes pesquisadores

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são referências que incorporaram o trabalho às práticas clínicas, expandindo-o como cuidado além da cura, também como profilaxia e promoção de saúde (18).

A partir da década de 1970, no bojo do processo de desconstrução do modelo assistencial hospitalocêntrico, inicia-se a descentralização progressiva do hospital psiquiátrico pelas redes de atenção integral e territorial em Saúde Mental. Com isso, passam a surgir novas ferramentas de tratamento e ações, dentre quais as oficinas terapêuticas e as cooperativas de geração de renda ou cooperativas sociais. Importante marcar que nessa época, somente o modelo da Reforma italiana propôs a substituição de fato do hospital por outros equipamentos, enquanto outros modelos previram apenas a sua descentralização. A entrada de cooperativas na cena da Saúde Mental ocorre somente a partir da radicalidade da óptica desse modelo (19, 20).

As oficinas terapêuticas surgem, então, com uma variedade de objetivos e atividades, algumas delas voltadas à geração de renda, valorizando os efeitos do trabalho como uma tímida inclusão social, porém ainda restritas à terapia. A crítica a esse formato é de que a atividade apenas pela técnica e pela ocupação, não enfatizando as relações e necessidades do homem em seus territórios de existência, pode reproduzir a invalidação e a anulação dos sujeitos nos moldes da psiquiatria tradicional quando o procedimento terapêutico é normalizador e encarado apenas como a supressão de sintomas clínicos. A lógica da atividade como “entretenimento”, base encontrada em muitas oficinas de geração de renda, também é cerne de questionamentos (21). Da etimologia do termo “entreter”, vem o sentido de “ter dentro”. Segundo Saraceno (22, p. 16-17), “entretido, no sentido de posto dentro de um sistema de tratamentos [...], de falta de previsões, de ausência de avaliações, à espera de [...]”. Assim, as cooperativas foram iniciativas, ao menos em suas propostas prévias, diferenciando-se das oficinas na medida em que consideravam a participação das pessoas enquanto trabalhadoras e não pacientes, bem como a atividade enquanto trabalho real e não como terapia. Nessa vertente, a finalidade deixa de ser “terapêutica”, passando a almejar a ruptura da exclusão promovida pela loucura, oferecendo desse modo condições sociais e subjetivas para as pessoas em desvantagem na comunidade.

Destaca-se, nesse contexto, o movimento fundamental da Psiquiatria Democrática Italiana, confrontando com o modelo francês já citado e com o modelo

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inglês das comunidades terapêuticas3, embora mantendo alguns de seus princípios como a territorialidade e a democratização entre os atores institucionais. A grande diferença conceitual do movimento italiano foi o abandono do papel da Ergoterapia e a consideração do trabalho como emancipação, qual é por si terapêutica. Essa distinção é uma das essências do paradigma ético-político da desinstitucionalização.

Segundo Rotelli, Leonardis e Mauri (23), desinstitucionalização vai muito além de desospitalização, sendo o processo crítico-prático de transcendência dos saberes. Esta rompe com o paradigma sociocultural de que Saúde Mental se resume apenas à “cura”, reconstruindo a complexidade do objeto (sujeito) e enfatizando a “reprodução social do paciente”. Tem como objetivo prioritário transformar as relações de poder entre instituição e sujeitos. Logo, seu primeiro passo é o desmonte da relação problema-solução (qual no caso da Psiquiatria seria o restabelecimento pleno da “normalidade”), porém sem significar renúncia ao tratar, ao cuidar. Os esforços passam então a ser pela garantia dos direitos de cidadania, da produção de vida, de sentido, de sociabilidade e utilização dos espaços coletivos para convivência. Um ponto crucial de negação à visão tutelar foi entender que o trabalho só é terapêutico se for o reconhecimento de um direito e não uma técnica de tratamento.

A partir dessas mudanças estruturais, percebe-se o surgimento da reabilitação psicossocial preenchendo o centro condutor das formas de cuidado. Para Pitta (24), as partes mais sadias e as potencialidades dos indivíduos são enfatizadas a partir de um conjunto de iniciativas que buscam reduzir o poder cronificador e desabilitante dos tratamentos tradicionais. A reabilitação psicossocial requereria, portanto, uma mudança radical de toda a política de serviços de saúde. Seria um processo de reconstrução e contratualidade em três cenários de destaque: habitat, rede social e trabalho com valor social (22).

