SÍLZIA ALVES CARVALHO PIETROBOM
O PROCESSO DE EXECUÇÃO, O
PROCESSUALISMO CIENTÍFICO E A CRISE
DOS PARADIGMAS
Programa de Estudos Pós-graduados em Direito
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
SÍLZIA ALVES CARVALHO PIETROBOM
O PROCESSO DE EXECUÇÃO, O
PROCESSUALISMO CIENTÍFICO E A CRISE
DOS PARADIGMAS
Programa de Estudos Pós-graduados em Direito
Tese apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de DOUTORA em Direito das Relações Sociais, sob a orientação da professora Doutora Haydeé Maria Roveratti.
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
SÍLZIA ALVES CARVALHO PIETROBOM
O PROCESSO DE EXECUÇÃO, O PROCESSUALISMO
CIENTÍFICO E A CRISE DOS PARADIGMAS
Tese defendida no Programa de Estudos Pós-graduados em Direito da
Pontifica Universidade Católica de São Paulo, para obtenção do título de Doutora
em Direito das Relações Sociais, aprovada em ________ de ______ de
__________________, pela Banca Examinadora constituída pelos seguintes
professores:
____________________________________________
Profª. Drª. Haydeé Maria Roveratti. Orientadora
____________________________________________
___________________________________________
____________________________________________
Dedico
Este trabalho à vovó Norica pela lição mais preciosa que seu exemplo de
AGRADECIMENTOS
Esta vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E a nossa conta nunca está em dia.
Admitindo-se que há discussões a respeito do caráter científico do
direito, a pesquisa é iniciada com uma abordagem sobre as condições atuais do
conhecimento científico. A partir disso, procurou-se contextualizar o direito
cientificamente e no campo da teoria dos sistemas, a qual orienta
metodologicamente o trabalho.
Sob uma perspectiva sistêmica, tratou-se de demonstrar que o
conhecimento do direito está estruturalmente vinculado à Constituição Federal.
Neste aspecto, foi destacado o reconhecimento da existência de um Sistema
Constitucional, que demandou estudos sobre as teorias materiais e a
hermenêutica crítica da Constituição. O estudo dos princípios Constitucionais de
processo foi realizado com o objetivo de estabelecer uma conexão entre a
hermenêutica Constitucional e o direito processual.
Ainda quanto à teoria dos sistemas, foi explicitado o referencial teórico
adotado, apresentando-se os conceitos básicos e fundamentais da teoria
autopoiética luhmanniana, através da qual o objeto do estudo foi examinado.
A historicidade do processo foi realizada demonstrando-se que os seus
problemas, atualmente em discussão, fazem parte de sua existência ao longo do
tempo, portanto, a insatisfação com a prestação jurisdicional é um fenômeno
histórico.
Apresentada a análise sobre a instrumentalidade do processo no contexto
da modernidade, tomou-se como referencial a crise dos paradigmas como
proposto por Boaventura de Sousa Santos a fim de verificar as condições atuais
do sistema jurídico em face dos sistemas social, político e econômico.
Conclui-se por afirmar que os problemas ligados à realização prática do
direito são sistêmicos, logo, dificilmente propostas dogmáticas que enfoquem o
direito como sistema fechado terão êxito na obtenção de uma prestação
Admitting that there are some discussions concerning the scientific
character of law, this research begins with an approach on today’s scientific
knowledge. From this, it was tried to put the law in two contexts: first, the
scientific one and second, in the field of systems theory, which methodologically
directs the paper.
Under a systemic perspective it was aimed to demonstrate that the law
knowledge is structurally linked to the National Constitution. In this aspect, it
was highlighted the acknowledgement of the existence of a constitutional system,
which required some studies about the material theories and the Constitutional
hermeneutic criticism. The study of the principles of constitutional process was
performed aiming to establish a connection between the constitutional
hermeneutic and the processual law.
Still concerning the system theories, the adopted theoretical referential
was explained by presenting the fundamental and basic concepts of the
Luhmann´s autopoietic theory through which the study object was examined.
The process historicity was performed demonstrating that its problems that
are being discussed at present, are part of its existence throughout the time,
therefore, the dissatisfaction with the jurisdictional role is historical.
After presenting the analysis over the process instrumentality in the
modernity context, it was adopted as a referential the paradigm crisis, as
proposed by Boaventura de Souza Santos, aiming to verify the present conditions
of the juridical system concerning the social, political and economical systems.
