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Desenho de uma poiesis

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Daniel Ribeiro Cardoso

Tese apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Área de concentração: Signo e significação nas mídias

Linha de pesquisa: Processo de criação nas mídias Orientadora: Profa. Dra. Cecilia Almeida Salles Coorientador: Prof. Dr. Jorge de Albuquerque Vieira

Desenho de uma

poiesis

comunicação de um processo coletivo de criação na arquitetura

São Paulo 2008

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convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

Daniel Cardoso

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Aos professores do Curso de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP pelos encontros que resultaram na formação da pesquisa. Sou especialmente grato ao Prof. Jorge Vieira e à Profa. Cecília Salles pelo acolhimento, conversas e correções no processo de

desenvolvimento. Sou grato ao Grupo de Pesquisa em Processos da Criação PUC-SP, ao Núcleo de Estudos de Semiótica e Complexidade PUC-SP pelas leituras e discussões. Agradeço aos professores do Departamento do de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, Prof. Ricardo Bezerra pelo acolhimento no Grupo de Pesquisa em Arquitetura, Urbanismo e Desenvolvimento, ao Prof. Roberto Castelo e Prof. Clovis Jucá Neto abertos e generosos no compartilhamento do conhecimento. Aos alunos de arquitetura: Francisco Jeffeson, Lucy Donegan, Hector Rocha, Jean Marcell Parente pela disposição, rapidez e eficiência em alguns dos levantamentos arquitetônicos. Ao Prof. Almir Leal de Oliveira do Departamento de História da Universidade do Ceará, pelos esclarecimentos sobre a formação da região estudada. Ao mestre Luiz de Meu Chico pela generosidade em partilhar sua memória e conhecimento do processo de formação das casas. Às arquitetas – e agora pesquisadoras – Adriana Gurgel e Larissa Menescal pelo envolvimento inicial na pesquisa. Sou também grato ao Filipe Cruz e Deweyne da Silva pelo apoio nos levantamentos arquitetônicos e pesquisas de campo.

Ao CNPq pela bolsa concedida para realização da pesquisa.

Ao André Paes pelas conversas, dedicação e presença fundamental no desenvolvimento, implementação, testes e correções do sistema.

Agradeço ao Grupo de Redes de Computadores, Engenharia de Software e Sistemas da Universidade Federal do Ceará (GREat.UFC) pelo acolhimento através do Projeto de Pesquisa LG coordenado pela prof. Dra Rossana Maria de Castro Andrade, a quem especialmente sou grato. Ao Saulo Passos e Ronaldo Mota que, apesar dos contra-tempos na esteriolitografia, sempre os encontrei cedo e já entusiasmados na produção dos protótipos.

Ao Sr. José, Sra Rita, Sra. Anaides, Sra. Gerarda, Sr. João Borges, Sr. Joaquim, Sr. Paulo, Sra.

Francisca Bezerra, Sra. Ivanilde, Sra. Francisca Holanda, Sr. Jerônimo e todos os proprietários

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CARDOSO, Daniel R. Dessin d'une poiesis: la communication d’un processus collective de création dans la architecture. 2008. 109 f. Thèse (Doctoral) - Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, 2008.

Dessin d'une poiesis: la communication d’un processus de création dans la architecture est assignée comme un domaine de recherche de la Visualité. Étant donné que c’est un travail lié à la visualisation scientifique, les recherches seront orientées vers la représentation et la communication au moyen d'images graphiques visuels. L’objectif de cette thèse est de réfléchir sur des questions concernant les processus de génération et sur la forme appropriée de les représenter. Le processus de formation de la typologie dans l'architecture est adopté comme l’objet de la recherche. Objet propre d'une culture, le type est considéré comme un élément qui sert de principe général de formation, un mécanisme supra-individuel nécessaire à la construction de sens et de l’identité d'une société. Dans ce sens, les maisons, instantiation de la même logique de création, sont des voies qui expriment une intelligence collective. Etant donné l’importance de la grandeur de l'échelle à la perception de son évolution, l'objet a été considéré dans l'architecture formée entre 1890 et 1980, dans la région de Cajuais et de Mutamba, du littoral sud du Ceará. Dans ce contexte, se posent quelques questions clés liées à la problématique de la thèse: Comment préserver des processus de génération d'un objet culturel? Comment garder quelque chose qui est par nature en état de fonctionnement et informationnel? Ou mieux encore, comment représenter convenablement une poiesis? Dans les possibles réponses à ces questionnements, se trouve le fondement de l'hypothèse de la thèse qui considère la grammaire de génération de la forme comme le signe le plus approprié à la représentation d'une poiesis. Les théories articulées pour supporter le développement de la recherche sont distinctes. Néanmoins, le réseau tissé se trouve dans un espace commun, dans un environnement où les théoriciens règlent les questions du signe et de la signification selon la pensée de Charles S. Peirce. Le fondement théorique se constitue à partir de trois axes majeurs: la Théorie Générale des Systèmes, au sens de Bunge et Vieira, dans laquelle se cherchent des concepts et des méthodologies en les justifiant à la seconde ligne la Critique Génétique telle que proposée par Salles qui recherche des principes généraux de la création; et la Sémiotique comme base pour les questions de la représentation et de la communication de processus. En outre, des auteurs tels que Chomsky, Prusinkiewics, Stiny, Duarte, pour ne citer que ceux-là désignent également la grammaire comme représentation du processus dans des systèmes de sémiotique. À la fin, est proposé un système générateur de formes comme un signe ajusté à la poiesis qui fonctionne avec la logique évolutive trouvée dans l'objet. Par conséquent, le résultat de la recherche est non seulement un outil qui spécule sur la génération et la visualisation de formes futures, mais également c’est une voie d'accès pour le développement de la critique génétique.

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CARDOSO, Daniel R. Desenho de uma poiesis: comunicação de um processo coletivo de criação na arquitetura. 2008. 109 f. Tese (Doutorado) - Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, 2008.

Desenho de uma poiesis: comunicação de um processo coletivo de criação na arquitetura insere-se no domínio das pesquisas da visualidade. Como um trabalho ligado à visualização científica, equipara-se às investigações sobre representação e comunicação por meio de imagens gráfico-visuais. O propósito da tese é refletir sobre questões relativas aos processos de geração e à forma adequada de representá-los. Adota-se como objeto da pesquisa o processo de formação de uma tipologia na arquitetura. Objeto próprio de uma cultura, o tipo é entendido como um elemento que serve como princípio geral de formação, um mecanismo supra-individual necessário à construção de sentido e identidade de uma sociedade. Nessa acepção, as casas, instanciações de uma mesma lógica de formação, são meios que expressam uma inteligência coletiva. Dada a escala necessária à percepção de sua evolução, o objeto foi considerado na arquitetura formada entre 1890 e 1980, na região de Cajuais e Mutamba, litoral sul do Ceará. Nesse contexto, apresentam-se algumas das questões constituintes da problemática da tese: Como preservar processos de geração de um objeto cultural? Como guardar alguma coisa que é por natureza operativa e informacional? Ou, ainda, como representar adequadamente uma poiesis? Nas possíveis repostas a esses questionamentos está o cerne da hipótese da tese que considera a gramática de geração da forma o signo mais adequado à representação de uma poiesis. São linhas distintas as teorias articuladas para apoiar o desenvolvimento da pesquisa. Contudo, a rede tecida encontra-se num espaço comum, num ambiente onde teóricos concertam questões do signo e da significação em coerência com pensamento de Charles S. Peirce. A fundamentação teórica se constitui a partir de três linhas: a Teoria Geral dos Sistemas, na acepção de Bunge e Vieira, nos quais se buscam conceitos e metodologias ajustando-as à segunda linha; a Crítica Genética, precisamente na forma proposta por Salles, que busca por princípios gerais dos processos de formação; e a Semiótica, como fundamento para as questões da representação e comunicação de processos. Aqui, especificamente, são considerados autores como Chomsky, Prusinkiewicz, Stiny, Duarte, entre outros que também apontam para a gramática como representação de processo em sistemas semióticos. Ao fim, propõe-se como um signo adequado à poiesis um sistema gerador de formas que opera com a lógica evolutiva encontrada no objeto. Deste modo, tem-se como resultado da pesquisa não só uma ferramenta que especula sobre geração e visualização de formas futuras, como também um caminho para o desenvolvimento da Crítica Genética.