Corroborando com o entendimento do processo de reabilitação psicossocial, Costa-Rosa (25) distingue “modo psicossocial” de “modo asilar”, elucidando o debate sobre o objetivo das práticas de saúde coletiva. No “modo

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Tal perspectiva destoa em absoluto das atuais comunidades terapêuticas brasileiras, que se vinculam a um viés caritário e religioso e ao desenho das instituições totais. As comunidades terapêuticas inglesas surgem no contexto de reformulação dos hospícios, transformando as relações de poder estabelecidas por profissionais e internos, e a utilização dos espaços. A contextualização sobre as comunidades terapêuticas e a psiquiatria da Grã-Bretanha nos primeiros movimentos da Reforma Psiquiátrica pode ser encontrada em Desviat (20).

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psicossocial”, a supressão dos sintomas pode ser alcançada, contudo não é visada diretamente e nem tampouco é a meta final. Nesse modo, o que se almeja pode ser descrito, para este autor, como um “reposicionamento subjetivo”. Já na concepção do “modo asilar”, reproduz-se relações intersubjetivas verticalizadas, típicas do modelo capitalista de produção, em que a instituição de cuidado tende a funcionar com perfil de tutoria, agenciando suprimentos diante daquilo que é considerado “carência” de sua clientela. Na dimensão de ações da Saúde Coletiva, horizontalizar os micropoderes – dando ênfase à participação da população, à autogestão e à abertura para que decisões sejam tomadas pelo coletivo – produz na relação das instituições com os usuários espaços de interlocução, fomentando aí uma das bases para a singularização.

A respeito de quais formas a inclusão social pelo trabalho pode dialogar com a promoção de Saúde Mental, Costa-Rosa (25, p. 164) expõe que a “implicação subjetiva e sociocultural, e singularização são metas radicais quanto à ética das práticas no modo psicossocial, por oposição à adaptação que caracteriza a ética do modo asilar”.

A questão da adaptação pode ser relacionada, na presente pesquisa, aos meios formais de trabalho no mercado capitalista que seleciona sujeitos adaptados às exigências da produção. Transtornos mentais e deficiência intelectual são, na maior parte dos casos, vistos pelo mercado como condições que encobrem as capacidades produtivas dos sujeitos, deixando-os à margem de projetos de vida. Na tentativa de abranger essas situações e oferecer oportunidade para ativar recursos e potencialidades singulares em vez de habilidades padronizadas pela “adaptação”, projetos de geração de renda e Economia Solidária vêm representando uma via de acesso à atividade laboral e à consequente dignidade que o laço social restabelece, edificando-se na ética psicossocial em oposição à ética asilar.

Nesse sentido, Castel (26) problematiza a questão do laço social quando fala em um processo de desfiliação sofrido pelas populações em situação de vulnerabilidade, ou seja, uma ruptura de vínculo com o social. Assim sendo, essas populações não estão somente ameaçadas pela pauperização material, como também fragilizadas pela labilidade de seu tecido relacional, resultando no isolamento.

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Para Saraceno (22), a produção e a troca de mercadorias e valores é uma das formas de restituição da subjetividade do indivíduo e possibilitam a contratualidade social conferindo cidadania. Criticam-se os modelos de postos de trabalho salientando que o mercado protegido tem um efeito de “sentido” com relação à autoestima do indivíduo, devendo, entretanto, ser cautelosamente avaliado para que não se caia na inércia do assistencialismo.

Na essência dos coletivos de trabalho correlacionados à Assistência em Saúde Mental, de acordo com Andrade e Costa-Rosa (18), é perceptível a relevância precursora das cooperativas italianas, criadas em na cidade de Trieste (Itália). Estas também são referidas também por Nicácio (27), citando como exemplos a “Cooperativa Agrícola”, a “Cooperativa Lavoratori Uniti” e o bar “Il Posto delle Fragole”, projetos que despertaram o olhar para o sentido do trabalho e sua necessidade no processo de constituição de identidades na medida em que inserem as pessoas na economia e na sociedade.

