Valor calórico do leite humano ordenhado pasteurizado de um banco de leite
de Dourados-MS
Caloric value of human milk ordered pasteurized from a milk bank of
Dourados-MS
DOI:10.34117/bjdv6n3-334
Recebimento dos originais: 10/02/2020 Aceitação para publicação: 23/03/2020
Camila Patrícia Gomes Borges
Nutricionista Residente Multiprofissional com ênfase em Saúde Indígena no Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU/UFGD-EBSERH)
Rua Ivo Alves da Rocha, nº558- Altos do Indaiá, Dourados-MS, Brasil E-mail: [email protected]
Cristiane Nava Duarte
Especialista em Atenção Básica em Saúde da Família pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul- UFMS
Farmacêutica do Banco de Leite Humano do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados MS (HU/UFGD-EBSERH)
Rua Ivo Alves da Rocha, nº558- Altos do Indaiá, Dourados-MS, Brasil E-mail: [email protected]
Cristhiane Rossi Gemelli
Especialista em Terapia Nutricional Enteral e Parenteral pela Faculdade Unyleya
Nutricionista Clínica do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados MS (HU/UFGD-EBSERH)
Rua Ivo Alves da Rocha, nº558- Altos do Indaiá, Dourados-MS, Brasil E-mail: [email protected]
Josiane Ribeiro dos Santos Santana
Especialista em Nutrição Clínica pela Universidade Paranaense- UNIPAR
Nutricionista Clínica do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados MS (HU/UFGD-EBSERH)
Rua Ivo Alves da Rocha, nº558- Altos do Indaiá, Dourados-MS, Brasil E-mail: [email protected]
Rita de Cássia Dorácio Mendes
Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília- UnB
Nutricionista do Banco de Leite Humano do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU/UFGD-EBSERH)
Rua Ivo Alves da Rocha, nº558- Altos do Indaiá, Dourados-MS, Brasil E-mail: [email protected]
RESUMO
O Banco de leite Humano (BLH) é uma Rede Nacional de Bancos de Leite Humano do Brasil (RNBLH) considerada a mais bem estruturada do mundo. O leite humano destinado ao consumo de recém-nascidos não pode apresentar nenhum tipo de micro-organismo, pois podem apresentar agravos à saúde do lactente. O leite humano não possui apenas proteção exclusiva contra as infecções
e alergias, mas também estimula o desenvolvimento imunológico do bebê, já as fórmulas infantis apesar de ter a finalidade de ser próximo do leite materno, a sua composição não se iguala com às propriedades fisiológicas, e que são específicas da mãe para o próprio filho, comparadas ao leite materno. Esta pesquisa tem como objetivo analisar uma das composições do leite humano ordenhado pasteurizado, o valor calórico. Além disso, descrever as características maternas e os dados gestacionais. Foi feito um estudo documental onde os resultados foram estudados por análise descritiva, analisados por porcentagem, média e desvio padrão. Para a avaliação do valor calórico do leite humano pasteurizado foi utilizado dados do crematócrito realizado no processo de pasteurização do leite humano. A maioria das doadoras apresentaram leite hipocalórico destacando as doadoras usuárias de álcool e as que tiveram seus bebês pré termo. O uso de álcool e tabaco influencia diretamente na produção e no valor calórico do leite humano. A conclusão do estudo foi que a maioria das doadoras com idade até 20 anos tiveram parto normal e gestação a termo. Com tudo o tipo de parto tem pouca relação com o valor calórico do leite humano.
