UNIVERSIDADE DO PORTO
Faculdade de Letras
UNIVERSIDADE DO PORTO Faculdade de Letras BIBLIOTECA NS— i 4 £ QMn O a ! a _ 0 | _ /_OÍL/ 192lJbZESPIRITUALIDADE E RELIGIOSIDADE
NO PORTUGAL MODERNO
- O AGIOLOGIO LUSITANO
DO PADRE JORGE CARDOSO
597240
Autor: Joaquim Fernandes da Conceição
Orientador: Professor Doutor João Francisco Marques
(MH
n História
PORTO 1996
Dissertação de Mestrado
NOTA PRELIMINAR
Ao optar pela análise de uma obra mestra da literatura hagiográfico portuguesa seiscentista, como o "Agiologio Lusitano", de Jorge Cardoso, corremos deliberadamente o risco de não garantir a plenitude da sua avaliação, descodificação e releitura. Reconhecemos, de antemão, as multimodals, prometedoras e complexas vias de exploração aí plasmadas, que importam aos
domínios da História da Cultura e das Mentalidades, convergentes nesse monumento da catolicidade nacional, mas de uma expressão religiosa comum ao espaço ibérico epocal.
Assumimos, todavia, o risco de uma incursão prévia, desbravando tão só a camada epidérmica de parcelas de um território pujante de factos e símbolos. Imergir nos quatro volumes do -Agiologio Lusitano" (apenas dos três primeiros nos ocupámos aqui) é enfrentar uma torrencial construção de sedimentos culturais poliédricos, carreados pelo Autor na sua cruzada justificativa e, ao mesmo tempo, justificada num Portugal pós-tridentino, propugnador de um catolicismo de "santos e varões ilustres em virtude " destinados à santidade.
Conquanto se reconheça a amplitude e fecundidade da obra em causa, não lográmos neste ensaio ultrapassar os novos e reduzidos limites temporais, agora impostos à elaboração e escrita das dissertações de Mestrado. Pena que, deste modo, regidos pelo imperturbável Cronos, tivéssemos de reduzir o plano invéstigativo que o "corpus", reunido ao longo dos últimos quatro anos, nos ia sugerindo com laivos de irresistível e humana insaciedade... Como cremos que o discurso historiográfico é jeito de incessantes e infinitos reajustes, outros momentos
menos prementes hão-de, por certo, favorecer o reexame do que ficou agora prejudicado ou entre parêntesis.
Seja como for, há que ressalvar, neste preâmbulo, os estímulos, contributos e apoios manifestados ao longo desta tentativa de viagem a alguns dos sentimentos e atitudes mais reservadas e íntimas dos nossos antepassados no dealbar da
"modernidade" em Portugal, com tudo quanto isso significa de observação de assimetrias entre valores, atitudes e representações do mundo.
Para o patrocinador e orientador deste trabalho, o Professor Doutor João Francisco Marques, vão as primícias dos agradecimentos. A sua solicitude e carinho para com o tema proposto só têm paralelo com a excelência do seu magistério, a ponderação das suas sugestões e a eficácia da metodologia. A leitura da sua "Parenética da Restauração" revelou-se argumento estimulante e inspirador de algumas das facetas aqui, ainda que brevemente, enunciadas e articuladas.
Fora da órbita propriamente universitária a primeira alusão é forçosamente dirigida ao Dr. Fernando Aguiar-Branço, proficiente administrador da Fundação Fngenheiro António de Almeida, cuja paixão pela Cultura determinou a concessão de uma indispensável e útil bolsa de estudo que apaziguou, deforma significativa, a urgência de uma disponibilidade exclusiva de tempo para investigação. A ele são devidos os nossos testemunhos de gratidão e apreço incondicionais.
O reconhecimento estende-se à amiga e confrade noutras lides investigativas, a Dr" Fina d'Armada, por ter autorizado a reprodução, neste trabalho, do excepcional e elucidativo documento contemporâneo sobre a ancestral tradição das
"procissões dos defuntos", recolhido "em directo" em terras do Alto Minho. Ainda nesta área temática, há que fazer constar e agradecer o contributo do investigador galego Manuel Carballal, que nos forneceu dados actuais e pertinentes acerca da actualidade do tema das "almas" em terras a norte do rio Minho. Uma palavra de agradecimento também para a disponibilidade do jornalista e ex-companheiro de escrita, António Germano Silva, a cuja curiosidade e dedicação atenta pelas
"antiqualhas " livreiras ficámos a dever a consulta das preciosas "Constituições Sinodais do Arcebispado de Braga", de 1639. Idêntico apreço estende-se à Dra
Isabel Guimarães, da Biblioteca Pública Municipal do Porto, pela sua diligente colaboração, ao reporter-fotográfico António Pereira de Sousa, profissional do
"Jornal de Notícias", autor do exímio trabalho de reprodução fotográfica de ilustrações oriundas de fontes estrangeiras, e que constam dos Anexos, e ainda ao designer José Martins pela inestimável valorização gráfica dos apêndices iconográficos e à Isabel Pimenta que fez o trabalho de "foloshop".
Por fim, uma referência à família, mais directamente envolvida (ou antes, afectada), por tudo quanto esta coabitação privilegiada com o computador implica de a-sociabilidade, de desapego aos tempos livres, em suma, a sacrifícios não quantificados. Para eles, Maria da Glória, Maria e Bruno, uma dedicatória especialíssima. At last but not at least, ao Dr. Rolando Silva, um abraço fraterno pela preciosa ajuda concretizada em termos informáticos.
SIGLAS
Abreviaturas
A.L. B.N.L,
Agiologio Lusitano
Biblioteca Nacional de Lisboa
Outras
apud = em, junto a
dir. = dirigido por ou direcção de
et aï. = e outros fis. = folhas
ibidem = no mesmo lugar
idem = o mesmo
loc. cit. = no lugar citado ms. = manuscrito
n.n. = não nomeada, não referida
ob. cit. = obra citada
passim = por aqui e ali, noutros lugares dispersos de uma pp. = páginas
supra = acima, num passo anterior
Sinais
: : ■'■
I I
indicação do título de um estudo inscrito em outra obra publicada ou obra colectiva
SUMARIO
NOTA PRELIMINAR
INTRODUÇÃO
FONTES E MÉTODOS
1. As fontes primárias: identificação dos manuscritos 2. Delimitação cronológica e constitutiva do corpus
3. Perspectivas metodológicas em antropologia histórica e religiosa
CAPÍTULO I
O AUTOR EA OBRA
1. O padre Jorge Cardoso - a descoberta de uma vida (1606-1669) 1.1. A infância e a educação religiosa
1.2. O sacerdócio e o círculo de correspondentes hispânicos 1.3. O isolamento epistolar em 1640 e a demanda de relíquias 1.4. O patrocínio de D. Luís de Sousa e a tença de D. Afonso VI 1.5. A estadia em Madrid e os últimos dias de Jorge Cardoso 1.6. O testamento do hagiógrafo
1.7. A prosopografía do "Padre das Antiguidades" 1.8. Jorge Cardoso no contexto cultural da época
2. O Agiologio Lusitano -justificação de um repertório de "virtudes'1
2.1. A estrutura gráfica e o modelo estilístico 2.2. Estímulo e desilusão de um escritor
2.3. As hauiourafias: contextualização e conceitos
CAPÍTULO 11
DOMÍNIOS ESSENCIAIS DA RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE PORTUGUESAS PÓS-TRIDENTINAS
l. A sacralização de um país: da Cruz de Ourique às relíquias do Santo Lenho e da Coroa de Espinhos
1.1.0 difusionismo cultual das relíquias - o papel da aristocracia ibérica e da Companhia de Jesus
20 23 28 31 34 36 40 41 43 47 50 52 55 64 69
1.2. A veneração do corpo:incorrupribilidade da came,
heroicidade do espirito 7 6
1.3.0 culto das relíquias: casos-modelo do Agiologio Lusitano 81
1.4. Uma antropologia da sobre-humanidade 85 2. Caminhos de santificação no quotidiano monástico:
sociedade e cultura 89 2.1 Mobilidade social: a emigração e a imigração religiosa 110
3. As práticas ascéticas extraordinárias 107 4. As virtudes e o pathos da santidade 114 5. As manifestações místicas: a busca do inefável e do invisível 119
5.1. Tempo religioso: a contemplação fora do Tempo 126
5.2. A levitação e o simbolismo ascensional 133 5.3. Clarividência e profecia: presente e futuro antecipados 135
5.4. Visões, possessões e demónios 147 5.5. Epílogo: a Vida depois da vida 150 6. Recorrências do "maravilhoso" cristão: as almas do Purgatório 153
CONCLUSÃO
O padre Jorge Cardoso e a crítica histórica:
Que factualidade? Que cultura(s)? 160
FONTES E BIBLIOGRAFIA 166
Fontes manuscritas Fontes impressas
Obras de consulta e outros estudos
ANEXOS
Textos:
I - Listagem dos religiosos da amostragem D - Cronobiografia de Jorge Cardoso
III - Cópias de manuscritos sobre a vida do Autor
IV - Exemplos de intervenção poética, mística e profética
Ilustrações:
I - Algumas personalidades citadas no texto
n - Iconografia exemplar de fenómenos ascéticos e místicos
III - Reconstituição de uma "procissão das almas", Portugal, 1991.
