• Nenhum resultado encontrado

4 Discussão

4.3 Eixo 3: “Experiências de trabalhos anteriores”

Aqui constata-se que as experiências no mercado de trabalho são muito variadas, em diversos segmentos. Há relatos de que a maioria dessas pessoas já passaram por empregos registrados, desde pequenas até grandes empresas, nomes de grandes redes aparecem em certas passagens. Para algumas dessas mesmas pessoas, houveram experiências autônomas. Aparecem também situações de informalidade/precarização em alguns serviços sem registro legal. Ou seja, uma vasta gama de vivências, trazidas por sujeitos que têm idades variadas (desde os 20 e poucos anos até os 50 e poucos) e dentro dessa extensa faixa etária, há para cada um, ao mínimo mais de uma experiência anterior no mercado capital, sendo que alguns referem múltiplas variações em seu histórico profissional. Quanto ao tempo das durações de cada atividade, também foram díspares. As repetições de duração apenas durante o período de experiência (até 3 meses) foram um traço comum vivido por mais de uma pessoa. Houveram também experiências que englobam uma formação técnica associada ao trabalho que exige esse nível de escolaridade, como no caso da instrumentação cirúrgica ou análises clínicas.

Quanto às questões que aparecem sobre exigência de metas, sobre a “pressão” por produtividade sofrida no mercado de trabalho, a intermitência nos “períodos de experiência”, a não garantia dos direitos naqueles que não tiveram um registro de trabalho e outras condições que aparecem nos relatos, resgatamos o que Antunes (95) traz à tona em uma de suas produções mais atuais e desenvolve acerca da situação dos assalariados de serviços:

As formas de intensificação do trabalho, a burla dos direitos, a superexploração, a vivência entre a formalidade e a informalidade, a exigência de metas, a rotinização do trabalho, o despotismo dos chefes, coordenadores e supervisores, os salários degradantes, os trabalhos intermitentes, os assédios, os adoecimentos, padecimentos e mortes decorrentes das condições de trabalho indicam o claro

processo de proletarização dos assalariados de serviços que se encontra em expansão no Brasil e em várias partes do mundo, dada a importância das informações no capitalismo financeiro global. Constituem-se, portanto, numa nova parcela que amplia e diversifica a classe trabalhadora (95, p. 64).

Almeja-se com isso denotar que muitas das situações vivenciadas são parte da realidade para milhões de brasileiros em nosso tempo e nosso contexto social e político. Não poderíamos nesse eixo, simplesmente falar de uma população específica dentro de uma visão da Saúde Mental. Seria ingenuidade virar as costas para constatações e denúncias de um mundo tomado pelos efeitos avassaladores, (in)consequentes do sistema hegemônico, que afetam de uma forma ou outra, a toda população mundial. Portanto, é necessário primeiro pontuar que se manter no mercado de trabalho não é uma tarefa simples para muitas pessoas por inúmeros motivos; em seguida expomos que para os sujeitos de pesquisa em questão, a condição psíquica peculiar é um fator preponderante que se soma a esses outros motivos inumeráveis, intensificando ainda mais os obstáculos no caminho profissional. Tentaremos então, desenvolver como análise deste núcleo, uma breve contextualização global das condições trabalhistas atuais e do macro contexto do mundo do trabalho, passando pela discussão do ramo de serviços (ao qual encaixa o que a maioria refere já ter trabalhado), até chegarmos ao cerne do adoecimento versus trabalho. Lembramos que nesta última tônica falamos de pessoas que poderiam já estar ou não adoecidas antes das suas atividades de trabalho passadas (imaginamos que a maioria já apresentava algum tipo de transtorno mental ou início dele, pois esse é o nosso público alvo e pôde ser percebido nos relatos das histórias de vida no primeiro eixo). Porém, uma condição de saúde anterior não exclui o risco de uma nova categoria de adoecimento por meio do trabalho ou até mesmo a intensificação da vulnerabilidade de saúde pré-existente, ainda mais em caso de sofrimento psíquico.

Antunes (95) discorre sobre a classe média ou novo proletariado de serviços, propondo que existe uma “nova classe”, onde, por exemplo, se enquadram o telemarketing, os fastfoods, restaurantes, hipermercados, call-centers, comércio em geral, entre outros empregos. Nesta “nova classe” enquadram-se os que realizam os trabalhos mais precarizados, esporádicos e intermitentes. O autor propõe a discussão acerca de uma divergência conceitual: se essa “nova classe” que é parte de uma “classe trabalhadora ampliada” seria integrante da já

conceituada “classe-que-vive-do-trabalho” 4 (15) ou de uma “classe do precariado”.

Sua defesa se opõe àqueles que consideram “classe do precariado” como uma “nova classe”. Isso porque em sua formulação considera que na realidade de muitos países no capitalismo avançado, a “classe-que-vive-do-trabalho” passa por uma nova morfologia, onde na mesma classe trabalhadora são compreendidos diferentes polos, que se expressam de modo diversificado, pois é uma classe bastante heterogênea. Para ele, estão inseridos nesta mesma classe uma parcela do proletariado mais precarizada, que vive de trabalhos informais, com atividades realizadas por tempo determinado ou sazonal e geralmente composta pelos mais jovens (12, 15, 95).

