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CONSIDERAÇÕES PROPEDÊUTICAS SOBRE A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

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COnSIDERAçõES PROPEDêUtICAS SOBRE

A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

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Jorge Calvario dos Santos ** A Escola Superior de Guerra tem uma grande missão a cumprir, e, cumprindo-a, facilitará a tarefa do governo. Essa missão é a de formular, pela conjunta aplicação do talento civil e militar, uma doutrina permanente e coerente de Segurança Nacional e a de combater os vários ‘pseudos’ irracionais e ineficazes – o nacionalismo, o desenvolvimento, o pseudo-humanismo, a solução pseudo-criadora.

Castelo Branco RESUMO

A Escola Superior de Guerra comemora, em 2014, 65 anos de vida, de um longo tempo de contribuições à sociedade e ao país, herdeira de uma tradição como raras instituições nacionais. Este artigo pretende mostrar um pouco da sua história, bem como a de seu Centro de Estudos Estratégicos (CEE) e suas atividades. Por estar defasada, em termos acadêmicos, do momento histórico atual, são propostas algu-mas sugestões, visando contribuir para que seja atualizada tanto pedagogicamente como em gestão acadêmica, sem abandonar sua tradição.

Palavras-chave: Escola Superior de Guerra. Centro de Estudos Estratégicos. Conhe-cimento.

ABStRACt

PROPEDEUTIC CONSIDERATIONS ABOUT THE SUPERIOR WAR COLLEGE

The Superior War College1 celebrates in 2014 its 65th anniversary, a long time of contributions to society and to the country, heir to a tradition which is rare amongst national institutions. This article intends to show a little of the history of ESG as well

* Este artigo é uma homenagem a Amerino Raposo Filho, veterano da Segunda Guerra Mundial, um dos mais antigos e destacados membros do Corpo Permanente da ESG e renomado pensador e conhecedor de Estratégia e de História Militar, além de autor de vários livros importantes, com quem muito aprendi e por quem tenho elevada consideração e respeito.

** Coronel aviador, Doutor em Ciências de Engenharia pela COPPE/UFRJ, assessor do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Contato: <[email protected]>.

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as its Center for Strategic Studies2 and activities. Because it is lagging academically behind the current historical moment, some suggestions are proposed, aiming to contribute to update pedagogically as well as its academic management, without leaving its tradition behind.

Keywords: Superior War College. Center for Strategic Studies. Knowledge. RESUMEn

CONSIDERACIONES PROPEDÉUTICAS SOBRE LA ESCUELA SUPERIOR DE GUERRA La Escuela Superior de Guerra celebra, en 2014, sus 65 años, de un largo tiempo de contribuciones a la sociedad y al país, heredera de una tradición como pocas instituciones nacionales. Este artículo pretende mostrar un poco de su historia, así como a de su Centro de Estudios Estratégicos (CEE) y sus actividades. Como está desactualizada, desde el punto de vista académico, en el momento histórico actual, se proponen algunas sugerencias con el objetivo de contribuir para que la actualice tanto pedagógicamente como en gestión académica, sin abandonar su tradición. Palabras clave: Escuela Superior de Guerra. Centro de Estudios Estratégicos. Cono-cimiento.

1 COnSIDERAçõES PREAMBULARES

Desde que teve consciência de si, e consciência de que tem consciência, o homem adquiriu a capacidade de pensar e agir estrategicamente. Isso porque pas-sou a pensar sobre o outro, e esta é a base do pensar estrategicamente. Para pensar estrategicamente é necessário adotar o conceito de Estratégia que, por assim o en-tender, proponho: estratégia integral é a articulação de meios com relação aos fins, considerando os outros, de toda ordem, para superar a determinação, as certezas e as incertezas dos oponentes; alcançar objetivos pretendidos, cujas consequências predominem no tempo.

A partir daí, verificamos que os processos com os quais o homem tem se envolvido apresentam dimensões mais complexas. Algumas questões passam a ser identificadas. Quem conduz o processo histórico? É o processo histórico uma dialé-tica de classes, como afirmou Marx? É, segundo Toynbee, uma sucessão de desafios seguidos de respostas? É o processo histórico uma dialética de culturas3?4(COELHO DE SAMPAIO, 2000).

2 Known by the acronym CEE in Brazil.

3 Cultura entendida como o modo de ser, de ver o mundo, de se fazer presente no mundo, que é responsável pela unidade e identidade da Nação.

4 Sampaio não menciona nas referências as obras de Marx e Toynbee; daí elas não terem sido aqui especificadas, como ensina a ABNT.

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Ao iniciar-se o século XIX, essas questões haviam transmudado em uma dua-lidade mais elaborada, que opunha a ordem racional à lei natural. A ordem racional resultava da lógica dos predicados de Aristóteles, a qual fora retomada por iniciativa de Abelardo, ainda na Idade Média, para ser desenvolvida a partir dos séculos XVII e XVIII, inicialmente pelos pensadores franceses, em especial, Descartes. O problema estava em como apresentar à natureza, por meio da matemática, uma descrição intelectualmente satisfatória.

Grotius (apud DOWS, 1969) mostra em sua obra a convicção de que o mundo se divide em estados separados e independentes, cada qual absoluto dentro de seus limites territoriais, e todos iguais, pelo menos teoricamente. Apresenta, como problema básico, regulamentar as relações entre as nações independentes. Julgava que a única solução possível era a aplicação da antiga doutrina da lei natural ou lei da natureza. Uma sociedade de nações, assim como as sociedades locais, deve re-conhecer as eternas regras morais da lei da natureza vigentes em tempos de paz e de guerra. Ao contrário da lei dos homens, a lei da natureza é inalterável.

O relacionamento entre os Estados nacionais e entre culturas se processa segundo uma ou mais das cinco modalidades de interação social (SANTOS, 2000): Cooperação – quando dois ou mais homens se unem em busca do mesmo objetivo; Competição – quando dois ou mais homens buscam o mesmo objetivo, preservan-do nessa busca algumas regras acordadas; Conflito – quanpreservan-do preservan-dois ou mais homens buscam o mesmo objetivo, não se prendendo a nenhuma regra previamente acor-dada; Acomodação – ocorre, normalmente, após o encerramento do conflito, por coerção, tolerância ou exaustão de um ou mais homens; Assimilação – quando na interação os envolvidos adquirem formas exteriores de comportamento, de ma-neira de pensar, agir e mesmo sentir, e os conteúdos culturais migram para o outro envolvido. Assim, o relacionamento entre os indivíduos pelas cinco modalidades de interação acima expostas foi mediado pelo que veio a se denominar Estratégia. Por isso, as ações estratégicas são desenvolvidas por meio de formas de relacionamen-to entre os Estados e os homens.

A Escola Superior de Guerra (ESG), por ser uma instituição que preconiza es-tudar o Brasil, precisa eses-tudar o cenário internacional e as relações entre Estados. Com base nessa concepção, este texto tem como objetivo apresentar uma visão pessoal sobre a Escola Superior de Guerra e seu Centro de Estudos Estratégicos (CEE), no contexto em que desenvolve seus estudos, suas pesquisas e o seu âmbito de atuação. Mesmo sendo a Escola Superior de Guerra propriamente um Centro de Estudos Estratégicos, como relacionada no World Survey of Strategic Studies Cen-ters, editado por The International Institute for Strategic Sudies, desenvolve suas atividades por intermédio de suas Divisões de Estudos e do Centro de Estudos Es-tratégicos.

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motiva a procurá-la? O que nos une? O que temos em comum? Certamente, temos um profundo sentimento de amor, de dedicação e de compromisso com o nosso Brasil.

2 A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

Valendo-se dessas considerações e seguindo essa linha de pensamento, ini-cio tratando da existência da “Escola Superior de Guerra” com a configuração com que foi criada. A Escola Superior de Guerra completará, em 20 de agosto de 2014, sessenta e cinco anos de existência, e é mais bem conhecida pela camada social de maior nível de escolaridade e pelos vários países com os quais o Brasil mantém relações.

As razões pelas quais foi criada permanecem válidas, talvez mais atuais e adequadas para os dias de hoje do que propriamente para aquela época. Uma vez que, embora o quadro conjuntural internacional atual seja diverso do encontrado no pós-guerra, as novas modalidades de conflito procuram, tal como antigamente, o controle progressivo da Nação pela destruição sistemática dos seus valores, das suas instituições, do seu moral. As atividades levadas a efeito nesta Escola buscam oferecer às elites brasileiras os instrumentos hábeis para o entendimento dessa questão, tornando-as aptas a superar os óbices existentes no relacionamento en-tre as nações que procuram impedir o Brasil de alcançar seus Objetivos Nacionais Permanentes.

