UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA E TEOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
Templo de Salomão: um produto Made in Brazil
Rogério Barrios
São Paulo
2018
UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA E TEOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
Templo de Salomão: um produto Made in Brazil
Rogério Barrios
Dissertação apresentado em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, para obtenção do título de Mestre em Ciências da religião.
Orientador: Prof. Dr. Ricardo Bitun
São Paulo
2018
Ao Senhor Jesus Cristo, motivo de tudo que sou e faço...
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus pela sua infinita bondade, misericórdia e paciência comigo.
A família abençoada que Deus me deu através das minhas amadas meninas, Andréa (esposa), Mariana e Isabel (filhas), onde pude crescer e descobrir a beleza que é ser esposo e pai.
Pela compreensão da ausência em muitos momentos.
Aos meus pais Miguel e Darci, sem as quais não poderia receber a luz da vida.
A família da Igreja Cristã Yeshua, que me faz diariamente relembrar o verdadeiro motivo da busca na qualificação do Espírito, alma e domínio da carne.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Ricardo Bitun, pela parceria e constante direção.
Aos membros da banca examinadora, Prof. Dr. Cristiano Camilo Lopes e Profa. Dra.
Renata da Silva Coelho, pela leitura exigente e aprendizado.
Ao Professor Lindberg Moares, responsável por fazer com que este título de mestre pudesse ter se realizado dentro da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Por todos os professores que um dia fizeram parte da minha vida, desde a Escola Municipal Cecília Meireles, localizada no bairro do Cangaíba na periferia da cidade de São Paulo até a Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Aos grandes escritores da humanidade, em especial a Apóstolo Paulo e João Calvino, que fizeram com que a Letra que ensina a Palavra de Deus pudessem se tornar objetos literários.
A todos que me ajudaram a viver cada momento na construção deste trabalho.
RESUMO
Essa dissertação toma como objeto de reflexão o empreendimento religioso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) conhecido como Templo de Salomão Brasil. A partir de uma leitura que articula ciências da religião e relações internacionais, procura- se determinar em que medida esse empreendimento religioso pode ser lido como um modelo de igreja/negócio. Para isso, debruçamo-nos sobre as origens do pentecostalismo a fim de compreender sua complexa relação com o campo religioso brasileiro e a lógica que transforma os bens religiosos em mercadorias.
Palavras-chaves: Neopentecostalismo. Templo de Salomão. Igreja/Negócio. Poder Brando. Poder Brando Religioso.
ABSTRACT
This dissertation takes as object of reflection the religious enterprise of the Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) known as Temple of Solomon Brazil. From a reading that articulates the sciences of religion and international relations, it is sought to determine to what extent this religious enterprise can be read as a model of churc/business. To this end, we focus on the origins of Pentecostalism in order to understand its complex relationship with the Brazilian religious field and the logic that transforms religious goods into commodities.
Keywords: Neopentecostalism. Temple of Solomon. Church / Business. Soft Power.
Soft Religious Power.
Sumário
INTRODUÇÃO ... 7 CAPÍTULO 1
NEOPENTECOSTALISMO: UMA PLATAFORMA EMPRESARIAL CONCEBIDA PELA IGREJA BRASILEIRA ... 10 1.1 A origem da Igreja Neopentecostal e sua relação com a cultura brasileira. ... 15 1.2 A secularização da religião e o surgimento da igreja/negócio neopentecostal brasileira ... 23 CAPÍTULO 2
TRÂNSITO RELIGIOSO, ENTRETENIMENTO E CLIENTES DA FÉ ... 32 2.1 – Transito religioso e os mochileiros da fé: compreendendo a lógica da circulação. ... 32 2.2 – O Templo de Salomão como um modelo de Igreja/Negócio ... 39
CAPÍTULO 3
TEMPLO DE SALOMÃO: UM PRODUTO MADE IN BRAZIL ... 46 3.1 – Templo de Salomão: um produto Made in Brazil. ... 47 3.2 – O poder brande (Soft Power) e o poder brando religioso (Soft Religious Power) no entretenimento religioso ... 54
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 63
BIBLIOGRAFIA ... 67
INTRODUÇÃO
“A mente do homem é como um depósito de idolatria e superstição; de modo que, se o homem confiar em sua própria mente, é certo que ele abandonará a Deus e inventará um ídolo, segundo sua própria razão.”