Palavras-chave: leite materno, pasteurização, crematócrito. ABSTRACT
The Human Milk Bank (HMB) is a National Network of Human Milk Banks of Brazil (RNBLH) considered the most well structured in the world. The Human milk intended for consumption of infants can’t show any micro-organism, as they may present health problems in infants. Human milk not only has unique protection against infections and allergies, but also boosts the immune developing baby, as the infant formula despite having the purpose of being close to breast milk, its composition does not equate with the physiological properties, and that are specific to the mother to her own child, compared to breast milk. This research aims to analyze one of the compositions of human milk pasteurized, the caloric value. Also, describe the maternal characteristics and pregnancy data. A documentary study where the results were studied by descriptive analysis, analyzed by percentage, mean and standard deviation was made. For evaluating the caloric value of pasteurized human milk was used creamatocrit data carried on the human milk pasteurization process. Most donors had low-calorie milk highlighting the donor users of alcohol and had their preterm babies. The use of alcohol and tobacco directly influences the production and calorie content of human milk. The conclusion of the study was in accordance with the characteristics of the donor most aged up to 20 years had natural childbirth and pregnancy to term. With all type of delivery has little relation to the calorific value of human milk.
Keywords: breast milk, pasteurization, creamatocrit. 1 INTRODUÇÃO
A Rede Nacional de Bancos de Leite Humano do Brasil (RNBLH) é considerada a mais bem estruturada rede de bancos de leite humano do mundo. Atualmente possui mais de 150 unidades espalhadas por todo o país. O grupo atuante que teve resultado do seu esforço foi liderado pelo Dr. João Aprígio Guerra de Almeida, coordenador da RNBLH. O trabalho que é feito e desenvolvido por eles no Brasil tem sido reconhecido internacionalmente, e foi merecedor do Prêmio de Saúde Sasakawa da Organização Mundial da Saúde (OMS) no ano de 2001 (GIUGLIANI, 2002).
O primeiro Banco de Leite Humano (BLH) implantado no Brasil foi no ano de 1943, no Instituto Nacional de Puericultura, hoje conhecido como instituto Fernandes Figueira/Fio Cruz, sendo responsáveis Mário Olindo e Adamastor Barbosa, professores do Departamento Nacional da Criança
de Pediatria. O BLH do instituto Fernandes Figueiredo da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), é considerada como Centro de Referência Nacional. O BLH possui um serviço especializado, sendo responsável pela ação de proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno e execução das atividades relacionadas a coleta da produção lática da nutriz, incluindo processamento, controle de qualidade e distribuição (MAIA et al., 2006).
O BLH no Brasil tem como prioridade atender às mães de recém-nascidos pré-termo e de baixo peso internados nas unidades hospitalares. A RNBLH tem como centro de referência a FIOCRUZ, que possui como objetivo desenvolver métodos de controle de qualidade do leite humano ordenhado e armazenado, com as necessidades adaptadas à realidade do nosso país, sem perda da segurança e da qualidade dos métodos (GIUGLIANI, 2002).
Dentro do BLH estão inseridas as doadoras que são nutrizes em estado saudável que possuem secreção láctica acima das exigências do seu filho e que se colocam a disposição de doar o excesso de leite, por espontânea vontade. São consideradas doadoras também aquelas nutrizes que estão impedidas de amamentar seu filho no peito temporariamente, por causa da saúde dos filhos ou outras causas não relacionadas à saúde do recém-nascido, mas compatíveis com a amamentação. As nutrizes que estão com seus filhos internados em unidades neonatais ou em outras unidades hospitalares, e que ordenham o leite humano estimulando a produção ou até mesmo para o consumo exclusivo de seus filhos também são consideradas doadoras (BRASIL, 2006).
No período de lactação durante uma mamada e outra é observada uma variação na composição do leite humano no decorrer do dia, encontra-se uma diferença nos macronutrientes e nos micronutrientes em relação ao primeiro e o último leite que sai da mesma mama. Com essa variação é importante que o bebê esvazie toda a mama antes de mamar na outra, porque assim o bebê estará recebendo o leite todo até o final da mamada, e esse leite é rico em gordura que ajudará a matar a fome do bebê. A composição do leite materno também é variada de uma mãe para outra, de acordo com a etnia, hábitos alimentares da lactante, individualidade genética, no período de amamentação (MORGANO et al., 2005; SANTOS, 2005).
Considerando a variação da composição nutricional do leite no período da lactação, é importante que o bebê esvazie toda a mama antes de amamentar na outra mama, sendo assim, o bebê estará recebendo o leite todo do final da mamada, esse leite é rico em gordura (SANTOS, 2005).