No Brasil, o debate a respeito da importância do trabalho para as pessoas em sofrimento psíquico invalidadas socialmente passa a ter destaque a partir do final do século XX, no âmbito do processo de Reforma Psiquiátrica, sob o contexto da redemocratização do país. Nessa época, com a força dos movimentos sociais e a tentativa de construção de um Estado de Bem-Estar Social, pode-se inferir que é dado maior espaço para o Sujeito da Rebeldia, do Direito e da Solidariedade atuante contra o modo dominante de pensar e organizar a vida em dada sociedade, conforme Campos (10). Desse modo:

Parece, contudo, que o Espírito de Solidariedade e dos Direitos Humanos viceja mais pela existência de injustiças e contradições na maquinaria social do capitalismo – exclusão, concentração de poder e riqueza, abusos à ecologia e de toda ordem – do que pela solidez e objetividade de suas Utopias. Assim, em vários países organizaram-se partidos e movimentos de extração popular e com ideário de defesa da democracia e justiça social (10, sem páginas).

A II Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada em Brasília, em 1992, é resultado de um longo processo democrático e já indicava que a rede de atenção deve substituir o modelo hospitalocêntrico por uma rede de serviços, diversificada e qualificada, através de cooperativas de trabalho e outros serviços que tenham como princípio a integridade do cidadão, dentre tantas outras unidades de serviço em saúde). Advertia a necessidade de criar instrumentos que redirecionem

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os recursos destinados à rede manicomial hospitalar contratada ou conveniada em benefício da rede extra-hospitalar, entendida como ações programáticas de saúde mental na rede geral de saúde pública, com unidades cooperativas. Também enfatizava a criação de mecanismos de contratação, pelos órgãos públicos, de serviços de pessoas portadoras de transtornos mentais e de deficiências, preferencialmente através de cooperativas e associações (28).

Nas III e IV Conferências Nacionais de Saúde Mental, os debates assegurando o direito ao trabalho e sua importância nas políticas intersetoriais de Saúde Mental no Brasil tomam corpo no cenário das políticas públicas. Esta última, ocorrida em 2010, propõe mais claramente a questão uma vez que dentre suas deliberações estavam o desenvolvimento de cooperativas sociais e projetos de inclusão produtiva e estratégias para geração de renda através de articulação com programas de geração de emprego/renda, Economia Solidária, etc. Ainda, reafirmaram que, prioritariamente, os espaços de trabalho deveriam se efetivar em sedes próprias para que fossem distintos dos espaços de tratamento (29, 30).

A inclusão pelo trabalho de pessoas com transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas efetivou-se como política pública pela Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011(31). Hoje, encontra-se consolidada como Anexo V na Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017; em seu Artigo 12 dispõe: “O componente Reabilitação Psicossocial da Rede de Atenção Psicossocial é composto por iniciativas de geração de trabalho e renda, empreendimentos solidários e cooperativas sociais” (32).

Considerando mais amplamente o campo dos direitos das pessoas com deficiência, remete-se à Convenção Internacional sobre os direitos das pessoas com deficiência e seu protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007, que por meio do decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, ganha força de emenda constitucional no Brasil, com a Lei nº 13.146 de 2015, a qual institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) (33). O artigo 2º desta dispõe que:

Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua

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participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (33).

Nesse sentido, as experiências de geração de trabalho e renda podem exercer função significativa no processo de reabilitação psicossocial, com a desconstrução da lógica manicomial. A Reforma Psiquiátrica propõe a transformação das práticas de cuidado ligada à construção de uma rede complexa de aparatos para a produção de Saúde Mental. Frente a tais discussões, estas propostas podem ser entendidas como estratégias que desestigmatizam a loucura, valorizando as potencialidades dos sujeitos em detrimento do adoecimento, resgatando a autonomia e protagonismo, ressignificando suas identidades. Consequentemente, entende-se que tais projetos engendram intersetorialmente à rede de cuidados e, portanto, de saúde coletiva, já que: “[...] além de produzir saúde também caberia ao sistema de saúde contribuir para a ampliação do grau de autonomia das pessoas” (34, p. 669).

