• Nenhum resultado encontrado

S empre tive, assim como muitas pessoas, mais interesse por processo do que

No documento Desenho de uma poiesis (páginas 79-82)

pelas coisas em si. A princípio, costumava desmontar coisas, comparava as partes procu- rando entender como essas se relacionavam para fazer tudo funcionar.

Durante a graduação, em arquitetura, interessavam-me os croquis e rascunhos dos arquitetos urbanistas. Percebia mais qualidade naqueles do que nos desenhos da etapa final de projeto, pois traziam mais informação, falavam mais sobre o pensamento e valores dos autores. Ali era possível estar perto novamente do momento de elaboração e criação do projeto. Percebiam-se as dúvidas e as determinações que iam sendo estabelecidas para o desenvolvimento da idéia de uma casa, de uma praça ou para proposta de intervenção em dinâmicas evolucionárias de uma cidade. De uma certa forma também, era uma maneira de

responder à pergunta de um dos nossos professores1 da graduação: qual o pensamento que

há por detrás do traço?

1. Questão usualmente colocada na disciplina de Projeto Arquitetônico, pelo professor Roberto Castelo do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, com o propósito de apontar para a "responsabilidade do traço", ou seja, de atribuir ao autor do projeto uma responsabilidade com a história, cultura e sociedade ao tratar das questões suscitadas pela problemática do projeto.

Hoje, de fato, percebo que o que mais me fascinava não era só a qualidade gráfica dos traços do grafite 6B sobre o papel-manteiga, mas a possível aproximação à experiência criadora. Interessava-me o jogo de conexões e hipóteses que aqueles diversos desenhos à mão possibilitavam. Para mim, era uma maneira de estar mais próximo do ato de projetar, um modo de refazer o percurso de criação, trazendo à tona algo que havia ficado oculto. Naqueles traços à lápis era possível encontrar algumas das várias soluções abandonadas durante o processo de formação da idéia. Ao compará-las com a solução do projeto final entregue ao contratante, mostravam-se claramente as intenções e restrições estabelecidas e encontradas. Ali, estavam à vista os critérios de escolha, os valores, a lógica de formação estabelecida, enfim revelava-se o pensamento que havia por detrás do traço dos autores.

Vejo que não estou só. Ora, percebo que não são poucas as pessoas que se interes- sam pelo processo de formação. Com efeito, o interesse é secular e pode ser visto nos vários

domínios do conhecimento, desde a arte2, a biologia3 até a engenharia. Ademais, ao que se

mostra, com a efetiva incorporação dos novos meios à vida contemporânea, a abordagem processual se torna quase que necessária. Refiro-me não só aos desdobramentos que os no- vos meios vêm provocando no âmbito da crítica de arte – ao qual, de certa forma, também me insiro –, mas principalmente no modo de ver e produzir imagens. Pesquisadores vin-

culados a grupos como Aesthetics + Computation4 – ligado ao Massachusetts Institute of

Tecnology (MIT) –, ou mesmo pesquisadores independentes, como George Stiny, William

Mitchell, George Hersey, Richard Freedman5, José P. Duarte6, ou ainda José Wagner Garcia,

Luciano Silva, Fábio Miranda7, têm apontado para o processo de formação que há por trás

daquilo que aparece. Adotam como objeto de suas pesquisas as lógicas, os algoritmos, que

2. A temporalidade e processualidade são características próprias a algumas obras, grupos, movimentos ou correntes artísticas. O Grupo Fluxus que segundo Walter Zanini (2004, p.11-15) tem esse nome de origem latina por querer dizer "mudança contínua", "estado não determinado", "flutuante". O Grupo Fluxus configurou-se como uma comunidade infor- mal. Preconfigurou-se no final dos anos 50, com um período de maior proeminência na contribuição às grandes transfor- mações da arte ocorrem nos anos 60. Fluxus rejeitava o "objeto de arte [...] como um bem não-funcional a ser vendido", declarando em 1966, através de manifesto Maciunas declararia que Fluxus "abandonava a distinção entre arte e não-arte". O grupo incluía como meios de expressão concertos, happenings, performances etc.

3. Cf. THOMPSON, 2005; PRUSINKIEWICZ, 1996; STEIGERWALD, 2002. 4. Cf. GREENBERG, 2007; REAS, 2007; MAEDA, 2001.

5. Todos vinculados com o MIT.

6. Professor associado à Universidade Técnica de Lisboa, desenvolveu uma tese sobre a gramática de formação das casas da vila de Malagueira, projeto do arquiteto português Alvaro Siza Vieira.

subjazem à morfogênese, traduzindo-os para linguagens próprias à computação. De um modo geral, o algoritmo pode ser entendido como representação de um processo, ou ainda, posto em termos próprios à ciência da computação, uma descrição passo a passo de um procedimento onde há a transformação dos valores de entrada (input) em valores de saída

(output)8. Portanto, para esses investigadores a beleza do algoritmo é um padrão matemá-

tico que pode estar tanto num trecho de uma música, num cristal, ou simplesmente como

numa estranha coincidência de eventos9.

Nos meses finais de 2000, encontro10 um grupo de pesquisadores que se volta para

o processo de criação na literatura e nas artes em geral. Um grupo que intencionava a uma crítica mais objetiva através de estudos sobre o processo de formação. Formado por pesqui- sadores da Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, este grupo vinculava-

se11 a outro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Dois grupos

com mesma denominação – no princípio – e que se propõem a uma abordagem processual sobre a obra, porém o primeiro mantém algumas diferenças em relação ao segundo:

não se restringe à literatura, estende suas pesquisas às artes, à arquitetura, à •

ciência, ao design, a qualquer campo que envolva processo de criação; não se limita a obras de algum autor;

tem como base a semiótica; •

considera a obra como parte de um processo inacabado, ainda em formação. •

É nesse grupo que encontro a possibilidade para aprofundar, de maneira siste- mática e organizada, o meu interesse sobre o processo de geração. De certo modo, também era uma maneira de responder à questão colocada na graduação pelo professor de projeto de arquitetura.

8. Cf. CORMEN. et al., 2001, p.5. 9. GRENNBERG, 2007, p.4.

10. O encontro se efetiva com a pesquisa realizada, entre 2001 e 2003, na PUC de São Paulo sobre processos de criação com os novos meios. O trabalho rendeu, entre artigos publicados e apresentação em congressos, a dissertação. Cf. CAR- DOSO, 2003.

11. Apesar das diferenças constituídas ao longo do tempo, ainda hoje os dois grupos mantêm reuniões regulares como parte das atividades do Núcleo de Apoio à Pesquisas em Crítica Genética da USP, NAPCG-USP. Este mantém vínculo com o Institut des Textes et Manuscrits Modernes (ITEM).

No documento Desenho de uma poiesis (páginas 79-82)