O leite humano ordenhado designado ao consumo de recém-nascidos, especialmente os que estão internados em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neo), não podem apresentar nenhum tipo de microorganismo, podendo apresentar agravos à saúde, desta forma, todo o leite humano que foi recebido pelo Banco de Leite Humano deve passar por procedimentos para a sua seleção e classificação, as etapas da seleção são as verificações das embalagens, presenças de
sujidades, cor, off-flavor, e acidez Dornic. Quanto a classificação é compreendida a parâmetros, pelo período de lactação, verificação da acidez Dornic e por meio do crematócrito o conteúdo energético. Os leites que não se enquadrarem nestas especificações quanto aos aspectos sensoriais (ausência de cor, off-flavor e sujidade), físico-químicos (acidez Dornic ente 1º a 8ºD e crematócrito) e microbiológicos (a 35ºC ausência de coliformes), devem ser descartados e os que se enquadram deveram ser pasteurizados (SILVA et al., 2009).
A pasteurização do leite humano ordenhado que é um procedimento feito pelo BLH, é um tratamento térmico que se aplica ao leite humano (LH), sendo uma alternativa eficaz, responsável pela destruição e/ou inativação térmica dos micro-organismos resistentes como a Coxiella burnetti, Staphylococcus aureus, Escherichia coli, bolores e leveduras. A pasteurização é feita a 62,5ºC por 30 minutos, esse procedimento não visa a esterilização do LH, mas garante a inativação de 100% dos micro-organismos patógenos que podem estar presentes na contaminação primária ou secundária, e 99% da microbiota saprófita ou normal (SILVA, 2004; VIEIRA et al., 2004).
Para o tempo de processamento da pasteurização depende do número e volume dos frascos utilizados. Esses frascos devem ser regulados em banho-maria à uma temperatura de 65ºC e esperar que se estabilize, deve-se carregar o banho-maria com a sua capacidade máxima que suportar de frascos contendo o mesmo volume de leite humano ordenhado, os frascos devem estar termicamente na mesma temperatura 62,5º C por trinta minutos e depois devem ser resfriados, a uma temperatura de 5ºC (ALMEIDA; GUIMARÃES; NOVAK, 2005).
O leite materno é considerado a primeira alimentação oferecida ao bebê ao nascer, esse leite é rico em nutrientes essenciais. O colostro é um líquido amarelado e viscoso, possui alta densidade, contém menos gordura, vitaminas hidrossolúveis, lactose e mais proteínas, vitaminas lipossolúveis, e minerais como zinco e sódio, e o colostro evolui para o leite maduro. O leite maduro varia entre as mamadas, em diferentes mamadas e até na duração da mesma mamada, esse leite possui mais gordura e maior quantidade de carboidrato. A lactação quando vai terminando, o leite na fase terminal é semelhante ao colostro, possuindo alto teor de imunoglobulinas que protegem o bebê (MACHADO, 2002).
O aleitamento materno oferece vários benefícios tanto para o desenvolvimento de lactentes e para o seu crescimento, por possuir propriedades nutricionais e anti-infecciosa, e para a nutriz contribui na involução uterina, retorno ao peso corporal, além de contribuir sendo um método contraceptivo, quando é oferecido sob livre demanda e exclusivamente (CONCEIÇÃO et al., 2013). O leite humano contém em sua composição química vitaminas (em especial tiamina, ácido pantotênico, riboflavina, vitaminas A, D e K), minerais (potássio, fósforo, sódio, cálcio, e traças de metais), proteínas (que incluem todos os aminoácidos essenciais), gorduras e carboidratos. É
composto também de água (87,4%), gorduras (1,4%), carboidratos (7,0%) e minerais (0,2%). Os lipídios que estão presentes são colesterol, fosfolipídios e lecitinas e possui também imunoglobulinas (IgA, IgG, IgM, IgD e IgE), linfócitos, macrófagos, lactoferrina, lisozima, ácidos graxos, lactoperoxidase, proteinase e fator bífido que atribuem maior proteção para o bebê, diminuindo as infecções gastroentéricas e respiratórias, comparados aqueles alimentos produzidos artificialmente (VIEIRA et al., 2004).