INTRODUÇÃO
"Os factos históricos são por essência factos psicológicos", sustenta Marc Bloch em Apologie pour l'histoire ou Métier d'historien, ao relevar a importância de urna psico-história como "base de qualquer trabalho válido do historiador"1.
Constitui o presente trabalho uma avaliação e reflexão, ainda que sumária, no âmbito da chamada história das mentalidades ou atitudes mentais. É indiscutível, pois, que tratará necessária e maioritariamente dos domínios da sensibilidade, da afectividade, dos sentimentos e das paixões transmitidos por processos de comunicação particulares, subjectivos, e que autorizam legitimamente uma abordagem sociocultural.
O que transparece neste relance diacrónico e sincrónico pela paisagem religiosa seiscentista portuguesa é, assim, o que Lucien Febvre tão bem resenhou na expressão "visões do mundo", ao evocar o conjunto de representações da natureza, da vida e das relações humanas que cada grupo social postula como condição de vida 2 . Ora foi precisamente com base na investigação possível de um grupo
seleccionado de homens e mulheres, cidadãos monásticos, que tentámos uma aproximação às suas representações e imagens, mitos e valores, adequados e sustentados pela sociedade epocal e filtrados pelo sistema de crenças ostentado pelo autor-compendiador, o padre Jorge Cardoso. Especificamente organizados sob a expressão "utensilagem mental", proposta pelo autor citado no seu Problème de
l'incroyance, esses conceitos operatórios surgem como decisivos na leitura da
"realidade" e, em simultâneo, revelam-se vitais na reconstrução historiográfica e na decifração da teia de relações entre o conhecido, o reconhecido e o calado.
Esta reciprocidade e interdependência, aliás, são parte integrante do programa de uma história das mentalidades que visa, de acordo com os seus mais citados
1 GADAMER, H.G., et ai.- História e Historicidade, Lisboa, Gradiva, 1988, p.68. 2 Idem, ibidem.
teóricos, "a reconstituição dos comportamentos, das expressões e dos silêncios que traduzem as concepções do mundo e das sensibilidades colectivas" .
Chegados aqui, confirmamos a unanimidade da trilogia acima referida, bem tipificada nas páginas dissecadas do compêndio tetraédrico do Agiologio Lusitano, do prolífico padre Jorge Cardoso: comportamentos, expressões e silêncios. Esta é, de facto, uma história feita sobretudo de silêncios, tanto na acepção plural do signo e dos significantes, enquanto prática virtuosa, fundamental para a preparação dos eleitos na sua desejada união com Deus, mas igualmente de omissão ou apenas referência subliminar, por parte do Autor, de acções e facetas de contorno diverso, que pudessem retirar uma partícula de nobreza à personalidade dos virtuosos inventariados no repertório cardosiano.
O monumento - memento - de Jorge Cardoso, também ele uma verdadeira anamnese para um livro do "deve e haver" escatológico, é deste modo um repositório multivário de representações e gestos, interiores e exteriores, mais ou menos secretos, cenas intra-muros de um "caminho da perfeição", tal como foi postulado por Teresa de Jesus.
Esta incursão, nunca exaustiva, como se explicitou, identifíca-se a uma peregrinação laica e básica por esse universo monacal, indagando dos modos de se construir a santidade e a heroicidade adjacente, assim como as recusas (ou não) dos apelos do mundo; almeja, enfim, sublinhar o léxico salvífico do cristianismo, enquanto guia para o despojamento da caducidade presente e assunção da plenitude futura dos chamados e dos escolhidos.
A análise histórica e o seu discurso, tal como a ciência experimental, não conhece senão um objecto: os fenómenos ou aparências. Conquanto uma das tarefas favoritas do nosso tempo seja a desmistificação, não nos cabe, neste exercício despretensioso e preliminar, desmontar as estruturas de um mundo (ainda) invisível, por essência estranho à administração da ciência corrente. Uma meta-realidade que, 3 GAD AMER, H. G., oh. cit., p. 67.
por ora, afronta o magistério da razão. É por tal motivo, duplamente instrutivo, recordar a convivência sincrónica desse mundo paralelo, intra-muros ou solitário, sistematizado no elenco organizado pelo padre Jorge Cardoso, com aquele outro que, desde finais do século XVI, se começara a transmutai" em conhecimento outro, distinto, o da ciência experimental, de seguida animada pela intuição onírica de René Descartes e dos seus três "sonhos" metafísicos, e que vai distender a sua raiz pelos mais variados domínios da actividade humana. Por isso, foi e é tarefa sedutora a inventariação dos traços transculturais, de fusão entre sagrado e profano, de que vive em permanente sobressalto o discurso encomiástico de Jorge Cardoso no enunciado das virtudes dos homens e mulheres que exalta.
A demanda do invisível, do inefável, não é certamente algo que se inicie e esgote no território cultural cristão. O "homem interior" sempre existiu desde que há memória humana. No Livro dos Mortos do antigo Egipto, diziam os sábios, entre os séculos XXIV e XVII antes da nossa era, que "não há nenhuma parte de nós que seja separado do divino". E nas Purificações, de Empédocles, o profeta de Agrigente, que se atirou ao Etna, porta dos deuses subterrâneos, clamava no século V: "Não é um mortal que vedes em mim, mas um deus imortal" .
Tentemos antever, então, por entre as frestas do tempo e dos muros conventuais, a forma como os homens e mulheres da "modernidade" portuguesa foram exprimindo a sua espiritualidade, cumprindo o calvário terreno, a sua peregrinação visando o prémio da Vida depois da vida.
FONTES E MÉTODOS
O objectivo da presente dissertação pretendeu investir era duas áreas de problemas:
- primeiro, angariar um conhecimento mais dilatado e seguro do padre Jorge Cardoso, enquanto Autor dos três primeiros tomos do Agiologio Lusitano, e da sua vida, até aqui não sistematizada e reduzida a notas esparsas em enciclopédias e dicionários; do mesmo modo, obter acerca do Autor elementos originais susceptíveis de melhor o identificar e situar no contexto religioso e socioculturel da primeira metade do século XVII português e ibérico.
- segundo, promover uma análise, minimamente exemplificativa e tópica, não exaustiva, um pouco à vol d 'oiseau, dos conteúdos do Agiologio Lusitano, que frzesse emergir aspectos singulares, aparentemente "marginais" ou facetas pouco exploradas por anteriores exames a tão vasto e multitudinário universo de vivências. É sabido que a nossa historiografia só recentemente se propôs encarar o tratamento de objectos e temas, e.g., a feitiçaria, a magia, as superstições, entre outros, no âmbito de uma História das atitudes mentais, no âmbito mais vasto de uma História antropológica do Imaginário, e que até há pouco eram sistematicamente mantidos no limbo dos assuntos menos dignos e dignificantes.
1. As fontes primárias: identificação dos manuscritos
O primeiro desiderato - conhecer melhor Jorge Cardoso - foi satisfeito com a localização, nos fundos da Biblioteca Nacional de Lisboa, de três conjuntos de documentos relativos à vida e obra do Autor .
5 Inventário da Biblioteca Nacional de Lisboa. Secção XIII - Manuschptos. Collecção Pombalina, Lisboa, Imprensa Nacional, 1889-1897.
Trata-se, assim, não de textos autógrafos do próprio Jorge Cardoso, mas de uma colecção de depoimentos indirectos, da responsabilidade de vários autores, biógrafos e admiradores, dois deles, pelo menos, considerados e aclamados nos anais da historiografia setecentista. Referimo-nos, em particular, a D. António Caetano de Sousa e a D. Manuel Caetano de Sousa, o primeiro dos quais, recorde-se, acabou por assumir a publicação do 4o volume da série do Agiologio Lusitano, que ficara
suspenso de entrar no prelo por morte, entretanto, do seu instituidor . A nossa consulta permitiu a identificação dos seguintes manuscritos:
- Ms 244, fis. 88-170. Memórias dos livros do Lie. Jorge Cardoso, com index
alfabético desses livros escritos por letra de D. Manuel Caetano de Sousa.
- Ms 350, fis. 39-41. Auctores que alegaram Jorge Cardoso em suas vidas. - Ms 628, fis. 23-86, D. Manuel Caetano de Sousa, Memórias e documentos
para a história da vida de Jorge Cardoso, autor do "Agiologio Lusitano".
