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5.3 Clarividência e profecia: presente e futuro antecipados
Uma outra consequência dos estados modificados de consciência, subjacente e decorrente da via mística unitiva, tem a ver com a capacidade de antecipação e de previsão dos acontecimentos. As chamadas "visões", reivindicadas por muitos dos biografados do Agiologio, constituem uma das manifestações mais repetidamente invocadas na nossa amostragem. É uma disciplina da percepção extra-sensorial que se incorpora no grupo dos fenómenos subjectivos da paranormalidade humana e onde surge associada e confundida, de um modo geral, com a vidência ' .
151 Cf. Lévitation. An Examination of the Evidence and Explanation, Londres, B. Oates & Washborne, 1928. O autor apoia-sc na recolha feita por Sir William Crookes no The Quarterly Journal of Science, Janeiro,
1875. Ver também RICHARDS, Steve, Levitação. Lisboa, Editorial Estampa, 1994.
, 5 : Cf. Acta Sanctorum, dc 18 de Setembro, Tomo XLV, p. 1022, n°s 37-38. Ver também cm MICHEL, Aimé, ob. cit. pp. 212 e segs, além da bibliografia aí citada sobre o caso.
153 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain, ob. cit., p. 79.
154 Para uma definição da sistemática dos fenómenos paranormais Cf. INGLIS, Brian, O Paranormal. Enciclopédia de fenómenos Psíquicos, Mem Martins, Europa-América, 1986. O termo clarividência é definido no dicionário Petit Robert como "visão exacta, clara e lúcida das coisas, que incluiria a visualização, percepçõesd não-verbais que tomam uma forma imagética, representando objectos, indivíduos
Os relatos recolhidos e apresentados como modelo espelham alguma plasticidade e confluência entre as diversas modalidades de aquisição de informações por via extranormal. Ou seja, pré-cognição, telepatia, clarividência e transfert surgem numa síncrese que, indistintamente, serve os intuitos formais dos
exempla. A proximidade da morte - ou a sua antevisão - é um dos momentos mais
privilegiados de estímulo e eclosão dessas capacidades, em que nunca está ausente a graça divina.
Exemplo A: Leonor do Rosário, dominicana, Lisboa, 1614.
"Com três dias de antecedência previu o furto do Santíssimo Sacramento, da Sé do Porto. Estando no leito, enferma, começou a gritar: Acudam que dois homens levam o S.S., peçam todos misericórdia. As companheiras julgaram-na demente, mas depois soube-se do furto levado a cabo do Porto e achou-se que fora na mesma hora e dia em que Deus o revelara à Sua serva"
Exemplo B: Frutuoso de São João, cónego regrante, falecido em Coimbra,
em 1624.
"Tanto que entrava no Canon era rebatado (como outro Paulo) ao terceiro céu e ali aprendia as sublimes lições do espírito que depis ensinou aos companheiros. Teve também espírito profético e conhecia os pensamentos porque disse duas vezes a um irmão que o assistia: sinto ver-vos arormentado interiormente" " ,
A menção ao "'espírito profético" poderia induzir tratar-se de "profetismo", ou seja, a antecipação de acontecimentos-chave, de ordem política, decisiva, que interessam à comunidade nacional. Nestas situações, procurámos distinguir nos elementos textuais a finalidade e contorno do prognóstico e, invariavelmente,
ou cenas mais ou menos complexas. Neste sentido, telepatia e clarividência seriam homónimos". Cf. LABORDE-NOTTALE, Elisabeth, A vidência e o inconsciente, Lisboa, Editorial Estampa, 1992, pp. 175-9.
155 A.L., Tomo III, pp. 168-9 e 194. 156 A.L., Tomo III, pp.796-7 e 800.
pudemos concluir que Jorge Cardoso associa este "espírito profético" a um conhecimento íntimo ou do "interior" de terceiros. Ou seja, aproxima-se com segurança da clarividência ("visão" ou conhecimento simultâneos), concretizado no Exeemplo B, e da pré-cognição ("visão" ou conhecimento antecipado), eplicitado no Exemplo A, tipificados enquanto previsão de acontecimentos particulares ou que dizem respeito a indivíduos do círculo próximo do vidente. Este foi o critério por que qualificámos estas variantes, procurando separá-las da "profecia" de inspiração política e social, expressamente conferida na selecção efectuada.
Vimos que a "experiência visionária" não está isenta do índice exprobatório sistemático das orientações sinodais. Algo que prenunciava todo um tipo de suspeito comércio com o demónio, perigoso municiador de aptidões extrahumanas que o católico laico e religioso deveriam repudiar. Actos heréticos, pois, tanto para os cidadãos vulgares e comuns no exterior das casas religiosas, como paia os habitantes do interiror. Mas, estes, "não sendo alvos de denúncia, estavam ao abrigo destas
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reprovações", lembra José Veiga Torres
De facto, o controlo e reprovação dos "excessos da contemplação e de vidência" surge assinalada no conjunto de exemplos acolhidos. E um caso isolado, mas significativo, porque potencialmente anunciador de uma interferência rectifícativa dos estados visionários, aqui apenas pressentida. Qual a verdadeira amplitude dessa vigilância claustral, exercida pela hierarquia religiosa - superiores religiosos, abades, confessores, etc. - num tempo de expectativa e redenção messiânica na versão sebástica nacional-popular?