O leite materno das mães de bebês prematuros tem quantidade maior de vitaminas (A, D e E), cálcio, energia, ácidos graxos, lipídeos totais, nitrogênio, proteínas que agem no sistema imunológico, é mais alto comparado ao leite de mães de bebês nascido a termo. Desta maneira, os prematuros têm que receber preferencialmente o leite humano. As mães de bebês prematuros podem possuir disfunções emocionais e psicológicas, podendo haver dificuldade para começar e manter o aleitamento materno (ALVES; SILVA; OLIVEIRA, 2007).
Além das propriedades nutricionais, deve-se destacar também os oligossacarídeos nitrogenados que vão favorecer a flora bifidógena (responsável pela acidez das fezes do lactente amamentado pelo seio de sua mãe) e competem com o desenvolvimento eficaz das enterobactérias patogênicas, os fatores inespecíficos anti-infecciosos, como os macrófagos, lizozina e lactoferrina e os fatores específicos anti-infecciosos tais como os linfócitos B e T e as imunoglobulinas Ig secretoras. O fato bífidu que está presente no colostro e no leite materno fresco é um carboidrato nitrogenado que possui fácil destruição pelo calor, e promove a colonização intestinal com lactobacilos na presença de lactose. A luz intestinal que é resultante do pH baixo inibe o crescimento de Escherichia coli, fungos como Candida albicans e bactérias negativas. Em bebês de baixo peso e prematuro e pH baixo no estômago pode ser importante (FERREIRA, 2005; MACHADO, 2002).
O trabalho do banco de leite humano deve ser efetivo para fornecer um alimento mais adequado e que supra as necessidades do prematuro, ajudando para uma menor permanência no ambiente hospitalar, e que sua volta para a casa seja viável. De preferência o recém-nascido necessita de leite humano cuja concentração calórica seja classificada em hipercalórica, acima de 711kcal/L. Quando o leite humano não possui a concentração de calorias citada, é indicado o enriquecimento do leite com aditivos, normalmente são obtidos do leite de vaca, para tentar suprir as necessidades nutricionais para o crescimento adequado do prematuro. Esse enriquecimento favorece o contato precoce com a proteína heteróloga ao prematuro, podendo causar aparecimento de alergias potentes prejudiciais e a um aumento da incidência de enterocolite necrosante (MORAES; OLIVEIRA; DALMAS, 2013).
Foi feito um estudo com leite doado pelas mães que estavam cadastradas no serviço do banco de leite, no período de janeiro de 2006 a dezembro de 2009, com o total de 30.846 amostras,
correspondendo a 5.869L de leite humano utilizados. A coleta de dados foi feita por meio de registros, utilizando resultados dos exames de análise do teor calórico e titulação de acidez do leite humano. Os resultados obtidos neste estudo indicaram que o maior volume de leite coletado é hipocalórico, isso pelo fato possível relacionado às características individuais das doadoras e ao estágio de lactação que elas estão, ou seja, se é o colostro, leite de transição ou leite maduro (MORAES; OLIVEIRA; DALMAS, 2013).
Pode ser devido também ao momento em que ocorre a coleta deste leite, se é no início ou no final da mamada, porque a gordura presente no leite humano sofre uma variação conforme o seu estágio. Pode-se concluir que grande parte do leite que é coletado pelo BLH é hipocalórica e está adequado ao consumo em relação ao perfil higiênico sanitário. Os resultados indicaram a intensificação das orientações passadas as mães doadoras relacionado a coleta do leite humano para que consigam obter maiores quantidades de leite hipercalórico, mais adequado para o prematuro (MORAES; OLIVEIRA; DALMAS, 2013).
No leite materno observou-se algumas situações de doenças infecciosas porque o leite humano pode servir como veículo para substâncias nocivas, como exemplo, o caso do álcool e tabaco que podem causar prejuízos para a criança e para a nutriz. Em uma pesquisa feita com o etanol pode-se observar alteração no metabolismo dos lipídios e de outros componentes do leite materno, modificando a sua composição o valor nutricional e aroma, além de inibir o reflexo da sucção e prejudicar o reflexo de ejeção do leite. Pode causar efeitos imediatos sobre o comportamento, interfere também no sistema imunológico e no sistema nervoso central, podendo comprometer o crescimento e aumentar a mortalidade neonatal (CIAMPO et al., 2009).
