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4 Discussão

4.2 Eixo 2: “Percurso de cuidado em Saúde Mental”

Apresentam-se histórias de vida diferentes umas das outras, alguns localizaram as épocas mais exatas onde necessitaram buscar ajuda na Saúde e a maioria relatou tratamento em Centros de Atenção Psicossocial como parte do percurso, como se percebe na maior parte dos núcleos deste eixo. Porém, outros equipamentos de saúde, como na Atenção Básica, Hospital Geral ou Hospital Psiquiátrico, também fizeram parte do cenário.

Aparece um percurso pessoal que passou pelo manicômio e teve a experiência posterior de viver o início da Reforma Psiquiátrica no Brasil, dentro das novas propostas que surgiram com os equipamentos de saúde substitutivos ao final da década de 80, frequentando o primeiro Centro de Atenção Psicossocial do país. Traz um relato da expulsão, do desafio que era (e ainda é) para os serviços lidar com a tolerância às diferenças frente a situações de usuários que trazem risco ou conflitos com a Lei e também da intolerância de alguns usuários a se adaptarem às regras sociais, como no caso deste participante. Interessante é que dentro desta história, com todas as resistências relacionais que parecem ter ocorrido de ambos os lados, em seu perfil pessoal, as resistências puderam ser canalizadas para as lutas sociais e políticas, sendo o envolvimento com tal militância reconhecida como “importante estar”, trazendo um outro sentido dentro da sociedade, um sentido de desenvolvimento dos sensos de democracia e justiça. Também nos mostra que o lugar de pertença para esta pessoa não foi um serviço de saúde (tanto que atualmente não realiza nenhum tratamento), mas sim o local onde se encontra hoje vinculado, o empreendimento de geração de renda, o trabalho e a participação social ativa em coletivos políticos de discussões e construções por direitos de uma população marginalizada com a qual se identifica na causa, que podem conferir a esta pessoa um outro status, um exercício de cidadania. Não cabe aqui julgar o serviço de saúde em questão, pois temos um viés de um relato do qual não sabemos o contexto, mas esse núcleo argumental nos faz refletir o quanto não é nada simples a tarefa da reabilitação psicossocial. Tanto por parte dos profissionais de saúde mental quanto por parte dos indivíduos que têm suas peculiaridades e que em diversos casos, a zona do relacionamento interpessoal é justamente a de maior

instabilidade, onde se operam muitos conflitos ou para se evitá-los, resulta o isolamento social.

Ainda nesta linha reflexiva, outros núcleos argumentais deste eixo nos mostram a necessidade real dessas pessoas frente ao tratamento que consideram importante, além do medicamentoso ou terapêutico tradicional. Relatam o desejo de envolvimento social por meio do esporte, lazer e cultura, inclusive evidenciando o destaque que atividades desse tipo tiveram em seus desejos de tratamento; em dois relatos isso apareceu como benefícios mais prioritários na referência que fazem ao CAPS.

Considerada essa complexidade, levantamos o que Saraceno (22) apontou sobre a questão da reabilitação e suas variáveis (sujeitos, contextos, serviços e recursos), que um serviço de alta qualidade deveria ser permeável e dinâmico, um lugar onde sejam negociáveis as oportunidades tanto para pacientes como para os operadores, para não se cair na cegueira de ambos. Para que um espaço se torne “lugar” é salutar que não se reduza em espaço físico, arquitetônico, mas que seja campo de um processo complexo onde as relações afetivas e de poder entre as pessoas é que estejam em primeiro plano, que se atente para a não- estereotipia das respostas às necessidades dos usuários, que o indivíduo que chega ao serviço não tenha que se encaixar necessariamente ao menu já existente, a “uma oferta fechada à qual o paciente deve se adaptar, sob pena de expulsão” (22, p. 96). A atuação de profissionais dentro da rede de Saúde Mental não deve cair na armadilha do instituído, em uma política burocratizada. A convergência entre Clínica e Saúde Mental, resultante em uma “Clínica Ampliada” (93) possibilita uma reabilitação inclusiva que é bem diferente de uma reabilitação psicossocial e saúde mental ortopédicas (94).

Para esse efeito, a articulação externa é fundamental, a intersetorialidade na qual os projetos de geração de trabalho e renda podem ser um dos setores essenciais (22, 17, 80, 82). Pensar saúde mental implica em entender que o acesso ao trabalho e renda está entre os determinantes sociais do processo saúde-doença.

...quando falamos em integração externa nos referimos à forte permeabilização do serviço a saberes e recursos circunstantes a esse… O muro do manicômio a ser demolido é qualquer muro que impeça de ver (e usar) outros saberes e outros recursos (22, p. 98).

Em um núcleo argumental, talvez muito do que aparece se deva ao caminho de sucateamento dos serviços públicos ao longo dos anos: “era super gostoso e cortaram”; entretanto, não nos aprofundaremos nesta questão, apenas a lembramos enquanto uma suposta justificativa às mudanças ocorridas no modo de organização da oferta terapêutica do serviço, pois como bem sabem os profissionais da saúde pública, nem sempre é do desejo e da escolha destes seguirem uma burocracia limitante no que oferecem. Pensamos com os exemplos dos trechos trazidos aqui: “sou militante dessa luta... importante estar... me envolvi em muitas coisas”; “esporte, música, cultura e shows”; “o que falaram pra mim é que o CAPS não é um centro de convivência...de vez em quando eu passo lá para fazer visita…”, que esses desejos, gostos e necessidade da qual falam, em boa parte não são satisfeitas em serviço de saúde, mas sim em outros espaços sociais, e daí a importância de criticar que somente a Saúde não é a solucionadora nas políticas sociais para a inclusão e garantia de cidadania. O empreendimento de trabalho do qual fazem parte hoje, talvez satisfaça uma parcela dessas esferas citadas, pois além da atividade laboral, também é um espaço de formação/cursos, eventos culturais, festas e militância/engajamento em movimentos da Luta Antimanicomial. A oportunidade de participação em pesquisa científica enquanto sujeitos de outra ordem (não usuários de saúde mental), como foi o caso para a finalidade da presente dissertação, também pode ser vista como uma forma de troca, discussão e reflexão de cunho participativo político e social.

E ainda neste eixo, outros dois núcleos nos comprovam a inclusão social pelo trabalho como fator importante e potente enquanto promotor de saúde mental e que pode ser para algumas pessoas, a principal marca de seu bem-estar psíquico, logo citados quando contam dos seus percursos de cuidado.

O último núcleo nos traduz o que a Economia Solidária propõe enquanto um conceito ampliado, que não foi criada apenas para inclusão de pessoas com algum transtorno mental, mas sim com necessidades de inclusão social das mais diversas. A saúde mental se apropriou dessa proposta, porém não tem exclusividade dentro dela. Cabe ressaltar que sofrimento psíquico não tem relação simbiótica com transtorno mental (em sua semântica diagnóstica), não é apenas um sintoma deste, mas esse abarca uma infinidade de situações próprias da vida humana que podem levar à dor, e aqui para nós, este é o fator que consideramos acima de qualquer “CID” – Código Internacional das Doenças. Também analisamos neste núcleo uma

semelhança a outro relato deste eixo, que apesar de histórias substancialmente diferentes (uma pessoa esteve em tratamento de saúde, desde internações psiquiátricas até serviço extra-hospitalar, e outra refere não ter histórico de tratamento para saúde mental): o não uso de medicações atualmente. Esse fato corrobora para a desestigmatização desta população em foco, mostrando outros caminhos possíveis enquanto promotores de saúde mental, sem necessariamente contar com a medicalização.