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A BIBLIOTECA PÚBLICA COMOUMLUGARDESIGNOS
Maria de Fátima Almeida Braga·
RESUMO
A biblioteca pública como guardiã da memória cultural. Aborda-se a gênese das bibliotecas e a evolução de suas funções de depositária dos registros do conhecimento a um veículo de apropriação da informação. Resgata-se de forma sucinta a história de biblioteca pública a partir do livro tipográfico e da biblioteca pública no Brasil, culminando com considerações so bre a biblioteca contemporânea e sua convivência com as complexidades do virtual.
PALAVRAS-CHAVE: Biblioteca. Biblioteca Pública. Apropriação da Informação.
ABSTRACT
The public library as guardian of the cultural memory. It
is approached the genesis of the libraries and the evolution of your functions of receivers of the registrations of the knowledge to a vehicle of appropriatin of the information.
It is rescued in a brief way the history of public library, starting from the typographic book and of the public library in Brazil, culminating with considerations on the library contemporany and your coexistence with the complexities of the virtual.
KEYWORDS: Library. Publica library. Aproppropriantion of the Information.
1 INTRODUÇÃO
o
ingresso da humanidade na era da informação está condicionadoao poder de alcance da população aos benefícios decorrentes das tecnologias da informação e comunicação. No caso brasileiro, em particular, o que se
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obsen:a é um grande distanciamento de uma parcela significativa da socie-dade a tais recursos, pela impossibilisocie-dade de acesso, principalmente, financeiras e educacionais. Além disso, as instituições públicas voltadas para a melhoria de acesso às informações encontram-se desprovidas de um arse-nal tecnológico'que possibilite amenizar tais disparidades.
Nesse contexto encontram-se as bibliotecas públicas, cuja vocação é intermediar o processo de apropriação da informação, e, sendo a informa-ção um agente central no processo de globalizainforma-ção, recai sobre essas instituições uma enorme responsabilidade: colaborar para que a infmidade de soluções digitais, cada dia mais surpreendentes e avançadas, sejam compar-tilhadas pela sociedade como um todo.
Partindo desse norte procuramos, num caminho paradoxal e utópi-co, situar a biblioteca, tomando por base os fundamentos de alguns historiadores como Kevin McGarry, Roger Chartier, Christian Jacob e Wil-son Martins, por entendermos ser necessária uma análise sobre essa instituição, responsável pelo processo de armazenamento e organização da reserva de pensamentos registrados no passado, hoje lugar de signos, por excelência, para uma melhor assimilação do processo de apropriação da informação.
Essa digressão histórica tornou-se necessária, principalmente, pela importância que vem sendo atribuída à informação no contexto globalizado e as novas exigências que se colocam aos indivíduos que tomam parte na so-ciedade da informação.
Assim, o objetivo do presente texto é situar a biblioteca a partir da perspectiva da história cultural, para tanto, fazemos uma incursão mesmo que fragmentada, sobre a origem das bibliotecas com a fmalidade de situarmos o objeto central do trabalho: a biblioteca pública.
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BIBLIOTECA:
fragmentos de sua históriaA gênese das bibliotecas é polêmica, pois não há registro certo
so-bre qual a primeira biblioteca que existiu. O que se sabe
é
que na históriadas bibliotecas antigas, todos os objetos de registro do conhecimento - blo-cos de pedras gravados pelos escribas, as lendas, os cântiblo-cos religiosos, os tabletes de barro, os de madeira e os gravados a fogo, o rolo de
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nho e papiro, e até mesmo os livros - eram Co.ls1derados frágeis e pr ;L,iosüs
demais; portanto, o local de sua guardaneces~ltava de vigilância ostensiva e
conservação esmerada. Assim, para alguns historiadores, a existência de "bibliotecas" antecedeu aos registres escritos, para outros, surgiu concomitantemente a eles.
Das mais remotas formas até a Renascença, as bibliotecas tinham fmalidades sacras ou religiosas e governamentais e se preocupavam mais em manter o acervo em sigilo do que realmente divulgá-lo para uso. Assim, só alguns poucos tinham o privilégio de penetrar-lhe o segredo. A exemplo po-demos citar a biblioteca do templo de Ramsés, em Tebas, com um acervo constituído por registros culturais da época, restringia seu uso a uma casta sacerdotal de escribas e autoridades do governo, e as primeiras bibliotecas da Assíria e Babilônia que eram consideradas bibliotecas governamentais, criadas para fornecer informações para a ordem estabelecida (MCGARRY, 1999, p. 112).