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CARDOSO, Daniel R. Drawing a poiesis: communication of a collective process of creation in architecture. 2008. 109 f. Thesis (Doctoral) - Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, 2008.

Drawing of the poiesis: communication of a collective process of creation in architecture is assigned as a domain of the visuality research. As a work related to scientific visualization, it can be compared to the investigations on representation and communication through visual graphic images. The purpose of this thesis is to reflect on issues concerning the processes of generation and the adequate way to represent them. The process of the form development tipology in architecture is adopted as the object of the research. As a proper object of a culture, the type is perceived as an element that serves as a general principle of creation, a supra-individual mechanism needed for the construction of meaning and identity of a society. In that sense, the houses, instantiation of the same logic of creation, are ways that express a collective intelligence. Given the necessary scale for the perception of its evolution, the object was found in the architecture formed between 1890 and 1980, in the region of Cajuais and Mutamba, southern coast of Ceará. In that context, there are some issues concerning the problematic of the thesis to be considered: How to preserve the processes of generation of cultural object? How to apprehend something that is by its nature operative and informative? Moreover, how to represent adequately a poiesis? The answers to these questions are the hypothesis crux of the thesis that considers the grammar of the form development most appropriate sign to represent for the representation of a poiesis. The articulated theories to support the development of the research are distinct. However, the composed network is in a common area in a environment where theoreticians settle the issues of sign and meaning according to the thinking of Charles S Peirce. The theoretical foundation is based on three views: the new General Theory of Systems as defined by Bunge and Vieira, in which it seeks concepts and methodologies adjusting them to the second view; the Genetic Criticism as proposed by Salles that searches general principles of the creation processes; and Semiotic as a basis for the issues of representation and communication processes. Furthermore, it will be considered authors like Chomsky, Prusinkiewics, Stiny, Duarte, among others that point out the grammar as a representation of process in semiotics systems. Finally, it is proposed a sign poiesis appropriate to a system generator of forms that operates with the evolutionary logic found in the object. Therefore, the result of the research is not only a tool that speculates the generation and the visualization of future forms, but it is also a path for the development of Genetic Criticism.

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Figura 001: Distribuição da amostra de casas no tempo ... 24

Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de pesquisa de campo

Figura 002: A terra vista de cima e por dentro ... 31

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de imagem fornecida pelo Instituto de Ciência do

Mar (LABOMAR - UFC) e foto do autor

Figura 003: Foto justapostas de casas de Mutamba e Cajuais ... 32

Fonte: Acervo do autor

Figura 004: Partes da casa ... 34

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir da casa 005

Figura 005: Fotos da explicação de Luiz de Meu Chico sobre o processo de marcação do

corpo da casa. Na última foto, com destaque da marcação ... 37

Fonte: Acervo do autor

Figura 006: Figura 006. Gráfico de participação da Agropecuária, Indústria e Serviços no PIB Municipal ... 34

Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir de base de dados do IBGE

Figura 007: Identificação e referências geográficas das 27 casas sobre imagem de satélite da região de Mutamba e Cajuais ... 43

Fonte: Mapa do autor realizado a partir de pesquisa de campo e imagem fornecida pelo Instituto

de Ciência do Mar (LABOMAR - UFC)

Figura 008: Identificação, proprietário e características de 3 das 12 casas referentes ao grupo 2 da região de Mutamba e Cajuais ... 44

Fonte: Mapa do autor elaborado a partir do acervo do autor e pesquisa de campo

Figura 009 - Identificação, proprietário e características de 9 das 12 casas referentes ao grupo 2 da região de Mutamba e Cajuais ... 45

Fonte: Mapa do autor elaborado a partir do acervo do autor e pesquisa de campo

Figura 010. Formulário de pesquisa de campo (inicial) ... 47

Fonte: Formulário elaborado pelo autor

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Fonte: Formulário elaborado pelo autor

Figura 013. Gráfico de inclinações ... 53 Fonte: Gráfico elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 014. Regressão linear do ângulo de inclinação no tempo ... 53

Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 015. Orientação do corpo da casa com referência à via de acesso ... 54 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 016. Relação Lt /Ft - ocorrência individuais ... 55 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 017. Foto da casa geminada ID:067 ... 56

Fonte: Acervo do autor

Figura 018. Diagrama de aproximações da relação Lt /Ft ... 56 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 019. Diagrama área do corpo - ocorrência individuais ... 56 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 020. Diagrama de aproximações da variável área do corpo ... 57 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 021. Diagrama de aproximações da variável Ft - frente do corpo ... 57 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 022. Diagrama de relação entre frente, proporção e área do corpo ... 58

Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 023. Regressão linear da frente (Ft ) e altura (Hi ) ... 59 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 024. Proporção dos retângulos e retângulo médio 066 ... 59 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 025. Reconstrução individual dos perfis em escala e sem escala, justos na base ... 60 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

Figura 026. Linhas gerais de formação da casa de Mutamba e Cajuais ... 61

Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

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Figura 028. Foto da casa Id.:001 ... 63

Fonte: Acervo do autor

Figura 029. Foto Sr. José Oceliano de Oliveira ... 63 Fonte: Acervo do autor

Figura 030. Foto da casa Id.:004 ... 63

Fonte: Acervo do autor

Figura 031. Foto Sr. Paulo Simão da Costa ... 63

Fonte: Acervo do autor

Figura 032. Foto da casa Id:005 ... 63

Fonte: Acervo do autor

Figura 033. Foto Sra. Francisca Bezerra ... 63

Fonte: Acervo do autor

Figura 034.Foto da casa Id.:010 ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 035. Foto Sra. Maria Rita dos Reis ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 036. Foto da casa Id:028 ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 037. Foto Sra. Ivanilde Maria da Costa ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 038. Foto da casa Id.: 041 ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 039. Foto Sr. Joaquim Lourenço Soares ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 040. Foto da casa Id.: 042 ... 64

Fonte: Acervo do autor

Figura 041. Foto Sra. Anaides Borges de Carvalho ... 65

Fonte: Acervo do autor

Figura 042. Foto da casa Id.: 059 ... 65

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Fonte: Acervo do autor

Figura 044. Foto da casa Id.: 062 ... 65

Fonte: Acervo do autor

Figura 045. Foto Sra. Maria Borges do Nascimento ... 65

Fonte: Acervo do autor

Figura 046. Foto da casa Id.: 063 ... 66

Fonte: Acervo do autor

Figura 047. Foto Sr. José Jerônimo Reis de Souza ... 66 Fonte: Acervo do autor

Figura 048. Foto da casa Id.: 064 ... 66

Fonte: Acervo do autor

Figura 049. Foto Sra. Gerarda Costa Borges ... 66

Fonte: Acervo do autor

Figura 050. Foto da casa Id.: 076 ... 66

Fonte: Acervo do autor

Figura 051. Foto Sra. Francisca Holanda Rebouças ... 66

Fonte: Acervo do autor

Figura 052. Desenho de levantamento referente à casa 005 ... 67 Fonte: Desenho do autor

Figura 053. Grafo valorado dos ambientes ... 68

Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir do levantamento dos usos da casa Id.:005 Figura 054. Grafos ... 68

Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir do levantamento arquitetônico, através do sistema Agna 2.1

Figura 055. Grafos ... 69

Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir do levantamento arquitetônico, através do sistema Agna 2.1

Figura 056. Estados de formação da casa 005 ... 72

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 057. Estados de formação da casa 064 ... 72

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Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 059. Especialização, pesos e regras de divisão de zE... 74

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 060. Especialização, pesos e regras de divisão de zA

zP... 75

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 061. Estados da forma assumida por zP, a partir dos três estados iniciais ... 77 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de pesquisa de campo

Figura 062. Relação do ambiente na formação da casa 005 ... 80

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 063. Relação do ambiente na formação da casa 064 ... 80

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 064. Quadro etimológico da palavra gênese ... 95 Fonte: Quadro elaborado pelo autor a partir dos dicionários de Isidro Pereira, Ermout e Hauaiss

Figura 065. Diagrama de estados finitos dos ambientes da Zona de Corpo ... 106 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

Figura 066. Tipos de linguagens formais e de gramáticas de Chomsky ... 107

Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Kelley.