A respeito das atividades desenvolvidas na ESG, assim expressou-se o então Contra-Almirante Benjamin Sodré, cuja visão da ESG seguia os princípios funda-mentais da proposta de Humboldt (CASPER; HUMBOLDT, 1997, p. 20): “a unidade entre pesquisa e ensino; a autonomia da ciência; a interdisciplinaridade; a autono-mia administrativa, à luz das circunstâncias que definem nosso fim de século, isto é, de fim de milênio”.

Em conferência no ano de 1952, intitulada A educação e a segurança na-cional, frisou que “a segurança nacional não repousa somente nas forças militares, mas em todos os fatores econômicos, ideológicos, demográficos, geográficos, polí-ticos que a refletem na vida nacional, fortalecendo-a ou enfraquecendo-a.” (apud ARRUDA, 1983, p. 3). Tal enfoque enfatiza que, já no passado, havia o entendimento de que a Escola não era destinada aos estudos de defesa militar, mas, sim, uma ins-tituição de pensamento sobre o Brasil.

Com relação ao nome sugerido – Escola Superior de Guerra – ocorreram debates com o objetivo de substituí-lo por aquele que melhor se adequasse às suas atividades; entretanto, por falta de consenso, o nome foi ratificado.

O General Augusto Fragoso (apud ARRUDA, 1983, p. xxxvii) comentou sobre a não adequabilidade do nome outorgado à ESG, bem como sobre propostas para modificá-lo. O Almirante Ernesto Araújo declarou que a ESG

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“não é uma escola no sentido usual que se confere ao vocábulo, nem o objeto primordial de seus estudos é a guerra”; O Brigadeiro Ajalmar Mascarenhas frisou que “a ESG é mais de preservação da paz que um instituto de preparação para a guerra”. Em sua opinião, o nome poderia ser “Instituto de Altos Estudos para a Segurança Nacional”; o General Lira Tavares opinou por “Instituto Brasileiro de Estudos da Segurança Nacional”; o General Fragoso, em discurso de 1967, sugeriu “Instituto de Altos Estudos”, tal como a lei que o criou; o Presidente Costa e Silva entendia que poderia ser denominada “Instituto de Estudos Superiores da Política Nacional”; e, Gilberto Freire aventou “Escola de Estudos Superiores Brasileiros”.

A esse respeito, o então Comandante da ESG, Almirante Ernesto Araújo as-sim declarou:

Há, porém, nesse juízo, uma distorção que deve ser retificada e um exagero que é necessário desfazer para que não se consolide a mística de que a Escola é um órgão governamental com a finalidade e a capa-cidade de decidir, com acerto, sobre todos os problemas políticos, eco-nômicos, sociais e militares dos quais depende a Segurança Nacional. (FRAGOSO, 1971, p. 9).

As origens da ESG remontam à criação de um curso de Alto Comando, pela Lei do Ensino Militar, de 1942, o qual se destinava a oficiais generais e coronéis. Dois são os atos governamentais do Governo Dutra para a criação da ESG: um decreto executivo e uma lei decretada pelo Congresso. O primeiro ato oficial mencionando a ESG é o decreto 22.705, de 22 de outubro de 1948 (FRAGOSO, 1971), que determinou ao então Estado-Maior Geral que a organizasse. Essa instituição teria a função de ministrar aos oficiais das Forças Armadas o curso de Alto Comando, amparada pela Lei do Ensino Militar, de 1942. O curso foi ampliado ainda em sua fase de organização, a fim de se tornar a ESG atual (FRAGOSO, 1971). Arruda (1983, p. xxi) nos lembra que o curso ficou em espera até que foi organizada a Escola Superior de Guerra, que deveria ministrá-lo, agora com a participação de oficiais das três Forças Armadas. A esse respeito, o Presidente Médici afirmou ser “instrumento dos mais efetivos da integração das Forças Armadas e de identificação entre civis e militares.” (FRAGOSO, 1971). Meses depois de expedido o decreto de criação desta escola, o EMFA iniciou um processo para a efetivação da medida, ao nomear uma comissão presidida pelo General Cordeiro de Farias, com a intenção de elaborar o anteprojeto do Regulamento da Escola.

A ESG foi criada pela lei de nº 785, de 20 de agosto de 1949, pelo então Presi-dente Eurico Gaspar Dutra. Desde então, formou aproximadamente 8 000 cidadãos em seus cursos. Em 7 de dezembro de 1951, os formados pela ESG criaram a Asso-ciação dos Diplomados pela Escola Superior de Guerra (ADESG). Trata-se de uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de duração ilimitada, considerada de utilidade

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pública, pelo Decreto nº 36.359, de 21 de outubro de 1954 (BRASIL, 1954). Dispõe de delegacias em todas as capitais, bem como representações em inúmeras cidades do país.

Sessenta e cinco anos formam uma tradição. “ESG” já é um ícone, um sím-bolo. Seu nome tornou-se uma expressão mítica, no que se refere ao trato dos assuntos de interesse nacional e do pensamento político, geopolítico e estratégico. O simbolismo mítico leva a uma objetivação de sentimentos. É uma objetivação da experiência humana. Assim, a expressão é referenciada em função do mito, tal é o aspecto objetivo, e sua função objetiva definida e constituída ao longo do tempo. No seio da sociedade, assim como os indivíduos, as instituições são reconhecidas pela assinatura que lhes confere identidade, personalidade e representatividade. É necessário conciliar a rica herança cultural do passado com os valores da sociedade contemporânea, para evitar uma crise de identidade. É fundamental conscientizar-se de que as tradições, entre as quais conscientizar-se inclui o nome Escola Superior de Guerra, devem encarnar-se nas novas criações firmemente dirigidas ao futuro.

A ESG é uma instituição elaborada para adequar os rumos do Brasil em dire-ção ao seu lugar de direito no seio das nações; fez e faz parte da história do Brasil. Esse fato é profundamente relevante porque, graças à sua tradição e à sua atuação no cenário político e estratégico nacional, tornou-se conhecida e emblemática. Por suas atividades, por sua expressiva e ativa participação no cenário político-estraté-gico nacional, também é reconhecida como depositária fiel do sentimento patrió-tico da Nação brasileira. Quando se fala em Brasil, a camada social de maior esco-laridade referencia automaticamente a ESG, seus estudos sobre poder, geopolítica, segurança, desenvolvimento, entre outros.

Em seu livro Problemas de governo, Pandiá Calógeras (1936, p. 238) defendia a tese de que a Nação necessitava de uma instituição destinada a estudar as grandes questões nacionais. Em suas palavras “enquanto se não vulgarizarem conhecimen-tos militares nos homens públicos capazes de serem membros dos gabinetes, tal penúria de competências civis será uma fraqueza para nós.” Assim se manifestou:

A orientação de nossa política quanto às forças de terra e mar decorre de todos esses antecedentes históricos, e da lição dos fatos. Integrar a Nação com a incorporação das classes arma-das. Unir intimamente civis e militares; intimidade não imposta; nascida, ao contrário, da convicção profunda de que a pátria não pode viver, nem garantir seu surto pacífico e progressista sem assegurar os meios de manter a paz. Si vis pacem, para pa-cem, no domínio internacional; mas, possuindo os elementos para tornar respeitável nossa ânsia apaixonada pela concórdia, que se não possa nunca acoimar de fraqueza, e tendo sempre recursos para que seja ouvida e exerça plena eficiência nossa palavra de cordura. (CALÓGERAS, 1936, p. 238- 239).

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Em dezembro de 1948, o General Oswaldo Cordeiro de Farias foi

colo-cado à disposição do Estado-Maior das Forças Armadas para elaborar o

ante-projeto do regulamento da ESG. Da sua equipe faziam parte o Coronel Sady

Folch, o Coronel aviador Ismar Penha Brasil, o Tenente Coronel Affonso

Hen-rique de Miranda Correa, o Capitão de Fragata Celso A. de Macedo Soares

Guimarães e o Tenente Coronel Idálio Sardemberg (ARRUDA, 1983, p. xxi).

Em 4 de abril de 1949, o então Chefe do Estado-Maior das Forças

Ar-madas, General Salvador César Obino, na exposição de motivos n. 13-C

(BRA-SIL, 1949), ao Presidente da República, argumentava sobre a necessidade de

se criar um Instituto Nacional de Altos Estudos, destinado a desenvolver e

consolidar conhecimentos relativos ao exercício de funções de direção ou

planejamento de segurança nacional, que funcionasse como um centro

per-manente de pesquisas e admitisse civis e militares.

Em 1949, o General César Obino foi aos Estados Unidos. Em visita ao

National War College, comentou que o Brasil estava elaborando uma

insti-tuição que se assemelhava àquela em alguns aspectos. Os estadunidenses

ofereceram uma missão militar, composta de três oficiais, sendo um de cada

Força, para acompanhar a instalação da instituição brasileira: a Escola

Supe-rior de Guerra. Daquela missão participavam o Coronel William J. Werbeck,

o Coronel aviador Alvord Van Patten Anderson Jr. e o Comandante Lowe H.

