3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333
CAPITALISMO E POLÍTICAS PÚBLICAS: (RE)ORDENAMENTO
OU MANUTENÇÃO DA ESTRUTURA AGRÁRIA DO MUNICÍPIO
DE PARAUAPEBAS NO SUDESTE PARAENSE?
Mateus Monteiro Lobato1 Diana Guedes Kobayashi2 Daniel Lamela Abud3
RESUMO
As profundas transformações as quais o sudeste paraense vem passando ao longo dos 30 anos nos impele a fazer uma criteriosa leitura da paisagem a fim de entender quais os vetores dessas transformações e quais as suas conseqüências sócioespaciais. Essas transformações são parte de um processo maior, pelo qual vem passando o mundo e a Amazônia, que é o avanço do capitalismo. A região sudeste do Pará está vivendo esse processo, e o município de Parauapebas é o recorte espacial escolhido para contribuir com o entendimento da realidade atual da Amazônia. Esse avanço do capital sobre a região amazônica impõe mudanças ao espaço, mas também, e ao mesmo tempo, solidifica algumas estruturas antigas. A realidade do sudeste paraense é formada por uma dicotomia marcante: camponeses (produção familiar) e grandes latifúndios (lucro e renda), cada qual procurando desenvolver sua auto-reprodução. O viés proposto aqui então, é de relacionar as políticas públicas implementadas pelo Estado e o avanço do capital sobre a Amazônia, para entender quais as implicações espaciais desse dueto à estrutura agrária do município e conseqüentemente da região notadamente concentradora de terras.
Palavras-Chave: Estrutura Agrária, Políticas Públicas, Capitalismo, Amazônia, Parauapebas.
INTRODUÇÃO
O avanço do capitalismo não modificou em quase nada, ou que é pior, pode até ter piorado uma estrutura fundiária que é totalmente voltada para a concentração de terra de um lado e expropriação do outro (HÉBETTE, 2004a).
1Bacharel e Licenciado Pleno em Geografia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
2Estudante de Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA). [email protected]
3Bacharel e Licenciado Pleno em Geografia pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 Esse avanço modificou a dinâmica sócio-espacial dos espaços agrários, de forma que o desenvolvimento do capitalismo no campo seja contraditória (OLIVEIRA, 2005). Uma das conseqüências desse avanço é que, segundo Martins (1990), colocou em posições diametralmente opostas modos de ocupação da terra. De um lado os que vivem através de uma agricultura baseada na produção familiar e sustentável e do outro os grandes produtores, monocultores e latifundiários (capitalistas). Uma luta que também focaliza a não submissão, uma luta pela liberdade (MARTINS, 1990).
Existe o que Bastos (2002) chama de conflito de interesses, e o que Martins (1990) denomina de conflitos entre o modo de ocupação da terra baseado no capitalismo e a ocupação da terra vinda da realidade do posseiro. O embate entre esses dois agentes produtores do espaço geográfico rural se faz, por exemplo, quando os movimentos de resistência transpõem as barreiras (cercas) do latifúndio, alegando-o improdutivo. Daí para frente o que se vê é a emergência de diversos problemas, todos eles resultados da violência com que reagem os que têm sua propriedade esbulhada. Não é demais lembrar as violentas reintegrações de posse que resultam muitas vezes em vários feridos e os vergonhosos assassinatos das lideranças dos movimentos de resistência no campo (BASTOS 2002).
Por outro lado, não podemos obliterar que o a produção do espaço foi, e até os dias atuais continua sendo, dominada por uma presença ativa do Estado. Podemos observar isso através da Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850 (A Lei de Terras), ela estabelece que as terras só poderiam ser adquiridas por meio da compra, justo então afirmar que elas seriam de propriedade do Estado (STEDILE, 2005a). A lei era clara e concisa quanto ao seu objetivo. Qualquer um poderia adquirir terras da União, desde que pagassem por elas (STEDILE, 2005b).
Segundo Hébette (2004a) um marco histórico de transferência das terras públicas para os domínios privados é o ano de 1970. Portanto, o objetivo desse trabalho é analisar a estrutura agrária do sudeste paraense, focalizando o município de Parauapebas, para entender qual a contribuição das políticas públicas implementadas pelo Estado, durante 30 anos, a essa iníqua concentração de terras que perdura até os dias atuais.