O tabagismo está associado a uma menor produção de leite, diminuição da concentração de gordura do leite, redução do tempo de amamentação, podendo agredir as vias aéreas da lactante e da criança. A nicotina é uma substância neuroativa que acumula no leite humano cerca de 30 minutos após o consumo de um cigarro e pode ser encontrada em concentrações até três vezes maiores que no sangue materna. Outros efeitos nocivos podem estar relacionados com os nutrientes do leite materno e com a toxicidade dos metabólitos por causa do hábito materno de fumar. O tabagismo é capaz de alterar a ingestão de nutrientes, inclusive de iodo. A nicotina é o considerada o segundo componente tóxico mais presente no tabaco, encontra-se em concentrações altas no leite poucos minutos após a mãe fumar (CIAMPO et al., 2009).
Normalmente os receptores que recebem o LHOP são os lactentes que apresentam uma ou mais complicações como: prematuros e recém-nascidos (RN) de baixo peso que não conseguem sugar, RN em Nutrição Trófica, RN infectados, especialmente com infecções entéricas, portadores
de alergia a proteínas heterólogas, portadores de diarreia e portadores de deficiências imunológicas (MATTAR; KUZUHARA; GOMES, 2010).
O leite humano protege a criança prematura contra enterocolite necrozante. Igualmente, a incidência de algumas infecções como meningite, sendo significantemente menor em recém-nascido de muito baixo peso alimentado com leite humano que aqueles que receberam exclusivamente leite artificial (SILVEIRA; ALMEIDA; JORGE, 2008).
O LH não proporciona apenas proteção exclusiva contra as infecções e alergias, mas também estimula o desenvolvimento do sistema imunológico do bebê, contêm muitos componentes hormônios e anti-inflamatórios. As fórmulas infantis foram feitas com a finalidade de parecer com o leite materno, mas sua composição não se iguala com às propriedades fisiológicas, e que são específicas da mãe para o próprio filho. Os carboidratos, as proteínas e outros componentes presentes nas fórmulas se diferenciam na qualidade dos componentes do leite humano, sendo assim o leite humano é o mais recomendado para o lactente do que o leite artificial (MELO; GONÇALVES, 2014). Diante desses estudos destaca-se a importância do recém-nascido receber leite materno desde o seu nascimento até os seis meses de idade sendo exclusivo. Os objetivos desta pesquisa foram analisar o valor calórico do leite humano ordenhado pasteurizado, descrever as características maternas (idade, consumo de álcool e/ou tabaco) e os dados gestacionais (tipo de parto e tempo gestacional), comparar o valor calórico determinado pelo Banco de Leite com a recomendação e relacionar o valor calórico com as características maternas.
2 MATERIAIS E MÉTODOS
Foi feito um estudo documental que permitiu investigar determinado problema não em sua interação imediata, mas em uma forma indireta, por meio de estudo dos documentos que foram produzidos pelo ser humano. Os documentos que foram estudados implicaram a fazer a partir do ponto de vista de quem produziu, por isso precisou de perícia e cuidado por parte do pesquisador para que não houvesse comprometimento com a validação do seu estudo (SILVA et al., 2009).
O projeto feito não foi encaminhado para o Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos (CEP) por tratar de pesquisa documental. Em nenhum momento da pesquisa os sujeitos foram identificados e evidenciados as características maternas (idade, consumo de álcool e/ou tabaco), dados gestacionais (tipo de parto e tempo gestacional) e o valor calórico do leite materno determinado pela pasteurização.
A pesquisa foi realizada no Banco de Leite do Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) da EBSERH da cidade de Dourados MS. De acordo com dados internos do Banco de Leite do HU-UFGD/ EBSERH no período de janeiro a junho de 2015, foram
registradas aproximadamente 200 doadoras externas, sendo adolescentes e adultas. Pelo cálculo da amostra de Barbetta (2002) para erro amostral de 5% (p≤ 0,05) a amostra deve ser de no mínimo 133 doadoras.