In conclusion, it is possible to state that those problems related to the
practical performance of law are systemic, and so, it is very difficult that
dogmatic and other proposals, which focus the law as a close system, will
RESUMO ... 06
ABSTRACT .... 07
1 INTRODUÇÃO ... 11
2 UMA PERSPECTIVA PARA A PESQUISA ... 18
2.1 CONSTRUINDO A CIÊNCIA .... 21
2.2 A CIÊNCIA EM THOMAS KHUN ... 24
2.3 CIÊNCIAS NATURAIS E CIÊNCIAS SOCIAIS ... 42
2.4 QUESTÕES A RESPEITO DO ESTUDO DO DIREITO. ... 51
2.5 COMO CONHECER O DIREITO? ... 52
3 O DIREITO NO CONTEXTO DA TEORIA DOS SISTEMAS... 66
3.1 TEORIA GERAL DOS SISTEMAS ... 66
3.2 CIÊNCIA DOS SISTEMAS ... 69
3.3 SISTEMAS SOCIAIS ... 70
3.4 SISTEMA JURÍDICO ... 73
3.4.1 Posição do Direito em relação à teoria dos sistemas jurídicos... 76
3.4.2 A tradicional sistêmica do Direito ... 78
3.4.3 Sistemas jurídicos teleológicos ou finalísticos ... 82
3.4.4 O sistema jurídico no marxismo ... 87
3.4.5 Atualidades a respeito da sistêmica jurídica... 94
3.5 SISTEMA CONSTITUCIONAL ... 102
3.5.1 Constituição formal e Constituição real ... 104
3.5.2 Teorias materiais da Constituição ... 106
4.1 A TEORIA DOS PRINCÍPIOS... 124
4.2 ESTRUTURA DOS PRINCÍPIOS... 127
4.3 PRINCÍPIOS, REGRAS E POSTULADOS NORMATIVOS... 130
5 ALGUMAS QUESTÕES DA TEORIA GERAL DO DIREITO... 134
5.1 EPISTEMOLOGIA JURÍDICA ... 135
5.2 CULTURALISMO JURÍDICO ... 143
5.3 O DIREITO PROCESSUAL NO CONTEXTO DA TEORIA DA CIÊNCIA DO DIREITO ... 154
5.3.1 O direito processual como objeto cultural ... 158
6 O DIREITO PROCESSUAL CONTEMPORANEAMENTE... 166
6.1 O DIREITO PROCESSUAL AUTOPOIÉTICO... 169
6.1.1 A autopoiése em Niklas Luhmann ... 171
6.1.2 Complexidade, contingência e expectativa de expectativas... 177
6.2 O DIREITO COMO ESTRUTURA DE SIMPLIFICAÇÃO DA COMPLEXIDADE ... 188
6.3 REFLEXIVIDADE ENTRE EXPECTATIVAS COGNITIVAS E NORMATIVAS ... 198
6.4 O PARADIGMA DA AUTOPOIESE NO PROCESSO DE EXECUÇÃO ... 203
7 PANORÂMICA HISTÓRICA DO DIREITO PROCESSUAL... 216
7.1 AUTODEFESA, AUTOCOMPOSIÇÃO E HETEROCOMPOSIÇÃO... 222
7.2 PROCESSO ROMANO ... 228
7.2.1 Sistema da justiça privada ou da ordo judiciarum privatorum... 232
7.2.2.1 A execução forçada no sistema da justiça pública em Roma... 257
7.3 PROCESSO ROMANO-BARBÁRICO ... 262
7.4 PROCESSO JUDICIALISTA ... 266
7.4.1 Processo canônico ... 275
7.5 PROCESSO PRAXISTA. ... 289
7.6 PROCESSO PROCEDIMENTALISTA ... 294
7.7 PROCESSO CIENTÍFICO ... 301
8 O PROCESSO DE EXECUÇÃO INSTRUMENTAL... 311
8.1 A TEORIA DA INSTRUMENTALIDADE DO PROCESSO... 314
8.2 A CRISE DOS PARADIGMAS E SEUS REFLEXOS NO DIREITO .... 318
8.3 QUESTÕES INSTRUMENTAIS E PARADIGMÁTICAS DA ALTERAÇÃO DO PROCESSO DE EXECUÇÃO... 325
8.4 PRINCIPAIS MUDANÇAS PROMOVIDAS PELA LEI 11.232 DE 22/12/2005 ... 330
9 CONCLUSÃO... 340
O despertar da atenção, do raciocínio ou da curiosidade é
normalmente estimulado quando algo ocorre em desacordo com uma
expectativa, quando não é possível explicar um fenômeno, ou quando as
explicações tradicionais não funcionam. Essas experiências produzem
estímulos no observador que têm o efeito de criar a problematização do
objeto observado.
Em relação a esse trabalho, a observadora pousa seu “olhar”
sob as questões que estão envolvidas com a insatisfação dos
jurisdicionados quanto à realização prática dos comandos legais através
do Estado. Nesse sentido, qual(is) poderia(m) ser a(s) causa(s) da
ineficiência do Poder Judiciário? Esse questionamento tem implicações
muito amplas e complexas, porque envolve todos os aspectos ligados ao
conhecimento jurídico, assim como: questões filosófica, sociológica,
econômica, administrativa, histórica. Enfim, percebeu-se que seria
necessário delimitar o enfoque do problema.
Opta-se por estudar aquele aspecto que se considera
fundamental quanto à realização do direito privado na modernidade,
trata-se do cumprimento forçado das obrigações legal, contratual ou
extrajudiciais apresenta-se problemática. A doutrina brasileira admite
que o cumprimento forçado da obrigação privada é o ponto onde são
evidenciados os problemas das dificuldades para obter a realização
prática do direito, revelando a ineficiência do Poder Judiciário.
Poderia ser estudada a execução trabalhista ou civilista, sendo
que a escolha quanto à última se justifica porque é em seu âmbito que se
observam as maiores dificuldades, as quais estão demandando a
alteração estrutural do direito processual brasileiro.
Curiosamente, as mudanças na execução civil estão ocorrendo
no sentido de absorver algumas características do modelo trabalhista de
execução. Dentre esses, destaca-se o fato de que a execução de título
executivo judicial na justiça comum perderá sua autonomia ontológica,
tal como ocorre no processo trabalhista. No entanto, isso não significa
afirmar que haverá identidade dos procedimentos, pois a execução
trabalhista ocorre por sub-rogação legal, podendo o magistrado
determinar ex officio a realização dos atos necessários ao acertamento e à
constrição patrimonial do devedor.
Ao que tudo indica, os avanços no sentido de obter a
simplificação dos procedimentos judiciais do cumprimento forçado da
sentença proferida relativamente a obrigações civilistas não autoriza que
ofício pelo magistrado. Isso demonstra a existência de diferenças que
podem ser consideradas relevantes entre as duas formas de obtenção
forçada do cumprimento das obrigações privadas. Do mesmo modo,
permite a afirmação anterior quanto à situação problemática da
satisfação das obrigações civis através da ação do Estado.
Está se desenvolvendo entre os doutrinadores brasileiros a
idéia segundo a qual existem antagonismos entre a segurança e a
efetividade jurídica, logo, na medida em que se aumenta a segurança,
reduz-se a possibilidade da efetividade, estabelecendo-se uma relação
inversamente proporcional entre estes dois institutos jurídicos. Este
também é um importante aspecto a ser observado para se entender as
causas que justificam a ineficiência do Judiciário.
Na delimitação do problema, opta-se pelo estudo dos
procedimentos executivos adotados pela justiça comum, tendo em vista
as questões da ineficiência do Poder Judiciário, sendo abordadas a
segurança e a efetividade jurídica, bem como o atual referencial teórico
do processo. Será objeto de estudo, igualmente, os problemas extrínsecos
ao direito processual que podem agravar a morosidade para a prestação
jurisdicional.
Quanto à apresentação do tema de estudos e sua delimitação,
e “justiça” da prestação jurisdicional, tomando como referencial os
procedimentos adotados para a obtenção da realização forçada das
obrigações civis.