Figura 067. Tipos de linguagens formais e classes de L-system... 110 Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Prusinkiewicz.

Figura 068. Desenvolvimento do fractal de Koch ... 110

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de Prusinkiewicz.

Figura 069. Visualização gráfica da Anabaena Catenula ... 112 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de testes de implementação em JAVA 3D.

Figura 070. Fragmento da Carta da Capitania do Ceará de 1818 com indicação do

Povoado de Motamba ... 114

Fonte: Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio

de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) /

Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030.

Figura 071. Carta da Capitania do Ceará - 1818 ... 115

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Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030.

Figura 072. Estradas Coloniais no Ceará ... 115

Fonte: Mapa elaborado pelo autor a partir da Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por

ordem do Governador Manoel Ignacio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de

S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030.; a partir

de informações da pesquisa A urbanização do Ceará setecentista de Jucá (2007); e a partir da

pesquisa Notas sobre as casas de fazenda dos Inhamuns (1984) de Bezerra.

Figura 073. Fazenda Belmonte - 1835 ... 117

Fonte: Imagens elaboradas pelo autor a partir das informações da pesquisa Notas sobre as casas

de fazenda dos Inhamuns de Bezerra (1984).

Figura 074. Fazenda Trigueiro (início XIX) - médio Jaguaribe ... 118 Fonte: Acervo Nicolas Gondim e Tibico Brasil.

Figura 075. Fazenda Santarém (início XIX) -baixo Jaguaribe ... 119 Fonte: Foto acervo de Almir Leal de Oliveira e desenhos do acervo de Clóvis Jucá

Figura 076. Forma inicial e parâmetros para desenvolvimento da gramática dos mestres 126

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor, gerada em Blender 4.5 a partir da implementação inicial,

em Python, da gramática dos mestres.

Figura 077. Foto protótipo de uma casa gerada a partir da gramática dos mestres ... 126

Fonte: Protótipo gerado a partir da gramática dos mestre, código disponível em < http://www.

morphogenese.com.br>.

Figura 078. Imagens das casas geradas a partir da gramática dos mestres ... 129

Fonte: Modelos gerados pelo autor a partir da gramática dos mestres implementada em Python

para Blender 4.5.

Figura 079. Exemplo de L-system celular... 130

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de Prusinkiewicz.

Figura 080. Imagens das casas geradas a partir da gramática dos moradores ... 135

Fonte: Modelos gerados a partir da gramática dos moradores, código disponível em < http://

www.morphogenese.com.br>.

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Tabela 001 - Identificação dos mestres-carpinteiros ... 38 Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

Tabela 002 - As 27 unidades selecionadas para etapa posterior da pesquisa de campo ... 49

Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

Tabela 003 - Dados morfologia ... 51

Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

Tabela 004 - Índices de morfologia do corpo ... 52

Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir da Tabela 003

Tabela 005 - Freqüências ... 57 Fonte: Tabelas organizadas pelo autor a partir de pesquisa de campo

Tabela 006 - Ângulos de inclinação da coberta do alpendre ... 60

Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

Tabela 007 - Ângulos de inclinação da coberta do alpendre ... 62

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→ representa uma regra de produção, como exemplo: S

aE, lê-seS produz aE.

a 0.33 b produção com probabilidade de 33% de ocorrência.

a(x): x ≥ 10: ab produção paramétrica.

| opção de produção, como exemplo: E

aA | B | a, E é substituída por aA oupor B ou por a.

derivação é a substituição de uma subpalavra de acordo com a regra de produção.

ε seqüência vazia.

} linguagem vazia, denotada também como conjunto vazio .

| ω | cardinalidade de ω, é o número de símbolos que compõe a palavra ω .

*

Iteração de Kleene, ou estrela de Kleene: Σ* = Σ

{ε}.

+ Σ+

representa o conjunto de todas, exceto a palavra vazia: Σ+= Σ* - {ε}.

# complemento.

{x | x>1} os x tal que x maior que um.

a b a ou b

a b a e b

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INTRODUÇÃO ... 21

CAPÍTULO I ... 29

ex-sistō: sair da terra; aparecer; mostrar-se; existir Objeto instanciado ... 32

Processo de construção ... 37

Tipo ... 39

Ambiente ... 42

Corpus ... 46

CAPÍTULO II ... 83

genĕsis: posição dos astros relativamente ao seu nascimento; estrela; sina Crítica Genética... 88

Expansão da Crítica Genética ... 90

Crítica de Processo ... 96

Por uma abordagem do processo de formação ... 99

Sobre organização e gramática ... 103

Por uma abordagem formal da gramática ... 105

Idéias de Lindenmayer ... 109

Visualização ... 111

À montante ... 114

Casa de fazenda ... 117

CAPÍTULO III ... 123

in futura: sobre futuros Gramática dos mestres... 126

Gramática dos moradores ... 130

Considerações finais ... 137

BIBLIOGRAFIA ... 139

ANEXO I ... 155

ANEXO II ... 167

ANEXO III ... 187

(19)
(20)

A

s questões que motivam este trabalho advieram da pesquisa de mestrado1, que se propôs a uma investigação sobre a poiesis, sobre o processo de geração de uma obra

de arte realizada com os novos meios – uma obra em arte eletrônica. Dada a complexidade

do objeto estudado e a particular característica dos documentos de processo2 encontrados, a

elaboração de diagramas3 mostrou-se útil à apreensão das relações entre os diversos índices

do processo, ajudando a revelar tendências e dinâmicas de formação da obra.

Não obstante o diagrama tenha se mostrado eficaz naquele momento, o problema

da representação persistiu. Ou seja, questões de como representar adequadamente uma

poiesis estavam abertas. Como representar algo que é de natureza operativa? Alguma coisa

não tangível, que não se mostra diretamente aos sentidos? Ainda noutros termos, como

representar aquilo que é aparentemente sem contorno definido, sutil, tênue?

1. A dissertação de mestrado defendida em 2003 com o título completo de [arte|comunicação]: processos de criação com os novos meios, considerou especificamente os índices de processo das obras LAPIS/X e ad finem de Carlos Fadon Vicente mostradas na exposição Investigações: o trabalho do artista em 2000 no Itaú Cultural de São Paulo.

2. Termo geral proposto por Cecilia Almeida Salles, que mostrou-se mais adequado à expansão dos objetos de estudos pertinentes à Crítica de Processo. Denominação que se contrapõe a termos restritivos, específicos a cada domínio,

como ‘rascunho’, ‘manuscrito’ etc., pertinentes à Crítica Genética.

3. Na dissertação foi proposta a construção de Espaço de Estados que são constructos que apresentam visualmente a evolução de uma ou mais características do sistema.