As amostras foram selecionadas por meio de amostragem aleatória simples, sendo utilizados dados de doadoras externas e doadoras internas que tiveram seu leite pasteurizado. Todas as doadoras possuíam os dados necessários para a pesquisa e que tiveram pelo menos três leites pasteurizados pelo Banco de Leite Humano. A doadora de leite humano é uma lactante saudável que em secreção lática acima das exigências de seu filho, que aceita a ordenhar e doar o excedente do seu leite (BRASIL, 2006).
Os resultados obtidos foram estudados por análise descritiva dos resultados, por porcentagem; média e desvio padrão. Para avaliar o valor calórico do leite humano ordenhado pasteurizado foi feita uma tabela contendo as seguintes informações: iniciais do nome das doadoras externas; a média de três valores energéticos do leite de cada mãe; idade da doadora, se consome álcool e/ou tabaco; o tipo de parto; e o tempo gestacional.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados foram coletados durante os meses de janeiro a junho de 2015 no Banco de Leite de Dourados (HU-UFGD- EBSERH) foram coletadas 155 amostras de leite de doadoras, e foram excluídas as doadoras internas em que o leite foi tirado para o seu próprio filho, agora aquelas em que houve excedente e foram para a pasteurização foram incluídas.
A Tabela 1 apresenta as características das doadoras externas de um Banco de Leite de Dourados (HU-UFGD- EBSERH). As características das doadoras externas de um Banco de Leite de Dourados com relação a idade 50,32% são mães entre 20 a 29 anos seguido de 28,38 % maiores ou igual a 30 anos e 21,29% menor ou igual a 19 anos, percebe-se que a maior parte se trata de doadoras externas adultas entre 20 a 29 anos. Com relação ao uso de álcool nesta população foi baixo sendo que apenas 1,93 % se referiram ao uso de álcool, já 6,45% refere-se ao uso de tabaco.
Tabela 1- Características das doadoras externas de um Banco de Leite de Dourados
FA FR Idade ≤19 20-29 ≥30 33 78 44 21,29 50,32 28,38 Uso de álcool 03 1,93
Uso de tabaco 10 6,45 Tipo de parto* Normal Cesária 52 53 49,52 50,47 Tempo gestacional Pré-termo Termo Pós-termo 35 113 4 23,02 74,34 2,63
Legenda: Frequência absoluta (FA) e frequência relativa (FR). * A amostra foi de 105 porque 50 doadoras externas não descreveram o tipo de parto.
O uso de álcool na amamentação deve ser evitado porque o álcool elimina as células nervosas e deixa o bebê sem fome, isso leva ao baixo ganho de peso (CARVALHO; TAMEZ, p. 69, 2002). Segundo Nascimento, et al (2013), de 157 lactantes com idade entre 18 a 37 anos, o consumo de álcool das lactantes era de 19 (12,1%). O Ministério da Saúde faz um alerta, que a ingestão de doses de álcool iguais ou maiores que 0,3g/kg de peso podem diminuir a produção de leite, podendo modificar o odor e o sabor do leite humano tendo a recusa pelo bebê. Por mais que seja baixo o consumo de álcool entre as lactantes o ideal é que não aconteça.
O tabaco possui uma substância denominada nicotina e seu metabólito é o cotinina, que é excretada no leite materno e a quantidade é proporcional ao número de cigarros fumados pela lactante. As mães também produzem uma menor quantidade de leite, porque a nicotina reduz as concentrações da prolactina materna. O leite também possui menor teor de gordura e, acabam usando fórmulas com mais frequências, desmamando seus bebês mais cedo das que não fumam (CARVALHO; TAMEZ, p. 161, 2002).