Essas características permaneceram até fins da Idade Média, inclusi-ve, mantendo o modelo arquitetônico de bibliotecas da Antigüidade. A
biblioteca de Nínive, por exemplo, tinha uma única porta adaracesso para
o interior do edificio, característica que a sacralizava como uma instituição inibidora do acesso aos leitores comuns. Diante dessas restrições, podemos dizer, concordando com Samarini (apud MARTINS, 2001, p. 74), que
(...] os antigos povos do Oriente, por exemplo os assírios e os egípcios, parecem ter conhecido apenas as bibliotecas religiosas, e sua noção de biblioteca se confundia com a de arquivos; não se tratava de bibliotecas em que um público, . mesmo restrito, fosse admitido à consulta; os livros eram reservados a oficiantes ou comentadores quase funcionári-os. Com os gregos, uma evolução se produziu. A biblioteca de Pérgamo, a de Alexandria, foram sem dúvida, ao mesmo tempo, conservadoras de textos profanos e órgãos difusores do pensamento, sem que saibamos claramente se eram re-servadas somente aos eruditos ou a um público mais largo. Eram, em todo caso, instituições oficiais, e o seu orçamento dependia das finanças públicas ou da lista particular do soberano.
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A imponência dos prédios públicos nos quais as bibliotecas se en-contravam instaladas, permanece em muitos lugares. O estigma que vincula tais locais para as elites intelectuais ainda hoje continua impregnando o ima-ginário social e as bibliotecas continuam sendo vistas como um bem inacessível para a maioria das pessoas, até porque a figura do leitor, tal como o conce-bemos hoje, é algo relativamente novo na história das bibliotecas.
Embora a sua vocação para a elite intelectual, da Antigüidade até a Idade Média a figura do leitor era quase inexistente, pois os progressos instrucionais eram lentos, mesmo entre as classes privilegiadas e, dentre as finalidades das bibliotecas, não constava a difusão dos saberes para uma coletividade mais ampla. Tal visão de inacessibilidade mudou em função de um conjunto de fatores apresentados por Martins (20m., p. 323), o qual assinala que
[...] Assim como pouco a pouco foram desaparecendo as monarquias de direito divino e as universidades monásti-cas; [...] assim como o livro perde o seu caráter de objeto sagrado e secreto para se transformar num instrumento de trabalho posto ao alcance de todas as mãos; assim como toda a vida social submete-se cada vez mais a "documen-tos" e não a "dogmas", a "contra"documen-tos" e não a
"mandamen-tos", à "crítica" e não a "revelações" - assim também a
biblioteca passa a gozar, nos tempos modernos, do estatuto da instituição leiga e civil, pública e aberta, tendo o seu fim em si mesma e respondendo a necessidades inteiramente novas.
De todo modo, os fatores que determinam a criação, manutenção e desenvolvimento das bibliotecas são as funções que ela exerce de reunir, organizar e preservar, para uso das gerações presente e futura, as formas de registro do conhecimento, que vão desde as tábulas de argila às formas ele-trônicas, hoje em evidência. Considera-se, atualmente, que essas funções não devem restringir-se somente à guarda, como se a biblioteca fosse um recipi-ente ou um depósito para a memória da humanidade. Admite-se que tal instituição deva intermediar a "[...] metamorfose dos leitores e das leituras, das políticas de domínio e de comunicação da informação [...]" (JACOB, 2000, p. 11).
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Assim, além de sua função como depositária dos estratos das inscri-ções deixadas por gerainscri-ções passadas - o que a coloca num cenário indissociável da história da cultura e do pensamento da humanidade -, a bi-blioteca atual além de ser considerada como
Lugar da memória nacional, espaço de conservação do
patrimônio intelectual, literário e artístico. [...]Étambém o
teatro de uma alquimia complexa em que, sob o efeito da leitura, da escrita e de sua interação, se liberam as forças, os
movimentos do pensamento.Éum lugar de diálogo com o
passado, de criação e inovação, e a conservação só tem sentido como fermento dos saberes e motor dos conheci-mentos, a serviço da coletividade inteira. (JACOB, 2000,p.9).
Nem sempre, entretanto, se pode observar a liberdade ou possibili-dade de acesso ao acervo cultural aludidas por Jacob. De fato, a história das bibliotecas traz consigo o estigma de uma ideologia em que se verifica a supremacia do poder das classes e grupos dominantes, o que implica a res-trição do acesso aos "frutos ilimitados do intelecto humano", nas palavras de McGany.