Originais, em parte autografados e cópias in-fobo e in 4o; fis. 102, 108-110, e
115-130, Cópia do testamento do padre Jorge Cardoso, autor do "Agiologio Lusitano",
falecido a 3 de Outubro de 1669. Letra do século XVTJI; Lista de pessoas que forneceram notícias ao padre Jorge Cardoso para esta obra. Notícias várias do A. e
da obra. Cópia do século XVIII; Luís Pereira de Sousa, Cartas ao padre José Caetano de Avelar, mandando informações acerca do P. Jorge Cardoso, s/d. Três
originais autografados do século XVtlI;
'"' D. António Caetano de Sousa, clérigo regular teatino, duas vezes Preposito na Casa de S. Caetano. Deputado da Junta da Bula da Cruzada, um dos primeiros cinquenta Académicos dit Academia Real da História. Nasceu em Lisboa a 30 de Maio de 1674 e morreu na mesma cidade a 5 de Julho de 1759. As suas obras de referência são a História Genealógica da Casa Real Portuguesa..., Lisboa, 1735-1748, e Provas da
História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Lisboa, 1739-1748, além do Agiologio Lusitano dos Santos e Varões em virtude do reino de Portugal e suas conquistas, Tomo IV que compreende os meses de Julho e Agosto, e com seus comentários, Lisboa, Reg. Oficina Silviana, 1744. (Cf. SILVA, Inocêncio Francisco da. Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, Tomo I, 1858, pp. 101-3).
D Manuel Caetano de Sousa, clérigo regular teatino, pro-comissário-geral a Bula da Cruzada, académico da Academia Real da História. Nasceu era Lisboa a 25 de Dezembro de 1658 e morreu a 18 de Novembro de 1734 A sua produção literária é marcada por sermões e elogios fúnebres e dele se regista na Colecção de
Documentos e Memórias da Academia Real da História, de que este benemérito padre foi, por assim dizer, o
fundador principal, muitos Discursos, Dissertações e Contas Académicas dos seus estudos" (Cf. supra SlLVA,Inoccncio Francisco da, ob. cit., Tomo V, 1860, pp. 383-4).
O estado das cópias dos manuscritos, a que acedemos por microfilme, sendo razoável, no cômputo dos espécimes documentais, mostrou-se notoriamente medíocre no que respeita ao testamento do padre Jorge Cardoso, peça quase ilegível em largas porções. Felizmente, a compulsão dos restantes manuscritos permitiu a recolha e a confrontação dos detalhes originais no relativo às disposições das derradeiras vontades do sacerdote e, por inerência, à composição da família do testador e respectiva hierarquização dos legados, sua distribuição e conteúdo. Registe-se igualmente que os documentos citados repetem e duplicam bastantes informações, por exemplo no que respeita à descrição da biblioteca de Jorge Cardoso, índices onomásticos de escritores, e citação respectiva no volume/página do Agiologio Lusitano, autores que o elogiam ou aportam elementos para o seu trabalho hagiográfico, etc.
Outras dificuldades e dúvidas ficaram a pairar, depois de investigados aspectos que têm a ver com a tentativa de identificação de alguns dos subscritores constantes dos manuscritos. Além dos dois referidos e notórios académicos, Manuel e António Caetano de Sousa, dos nomes do padre José Caetano de Avelar, Manuel Leal e D. Gregório da Silva, não nos foi possível averiguar das respectivas personalidades ou currículos, uma vez que nem os solícitos Inocêncio da Silva e Diogo Barbosa Machado lhes concedem qualquer linha.
Já no que toca ao padre Fr. Afonso de Deus Guerreiro, ficamos a saber, numa referência evocativa de Jorge Cardoso, apresentava possivelmente por D. Manuel Caetano de Sousa, que se tratava de um "Diligentíssimo Académico". Aí se confirma que, tendo o citado Frei Afonso acedido ao catálogo original manuscrito dos livTOS de História Eclesiática do autor do Agiologio Lusitano, "mo communicou
com a sua singular benignidade do qual eu (D. Manuel; fiz tirar huma copia"
Podemos, deste modo, aceitar como provável que uns e outros seriam confrades inter pares das letras, presume-se, todos eles coevos de entre a segunda metade do século XVII e a primeira do século XVIII Este círculo epistolar é concretizado, aliás com atitudes de respeito e deferência, por exemplo no caso do padre José Caetano de Avelai", destinatário privilegiado das informações prestadas
o
por Luís Pereira da Silva, no tocante a detalhes da vida de Jorge Cardoso . Curiosamente, este informador terá sido o único a deixar rasto nas nossas resenhas bibliografias clássicas. De facto, Inocêncio da Silva regista um Luís Pereira da Silva "cuja pátria e estado de vida se ignora" e que escreveu a Vida de D.Alda e D.
Urraca, religiosas beneditinas, editada em Luca e com data de 1630. O bibliógrafo
remete a indicação primária para Barbosa Machado, questiona se o livro é em Português e diz desconhecer qualquer exemplar do mesmo algures .
Aparentemente, poderia ser um bom candidato ao nosso informador. No entanto, o problema complica-se um pouco, em termos de exagerado assincronismo - um escritor publicado em 1630 dificilmente seria contemporâneo de alguém que faleceu em 1734... - porquanto nesta relação epistolar é frequentemente nomeado um "D. Manuel", objectivamente o destinatário último das informações sobre Jorge Cardoso veiculadas pelo padre José Caetano de Avelar.
Neste sentido, o aludido "D. Manuel" será muito provavelmente D. Manuel Caetano de Sousa, enquanto provado organizador maioritário das memórias referentes ao Autor do "Agiologio" e meritório par da Real Academia. O académico teria sido, ao que tudo indica, auxiliado também pelo padre Avelar, o qual por sua vez, requisitava "diligências e notícias" a terceiros, como o também citado Manuel Leal e, eventualmente, a outros correspondentes, nessa tarefa de angariação de informações acerca da vida do hagiógrafo português. É bem plausível que D. Manuel Caetano de Sousa tivesse projectado a publicação de uma biografia exaustiva do
* Idem,í\s. 108-111.
9 SILVA, Inocêncio Francisco da, - Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional, Tomo
padre Jorge Cardoso. Esta hipótese fundamenta-se, sem grandes equívocos, em dois extractos dessas cartas assinada pelo citado Luís Pereira da Silva:
"Senhor Padre Josep Caetano de Aveliar V.P. me fora muito fazer prezente ao Senhor D. Manuel, que da sua deligencia me nao tenho descuidado, e que a noticia que me deu Manuel Leal vai nesse papel (...) "
"(...) Se o Nosso Senhor D. Manuel quizer que eu faça mais algua deligencia farei todas asim eu tivera afortuna de ter o gosto achar as noticias que me
encarrega. "u
Uma outra ordem de problemas tem a ver com a atribuição das autorias dos diferentes assentos de informação, cuja múltipla interpolação é sintomaticamente evidenciada no manuscrito 628, com crescente destaque a partir de fis. 43. Esta fonte foi indubitavelmente redigida e completada, na sua quase totalidade, com aditamentos em períodos sucessivos, pelo menos por dois autores, de acordo com distintas caligrafias, revelando-se o tardio (D. António Caetano de Sousa?) contumaz corretor de dados anteriores (da responsabilidade de D. Manuel Caetano de Sousa?) sobre a vida e morte do padre Jorge Cardoso. Acresce que a ausência de datação dos documentos não beneficiou o esclarecimento da sua sequência cronológica, embora algumas datas insertas em diversas passagens do ms 628 possam ajudar, tão só, a fixar a sua produção, total ou parcial, posterior a 1709, por exemplo .
De resto, o texto colocado à direita, a partir do folio 52, notoriamente uma caligrafia mais "depurada" e acessível, reproduz sem equívocos o que terá sido uma evocação do autor do Agiologio Lusitano, ao jeito de memória, apresentada à Academia Real da História, acto que só poderia ter sido concretizado após o dia 8 de
10 B.N.L., Ms 628,0.111. 11 Idem, fl.110.
12 Idem, 0. 46. Quem o manuscreve diz que "na sua Bibliotheca Lusitana (do padre Francisco da Cruz)
não fazia menção dos autores que só tinhaõ impresso hum sermão ou outra obra miúda assi mesmo no anno de 1709 (...)".
Dezembro de 1720, data em que D. João V criou a instituição. E, sabendo-se que o seu primeiro presidente e principal inspirador foi precisamente D. Manuel Caetano de Sousa, desvanecem-se as dúvidas quanto à produção epocal deste segmento dos manuscritos e reforça-se substancialmente a hipótese do discurso ser da autoria daquela académico ".