Bibby (ARRUDA, 1983, p. xxii). Em 20 de agosto de 1948, o Congresso

Nacio-nal decretou a criação da Escola Superior de Guerra.

À procura de um modelo preliminar para a ESG, seus fundadores não

se esqueceram de estudar a Escola criada na França, em 1936, por proposta

do conhecido Almirante Castex. A ESG estava sendo elaborada com a missão

prioritária de formar elites para a solução dos problemas nacionais. Houve

discussões e desaconselhou-se que se copiasse o modelo do National War

College. Esse modelo serviria como inspiração, mas, não o único nem o

prin-cipal. Das discussões surgiu um documento de autoria do Tenente Coronel

Idálio Sardemberg, com o título “Princípios Fundamentais da Escola Superior

de Guerra”. São sete esses princípios

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, até então inéditos no país, que

exer-ceram fundamental influência na gênese e na evolução da ESG, formando

as bases para o exercício de suas atividades e sendo, ainda, bem atuais em

tempos hodiernos. São eles (ARRUDA, 1983, p. xxii):

5 Documento redigido pela Comissão designada pelo EMFA, em janeiro de 1949, para elaborar o anteprojeto de Regulamento da Escola. Presidia a Comissão o então gen. div. O. Cordeiro de Farias. O relator foi o então Tenente Coronel Idálio Sardemberg. (FRAGOSO, 1971).

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A Segurança Nacional é uma função mais do potencial geral da Nação do que seu potencial militar. 2. O Brasil possui os requisitos básicos (área, população, recursos) indispensáveis para se tornar uma grande potência. 3. O desenvolvimento do Brasil tem sido retardado por moti-vos suscetíveis de remoção. 4. Como todo trabalho, a obtenção dessa aceleração exige a utilização de uma energia motriz e de um processo de aplicação dessa energia. 5. O impedimento até agora existente con-tra o surgimento de soluções nacionais para os problemas brasileiros é devido ao processo de aplicação de energia adotado e à falta de há-bito de trabalho em conjunto. 6. Urge substituir o método dos parece-res6 por outro método que permita chegar-se a soluções harmônicas

e equilibradas. 7. O instrumento a utilizar para a elaboração do novo método a adotar e para a sua difusão consiste na criação de um Insti-tuto Nacional de Altos Estudos funcionando como centro permanente de pesquisas. (FRAGOSO, 1971, p. 5).

Complementando suas considerações, o documento escrito pelo Tenente Coronel Idálio Sardemberg enfatizou que o Instituto a ser criado convergiria esfor-ços no estudo e na solução dos problemas de Segurança Nacional mediante:

Um método de análise e interpretação dos fatores políticos, econômi-cos, diplomáticos e militares que condicionam o conceito estratégico nacional. 2.Um ambiente de ampla compreensão entre os grupos nele representados, de forma a desenvolver o hábito de trabalho em con-junto e de colaboração interdepartamental. [...]

Um conceito amplo e objetivo de Segurança Nacional que servisse de base à coordenação das ações de todos os órgãos civis e militares responsáveis pelo desenvolvimento no potencial e pela segurança do país. (ARRUDA, 1983, p. xxiii)

A ideia central contida nesses princípios era a de que o desenvolvimento não depende apenas de fatores naturais, mas principalmente de fatores culturais, do modo de ser do brasileiro. Essa ideia reside, sobretudo, na capacidade dos ho-mens que viessem a exercer funções de direção, mudados, porém os hábitos de trabalho então vigentes (ARRUDA, 1983, p. xxiii).

Fragoso (1971) em conferência na Fundação Getúlio Vargas - Rio de Janeiro (FGV-RJ) declarou:

Não seria objetivo da Escola ensinar a solução dos problemas nacionais e sim estabelecer e difundir um método de solução desses problemas e criar, não só um ambiente de compreensão entre os diferentes gru-pos nacionais, como uma Doutrina que promovesse o

Desenvolvimen-6 Método segundo o qual os processos recebiam pareceres dos envolvidos e assim poderiam continuar circulando entre pessoas por tempo indeterminado sem que qualquer solução viesse a ocorrer.

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to do potencial nacional, mediante a aplicação coordenada daquele método, por todos os órgãos responsáveis, civis e militares.

A ESG afastava-se do National War College, que, em função de

carac-terísticas culturais estadunidenses, atuava para a preparação para guerra. A

ESG viveria em ambiente diferente, com o objetivo de tratar da vida nacional

em tempo de paz, considerando fundamentalmente os defeitos do sistema

educacional (FRAGOSO, 1971).

Em 1949, o General Cordeiro de Farias expôs em palestra as razões que

motivaram a criação da Escola Superior de Guerra. Assim se manifestou:

A Escola Superior de Guerra é bem um espelho do conceito moder-no de Segurança Nacional: ela não é um instituto militar apenas, nem tampouco uma organização civil, é, isto sim, um centro misto de estu-dos – militar e civil – e onde, em última análise, se vai tratar da defesa do cidadão. (ARRUDA, 1983, p. xxv).

Em 2014, por ocasião de comemoração dos sessenta e cinco anos da Escola Superior de Guerra, cumpre falarmos um pouco sobre esta tão comentada, mas nem sempre bem conhecida e entendida instituição. É importante sabermos um pouco do que há meio século tem sido o único fórum destinado, exclusivamente, à discussão das questões nacionais.

A ESG é uma das mais antigas instituições do mundo em sua área de ativida-des. Atua como um laboratório de estudos brasileiros, oferecendo análises, diag-nósticos e também sugerindo soluções para problemas nacionais, predominando os estudos pertinentes ao desenvolvimento e à segurança nacional, necessários a um país emergente. Para viabilizar e contextualizar seus estudos, dedica-se, tam-bém, à Ciência Política e às Relações Internacionais.

A fim de conduzir suas atividades, a ESG define que, na consolidação dos va-lores atinentes à nacionalidade, à cultura, à unidade e às instituições que os corpo-rificam, como é o caso desta Escola, sejam preservados seus elementos essenciais e que lhes conferem identidade.

A ESG, concebida como um centro de estudos e pesquisas para difundir e consolidar o conhecimento necessário ao exercício de funções relevantes, tanto na esfera pública quanto na esfera privada, consagrou-se como um dos centros da vida cultural brasileira pela qualidade de seus estudos, pelo nível de seus docentes e discentes, bem como por se dedicar ao estudo de temas brasileiros, por realizar diagnósticos e sugerir possíveis soluções.

Seu corpo docente é constituído de militares escolhidos pelas três Forças Ar-madas, civis de elevada qualificação, constando, entre seus componentes, vários com a titulação de Doutor e de Mestre, bem como especialistas em temas de in-teresse da Escola. Docentes da ESG também atuam como professores e

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pesquisa-dores em universidades. Seus estagiários, assim denominados por terem elevado nível de conhecimento, de experiência e de vida pública, distinguem-se e, por isso, desenvolvem trabalhos junto com os docentes.

Seu pioneirismo atribuiu-lhe a responsabilidade de preparar cidadãos para atuarem nas diversas instâncias e instituições nacionais e, assim, contribuírem para o desenvolvimento, a segurança e a integração, bem como pensar sobre o futuro do país. Os trabalhos desenvolvidos pelos estagiários e pelos docentes têm como característica serem pertinentes aos estudos brasileiros.

Em meio às peculiaridades da ESG, historicamente, seu efetivo docente e dis-cente, até recentemente, era constituído de dois terços de civis e um terço de mi-litares, estagiários provenientes das diversas regiões do país e de várias profissões e instituições privadas e públicas. A ESG, tradicionalmente, não impõe, mas discute os variados temas em questão no decorrer dos cursos. Não molda consciências, não dita regras infalíveis, não é dogmática, não pretende ser exclusiva nem deter ne-nhum monopólio. O diálogo é seu maior instrumento para as atividades. Mantém um diálogo aberto com centros de estudos e com universidades, como recurso para permanecer atualizada em seus estudos e em sua visão de mundo.

Entre as atividades dos corpos discente e docente estão os debates e os tra-balhos em grupo. A Escola tem como premissa não ser ideológica e ser apartidária. Procura a autenticidade em suas atividades. Liberdade de pensamento e de expres-são faz parte de sua rotina. O Coronel Augusto Fragoso, em texto, apresenta estudo do Coronel Nemo, publicado na França, na Revue Militaire Générale, de março de 1958, em que afirmara “É preciso abandonar com resolução a Doutrina Dogma. A doutrina não pode ser considerada como se fosse um monumento edificado para durar” (ARRUDA, 1983, p. xxxi). O respeito pela doutrina não deve chegar ao feti-chismo. Assim sendo, foi determinante que, na ESG, não houvesse dogmas nem princípios a serem seguidos sem profunda crítica. A liberdade de expressão é a re-ferência maior, e o pensamento estratégico é predominante.