Ao longo da dissertação, as palavras “sentido” e “significado” são remetidas por se entender que são interdependentes. Ao se buscar as diferenças entre os conceitos de significado e de sentido, resulta-se que alguns autores, apesar de adotarem um termo em detrimento do outro, adotam as mesmas variáveis de estudo e que ambos os termos possuem em comum o fato de serem produzidos pelos sujeitos com base na realidade e suas experiências concretas. Há interdependência entre os dois conceitos. Contudo, “significado” seria construído coletivamente de acordo com o contexto social, histórico e econômico; já “sentido” pode se caracterizar como uma produção a nível pessoal pautada na apreensão individual dos significados nas vivências cotidianas (35).

1.3 Economia Solidária – uma tradição de interface para caminhos possíveis Pode-se pensar que sob um olhar do modo de conformação Sujeito da Rebeldia, do Direito e da Solidariedade, é possível endossar a luta por outras possibilidades de trabalho e pertencimento social e a Economia Solidária pode surgir como uma possibilidade. A Economia Solidária tem como proposta o funcionamento de empreendimentos para o desenvolvimento econômico pautado em valores de cidadania, cooperação, igualdade e democracia. É uma alternativa para todos aqueles que sofrem com os efeitos sociais da economia capitalista, na qual:

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[...] os ganhadores acumulam vantagens e os perdedores acumulam desvantagens nas competições futuras... Os últimos acumulam dívidas pelas quais devem pagar juros cada vez maiores, são despedidos ou ficam desempregados até que se tornam inempregáveis, o que significa que as derrotas os marcaram tanto que ninguém mais quer empregá-los (36, p. 08).

Uma crítica à qual se deve atenta é a importância do empreendedorismo econômico solidário enquanto meio alternativo de trabalho diante das perversidades excludentes do capitalismo. Contudo este não deve ser entendido como um risco de se abrir mão de conquistas trabalhistas mais justas (inclusive melhores debates sobre a Lei nº 8.213/91, que prevê cotas para contratação de pessoas com deficiência em empresas) e da inclusão no mercado formal com menos preconceito. Honneth (37) amplia o debate sobre o quanto alguns projetos foram utópicos ao romancear trabalhos envolvendo a arte como único meio de dar forma criativa à própria produção, enquanto trabalhos em fábricas estariam destituídos de iniciativa e impedidos de serem considerados experiências integralizantes. De certo, esta distinção não contribuiu para a melhoria das condições trabalhistas e lutas de trabalhadores.

Este tipo de “empreendedorismo” há que ser entendido de forma diferente do “empreendedor de si mesmo” (selfmademan) que visa à concorrência individualista e aos ganhos autocentrados. No ideal da Economia Solidária, as regras de um empreendimento são definidas a partir do coletivo dos participantes e a força de trabalho não é uma mercadoria. Ou seja, as pessoas produzem mercadorias, mas não são a mercadoria. Distingue-se do ideal do capitalismo em que a relação social é a venda da força de trabalho. Na lógica solidária, os objetivos sobrepõem-se à lucratividade; seu desafio é construir uma relação de trabalho economicamente viável e socialmente justa, visando a autonomia de seus integrantes (38).

O investimento em outro modo de economia prima pelo trabalho como fator de criação de identidade, meio para exercer a singularidade e a co-construção de autonomia no seu processo de produção. Pensando o trabalho econômico solidário, mesmo que se demore em alcançar rendimento suficiente a uma independência financeira total, ele pode sim construir certo grau de autonomia. A teoria Paideia concebe a autonomia como processo gradativo, como coeficientes de autonomia, já que na realidade essa nunca será total. A capacidade de

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compreensão e ação sobre si e sobre o contexto, desde que se estabeleça contrato e compromisso com outros sujeitos ao considerar os interesses, desejos e valores dos mesmos, é a definição de autonomia para esta teoria (8).

Dentre os fundamentos do modo de Economia Solidária, a comercialização do que se produz deve ser estabelecida numa relação de respeito com o consumidor, o comércio deve ser justo e incentivar o consumo consciente segundo aquilo que for necessidade. A transparência sobre suas formas de produção também é primordial. A seguir, serão elencados os principais pilares desta modalidade de economia para contextualizá-la.