Assim, quem corrige quem?. Permanece a dúvida. Sabemos que D. António Caetano de Sousa sobreviveu 25 anos ao seu confrade, pelo que, aparentemente será ele o responsável por sucessivas alterações e complementos de informação sobre o padre Jorge Cardoso. Mas, terá sido o único a interpolar e a fazer anotações ? Possivelmente não. O próprio Diogo Barbosa Machado (1682-1772) surge como um excelente candidato responsável por aditamentos vários a estas informações originais: é igualmente membro da Academia Real da História e referido nos manuscritos, a dado passo, como "o nosso doutíssimo Académico e Beneficiado" . O facto é que também no pressuposto texto mais antigo há também cortes integrais de parágrafos e sucessivas emendas sobrepostas. Duas outras caligrafias distintas, uma delas de traço quase inapreciável, suportam esta hipótese. Estas intervenções, mais ou menos indistintas, são assinaladas por diferentes signos e modalidades:
- os folios do ms 628 surgem divididos em duas "colunas"; a metade direita (a) seria, assim, mais antiga e da autoria de D. Manuel Caetano de Sousa; as observações tardias, vão sendo assinaladas à esquerda, através de sinais do tipo * ou
A no texto primordial, ao jeito de chamadas das notas escritas na metade esquerda
(b) dos folios;
13 Cf. SERRÃO, Joel (dir). Dicionário de História de Portugal, Porto, Livraria Figueirinhas, Volume 1, p.
14 c ms. 628, fl 54. Na conclusão da sua memória, o autor alude aos •'Doutíssimos Livros (de Jorge
Cardoso), os quaes ser\>em de vivíssimo estimulo a todos os que escrevemos nesta Academia, pois vemos o muyto que investigou hum clérigo pobre sem o socorro dos Archivos que nos abrio a Real maõ do Nosso Augustissimo Protector, e sem a facilidade de imprimir os seus escritos que a generosidade Real franqueou nesta Academia, e admirando que hum só homem empreendeu o assumpto que nesta Real Academia esta repartido por catorze (...)".
- há informações seguidas de espaços em aberto, como que o autor esperasse os elementos em falta para posterior inscrição no texto .
- além disso, o autor (ou autores) tardio não hesitou em anular, em diferentes ocasiões, com dois ou três traços oblíquos, o texto precedente; inclusive, é usual cortar com um traço linhas de texto julgadas inexactas e escrever por sobre elas a versão que entende exacta. A titulo de exemplo, compare-se as versões (alteradas por corte e sobreposição de escrita) da informação sobre os derradeiros momentos da vida do padre Jorge Cardoso e localização da respectiva sepultura:
Versão 1 : "Finalmente gastado dos estudos e dos achaques faleceo
Jorge Cardoso em Lisboa em 3 de Outubro de 1672 (ác) (A) e foy levado à
sepultura na Tumba dos Clérigos da sua Irmandade de S. Pedro e S. Paulo. Ainda ignoro o lugar da sua sepultura por que dizendoseme que era na Igreja Parochial de S. Justa fiz deligencia por certificarme e naò se acha tal noticia nos Livros da quella parochia mas onde quer que esteia a sua sepultura sempre lhe servirão de gloriosa inscripçaõ sepulcral os seus Doutíssimos Livros os quaes servem de vivíssimo estimulo atodos os que escrevemos nesta Academia
(...)
Versão 2 (com substituição ou eliminação das palavras sublinhadas na anterior): "Finalmente opprimido mais dos estudos das penitencias que do pezo
dos armos faleceo Jorge Cardoso em Lisboa em 3 de Outubro de 1672 (sic) (* à esquerda: sendo de idade sessenta e cinco annos, oito meses e vinte e sette dias) e foy levado na Tumba dos Clérigos da sua Irmandade de S. Pedro e S. Paulo à sepultura de seus antepassados que esta na igreja Parochial de S. Justa junto à porta principal sempre lhe (...)
15 Idem, fl. 54. Exemplo: "Começou esta impressão ( do 2o tomo do Agiologio Lusitano) na Officina de
como diz João Franco Barret to na Bibliotheca Lusitana (...)".
Mescla prolixa de contributos, alguns pouco claros no seu ordenamento e autoria, os manuscritos identificados constituem, de algum modo, a reserva documental mínima para que seja viável o esboço de um retrato do nosso personagem principal, condutor desta incursão pelo reino das "virtudes" cristãs.
2. Delimitação cronológica e constitutiva do corpus
À margem dos elementos captados nas fontes manuscritas já enumeradas, o presente trabalho tomou por base os três primeiros volumes da obra Agiologio
Lusitano, da responsabilidade do padre Jorge Cardoso, do total de quatro volumes
desta impressionante reserva de "santos e varões ilustres em virtude", espelho das expressões e modalidades mais vincadas da experiência monástica portuguesa e da(s) espiritualidade(s) a ela associada(s).
Recorde-se, então, a sequência de publicação dos volumes que sujeitámos à nossa proposta de análise:
- "Agiologio Lusitano / dos / Sanctos e Varoens / illustres em virtude do reino
/ de Portugal, e suas conquistas / consagrado / aos / Gloriosos S. Vicente, e S. Antonio / insignes Patronos desta inclyta cidade Lisboa / Composto / Pelo Licenciado George Cardoso / natural da mesma cidade / Tomo I / Que comprende os dousprimeiros meses Janeiro & Fevereiro /Com seus comentários Em Lisboa/ Com todas as licenças / Na Officina Craesbeekiana M.DC.LH".
- "Agiologio Lusitano (...), Tomo II Março & Abril Lisboa Na Officina de
Henriques Valente d Oliveira/ Anno 1657".
-'Agiologio Lusitano (...), Tomo III/Maio & Junho /Lisboa Na Officina de Antonio Craesbeeck de Mello /Anno 1666 ".
A colecção é completada pelo IV volume, escrito sob a responsabilidade de D. Antonio Caetano de Sousa, extensivamente intitulado:
- "Agiologio / Lusitano / Dos / Santos e Varões / Illustres em virtude / Do
Reino de Portugal e suas Conquistas Consagrado / À Imaculada / Conceição Da Virgem /Maria / Senhora Nossa /Padroeira do Reino / Composto / Por D. Antonio Caetano de Sousa / CR Deputado da Junta da Bulia da Cruzada / Tomo IV Que comprehende os dous mezes de Julho e Agosto e com seus Com- / mentarios / Lisboa / Na Regia Officina Sylviana e da Academia Real / M DCC. XLIV / Com todas as licenças necessárias ".
Porquê apenas os três primeiros tornos e não os quatro que compõem a totalidade desta hagiografia? A opção tem a ver com a estratégia metodológica prosseguida nesta abordagem, de acordo com critérios que julgámos os mais adequados. Num primeiro momento projectou-se:
a) - a elaboração de uma amostragem de protagonistas das modalidades e disciplinas da espiritualidade seiscentista em Portugal e nos limites territoriais do seu Império: definiu-se esse corpus em função de uma desejável contemporaneidade
dos religiosos e do padre Jorge Cardoso, como forma de verificar qual o controlo exercido pelo recenseador sobre as informações e testemunhos invocados no seu piedoso repertório.
Tentámos avaliar, através desse contacto, em bastantes casos pessoal, com os religiosos seus coetâneos, o modo qualitativo como o Autor regista uma "factualidade" que, aos olhos da razão normativa de finais do século XX, poderá parecer e ser apenas, e depreciativamente, irracional. É que, ao invadirmos a esfera das invocadas manifestações extraordinárias no plano religioso ou laico, facilmente incorremos na dicotomia credulidade/incredulidade e em que as cotas de probabilidade real das ocorrências são geralmente entendidas como mínimas ou nulas. Exemplo: as espectaculares levitações de místicos aconteceram mesmo? Ou não passam de topoi, lugares-comuns de uma cultura trans-confessional de justificação de santidade? Reais ou não, foram considerados epifenómenos típicos,
suficientes mas não necessários, de estados da via unitiva? Valorizados de que modo pelo escritor? Enfim, algumas questões e implicações que procuraremos ampliar na nossa "Conclusão".
Então, como se documenta o Autor? Que testemunhas alega? Que crédito extrai delas e que segurança induz no leitor? Ilimitado? Relativo? Ou é irrelevante e/ou inexistente a sua preocupação em provar o que quer que seja? Este conjunto de problemas é respondido ou não em função do tipo de fontes, directas ou não, angariadas pelo Autor. Verificámos, de igual modo, que referências indirectas, com suporte documental - por exemplo, recolhidas oralmente ou por escrito, pelo Autor, junto de pessoas que privaram directamente com os religiosos da mostra - foram
utilizadas como caução de alegados feitos extraordinários, dos dominios da paranormalidade, entendidos como sinais de intervenção miraculosa, de fonte
supranatural.
De todas essas fontes, buscámos obter breves indicadores do grau de valorização, reprodução e aceitação social do elemento "maravilhoso", de matriz cristã, na paisagem epocal das atitudes mentais, "construtoras" dessa Realidade. Ensaiámos uma breve reflexão sobre a plausibilidade de ocorrência de factos extraordinários, a sua função/interpretação e a sua permanência/resistência transversal às sociedades no espaço e no tempo.
