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O isolamento epistolar em 1640 e a demanda de relíquias

Santos que morreram ou foram canonizados ou beatificados em vida de Jorge Cardoso (1606-1669)

1.3. O isolamento epistolar em 1640 e a demanda de relíquias

O dia 1 de Dezembro de 1640 iria marcar uma alteração sensível neste intercâmbio aberto do escritor com os seus pares. "Naõ ha no mundo gosto

totalmente perfeyto, nem que naõ venha accompanhado com algum incómmodo ",

recorda o autor da memória ao referir-se à "grande felicidade que trouxe a Portugal

a prodigiosa Acclamação do Rey D. Joaõ, o IV, em dia de S. Eloy, 1 de Dezembro de 1640". A prioridade dada às armas contra "Castela" fez-se "com algum prejuízo das Letras por que se retirou aos Portuguezes as portas para a

communicaçaõ com Hespanha e com as Províncias sujeytas aquella Coroa e difficultou muyto a correspondência com França e Italia dos doutos (...) i'.

E assim, acontecendo a fortuna para o País com ela ocorre o prejuízo para o nosso autor: "Com o anno de 1640 se acabou a Jorge Cardoso o trato que tinha

com seus doutos Amigos e eruditos correspondentes os Padres Fr. Ajfomo Ramon, Fr. Pedro de S. Cecílio, Fr. Angelo Manrique, Gil Gonçalves de Ávila, Antonio de Lead Pinello, Luiz Muhoz, e muytos outros cuja communicaçaõ lhe impediu a nova guerra com Castella que se seguiu à Acclamação de Portugal" .

Consumado o corte epistolar forçado com os demais reinos de Espanha, a conjuntura política vai, em contrapartida, levar o sacerdote a "correr o de Portugal

para melhor se informar de tudo o que havia escrever, no anno de 1642" J . É um

périplo que passa por pontos tão distantes como Óbidos, Ponte de Sor, Viseu, Abrantes, Alcobaça, Penafiel, Coimbra, entre outros locais das Beiras, e se prolonga 32 Idem, fl. 33.

33 Idem, fl. 34. 34 Idem, ibidem.

pelos anos sequentes. Em 8 de Novembro de 1644, Jorge Cardoso perde o pai, o qual "naõ fes testamento enterron-se nesta Igreja e naõ se contem mais no ditto

, ,, 35

asento

Em 1647 alcançou o escritor todas as licenças necessárias para imprimir o primeiro tomo do seu Agiologio Lusitano, relativo aos meses de Janeiro e Fevereiro, e que sairá a público em 1652 36. Neste ínterim, Jorge Cardoso participa

em diversos funerais de alguns religiosos, "insignes em santidade", tais como Fr. João de Vasconcelos, da Ordem dos Pregadores, provincial da sua Religião, membro do Conselho de Sua Magestade e do Geral do Santo Ofício, tido como "hum dos espirituais amigos com quem o Padre Jorge Cardoso tinha familiar trato".

Noutros óbitos, como os de Fr. Miguel de S. Jerónimo e de Sor. Brízida de Santo António, os momentos fúnebres são assinalados com referências a alegadas "circunstâncias maravilhosas", em comentários sublinhados e atribuídos redactor das notas ao próprio sacerdote, testemunha presencial de factos interpretados como marcas de eleição.

"Certo que tivemos a felicidade grande acharmo-nos acaso no seu officio de Corpo presente, beijando-lhe por muitas vezes os pês e considerando a rubicunda nódoa que lhe sobreveio a hum délies (naõ sem mysterio) quinze horas depois de morto " (caso de Fr. Miguel);

"Também nos pudéramos referir alguns casos que pareceriaõ milagrosos sucedidos à nossa vysta por espaço de vinte annos a tratarmos familiarmente (o que temos a grande felicidade ) mas délies nos escusa a brevidade que professamos (caso de Sor Brízida) ' .

35 Idem, R. 119.

3fi Idem, 0.. 35. O redactor das notas questiona-se acerca dos motivos "porque sahio a luz taõ tarde este

primeiro volume tendo todas as licenças", presumindo que "foy causa desta dilação a falta de meios que padecia o Padre Jorge Cardoso ".