Com relação ao tipo de parto percebe-se que foi realizado 50,47% de parto cesária e 49,52% de parto normal ente as pesquisadas. O parto cesária pode trazer complicações para a mãe como hemorragias, infecções, riscos anestésicos, entre outros. E para o recém-nascido pode ocorrer distúrbios respiratórios, há interferência no vínculo da mãe com o filho o que pode interferir no aleitamento materno de forma negativa (CARNEL; ZANOLLI; MORCILLO, 2006). A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que o número de total de partos cesáreos seja de 10 a 15% (PATAH; MALIK, 2011).
Segundo Pereira, et al (2013), a prevalência da amamentação na primeira hora de vida foi de 43,9% (n = 177), e 72,1% dos bebês foram amamentadas depois da primeira hora de vida eram de parto cesárea e 47,5% dos nascidos eram de parto normal. Pois no parto normal torna-se mais frequente a amamentação na primeira meia hora pós-parto favorecendo a amamentação.
Com relação ao tempo de gestação a maioria das doadoras tiveram crianças a termo 113 (74,34%), isso facilita a amamentação. Segundo Alves; Silva e Oliveira (2007), as mães de bebês nascidos prematuros podem ter disfunções emocionais e psicológicas, fazendo com que haja dificuldades para iniciar e para manter a amamentação.
A Tabela 2 representa o valor calórico do leite humano de um Banco de Leite de Dourados (HU-UFGD- EBSERH) De acordo com Silva; Escobedo e Gioielli (2007), o leite humano ordenhado contém, aproximadamente, 40 g de gordura/L e 700 kcal/L. E o componente mais variável na composição do leite humano são os lipídios e a sua quantidade varia de acordo com a função do período de lactação (colostro e leite maduro), ao longo de cada mamada (leite do início e fim) e do período de mamada (de dia ou a noite).
Tabela 2- Valor calórico do leite humano
Valor calórico (Kcal/L) FA FR
≤650 650-711 ≥711 84 30 41 54,19 19,35 26,45
Legenda: Resultados expressos em número absoluto e porcentagem, e frequência absoluta (FA) e frequência relativa (FR).
Com relação ao valor calórico a maioria das amostras (54,19%) apresentou um valor calórico menor que 650 kcal/L, seguido de 26,45% maior que 711 kcal/L e 19,35% de 650 a 711 kcal/L. Considera-se então que 54,19% das amostras podem ser classificadas como hipocalóricas.
Dado semelhante foi encontrado no estudo de Almeida e Dórea (2006), no qual o valor calórico foi em média de 529 kcal/L em 848 amostras de leite humano retirados de um Banco de Leite de Brasília. Essa diferença pode ser causada devido as alterações das características do leite ocorridas durante o processo, pois, segundo Vieira, et al (2004) são observadas perdas no teor de gordura o qual é a principal fonte calórica energética do leite humano quando o mesmo passa pelos processos desde a pré-estocagem, descongelamento, pasteurização e aquecimento.
Moraes; Oliveira e Dalmas (2013) realizaram um estudo com leite doado pelas mães que estavam cadastradas no serviço do banco de leite, no período de janeiro de 2006 a dezembro de 2009, com o total de 30.846 amostras, correspondendo a 5.869L de leite humano utilizados. Os resultados obtidos neste estudo também indicaram que o maior volume de leite coletado é hipocalórico, isso pelo fato possível relacionado ao estágio de lactação que elas estão, ou seja, se é o colostro, leite de transição ou leite maduro, pois o valor calórico aumenta de um estágio para o outro. Pode ser devido
também ao momento em que ocorre a coleta deste leite, se é no início ou no final da mamada, porque a gordura presente no leite humano sofre uma variação conforme o seu estágio.
No estudo feito por Silva (2008), foram coletadas 40 amostras de leite e considerando o período de lactação e o conteúdo calórico foi observado uma média de 610,8 kcal/L de colostro, 637,5 kcal/L de leite de transição e 658,5 kcal/L de leite maduro.
A Tabela 3 refere-se ao valor calórico do leite humano e as características maternas de um Banco de Leite de Dourados (HU-UFGD-EBSERH). Relacionando o valor calórico do leite humano com a idade das mães pode-se observar que a maioria das mães que obtiveram valor calórico acima de 711 possui idade menor que 19 anos, isso se dá devido ao fato de que as adolescentes geralmente apresentam valores calóricos maiores comparado as mães adultas. Pois, Bortozzo (2002), após estudar a composição química do colostro e do leite maduro de adolescentes, detectaram que as mesmas possuíam concentrações de gorduras totais mais elevadas em relação às adultas.