A remuneração deve ser justa entre seus trabalhadores e jamais sendo decidida pela figura de um único gestor/coordenador (“patrão”), mas sim pautada pela concordância do coletivo. Pode se discutir se será igual ou diferenciada entre as pessoas e funções desde que com diferenças justas. Geralmente, na empresa solidária não se fala em receber um “salário”, mas sim uma “retirada”, que é variável conforme a receita obtida. Busca-se a eliminação de intermediários nas etapas do processo de produção além do reconhecimento das características individuais para se montar um trabalho do grupo que considere as potencialidades e limitações de cada membro, ao mesmo tempo em que a consciência sobre suas funções deve ser prezada por todos. O preço deve ser justo de acordo com os custos desde a produção até a pós-venda (36, 39).

A autogestão participativa significa que todo o processo de trabalho e da produção deve ser realizado pelo grupo de cooperados. As decisões são tomadas pelo coletivo de trabalhadores e não pelo dono da empresa (como ocorre nos formatos capitais tradicionais); preconiza-se a transparência nas decisões de organização. Diferencia-se da heterogestão que se caracteriza por uma administração hierárquica, onde figuras de maior poder geralmente detém a autoridade e determinam as instruções (36, 39).

Esse modo exige uma complexa responsabilização de todos os sócios ou cooperados, pois além de cumprirem com suas tarefas, cada um tem o dever de se inteirar do funcionamento como um todo e de todos os problemas do empreendimento. Segundo alertado por Singer (36), há um tênue risco de se cair na heterogestão sem se perceber, quando os sócios se abstém de tomar decisões mais

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difíceis e urgentes pela lei do menor esforço, enquanto que, por sua vez, existem prazos e situações cruciais por decidir e um certo comitê gestor se vê na necessidade de tomar as medidas, o que pode virar uma rotina o fato de só informar aos demais nas assembleias posteriores. Portanto, manter uma lógica autogestionária depende de que todos se esforcem e estejam atentos por um ideal maior que é a luta por outro modo de produção. A prática da autogestão exige além de tudo, um grau de formação democrática de seus integrantes. Mas Singer (36) problematiza que isso nem sempre é o natural, pois uma boa parte das pessoas adere a esse tipo de empreendimento muito mais pela necessidade de se inserirem em algum emprego e escapar da pobreza. Com isso, aceitam os princípios como exigência coletiva para poderem participar, como se fossem simplesmente as “regras da empresa”, sem a consciência maior de que é necessário desenvolver a formação democrática. Desse modo, não é natural para o ser humano, nem em um modelo e nem em outro:

As pessoas não são naturalmente inclinadas à autogestão, assim como não o são à heterogestão. Poucos optariam espontaneamente por passar a vida recebendo ordens, atemorizados com o que lhes possa acontecer se deixarem de agradar aos superiores. Aprende-se a obedecer e temer os “superiores” desde os bancos escolares, num processo educativo que prossegue a vida inteira. [...] As imposições e repressões da família patriarcal vão na mesma direção (36, p.21).

Sobre tal “esforço”, na obra o mal-estar da pós-modernidade, conjectura-se que:

Nada predispõe “naturalmente” os seres humanos a procurar ou preservar a beleza, a conservar-se limpo e observar a rotina chamada ordem. (Se eles parecem, aqui e ali, apresentar tal “instinto”, deve ser uma inclinação criada e adquirida, ensinada, o sinal mais certo de civilização em atividade). [...] Sua liberdade de agir sobre seus próprios impulsos deve ser preparada (7, p. 08).

As citações acima levam a refletir e provocar que para todas as propostas de gestão há que se ter um cuidado e uma crítica sempre presentes, pois todos estão sujeitos a cair nas armadilhas do que elas próprias rejeitam, sejam a armadilha da não produtividade e não subserviência no capitalismo, ou a armadilha de uma falsa democracia e um não desenvolvimento humano para a cooperação participativa na Economia Solidária. Quando não se investe na formação, corre-se o risco de gerar uma prática alienada. Então, aponta-se ser importante um cuidado

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com a crença de que apenas os “sentimentos exclusivamente positivos” é que existiriam em tais organizações:

Embora o objetivo final da cooperação seja a transformação de toda a sociedade, o interesse dos cooperados focaliza-se na organização que constituíram. [...] Contudo, essa vida democrática que querem pôr em prática encontra uma série de obstáculos [...], os homens não se conformam a esse esquema trivialmente “rousseauniano” (40, p. 14).