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em um cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

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Aquilo que Vincent Colapietro4, recorrendo a uma figura, melhor traduz na ques

-tão: como propor um signo adequado ao vôo errante e encantador das borboletas sem,

contudo, ter que fixá-las numa cortiça de fundo de uma caixa taxonômica?

Esta foi uma das questões abertas na dissertação, reavivada com o projeto de

pesquisa de doutorado e incorporada como guia deste trabalho. Questão constitutiva da

problemática da tese e que parecia, à época, inserir-se num âmbito formado ainda com

bor-das imprecisas, numa superposição5 de áreas como semiótica, comunicação, lingüística6,

ciência da computação, morfogênese e todas aquelas que, como a Crítica de Processo7,

interessam-se pelos processos de formação, ou seja, pela poiesis.

Limites que melhor se definiriam e se configurariam quando vistos através de uma

teoria geral, ou seja, de um conjunto de conceitos que vai além das particularidades fáticas

do objeto, uma teoria sistêmica. Precisamente, a nova Teoria Geral dos Sistemas proposta

por Mario Bunge e Jorge Vieira, como uma possível Ontologia Científica8. Oportuno

res-saltar ainda, que subjaz à pesquisa como seu substrato, as idéias fundamentais do contínuo

4. Uma das considerações propostas pelo professor Vicent M. Colapietro, em encontro de orientação de pesquisa reali-zado em agosto de 2006.

5. "We shall presently introduce two specific concepts of associatioin: those of juxtaposition or physical sum, and of

superposition or phisical product. Two things placed side by side add or juxtapose, while two fluids, when mixed, super -posed" (BUNGE, 2004a, p.39, grifos meus). A superposição – diferente portanto de uma mera justaposição – de áreas estabelecidas como distintas do conhecimento, constitui-se no âmbito da transdisciplinaridade e, por isso, num espaço com limites ainda não muito claros.

6. A lingüística pode ser definida como o estudo científico da linguagem. Em meados do século XX o campo da lingü -ística teórica ganha força com pesquisas e trabalhos publicados por Noam Chomsky. A ele é creditado ter transformado

a lingüística americana, que de um ramo da antropologia passou a ser considerada uma ciência matemática. (DEVLIN,

2002, p.74).

7.Crítica Genética fundamentada na teoria semiótica de Charles S. Peirce, como proposta pelo Centro de Estudos de Crítica Genética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CECG PUC/SP). Atualmente o grupo tem como objeto de estudo o processo de criação, tanto que se sugere a alteração do nome do centro para Grupo de Pesquisa sobre Processo de Criação.

8. Adota-se, neste trabalho, o significado de ontologia como proposto por Vieira (2007, p.30-35) em seu livro Ontologia: formas de conhecimento - arte e ciência. Sigo as palavras do autor, sem acrescentar comentários. Diz ele: ... Estaremos seguindo a proposta de Bunge segundo a qual a Teoria Geral de Sistemas é uma boa candidata ao que poderíamos chamar de Ontologia Científica, uma proposta que permitiria uma maior eficiência no tratamento das ciências a partir de suas raizes ontológicas. [...] A Ontologia pode ser definida como “outro nome da Metafísica”, o estudo do ser enquanto ser,

com independência de suas determinações particulares. Embora, a rigor, haja diferenças entre as duas áreas, é nesse

sen-tido que estamos adotando aqui uma certa identificação entre uma “Teoria da Realidade” (Metafísica) com uma “Teoria do Ser ou dos Objetos” (Ontologia). Mais ainda, toda ciência será uma Ontologia Regional, na medida em que trabalha com tipos de objetos específicos. Estaremos seguindo ainda aproximadamente a proposta de Bunge (1977, p.5) como sendo a Ontologia (ou Metafísica) uma Cosmologia Geral ou Ciência Geral: como “a ciência concernente à totalidade da realidade - o que não é o mesmo que a realidade como um todo” . Nesse sentido, ainda segundo Bunge, a Ontologia/

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peirceano9. Estas que trazem em seu cerne, uma oposição radical àquelas que apartam as

coisas do mundo em duas10... Em mente/matéria, espírito/natureza, idéia/objeto.

O trabalho define tardiamente seu corpus, ou melhor, a tese redefine aquilo que

assumirá o papel de objetar11, de corrigir e de direcionar sua elaboração, concertando

con-ceitos e teorias para a comprovação da hipótese. Admite, para esse fim, uma série de casas

de taipa de pau-a-pique, de coberta em quatro aguadas com empena, de alpendre e copiar.

Uma pluralidade de individuais que portam traços claros de um pensamento formador

co-mum. São casas que, a partir do ponto de vista assumido pela tese, subsumem-se à cultura

da região. São memórias, parte de um processo contínuo ainda em formação. Portanto,

trata-se de um objeto que, por se inserir no âmbito da arquitetura, deve ser considerado em

sua complexidade, em seu ambiente e em sua dinâmica de formação.

Em vista disto, a uma abordagem adequada a tal objeto, imperativo é percebê-lo

não só em sua condição de edifício construído, em sua existência12 particular. Efetivamente,

há de se partir da experiência – possível e acessível a qualquer pessoa – para então buscar

por uma forma comum, geral. Segue-se relacionando essa forma que se delineia e se mostra

em seus vários estados de desenvolvimento. É na mudança de estado, no processo, que se

revelam as diretrizes gerais, hábitos, regras ou as leis de formação, que se constituíram na

cultura e dela são constituidoras. Trazendo em outras palavras, parte-se daquilo que existe,

das construções que lá se encontram; busca-se por recorrências da forma, estas percebidas

em cada edifício; através das mudanças e evolução da forma encontrada, deve-se

infe-9. Para denominar o princípio da continuidade Peirce utiliza o termo Synechism, ou sinechismo, na forma traduzida para

o português como proposta por Rosa(2003, p.270) e adotada na tese.

10. O princípio de continuidade supõe que deve existir um contínuo entre caracteres da mente e da matéria, tal que, se-gundo seu autor, a matéria nada seria senão mente que teve seus hábitos cristalizados, ou seja, que a faz agir em um grau

peculiar de regularidade ou rotina. Em vista disto, mostra-se uma afinidade entre espírito e natureza que faz do mundo inteligível (PEIRCE apud IBRI, 1992, p.62).

11. Papel atribuído de certa forma, logo nos primeiros anos, a um dos objetos de pesquisa ligada ao projeto COGNITUS – http://www.cognitus.org – coordenado durante o período de 2004 e 2005 por Dr. Fernando Pellon de Miranda, profa

Dra Maria Lúcia Santaella Braga e José Wagner Garcia, abrigando àquela época pesquisas com foco na região do Médio Solimões – entre a cidade de Coari e Manaus – e que consideravam sobre vários enfoques as dinâmicas de formação da

-quele ambiente. Com apoio da Petrobrás e Finep, tinham o propósito de servir de base para ações mitigadoras do impacto da construção do gasoduto de Coari até Manaus, na região do médio Solimões. O objeto específico de interesse eram as

habitações ribeirinhas e seu processo de formação.

12. O que quer que exista ex-sists, isto é, realmente age sobre outros existentes, obtém, assim, uma auto-identidade e é

definidamente individual (PEIRCE, apud IBRI, 1992, p.28). Ainda, o vocábulo existência, enquanto derivado do termo

latino existentia, significa "o que está aí", o que "está fora" (exsistit). Algo existe porque a coisa está, in re (MORA, 2004,

(23)

rir sobre as regras, sobre a gramática de desenvolvimento. Nela, deve-se revelar o tipo13

arquitetônico próprio à região de interesse.

Assim, não obstante as diferenças apresentadas entre as unidades encontradas,

uma forma comum e geral se mostra. Com efeito, nas particularidades deve-se perceber a

dinâmica de atualização e evolução da idéia da casa alpendrada. Enfim, conhecer adequa

-damente o tipo e sua poiesis, ou sejaaquilo que se constituiu o objeto da pesquisa.