Será adotado o método de abordagem hipotético-dedutivo,
pois, a partir de determinadas hipóteses proceder-se-á ao estudo dos
aspectos gerais que envolvem o conhecimento do direito para,
posteriormente, identificarem-se aqueles problemas que são
considerados relevantes para o processo e algumas questões legais
pertinentes ao tema.
Quanto ao método de procedimento, o estudo é desenvolvido
com referência a corrente jurídica sociologista e histórica. A base teórica
a qual instrumentaliza o estudo é fornecida pela teoria dos sistemas
sociais sintetizada por Niklas Luhmann.
Admite-se a priori como hipótese básica que o processo de
execução é ineficiente na realização do direito, porque as teorias a
respeito do poder de coerção estatal foram elaboradas tendo em vista
Estados autoritários, e anteriormente à consolidação dos preceitos
Constitucionais asseguradores do devido processo legal, do contraditório
e da ampla defesa. Nos Estados Democráticos de Direito, a segurança
dos jurisdicionados assume preponderância e, somente através da via
da paz social garantida pela jurisdição. Essa situação parece exigir a
revisão e a elaboração de uma Teoria Geral pautada nos princípios
Constitucionais e adequada ao processo contemporâneo.
Secundariamente, admite-se que a Teoria do Processualismo
Científico cria uma artificialidade que compromete a validação social do
processo, porque pretende uma ordem desvinculada do contexto
sociológico intrínseco a todas as formulações humanas. Desse modo,
acredita-se que o direito processual desconheça as relações sistêmicas
que estabelece, comprometendo-se com o individualismo e com o
patrimonialismo, erigidos na modernidade e exacerbados principalmente
a partir do século XVIII.
Entende-se que a justificativa para este trabalho está vinculada
ao fato de que os referenciais teóricos e ideológicos do processo, tendo
sido formulados sob a influência do movimento burguês na França,
assimilaram a necessidade daquela classe social em permanecer no
poder. Assim, a idéia da segurança jurídico-processual estaria referida
especificamente aos ocupantes dos poderes político e econômico, os
quais, a partir do discurso da universalização dos bens emergentes
através do liberalismo econômico, efetivamente consolidaram-se no
residual negativo, no sentido de que as promessas da “liberdade,
igualdade e fraternidade” restaram frustradas.
Considera-se necessário o estudo com vista à compreensão das
alterações ocorridas no campo social e jurídico, desde o século XVIII, as
quais afetaram o direito até o ponto em que, no caso brasileiro,
percebe-se um crescente descrédito na capacidade do Poder Judiciário realizar a
“justiça”. Após a consolidação da burguesia no poder, a igualdade foi
conceitualmente reduzida à idéia da igualdade formal, ou seja, igual
perante o sistema legal e político, as disparidades real, concreta foram
relegadas. E a liberdade pode ser encarada da seguinte forma: “Livres e
iguais para não serem livres e iguais”1. Desse modo, a metodologia
qualitativa aliada a teorias críticas que tratam dos sistemas autopoiéticos
justifica o estudo do processo de execução das obrigações privadas no
Brasil diante das propostas em andamento e já aprovadas quanto às
alterações no modelo processual.
O objetivo central é apresentar a descrição e possíveis
explicações para as causas da morosidade quanto à prestação
jurisdicional, para tanto, observar-se-á os procedimentos executivos.
Acredita-se que este trabalho possa contribuir para que o
processo seja estudado como uma técnica, um instrumento a serviço do
1
direito material, mas, sobretudo, tendo em vista as transformações
2 UMA PERSPECTIVA PARA A PESQUISA
A condição humana, diante do “todo” que forma sua complexa
estrutura existencial, independentemente de como se pretenda entender
isto, pode ser aceita como de “debilidade”, aqui referida a uma situação
em face do processo de formulação do conhecimento no plano da
compreensão dos fatos que envolvem a vida e também a sua ausência.
A história do Homem na Terra, até à contemporaneidade,
produziu diversas formas de conhecimentos, mas sempre referidos a
alguma coisa, logo, circunstancial, parcial e insuficiente para lhe revelar
um conhecimento que pudesse traduzir a verdade2 sobre a natureza ou a
respeito de sua existência.
O pesquisador do Século XXI deve considerar que o
conhecimento é relativo e as verdades que produz são parciais, podendo
afirmar-se que as teorias não são válidas para sempre, sendo esta uma
das lições apresentadas pela história das realizações científicas. Ainda
que o conhecimento pareça sólido, serão possíveis novas observações e
novas idéias que modificam aquele enfoque, renovando os conceitos.
2
Isso é parte da ciência, que trabalha lentamente para decifrar o enigma
do mundo natural.
Alfred Noyes elegantemente chamou a atitude do Homem em
busca do conhecimento de “longa batalha pela luz”3. Esta perspectiva foi
destinada às ciências naturais, contudo, entende-se que possa ser
igualmente usada para as ciências sociais. É interessante lembrar que a
aplicação no campo das pesquisas voltadas para o conhecimento social
da metodologia criada no plano das ciências naturais tem sido objeto de
dissenso entre os estudiosos de metodologia. Esta problemática deve ser
superada, pois a interdisciplinaridade tem melhores possibilidades de
levar a produção de um conhecimento mais amplo e satisfatório ao
Homem. Observe-se que a compartimentação tem importância didática,
mas pode ser entendida como reducionista do conhecimento científico4.
O que se pretende é jogar novas “luzes” ao processo
jurisdicional brasileiro, sobretudo, quanto a sua função
instrumentalizadora da realização efetiva da jurisdição voltada para os
direitos privados, entendidos como tal, aqueles de natureza individual e
patrimonial.
3
RONAN, Colin A. História ilustrada da ciência, p. 125.
4
Acredita-se que o momento é oportuno, porque a realização da
entrega da prestação jurisdicional tem sido objeto de estudos doutrinários
e reformas legais tanto no direito processual como institucionalmente
através da reforma do Poder Judiciário brasileiro.
Destaca-se a questão de que os movimentos de reestruturação
do modelo brasileiro para a prestação jurisdicional a par da problemática
referente à segurança e efetividade que devem ser inerentes ao direito,
seja este compreendido como técnica, ciência ou arte; procuram
respostas ou soluções em “velhas” fórmulas, ou melhor, no sistema
estruturalista formalista desenhado pelo positivismo e teorizado no
direito por Kelsen em sua Teoria Pura.