João Calvino
Essa dissertação tem como objetivo refletir sobre a relação entre religião e mercado, tomando como eixo do debate o empreendimento religioso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), conhecido como Templo de Salomão Brasil.
A proposta consiste em determinar em que medida esse empreendimento religioso pode ser lido como um modelo de igreja/negócio. Com base em buscar elementos que provem que atualmente há uma modalidade que desenvolve novos prosélitos adequados a tal igreja/negócio do século XXI, sendo esta plataforma o chamado Neopentecostalismo.
Com base nesta proposta, pretende-se utilizar a consagrada “Teoria da Interdependência Complexa” concebida pelo prof. de Harvard, Dr. Joseph Nye Jr, com o objetivo de tentar compreender a relação que há entre religião e mercado.
Nesse sentido, uma teoria proposta para analisar o contexto das relações internacionais será útil para compreendermos a lógica dos mercados consumidores, cujo poder de convencimento pode ser lido como uma espécie de força aparentemente invisível e branda, que é o Soft Power (Poder brando).
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1 Fragmento encontrado no site https://www.pensador.com/frase/MTA3NzAxNQ/
Sendo que esse invisível elemento de sofisticado poder (Soft Power) é utilizado como um componente de conquista para a “venda dos valores” de nações ou empresas, através de um catálogo de diversos Entretenimentos (cinema, música, parques temáticos, castelos mágicos, etc.).
Assim, com o passar do tempo, o neopentecostalismo vai alicerçando cada vez mais suas estruturas aos moldes de uma igreja secularizada, sofisticando a cada instante a maneira de se produzir Entretenimento Religiosa. Se tornando cada vez mais aderente as mentes sem pavimentação bíblica fundamentada. Isto é, aos que trocam a adoração pela atração espetaculosa.
Desta maneira, esta dissertação estará abordando o principal ícone de todos os entretenimentos neopentecostais que surgiram até os dias de hoje no Brasil, e porque dizer, nos tempos atuais em todo o mundo, que é Templo de Salomão Brasil.
Sendo este reconfigurado de sua concepção original israelita pela chamada igreja/negócio, concebida pela Igreja Universal do Reino de Deus – IURD, em um sofisticado monumento faraônico as margens da Av. Celso Garcia na cidade de São Paulo.
O Templo de Salomão Brasil é um verdadeiro “Castelo dos Sonhos dos Evangélicos”, semelhante a um dos “Castelos dos Sonhos” de Wald Disney, principalmente no que tange ao entretenimento convertido em lindos contos de fadas e magia. Em que os desejos são prontamente realizados.
No caso americano, uma política bem orquestrada para amortecendo a razão lógica do mundo, invadido pelo “imperialista” econômica norte-americana através do entretenimento. Levando os valores da terra do “Tio San” às mentes e corações, principalmente de crianças em formação que, um dia, serão governantes de suas respectivas nações, e como fã inveterados de Mickey Mouse e sua turma, nunca mais poderão afastar suas culturas da cultura do entretenimento americano, já que no limite esta passa a ser uma cultura não mais de um país e sim mundial.
Procurando tratar da relação entre neopentecostalismo e mercado, os capítulos
desta dissertação estão organizados da seguinte forma: o primeiro capítulo procura
contextualizar as origens do pentecostalismo brasileiro, a fim de compreender os
processos de transformação; assim, é importante relacionar esse processo de
transformação ao processo de secularização. O segundo capítulo tem como objetivo situar o neopentecostalismo no contexto do campo religioso brasileiro; para isso utilizamo-nos do conceito de “trânsito religioso” para mostrar a lógica da mobilidade entre as alternativas religiosas. Por fim, no terceiro capítulo procuramos explorar os aspectos simbólicos e religiosos do Templo de Salomão a partir da teoria do Soft Power de Joseph Nye. O argumento central consiste em demonstrar que o Templo de Salomão pode ser lido como um modelo de igreja/negócio, um verdadeiro produto Made in Brazil.