Projetos de geração de renda e cooperativas de trabalho vêm se difundindo como estratégias de enfrentamento às dificuldades impostas pelo mercado formal. No Brasil, a partir dos anos 2000, tais projetos passaram a ser oficializados. Um marco importante foi à transformação da Economia Solidária em política pública, no ano de 2003, por meio da criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego pelo decreto no. 4.764/03 (41).

Os Ministérios da Saúde e do Trabalho e Emprego assumiram o compromisso, juntos ao governo federal, de incluir a aliança entre Saúde Mental e Economia Solidária na agenda social da política brasileira, expresso pela Portaria Interministerial n°. 353, de 07 de março de 2005 (42). Entretanto, mudanças governamentais levaram à extinção da SENAES, em 03 de novembro de 2016, sendo criada a Subsecretaria de Economia Solidária dentro da Secretaria de Relações do Trabalho, no Ministério do Trabalho pelo Decreto n°. 8.894/16 (43, 44).

Dentro dessa perspectiva, compreende-se a proposta das cooperativas sociais previstas na legislação brasileira pela lei nº. 9.867/99 (45). Destaca-se, aqui, a criação do Pronacoop Social – Programa Nacional de Apoio ao Associativismo e Cooperativismo Social – instituído pelo Decreto nº. 8.163/2013, com a finalidade de planejar, coordenar, executar e monitorar as ações voltadas ao desenvolvimento das cooperativas sociais e dos empreendimentos econômicos solidários sociais. O referido programa conta, em seu comitê gestor, com representações de vários Ministérios, dentre eles o da Saúde, e tem como objetivo a inclusão social, laboral e econômica de pessoas em situações de vulnerabilidade, inserindo-se aí aquelas com transtornos mentais, inclusive em decorrência do uso de álcool e outras drogas, pessoas com deficiência física ou mental, etc. (46).

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No entanto, ainda são encontrados muitos questionamentos sobre suas formas de estruturação, pois não há regulamentação suficiente e de forma eficaz quanto aos estímulos financeiros para sua implantação e manutenção, tampouco é garantida por lei a conciliação entre tais atividades e benefícios sociais recebidos por seus integrantes. Mesmo assim, esforços nessa área devem ser destacados frente ao seu valor e à sua efetividade psicossocial.

1.4 Objetivos da pesquisa

Pretendeu-se na presente dissertação compreender se e como o trabalho em projeto de geração de renda influencia na reconstrução da identidade e emancipação social de pessoas com transtorno mental ou deficiência intelectual. Especificamente, objetiva-se: a) caracterizar a forma de organização e gestão do trabalho proposto em um empreendimento econômico solidário; b) resgatar a trajetória de vida dos sujeitos inseridos nos empreendimentos estudados; e, c) analisar os possíveis efeitos dessas experiências de trabalho solidário na ressignificação da história de vida dos participantes.

Dessa forma, organizou-se o material produzido de modo que no capítulo 2 serão explorados os aspectos metodológicos da pesquisa e o contexto de produção das questões diante da trajetória e da tradição da própria pesquisadora. Ainda nesse capítulo, inseriram-se algumas notas das tradições que pensaram sobre a temática da identidade e em sequência, uma breve revisão integrativa da literatura, organizada de forma a identificar as principais produções que vem se debruçado sobre a temática do trabalho e sua interface com a saúde mental, para que subsidiasse a escolha pelos métodos de coleta a serem empregados.

No capítulo 3, exploraram-se os resultados da pesquisa, discorrendo sobre o contato e pactuação com campo, realização do grupo focal e a identificação dos núcleos argumentais produzidos. No capítulo 4, consta a discussão sobre cada eixo temático em diálogo com as tradições teóricas de referência. Finalmente, no capítulo 5, são feitas as considerações finais, resgatando os objetivos da pesquisa e o que conseguimos alcançar, bem como o que conseguimos responder sobre a hipótese inicial.

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2. Metodologia 2.1 Método

Esta pesquisa foi organizada, nos moldes expostos por Severino (47), a partir de uma abordagem qualitativa ao se empregar um conjunto de metodologias intimamente vinculadas aos fundamentos epistemológicos utilizados. Consequentemente, previu-se uma etapa de campo, na qual foi realizada a coleta de dados por meio de encontros grupais com pessoas inseridas em projeto de geração de trabalho e renda, que supostamente encontraram nesta experiência uma via de autonomia e constituição de identidade.