Vemos já aqui Jorge Cardoso investindo na prospecção e avaliação directa de uma das mais flagrantes modalidades do "maravilhoso", ou melhor do ''miraculoso" cristão, como sustenta Jacques Le Goff 38, inscrito e justificado no ambiente e no

tempo específicos da obra cardosiana: a identificação e veneração de relíquias.

Não bastava ao inquiridor o privar com os "santos vivos" mas, como se escreve, "igualmente era devoto de venerar as relíquias de santos monos". Sabemos assim que, em 1659, vai a Torres Novas "ver os ossos que naquelle anno

se acharão nos contornos de Beselga e Assentis com grandes indícios de serem relíquias de santo dos quaes se acharão quarenta e oito Corpos dos quaes tocarão à Casa do Duque de Aveyro que também o he de Torres novas". "Ao que eu

acrescento" - escreve o redactor do texto - "que dos Corpos que tocaram à Casa de

Aveyro, deu a Duqueza. (espaço em branco no original^ alguàs Caveyras a esta casa de Na Sra da Divina Providência (...) fechadas em hum cofre forrado de

veludo carmesi com cantoneyras de prata (.../ .

A busca de Jorge Cardoso não cessa de o levar por outros recantos do território nacional onde se declarassem rumores de "mirabilia". É assim que, em

1662, empreende uma "incansável peregrinação" pela Província de Entre Douro e Minho, passando por Barcelos, "observando o estupendo milagre que todos os annos

se admira no seu Campo, no dia da invenção da Cruz" . Testemunha de visu, o

38 Cf. O Imaginário Medieval, capítulo 2 da II Parte 'Tentativa de inventário do maravilhoso no Ocidente medieval: enquadramento e projecto de inquérito", pp. 45-65. para uma discussão sobre as diferenças eutre

miraculum e mirabilis (milagre e facto maravilhoso) e definições intermédias propostas pelo autor, a partir

de pressupostos históricos, linguísticos e antropológicos.

39 Idem, fl. 37. A propósito das relíquias da "Coroa de Espinhos" e do "Santo Lenho" diremos algo no ponto 2. deste Capítulo sobre a sua distribuição geográfica pelo território nacional, incluindo a sua posse pelas diferentes casas nobres portuguesas, o que pode ajudar a determinar a importância e função da aristocracia na difusão daquele culto entre nós, como se afere pela excerto acima. O processo de aglomeração e redistribuição das relíquias na Europa, por acção decisiva de Carlos I e Filipe 11, foi estudado por William A. Christian que se reporta à situação em Espanha no século XVI num contexto histórico que não terá deixado de contaminar, por variadas e conhecidas razões, a rede devocionária dos "santos ossos" entre nós. Cf. CHRISTIAN JR., A. William, Religiosidad local en la Espana de Felipe II, Madrid, Nerea, 1991.

escritor confessa o seu pasmo perante o extraordinário. A componente visual é algo de nuclear nesta cristianização do "maravilhoso", sendo o seu corolário a aparição:

"E nos levados da curiosidade e devoção achandonos presente nesta festa em Maio de 62 vimos na véspera sette ou oito Cruzes, e no dia (pella noite ser muito chuvosa) huã somente junto à fonte que tinha catorze palmos de alto, com seu pe triangular, e de largo teria paerto de palmo e meio, com tanta perfeição que admiramos. Alli fizemos tantas experiências tirando terra do Campo em circuito; as quaes terras trouxemos separadas para mostrar, e se conservaõ ainda hoje do mesmo modo, sendo que quando nos partimos às quatro horas da tarde ja se naõ via cousa alguã" 40 (sublinhados nossos).

Repare-se que o autor não descura a verificação repetida do que interpreta como uma demonstração inexplicável pelos códigos naturais. E, curiosamente, até procede a "experiências" com a terra onde se manifesta o milagre, atitude que assemelharíamos a um parêntesis de racionalidade, paradoxal, dir-se-á, num quadro onde o imaginário se organiza e ordena, em especial através do olhar, e de imagens cujos significados estão previamente definidos