Assim, o objetivo central desta dissertação será buscar as provas que demonstram esta mesma venda de valores através do entretenimento religioso, por meio do Templo de Salomão Brasil, aos evangélicos de todas as partes do mundo, através do Soft Power, proposta nas Teorias de Joseph Nye (2002a; 2002b).
Procuramos entender o quanto o Templo de Salomão Brasil, outrora um Templo de propriedade moral, intelectual, histórica e espiritual dos filhos de Salomão e de toda a humanidade, foi desmantelado, por uma jogada de marketing genial, deixando para trás o próprio Phillip Kotler, pai do marketing moderno.
A busca em explicar tais movimentos do entretenimento religioso que emana desta plataforma neopentecostal se dá em utilizar um instrumento atualizadíssimo da diplomacia mundial, que é poder obtido através Soft Power. Decodificando, por sua vez, as ações de uma igreja/negócio instalada no Brasil, com vistas no acúmulo de bens (visíveis ou invisíveis) em todo mundo, e que parece capturar seus esforços economicamente através de um produto palpável, que é o Templo de Salomão Brasil.
Imprimindo no mesmo o selo Made in Brazil, através do Reino Universal das
Maravilhas Religiosas.
CAPÍTULO 1
NEOPENTECOSTALISMO: UMA PLATAFORMA EMPRESARIAL CONCEBIDA PELA IGREJA BRASILEIRA
Este capítulo tem como objetivo contextualizar os desdobramentos do conceito de neopentecostalismo na cultural brasileira, abrindo-nos possibilidades de descrever as estratégias da Igreja Universal do Reino de Deus em torno do chamado Templo de Salomão Brasil, localizada no bairro do Brás em São Paulo.
De acordo com uma série de pesquisas (FRESTON, 1992; MARIANO, 1999;
CAMPOS, 1999; BITUN, 2011) o neopentecostalismo passou a ocupar consideráveis espaços no campo religioso, fundindo sua fronteira com secularizada sociedade brasileira dos nossos dias.
Por isso, é preciso, pois, um panorama que nos permita situar essas questões.
Na tentativa de compreender a dinâmica do campo religioso brasileiro, a literatura sociológica tratou de organizar as principais matrizes religiosas em distintas classificações, especialmente em relação ao pentecostalismo.
De fato, um sistema tipológico fazia-se necessário diante da diversidade institucional e segmentos doutrinários.
Assim, esse panorama sociológico acerca das classificações do pentecostalismo, nos permite compreender a configuração dessa diversidade religiosa no campo evangélico.
Nas décadas de 1970, Candido Procópio Camargo (1973) chamava atenção para a dinâmica de crescimento dos pentecostais. Sua análise valia-se da tipologia weberiana
“igreja-seita” para descrever os tipos de relações que os pentecostais mantinham com a sociedade. A distinção igreja-seita diz respeito aos modelos institucionais, sendo a
“igreja” o tipo mais aberto ao sistema vigente e a “seita” um tipo mais isolado.
A análise do Protestantismo brasileiro indica que este desenvolveu de
início certos aspectos característicos da “seita”, passando
gradualmente a estabelecer-se como “igreja”, no tocante as principais denominações “históricas”. A dinâmica dos grupos pentecostais brasileiros, no entanto, indica que suas diferenças internas tornam possível estabelecer variações escalonáveis entre as denominações mais próximas à “seita” e à “igreja”. Assim, embora compartilhando pontos doutrinários, diferem os extremos do “gradiente” proposto em aspectos como os de ritual, manifestação dos dons espirituais, grau de integração dos fiéis e estilo de liderança (CAMARGO, 1973, p. 153).
Emerson Giumbelli também se lembra do trabalho pioneiro de Beatriz Muniz de Souza, umas das colaboradoras das pesquisas de Cândido Procópio Camargo. A tipologia “igreja-seita” foi umas primeiras classificações para dar conta dessa diversidade religiosa pentecostal, especialmente em relação às suas diferenças internas.