A maioria das mães entre 20 a 29 anos de idade (55,12%) apresentaram o valor calórico do leite menor que 650 kcal/L. Este mesmo valor calórico também foi obtido pela maioria das mães com idade superior a 29 anos (59,09%).
Tabela 3- Valor calórico do leite humano e as características maternas
≤ 650 Kcal/L 650-711 Kcal/L ≥711 Kcal/L
Idade ≤19 20-29 ≥30 15 (45,45) 43 (55,12) 26 (59,09) 4 (12,12) 21 (26,92) 7 (15,90) 14 (42,42) 14 (17,94) 11 (25) Uso de álcool 2 (66,66) 1 (33,33) - Uso de tabaco 5 (50) 4 (40) 1 (10) Tipo de parto Normal Cesária 26 (50) 33 (62,26) 14 (26,92) 7 (13,20) 12 (23,07) 13 (24,52) Tempo gestacional Pré- termo Termo Pós-termo 20 (57,14) 61 (53,98) 2 (50) 10 (28,57) 22 (19,46) 1 (25) 5 (14,28) 30 (26,54) 1 (25) Legenda: Resultado descrito em número absoluto e frequência relativa.
Como descrito anteriormente o uso de álcool e o uso de tabaco diminuem o valor calórico do leite materno, isso pode ser observado uma vez que 66,66% das mães que usam álcool apresentaram valor calórico menor de 650 kcal/L. E 50% das mães que usavam tabaco, os leites foram hipocalóricos.
Em relação ao tipo de parto, o que mais se encontrou no valor calórico superior a 650 kcal/L foram as mães que realizaram o parto normal. Já os valores menores que 650 kcal/L foi apresentado pelas mães que tiveram parto cesária. Não foram encontrados estudos que comprovem a relação entre o tipo de parto e valor calórico do leite.
Dentre as mães que tiveram bebês pré-termo a maioria (57,14%) apresentou um valor calórico menor de 650 kcal/L. Isso se justifica pelo fato de que as mães de pré-termo produzem muito mais colostro o qual possui menores quantidades de gordura, e maiores concentrações de anticorpos e vitaminas. De acordo com Arantes et al, (2007), as mães de recém-nascidos pré-termo produzem leite com mais concentração de nitrogênio, proteínas, vitaminas A, D, E e sódio, e consequentemente com menor valor calórico do que as mães de recém-nascidos a termo. As mães que obtiveram valores maiores que 711 kcal/L foram as que tiveram recém-nascidos a termo.
4 CONCLUSÃO
Após realizado o presente estudo sobre avaliação do valor calórico do leite humano ordenhado pasteurizado de um Banco de leite de Dourados (HU-UFGD-EBSERH), observou-se que, de acordo com as características das doadoras percebe-se que a maioria possui idade maior que 20 anos, tiveram parto normal e idade gestacional a termo. A minoria das doadoras era usuária de álcool e tabaco o que, influencia diretamente na produção e no valor calórico do leite humano.
O tipo de parto pouco tem relação com o valor calórico do leite, mas o tempo gestacional influencia diretamente nesses valores, sendo possível observar que os tempos gestacionais irregulares (pré e pós termo) tiveram menores concentrações de valor calórico.
De maneira geral a maioria das doadoras apresentaram leite hipocalórico (≤650 kcal/L), e entre as doadoras que obtiveram menor valor calórico se destacam as usuárias de álcool e as de tempo gestacional pré termo.
O Banco de Leite Humano necessita de uma nutricionista para incentivar a amamentação dos bebês, participar das campanhas que vão dar incentivo as mães a doarem leite humano, supervisionar as etapas de pasteurização do leite, prescrever suplementos nutricionais para os bebês. Tudo em prol da saúde, ajudando os bebês a crescerem saudáveis.
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