A escolha pela metodologia deste trabalho considerou o fato de que nenhuma linha de pensamento sobre o social tem o monopólio de uma compreensão completa sobre a realidade, como descrito por Minayo (48). Desde o início do século XX, as ciências contemporâneas vêm passando por transformações radicais que se desprendem do positivismo ingênuo que sustentava a metafísica causalista, empirista e objetivista das ciências. Progressivamente, tem-se conquistado destaque uma concepção mais perspectivista, construcionista e não determinista das evidências produzidas (49).

Em outros termos, as ciências passaram a ser entendidas como uma forma de discurso, caracterizada por uma validação intersubjetiva baseada no seu compromisso com a verdade. Porém, não mais uma verdade absoluta, no sentido forte de leis naturais desveladas pelo intelecto humano, mas, sim, como uma „quase verdade‟, isto é, um conjunto de proposições verificáveis com um grau aceitável de incerteza em um dado regime de validade produzido em relações sujeito-objeto delimitadas (49, p. 29-30).

Parte-se do pressuposto de que nenhuma pesquisa é neutra, seja qualitativa ou quantitativa. As elaborações sobre o social estão sempre ligadas a alguma corrente de pensamento filosófica ou sociológica, mesmo que tal filiação seja inconsciente (48). Diante das concepções científicas embasadas, a abordagem metodológica a ser adotada na análise da pesquisa será a Hermenêutica crítica narrativa, na qual se considera que não existe uma experiência pura, já que não existe neutralidade total. Assume-se de antemão que o pesquisador que irá interpretar qualquer experiência já possui suas próprias opiniões sobre um tema ou um objeto e deverá reconhecê-las na cena de pesquisa (50, 51).

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Na visão Hermenêutica de Hans-Georg Gadamer (52), os pré-conceitos sobre determinado objeto de análise devem ser sempre considerados, pois é impossível desprezá-los e dissociar a historicidade do pesquisador. Contudo, esse filósofo apresenta a concepção de que o pré-juízo não é necessariamente negativo, não indica incapacidade crítica intelectual. Apenas leva em conta nossa historicidade e admite que, em partes, somos guiados por ela. Logo, “a interpretação nunca se dissocia de seu componente histórico e cultural. Não há o conhecimento da „coisa em si‟, mas sua mediação com a tradição e com os preconceitos do autor” (53, p. 4). Assim, evitam-se possíveis enganos da pré-compreensão quando a legitima e reconhece-a, colocando-a em discussão à medida que se adquire novos conhecimentos. É possível refletir suas limitações justamente perante a aquisição de novas informações, pois é tarefa da hermenêutica distinguir entre os preconceitos legítimos e ilegítimos, os quais podem levar a mal-entendidos. Faz parte da consciência hermenêutica a consciência dos preconceitos que atuam no processo de compreensão, o que pode ser intelectualmente produtivo se são colocados em jogo e filtrados, questionando os verdadeiros que subsistem e descartando os falsos. (53).

A verdadeira compreensão requer o reconhecimento da tradição histórica em cada discurso e na escuta do pesquisador, pois a tradição está viva em nossa cultura. Por isso, não basta se transportar para o horizonte do outro, retirando o intérprete de sua própria posição, até porque essa dissociação seria utópica. É necessário que a tradição do intérprete seja analisada neste processo, para questionar sua influência sobre a compreensão que vai tecendo, de modo que os preconceitos ilegítimos sejam postos à prova. É o que Gadamer chama de fusão de horizontes (53).

Para Gadamer (52), o critério de verdade acerca do humano, na perspectiva hermenêutica, não busca negar a condição indeterminada e inconclusa do conhecimento humanístico, já que considera a condição limitada e interdependente de nossa situação existencial. A verdade hermenêutica é uma experiência em curso, aberta à ressignificação, que se difere da verdade proveniente dos procedimentos metódicos empírico-analíticos, porque os precede existencialmente e não depende exclusivamente deles e nem pode ser produzida apenas a partir deles (49).

Referências

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