A esse respeito, o General Lyra Tavares assim se manifestou:

A grande benemerência da Escola Superior de Guerra está em que de nenhum outro modo mais adequado seria possível realizar, tanto no campo de estudo, como, até mesmo, no das relações humanas, esta obra de integração e de intercâmbio livre, de ideias, dos que lidam em setores diferentes da organização nacional, com questões que se en-trosam e se intercomunicam para a mesma finalidade principal a que todas elas se subordinam: a da adequação recíproca do poder e dos objetivos da Nação, tendo em conta os condicionamentos que devem intervir na sua Política de Segurança. (ARRUDA, 1983, p. xii).

Os seres humanos – quer no plano individual, para conseguir um posto, uma vantagem ou um prazer, quer no plano das empresas, partidos, sindicatos e Estados

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Nacionais – usam estratégias mais ou menos refinadas, isto é, imaginam ações em função das certezas (ordem), das incertezas (eventualidades) e das aptidões para organizar o pensamento (estratégias cognitivas, roteiro de ação), e age, modifican-do, ocasionalmente, decisões ou caminhos de acordo com as informações que sur-gem durante o processo.

3 SOBRE O MAnUAL BÁSICO

A ESG possui dois documentos basilares: o “Método de Planejamento Estra-tégico”, originalmente denominado “Método de Planejamento da Ação Política”, que serve de referência para os planejamentos que possam vir a ser realizados na Escola; e o “Manual Básico”, que tem uso como referencial maior para o entendi-mento comum dos conceitos utilizados pela ESG em suas atividades acadêmicas.

Antes do surgimento da ESG, seus idealizadores entendiam que havia a neces-sidade de um documento que pudesse uniformizar os conceitos e o entendimento dos significantes utilizados na Escola. Tais conceitos, formulados pelos idealizadores da ESG, estavam contidos em um documento intitulado Princípios Fundamentais (MACEDO, 1984). Nesses princípios constava a ideia de que a Segurança Nacional é um conceito mais amplo do que o de Defesa Nacional, este vinculado à defesa de uma agressão externa. Com os conceitos tornaria possível a adequada raciona-lização da Ação Política e da Ação Governamental. O planejamento seria facilitado com o entendimento dos conceitos por parte dos planejadores. Com tal medida, o documento básico da ESG seria um instrumento para estudo, análise e propostas de modificação de realidades que precisavam de transformações.

O Manual Básico tem seus fundamentos embasados na transcendência e hu-manismo constituintes do pensamento ocidental. É fundamentado por quatro con-ceitos centrais: Objetivos Nacionais, Poder Nacional, Política Nacional, Estratégia Nacional. Nesses fundamentos o referencial central é o ser humano.

Macedo (1984) rebate vários argumentos que defendiam que a então Dou-trina da ESG teria origens estadunidenses, como o Padre José Comblin em A ideo-logia da Segurança Nacional, editada em 1977, que atribui à cópia de documento norte-americano o ensino na ESG. Tal livro, afirma Macedo, não identifica as origens da tese de Comblin por, principalmente, citar fundamentalmente documentos bra-sileiros e não explicar as divergências entre o National War College e a ESG. Wilson Martins, em sua História da Inteligência Brasileira, atribui sua origem ao defendido por Góis Monteiro em seu “A revolução de 30 e a finalidade política do Exército”, em 1934. Edmundo Campos Coelho, em 1976, em sua tese “Em busca de Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira” afirma que a doutrina militar de Góis Monteiro é essencialmente idêntica à doutrina de segurança nacional formulada pela ESG. Isso significa uma antecipação de duas décadas à doutrina militar que surgiu com o regime militar de 1964.

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Macedo (1984) entende que o livro de Michel Schooyan, de 1973, Destin du Brésil, sugeria que o positivismo e o integralismo seriam antecessores da “Doutri-na”. Defende a tese de que o Manual Básico enquanto “Doutrina” é produto de demorada elaboração ao longo de cerca de trinta anos por docentes e discentes da ESG. Para ele, a “Doutrina” representa a evolução do pensamento nacionalista de Alberto Torres e de Oliveira Vianna. Macedo entende, ainda, que o positivismo não teve relevância na ESG. A teoria positivista opunha-se ao que foi proposto por Góis Monteiro. Antônio Paim desenvolveu síntese da contribuição da “Doutrina” ao país quando afirmou:

A Escola Superior de Guerra desenvolveu com êxito uma significati-va elaboração teórica, notadamente no que respeita à delimitação daquela esfera de atuação do poder... Essa esfera denominou-se de objetivos nacionais permanentes, isto é, o conjunto de pressupostos que devem constituir o patamar superior da política, no ponto de sua confluência com a moral... A Escola difundiu o entendimento de que as formas de agressão insufladas do exterior somente encontram campo propício para vicejar em face das condições materiais adversas e do atraso cultural. Afora isto, o ciclo de evolução do Ocidente, em que vi-vemos, em resultado da evolução tecnológica, também se constitui em fonte de perplexidades. Em vista do reconhecimento dessa amplitude dos focos de insegurança, a segurança nacional é afirmada como con-dição para o desenvolvimento, mas igualmente dependente dos êxitos desse último. Além disso, não é função do Estado isoladamente, mas responsabilidade coletiva. (PAIM, 1979, p. 118).

4 A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA E A QUEStãO DO COnhECIMEntO

Deixando o âmbito maior e de longo curso das culturas para considerar as circunstâncias e as pressões apenas conjunturais do presente, defronta-se com o fenômeno da força crescente do conhecimento científico que já operava constituti-vamente desde as origens da modernidade, que é tecnocientífica em sua essência mais profunda. Ela é impactante, portanto, desde os tempos de Copérnico, Des-cartes, Bacon e Galileu, porém somente agora a ciência mostra a todos seu sorriso ambíguo, suas garras e suas verdadeiras pretensões.

Nos muitos fóruns em que o estudo é objeto de trabalho, consequentemente, de interesse, ficam todos obrigados a harmonizar sutilezas, conveniências, inconve-niências e, como habitual, o discurso proporcional ao peso do desejo de estudo e à falta dele. Não há como se omitir sobre esse tema. Neste século, o conhecimento é centro irradiador das sociedades em benefício de um futuro melhor que o presen-te. Desse modo, a educação superior e a pesquisa são fatores fundamentais para o desenvolvimento cultural e a evolução das nações. Não há futuro sem educação.

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entre a dependência científico-tecnológica, a restrição, o direcionamento e a unifor-mização do pensamento; e uma economia desvinculada do atendimento às necessi-dades da sociedade. Essa tendência tem afastado qualquer possibilidade de desen-volvimento. Assim, a sociedade fica restrita ao esforço para sobreviver e termina por renunciar ao que lhe resta de pensamento. Surge um mundo pragmático.

O entendimento da existência de vínculo da cultura com o pensamento estra-tégico é de suma relevância, sobretudo porque evidencia um aspecto que pouco é tratado nas discussões político-estratégicas: a cultura. Isso é um assunto de impor-tância vital para todos os brasileiros, em especial para a Escola Superior de Guerra, pois é uma instituição destinada a tratar da política e do pensamento estratégico brasileiro. Como uma instituição de cultura, foi sabiamente criada para privilegiar, em profundidade e em amplitude, o pensamento e a reflexão. Introduz os aprendi-zes no mundo das ideias, do saber vivo. Isso significa iniciá-los na atividade profícua e criadora da reflexão e da pesquisa. Por essa razão, seu Corpo Permanente vive e deve viver no mundo das ideias. Deve viver uma vida sustentada pelo conhecimen-to e sempre se projetando à frente do tempo presente.

Esse comportamento é essencial, porque a missão de uma instituição de cul-tura, de estudos aprofundados, não é meramente a de repassar conhecimentos: a missão é, acima de tudo, a de criá-los. Só assim, com novas ideias e novos conheci-mentos, é possível crescer e se aperfeiçoar.

Entre os aspectos expressivos dessa questão, dois merecem destaque: o pri-meiro é que a cultura vem moldando os padrões de coesão, integração, desintegra-ção e conflito no mundo, especialmente no mundo após a Guerra Fria. O segundo é o fato de que a política mundial vem sendo configurada, seguindo linhas culturais, ainda que se proclame econômica.

Torna-se imperativo ressaltar as pretensões universalistas da cultura anglo-saxônica, que, no último século, incita o mundo ocidental cada vez mais ao conflito com outras culturas. Isso é fato fundamental para qualquer instituição que se dedi-que ao conhecimento e aos estudos estratégicos.