Para procurar satisfazer este desiderato essencial decidimo-nos por um corte cronológico que fosse largamente coincidente, como sugerimos, com o período de vida de Jorge Cardoso (1606-1669). Deste modo, a selecção dos exemplos biografados foi contida entre 1600 e 1660, contemplando-se os religiosos que tenham falecido entre essas datas-limite. Observar-se-á, com alguma pertinência, que se Uata aqui, afinal, de sentimentos religiosos do catolicismo expressos ainda em pleno século XVI português.
De facto, muitos dos seleccionados da amostragem viveram ainda parte da sua vida nas últimas décadas da centúria anterior, conquanto em termos mentais tal não
nos pareça relevante, para os propósitos aqui expostos. Em primeiro lugar, trata-se de atitudes, práticas e crenças, pessoais e colectivas, estáveis e transportadas de um século para o outro, afinal uma "ponte" convencional sem interferência nas infraestruturas básicas que estudamos. Depois, a ênfase da investigação centra-se no
corpus reconstituído a partir do Agiologio Lusitano, produto cultural claramente
seiscentista, e cuja revisão possível pretende enunciar modelos e práticas de uma espiritualidade referida a uma conjuntura longa, sob o magistério, sublinhe-se, da herança tridentina. Em suma, um Tempo que poderemos designar de a-histórico, ao fim e ao cabo, um Tempo de salvação.
De facto, alegando, como Krzysztof Pomian, que "qualquer periodização é para o historiador uma golilha", cada época patenteia uma "coexistência de assincronismos", para usar a síntese de Witold Kula n É precisamente para esta
dissonância temporal, no tocante aos ritmos de difusão da Reforma Católica, que Jean Delumeau atenta na obra "Catolicismo entre Lutero e Voltaire", mostrando que em grande parte da Europa o processo tinha começado por volta do ano 1600, contrariando a visão cronológica traçada por outras perspectivas que davam por conclui do o reformismo romano no dealbar do século XVII.
De facto, contrariando esses cortes cronológicos artificiais, o historiador francês chama a atenção para a lenta aplicação e introdução das consequências do Concílio de Trento "nos costumes, nas instituições e nos corações", situando os seus efeitos, no caso de França, a partir da segunda metade do século XVII e princípios do XVIII n.
Num primeiro esboço da investigação havíamos sido tentados considerar a totalidade das situações-tipo, relativos a recorrências e motivos que profusamente ilustram o mundo do miraculoso cristão. Só que, na prática, seríamos obrigados a
17 Cf. Kr. Pomian, artigo "Pcriodísation", La Nouvelle Histoire, Paris, 1978, pp. 455-457, apud Le GOFF, Jacques, O Imaginário medieval, Lisboa, Ed. Estampa, 1994, pp. 20 e 40, nota 2.
percorrer o transcurso do tempo e espaço do Cristianismo, ou seja, 16 séculos, um cenário ciclópico e superlativo que a prolífica pena de Jorge Cardoso conseguiu -mesmo que parcialmente - transportar para o seu Agiologio... Missão impossível face aos limites e à pragmática dos objectivos.
Deste modo, reavaliando-se o quadro temporal e delimitadas as questões a investigar estabeleceu-se, de seguida, o segundo momento catalizador da informação devidamente filtrada:
b) - uma "grelha" sistematizadora de nove parâmetros individuais que resenhasse um perfil individual, social e cultural e do estado religioso da amostragem angariada: estreitadas e definidas as fronteiras temporais, conforme
assinalámos, por motivos à vista, ocupámo-nos com os problemas quantitativos da amostragem que pretendíamos significativa: quem e quantos religiosos seleccionar? Por que critérios?
A leitura minuciosa, página a página, caso a caso, dos homens e mulheres consagrados pelo Autor, fez-nos optar por casos-tipo, minimamente informativos e documentados ou em que as especificidades do programa a investigar e as questões que julgamos nucleares fossem patenteadas. Expurgámos, sem hesitações, as nótulas obituárias que tivessem a finalidade única, piedosa, de assinalar, aos presentes e vindouros, "o feliz remate" de uma vida.
Essa revisão, pelos três volumes considerados, levou à constituição de um núcleo de 211 casos, número que corresponde a 9,4% da globalidade dos religiosos contemplados no "Agiologio", ou seja, 1986 resenhas biográficas, assim distribuídas: Tomo 1: 685; Tomo II : 642; Tomo ID : 659 .
19 Repetimos aqui a observação de Alphonse Dupront a propósito da quantificação da amostragem: '^Nunca é totalmente desingularizante, partindo da história. Contribui com uma base sólida de um "comum" que é sobretudo visão mental de similitudes", in "A religião - antropologia religiosa", Fazer História, 2, Amadora, Livraria Bertrand, 1981, p. 122.
3. Perspectivas metodológicas em antropologia histórica e religiosa
"Uma história sem o imaginário é uma história mutilada e descarnada". Deste modo se exprime Jacques Le Goff ao introduzir a sua inovadora exploração na obra "O Imaginário Medieval" 2l. O historiador francês queixava-se, no mesmo ensaio,
que "a Idade Média produzida pelos nossos estudos universitários é uma Idade Média sem literatura, sem arte, sem direito, sem filosofia e sem teologia" .
O que Le Goff diz para a medievalidade pode ser aplicado ao período que considerámos neste estudo. Parece-nos, aliás, que esta Idade Média cronológica, criada pelos humanistas em finais do século XV, sobrevive em muitos dos interstícios mentais, e não só, deste período "moderno"que aqui encaramos. De facto, é hoje pacífico entre os historiadores que a noção hodierna de progresso teve uma consolidação paulatina, nos meios científicos europeus, num dilatado movimento secular entre 1620 e 1720, acabando por se generalizar nos domínios da
23
história, da filosofia, entre outros ~.
Deste modo, a detecção de sobreposições de modelos de vida mental e das suas cristalizações revela-se um campo fértil ainda em vias de expansão na actual historiografia. As desestruturações da mentalidade colectiva não se faz ao mesmo ritmo das acções materiais. Uma arritmia que se repete, na nossa contemporaneidade: enquanto as mutações tecnológicas e científicas se fazem a progressão geométrica, as evoluções mentais são quase imperceptíveis .
Se estudar o imaginário de uma sociedade é, como sustenta Le Goff, "ir ao fundo da sua consciência (...) à origem e à natureza profunda do homem" ,
21 Lisboa, Editorial Estampa, 1994.
22 O investigador escrevia assim no Prefácio da 1a edição da obra citada, com data de 1985, retomando o que
havia já escrito, em 1977, sob o titulo Pour un autre Moyen Âge. Daí para cá, alguma coisa, entretanto, se alterou nas opções historiográficas dominantes.
23 Cf. Eugénio Garin, Moyen Âge et Renaissance, tradução francesa, 1969, p. 12., apud LE GOFF, Jacques,
ob. cit., p. 19.
24 Cf. R. Mandrou, História e Historicidade, Lisboa, Gradiva, 1988, p. 73. 25 Ob. cit., p. 17.
confirma-se, então, a plena utilidade das hagiologias, como o repertório organizado pelo padre Jorge Cardoso, na edificação de uma antropologia histórica e religiosa, investimento que se encontra longe da exaustão. O seu cruzamento com fontes de diferentes matrizes culturais, religiosas e temporais, pode ajudar a (re)colocar questões e problemas novos, especialmente quando se assiste hoje, em territórios disciplinares, aparentemente inconciliáveis, das ciências físicas às sociais e humanas, a uma discreta reformulação da "inteligibilidade do real", por exemplo no que diz respeito, precisamente, "à superação de algumas dicotomias instauradas pela
Revolução Científica do século X W .
Dissolvida, ou ao menos atenuada, as incompatibilidades entre historiadores
tout court e cientistas sociais, admitido o esclarecimento mútuo entre o passado e o
presente, recorde-se Fernand Braudel citando Lévi-Strauss: "é impossível que a antropologia, ao ser a própria aventura do espírito, se desinteresse da história . Nesta ordem de preocupações epistemológicas, investigadores, como Dominique Julia, questionam-se se "a revitalização da história religiosa não estará ligada aos
T O problemas que o aparecimento do imaginário faz surgir na nossa sociedade?" . Ou
seja, a mesma sensibilidade quanto à revisão de conceitos - matéria/espírito, determinismo/liberdade, natureza/cultura, p.ex. - atrás evocada.