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 documental sobre o Município e sobre as Leis que regem a estrutura agrária; 3) E sistematização dos dados coletados
PRODUÇÃO FAMILIAR X PRODUÇÃO CAPITALISTA
O surgimento de um novo modo de produção vindo da Europa transformou as relações sociais, não só nesse continente, mas em todo o resto do mundo. Esse novo modo de produção subordinou as relações sociais, nas palavras de Wood (2001, p. 31):
[...] A própria sociedade se torna um apêndice do mercado. A economia de mercado só pode existir numa sociedade de mercado, isto é, numa sociedade em que, em vez de uma economia inserida nas relações sociais, as relações sociais é que se inserem na economia.
Todavia, a expansão do capitalismo não foi feita só de subordinação e passividade, mas ela é permeada de diversas lutas e resistências. Motivadas pelos mais variados anseios e aspirações, que ainda podem ser vistas em todo o mundo, principalmente no Brasil. E ao buscar as origens do capitalismo, o campo (WOOD, 2001), ficou fácil constatar que esse novo modo de produção só foi possível com a expropriação de inúmeros camponeses das suas terras, já que ela é o principal meio de produção no campo (OLIVEIRA, 1995 e 2007). O que no Brasil não foi diferente. Não é uma mera coincidência então, que os movimentos surgidos aqui no Brasil mais significativos sejam os movimentos camponeses.
Basta recompor a ocupação do espaço brasileiro que vem a constatação da iníqua concentração fundiária, vinda desde os tempos coloniais em que o favorecimento era explícito sem existir a preocupação com os que não tinham os títulos emanados ou reconhecidos pelo Estado (BASTOS, 2002). Dessa forma, vamos percorrer até chegarmos ao ponto em que à preocupação com os possíveis ameaças a propriedade privada estão surgindo, os braços cativos livres com a abolição da escravidão no Brasil (STEDILE, 2005a). Esses “novos” integrantes da sociedade terão suas possibilidades de produzir impedidas pela Lei 601 de 1850 (Lei de Terras). A partir de então, só poderia ter terra quem herdasse ou comprasse.
Para corroborar a situação dos que vivem no campo e sua insubmissão a situação na qual são obrigados a se sujeitar temos que:
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 segmentos sociais. Provavelmente porque, de um lado, com uma iníqua estrutura fundiária, os camponeses são os mais oprimidos. (LAUREANO, 2007, p. 41).
Temos que ao nível amazônico não foi só a promulgação dessa lei que pode explicar todos os problemas fundiários ocorridos atualmente. A partir da metade do século XX, respondendo a estímulos externos, diga-se, do capital internacional, o espaço regional passou por profundas modificações (BECKER, 1991). Modificações impostas por políticas implementadas principalmente pelo Estado.
Todas essas políticas trataram por mudar o caráter fundiário do sudeste paraense. A partir do momento em que tiraram das antigas oligarquias castanheiras o monopólio do controle da terra exercido pela exploração da castanha. Desde esse momento surgem novos interesses, que somados aos antigos, passam a disputar a hegemonia do controle da terra (EMMI, 1999).
Decerto que houveram modificações no caráter fundiário. Entretanto, um velho problema apenas ganhou novos personagens. Essa constatação é patente quando vemos que:
[...] A terra torna-se mercadoria da mesma forma como qualquer outra. De base e expressão maior do poder, numa economia extrativista não-especificamente capitalista, ela passa a ter uma expressão, em certo sentido secundário, numa economia fundamentada no capital industrial-financeiro. Isto ficou patente com os novos latifúndios apropriados pelos grandes bancos como o Bamerindus em Marabá (54.597 ha) ou o Bradesco em Conceição do Araguaia (61.036 ha) ou ainda pelas indústrias multinacionais como a Volkswagem (139.392 ha) em Santana do Araguaia (INCRA, 1980) (EMMI, 1999, p. 110).
Então, os antigos expropriados da terra pelo extrativismo da castanha somaram-se aos novos migrantes recentemente chegados, que também não tinham perspectiva de emprego ou terra para a plantação. Essa configuração sócioespacial será decisiva para acirrar os embates entre os camponeses sem posse da terra e os grandes latifundiários. O surgimento do MST no Pará reporta a essa latitude (BASTOS, 2002).
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 quanto no segundo momento tivemos a participação de elites locais, regionais e até nacionais influenciando no direcionamento das políticas. Essa tendência primou por concentrar ainda mais a terra nas mãos de poucos.