Com relação à Academia, Schneider (2005, p, 49) esclarece que, nas palavras de Heidegger:

[...] as Universidades, como “lugares de pesquisa e do ensino científi-co” convertem-se em centros de empresamento “sempre mais próxi-mos da realidade”, nas quais nada mais chega a ser decidido... O últi-mo resto de uma decoração cultural, elas vão manter [...] e vão perma-necer como meios de uma propaganda “político-cultural”. Nenhuma essência de “universitas” se poderá jamais desenvolver a partir delas: de um lado, o empresamento científico mesmo consegue manter-se sem o elemento “universitário”, o que significa aqui sem a vontade de reflexão [...] A filosofia, aqui entendida como reflexão pensante sobre a verdade, e isto quer dizer sobre a problematicidade do ser, não como erudição histórica e produtora de “sistemas”, não tem lugar na

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“uni-versidade [...] Pois ela não ‘tem’ lugar algum, a não ser aquele que ela mesma funda, mas para onde é incapaz de conduzir, imediatamente, a [algum] caminho de qualquer instalação fixa”.

Assim, tanto a Universidade como a ESG precisam repensar a qualidade de excelência como recurso para manter a reflexão. Em 1932, alguns intelectuais, pre-ocupados com os rumos da educação no Brasil, demonstraram essa apreensão em um documento intitulado “O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”7.

Assi-naram esse manifesto personalidades como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Afrânio Peixoto, Roquette Pinto, Júlio de Mesquita Filho, Delgado de Carvalho, Her-mes Lima, Cecília Meirelles e tantos outros cidadãos de relevância para o país.

No manifesto, pretendiam que os diversos níveis de ensino básico pudessem contar com um processo educativo continuado e ininterrupto. Observação, pesqui-sa e experiência fariam parte do exercício acadêmico. O ensino universitário teria a função de atender à formação profissional e técnica, bem como à formação de pesquisadores em todos os ramos do conhecimento humano. O ensino e a pesquisa caminhariam juntos. Na Universidade, encontra-se o ápice de todas as instituições educativas. Ela é destinada a desenvolver uma função cada vez mais importante na formação da elite de pensadores, sábios, cientistas, técnicos e educadores de que um país precisa para construir seu futuro, e para a humanidade desenvolver-se. Pretendiam, também, que os princípios humboldtianos (READINGS, 1996) fossem adotados pela educação brasileira.

5 nA UnIvERSIDADE tAL COMO nA ESCOLA SUPERIOR GUERRA

Um exame dos mil anos de existência da Universidade e do que tem lega-do à humanidade é importante para a compreensão lega-dos desafios com os quais convivem os homens. As dificuldades bem como as incertezas decorrentes da ins-tabilidade existente no universo das nações não possibilitam a visão adequada do presente. As culturas caminham em um rumo que se faz sem rumo por não se saber para onde seguir. Os meios de comunicação utilizados como recurso po-lítico, como instrumentos de controle e mesmo de dominação, banalizam a vida humana igualando a vida com a morte, a esperança e o sofrimento, retiram o passado privilegiando apenas uma vida presente que ocorre sem qualquer ob-jetivo. Nesse quadro, a Universidade assim como a ESG têm compromisso com o futuro e representam a força que rejeita e procura impedir a anestesia do objeto do pensar e a construção de um futuro melhor. Nesse contexto Ortega y Gasset (1962, p. 42) nos lembra que:

7 O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, difundido em 1932, propunha uma nova educação que de fato trouxesse benefícios para a sociedade na formação acadêmica e na personalidade do indivíduo.

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A missão do ‘intelectual’ é, em certo modo, oposta à do político. A obra intelectual aspira, com frequência baldada, a esclarecer um pouco as coisas, enquanto a do político sói, pelo contrário, consistir em confundi-las mais do que estavam. Ser da esquerda é como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral.

Quando se trata de cultura, convém lembrar Joseph Nye (1990) quando afir-ma a existência de um forte vínculo entre cultura e poder. A cultura segue o poder e o poder a segue. Para Nye8 (1990), o vínculo entre eles é ignorado de forma quase universal, sobretudo pelos que acreditam no surgimento de uma civilização que se estenda a todos, como deveria ser e, também, pelos que acreditam que a ocidenta-lização é condição fundamental para a modernização. Os que ignoram esse vínculo não admitem que a lógica de sua argumentação os conduza a apoiar a expansão e a consolidação do domínio do mundo pelo Ocidente e que se outras culturas forem deixadas livres para traçar seus próprios destinos, elas resgatarão sua cultura recal-cada e manterão sua dignidade e identidade cultural e nacional. Esse é um aspecto que envolve a questão do conhecimento e um profundo pensamento estratégico, visando buscar melhores opções de existência.

Vivemos hoje na era do conhecimento. Como desprezar seu valor e o das ins-tituições que o preservam e o difundem e que devem necessariamente produzi-lo? Cremos que até aqui não exista qualquer desacordo, porém, quem estaria disposto a, ao menos, identificar as reais consequências? Francis Bacon também observara que “Conhecimento é poder” (PORTELLA apud PEREIRA et al., 1999, p. 46).

É notório que, neste início de século, a Universidade passa por um processo de transformação, deixando de ser a instituição do Estado, destinada a preparar o futuro, para tornar-se uma instituição burocrática, organizada e orientada, tendo em mira a sistematização e o desenvolvimento insuficiente de novos conhecimen-tos. Por essa razão, vemos a Universidade aproximar-se do mercado e gerir o ensino e a pesquisa como um negócio. A instituição de ensino superior, portanto, busca a excelência, cujo índice procura representar o nível de eficiência. Como medir, quan-tificar ou qualificar esse nível na Universidade? Como afirmar que uma determina-da Universidetermina-dade é excelente? Sobre excelência, Aristóteles, em Ética a Nicômaco, observou que “é árduo trabalhar para ser excelente, já que em cada caso é difícil trabalhar para encontrar o que é intermediário” (apud READINGS, 1999, p. ix). Re-adings (1999, p. 29) entende que “excelência universitária é a estrutura acadêmica 8 Para Nye, o poder pode ser dividido em poder duro e poder suave. O poder duro significa que é

possível conseguir com que outros queiram o que se quer, apoiado na força econômica e militar. O poder suave manifesta-se através de apelo à cultura e ideologia. Nye enfatiza que o poder duro e o poder suave são extremamente importantes, podendo se complementar.

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gerencial que possibilita conhecer a si mesma apenas em termos de estrutura cor-porativa administrativa”.

O entendimento das mudanças estruturais pelas quais passa a Universidade, bem como sua função, é fundamentalmente necessário para que seja possível ar-gumentar que a ampla função social da Universidade, como instituição nacional, é agora alcançada.

Essa transformação no papel da Universidade é, acima de tudo, determina-da pelo declínio determina-da função determina-da cultura nacional que tem até agora sido sua razão de ser. Em resumo, a Universidade tem se tornado um tipo de instituição que deixa de estar vinculada ao destino da Nação, pela virtude de seu papel como pro-dutora, protetora e apregoadora da ideia de cultura nacional (READINGS, 1999, p. 1-3). Entretanto, é preciso ter em mente que a Universidade deve preparar o jovem para que venha a “viver à altura do seu tempo”. Para isto, não basta a sim-ples formação de profissionais nem a dedicação exclusiva à pesquisa. Para tanto, a Universidade não se limita a apenas uma missão, mas a todas que se somam e se integram na função de impulsionar a cultura à altura do seu tempo visando ao tempo futuro. Daí a importância da visão de Humboldt e de Ortega y Gasset (1962) sobre a Universidade.

Na década de 1990, temas pertinentes à identidade nacional foram inten-samente discutidos nos Estados Unidos, como observou Huntington (2004). Ge-rald Graff (1992) denominou “guerras de cultura” e considerou saudável o debate sobre a cultura nacional, que mais uma vez está ocorrendo no local onde deveria: na Universidade (READINGS, 1999, p. 112). Debate sobre a identidade nacional é a característica predominante do nosso tempo. Esse debate é fundamental para a unidade e o futuro da Nação, pois os interesses nacionais decorrem da identidade nacional. É necessário saber quem somos antes de podermos saber quais são os nossos interesses e, assim, melhor preparar as Forças Armadas e a Nação para garanti-los.

Essa preocupação não é produto do atual momento histórico, mas surge com Humboldt 9 (READINGS, 1999), para quem a cultura é pensada em termos indis-sociáveis da identidade nacional. A forte ideia de “cultura” vincula-se ao Estado 9 Wilhelm von Humboldt (1767-1835), o Ministro da Prússia que, em 1810, pode concretizar

uma nova ideia de Universidade com a fundação da Universidade de Berlim. A ideia central humboldtiana de Universidade é a de unidade indissolúvel do ensino e da investigação: uma Universidade de cultura. Só o docente que tiver tempo para investigar, e para se informar do estado da arte na sua área, terá melhores condições desenvolver a atividade acadêmica de caráter verdadeiramente universitário. Dois outros princípios importantes deste modelo de Universidade são o da liberdade do ensino e da aprendizagem e o da necessária maturidade e autonomia do estudante universitário. Surgia uma Universidade de cultura. A Universidade deve promover o desenvolvimento científico e a formação intelectual e moral. Deve haver a combinação de ciência objetiva e formação subjetiva.