É vislumbrada a possibilidade através desta pesquisa de
acrescentar-se alguns elementos teóricos ligados ao criticismo
metodológico. Desse modo, a instrumentalização do processo deve ser
superadora do estruturalismo formalista, concebido no final do século
XIX na Alemanha, que deu origem ao processualismo científico.
As referências básicas “ideológicas” que orientam este
trabalho foram proclamadas por Montoro5, quando declarou a
necessidade do direito assumir seu papel social, sobretudo, nos países em
vias de desenvolvimento, como o Brasil.
5
Quanto ao processo, Cândido Rangel Dinamarco6 defende seu
papel sociológico, como mecanismo para garantir a realização do direito
material, assim, o direito processual é o “caminho” que assegura a
democratização da justiça. A técnica processual deve cumprir sua função
de orientar a prestação jurisdicional segura e efetiva, assim, servindo ao
Homem e a sociedade7.
2.1 CONSTRUINDO A CIÊNCIA
Construir ciência é formular conhecimento para explicar ao
Homem a natureza e sua própria condição diante de si mesmo e de
outros indivíduos, podendo, ainda, ser mencionada a questão metafísica.
A filosofia é considerada a mãe das ciências, mas, a partir do
empirismo positivista do Círculo de Viena8, não mais se reconheceu a
6
DINAMARCO, Cândido Rangel . A Instrumentalidade do processo, p. 186.
7
DINAMARCO, Cândido Rangel. Op. Cit., p. 186. ... hoje, todo estudo teleológico da jurisdição e do sistema processual há de extrapolar os lindes do direito e da sua vida, projetando-se para fora. É preciso, além do objetivo puramente jurídico da jurisdição, encarar também as tarefas que lhe cabem perante a sociedade e perante o Estado como tal. O processualista contemporâneo tem a responsabilidae de conscientizar esses três planos, recusando-se a permanecer num só, sob pena de esterilidade nas suas construções, timidez ou endereçamento destoante das diretrizes do próprio Estado social. (grifo nosso)
8
filosofia como uma ciência, porque os conhecimentos por ela elaborados
não têm rigor metodológico, não dispondo de um objeto próprio e
específico de conhecimento e de uma linguagem adequada e
auto-referenciada para descrever e explicar o objeto de estudo.
Não se pretende adentrar na questão da natureza do
conhecimento filosófico, mas registrar que se optou em determinado
momento histórico por negar ao conhecimento integral do ser a
característica da cientificidade.
Atualmente, o conhecimento científico vincula-se a
epistemologia que se refere a uma filosofia da ciência que considera a
maneira como os saberes são organizados, partindo da lógica em seu
sentido amplo.
Desse modo, a lógica é entendida como o estudo da maneira
pela qual os saberes humanos se estruturam, o que implica averiguar
quais as suas condições de validade.
Para a epistemologia, o ato de conhecer pressupõe um objeto a
ser observado, sendo que, desse ato de observar9, surgem sínteses
descritivas que se denominam leis. Estas são submetidas a verificações
9
FOUREZ, Gerard. A construção das ciências: introdução à filosofia e à ética das ciências, p. 40. ... a
experimentais que, se confirmarem as leis, são inseridas em teorias que
visam a uma descrição e explicação da realidade.
A observação construtora do conhecimento pressupõe uma
linguagem para sua expressão. Toda forma de expressão de linguagem é
cultural, o que permite afirmar que a ciência não é indiferente à cultura.
Assim, os cientistas são vinculados a um ponto de partida prévio, são
integrantes de um universo cultural e lingüístico. A observação neutra do
objeto é uma ficção.
As proposições empíricas indiscutíveis apenas o são no sentido
de uma convenção prática ligada ao trabalho científico, quando assim
são declaradas com referências a fatos que, momentaneamente, não serão
discutidos.
Toda observação é realizada por alguém, que é o indivíduo, o
sujeito10 que observa. A esse respeito, para a construção do
conhecimento, é interessante pensar sobre o referencial, ou seja, os
objetos existem em si mesmos, ou é o observador que os configura e,
portanto, atribui-lhes existência. Assim, observar é meramente descrever
o objeto ou o observador efetivamente cria o objeto através de um
processo de interpretação dos dados sensitivos. Essas questões não
10
desafiam uma resposta específica tendo sido discutidas ao longo da
história da ciência.
A partir da revolução copernicana, a observação é entendida
como uma construção que tem, no sujeito, seu ponto de partida. Isto
legitimou a visão da ciência como uma construção humana, tendo o
conhecimento assumido uma subjetividade relacionada com a linguagem
e com pressupostos culturais. Dessa forma, a objetividade da ciência é
ligada à instituição social do mundo.
O conhecimento científico é verificado em um contexto
coletivo, em que, a partir de proposições teóricas (leis não testadas), é
realizada a verificação empírica que poderá produzir as proposições
empíricas, que são um conjunto lingüístico convencionado pela
comunidade científica como portador da verdade em relação a
determinado objeto em face de determinado método e circunstâncias. A
ciência não produz um conhecimento atemporal e absoluto, mas
convencional.
2.2 A CIÊNCIA EM THOMAS KUHN
Este estudioso de física na Universidade de Harvard acabou se
importantes trabalhos a respeito das transformações científicas11. Para
tanto ele formula os conceitos de “ciência normal”, “paradigma”,
identifica as características das revoluções científicas e as questões
referentes ao progresso científico.
O objetivo desse estudo não é o aprofundamento na obra de
Thomas Kuhn, mas identificar alguns pontos fundamentais em seu
trabalho, graças a sua indiscutível relevância no campo do conhecimento
científico, por ter acrescentado elementos que reordenaram a história da
ciência.
Tendo como ponto de partida sua posição no quadro da
história da ciência, Kuhn aponta duas tarefas que são consideras
fundamentais para o historiador da ciência; a identificação de quando e
de por quem cada fato, teoria ou lei científica contemporânea foi
descoberta ou inventada, e a descrição e explicação do amontoado de
erros, mitos e superstições que inibiram a acumulação mais rápida dos
elementos constituintes do moderno texto científico. A construção da
idéia de que o progresso da ciência vincula-se mais a invenções e
descobertas individuais em detrimento da idéia de que ocorra por
movimentos de acumulação de conhecimentos foi possível em
decorrência da mudança de postura dos historiadores que passaram a
abordar novas espécies de questões e a traçar linhas diferentes de
11
pesquisa, freqüentemente não-cumulativos, de desenvolvimento para as
ciências.