Mas a resistência vem ao longo dos anos amargando insucessos, que se mostram com um caráter de aprendizado, isso faz do MST por exemplo, um movimento de extrema importância, ao acumular várias experiências de outros movimentos. Experiências que são construídas no dia a dia do movimento, através do contato, das ocupações e das escolas. Mas que se constrói também através dos intelectuais que se posicionam no mesmo flanco dos movimentos sociais (LAUREANO, 2007). Nasce daqui a justificativa prática do trabalho, de dotar os movimentos sociais de resistência no campo de subsídios que permitam contribuir na sua luta de auto-reprodução, e que além dessa contribuição, inclui ainda a construção de um mundo mais igual fundado principalmente no desenvolvimento social.
Essas resistências enfrentam toda a sorte de forças antidemocráticas. Dentro do Judiciário por exemplo, visões que criminalizam as ações do MST (BASTOS, 2002) ou ainda que simplesmente se volta contra graves violações dos direitos humanos sofridos na fronteira amazônica devido a sua estreita ligação com o avanço do capitalismo no campo, já que:
Há juízes que, por convicção ou interesse pessoal, são cúmplices de governos, pessoas e grupos privados violadores de direitos humanos e, a partir daí, protetores dos agentes diretos da violação [...] essa cumplicidade, em certos casos, é muito clara e indisfarçável, mas em outros guarda a aparência de neutralidade [...] (DALLARI, 2007, p. 38).
Como justificativa teórica, ela surge da necessidade imperiosa de entender as transformações sócio-espaciais na qual vem passando a região, que no caso da pesquisa focalizará o município de Parauapebas. E um olhar atento à cartografia dessa latitude nos mostra o tamanho e as proporções das transformações pela qual vem passando o espaço.
AS POLÍTICAS PÚBLICAS E A FORMAÇÃO DOS LATIFÚNDIOS
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 Mas infelizmente essa dificuldade fica maior ainda para o recorte espacial priorizado nessa pesquisa – o município de Parauapebas.
Os poucos estudos disponíveis para o recorte espacial, Palheta da Silva (2004) e Bringel (2006), percebi que os objetivos estavam focados para uma problemática diferente da eleita nessa pesquisa.
Portanto, essa pesquisa já encontra o primeiro obstáculo, o da falta de bibliografia que trate tanto da problemática proposta quanto ao recorte espacial.
Antes de iniciar com os autores que tratam do recorte espacial, é primordial entender que o processo de produção atual não é obra do acaso – natural, justo, ele foi, durante muitos anos, construído e imposto por uns aos demais (WOOD, 2001). Ter esse pressuposto é fundamental, para propor qualquer medida que vise à transformação da realidade social.
Então, a leitura de Oliveira (1995 e 2005) é basilar no sentido de compreender que a reprodução ampliada desse modo de produção é contraditória. Pois, só conseguiremos entender as resistências feitas a ele, se apreendermos que ao mesmo tempo em que ele reproduz relações capitalistas, também reproduz relações não-capitalistas. Por isso, na direção do entendimento do processo de produção atual é mister realizar um apanhado histórico, dessa forma perceberemos o porquê dele estimular relações não-capitalistas.
Entretanto, antes, de certo modo, é fundamental que fique claro que o capitalismo é um modo de produção que regula nossas vidas de forma mais ampla (HARVEY, 2005); (WOOD, 2001). Complementando temos que:
As relações de produção são na essência relações estabelecidas entre os homens no processo de produção. Essas relações são a essência do processo produtivo. Elas são estabelecidas independentemente da vontade individual de cada um no processo de produção. Os níveis de desenvolvimento dessas relações dependem do grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais da sociedade. (OLIVEIRA, 1995, p. 59).
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 Anteriormente ao modo de produção capitalista, tivemos o feudalismo. Nesse modo de produção, resumidamente, existiam os que produziam, camponeses, e os que se apropriavam coercitivamente do excedente de produção, através de meios extra econômicos, nobreza (WOOD, 2001). Nesse modo de produção antigo, o senhor era proprietário das terras e propriedade limitada sobre o camponês, respectivamente feudo e servidão (OLIVEIRA, 1995 e 2007).