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nacional. No contexto em que vivemos, preocupamo-nos, pois presenciamos o de-saparecimento da cultura enquanto locus do sentido social.

A Universidade de Humboldt (READINGS, 1999), de certa forma, apoia-se na visão kantiana, na razão prática, o saber caminharia pelo observar – o velho episte-ma grego – pelo comparar, combinar, distinguir, derivar, falsificar (submeter sobre a prova do falso) e, finalmente, pelo Generalizar, considerado a grande tarefa da cons-trução do conhecimento; o programa, as operações da produção do conhecimento. Adotava também algo que vinha da escolástica anterior, que preservava a ideia de ratio como lógica, como caminho para construir o conhecimento e o intelectus que era, por São Tomás de Aquino, a percepção, a intuição genial, a percepção da pista, a centelha de inspiração.

O programa, proposto por Humboldt como uma nova ideia de Universidade, nasce em 1809, em Berlim, e combina, de maneira absolutamente íntima, sistêmica e orgânica, com a ideia de ensino e pesquisa. Qual é a ideia central desse casamento pensado por Humboldt? É a de que só é possível ensinar pesquisando. Os dois atos são simultâneos. Se ensinar for apenas repetição do já conhecido, está-se lançando mão da memória e se está caindo na fórmula jesuítica, do palácio da memória, es-tereotipada e congelada. Como se cria o criador? A visão de Humboldt é uma visão que combina de modo sistêmico o ato de criar com o ato de aprender o conheci-mento. Ambos estão destinados a quem está estudando. Quem estuda deve ser capaz de reproduzir de forma ampliada e de transmitir conhecimento com outras palavras. Todo e qualquer estudante deve ser potencialmente um criador de futuro. Essa proposta contém a ideia de que a Nação é eterna. A Universidade é o espaço em que o espírito da Nação se preserva e se reproduz. O programa de Humboldt é curioso e denso (READINGS, 1999).

Isso nos conduz a pensar sobre “a missão da Universidade ou aceitar que a identidade nacional perdeu seu valor, o que leva à fragmentação da nacionalidade” (READINGS, 1999, p. 73, 112). Como observou Rousseau, “se Sparta e Roma perece-ram, que Estado pode desejar durar para sempre?” (HUNTINGTON, 2004, p. 11).

O debate sobre cultura nacional é uma atividade saudável. Por que no Brasil isso não ocorre? Por que a ESG não tem essa preocupação? O que isso significa? Esse debate é importante. Cabe ao Estado preservar a cultura nacional, evitando, assim, possibilidades de fragmentação da sociedade.

O papel da Universidade moderna (de excelência) tem procurado fixar-se em si mesma. Desse modo, a história dos caminhos prévios de entendimento da função da Universidade pode ser, grosso modo, sumarizada com base em três funções: pesquisa, ensino e administração, em que a administração prepondera sobre as outras. A visão de Kant10 é seguida pelas ideias de cultura de Humboldt, e, mais 10 Para Kant a Universidade é moderna quando suas atividades são organizadas em uma

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recentemente, a ênfase tem sido na postura tecnoburocrática de excelência. Na Universidade humboldtiana, estruturada na cultura, o reitor encarna o ideal pandisciplinador da orientação cultural geral, tornando-se figura da Universi-dade em si mesmo. A verUniversi-dadeira ideia de um reitor é de que um simples indivíduo pode manter metaforicamente a Universidade aos olhos do mundo enquanto per-manece metonimicamente11 conectado ao resto da faculdade. Primus inter pares12,

tal como um Presidente figura a função dupla de cultura como o princípio animador da Universidade.

Readings entende que, “na Universidade de excelência, o reitor é o admi-nistrador burocrático que se move do salão de leitura para a praça de esportes ou para o salão executivo. Observa que a excelência funciona como unidade monetá-ria em um universo fechado.” (1999, p. 54-57). O que nos assusta é que todos são adeptos da excelência. Assim, quem poderia ser contra isso? Sendo, de modo geral, o conceito e o significado de excelência diferente para cada indivíduo, a questão central não é que não se saiba o que seja excelência, mas que cada um tenha a sua própria ideia a respeito do que ela seja, e, uma vez aceita por todos como princípio organizativo, não há razão para se perguntar sobre definições diferenciadoras. Cada um é excelente em seu próprio pensar e, por isso, participa do processo burocrático mercadológico.

Nesse processo, por causa da excelência, com a Universidade entrando no mercado, poucos reúnem condições de a ela pertencer e nela estudar. O futuro da Nação começa a ficar comprometido. Isso porque o Estado nacional é produto e tem sua existência em função da cultura da sociedade que o constitui. A Universidade de excelência é um simulacro da ideia de Universidade idealizada por Humboldt.

Na caminhada para alcançar a pretendida excelência, a Universidade deixa de pensar em si própria, esquecendo ou abandonando sua característica de ser um lugar de dissenso que elimina o pensamento monolítico, a unidade do saber, a autoridade monolítica do discurso disciplinar, que esconde a intenção de consolidar o consenso final. Dissenso insurgente contra qualquer forma de pensamento totali-tário que se rebela contra formas de fronteiras hierárquicas culturais, criadas como recurso para tratar de uma totalidade homogênea, tais como: culturas, nações, po-vos distintos uns dos outros e que caracteriza uma relação vertical, de valores, entre os povos.

A Universidade, como a ESG, é o espaço da liberdade do espírito, é o espaço da pergunta, é o espaço da dúvida. É o saber firmando-se e questionando-se. A Uni-versidade não busca a mercadoria, mas, sim, o conhecimento pelo conhecimento para o benefício da sociedade. Cerceá-la é cercear o futuro da Nação, da sociedade. 11 Designação de um objeto por palavra designativa de outro objeto que tem com o primeiro uma

relação de causa e efeito. 12 Primeiro entre iguais.

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É preciso entender que o dissenso não pode ser institucionalizado, porque a pré-condição para esta institucionalização seria um consenso de segunda ordem, em que fosse considerado certo, bom, fundamentalmente.

Segundo Readings: “Os que se preocupam com a Universidade invocam o retorno aos ideais humboldtianos de comunidade e funcionamento social e exigem que ela abrace sua identidade corporativa e se torne mais produtiva e mais eficiente, atuando na preservação da identidade nacional”. (1999, p. 65-66).

É um desafio a ser enfrentado: a estruturação de uma instituição melhor, a produção de outro modelo de eficiência e de outro projeto unificado e unificador. Que transformação pode sofrer a Universidade quando ela já não mais exerce seu papel de liderar a preservação da cultura nacional, mas ainda não tomou irrevoga-velmente o caminho de uma corporação burocrática?

Sobre a preocupante situação da Universidade, Bill Readings (1999), em seu esclarecedor estudo, diagnostica que as atuais exigências de “excelência” universi-tária acontecem por toda parte, são a contrapartida incontestável do tão decantado processo de esvaziamento dos Estados Nacionais.

Ainda que ela não tenha ainda tomado um rumo definitivo e, em razão disso, como ressaltado por Readings (1999), a academia dispõe de algumas opções quanto ao futuro. Uma delas seria a de abandonar a noção de que a missão social da Universidade está inelutavelmente ligada ao projeto de realização da identidade cultural nacional. Isso equivale a deixar de pensar a articulação social da pesquisa e do ensino em termos de missão. Esta posição é de aceitação consideravelmente mais difícil, por parte dos intelectuais, pois significa abandonar a pretensão dos intelectuais de prestar serviços à sociedade. Essa exigência consiste tanto em conhecer quanto em encarnar a verdadeira natureza da sociedade, o que tem sido mascarada pelos acadêmicos. Essa opção não seria adequada, pois a construção do futuro é atributo da Universidade, e o futuro e a identidade nacional, afastados da sociedade, estariam comprometidos, o que traria consequências negativas à Nação.

No Brasil, toda esta problemática cultural assume características e propor-ções inusitadas; se assim não fosse, não estaríamos lutando apenas pela defesa de um patrimônio acumulado, mas também pela preservação do espaço onde se es-taria processando já há séculos o intensamente doloroso processo de caldeamento de uma cultura nova. A Universidade, como a ESG, precisa assumir um papel de liderança na defesa do espaço cultural da Nação, para que todo esse ebuliente e complexo patrimônio cultural não desande de repente. Ortega y Gasset (1962, p. 26) afirma que a “Universidade pode assumir seu verdadeiro papel, como força espiritual reformadora da sociedade, contrapondo-se ao poder da imprensa, à fri-volidade, estupidez e autoritarismo, assumindo a missão de elevar e enobrecer o destino do mundo civilizado”.