Para alguns historiadores, McGany (1999), por exemplo, entre to-das as bibliotecas da Antigüidade, o melhor exemplo que podemos resgatar é o da biblioteca de Alexandria, fundada pelos governantes gregos do Egito. A exemplaridade reside especialmente na influência que essa biblioteca exer-ceu na cultura antiga. A decisão de reunir, num mesmo lugar, todos os livros da Terra, produziu efeitos intelectuais, influenciou os modos da escrita e da leitura e uma forma erudita de gerir a memória da humanidade. Aliada a um museu e a uma academia, em termos atuais, essa biblioteca seria uma com-binação de centro de pesquisa, editora, instituto de estudos lingüísticos, museu e repositório cultural, funções essas que muitas bibliotecas de hoje ainda estão por alcançar. Mas, o sonho de uma biblioteca universal desmoronou. Vários incêndios abateram-se concretamente sóbre a biblioteca de Alexandria e destruíram-na fisicamente, permanecendo no imaginário social como a repre-sentante do ideal de biblioteca, com a função de guarda e conservação da história cultural.
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2 SITUANDO O OLHAR SOBRE BIBLIOTECA PÚBLICA
Asprimeiras bibliotecas públicas só tomaram maiores projeções no
Renascimento. A partir do livro tipográfico (Século XV), várias transforma-ções são verificadas nas comunidades leitoras e livrescas, como por exemplo, a proliferação do livro, os avanços mais acentuados na ciência e tecnologia, uma certa diminuição do analfabetismo, a fundação de universidades e, con-seqüentemente, a necessidade de atendimento aos estudos acadêmicos, dentre outros fenômenos, contribuiu para uma revolução nas funções da biblioteca, que se toma, progressivamente um centro de divulgação do saber.
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século XIX foi palco de uma "segunda revolução gutemberguiana"encabeçada pela imprensa industrial, que motivou uma verdadeira
democra-tização da biblioteca, somente insinuada nos séculos precedentes.Étambém
no seculo XIX que passamos a contar com um novo tipo de biblioteca - a de empréstimo.
A partir do final do século XIX e início do século XX, podemos observar a proliferação do saber registrado em diferentes suportes, o que acaba por inviabilizar a manutenção de uma biblioteca domiciliar. A posse particular do saber estava condenada, salvo se fosse reduzida drasticamente ao domínio de assuntos especializados. As bibliotecas tomam-se, então, um recurso absolutamente indispensável, espaço de preservação e difusão, que limitava as inevitáveis perdas (CHARTIER, 1999, p. 124-126).
Após a 1aGuerra Mundial nasce a biblioteca fora dos muros,
carac-terizada pelas bibliotecas volantes e caixas estantes que passaram a levar os
livros até o leitor e
é
a partir daí que uma ênfase maior passa a ser dada aostermos ''utilização'' e ''usuários''. Com o advento da 2aGrande Guerra as
bi-bliotecas tomam novos impulsos e vão-se transformando em centros de informação (NÓBREGA, 1999, p. 67).
Atualmente, considera-se a biblioteca como um espaço cultural e instituição de domínio público e, para atuar, efetivamente, dentro desta con-cepção, é fundamental uma maior integração entre a biblioteca pública e a sociedade na qual está inserida, considerando que se deve perseguir um bem social caracterizado pelo fornecimento de subsídios educacionais, o acesso à cultura e o lazer, e oferecer soluções imediatas a problemas cotidianos.
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De fato, a biblioteca pública é como se fosse um livro aberto para entender o mundo, atacar em todas as frentes e se renovar a cada derrota, motivo pelo qual deve colaborar na educação das classes menos privilegia-das, promovendo campanhas de informação com mensagens eficazes no combate à desinformação. Contra-atacar o analfabetismo e complementar o ensino, aliando-se às escolas em programas de alfabetização e desenvolvi-mento de práticas leitoras para a descoberta das delícias e eficácia da leitura é outro caminho para desenvolver uma missão sublime: re-valorizar o livro e o conhecimento escrito no combate ao iletrismo presente nos esquecidos da sociedade.
Com a diversidade cultural a cada dia em expansão, urge que a bi-blioteca pública seja um centro de apoio ao exercício da cidadania, disponibilizando às pessoas - qualquer que seja a faixa etária, classe, profis-são, condição social -, informações, conselhos, divertimentos, mostrando que
a diferençaésua razão de ser e que está aberta a todos.