As habitações de maior interesse para a pesquisa, restringem-se àquelas

localiza-das na região baixo Jaguaribe, litoral sul do Ceará próximo à divisa com o Rio Grande do

Norte. São casas construídas, em sua maioria, nos anos finais do século XIX e no século

passado. Entretanto, a origem desta arquitetura se supõe assentada nas casas de fazenda do

gado. Fazendas distribuídas ao longo de todo o rio Jaguaribe, da foz à nascente região dos

Inhamuns.

A distribuição das construções – elementos da série – no intervalo de tempo

ana-lisado, não é homogênea, pois são poucasas casas encontradas com mais de 100 anos14.

Informação que aponta para, entre outras coisas, a condição efêmera do sistema construtivo

adotado, no caso taipa de mão15.

Neste contexto, formam-se algumas das questões constituidoras da problemática

da tese. Dado o reconhecido valor histórico e cultural do conjunto existente16, assim como

a condição efêmera das casas, em vista do sistema construtivo adotado, o que preservar em

13. Ora, entende-se por tipo o sentido construído por Quincy em 1825 na Encyclopédie Methodique, Architecture vol. 3, pt. II e recuperado por Argan. Para estes autores, tipo é algo que deve conferir menos a imagem de uma coisa a ser copiada imediata e completamente, do que a idéia de um elemento que deve servir de princípio geral. O modelo, como entendido pela prática artística, é um objeto que pode ser repetido tal como ele é; o tipo, ao contrário, é um objeto pelo qual cada artista pode conceber trabalhos de arte que não tenham semelhança. Tudo é preciso e determinado no modelo; tudo é mais ou menos vago no tipo (QUINCY, 1998, p.618, grifos meus). Questão será retomada no primeiro capítulo desta tese.

14. Do universo de 115 casas cadastradas, apenas 4 casas têm sua data de construção atribuída ao século XIX, 21 estão sem suas datas de construção especificadas.

15. Denominada ainda como taipa de pau-a-pique, ou sebe ou ainda taipa de sopapo.

16. Cf. nota 4 do Capítulo I desta tese.

1 3 10 7 7 18 15 11 18 4

1856 1986

XIX XX

Figura 001. Distribuição da amostra de casas no tempo

(24)

tal arquitetura? Ou ainda, como preservar tal objeto cultural? Como guardar alguma coisa

que é por natureza operativa e informacional?

O desenvolvimento deste trabalho pauta-se no argumento de que é na poiesis, no

processo de geração, o ponto a ser considerado. Mas como representar uma poiesis? Como

guardar alguma coisa que é por natureza dinâmica, operativa e informacional? Admite que

qualquer objeto cultural é parte de uma realidade legaliforme, relacional e em assim sendo

a hipótese adotada considera o conjunto de regras que governam a formação de unidades

básicas num sistema semiótico, ou seja a gramática, o signo mais adequado à representação

de uma poiesis.

São de linhas distintas as teorias articuladas para apoiar o desenvolvimento da

pesquisa. Contudo, a rede tecida encontra-se num espaço comum, num ambiente onde

teóricos concertam questões do signo e da significação em coerência com pensamento de

Charles S. Peirce. A fundamentação teórica se constitui sobretudo a partir de três linhas:

a nova

Teoria Geral dos Sistemas (TGS) com base na acepção de Mario Bunge.

Com efeito, este trabalho funda-se nas idéias sistematizadas por Jorge Vieira,

em que se desenvolvem e se precisam os conceitos da TGS a partir de autores

como A. Uyemov, Kenneth Denbigh, entre outros;

a Crítica Genética, precisamente na forma proposta por Cecilia Salles, em que •

se busca por princípios gerais dos processos de formação a partir dos

docu-mentos de processo ajuntados no dossiê da obra;

a Semiótica peirceana, a doutrina do signos, base a um pensamento científico, •

imprescindível à abordagem de processo de formação.

São consideradas, ainda, as contribuições de autores como Noam Chomsky17,

Solomon Marcus18 para possíveis formalizações, assim como as idéias de Lindenmayer19,

Prusinkiewicz20, Stiny21, Duarte22, entre outros que propõem a abordagem a partir das

re-gras de formação como base para a representação de processo de geração da forma.

17. Cf. CHOMSKY, 2006; CHOMSKY; RUWET, 1970. 18. Cf. VIEIRA, 2007.

19. Cf. PRUSINKIEWICZ; LINDENMAYER, 1996. 20. Cf. PRUSINKIEWICZ, 1996, p.61-74.

(25)

O primeiro capítulo é ex-sistō. Trata do que está, do que se mostra, do que objeta.

Casas existem, afirma sua matéria. São formadas em conjunto por compartilharem carac

-terísticas, repertório de materiais, recorrência de elementos, padrões na proporção. Dar a

conhecer a pouco e pouco o corpus, o coletivo de casas desde sua impressão imediata até

os índices de uma mesma lógica de formação é o que compete ao primeiro capítulo.

Genĕsis é o segundo capítulo. Trata do percurso da pesquisa no que se refere

às ramificações teóricas. Dessa abordagem, se define o objeto da pesquisa como o tipo e

seu processo de formação. Sina, das casas de taipa alpendradas de Cajuais e Mutamba, o

tipo – como um metadesign – irá encontrar uma possível matriz rio acima.

Sobre futuros, o terceiro capítulo, aponta para a gramática de desenvolvimento

como representação do processo. Dos índices recolhidos no primeiro capítulo chega-se

à gramática dos mestres e dos moradores. Implementada num sistema de outra natureza,

(26)
(27)

V

isitar Icapuí é experiência acessível e aconselhável a qualquer pessoa de

bom espírito. Como primeira experiência, sugere-se que se chegue pela serra1, pois de lá,

da parte alta, avista-se um mar de coqueiros e descendo rumo à praia, mergulha-se naquele

verde, entremeio do azul e do amarelo... Mas, não passa muito tempo para se perceber o

terracota, o vermelho forte da terra das falésias, a cor da argila que constitui as paredes das

casas que formam o espaço da cidade.

1. Moradores da praia designam serra a parte alta, as terras que ficam sobre as falésias. Atualmente, em algumas das praias que compõem o Município de Icapuí é considerado valoroso morar na praia e trabalhar na serra, ou seja, morar na parte baixa, próximo à praia e possuir algum comércio da serra.

Figura 002. A terra vista de cima e vista por dentro

Ilustração elaborada pelo autor a partir de imagem fornecida pelo Instituto de Ciência do Mar (LABOMAR - UFC) e foto do autor

Abençoada sejas matéria poderosa, desenvolvimento irrefreável, realidade sempre em gestação!

(28)

Objeto Instanciado

As habitações aparecem organizadas às margens da estrada principal de acesso.

Alinham-se dum lado e doutro do eixo que vai do poente para o nascente, no fluxo de quem

chega à cidade. No entanto, não se precisa ter formação em arquitetura para notar, logo de

início, que são construções com características formais simples, bem definidas, constantes

e comuns àquela sociedade. Parece ser, portanto, uma manifestação cultural de natureza

arquitetônica coletiva. Confirma-se, com um pouco mais de tempo, que se trata de fato de

um conjunto formalmente coerente. Um conjunto que se mostrará próprio à região.