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Todos os grandes pensadores da Universidade – como Gerhard Casper, Wi-lhelm von Humboldt (1997), J. G. Fichte (1999), José Ortega y Gasset (1999), Anísio Teixeira (1998) – atribuem à Universidade um papel crucial na vida cultural das na-ções modernas. Reading (1999), pré-citado, de certo modo, reconhece isso, apenas acredita que este papel fosse hoje declinante. É o mínimo o que nossas “elites” políticas, empresariais e, em especial, intelectuais, podem fazer para colaborar, um pouco que seja, na manutenção cultural brasileira.

Mesmo um fórum internacional burocrático – a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) –, por isso mesmo obrigada a har-monizar sutilezas, conveniências, não conseguiu se omitir sobre a matéria.

Graças ao alcance e à velocidade dessas transformações, a sociedade vem crescentemente se tornando uma sociedade cujo eixo é o conhe-cimento. Por isso, a educação superior e a pesquisa são hoje fatores fundamentais para o desenvolvimento cultural e socioeconômico de indivíduos, comunidades e nações13. (PORTELLA apud PEREIRA, 1989,

p. 57, 58).

A Universidade é uma das mais importantes instituições para as nações, mas, essencialmente, para as não desenvolvidas. Ela é como um templo, o qual abriga o saber, a ciência e o conhecimento necessários ao progresso, a fim de cons-truir o futuro almejado. Mas isso não é fácil. Embora muitos indivíduos não te-nham consciência disso, sabemos que somos fortemente influenciados pelas cul-turas mais poderosas. Essa circunstância não atinge somente a Universidade, mas a todos. Olhamos na direção de onde emanam as ideias principais. Os acadêmicos identificam e sentem esses efeitos, cada vez mais, o que dificulta a participação de modo convergente com os interesses da Nação. Vivemos na época do conheci-mento na qual se tem muito a aprender e pouco tempo para viver. É preciso pensar estrategicamente, em longo prazo, como se deve proceder a fim de alcançar os objetivos pretendidos. Não se deve viver em função das ideias predominantes, mas, sim, desenvolver as próprias ideias.

Os pesquisadores e pensadores da Universidade entendem sua importân-cia. A esse respeito, todos concordam que ela é o centro fulcral para a construção do futuro das nações. Uma Universidade medíocre para um país medíocre, uma Universidade boa para um grande país. O destino da Universidade será o mesmo do país, e vice-versa.

É preciso lembrar que os intelectuais e os pesquisadores também sofrem as mesmas influências. Quando se fala das ideias predominantes não se está julgando o mérito, todos sofrem, faz parte da história. Certa época, olhava-se primeiro para a Grécia e, depois, para Roma. Hoje, vemos os resultados do que foi produzido pelo 13 Declaração mundial sobre educação superior no século XXI: visão e ação – Preâmbulo.

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mundo romano em nossas vidas diárias. Nosso direito vem do direito romano, não do direito saxônico, sofremos fortes influências e absorvemos tudo.

Na base de toda a teoria educacional, encontra-se a idealização do ho-mem e, portanto, da sociedade. A Universidade tem a responsabilidade de pen-sar o perfil do homem que quer formar para o benefício da Nação. O ensino militar tem a responsabilidade correspondente de pensar o perfil do homem que quer oferecer à Nação garantias de vida e sobrevivência, quando necessá-rias. O funcionamento e a evolução da vida em sociedade são dependentes do sistema educacional, fundamentalmente da Universidade. Para que haja avan-ço e se tenha uma sociedade desenvolvida com qualidade, é necessário que a Universidade também esteja à altura. Para T. S. Eliot (2002, p. 99), “o sistema de educação de uma Nação é muito mais importante do que o seu sistema de governo; apenas um sistema de educação apropriado é capaz de unificar a vida contemplativa e a vida ativa, ação e especulação, a política e as artes”. A Univer-sidade tem um compromisso permanente com a Nação, com a sociedade e com o futuro do país. Não depende de interesses ou de observações que possam interferir em sua missão fundamental.

Nesse contexto, a educação passa a constituir uma parte essencial da máquina e, assim, pode vir a ser medida e controlada por técnicas científicas, como o desempenho de indivíduos treinados para sua execução, métodos de condicionamento de massa populacional, controle de opinião propiciada por técnicas de propaganda e ideologias oficiais. Controle de comportamento por métodos de repressão social não são restritos à defesa da sociedade, porém, orientados contra opiniões e intenções que possam contrariar o sistema de po-der. Essas características passam a integrar o mundo atual, e a América do Sul faz parte de tudo isso.

Considerando o contexto do mundo moderno, a complexidade da con-juntura que antecede a crise e o conflito, a complexidade do conflito armado, é essencial que o militar tenha formação complementar na área de ciências humanas, de ciências exatas, de línguas e de relações internacionais, entre outras – sem esquecer o conhecimento indispensável às suas atividades pro-fissionais específicas. Convém privilegiar a Universidade e valorizar as Forças Armadas, como recurso para garantir um futuro de paz e bem-estar à socieda-de. Sociedade civil e Forças Armadas devem estar sempre unidas em função de defender a sociedade, o território e os valores nacionais. Por essa razão, os acadêmicos e os militares devem estar unidos. Cada qual com suas tarefas que, em termos de construção do futuro do país, se complementam. A união é a garantia para um futuro promissor. Nesse sentido, a ESG é exemplo de que nossa história nos mostra que tem compromisso com a sociedade e com o futuro.

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6 O CEntRO DE EStUDOS EStRAtéGICOS

Em Portaria nº 001/Cmt, de 4 de fevereiro de 1991 (BRASIL, 1991a), o Co-mandante da ESG institui o Centro de Estudos Internos (CEI-ESG) como ente res-ponsável na promoção de palestras visando ao aperfeiçoamento dos docentes da Escola Superior de Guerra. O CEI manteve-se por menos de um ano, pela Portaria nº 022/Cmt, de 10 de julho de 1991 (BRASIL, 1991b), foi revogado o amparo legal que o instituiu. A motivação para a sua criação, entretanto, continuou viva, o que levou à criação do Centro de Estudos Estratégicos (CEE), pela Portaria nº 003/Cmt, de 18 de março de 1992 (BRASIL, 1992). O CEE, por meio de seus membros, concederia uma assessoria executiva, diretamente subordinada ao Comandante e supervisio-nada pelo Subcomandante. A Portaria nº 019/CMT, de 25 de novembro de 1999 (BRASIL, 1999), previu que o CEE teria como finalidade contribuir para o contínuo aperfeiçoamento da cultura e do pensamento político-estratégico brasileiro.

Para o exercício de suas atribuições, o CEE preocupa-se sobremaneira com a preservação da democracia, com a sociedade, com o futuro do país e com assuntos não convencionais ou não discutidos suficientemente. Por essa razão, dedica-se ao estudo e à pesquisa de temas relevantes para o entendimento ou o diagnóstico e para o enfoque de novas visões sobre temas ainda não tratados em profundidade.

É um órgão da ESG dedicado ao estudo e à pesquisa, em sua essência, de ca-ráter científico, sobre temas considerados estratégicos. Esses devem ser objeto de estudo e investigação minudentes e sistemáticos, com a finalidade de descobrir ou estabelecer fatos ou princípios relativos a certa área de conhecimento em questão. Suas atividades supõem a formulação e o desenvolvimento de ideias pertinentes ao pensamento em processo de investigação.

Os estudos e as pesquisas desenvolvidos no Centro de Estudos Estratégicos devem ser, e somente desta forma lhe é possível funcionar, nas áreas de vocação e de interesse dos seus pesquisadores, conciliados com os interesses e necessidades institucionais. Apenas assim, esse Centro consegue elaborar as pesquisas pretendi-das com qualidade e consistência, sob rigor de uma metodologia.

Para o desenvolvimento de suas atividades, o CEE realiza seminários, conferências e reuniões que propiciam subsídios aos trabalhos em desenvolvimento. O Centro conta com a colaboração do corpo de professores da Escola, de seus membros-correspondentes, de assessores especiais e de colaboradores. São convidados representantes da vida intelectual do país para contribuir com estudos escritos, conferências, ou como analistas, comentadores ou debatedores das atividades realizadas. Compete, também, a esta divisão a publicação dos estudos e pesquisas realizados. O resultado de suas atividades não constitui um único documento; os trabalhos são publicados ao longo do tempo e passam a circular no meio acadêmico, em que são submetidos a comentários, críticas, estudos e fomentam a produção de novos estudos. Com o tempo, dependendo da aceitação,

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os resultados adquiridos passam a entrar nas instituições acadêmicas como aula ou curso e, assim, continuam, até que novos conhecimentos superem o existente.