Énecessário que a biblioteca sirva os interesses da comunidade e os
mais nobres valores humanos; desperte a consciência social do indivíduo e
do gmpo; contribua para o desenvolvimentodasatividades criadoras da
po-pulação e oriente as aspirações altruístas dos melhores elementos da sociedade.
Nesse sentido, é oportuno resgatar a definição da biblioteca pública e seus objetivos, concebidos no Congresso de Bibliotecários promovido em São Paulo, pela UNESCO, em outubro de 1951, assim resumidos por Martins (200 I, p. 326):
A biblioteca pública, criação da democracia modema, está na vangua:-da da luta encetada para assegurar plenamente a educação popular; seu papel consiste em conservar e orga-nizar os conhecimentos humanos a fim de colocá-los ao serviço de toda a coletividade, sem distinção de profissão, de religião, de classe ou raça. Seus objetivos são os seguin-tes:
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2. Estimular a líberdade de expressão e favorecer uma crítíca construtiva dos problemas sociais;
3. Dar ao homem uma formação que lhe permita exercer uma atividade criadora no quadro de coletividade e trabalhar no aperfeiçoamento de compreensão entre os indivíduos, en-tre os grupos e enen-tre as nações;
4. Completar a ação dos estabelecimentos de ensino,
ofere-cendoàpopulação a possibilidade de continuar a se
ins-truir.
Cumprir tais objetivos não é uma tarefa fácil para as bibliotecas. As limitações impostas à liberdade para difusão da cultura e autonomia de ação são determinantes, portanto, descaracterizam-na como uma das mais impor-tantes portas de acesso aos registros dos conhecimentos e das idéias produzidos pelo homem e às expressões de imaginação criadora, necessári-os a novas construções ou adaptações do acervo cultural.
É fácil observar que os países, em que os índices de leitura e. de fre-qüência às bibliotecas públicas são mais elevados, contam com redes bem estruturadas segundo os princípios expressos no Manifesto da UNESCO sobre as Bibliotecas Públicas, seguidos de critérios estabelecidos em nível de Governo, em que prevalece a prosperidade económica, com uma popu-lação estável e instruída. Estes são indicadores de florescimento de bibliotecas públicas:
Consideramos que uma prática ainda deve ser constantemente per-seguida pelas bibliotecas públicas: a de desenvolver práticas de leitura, instrumental primeiro e necessário para que as sociedades evoluam consci-entemente e aprofundem o sentido da democracia. Em que pese às inovações tecnológicas que venham facilitar a vida, a diversidade de opiniões e das idéias, é nas comunicações impressas, principalmente o livro, que se encontra a ri-queza do conhecimento e da criatividade humanas. Ler, saber ler, gostar de ler, é o primeiro passo para a vivência da democracia e para o progresso da sociedade, e são as bibliotecas públicas os principais organismos difusores da palavra escrita em todas as suas vertentes.
Dos critérios fundamentais a serem cumpridos para o desenvolvimento dessa prática destaca-se a existência de um número razoável de fundos do-cumentais proporcional à população, que abarquem a totalidade do
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conhecimento humano e que exprimam, na sua diversidade de estilos e opi-niões, os pensamentos, as idéias e as criações da imaginação do homem.
Isso seria suficiente para tomá-la magnânima, capaz de surpreender do mais humilde ao mais exigente leitor, devido à capacidade de armazenar e tomar disponível um vasto conhecimento, além da responsabilidade de veicular as infonnações à sociedade. A multiplicidade de informações incor-porada aos seus acervos lhes garante uma posição de proa dos descobrimentos, razão pela qual são sempre recomendadas como a primeira etapa a se transpor na aventura de conhecer.
Devemos considerar, entretanto, que se o objetivo é informar, as características de cada meio social são fatores determinantes para o planeja-mento das ações das bibliotecas públicas. Se o índice de analfabetismo for alto, a palavra escrita perde o seu sentido e os audiovisuais passam a ser mais eficientes. Por outro lado, o conceito de democracia não deve ser es-quecido e a biblioteca como espaço por excelência de liberdade deve ser de livre acesso a todos os membros da comunidade, sem distinção de raça, cor, nacionalidade, idade, sexo, religião, língua, situação social ou nível de instru-ção.
Soma-se a isso a sua importante função socializadora, que requer um trabalho de difusão do saber produzido e sistematizado, oferecendo à soci-edade o acesso às informações necessárias à solução dos seus problemas cotidianos, à elevação de seu nível cultural e ao exercício da cidadania. Para cumprir tal objetivo, reforça-se a idéia de que a biblioteca deve ser detento-ra, em primeiro lugar, de um acervo, composto da mais vasta e diversificada coleção de registros do conhecimento humano, em qualqtrer que seja a for-ma e suporte, como também variadas atividades sociais, para atender diferentes públicos.