Percebe-se que são construções com telhado em quatro aguadas – com empena,

alpendre e copiar2 – e em duas inclinações, uma para o corpo central da casa e outra para

os alpendres. Porém, quando estendidas aos copiares seguem com uma pequena diferença

de inclinção. Ainda observando as casas, agora com o olhar mais atento, desconfia-se pelas

espessuras das paredes externas, que são casas construídas em taipa. Vê-se que se adota a

taipa de pau-a-pique3 como sistema construtivo, esta que lança mão de uma estrutura

au-tônoma de madeira e vedação com uma parede de varal cujos os vazios são fechados por

várias camadas de barro. Um sistema designado também por taipa de mão, mas no entanto,

conhecido na região apenas como taipa4 – por não se usar outro – e adotado por sua leveza,

rapidez, economia e adequação ao ambiente.

2. Não obstante, a identidade atribuída por alguns autores entre o copiar e o alpendre, será dito copiar as extensões da coberta do alpendre dos fundos da casa. Estas puxadas, à guisa de um quebra-sol, tem uso freqüente no dia-a-dia como área para serviços pesados de apoio à cozinha, ou lavanderia e guarda de ferramentas.

3. Consiste em paus colocados perpendicularmente e amarradas horizontalmente a eles, com palha de carnaubeira e

ou-tros gêneros de cordas, varas (Cf. VASCONCELOS, 1970, f. 16-17). Não faremos aqui, porém, nenhuma distinção entre

taipa de sopapo e pau-a-pique, como propõem alguns autores com o argumento de ser esta mais elaborada, menos rústica do que aquela. A despeito dessa opinião o sistema é o mesmo.

4. Há ainda a taipa de pilão, talvez, merecedora de tal simplificação, pois neste sistema a parede de barro desempenha a

função não só de vedação, mas de estrutura, de suportar o peso da coberta. A taipa de pilão é aquele sistema em que as

(29)

Quanto ao programa de função e uso, parece haver, naquela região, um único a

ser seguido para a formação da casa. Determinação que deve ser lida como um indicador

da existência de uma solução otimizada, adequada e adaptada às condições culturais e

ambientais. Percebe-se ainda como propriedades5 recorrentes àquelas construções:

O corpo principal da casa em forma de um retângulo;

O alpendre circunda o corpo da casa, com copiar freqüente aos fundos;

A frente da casa, dimensão menor do retângulo, parece pouco variar;

As casas são normalmente caiadas, compostas com uma barra que vai do piso

ao peitoril, em cor forte de tinta a base de óleo;

A pintura adotada nas casas lembra as pinturas dos barcos da região – apontam

alguns;

Forma verticalmente alongadas das janelas, normalmente duas folhas;

Portas partidas ao meio, designadas portas roladas; •

Esquadrias com folhas cegas de tábuas de umburana

• 6, quase sempre pintadas

na mesma cor da barra inferior da pintura das casas;

Paredes espessas com cerca de um palmo ou mais, característica que pode ser •

notada nos quadros das aberturas para esquadrias;

As casas estão locadas de forma paralela ou perpendicular à via (CE-261) de

acesso ao centro da cidade;

5. Todo objeto tem propriedade. Se os objetos são conceituais ou formais, suas propriedades serão denominadas proprie-dades formais, ou atributos ou simplesmente predicados. Se os objetos são indivíduos substanciais, suas propriedades

serão denominadas de propriedades substanciais, ou simplesmente propriedade. Porque cada modelo de um indivíduo

substancial é construído por conceitos, este contém atributos ou predicados; ademais como os modelos representam uma substância individual, alguns desses atributos ou predicados representam propriedades substanciais. Uma propriedade

substancial é uma característica que alguns indivíduos substanciais possuem mesmo se somos ignorantes deste fato. Por

outro lado um atributo ou predicado é uma característica associada ou atribuída por nós a algum objeto: é um conceito. Um predicado pode representar ou conceitualizar uma propriedade substancial; mas o fará de modo falível, i.e. com uma

larga margem de erro. Por outro lado a posse de uma propriedade não é matéria de verdade ou falsidade; apenas nosso conhecimento de propriedade pode ser mais ou menos verdadeiro ou adequado. Por esta razão distinguimos: 'indivíduo

substancial b possui a propriedade P' de 'atributo A representa b' ou 'A é verdade de b' , ou V(Ab) = 1 onde A é tomado como representando P. Novamente: a posse (ou aquisição ou perda) por um indivíduo substancial de uma propriedade é um fato além do nosso escopo; em contraste, nosso ato de atribuir uma propriedade conceitual (via algum predicado) é um ato cognitivo. Noutras palavras, controlamos todos os predicados porque nós os fazemos; em contraste, controlamos apenas algumas propriedades. Desnecessário dizer, nenhuma diferença entre atributos e propriedades substanciais é feita

pelos idealistas: em tal filosofia a aquisição de propriedades coincide com seus atributos. Estranho é o realismo ingênuo que enquanto reconhece a diferença entre atributos e propriedades substanciais, afirma sua correspondência um-a-um.

BUNGE, 2004b, p.59-60, grifos meus.

(30)

Casas locadas normalmente sem o recuo de frente, ou seja, o limite da frente

do terreno alinha-se com a parede mais externa da casa, configuração que lança

parte da varanda para fora do terreno chegando a confundir-se com a calçada;

As casas locadas em terrenos mais largos, em sua maioria, encontram-se

pa-•

ralelas à via, o que proporciona uma maior superfície de contato com a área

pública;

Pilares de madeira, propriamente lavrados e pintados nas cores das •

esquadrias;

Estrutura da coberta, de solução simples, utiliza madeiras da região. São utili

-•

zados troncos de carnaubeira, em sua grande maioria, para confecção de linha,

frechal, terça e cumeeira além de caibros, para estes utiliza-se a quarta parte da

seção do tronco. Nota-se que não há ripas;

Telhado em quatro águas e em duas fases com inclinações diferentes, uma no

corpo central da casa – mais acentuada – e outra para varanda – mais leve;

Cumeeira alta de modo a formar empena própria da casa da região;

Empenas nos lados menores do retângulo, ou seja a cumeeira sempre no

senti-•

do maior do corpo da casa;

Percebe-se a construção de adendos na varanda, provavelmente como adequa

-•

ção ao programa de uso. Ocupação ocorre principalmente nas áreas de fundo.

Figura 004. Partes da casa

Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir da casa 005

frente (Ft) da casa

empena

coberta do corpo da casa

coberta do alpendre copiar

alpendre-passeio limite de frente

do terreno

lateral (Lt) da casa

privado

(31)

As casas que estão em pé, de um modo geral, encontram-se em bom estado de

conservação. Percebe-se ainda que, à exemplo do que descreveu Lúcio Costa sobre arqui

-tetura vernacular, são construções simples, bem formadas, de elementos comuns à

arquite-tura civil, desprovidas de "make up", sem o ar afetado e por vezes pedante7, constituindo

sua maior riqueza a proporção8... Estética que lhe é própria.

As casas de tal região, em sua grande maioria, trazem propriedades e apresentam

atributos comuns, formando, em vista disto, um todo coerente. Na realidade, um conjunto

arquitetônico de interesse do IPHAN9, que o aponta como um dos mais significativos

con-juntos da arquitetura vernacular. Ora, entende-se por vernacular àquela arquitetura

culti-vada, que se forma a partir de dentro de uma cultura, num movimento de baixo para cima.

Neste sentido, Lucio Costa10 melhor apresenta a imagem das casas próprias ao universo de

uma arquitetura vernacular.

É sair da cidade e logo surgem à beira da estrada, mesmo ao lado de vivendas

de verão de aspecto cinematográfico [...]. Feitas de "pau" do mato próximo e

da terra do chão, como casas de bicho, servem de abrigo para toda a família [...]. Ninguém liga de tão habituado que [se] está, pois "aquilo" faz mesmo

parte da terra como formigueiro, figueira-brava e pé de milho – é chão que

continua ... Mas justamente por isto, por ser coisa legítima da terra tem para

nós, arquitetos, uma significação respeitável e digna; enquanto que o "pseu -do-missões, normando ou colonial", ao lado, não passa de um arremedo sem compostura.