Essa nova postura dos historiadores da ciência está voltada
para uma abordagem da ciência e do cientista em seu tempo, assim a
história da ciência passou a ter o máximo de coerência interna e a maior
adequação possível à natureza. Esta nova imagem da ciência foi
constituída, sobretudo, após o trabalho de Alexandre Kayré12.
A partir das colocações básicas a respeito da história e dos
historiadores da ciência, Kuhn apresenta seu conceito de paradigma13
como sendo “as realizações científicas universalmente reconhecidas que,
durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para
uma comunidade de praticantes de uma ciência”14. Podem ser
identificadas duas características fundamentais nos paradigmas; a
realização apresentada no paradigma deve ser sem precedentes, a fim de
atrair um grupo duradouro de partidários, e deve ser suficientemente
aberta para deixar toda a espécie de problemas para serem resolvidos
pelo grupo redefinido de praticantes da ciência.
As revoluções e o progresso científico são relacionados a
alteração do paradigma, logo, os problemas e as soluções modelares são
12
Op cit., p. 22.
13
Ibidem, p.43-44. ... um paradigma é um modelo ou padrão aceitos. ... Os paradigmas adquirem seu
status porque são mais bem sucedidos que seus competidores na resolução de alguns problemas que o grupo de cientistas reconhece como grave.
14
substituídos por novos problemas e respostas, o que provoca a
transformação do mundo.
A ciência em Kuhn pode ser identificada como uma reunião de
fatos, teorias e métodos organizados em textos atuais. Esse autor
refere-se a “ciência normal”15, como a pesquisa baseada em uma ou mais
realizações científicas passadas, ou seja, realizada dentro de paradigmas.
Para contrapô-la, a ciência produzida nos momentos de ruptura
do paradigma. Dessa forma, as pesquisas produzidas com base em
paradigmas compartilhados estão comprometidas com as mesmas regras
e padrões para a prática científica. Esse comprometimento e o consenso
aparente que produz são pré-requisitos para a ciência normal, isto é, para
a gênese e a continuação de uma tradição de pesquisa determinada.
Sob uma perspectiva de desenvolvimento da ciência, um
campo de estudos pode cruzar a divisa entre o que o historiador poderia
chamar de sua pré-história como ciência, e sua história propriamente
dita. Os movimentos de transição não são repentinos ou inequívocos;
assim como não são historicamente graduais, isto é, coextensivos com o
desenvolvimento total dos campos de estudos em que ocorreram.
15
Dessa forma, sem a possibilidade de considerar os eventos do
passado, torna-se difícil encontrar outro critério que revele claramente
que um campo de estudos tornou-se uma ciência.
No enfoque sobre a natureza da ciência normal, destaca-se sua
função de atualização obtida através da ampliação do conhecimento
daqueles fatos que o paradigma apresenta como particularmente
relevantes, aumentando a correlação entre esses fatos e as predições do
paradigma e articulando ainda mais o paradigma. Esse trabalho é
denominado operação de limpeza.
A operação de limpeza, conquanto seja redutora do espaço da
pesquisa, porque fica limitada ao paradigma, é essencial para o
desenvolvimento da ciência, uma vez que tem um caráter de
verticalização da investigação16.
A pesquisa baseada em paradigmas, desenvolvida, portanto,
no contexto da ciência normal17, inicia-se com a coleta de fatos que visa
às experiências e observações descritivas. Três focos normais são
identificados para a investigação científica dos fatos, os quais não são
sempre ou permanentemente distintos. Quanto à classe dos fatos que o
16
Ibidem, p. 45. A ciência normal possui um mecanismo interno que assegura o relaxamento das restrições que limitam a pesquisa toda vez que o paradigma do qual derivam deixa de funcionar efetivamente. Nessa altura os cientistas começam a comportar-se de maneira diferente e a natureza dos problemas de pesquisa muda. 16 Ibidem, p. 51. Uma parte (embora pequena) do trabalho teórico normal consiste simplesmente em usar a teoria existente para prever informações fatuais dotadas de valor intrínseco.
17
paradigma mostrou ser particularmente reveladora da natureza das
coisas, ao empregá-lo na resolução de problemas, o paradigma tornou-os
merecedores de uma determinação mais precisa, numa variedade maior
de situações. Quanto aos fenômenos determinados pelos fatos, a partir de
uma observação intrínseca, há a verificação se podem ser diretamente
comparados com as predições da teoria do paradigma. Finalmente, o
trabalho empírico empreendido para articular a teoria do paradigma,
resolvendo algumas de suas ambigüidades residuais e permitindo a
solução de problemas para os quais ela anteriormente só tinha chamado a
atenção, esgota as atividades de coleta de fatos na ciência normal18.
A articulação de um paradigma não se restringe a
determinação de constantes universais, podendo visar a leis
quantitativas. Assim, a relação entre paradigma qualitativo e lei
quantitativa é tão geral e tão estreita que, desde Galileo, essas leis, com
freqüência, têm sido corretamente adivinhadas com o auxílio de um
paradigma, anos antes que um aparelho possa ser projetado para sua
determinação experimental19.
18
Ibidem, p. 48. ... a obra de Newton indicava que a força entre duas unidades de massa a uma unidade de distância seria a mesma para todos os tipos de matéria, em todas as posições do universo. Mas os problemas que Newton examinava podiam ser resolvidos sem nem mesmo estimar o tamanho dessa atração, a constante da gravitação universal. E durante o século que se seguiu ao aparecimento dos Principia, ninguém imaginou um aparelho capaz de determinar essa constante. A famosa determinação de Cavendish, na última década do século XVIII, tampouco foi a última. Desde então, em vista de sua posição central na teoria física, a busca de valores mais precisos para a constante gravitacional tem sido objeto de repetidos esforços de numerosos experimentadores de primeira qualidade. ... Poucos desses complexos esforços teriam sido concebidos e nenhum teria sido realizado sem uma teoria do paradigma para definir o problema e garantir a existência de uma solução.