Exemplo A: Maria da Assunção, franciscana, falecida em Lisboa, em 1653. "A abadessa criticava-lhe o não resistir nos públicos ao espírito deixando-se levar por êxtases e arrebatamentos (por alturas do Ofício Divino e da Sagrada Comunhão), que a faziam soltar dolorosos ais e enternecidos gemidos que metiam medo às companheiras sem nunca declarar a causa por mais instâncias 137 Cf. "Uma longa guerra social. Novas perspectivas para o estudo da Inquisição portuguesa", Revista de
que se lhe fizessem. A abadessa perguntou-lhe se tivera Revelações alguma hora. Respondeu que não lhe faltavam sonhos que assim pareciam" 3 .
Do controlo e fiscalização à intervenção penalizadora vai um passo. A religiosa isola-se, indevidamente, da fraternidade e austeridade do círculo, rompe o nivelamento feito de silêncio e descrição pela exaltação publicitada das suas capacidades extranormais. A comunidade actua então sobre a prevaricadora e decide pela punição:
Exemplo B: Mariana da Assunção, franciscana, falecida em Évora, em
1620.
"E porque o negócio (das revelações) andava já na boca da comunidade, a madre abadessa (por conselho dos confessores) lhe deu algumas penitências públicas, como tomar disciplinas, servir na cozinha, andar sem chapins, comer com as serventes e lavar os pés a todas" " .
A prudência e suspeita do autor, relativamente à contaminação heterodoxa destas "experiências visionárias" exprimem-se neste exemplo. Anota ele, nos respectivos "Comentários" à biografada, que a religiosa deixou uma Relação "ad
perpetiíum rei memoriam", depositada no Cartório, - agora em poder do clérigo -
onde ela descreve os "soberanos favores, os quais se não podem referir sem
aprovação da Igreja, (pelo <\ue) ficarão resenhados para mais aparada pena" '.
Os teólogos católicos desde cedo se preocuparam com a natureza complexa dos sonhos e visões, logo sobre a origem das profecias e revelações produzidas no meio conventual. Como distinguir as "falsas" das "verdadeiras"? Regras e sinais
A.L., Tomo III, pp. 263-5 e 280.
Idem, Tomo H, pp. 627-9 e 632. Idem, ibidem.
distintivos foram compendidos por reputados eclesiásticos ibéricos, como o já citado Fr. Leandro de Granada ou Juan de Horozco y Covarrubias '.
Carl Jung recorda que Atanásio na sua biografia sobre Santo Antão nos mostra como os demónios são hábeis em predizer acontecimentos futuros. Segundo o biógrafo, "os demónios aparecem algumas vezes até mesmo sob a forma de monges, salmodiando, lendo a Bíblia em voz alta e fazendo comentários perturbadores sobre a conduta dos irmãos" l62. Divulgadas estas prevenções,
justificar-se-iam as atitudes "rectifícativas", como as que foram tomadas no caso acima citado.
E contudo... o nosso Agiologio está bem recheado de casos de prognósticos políticos, relativos ao futuro restaurado de Portugal, por via da acção regeneradora da Casa de Bragança I63. Poder-se-á aduzir que essas revelações tiveram o selo de
privado e teriam sido conhecidas após os factos terem ocorrido e divulgadas depois da morte dos prognosticadores, por exemplo pela acção de autores memorialistas em redor dos cartórios das várias ordens, como foi o caso do nosso autor. O anonimato da vida conventual e os seus silêncios terão actuado como factores dissuasórios na activação de eventuais processos inquisitoriais.
Poder-se-á conceber que muitas destas alegadas profecias podem ser entendidas como elementos coadjuvantes da causa brigantina. Não são poucas as alusões a um "tráfego" espiritual entre líderes ducais de Vila Viçosa e luminares da 161 BAROJA, Julio Caro, oh. cit., pp. 38-9. Cite-sc, em particular, o "Tratado de la verdadeira y falsa
prophecia", de Juan de Horozco. (Segóvia. 1588), que serviria para "desengano das invenções e enredos do
demónio nas falsas revelações que era diversas partes semeou estes dias". O texto alude às profecias do sapateiro de Trancoso e adverte contra os "falsos Messias, falsos cristãos, milagres c oráculos fingidos".
lfi2 Cf. BUDGE, E.A. Wallis, The Book of Paradise, 1904, I parte, pp. 37 e seg., apud JUNG, Carl,
Psicologia e Religião, Petrópolis, Ed. Vozes, 1978, Vol. XI/1, p. 23.