Com efeito, é na recorrência de características dessa arquitetura que emerge, quase

espontânea, onde se indicia o objeto de uma atividade cultural11, constituidor da sociedade.

7. Cf. COSTA, 1937, p.31. 8. Cf. BEZERRA, 1984, p. 56.

9. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, através da 4a Superintendência Regional (4a SR/IPHAN), com sede em Fortaleza, por indicar como um dos mais significativos conjuntos da cultura regional se propôs, em parceria com Universidade Federal do Ceará e Prefeitura Municipal de Icapuí, iniciar o processo para inventário de arquitetura tradicional da sede municipal de Icapuí, pelo Ofício Circular IPHAN/4a SR/GAB/No 014/0, do dia 12 de maio de 2006. 10. Cf. COSTA, op. cit., p. 34.

11. Entende-se por atividades culturais, como aquelas atividades sociais realizadas por indivíduos sozinhos, ou, mais

freqüentemente, em relação e cooperação com outros. A cultura constitui então um “subsistema” da sociedade, na qual

se devem levar em conta igualmente os subsistemas da economia e da política. O fato de que nenhuma atividade social seja puramente econômica ou puramente política – ou puramente cultural – não impede que se introduzam as distinções

necessárias destinadas a evidenciar a relação entre o subsistema chamado “cultura” e o sistema chamado “sociedade”. O subsistema denominado “cultura” não é autônomo; ele está integrado aos outros sistemas indicados, mas pode

distinguir-se deles e constituir por sua vez outros subsistemas (como arte, a tecnologia, a matemática etc.). BUNGEapudMORA,

(32)

Trata-se de algo percebido na identidade12 dos elementos que formam o universo da

pes-quisa. Posto noutros termos, é algo da natureza de um hábito ou de uma lei que pode ser

visto, em alguns casos, como uma gramática13, um teorema ou um enunciado14. Porém uma

diferença, pelo menos, mostra-se entre os hábitos de uma cultura e uma lei universal. Nesta

última, ao signo que se venha a propor, cabe apenas o papel de representá-la de algum

modo. No entanto, o objeto permanece inabalável e pacientemente corrige o que se possa

a vir a dele falar. De outro modo, um objeto de uma atividade cultural não só se propõe à

representação como também é constituído por este signo.

Enfim, ora se mostra o corpus de interesse para a investigação. Um objeto

cultu-ral, eidético15, a ser considerado em seu processo de formação. Não se trata pois de se ter

em conta como objeto a casa em si. Também não o é só o conjunto das casas, como o são

as características formais que lhe são próprias. Efetivamente, estas determinam a formação

do universo de interesse. Mas o objeto da pesquisa também não está só nas partes, nos

elementos que formam a habitação, como também não está só nas relações entre esses, que

resulta no conjunto de proporções que atribuem identidade às casas.

12. En el mundo real la identidad es siempre parcial, y nuestro principio de unicidad de todo existente sólo admite la

identidad parcial, la en un respecto al menos, y la identidad aproximada, que es la identidad en todos los respectos menos

uno. La identidad parcial es la base de las classificaciones, las generalizaciones e las leys que expresam los esquemas, estruturas o invariantes de las cosas y los acontecimientos, precindiendo de la variedad y el cambio. La identidad estricta es una ficción indispensable. Cf. BUNGE, 2002, p.266.

13. Dito de uma forma rápida, diz-se gramática um conjunto de regras de formação e combinação de unidades básicas

num sistema semiótico. Cf. COLAPIETRO, 1993, p.107.

14.Como exemplo, o teorema de Pitágoras, que se evidencia em cada triângulo retângulo desenhado ou ainda o enunciado sobre a força de atração entre dois corpos que afirma estar essa numa relação inversa ao quadrado da distância dos corpos,

e ser diretamente proporcional às suas massas.

15. O termo ‘eidético’ pode ser entendido no sentido construído por Platão. Para ele, o εἶδος das coisas é a imagem que estas oferecem quando são contempladas na visão, e ἰδέα a imagem do que são verdadeiramente, o caráter eidético será próprio das essências. Husserl reafirmou, embora com pressupostos diferentes, esse caráter das essências e opôs o

eidético ao fático, não enquanto mera contraposição do formal e do material, mas como diferença entre as essências (for-mais e materiais) e os fatos. A chamada redução eidética é precisamente o resultado de pôr entre parênteses, de excluir ou

“suspender” as existências com o fim de chegar à intuição essencial. Com base nisso pode-se falar de juízos eidéticos e

também de necessidades eidéticas. As ciências das essências são, desse modo, ciências eidéticas nas quais estão fundadas

as ciências dos fatos ou ciências fáticas, em virtude da necessária participação de todo fato em sua essência. Portanto a qualificação de eidético convém apenas às essências e as ciências que se ocupam delas, sem que com isso seja pré-julgado

o caráter formal ou material das próprias essências, que não abandonam em momento algum sua universalidade e

aprioridade. Com uma significação distinta, mas aparentada à husserliana, Joseph Geyser emprega a noção de eidos como

conteúdo de uma eidologia ou filosofia enquanto “conhecimento da forma” (MORA, 2004, p. 806, grifos meus). Ainda,

para melhor entendimento do termo, faz-se adequado também definir o termo 'fato', em coerência com os autores acima

apresentados. Husserl estabeleceu uma distinção entre fato e essência, mas também enfatizou a inseparabilidade de am-bos. Segundo este autor, as ciências empíricas são ciências de fatos ou ciências fáticas. Todo fato é contingente, ou seja, todo fato poderia ser "essencialmente" algo distinto do que é. Mas isso indica que a significação de cada fato pertence

justamente a uma essência, isto é, a um eidos, que deve ser apreendido em sua pureza. As verdades fáticas caem, desse

(33)

Portanto, o objeto é percebido na recorrência de algumas propriedades comuns a

uma cultura, esta que, por sua vez, se afirma e se atualiza em cada nova casa construída.

Por outros termos, trata-se de um objeto de natureza abstrata e de caráter geral que ao se

instanciar, busca permanecer e para isso se renova. Assim, define-se o objeto para pesquisa,

o tipo arquitetônico e sua poiesis.

Processo de construção

As casas existentes que compõem o conjunto de interesse foram, em sua maioria,

realizadas nos últimos anos do século XIX e os primeiros quartéis do século XX .

Os relatos orais16 apontam, à época, a presença dos mestres-carpinteiros dentro da

organi-zação de produção. Fazedores de barcos que eram, sempre participavam do grupo que se

formava para construção de uma casa. Como os únicos a receber algum pagamento, a eles

era atribuída a responsabilidade das primeiras etapas: a de marcar na areia, em tamanho

real, as paredes externas; de fincar os esteios ou forquilhas – como lá se denomina por sua

forma. As forquilhas eram normalmente de pau-ferro, aroeira ou pereiro17 tiradas do mato

pelo mestre-carpinteiro, um hábito do processo de construção para garantir o prumo da

casa. Às vezes, dependendo da dimensão da casa, eram necessárias forquilhas para suporte

das terças. Fincadas as forquilhas iniciava-se a preparação para a coberta. Colocavam-se as

linhas de carnaúba, para em seguida entrarem os caibros de quartos da seção do tronco de

carnaubeira, às vezes quando a solução era com caibros e ripas utilizava-se madeiras

diver-16. Cf. Anexo II.

17. As espécies citadas referem-se, provavelmente a: Chamaecrista ensiformis (pau-ferro), Schinus terebenthifolius (aro-eira) e Aspidosperma pyrifolium (pereiro);

Figura 005. Fotos da explicação de Luiz de Meu Chico sobre o processo de marcação do corpo da casa. Na última foto, com destaque da marcação.