A transição é desencadeada na Inglaterra, onde existiam fazendeiros que não dependiam dos meios extra-econômicos para coerção dos produtores. Nesse país, uma forma comum de propriedade era os arrendamentos. Essa forma de propriedade tornava os fazendeiros extremamente dependentes da renda extraída dessa terra, o que os forçava a explorar mais ainda os que arrendavam, estes vendiam o que produziam no mercado (WOOD, 2001).
Essa relação desencadeou um processo de sujeição ao mercado e que:
[...] Os arrendatários eram obrigados a competir não só no mercado de consumidores, mas também num mercado de acesso à terra. quando a segurança do arrendamento dependia da capacidade de pagar o aluguel vigente, a produção não competitiva podia significar a perda direta da terra. Para fazer frente aos pagamentos monetários, numa situação em que outros arrendatários potenciais competiam pelos mesmos arrendamentos, os arrendatários eram obrigados a produzir por um custo eficiente, sob pena de serem desapropriados. O efeito do sistema de relações de propriedade foi que muitos produtores agrícolas (inclusive os prósperos “fazendeiros”) tornaram-se dependentes do mercado para obter acesso à própria terra, aos meios de produção (WOOD, 2001, p. 84).
Esse mercado foi, segundo ela, responsável pela expropriação da terra dos que eram “pouco eficientes”. Nesse sentido, esse processo criou a principal oposição do capitalismo no campo, donos dos meios de produção e vendedores da força de trabalho (WOOD, 2001).
Todavia, Oliveira (1995 e 2007) faz uma consideração, para ele, não podemos entender o processo de reprodução do modo capitalista de forma dessa simples relação, donos dos meios de produção e assalariados. O que aconteceu, ao longo do tempo desde as primeiras expropriações é que o capitalismo vem sujeitando principalmente a renda da terra. Ao fazer isso, ele pode se apropria do excedente de produção de meios não-capitalistas. É o que ele faz, por exemplo, com o comércio de escravos na América do Sul.
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 luta pela sua auto-reprodução. Então, o capitalismo é quem fomenta a agricultura baseada no trabalho familiar (OLIVEIRA, 2005).
Em nível de Amazônia, e de forma mais focalizada na área de estudo em questão, essa dinâmica segrega duas categorias, Hébette (2004a) coloca de um lado os camponeses e do outro os fazendeiros. Ele teorizando sobre aquela temos:
Uma primeira seria constituída por produtores que se dedicam, por meio da exploração direta propriamente familiar e por conta própria, às culturas alimentares tradicionais no Brasil (arroz, milho, feijão, mandioca) ou ainda à pecuária em pequena escala e à criação de aves. A eles chamaremos de camponeses. (HÉBETTE, 2004a, p. 136).
Para a segunda ele caracteriza como sendo:
A segunda categoria de “apropriadores” da terra se refere aos que vieram para controlar e estão efetivamente controlando extensões de terra não passíveis de serem exploradas diretamente pelo trabalho familiar; não poderiam sê-lo nem na forma de pecuária extensiva (e, a fortiori, na pecuária extensiva), nem na agricultura comercial, nem em floresta de manejo. Todas essas atividades exigiriam a utilização ampla e a exploração social de trabalho alheio, mesmo no caso de envolvimento direto da família na produção. Além disso, exigiriam a disponibilidade e a aplicação produtiva de grande capital que parte dos donos não tem e que, mesmo possuindo, não teria interesse em aplicar intensivamente na agropecuária. Na verdade, esses terratenentes que denominaremos, segundo a expressão consagrada da região, fazendeiros, detêm e imobilizam vastas áreas que não tem e não terão condições de explorar produtivamente. (HÉBETTE, 2004a, p. 137).
Entretanto, o avanço do capitalismo sobre a Amazônia não se fez sem silêncio e acomodação. Como aconteceu na Europa, encontrou resistências. Tanto dos índios quanto dos camponeses, os mais atingidos pelas agruras impostas pelo avanço. Isso fica claro no trecho abaixo:
O grande capital penetrou nas áreas indígenas, cortou reservas, lavrou o subsolo, alagou aldeias; a cultura tradicional dos índios foi ferida, a sua liberdade ancestral ameaçada. O latifúndio engole as roças, mas o camponês resiste à expulsão, recusa a proletarização, luta contra o cativeiro e defende a sua autonomia. (HÉBETTE, 2004b, p. 23).