Como a função socializadora da biblioteca aos poucos vai-se con-cretizando, não se justifica mais que ela seja uma simples receptora de livros
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À sua passividade substituiu-se um salutar dinamismo, a iniciativadeuma obra que é, ao mesmo tempo, de socialização, especialização, democratiza-ção e laicizademocratiza-ção da cultura" (MARTINS, 2001, p. 325).A possibilidade de o homem comum ter acesso aos beneficios do livro impós à biblioteca uma função disseminadora que viabilizasse a cultura
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aos diferentes públicos. Esse foi mais um impulsoàbiblioteca, mas não
sig-nificaafirmarque todos os problemas de funcionamento tenham desaparecido.
Ao contrário, ao mesmo tempo em que o acesso aos livros percorre uma trajetória de democratização, instaura-se uma concorrência entre os demais sistemas sociais de comunicação e os livros. A polêmica comunicação de massa versus livro bem traduz esta questão; e o livro como suporte, debate-se entre sua dessacralização e/ou morte. A biblioteca, por debate-seu turno, vê-debate-se
impingida a participar da polêmica, tenta aprimorar-sena~ novas tecnologias,
ao mesmo tempo em que precisa dar conta de uma ação pedagógica (NÓBREGA, 1999, p. 66).
3 A BIBLIOTECA PÚBLICA NO BRASIL
A cultura da informação no Brasil também tem sua história não mui-to diferente daquela que conhecemos mundialmente. Definida pelo poder
aquisitivo, destinava-se àqueles privilegiados com acessoàpalavra escrita.
No Brasil, somente em 1811 surgiu o primeiro projeto para a cria-ção de uma biblioteca. Apresentado por Pedro Gomes Ferrão de Castello Branco ao governador da Capitania da Ballia, o projeto foi aprovado na-quele mesmo ano, tendo como objetivo facilitar o acesso ao livro, numa demonstração de grande preocupação com a educação. Surge então a pri-meira biblioteca pública no Brasil, a Biblioteca Pública da Bahia.
A partir de então, várias outras iniciativas governamentais surgiram para criação de bibliotecas sem, contudo, levar em consideração a definição
de umainfra~estrutura adequada, culminando com instalação de bibliotecas
ePl "[...] locais improvisados, acervo desatualizado e composto de doações, instalações precárias, carência de recursos humanos adequados etc. [...]" (SUAIDEN, 2000, p. 52).
Tendo o livro como principal produto, a história das bibliotecas bra-sileiras ao longo da República Velha e da Primeira República (e por que não até os dias atuais?) contou com um retraimento de usuários devido ao ensino precário e de acesso restrito, portanto eram poucas as pessoas emditas que se interessavam pela informação bibliográfica. O contexto era mais
adequa-_.
31 do para informações utilitárias e de ciCblania para bendicJar grande percentual da população que era analfabeta (GOMES, 1983).
Observamos que a idéia de biblioteca pública brasileira já nasceu desvirtualizada em relação à realidade, onde existem desnivelamentos regio-nais marcantes. Tome-se como exemplo o que rege o Manifesto da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) que retrata a biblioteca pública como força em prol da educação, da cultura e da informação e como instrumento indispensável para promover a paz e a compreensão entre povos e nações (MANIFESTO, 2002, p. 1). Tal discur-so considera a biblioteca como uma necessidade de qualquer discur-sociedade, porém, para que ela se faça útil, deve estar de acordo com os determinantes econômicos, políticos e culturais da população a que se destina.
Um momento bastante significativo na história das bibliotecas públi-cas brasileiras deu-se em 1937, com a criação do Instituto Nacional do Livro - INL, órgão federal subordinado ao Ministério da Educação. Com a finali-dade de propiciar meios para a produção, o aprimoramento de livros e a . melhoria dos serviços bibliotecários, priorizando a instalação de bibliotecas públicas em todo o País, o INL foi uma resposta do governo federal aos intelectuais que criticavam a falta de uma política cultural, fato esse aflorado na Semana de Arte Modema, em 1922.