19
Pode concluir-se afirmando que para Thomas Kuhn a ciência
normal é pautada em três classes de problemas: determinação do fato
significativo, harmonização dos fatos com a teoria e articulação da
teoria. Fora desse esquema, podem ser encontrados problemas
extraordinários, emergidos em ocasiões especiais geradas pelo avanço da
ciência normal. Esses problemas levam ao abandono do paradigma e são
os pontos de apoio em torno dos quais giram as revoluções científicas20.
Os modos de aplicação do paradigma podem levar a pequenas
ou grandes revoluções científicas. Isto deriva do fato de que o mesmo
paradigma pode ser empregado em diversas linhas da pesquisa, sem que
todos apliquem as mesmas leis que o integram. Ressalta-se que, por
intermédio da ciência normal, podem ocorrer alterações internas no
paradigma, situação em que alguma de suas leis poderia ser modificada,
o que não significa o seu desaparecimento. Esse fato afeta somente os
estudos pautados naquela lei, permanecendo inalteradas as demais linhas
de pesquisas fundamentadas em outras leis do paradigma que não
tenham sido modificadas. Nesses casos, caracterizam-se as pequenas
revoluções científicas.
Antes de falar especificamente do que pode ser considerado
20
como uma grande revolução científica, é pertinente tratar do que se
entende como uma descoberta e uma invenção.A descoberta é um
processo que exige tempo para a observação e formulação conceitual de
um novo tipo de fenômeno, sendo um acontecimento complexo que
envolve o reconhecimento tanto da existência de algo, como de sua
natureza.
Sobressai igualmente a questão da teoria em relação ao
paradigma, sendo certo que para Thomas Kuhn nem todas as teorias são
teorias paradigmáticas21.
Nos momentos de “crise do paradigma”22, os cientistas
desenvolvem teorias especulativas e desarticuladas, que, entretanto,
podem indicar o caminho para uma nova descoberta, que nem sempre
está vinculada à hipótese especulativa e experimental proposta pelas
teorias de referência. Conclui, então, que somente após a articulação
da experiência e da teoria experimental, pode surgir a descoberta e a
teoria converte-se em paradigma23.
21
Idem, p. 87.
22
Idem, p. 95 a 99. A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de insegurança profissional pronunciada, pois exige a destruição em larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal. Como seria de esperar, essa insegurança é gerada pelo fracasso constante dos quebra-cabeças da ciência normal em produzir os resultados esperados. O fracasso das regras existentes é o prelúdio para uma busca de novas regras. ... Essa proliferação de versões de uma teoria é um sintoma muito usual de crise.
23
As descobertas das quais surgem novos fenômenos apresentam
as seguintes características: a consciência prévia da anomalia24 25, a
emergência gradual e simultânea de um reconhecimento, tanto no plano
conceitual como no plano da observação, e a conseqüente mudança das
categorias e procedimentos paradigmáticos. O procedimento da
descoberta se completa quando o que era considerado anômalo se
converte no previsto. A constatação desse processo justifica as razões
pelas quais a ciência normal é eficaz para provocar as descobertas.
Observa-se que uma nova teoria surge somente após um
fracasso caracterizado na atividade normal de resolução de problemas.
Esse fracasso é prenunciado, pois a ciência normal26 considerava o
problema relacionado com a crise total ou parcialmente solucionado.
Desse modo, o fracasso com um novo tipo de problema pode ser
decepcionante, no entanto, não pode ser surpreendente.
A importância da crise para a constituição de novas teorias e
paradigmas caracteriza-se pelo fato de que a solução para cada um dos
problemas foi antecipada, pelo menos parcialmente, em um período no
24
Idem, p. 92. A anomalia aparece somente contra o pano de fundo proporcionado pelo paradigma.
25
Idem, p. 113. ... para uma anomalia originar uma crise, deve ser algo mais do que uma simples anomalia. Sempre existem dificuldades em qualquer parte da adequação entre o paradigma e a natureza; a maioria, cedo ou tarde, acaba sendo resolvida, freqüentemente através de processos que não poderiam ter sido previstos. maioria, cedo ou tarde, acaba sendo resolvida, freqüentemente através de processos que não poderiam ter sido previstos.
26
qual a ciência correspondente não estava em crise. Tendo sido essas
antecipações ignoradas exatamente porque não havia uma crise27.
Podem ser identificados dois efeitos gerais para as crises; todas
elas iniciam com o obscurecimento de um paradigma e o conseqüente
relaxamento das regras que orientam a pesquisa normal. Assim, ocorre
uma proliferação de articulações divergentes, pois as regras da ciência
normal tornam-se indistintas.
Os cientistas perdem o referencial claro a respeito do
paradigma, não mais sendo possível identificá-lo com exatidão e mesmo
soluções-padrão de problemas anteriormente aceitas passam a ser
questionadas.
Os cientistas28, contudo, mesmo em face de anomalias
prolongadas e graves, têm uma postura de resistência, na medida em que
defendem o paradigma vigente, e somente no caso de suspeitas quanto às
soluções apresentadas aos problemas é que são criadas as alternativas.
As novas teorias surgem quando um fenômeno portador de anomalia se
recusa, obstinadamente, a ser assimilado aos paradigmas existentes, isso
se verifica quando ele não fornece um lugar no campo visual do cientista
27
Idem, p. 105. O significado das crises consiste exatamente no fato de que indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos.
28
capaz de abranger a anomalia.
A rejeição de um paradigma implica invariavelmente na
aceitação de outro que o substitua29, sendo que o juízo que conduz a essa
decisão envolve a comparação de ambos os paradigmas com a natureza,
bem como sua comparação mútua30.
Diante da crise, emergem as novas teorias científicas as quais
somente alcançarão o status do paradigma se puderem substituí-lo, ou
seja, quando puderem oferecer respostas aos problemas de modo mais
satisfatório do que aquelas até então apresentadas.
Podem ser apontadas três maneiras em que se resolvem as
crises. O paradigma vigente reordena o quebra-cabeça da anomalia e
resolve o problema. Em outros casos, o problema revela-se insolúvel e é
abandonado, a fim de quê, em outro momento, seja retomado, quando se
dispor de novos instrumentos para sua abordagem. E, finalmente, os
casos em que ocorrem as revoluções científicas, entendidas como
aquelas em que a crise termina com a emergência de um novo candidato
a paradigma e com uma subseqüente batalha por sua aceitação.