Como encarar, pois, os sentimentos, as expressões religiosas? O tratamento científico de uma religião não pressuporá que a tratemos apenas como uma representação, um produto cultural, desobrigada do seu estatuto legitimador, fundacional de uma sociedade? Para Dominique Julia "o que interessa não é o
:ú Cf João Maria André, "Da mística renascentista à racionalidade científica pós moderna. (A propósito da aniculação entre ciência, filosofia e misticismo cm Nicolau de Cusa), Revista Filosófica de Coimbra, vol. 4, n° 7 Março 1995, p. 83. O autor chama a atenção para o facto desses "esboços conceptuais se encontrarem nos caminhos de que a ciência setecentista se quis afastar: o fundo inesgotável da percepção mística e, em alguns casos, alquímica, da realidade. E cita exemplos de físicos, como Wolfgang Pauli, o qual profetizava o futuro da ciência e do pensamento ocidental na "articulação entre o pensamento místico e o pensamento crítico-racionar', ob. cit. p. 84.
27 Cf. História e Ciências Sociais, Lisboa, Ed. Presença, 1972, p. 31.
estatuto de verdade dos enunciados religiosos que estudamos, mas a relação que esses enunciados mantêm com o tipo de sociedade ou de cultura que os explicam" .
Mas, contraporá o "advogado do diabo", o operador-reconstrutor da história enfrenta indisfarçáveis aporias: poderão os nossos conceitos e categorias actuais (ou de outro tempo) compreender o que é fundamentalmente outro, diferente! Buscar explicações, descortinar ritmos e cortes é tudo quanto ao historiador das mentalidades se lhe pede. Não se espera que desvele o significado último das ideologias. Nem a distinção microscópica entre "verdade" e "realidade". Mas nada o impede que tente elucidar a permanência/plasticidade de determinados fenómenos e respectivas apreciações epocais.
Que poderá fazer uma análise de antropologia histórica e religiosa? Aconselhámo-nos com o roteiro apresentado, com minúcia observacional, por Alphonse Dupront, sobre as inumeráveis pistas a desbravar neste campo e de que, neste prolegómeno de ensaio, tentámos apenas rastrear algumas .
a) - a observação da noção de Tempo na experiência religiosa; o "ralenti", o longo prazo, a eternidade, ou antes, a extratemporalidade assumidos pelo colectivo, pela comunidade;
b) - as relações de participação entre natural e sobrenatural; as oposições e conciliações entre a sociedade eclesiástica e as sacralidades cósmicas, populares, pagãs;
c) - o retrato do intra-humano: o menos cientificamente visível, o inventário dos valores ditos sagrados, os interditos, as pulsões, a vida do irracional na memória colectiva cuja dinâmica "existencial" procura o Outro, enquanto ultrapassagem e realização, superação e sublimação;
29 ibidem, p. 160.
d) - a consagração do lugar, o enraizamento teofànico pela aparição ou
mensagem; os mitos e lendas que ligam, a nível da existência e da consciência
colectiva, natural e sobrenatural, outras tantas vias por onde o ser humano procura a
sacralização da presença;
e) - o sagrado-objecto: o culto dos corpos santos ou de relíquias, a latria das
imagens; os cultos terápicos - as soteriologias ensinam os meios de vencer a morte
ou de ressuscitar;
f) - o inventário da profecia: que resíduos de motivações tradicionais,
crispações ocultas, medos, vinganças?
Penetrar neste "santuário" humano, que o nosso Agiologio Lusitano
representa, em toda a amplitude do termo, "é sem dúvida iluminar vias de
T I
crescimento, pulsões e silêncios, todo o não-dito da dado antropológico" .
CAPÍTULO I
O AUTOR EA OBRA
1. O padre Jorge Cardoso - a descoberta de uma vida (1606-1669)
Louvado por muitos intelectuais o autor do Agiohgio Lusitano não foi carente de encómios ao ter encetado, embora não concluído, esse imenso e inesgotável filão de "vidas virtuosas". De um amplo leque de tratadistas e personalidades religiosas, coevos e tardios, podemos colher laudatórias referências sobre Jorge Cardoso na colectânea de manuscritos que identificámos.
Citemos alguns:
"O R.mo Sr. D. António Caetano de Sousa no Catalogo dos Bispos do Funchal, que anda na Collecção do primeiro anno, tratando de D. Fr. Lourenço de Távora, na ultima regra diz: o insigne Jorge Cardoso".
"O R.mo Sr. D. Rafael Bluteau, transcrevendo a Jorge Cardoso diz: ate aqui o Laborosissimo, e zelosíssimo das glorias da sua Pátria, o Licenciado Jorge Cardoso. Historia da Academia, Tomo Io. pag. 101".
"Fr. Belchior de Santa Anna no V Tomo da Chronica dos Carmelitas Descalços deste Reyno, Livro Io. cap. 12, pag. 67. num. 77. affirma, que
Santiago veio a este Reyno, e que delle recebemos a Fé, e o Bautismo; e conclui o dito numero dizendo como descobrio, com incansável estudo, grande engenho, e curiosidade nunca bem tomada, o licenciado Jorge Cardoso, a quem o Reyno deve imensas graças, pelo zelo de verdadeiro Portuguez, com que tratou de honrar a pátria, publicando ao mundo todo no seu Santo Agiologio, a multidão de Santos, que tem gerado" \
Diogo Barbosa Machado foi dos autores mais atentos à biografia do nosso escritor e seguramente teve acesso aos manuscritos que atrás identificámos. Uma comparação entre as referências contidas na sua "Biblioteca Lusitana" e o ms 628, no que concerne às menções de autores coevos ou não de Jorge Cardoso, confirma essa consulta e reprodução de citações peto erudito bibliógrafo .
Assim, este último informa-nos que "sendo (JC) naturalmente modesto e inimigo declarado da vão glória, não podia evitar a distinção com que era tratado pelas primeiras Pessoas da Hierarquia Eclesiástica, quais foram o Arcebispo Primaz D. Rodrigo da Cunha; D. Pedro de Alencastro, Inquisidor-Geral e depois Duque de Aveiro, o capelão-mor Luiz de Sousa, depois arcebispo de Lisboa e cardeal da Igreja Romana, que muitas vezes o trazia em seu coche (...)". Sublinha amda o "merecimento de tão grave eclesiástico cuja fama saindo dos limites da Pátria retumbou com tão glorioso eco em os Reinos estranhos que os mais célebres eruditos procuravam com oficiais cartas a sua amizade(...)" ".
Será curioso alinharmos uma resenha de epítetos que os contemporâneos atribuíram ao escritor, num estilo habitualmente pleonástico, refinado pelo bilinguismo clássico, e que para Barbosa Machado são "elegantes expressões por gravíssimos Autores":
"Virum doctissimum" (Padre João Bolland);"esplendor das Lusitanas virtudes" (Frei Manuel da Esperança);"curioso antiquário e diligente investigador de memórias " (Nicolau de Santa Maria); "eruditíssimo " (Padre António Cordeiro",
2 Da mesma opinião comungam Justino Mendes de Almeida c Maria Isabel de Mello Moscr. Não apenas
Barbosa Machado mas também Inocêncio da Silva teriam compulsado a maioria das notas aqui analisadas. Aqueles investigadores destacam a riqueza informativa da obra de Jorge Cardoso, mormente no que toca a referências arqueológicas, epigráiicas, heráldicas, genealógicas, literárias, etc., da história pátria. Cf. "O Agiológio Lusitano, do Padre Jorge Cardoso, como fonte hístórico-cultural", Actas do Congresso de História
no IV Centenário do Seminário de Évora, Volume I, Évora, 1994, p. 175.
3 MACHADO. Diogo Barbosa, Biblioteca Lusitana. Histórica, Critica e Cronológica (...), Lisboa, Oficina
de Ignacio Rodrigues, 1747, pp. 797-801. O autor enumera uma lista de cronistas, eclesiásticos e homens de cultura no espaço ibérico que manifestaram a Jorge Cardoso os seus obséquios, além de com ele trocarem informações regulares que interessavam ao labor do hagiógrafo. Dessas personalidades nos referiremos adiante.
são algumas das homenagens apontadas 4. De facto, portugueses e estrangeiros, com
destaque para os espanhóis, associaram-se na celebração unânime dos méritos de Jorge Cardoso como artífice das Letras e da História Eclesiástica: Fr. Francisco Brandão, Fr. António da Purificação, Fr. Belchior de Santa Ana, Fr. Leão de S.Tomás, António Sousa Macedo, Gregório Almeida, personalidades nacionais marcantes, alinham ao lado de Fr. Pedro S. Cecílio, Fr. Gregório Argaes, Padre Alonso de Andrade, Padre António de Orta, Marquês de Agropoli, Padre Vai de Cebro, Tamaio Salazar, entre outros do exterior, citados numa listagem de um dos documentos originais consultados como "Authores que ai legarão a Jorge Cardoso
em sua (sic) Vidas", ou seja, que registaram os méritos do autor do Agiologio Lusitano 3.