O trabalho de Beatriz Muniz de Souza (1969), pioneiro entre nós na sua tentativa de inventariar os elementos que constituíam a religiosidade pentecostal, é ilustrativo da situação. Ele dedica um capítulo inteiro a uma discussão de tipologia e adota, a partir de referências sociológicas que desenvolvem as elaborações de Weber, Troeltsch e Niebuhr, um gradiente “seita-igreja” para dar conta da diversidade interna aos pentecostais. Se observarmos os trabalhos mais recentes, chegamos a uma dupla constatação. A tipologia
“igreja/seita” passa a ser vista como insuficiente para contemplar a diversidade pentecostal e tende a dar lugar a locuções inéditas e neologismos. Ao mesmo tempo, quando a referência ao conceito de
“seita” não é totalmente abandonada, geralmente incorpora elementos
que extrapolam a tradição sociológica que inspirou Souza. Em todo
caso, generalizou-se a percepção de que se tornou insuficiente definir
o universo pentecostal a partir apenas da contraposição às demais
denominações protestantes. O resultado é um verdadeiro debate a
respeito não só de como caracterizar o protestantismo dos
pentecostais, mas também de como apreender suas distinções internas
(GIUMBELLI, 2000, p. 90).
Como podemos observar a tipologia “igreja-seita” com o tempo passa a ser insuficiente para dar conta da diversidade do campo religioso pentecostal brasileiro.
Nesse sentido, os pesquisadores sugeriram novas classificações para explicar o fenômeno que até apontava exponencial crescimento.
A categorização “neopentecostal”, uma das mais conhecidas tipologias do pentecostalismo brasileiro, relacionam-se aos trabalhos de Paul Freston (1993) e Ricardo Mariano (1999).
Freston parte da formulação da metáfora das três ondas com o objetivo de ordenar a diversidade das transformações do pentecostalismo: a primeira onda foi chamada de Pentecostalismo Clássico e compreendia as décadas de 1910 a 1950, sendo representadas pelas igrejas Assembléia de Deus e Congregação Cristã no Brasil; estas tinham como principais características a ênfase no batismo com Espírito Santo e o falar em línguas, usos e costumes rígidos e rejeição ao mundo secular (inclusive à política) em detrimento de um de uma recompensa no mundo escatológico.
1A segunda onda, de 1950 a 1970, ficou conhecida como deutero- pentecostalismo ou pentecostalismo de segunda onda, sendo representado pelas igrejas O Brasil para Cristo, Deus é Amor e Igreja do Evangelho Quadrangular; as principais características seriam o evangelismo para além dos templos (cruzadas em ginásios, estádios de futebol, etc), utilização dos meios de comunicação de massa (o rádio em especial) e ênfase na cura divina.
A terceira onda, de 1970 à atualidade, seria identificada como neo- pentecostalismo, caracterizado pela importação da chamada Teologia da Prosperidade
2surgida na América do Norte. Com vistas à rejeição do estigma causado pelos usos e
1 Acreditava-se que Jesus voltaria para estabelecer um reinado literal de mil anos sobre a Terra, e, portanto, cabia-lhes anunciar o fim dos tempos que antecediam este reinado. O termo “escatologia” se refere ao sistema de crença em relação ao futuro.
2 A Teologia da Prosperidade é uma adaptação cristã ao capitalismo. Diferente da teologia do pentecostalismo clássico, que enfatizava uma “providencia” divina para o sofrimento humano, a teologia da prosperidade enfatiza uma postura de “cobrança” diante das “promessas” de Deus na Bíblia.
Acreditam que os cristãos devem desfrutar de todos os bens terrenos; que não devem sofrer ou terem enfermidades. Os cristãos que ainda estão nestas condições, precisariam exercer a fé e “cobrar” de Deus.
Um dos meios de colocar a fé em prática é estabelecendo uma relação de “troca” enfatizada por uma nova interpretação do “dízimo”, configurando o “dar e receber”. Ver Ricardo Mariano (1996).