Processo de construção
TEMPO DO PROCESSOTEMPO DO PROCESSO
TEMPO DO PROCESSO TEMPO DO PROCESSO [005] [064] [059] [010] [004] Si Sn [028] [062] [041] [042] [001] [076] Si Sn Si Sn
correspondente à zD, como se mostra nas Figuras 062 e 063. Verificou-se que a divisão entre refeição e preparo se constitui através de uma parede com portal ou uma meia parede. Porém, como é mais frequente, a diferenciação dos ambientes ocorre apenas nos equipa-
mentos e mobiliários80, o que torna difícil precisar um limite entre uma e outra área.
Mesmo nesta configuração, vê-se a mesma forma em que o ambiente refeição e preparo derivam de zP. Através da comparação entre as 12 Zonas de Preparo, bem como através dos relatos dos proprietários e moradores sobre as transformações ocorridas, perce- bem-se três modos iniciais para o que hoje lá se vê. A primeira, e mais antiga, constitui-se
na geração apenas da refeição e do preparo, zP
→
rp. Não havendo copiar, depósito e nembanheiro incorporado. Como esclarece o Sr. João Borges Neto, o banheiro era de palha de coqueiro e construído fora. A segunda e terceira forma encontrada já incorporam o depósi- to à zP, porém em uma das soluções o depósito aparece contíguo ao preparo enquanto na outra está ao lado da refeição. Através da Figura 061, página anterior, procurou-se ordenar os vários estados da forma em seus respectivos níveis do processo de formação. Como exemplo, vê-se nas casas 059, 064 e 005, respectivamente casas construídas em 1970, 1960 e 1953. São casas que partem da mesma forma de organizar a zP mas diferenciam-se nos modos de evoluir. Cronologicamente, são transformações que se ordenam em datas diferentes. Contudo, processualmente as casas do 064 e 059 ocupam o mesmo nível de formação. Posto noutros termos, a casa do Sr. João Borges Neto parte da organização depó-
sito, refeição e preparo (dpr), acrescenta um banheiro e o copiar (dpr
→
dprbc) para noutrotempo incorporar outro banheiro (dpr
→
dprbc→
dprbcb). Na casa 064, da Sra. GerardaBorges, ocorre primeiro o acréscimo do copiar para em seguida ocorrer a divisão do depó-
sito em depósito e banheiro, ou seja dpr
→
dprc→
dprbc. Ressalta-se ainda que a casa 005,mais antiga, ocupa um nível anterior ao das duas mais recentes, ou seja ocorreu apenas uma transformação na composição e estrutura de zP.
Ainda na especialização de zP, o copiar surge sempre como uma faixa mais afas- tada do corpo, podendo ser formado mesmo depois num etapa posterior do processo. No copiar acontecem todos os preparos pesados da casa. Contíguo a ele pode ainda se ver um
banheiro. Construídos normalmente com paredes de tijolos, os banheiros são os últimos
a se formar. Os banheiros com área média de 3,8m2 são os menores de zP, representando
cerca de 10% da área total da Zona de Preparo. Observa-se que, a exceção das casas 004 e 063, ao menos uma das dimensões do banheiro corresponde à Al. Vê-se que ele surge como especialização de zX ou, como ocorrido na casa 064, deriva do depósito.
A parte da zA que não se transforma em preparo, especializa-se na denominada Zona
de Troca. Esta, identificada como zX, pode se modificar em alpendre, varanda81, ou simples-
mente alterar seu estado para zP ou zD. Das doze unidades analisadas, seis hoje ocupam a lateral de zX modificando-a para zD e zP. As quatro casas em que zX transforma-se em zD
são pequenas, têm área de corpo abaixo de 65m2. Nas duas outras maiores, zX transforma-
se em zP, que em seguida se especializa em depósito. Observa-se que em todas as unidades
com a dimensão Ft próxima a 6m, ocorre a modificação de zX em zD e esta em quartos.