As gerações mais antigas que herdaram os direitos trabalhistas advindos das lutas iniciadas desde séculos anteriores, hoje em dia se mobilizam para impedir os retrocessos e cortes das condições de trabalho que ameaçam uma precarização cada vez maior. Já as gerações jovens, em outro polo, vivem a contradição dentro da mesma “classe-que-vive-do-trabalho”, pois querem conquistar direitos e extinguir a precarização que lhes assola. As gerações dos mais tradicionais, aos que Antunes denomina de herdeiros do Welfare State tentam lutar contra a degradação ainda maior e contra se transfigurarem nos novos precarizados. São situações extremamente heterogêneas que encontramos hoje, considerando gerações e a heterogeneidade que já vivemos entre diferentes ramos, setores e ainda, pelo viés étnico-racial, de gênero, de lugar (periferia-centro). A classe trabalhadora tem hoje um desenho multifacetado (95).

No Brasil, com seu histórico colonial, a precarização é uma particularidade que já nasce com a origem de seu proletariado, a partir da abolição da escravidão; desta forma, aqui ela não é uma exceção, mas sim a origem, a base de nosso sistema proletário. O que é chamado de “precariado” tem um sentido bem diferente nos países do Norte mais desenvolvidos, pois lá há uma diferenciação grande e marcada entre o recente precariado como um dos polos mais precarizados da classe trabalhadora, bem diferenciado em comparação com o proletariado “herdeiro do Welfare State”. Em países menos desenvolvidos como é o caso do

4 Expressão utilizada por Antunes (15, p.101-102) para “conferir validade contemporânea ao conceito marxiano de classe trabalhadora. [...] A classe-que-vive-do-trabalho […]hoje inclui a totalidade daqueles que vendem sua força de trabalho, tendo como núcleo central os trabalhadores produtivos [...] engloba também os trabalhadores improdutivos, aqueles cujas formas de trabalho são utilizadas como serviço […]”.

Brasil, esse precariado não se configura como uma nova classe porque nunca possuímos uma diferenciação profunda de segmentos que fossem notavelmente bem regulamentados do proletariado, porque nunca tivemos um padrão de Welfare State (95).

O que gostaríamos de salientar com essa contextualização é que a precarização é uma lógica intrínseca ao capitalismo e que se amplia ou se reduz dependendo da organização da classe trabalhadora e os modos de confronto que esta exerce. Ela nasce como uma tendência com a própria criação do trabalho assalariado, sempre na intenção que é a essência do capital, de aumentar o mais- valor, ou seja, a troca desigual entre o pagamento que o trabalhador recebe e o valor do que é por ele produzido. Assim, as formas de exploração do trabalho vão sendo criadas e transformadas, mas estão sempre presentes na lógica do capital (95, 96).

Não iremos detalhar cada segmento de emprego referido em nosso Grupo Focal, pois são muitas variáveis. Mas daremos enfoque a alguns exemplos, que nos faz estender o olhar para outros exemplos também. Duas pessoas trazem a experiência na área do telemarketing e uma delas inclusive revela ter sido na “Atento”, a qual Antunes (95 apud 97) cita uma pesquisa que foi realizada junto à esta empresa. Dentre os resultados, aponta-se que 85% a 90% da jornada diária é feita sentada em frente à tela do computador e com fone de ouvido, situação em que a atenção tem ser exclusiva e anula a construção de relações e vínculos interpessoais; o monitoramento pelos supervisores é constante, para cobrar aumento da produtividade e controle do tempo operacional; as chamadas tem teto de duração, impedindo com isso um atendimento mais atencioso ao cliente, que por sua vez se irrita com o mau atendimento e desconta com mais reclamações diretamente à tele operadora; o controle do tempo de descanso e de necessidades fisiológicas, que não permite imprevistos sendo cinco minutos a previsão para utilização do banheiro. Não é difícil imaginar o grau de pressão psicológica que essas pessoas sofrem e como tal rotina impacta na saúde ocupacional e mental. Se falamos de pessoas que já têm certo grau de insegurança, ansiedade, medo, dificuldades no estabelecimento e manutenção de vínculos interpessoais, estar num cenário como esses, obviamente em pouco tempo pode levar à desistência, ao adoecimento ou à demissão.

O adoecimento aparece em alguns núcleos, referentes às pressões sentidas no ambiente de trabalho, como nos trechos “como era perturbador”; “foi onde eu comecei a ter o TOC, da repetição”; “me sentia mal, me sentia triste”.

A origem desses processos de adoecimento tem também como pano de fundo, entre outros, o crescente processo de individualização do trabalho e a ruptura do tecido de solidariedade antes presente entre os trabalhadores. É essa quebra dos laços de solidariedade e, por conseguinte, da capacidade do acionamento das estratégias coletivas de defesa entre os trabalhadores que se encontra na base do aumento dos processos de adoecimento psíquico e de sua expressão mais contundente, o suicídio no local de trabalho (95, p. 143, grifo do autor)

De maneira geral, compreende-se que em diversos trabalhos relatados por nossos participantes de pesquisa, as formas de relação estabelecidas em um clima mais duro e pouco intimista, a exposição da improdutividade perante todos, a cobrança, a crítica sofrida muitas vezes friamente, a falta de treinamento e acompanhamento mais humanizado e adequado às necessidades mais singulares que cada pessoa requer (e que o mercado tem pecado em não investir em programas mais personalizados de recursos humanos, com a rotatividade cada vez mais frenética de novos funcionários), tudo isso tem um peso notório para as pessoas que tentam uma inserção, um reconhecimento, uma validação de sua capacidade produtiva.