(34)

sas encontradas na região. Por fim, na última tarefa que tem à disposição o mestre, coloca

-vam-se as telhas de barro. Todo o resto do processo de construção, que corria na sombra da

coberta, contava com o grupo doméstico e não raramente dispõe da ajuda de outras pessoas

– vizinhos, familiares, amigos etc. – sendo a ajuda recompensada com favores.

A fase de construção das paredes internas que se seguia à coberta, consistia na

colocação de paus – denominados enxemeios18 – fincados em pé entre a linha de carnaúba

e o piso de terra batida, fixados por meio de pregos no frechal e enterrados a cerca de um

palmo e meio a dois palmos na terra. Paus linheiros, em média com dez centímetros de

diâmetro, considerados com casca para uso e espaçados à distância de não mais que vinte

centímetros uns dos outros. A eles eram amarradas, com palha carnaúba ou barbante de

algodão, varas de um lado de outro, normalmente no mesmo nível. Utilizava-se o

mame-leiro, pau-ferro, angelca, canela de veado, cipó branco e outras madeiras encontradas na

região19. Extraídas com cerca de dois metros de comprimento, usadas também sem tirar a

casca, eram amarradas inteiras em intervalos aproximados de vinte centímetros.

A etapa do enchimento da trama (20cm x 20cm)

formada pelos enxemeios e varas, contava com um grupo

ainda maior de pessoas, sendo o trabalho acompanhado

por festejo durante todos os dias. O barro utilizado, em

geral de boa qualidade, era facilmente encontrado nas

proximidades – região de Barreiras e Olho d'Água – sen

-do extraí-do e transporta-do pelos futuros mora-dores. Um

barro forte, tendo que ser misturado com areia, segundo

Luiz de Meu Chico, numa relação de três de areia para

um de barro. Mas a liga, acrescenta o mestre20, é vista

na enxada, no ferro "a gente pega assim, e demora a cair

18. Provável corruptela do verbo enxamear que no sentido figurado ganha o sentido de mostrar-se em grande quantidade;

ser em grande número.

19. Nesse caso duas denominações populares citadas devem ser corruptelas dos seguintes nomes: mameleiro =

marme-leiro e angelca = angélica. Aceitando-se esta premissa as denominações científicas prováveis para as espécies citadas se -riam: Croton sp (marmeleiro), Chamaecrista ensiformis (pau-ferro), Guettarda angelica (angélica), e Remirea marítima

(cipó branco). A denominação vulgar canela de veado não foi encontrada nas fontes de taxonomia disponíveis.

20. Cf. Anexo II.

Tabela 001. Identificação dos mestres-carpinteiros.

Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

TABELA MESTRES

MESTRE id

Antônio Felipe dos Reis AF Aniceto Raimundo Gama AR

Chico Bernardo CB

Chico Teófilo CT

Dionísio DI

Francisco Aniceto de Carvalho FA João Borges dos Reis JB João Ferreira da Silva JF

Lacerda LA

Luiz de Meu Chico LMC

Liberato Varanda da Silva LV Manuel Evaristo Reis ME

Neo Pijuca NP

Raimundo Carlos dos Reis RC Ricardo Gonçalves dos Reis RG

Rufino RU

Raimundo Venseslau RV

(35)

[...] ele demora a cair". O barro é aplicado em três etapas, sendo a última camada, a de

re-gularização, uma argamassa composta com cal e areia.

Os relatos colhidos contam de uma atividade realizada por um grupo familiar

numa relação de cooperação com outras pessoas, uma atividade cultural, nos termos de

Bunge. Mostra-se uma arquitetura como algo que emerge de uma organização social. Um

objeto de uma cultura. Uma arquitetura que segue um tipo, e para se realizar responde a

uma série de constrições sociais, econômicas, tecnológicas, políticas e de território. Em

vista disto, faz-se necessária uma abordagem que aponte para uma apreensão que vá além

de um único edifício, ou de edifícios isolados. É necessário mostrar a lógica de formação

de todo o conjunto de casas.

Tipo

Adotar-se-á por tipo o sentido apontado por Argan em seu texto Sobre o conceito

de tipologia arquitetônica21, em que a palavra se diferencia do termo modelo, em

concor-dância com o significado proposto por Quatremère de Quincy22. Deve-se entender por tipo

como algo que confere menos a imagem de uma coisa a ser copiada imediata e

completa-mente, do que a idéia de um elemento que deve servir de princípio geral. O modelo, assim

como também entendido pela prática artística, é um objeto que pode ser copiado,

repeti-do tal como ele é; o tipo, ao contrário, é um objeto pelo qual cada artista pode conceber

trabalhos de arte que não tenham semelhança. Tudo é preciso e determinado no modelo;

tudo é mais ou menos vago no tipo. A criação de uma tipologia na arquitetura, conforme

Argan23,

depende da existência de uma série de construções que tenham entre si uma evidente analogia formal e funcional. Efetivamente, quando um tipo

é definido pela prática ou pela teoria da arquitetura, ele já existia na reali -dade como resposta, como um conjunto de soluções bem adaptadas a um complexo de demandas ligadas a uma determinada situação histórica em qualquer cultura.

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Numa rápida digressão etimológica, descobre-se que o termo tipo,na acepção até

agora adotada, assemelha-se à verdade da palavra24 design. Uma palavra composta pelo

sufixo grego de- (derivação, dedução ou inferência) e a palavra latina signare (signo,

mar-ca). Assim, nesta análise inicial o termo ganha o significado de: inferência a partir de um

signo. Com efeito, em grego, design é σχέδιο |'skejoōl|. Seguindo de volta à sua origem,

ora pelos passos do autor grego Kostas Terzidis25, vê-se que tem raiz em σχέδιόν |'skedän|

que significa "proximidade", "quase", "perto" ou ainda "aproximadamente". A partir disso

pretende-se enfatizar o significado de incompletude, de vagueza ou de imperfeição; sem

no entanto deixar de explicitar também o sentido de antecipação ou de expectativa. Ainda

mais à montante, encontra-se σχέδιόν como derivada de έσχειν |'eskĩn|, "esquema", "pro

-jeto", "programa", que por sua vez se funda na forma pretérita do verbo έχω |'ekõ|, que

significa "ter", "segurar" ou "possuir". Assim design se refere, na língua grega, a algo que

se tinha e não se tem mais. Está conectado ao passado, numa aparente contradição ao que

ora se tem como senso comum ao termo, ou seja, hoje design somente se associa ao novo,

à novidade, ao futuro. Ademais, o sentido grego parece lembrar, ou pelo menos parece não

deixar esquecer, por remeter-se ao passado, que o novo não existe per se.

Oportuno ainda, para melhor entendimento do sentido do termo tipo aqui adotado,

é mostrá-lo à luz da classificação dos signos proposta por Peirce. Para o autor da ciência

dos signos, há três classes de signo quando relacionado a si próprio26, a saber: tone, token

e type. Tone ou qualissigno é aquele signo que se refere ao modo de ser dos objetos do

Universo27 das coisas ; o token ou sinsigno são os signos ao modo de ser daqueles objetos

do Universo dos existentes, das coisas individuais, fácticas; type ou legissigno é a

deno-minação dada por Peirce para aqueles signos ao modo de ser dos objetos necessários, ou

formais.

24. Adoto o sentido do termo como designado por Flávio Motta em uma de nossas visitas-aula à sua casa. Para o profes -sor-aprendiz etimologia "é a verdade da palavra".

25.Cf. TERZIDIS, 2006, p. 1-13. 26.Cf. QUEIROZ, 2004, p.101.

27. Peirce reconhece três Universos que se distinguem pelas Modalidades de Ser. Há o Universo das coisas em si, não

Referências

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