Porém, a atuação do INL não foi de acordo com sua concepção fi-losófica. O que se presenciou foi uma desenfreada distribuição de livros, cujos benefícios se estendiam mais para as editoras do que para as prefeituras, chegando ao extremo de se estabelecer como critéri{,) para as doações, a compra de livros por parte das prefeituras (MILANESI, 1986, p. 94). Destarte, não se pode deixar de citar Oliveira (apud SUt\IDEN, 2000, p. 56) ao destacar que as grandes contribuições do INL foram a incorporação das bibliotecas públicas à agenda governamental, o crescimento dos acervos e o apoio ao desenvolvimento da biblioteconomia no país.
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vênios com as prefeituras para o desenvolvimento de um trabalho em parce-ria para manutenção de bibliotecas públicas.
A reforma do ensino de l° e 2° Graus, através da Lei 5.692171, tor-nou obrigatória a pesquisa por parte do estudante. Em razão da carência de bibliotecas nas escolas, os alunos passaram a utilizar as poucas bibliotecas públicas existentes, ocorrendo assim o fenômeno da escolarização da biblio-teca pública que, desde então, passou a priorizar o atendimento à classe estudantil em detrimento de outros segmentos da comunidade que também necessitavam dos serviços bibliotecários.
4 CONCLUSÃO
As bibliotecas públicas foram criadas para todos e todos delas de-vem fazer uso. Seu adjetivo "pública" não deve ser entendido somente como uma instituição pública onde o Estado franqueia ao cidadão os materiais de que necessitam para ampliação dos conhecimentos. Deve ser entendido, tam-bém, como um espaço informacional em que se promove o desenvolvimento intelectual do indivíduo, a democracia, a comunicação, e, sobretudo, onde circula o conhecimento e a cultura.
No entanto, há um público em potencial esquecido: aquele que não freqüenta a biblioteca, constituído de uma gama variada de categorias soci-ais, grupos e fundamentalmente as classes marginalizadas. Num irônico paradoxo, esse excedente é a maioria da população, que não freqüenta as bibliotecas por falta de incentivo e ações direcionadas a esse público.
A biblioteca contemporânea talvez esteja vivendo seu ponto máximo de desafio, tendo que enfrentar, ao mesmo tempo, uma incontrolável prolife-ração, velocidade e pulverização da informação - qualquer um pode avaliar tal fato pela quantidade de impressos que nos chega às mãos pelo correio _ e conviver com registros nos mais diferentes suportes, ainda mais com as complexidades do virtual, que, conseqüentemente, impõem novas maneiras de ler.
[...] E se há novas fonnas de leitura-e a transmutação se dá tanto no modo recepção quanto no de produção -; se, como conseqüência, as noções de autor, leitor e texto (que se
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constrói agora com wna pluralidade de vozes) alteram-se, a biblioteca precisa refletir sua identidade e seus dispositi-vos de recuperação da infonnação para dar conta de seu objetivo principal: a acessibilidade. (NÓBREGA, 1999,p.68).
Portanto, exigem-se outras estratégias de viver e comunicar com a diversidade de meio de registro, preservação e transmissão da informação. É nesse contexto que se procurou compreender até que ponto as bibliotecas públicas estão situadas nessa nova ordem e o grau de comprometimento com sua própria história e sua forma de estar no mundo.
Por outro lado, o profissional bibliotecário, atuante nesse tipo de ins-tituição, é um mediador desse serviço, e, por esse prisma, é importante verificar quais caminhos tem percorrido no sentido de contribuir para as Bibliotecas Públicas, possam ser entidades expressivas na sociedade da informação, num momento em que as sociedades têm novas exigências ao passarem por trans-formações sociais em alto grau, decorrentes do processo de globalização.
REFERÊNCIAS
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aventura do livro:
do leitor ao navegador. São Paulo:UNESP, 1999.
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palavra escrita:
história do livro, da imprensa e dabiblio-teca. São Paulo: Ática, 2001.
McGARRY, K. O
contexto dinâmico da informação:
uma análise. introdutória. Brasília: Briquet de LemoslLivros, 1999.
II
I
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II~
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MILANESI, L.
Ordenar para desordenar:
centros de cultura e bibliotecas públicas. São Paulo: Brasiliense, 1986.NÓBREGA, N. G. Acervos como memória do mundo (e sobre sua dinamização).
Informare:
Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v. 5, n. I, p. 59-76,jan./jun.1999.SUAIDEN,E.M. A biblioteca pública no contexto da sociedade da informa-ção.
Ciência da Informação,
Brasília, v.29, n.2, p.52-60, maio/ago. 2000.Infociência, São Luís, v. 4, p. 21-34, 2004