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 Para efeito didático, com claro objetivo de facilitar a pesquisa, foi dividida a atuação do Estado em dois grandes períodos4 cada um com uma forma geral de ação. No primeiro período a política de aforamentos foi predominante. Poder Público e Oligarquias tinham vínculos estreitos, e estas tinham seus objetivos de concentração dos castanhais institucionalizados pela política dos aforamentos. Assim, foram se formando os troncos familiares dominantes e suas grandes extensões de terras (EMMI, 1999).
No segundo momento, já com o capital no início de sua territorialização e diante de outros órgãos federais, as políticas predominantes foram os incentivos fiscais. Esse momento também foi decisivo para o aumento da concentração fundiária, ele é descrito sucintamente no trecho a seguir:
O governo federal estimulou o latifúndio, concedendo, por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), incentivos fiscais. Os incentivos consistem no seguinte: não paga seus impostos quem quiser aplicá-los para praticar pecuária em grande escala na Amazônia. Vê-se então, todas as grandes empresas do país, os bancos, os supermercados, tornarem-se pecuaristas: Volkswagen, Bradesco, Bamerindus, Alô Brasil, Tecelagem Parahyba e tantos outros. (HÉBETTE, 2004a, p. 38).
Um ponto importante se agrega a essa periodização. No primeiro momento, de predomínio de aforamentos, o instituto da propriedade da terra não fazia diferença para a política de concessão de terras, haja vista que a terra era até então um fator secundário, ela ainda não era uma mercadoria de fato, o que era importante eram as árvores de castanha que por limitações naturais brotavam da terra. Então a posse da terra era mais uma conseqüência do que propriamente um objetivo da dominação dos castanhais (EMMI, 1999).
Mas esse caráter muda completamente no segundo período. Aqui, agora a terra adquiriu um novo caráter, um caráter que aos que a impuseram adquirira já tinha bastante tempo no seu espaço. A terra agora é uma mercadoria, que tem um preço venal e não mais simbólico (HÉBETTE, 2004).
Esses dois períodos é sinteticamente explicado a seguir:
É interessante observar que a investida contra as terras devolutas de São Domingos não procede do Pará. Desde o Decreto estadual 1.044 de 19.08.1933, que regulamentava a terra no Pará, o preço de terras devolutas era fixada a noventa centavos o m². Entretanto, fazendeiros e comerciantes da região tinham demonstrado pouco interesse para a compra dessas terras.
4 As generalizações podem ser perigosas e extremamente empobrecedoras. Por isso, qualquer problema
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 Seringalistas e exploradores de castanha brigavam por aforamentos e pelo controle do produto extrativista; transformavam, às vezes, insensivelmente, o aforamento em propriedade, mas não transacionavam a terra nua, ao ponto de, quando fracassavam no comércio, ficarem sem nada nas mãos. Para eles, a terra, a floresta não tinha o mesmo significado que o índio ou mesmo o caboclo lhes atribuíam, mas não tinham, também, o mesmo significado que para o novo capitalista. Economicamente, representava a base do controle do comércio de exportação. Politicamente, constituíam a base do controle social e da extração do voto de cabresto. (HÉBETTE, 2004a, p. 45 – 46). Grifo meu.
Em seguida, continua ele para mostrar a transição para a nova lógica:
É, pois, o capitalista do Sul que tem a sensibilidade à compra de terra. Faz tempo que, para ele, a terra se tornou mercadoria. Da Lei das Terras de 1850 até o boom do café das primeiras décadas do século XX, a terra não cessou de ser cada vez mais, no sul do país, associada à moeda. O leilão das terras devia, portanto, ser deslanchado do Sul para o Norte... (HÉBETTE, 2004a, p. 46).
O instituto da propriedade reconhecido juridicamente é essencial. Pois só com a propriedade titulada é que se pode fazer transações comerciais e especulativas, e o mais importante para a pesquisa, só com o título da propriedade é que se pode adquirir financiamentos ou mesmo isenções fiscais do Estado (HÉBETTE, 2004a). Porquanto, não dá para entender o segundo período das políticas públicas sem citar essa particularidade na qual assumiu a terra.