Esta transição de um paradigma a outro promove a
reconstrução da área de estudos a partir de novos princípios, alterando-se
29
Idem, p. 110. Rejeitar um paradigma sem simultaneamente substituí-lo por outro é rejeitar a própria ciência.
30
algumas das generalizações teóricas mais elementares do paradigma,
bem como muitos de seus métodos e aplicações31. Sobreleva o modo
como são modificadas as formas de solução dos problemas. Completada
a transição, os cientistas terão modificado a sua concepção sobre suas
pesquisas, seus métodos e seus objetivos.
Ao final, os cientistas terão, diante de si, o mesmo conjunto de
dados que, anteriormente, mas estabelecendo entre eles um novo sistema
de relações, organizado a partir de um quadro de referência diferente.
Nos momentos de crise, ocorre o retorno do cientista a análise
filosófica que tem sido fundamental para a ciência contemporânea,
ocorrendo uma mudança na natureza de suas pesquisas, proliferando as
articulações concorrentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a
expressão de descontentamento explícito, o recurso à filosofia e ao
debate sobre os fundamentos, são reveladores da pesquisa extraordinária.
A ciência extraordinária ou não-normal é produzida nos
momentos de crise dos paradigmas, até que se estabeleçam as condições
para a reestruturação de uma nova ciência normal. Nessas circunstâncias,
verifica-se a grande revolução científica.
Do ponto de vista histórico, não é plausível que a inclusão
31
lógica seja uma concepção admissível na relação existente entre teorias
científicas sucessivas32. Portanto, as diferenças entre paradigmas
sucessivos são, ao mesmo tempo, necessárias e irreconciliáveis33;
conseqüentemente, sua mudança requer uma redefinição da ciência
correspondente.
Sob o ponto de vista dos paradigmas como parte constitutiva
da ciência, os cientistas têm neste uma teoria34, um método e padrões
científicos, que compõem uma mistura inextrincável.35
As mudanças de paradigmas levam os cientistas a ver36 o
32
Idem, p. 137. Precisamente por não envolver a introdução de objetos ou conceitos adicionais, a transição da mecânica newtoniana para a einsteiniana ilustra com particular clareza a revolução científica como sendo um deslocamento da rede conceitual através da qual os cientistas vêem o mundo.
33
Idem, p. 138. A tradição científica normal que emerge de uma revolução científica é não somente incompatível, mas muitas vezes verdadeiramente incomensurável com aquela que a precedeu.
34
Idem, p. 143. Por meio das teorias que encarnam, os paradigmas demonstram ser constitutivos da atividade científica.
35
Idem, p. 142-143. Não é de surpreender que alguns historiadores tenham argumentado que a história da ciência registra um crescimento constante da maturidade e do refinamento da concepção que o homem possui a respeito da natureza da ciência. Todavia é ainda mais difícil defender o desenvolvimento cumulativo dos problemas e padrões científicos do que a acumulação de teorias. A tentativa de explicar a gravidade, embora proveitosamente abandonada pela maioria dos cientistas do século XVIII, não estava orientada para um problema intrinsecamente ilegítimo; as objeções às forças inatas não eram nem inerentemente acientíficas, nem metafísicas em algum sentido pejorativo. Não existem padrões exteriores que permitam um julgamento científico dessa espécie. O que ocorreu não foi nem uma queda, nem uma elevação de padrões, mas simplesmente uma mudança exigida pela adoção de um novo paradigma.
36
mundo definido por seus compromissos de pesquisa de uma maneira
diferente. Na medida em que seu único acesso a esse mundo ocorre
através do que vêem e fazem, podendo ser afirmado que, após uma
revolução, os cientistas reagem a um mundo diferente37. O que ocorre
durante uma grande revolução científica não é totalmente redutível a
uma reinterpretação38 de dados estáveis e individuais. Isto não quer dizer
que os cientistas não interpretem observações e dados, o que, contudo,
vincula-se a um paradigma e, portanto, ocorre no quadro da ciência
normal, a qual tem por objetivo refinar, ampliar e articular um paradigma
que já existe, apenas possibilitando o reconhecimento de anomalias e
crises.
A interpretação limita-se a articular um paradigma, não
podendo corrigi-lo, pois isso não é papel desempenhado pela ciência
normal.
Questão fundamental quanto ao conhecimento científico se
refere ao fato de atribuir à experiência um caráter neutro e às teorias a
condição de simples interpretações humanas. Quanto a isto, Thomas
37
Idem, p. 171. O autor se refere a um mundo diferente no sentido de que o novo paradigma fornecerá ao cientista uma nova percepção do objeto. Assim, “mesmo após a aceitação da teoria, eles ainda tinham que forçar a natureza e conformar-se a ela, ...”.
38
Kuhn, trata do assunto afirmando que “a perspectiva epistemológica que
mais freqüentemente guiou a filosofia ocidental durante três séculos
impõe um ‘sim!’ imediato e inequívoco. Na ausência de uma alternativa
já desdobrada, considero impossível abandonar inteiramente essa
perspectiva”39. Dando continuidade a sua posição quanto ao assunto, o
autor afirma que: “Todavia ela já não funciona efetivamente e as
tentativas para fazê-la funcionar por meio da introdução de uma
linguagem de observação neutra parecem-me agora sem esperança”40.
Quanto à linguagem, a tentativa de criar um modelo que
permitisse aproximá-la dos objetos de percepção e expressá-los de forma
pura e geral, como referido anteriormente, tem se revelado insatisfatório.
Isto se deve a que o cientista não realiza operações e medições de um
dado objeto da experiência, mas coleta, com dificuldade, índices
concretos para os conteúdos das percepções mais elementares4142.
A propósito de evidenciar como a ciência progride através de
revoluções, atribui-se aos historiadores o equívoco de escrever a história
passada a partir do presente. Os manuais são os meios de divulgação da
39
Idem, p. 161.
40
Idem, p. 161.
41
Idem, p. 162. As operações e medições, de maneira muito mais clara do que a experiência imediata da qual em parte derivam, são determinadas por um paradigma. A ciência não se ocupa com todas as manifestações possíveis no laboratório. Ao invés disso, seleciona aquelas que são relevantes para a justaposição de um paradigma com a experiência imediata, a qual, por sua vez, foi parcialmente determinada por esse mesmo paradigma.