O CEE, para que possa efetivamente exercer suas atividades precípuas, deve ficar à parte das demais atividades da instituição. O afastamento não significa alhe-amento, mas condições para o efetivo exercício do que lhe compete: ser um Centro de Estudos Estratégicos. Cabe observar que um Centro não é e não deve ser apenas um promotor de eventos, tais como seminários, simpósios, debates etc., pois esses encontros são informativos, contribuem pouco para as atividades de um Centro de Estudos Estratégicos.

Para que os seus pesquisadores desenvolvam as atividades, há que se con-siderar que estudo e pesquisa necessitam de longa maturação, recolhimento e mesmo solidão por longo tempo, e requerem meios, tais como livros, periódicos especializados, participação em reuniões com especialistas e eventos dedicados a fornecer elementos à pesquisa e ao estudo que estejam em curso.

No caso da ESG, as áreas de conhecimento ficam restritas às que mantiverem relações ou interesse, direta ou indiretamente, com Política e Estratégia, em âmbitos nacional e internacional. Assim sendo, entre seus propósitos, encontram-se: debater aspectos epistemológicos relativos ao conceito de Estratégia, bem como os de Es-tudos Estratégicos; conhecer o escopo dos esEs-tudos que outras instituições voltadas à pesquisa vêm realizando; identificar as condições de fomento para tais estudos; desenvolver estudos e pesquisas em diversas áreas de conhecimento; promover en-contros para que seja divulgado o que é produzido, acompanhar o que vem sendo desenvolvido por outros órgãos e atualizar o conhecimento dos membros da ESG.

O CEE atua como entidade permanente de estudos com a finalidade de pes-quisar, formular, motivar ideias pertinentes ao pensamento político e estratégico brasileiro, possibilitando oportunidades para debates e discussões com a socieda-de, além da produção de trabalhos publicados pela Escola.

Os estudos, as pesquisas e os eventos promovidos pelo CEE visam principal-mente à discussão de questões político-estratégicas de interesse nacional. Propõe também estimular a criação de conhecimentos que possibilitem o desenvolvimento de trabalhos teóricos.

No Centro de Estudos Estratégicos, o objeto de discussão são os temas, em várias áreas do pensamento, pertinentes aos estudos políticos e estratégicos, de caráter nacional e internacional. E, mantendo-se fiel à tradição de sessenta e cinco anos de existência da Escola Superior de Guerra, adota como principal diretriz o completo afastamento de questões político-partidárias.

O CEE é acessível a relacionamentos com instituições acadêmicas, com cen-tros de estudos e com a sociedade em geral, que tenham interesse em desenvolver atividades conjuntas. Atualmente, participa de estudo e exerce atividades de ensino e pesquisa no Projeto de Sistema Brasileiro de Defesa e Segurança (SISDEBRAS), selecionado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

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(CAPES), no Edital Pró-Defesa 1/2008, em parceria com a Universidade Federal Flu-minense (UFF). Ainda que o projeto tenha se encerrado formalmente, a cooperação entre as partes continua. Pode-se concluir que todos, virtual e realmente, estão submetidos ao que o Professor, escritor e diretor do Le Monde Diplomatic, Ignácio Ramonet, denominou de “pensamento único14” (BENITZ, 2013), inspirado na termi-nologia cunhada por Schopenhauer15 para definir o pensamento que se sustenta a si próprio, constituindo uma unidade lógica independente, sem ter que se referir a outros componentes de um sistema de pensamento.

Há necessidade de fugir desse pensamento, que remete ao pragmatismo de uma consecução. Como já citado anteriormente, temos pouco tempo para viver e muito para saber. Não se pode viver sem saber e não se pode saber sem viver. Assim sendo, é fundamental publicar as ideias que resultam dos estudos, conferências e pesquisas, sob a coordenação do Centro de Estudos Estratégicos.

Márcio Ferrari (2011), ao citar Michel de Montaigne, lembra que “Uma cabe-ça bem-feita vale mais do que uma cabecabe-ça cheia”. Essa proposição motiva disponi-bilizar ao público tudo o que é produzido no CEE, mesmo para aqueles que tenham interesse em outros meios úteis à reflexão e, assim, fugir da repetição do que já foi pensado. A mera repetição pode ser útil aos que optam por não refletir e buscam assim se conduzir, por ser mais fácil ou mais simples, contentam-se em apenas sa-ber da existência do que por outros foi formulado. Ao adotar essa opção, preferem não se aprofundar nas matérias do conhecimento.

É pretensão do CEE preencher uma lacuna que pode abrigar pensamentos originais e estratégicos pouco encontrados na literatura geral. O que for produzido e posto à disposição daqueles que tenham interesse não os conduz ao fazer, mas possibilitam a reflexão. Para isso, têm a responsabilidade de editar duas publica-ções: Revista da Escola Superior de Guerra e Cadernos de Estudos Estratégicos.

A Revista da Escola Superior de Guerra teve seu primeiro número publicado há 30 anos, em dezembro de 1983, e continua atendendo aos que se dedicam aos temas pertinentes à Ciência Política e às Relações Internacionais. Acessível aos au-tores para que submetam seus artigos, tem distribuição nacional gratuita, podendo ser solicitada pelos interessados.

14 O que é o pensamento único? A tradução em termos ideológicos de pretensão universal dos interesses de um conjunto de forças econômicas, particularmente as do capitalismo internacional. Pode-se dizer que está formulada e definida a partir de 1944, por ocasião dos acordos de Breton-Woods. Suas fontes econômicas e monetárias – Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Comissão Europeia, Banco da França, etc. – que, mediante seu financiamento, colocam a maior parte dos centros de investigação, universidades e fundações a serviço de suas ideias em todo o planeta. Estes se afinam com o dogma e se encarregam de propagar a boa nova (ROMANET, 2012). 15 Expressão citada pelo jornalista francês Ignácio Ramonet e referendada por Benitz (2013) para

alertar que vem sendo privilegiada a repetição e que, por isso, as pessoas estão se afastando da capacidade de pensar originalmente.

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Com seus Cadernos de Estudos Estratégicos, cujo primeiro número foi publicado em janeiro de 2006, pretende-se disponibilizar aos leitores mais um instrumento de reflexão e, assim, não se deixar levar pela simples repetição do que já foi pensado. Pretende-se contribuir para que constitua uma civilização original em seu pensamento e em sua cultura. Não se pode aceitar que se deixe de pensar para adotar o pensamento de antecessores. Isso formaria uma civilização obsoleta, sem sentido, sem identidade e, portanto, tornar-se-ia secundária e de curta existência.

Os Cadernos de Estudos Estratégicos e a Revista da Escola Superior de Guerra visam também mostrar o caminho da reflexão, do estudo, da pesquisa, da origina-lidade e do saber. Para Ésquilo [5 a. C.]. “A sabedoria amadurece por meio do so-frimento”. Assim sendo, os membros do CEE entendem que é pelo sofrimento que se chega ao saber, sem esquecer que a aprendizagem é uma longa clausura. E, por essa razão mesma, dedicam o melhor de seus esforços para produzir seus estudos e suas pesquisas, a fim de contribuir para a construção de um mundo mais justo, onde todos os homens possam vir a se entender e ter a certeza de que seus filhos terão um futuro melhor do que o seu. Do leitor, espera-se que medite sobre os tex-tos publicados, frutex-tos de pesquisa, e também busque a reflexão, o saber e alimente a dúvida, pois só assim pode trilhar o caminho da evolução como seres humanos.

Nesses sessenta e cinco anos de vida, a Escola Superior de Guerra obteve a maturidade dos que do alto da experiência, do conhecimento adquirido e, também, produzido, reúnem as condições para continuar a contribuir com estudos de temas políticos e estratégicos de interesse da sociedade.

7 PESQUISA E PEnSAMEntO EStRAtéGICO nA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA Desde a criação do Ministério da Defesa, em 1999, a ESG continua sabendo aonde quer chegar e como fazê-lo. Sua vida e seu passado de dedicação aos estudos direcionados ao país constituem passaporte necessário e suficiente para prosseguir em sua missão. Missão esta definida pelos que a conceberam e, se estivessem vivos, certamente, diriam que os documentos que a originaram estão mais adequados aos dias atuais do que àquela época.

Tudo isso é possível, pois, por ter o privilégio de subir aos ombros daqueles que a criaram, dos que antecederam e aos que a ela se dedicam, pode-se ver além das aparências, além do que os olhos mostram e, assim, tem-se a convicção de que a Escola Superior de Guerra é uma instituição necessária ao Brasil.

Por ser dedicada aos estudos estratégicos, a ESG observa que a Estratégia, ao longo do tempo, tem passado por várias fases. Surgida estritamente no plano militar, evolui para o plano empresarial, educacional, do desenvolvimento e da in-tegração, bem como para todo o modo de tratar de uma questão específica, e fi-nalmente para o plano nacional, em todos os seus aspectos. Ela passou a dominar

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