A notoriedade de JC surge uma vez mais aprovada por renomados religiosos que encabeçam um outro documento intitulado:
"Elogios feytos ao Licenciado Jorge Cardoso Autor do Agiologio Lusitano " "1 A Noticia deste Cardeal deu o Licenciado Jorge Cardoso a este Reyno como muitas outras de que esta cheo o seu Agiologio, obra taõ insygne e de tanto estudo, que se pode admirar igualmente o zelo e piedade com que esta composta, e o immenso trabalho com que o seu Autor tirou das trevas do esquecimento tantas noticias de gloriosos Santos, com que nos tem illustrado este Reyno, e avantajados a muytos outros de Europa. Manuel Severim de Faria Noticias de Portugal discurso 8 § 3. pag.26I.
2 Fr. Manuel Leal Chrysol Purificativo 3 Fr. Manuel da Esperança Hyst Seraf. f 2 4 Fr. Fernando da Soledade Hyst Seraf. f. 3 5 P. D. Rafael Bluteau Vocabul. Poriuguez" 6
* Idem, ibidem.
5 ras 350, fl. 39-40. 6 ras 628, fl. 86.
E a listagem desdobra-se em anotações de frases e encómios retirades de uma colecta de autores, memorialistas de ordens e congregações religiosas. O reconhecimento da obra de Jorge Cardoso foi praticamente repartida entre ambos os lados da fronteira nos limites da Península Ibérica. Um exemplo capital da admiração confessada dos seus pares espanhóis colhêmo-lo do documento original, igualmente referido por Barbosa Machado:
"O P. Fr. Filippe Colombo, Cronysta Geral da Religião de Nossa Senhora da Mercê, na Vida do Servo de Deos Fr. Gonçalo Dias, impressa em Madrid anno
1678. lib 1. Cap. I diz o seguinte:
Mas el cuydadoso dysvelo dei erudito Jorge Cardoso, en su Agiologio Lusitano, con que lustro la Estoria Ecclesiastica de su Pátria, y huviera concluído tan deseado trabajo en mucha gloria de los Sanctos Portugueses, si la muerte no huviera embarazado su elevada pluma en el medio de su buelo, a costa de justysimos sentimientos de los que em Madrid experimentamos su exemplar vida, y la sagrada erudicion de sus contínuos estúdios (...)
1.1. A infância e a educação religiosa
Jorge Cardoso nasceu em Lisboa, a 31 de Dezembro de 1606, na Rua dos Ourives do Ouro "em huas cazas que estaõ defronte do nicho de S. Floy, Padroeiro
daquella preciosa Arte"8. Era filho de Manoel Fernandes Henriques e de Marianna Cardoza, tendo recebido, no dia 6 de Janeiro de 1607, o sacramento do baptismo das mãos do cura Manoel Rodrigues, da paróquia de S. Julião de Lisboa Ocidental. Teve como padrinho a João Gomes, cunhado de seu pai .
7 idem, fl. 91. 8 idem, 11 134.
9 idem, £1.119: "Noticias do que se acha no Livros dos assentos dos Bautizados defuntos e cazamentos desta
ParrochialIgreja de S. Julião de Lisboa Occidental". No mesmo documento regista-se o falecimento do pai
Os seus progenitores casaram a 2 de Fevereiro de 1606, Da referida paróquia, sendo suas testemunhas dois moradores na mesma freguesia, do mesmo oficio do noivo, um lapidário e um ourives, profissão partilhada quer pelo pai de Jorge Cardoso como pelo padrinho do nascituro, conforme certifica a cópia da respectivas cartas de exame corporativo 10. Desde logo a família se desmultiplica: "Lançou Deos
a bençaõ aos dois virtuosos cazados dandolhe a numerosa prole de onze filhos dos quaes foy o primeyro " u. Barbosa Machado não coincide na descendência e diz que
o futuro hagiógrafo foi o "filho primogénito entre dez que tiveram seus pais". Acrescenta o mesmo autor que "logo nos primeiros anos mostrou génio dócil para a cultura das virtudes com pronta compreensão das ciências" .
Aliás, para o redactor dos documentos originais, a própria hora do nascimento, em 31 de Dezembro, "mea hora depois do meyo dia " reveste-se de
"circunstancias mysteriosas porque a hora do dia foy a em que Christo na Cruz prometeu o Paraizo ao santo Dimas, e deo à Pátria por filho S. Joaõ (...). E a
conjugação de factores prossegue, insondável: é o dia de S. Silvestre Papa que copiou do Imperador Constantino a veneração dos príncipes dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, de quem Jorge Cardoso viria a ser devoto e membro da respectiva Irmandade logo que ordenado sacerdote .
Assim, o pequeno Jorge "foy passando felizmente os annos da infância
entrando nos da puerícia" durante os quais foi sendo ilustrado pelos pais na
doutrina cristã, ao mesmo tempo que "lhe facilitarão exercícios de 1er e escrever,
com que foy singular porque lia as letras mais dificultosas, como saò todas as
Rua dos Ourives, mas notifica-se que o "acento do Fallecimento de Marianna Cardoza não se acha no
Livro dos Defuntos desta Igreja ".
'■'■'■ Idem, fl.132-3: a "Carta de examinação de João Gomes Padrinho do Doutor Jorge Cardoso em o Livro Segundo que serve dos assentos das examinações do officio de ourives do ouro e Lapidarias (...) " reporta-se
a 25 de Agosto de 1597; a do pai de Jorge Cardoso refere-se ao dia 23 de Março de 1605: Sendo juizes do
officio de ourives do Ouro Jorge Francisco das obras, e Thome da Costa dos poezos, se examinou Manoel Fernandes Henriques de idade de 28 anos (...).
11 Idem, fl. 25.
12 MACHADO, Diogo Barbosa, oh. cit. p. 797.
gothicas e antyguas". Ao mesmo tempo, a partir de 1607; Roma decide com regular
frequência elevar aos altares da catolicidade vários dos seus filhos, uma sequência de beatificações e canonizações cuja oportunidade o biógrafo interpreta como
"multiplicados patrocínios " , não menos significativos .
Mas, se não temos uma prova directa do seu punho, dizem-nos os documentos que "a sua letra era qual convinha quem havia escrever muytas obras, bem
formada, distinta, clara e miúda, assim a conservou ate (?) o fim da sua vida" .
Quando perfaz 11 anos de idade é iniciado nos estudos da Gramática (1617) e quatro anos mais tarde vêmo-lo nas classes do Colégio de Santo Antão "aprendendo ao
mesmo tempo as virtudes e os Livros, de mestres tão doutos como exemplares. Ali foy discípulo do Grande P. Francisco de Macedo"16, apelidado por Barbosa
Machado de ''oráculo de erudição sagrada e profana"17 , saindo Jorge Cardoso
''eminentemente versado como e esperava da excelência do mestre e da aplicação do discípulo" 18. Paralelamente, revela o jovem estudante as primícias do seu estro na composição lírica: "dos progressos que fez na poesia saõ abonado estimulo os
Hymnos do Officio Menor dos Santos Portugueses que saõ em elegantisssimo verso sapphico^ .
'■' Idem, £1.26.
5 Idem, ibidem. 6 Idem, ibidem.
"O padre Francisco de Macedo entrou para a Companhia de Jesus a 10/7/1623 onde ensinou Filosofia e saindo por justificadas causas da Religião. Continuou os seus estudos na Universidade de Coimbra cora tanto progresso da sua aplicação que mereceu ser enumerado entre os Doutores Teológicos daquela grande Academia. Foi cónego da Colegiada de Barcelos e um dos bons pregadores do seu tempo de cujo argumento publicou: Sermão da Soledade da Mãe de Deus pregado na Colegiada de Barcelos em o ano de 1675, Coimbra, por Manuel de Carvalho; Sermão da Invenção da Santa Cruz com a circunstância das Milagrosas
Cruzes que aparecem no dito dia em Barcelos pregado na sua Colegiada, ano 1673, Coimbra, pelo dito
impressor, 1675". Cf. MACHADO, Diogo Barbosa, oh. cit., Tomo II, p. 178.
s MACHADO. Diogo Barbosa, oh. cit. pp. 797.