Uma especialização necessária para que a metade de Ft fique próximo aos 3,6m. Na maio-
ria dos casos vê-se primeiro a divisão ao meio de Ft para depois haver a incorporação de
zX à zD, resultando em quartos com uma das dimensões igual a Ft /2 + Al . Contudo, ocorre
que quando muito pequena, como se verifica na casa 010 com a frente próximo a 5,5m, primeiro ocorre a incorporação da parte lateral de zA por zC para só então haver a divisão do corpo ao meio. De outro modo, primeiro ocorre a especialização para só então haver a
divisão, ou seja Ft +Al /2.
Contudo, é importante notar que não se trata de um processo de geração num siste- ma isolado; vê-se que o ambiente age sobre o seu desenvolvimento interno. Com efeito, mostram-se algumas das características próprias ao ambiente como fortes condicionantes do processo de formação. Duas são efetivamente direcionadoras: o percurso do sol e a via que leva à cidade. Para melhor ilustrar como o sistema em formação reage ou é afetado pelas condições do ambiente, incorpora-se aos diagramas de evolução das casas 005 e 064 – apresentados nas Figuras 056 e 057 – as respectivas implantações das referidas unidades.
No entanto apresenta-se apenas em três estados do processo: os estados S1,S3 e S5. Justifica-
81. Importante ressaltar a diferenciação feita na designação das duas especializações. Como 'alpendre' entende-se na tese apenas aquela área fora do limite da frente do terreno, um espaço ao mesmo tempo público e privado. A outra área derivada do zX mas interna ao terreno, para uso privado, denominou-se varanda.
se a escolha destas casas por terem características internas semelhantes, mas diferirem quanto à orientação e posição relativa à via, se em terras mais ao mar ou mais ao centro.
Figura 062. Relação do ambiente na formação da casa 005 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor
Figura 063. Relação do ambiente na formação da casa 064
Fonte: Ilustração elaborada pelo autor
São duas casas pequenas, em média com zC de extensão próxima a 60m2 e for-
mada por dois quartos e duas salas. A zP ocupa completamente a zA ao fundo. No entanto, estão orientadas e posicionadas de modo distinto uma da outra. A casa 005 se encontra posicionada ao lado esquerdo da via, no sentido de quem vai ao centro da cidade, enquanto a 064 se localiza à direita. Quanto ao eixo principal da casa, aquele que se confunde com a cumeeria e orienta a empena, na primeira encontra-se paralela à via, enquanto na 064 é perpendicular.
São de fácil percepção, a partir da comparação das duas ilustrações, os estímulos advindos do ambiente para formação dos espaços da casa. As divisões inicias e as espe- cializações que seguem o corpo zC e o alpendre zA respondem à condição de insolação e vento, assim como a proximidade à via, antiga vereda. As principais reações, algo como um arquitropismo, podem ser acompanhadas a partir da evolução representada nas referi-
N N N N N N
das figuras. Nelas, vê-se que sempre as horas iniciais de luz do dia orientam a divisão do
corpo (zC
→
zDzE) atraindo a zE, equanto as horas finais definem zD. As divisões e espe-cializações primeiras da zA (zA
→
a zXzP) seguem orientadas pela via. No movimento dediferenciação da zA a via atrai para si, força em seu sentido o movimento de formação de
zA em alpendre; e num sentido contrário, a condição de proximidade da via, inibe, afasta o
surgimento da zP. Em vista disso, a via de acesso (Rodovia CE 261) e o eixo norte-sul são acrescentadas às restrições externas, aquelas apresentadas como a redução da dimensão da frente do terreno e como algoritmo de formação trazido pelo mestre-carpinteiro.
Em resumo, com a organização do dossiê, composto por registros fotográficos, de- senhos, tabelas, grafos e registros audiovisuais, muito se pôde conhecer sobre o edifício e sobre o tipo arquitetônico. Nas entrevistas com os proprietários foram revelados os modos de organização de produção, os festejos e dificuldades enfrentadas na formação da parte interna. Ainda com os proprietários e moradores pode-se identificar os usos atribuídos aos ambientes da casa. Com os mestres-carpinteiros descobriu-se o processo de construção das casas, os termos e denominações dos elementos construtivos, algumas lógicas e diretrizes adotadas.
Assim através das análises e comparações morfológicas se comprova a existência de regras gerais de formação. Desvela-se através das recorrências e das singularidades, o