Por ter a propriedade garantida, o trabalho de Laureano (2007) é basilar para entender como se dá a resistência, sobretudo dentro do que diz respeito à Constituição Federal. Ela mostra, a partir de um dos movimentos sociais do campo mais importantes – o MST, como eles agem sob os auspícios da Carta Magna e qual a importância de existir uma pressão sobre o Poder Público. Ela chega a essa conclusão que aparece no trecho abaixo:
A leitura de Marx (2008) é basilar para entender quais as relações entre terra e mercadoria, e como é essencial ao capitalismo ter assegurado à propriedade privada. Uma vez que tudo em nossa sociedade é mercadoria (WOOD, 2001), por silogismo, a terra também é mercadoria. Então:
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 Dentro desses referenciais teóricos é que o modo capitalista subordina as relações sociais no campo, e a partir de então existe uma dupla conseqüência: a homogeneização dessa produção e a resistência a essa homogeneização. Após esse primeiro passo, existem os mecanismos usados para dirimir essa resistência, que nesse trabalho se constituem na atuação do Poder Judiciário.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os elementos mostrados aqui nesse trabalho, nos permite observarmos algumas tendências e dessa forma chegarmos a uma conclusão, de que a estrutura agrária, altamente concentradora de terra nas mãos de poucos do município de Parauapebas, não sofreu grandes mudanças. Justamente as políticas públicas que poderiam reverter essa condição tem o perfil de estimular a formação de latifúndios e reforçar essa estrutura iníqua. Por outro lado, o Poder Judiciário vem atuando para exercer a manutenção da estrutura e, de certa forma, o controle social.
REFERÊNCIAS
BALDUÍNO, Dom Tomás. O campo no século XXI: território de vida, de luta e de construção da justiça social. In: OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de; MARQUES, Marta Inez Medeiros (org). O campo no século XIX: território de vida, de luta e de construção de justiça social. São Paulo: Casa Amarela e Editora Paz e Terra, 2004. pp. 19 – 25.
BASTOS, Ronald Corecha. A atuação do MST (Movimento dos Tabalhadores Rurais Sem-Terra) na estrutura jurídico-agrária no Pará. Belém: Cejup, 2002, 128 p.
BECKER, Bertha K. Amazônia. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1991.
BRINGEL, Fabiano de Oliveira. Rumos, trechos e borrocas: trajetórias e identidades
camponesas de assentamentos rurais no Sudeste do Pará. 2006. 217 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Agrárias) – Universidade Federal do Pará, Centro de Ciências Agrárias: Embrapa Amazônia Orienta, Belém, 2006. [Orientador: Gutemberg Armando Diniz Guerra].
DALLARI, Dalmo de Abreu. O poder dos juízes. 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007, 166
3333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333333 EMMI, Marília Ferreira. A oligarquia do Tocantins e o Domínio dos castanhais. 2º ed.
Belém: UFPA/NAEA, 1999, 174 p.
HARVEY, David. A geografia da acumulação capitalista: uma reconstrução da teoria marxista. In: _______. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005,
pp. 41 – 73.
HÉBETTE, Jean. Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na
Amazônia. v. 2. Belém: EDUFPA, 2004a, 303 p.
_______. Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia. v. 3.
Belém: EDUFPA, 2004b, 362 p.
LAUREANO, Delze dos Santos. O MST e a constituição: um sujeito histórico na luta
pela reforma agrária no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2007, 232 p.
MARTINS, José de Souza. Terra e liberdade: a luta dos posseiros na Amazônia Legal. In: _______. Os camponeses e a política no Brasil. 4º ed. Petrópolis: Vozes, 1990, pp.
125 – 137.
MARX, Karl Heinrich. A mercadoria. In: _______. O capital: crítica da economia
política. Livro I. v. 1. Tradução: Reginaldo Sant’Anna. 25 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, pp. 55 – 105.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. A geografia agrária e as transformações territoriais recentes no campo brasileiro. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri (org).
Novos caminhos da geografia.5ª Ed. São Paulo: Contexto, 2005, pp. 63 – 110.
_______. Modo capitalista de produção e Agricultura. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática
S.A., 1995, 86 p.
_______. Modo de produção capitalista, agricultura e reforma agrária. São Paulo:
Labur Edições, 2007, 184 p.
STEDILE, João Pedro. Introdução. In: STEDILE, João Pedro (org). A questão agrária no Brasil: debate tradicional: 1500 – 1960. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2005a. pp. 15 – 31.
_______. “Leis de terra n° 601, de 18 de setembro de 1850” In: STEDILE, João Pedro (org). A questão agrária no Brasil: debate tradicional: 1500 – 1960. 2ª ed. São Paulo:
Expressão Popular, 2005b. pp. 283 – 291.
WOOD, Ellen Meisksins. A origem do capitalismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,