9 ms 628, fis. 27 e 54. Além do Agiologio Lusitano (3 Tomos), Jorge Cardoso escreveu as seguintes obras:
Oficio Menor dos Santos de Portugal tirado de Breviários e memorias deste Reyno, Lisboa, por Pedro
Craasbeek, 1629; Relação da fundação do Convento da Madre de Deus de Religiosas Franciscanas (...), Lisboa, 1629 (citado no A.L., Tomo I, p. 375); Officium parvum de Corona Spinea Domini in usum
privatorum (citado no A.L., Tomo 3, p. 72, data não referida); Dois Santuários de Portugal e das milagrosas imagens de Na Sr" aparecidas neste Reyno, ms. (citado no A.L, Tomo I, pp. 9,62 e 75, Tomo II, pp.296 e 319<e Tomo II, p. 66); Tiaras Lusitanas, ms. (citado no A.L., Tomo Tl, pp. 17 e Tomo III, pp. 84,166 e 496)
O futuro estava, todavia, já delineado para o jovem filho do ourives Manoel Henriques:
"Como seus pais criarão a este filho para o estado eclesiástico querendo consagrar a Deos as primicias do seu fecundo thalamo entregaram-no a seu Padrinho o Padre Christovaõ Garcia, para que o criasse com a doutrina mais conveniente para aquelle estado (...). Recebida a primeira tonsura renunciou a seu favor o Padre (no original) Simões hum Beneficio que tinha na Collegiada da Igreja parochial de S. João Baptista da villa de Abrantes, para o que alcançou Bulla do Papa Gregório XV expedida em Roma em 12 de Outubro de 1622 a qual lhe chegou em 31 de Dezembro do mesmo anno dia em que Jorge Cardoso fazia os quinze annos da sua idade"
Vemos, assim, Jorge Cardoso favorecido pela generosidade do padrinho, seu tutor. Amparado por esse rédito abalançou-se a estudar Retórica no Colégio de Santo Antão e Artes no mosteiro de S. Domingos, observando-se já aqui, anota o memorialists a imitação dos religiosos ali residentes "na modéstia e recolhimento,
porque consta que ja Jorge Cardoso naquelle tempo observava com atenção as acções das pessoas virtuosas " .
A partir daqui a formação do jovem estudante entra numa fase decisiva, face aos seus futuros pedagogos, que hão-de marcar vincadamente a sua educação.
Assim, lemos que:
"Acabado o Curso de Filosofia estudou Teologia em ambos os Collegios de Santo Antaõ, assim no da Companhia de Jesus, como no da ordem de S. Agostinho. No Collegio da Companhia teve por Mestre ao Padre Nuno da Cunha naõ menos illustre por letras e virtudes que por sangue, o qual eu costumo chamar o meu Heroe, tantas saõ as virtudes que venero neste insigne escreve na Bibl. Vet. Hisp., lib. 9, cap. 4, § 201. (Cf. MACHADO, Diogo Barbosa, ob. cit., p. 801). No ms 628, o respectivo redactor anota, fugazmente: "escreveu Monumentos de Portugal. Não sei se é diferentc do Promptuário'\ Será o mesmo que os Santuários de Portugal?
20 Idem, ibidem.. 21 Idem, fl. 28.
varaõ que no seu tempo foy aclamado como o mais perfeito filho de S. Inácio que se conhecia neste Reyno. No Collegio dos Padres de S. Agostinho teve por Mestre ao Padre Fr. Manoel do Espirito Santo que foy examinador das três ordens militares"
É significativo registar que, ao longo de diferentes momentos da vida de Jorge Cardoso transcritos nos manuscritos redigidos por Manuel Caetano de Sousa e seus pares, existe uma notória preocupação em inscrever episódios sincrónicos ridos como prenunciadores de um destino, vistos como uma espécie de -'sinais" electivos, pelos escritores a quem coube a sua evocação, nada estranhos ao ambiente de supernaturalidade que orienta a redacção do "Agiologio" (Cf. Cronobiografia, em
Anexos).
É o caso das constantes menções aos actos de santificação e beatificação, já anotados, entre outras ocorrências alegadamente sintomáticas e reveladoras. Essa dulia esprime-se, por exemplo, a descoberta do corpo "incorrupto, flexível e que se
sustentava em pé", de um fidalgo inglês, D. Francisco Trigião, achado em 25 de Abril de 1625, na Igreja de S. Roque, 17 anos depois de ali ter sido sepultado. Todas estas "maravilhas" foram alvo da curiosidade e atenção do jovem Jorge Cardoso, então com pouco mais de 18 anos, o qual não deixaria de celebrar o sucesso no segundo tomo do seu "Agiologio".
De resto, os municiadores de informação constante nos documentos que arrolámos, não perdem a oportunidade de incluir uma listagem de religiosos, alguns
" "Nuno da Cunha nasceu em Lisboa sendo filho de Simão da Cunha, trinchante de Filipe U. Aos 17 anos abraçou o instituto sagrado da C de Jesus em o noviciado de Coimbra, a 3 de Novembro de 1610, onde brilhou o seu penetrante engenho no estudo das Ciências Eclesiásticas, ditando sete anos Teologia Especulativa e quatro Moral. Foi Reitor do Seminário dos irlandeses, dos Colégios de Lisboa e de Coimbra. Propósito da Casa Professa de S. Roque e assistente na Curia Romana pela Provinda de Portugal. Observou com suma exação os preceitos do seu instituto". Cf. MACHADO, Diogo Barbosa, ob. cit. Tomo III, pp. 503-4. Por sua vez, Fr. Manuel do Espírito Santo professou no Instituto Agostiniano, no Convento de Na Sr* da Graça de Lisboa a 19 de Outubro de 1619. Elogiado por diversos escritores, incluindo Jorge Cardoso que se jacta de ser seu discípulo na Teologia, ímitulando-o douto e virtuoso. Na ocasião em que foi votar ao
Capítulo geral recebeu o grau de Doutor na Universidade de Bolonha. Deixou duas obras manuscritas".
deles notórios e populares taumaturgos que estimularam populares venerações. Este enunciado de santificações, decididas pela Cúria Romana durante o período de vida de Jorge Cardoso, não deixa de ser mais um elemento informativo que interessa à descrição do ambiente piedoso e devocionário epocal em que o autor tonifica e emerge o seu projecto. (Cf. Quadro 1 e Gráfico 2).
Um acontecimento especial é considerado pelo(s) redactor(es) das informações manuscritas como determinante nas opções do futuro hagiógrafo, "um grande motivo espiritual", escreve-se: em 10 de Julho de 1627, o Papa Urbano VIII declarava "mártires de Cristo" os 26 servos de Deus crucificados e mortos no Japão pelos pagãos. Refere o documento que "esta noticia he de crer que acendesse muito
mais em Jorge Cardoso o desejo de escrever dos Santos deste Reyno e suas Conquistas porque no anno seguinte de 1628 acabou de compor o officio menor dos santos de Portugal para particular uso dos devotos " 23. Trata-se de um livrinho de
60 páginas, relativo "a 62 santos portugueses, entre mártires, confessores pontífices, confessores não pontífices, virgens", para evocação em diferentes horas canónicas. Tinha o autor 21 anos e ensaiava aqui a sua aproximação ao mundo dos homens e das mulheres dedicados a Deus, mostrando que "já naquelle tempo tinha junto
grande thesouro de memórias úteis para a sua grande obra do Agiologio Lusitano"24. Para esse passo decisivo parece ter contribuído, como reconhece Barbosa Machado, a troca de correspondência, datada de 23 de Março de 1630, com o padre Afonso Ramon, cronista dos Padres da Ordem de Na Sf das Mercês, "varão
sapientíssimo" 25, confirm an do-se que "este douto escritor comunicou a Jorge
Cardoso algumas noticias". Informações e estímulos então facilitados pela conjuntura política, pelas trocas culturais e a mobilidade social no espaço ibérico.
23 ms 628, fl. 28. 24 Idem, fl. 29.
25 Cf. ANTONIO, Nicolau, Bihl. Hisp. Tomo I, p. 411, apud MACHADO, Diogo Baibosa, ob. cit. pp.
Quadro 1
Santos que morreram ou foram canonizados ou beatificados
em vida de Jorge Cardoso (1606-1669)
NOME ANO SANTIFICAÇÃO
S. Toribio Mogrovejo -
-S. Francisco Solano -
-B. Pedro de Alcântara -
-B. Inès de Monte Poiitiano -
-S. Pascoal Bayon - Beatificado
S. Pedro Pascoal - Beatificado
S. Pedro de Arbuz -
-S. Inácio de Loiola 1609 Beatificado; Canonizado 1622
S. Francisca Romana 1610 Canonizada
S. Carlos Borromeu 1610 Canonizado
S. Francisco Xavier 1619 Beatificado; Canonizado 1622
S. Luis Gonzaua 1621 Beatificado
S. Filipe Nery 1622 Canonizado
S. Isidro 1622 Canonizado
S. Teresa 1622 Canonizada
S. Andre Avelino 1624 Beatificado
S. Francisco de Borja 1624 Beatificado
S. Feliz de Capucino 1624 Beatificado
S. Maria Madalena de Pazzi 1625 Beatificada
S. Isabel 1625 Canonizada
S. Jacome de Marco 1625 Beatificado
Os Mártires do Japão 1627 Beatificados
S. Andre Corsino 1629 Canonizado
S. Caetano 1629 Beatificado
S. João de Deus 1630 Beatificado
B. Henrieta Mariotte 1640
-B. João Francisco Reis 1640
-S. Francisco de Sales 1662 Beatificado; Canonizado 1664
Gráfico 2
Santos que morreram ou foram beatificados ou canonizados em vida de Jorge Cardoso
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■«m*,-1606 1607 1606 1609 1610 1618 1619 1621 1622 1624 1625 1626 1629 1630 1640 1662 1664 1 I Canonizações □ Beatificações O Mortes