1(53 José Adriano de Carvalho, a propósito da discussão dos fundamentos teológicos da vidência e do
profetismo, cita a posição de Fr. Leandro de Granada (séc. XVI), o qual apoiado em textos do profeta Joel lembra que "não que há qualquer razão válida para limitar o espírito da profecia e de revelação aos primeiros tempos da Igreja, pois essas revelações são muito importantes para aumentar a fé". Idêntica interpretação é a do "nosso" Fr. Luís de Granada para quem a profecia é "uma consequência da acção de Deus na História e as revelações são um meio de aprofundar e de conhecer melhor a Verdade". Cf.
espiritualidade ibérica, especialmente a castelhana personificada por Fr. Luís de Granada e Teresa de Jesus, laços e interdependências que surgem na continuidade do quadro já atrás esboçado
O patrocínio oficioso de prognósticos que pudessem validar ou reverter a favor dos desígnios da Casa de Bragança, no contexto cultual do "maravilhoso" popular, pode ser subentendida na referência que colhemos acerca de Maria das Chagas, franciscana, falecida em Vila Viçosa, em 1631.
"O duque D. Teodósio mandou inquirir aos prelados da Ordem das milagrosas obras da freira, a fim de tratar da sua beatificação. Outros exames se fizeram por dois Lentes jubilados da Província, cerca de duas revelações originais que se guardam no Cartóreo do dito convento, juntamente com um doctíssimo parecer sobre esta matéria do P. Fr. Lourenço de Portel, autor de obras do Regularibus" 165
Num tempo profano de suspensão da identidade nacional, a componente religiosa torna-se comparsa, tão natural quanto eficaz, de um único movimento em direcção à reversão do domínio filipino e consequente projecto de condução da Casa de Bragança ao trono português. Como escreve João Francisco Marques "o elemento religioso vem estruturar de forma única uma esperança e resistência nascidas perante a ameaça de uma aniquilação política e nacional. Reside aqui a importância ímpar deste manipular do sagrado, sem o qual o messianismo português, apontado à
164 D. Teotónio, futuro arcebispo de Évora e filho de D. Jaime IV, duque de Bragança era 15 anos mais novo
do que Teresa de Ávila. Doutor era Teologia pela Universidade de Paris fixou-se era Salamanca onde se achou cora a freira carmelita que então residia em Segóvia, por volta de 1550. O percurso espiritual de D. Teotónio não será alheio às trocas epistolares com Teresa de Jesus, iniciadas por volta de 1574. Nas suas mãos depôs a carmelita dois textos importantes: Vida de Santo Alberto, que sairia na versão castelhana, em Évora (1582) c o Caminho da Perfeição, na versão original da autora e que o arcebispo mandou imprimir de seu bolso na mesma cidade (1583). Os seus comentários são tidos como uma primeira interpretação catequética da "reforma teresina". Do mesmo modo, o contacto cora Fr. Luís de Granada e a sua obra doutrinal é sempre feito por mediação de D. Teotónio. Cf. GOMES, Pinharanda, Caminhos portugueses de
Teresa de Ávila, Braga, 1983, pp. 7-24.
restauração autonomista e assente na aclamação de um "rei natural" teria talvez fracassado" .
Que espelha, então, nesta área da pré-cognição, o repertório do padre Jorge Cardoso? Onze casos de declarado profetismo de matriz política, específica da conjuntura, é o saldo da nossa consulta dentro do período em estudo. Quatro filhos da familia franciscana, três da carmelita, dois dominicanos, um beneditino e um jesuita compõem o leque das sensibilidades envolvidas. Em termos especiais, a curiosidade vai para a componente emigrada - nada menos de quatro religiosos, que prognosticaram mudanças na configuração política peninsular, longe da pátria (Cf.
Quadro 14).
São vários os objectos e argumentos das profecias, que Jorge Cardoso antecede com a fórmula "foi ilustrada com espírito profético pelas muitas cousas
que antes e depois se viram cumpridas ":
1)- A Restauração de Portugal em quatro exemplos; 2) - A Jornada de D. Sebastião em dois exemplos; 3) - O futuro de Filipe III num exemplo;
4) - O futuro do Papa, do rei de França e da rainha de Espanha num exemplo;
5) - Previsões geralmente definidas como " m ordem ao futuro do reino" nos restantes exemplos.
166 Cf. A Parenêtica Portuguesa e a Restauração 1640-1668, Porto, IMIC, 1989, Volume II, p.212. A
manipulação do profetismo heterodoxo, sebastianista, de Bandarra, Simão Gomes e Bocarro, pelos pregadores no contexto da Restauração, foi amplamente demonstrado pelo autor que filia esta tradição, como já vimos, na tradição escatológica milenarista c judaico-cristã. O crescimento da crença sebástica,
proporcional ao descontentamento geral, c testemunhado por D. Francisco Manuel de Melo que reconhece o papel relevante, antes de 1640, da palavra dos oradores jesuitas, sustentadas pelas "sentenças dos santos, os oráculos dos profetas c o juízo dos astrólogos". Cf. Alterações de Évora, Lisboa, Portugália, 1967, pp. 34-37. Por seu turno, José Veiga Torres concorda que o fenómeno profético e messiânico existe com anterioridade na colectividade nacional portuguesa, através do sebastianismo como expressão de uma consciência política ao mesmo tempo religiosa. Cf. Fonction et signification sociologique du messianisme sebastianiste dans la