42
ciência normal, tendo um caráter pedagógico. Diante das alterações na
ciência normal, esses manuais são reescritos, e este procedimento tem
sido realizado de modo a ocultar as revoluções (grandes ou pequenas)
científicas. Isto se deve ao fato de que os relatos históricos apresentados
nesses manuais são fragmetários e parciais, relatando feitos com
referência a fatos presentes, o que leva a uma impressão equivocada de
que os cientistas e estudantes do presente são partícipes de um processo
cumulativo de conhecimentos. Isso é agravado pelo fato de que,
normalmente, são apresentadas apenas as partes do trabalho de antigos
cientistas que possam contribuir com o enunciado e a solução do
problema apresentado pelo paradigma do manual. Contribui também,
para o equívoco referente ao processo cumulativo, o fato dos cientistas
de épocas anteriores serem representados como se tivessem trabalhado
sobre o mesmo conjunto de problemas fixos, e utilizado o mesmo
conjunto de cânones estáveis que a revolução mais recente, em teoria e
metodologia científica, fez parecerem científicos43.
A ciência contemporânea está assentada num complexo de
teorias, métodos e se realiza com base em instrumentos que não existiam
antes da revolução científica que lhes reconheceu a validade. Os
problemas pesquisados e as soluções propostas no passado eram
43
completamente diferentes dos que atualmente movimentam o
quebra-cabeça da ciência contemporânea. A passagem de uma coisa a outra não
se deve a evolução gradual das teorias, mas resulta de uma reformulação
revolucionária da tradição científica anterior, na qual a relação entre o
cientista e a natureza mediada pelo conhecimento era particular ao seu
tempo.
Após a descrição histórica e analítica dos fatos que envolvem a
estrutura constitutiva do conhecimento científico, é possível identificar
alguns pontos que levam a substituição de um paradigma que embasa
uma ciência normal, através de teorias especulativas até a constituição de
um novo paradigma, que orientará a percepção do cientista em relação
ao seu campo visual do mundo.
Todo procedimento científico está fundamentado na relação
entre o objeto captado pela percepção sensorial do cientista e o modo
como este interpreta essa percepção, seja para descrevê-la ou explicá-la.
Assim, a ciência se realiza sempre com o objetivo de compreender o
mundo. Nesse ambiente, pode ocorrer que um ou vários cientistas façam
uma nova interpretação da natureza (objeto), verificando, então, uma
descoberta ou formulando uma teoria. Esse fato decorre da ação criadora
do cientista, nessa situação, normalmente vinculada a uma atenção
que os cientistas mais jovens ou menos comprometidos com o paradigma
vigente têm melhores resultados nesse processo.
A partir do quadro acima descrito, são formuladas as teorias de
verificação probabilística, que indicam as novas direções pelas quais
deverão avançar as futuras discussões sobre o problema da verificação,
fazendo-o através da adoção de uma das linguagens de observação. Aqui
se retorna ao fato de que os sistemas de linguagem ou os conceitos não
são portadores de neutralidade científica ou empírica, o que torna
necessária a realização de testes e teorias alternativas à vinculação a
algum paradigma tradicional. Durante esse período, haverá intensa
discussão e as formulações teóricas especulativas lutarão entre si a fim
de demonstrar sua melhor condição para apresentar respostas factíveis
aos problemas.
Ao final desse processo, surge um candidato a paradigma que
assumirá esse papel de referência para a ciência na medida em que a
comunidade científica se convencer a respeito de sua capacidade para
solucionar os problemas que estão ligados à melhor adequação possível
entre a formulação teórica e a descrição ou explicação do objeto.
Uma questão elementar e fundamental é aquela de
perceber o progresso da ciência no contexto de suas
Admitindo que a revolução científica leva a novas formas de
resolução de problemas a partir de teorias, métodos e instrumentos
inovadores em relação àqueles utilizados pela ciência normal,
é possível afirmar que isto assegura o progresso da ciência44.
O ponto de referência adotado por Thomas Kuhn não parte da questão
vinculada à ciência enquanto instrumento capaz de levar à verdade. O
progresso da ciência, então, é um “progresso de evolução a partir de um
início primitivo – processo cujos estágios sucessivos caracterizam-se,
por uma compreensão sempre mais refinada e detalhada da natureza” 45.
Para efeito desta tese, será admitido a priori que as ciências
sociais podem ser operacionalizadas através das referências constituídas
para as ciências naturais quanto aos aspectos relativos ao
desenvolvimento histórico, à conceituação de paradigma, à constituição
de seus momentos de crises e ao seu progresso.
2.3 CIÊNCIAS NATURAIS E CIÊNCIAS SOCIAIS
Esta introdução não objetiva resolver os problemas inerentes
ao conhecimento científico, mas posicionar o leitor a respeito de alguns
44
Idem, p. 209. As revoluções terminam com a vitória total de uma dos dois campos rivais. Alguma vez o grupo vencedor afirmará que o resultado de sua vitória não corresponde a um progresso autêntico? Isso equivaleria a admitir que o grupo vencedor estava errado e seus oponentes certos. Pelo menos para a afacção vitoriosa, o resultado de uma revolução deve ser o progresso.
45
pontos que foram considerados relevantes para a pesquisa. Embora tenha
sido mencionado que a questão metodológica que envolve as ciências
naturais e as ciências sociais não seja importante para este trabalho, esta
posição não tem a pretensão de levar a conclusão de que não há
diferenças entre esse dois ramos de estudos. Aquela consideração
limita-se à questão referente ao fato de que nem limita-sempre as ciências sociais têm
sido consideradas como produtoras de um conhecimento que se
caracterize pela objetividade científica, que fundamenta as ciências
naturais. Sendo sabido que houve e em certa medida ainda há reservas a
aceitação do caráter científico inerente e próprio ao conhecimento
vinculado aos fatos sociais ou decorrentes das relações humanas46.
Atualmente, fala-se na pesquisa quantitativa referindo-se às
características dos trabalhos realizados nas ciências naturais e em
pesquisa qualitativa como sendo aquela forma de abordagem mais
indicada para as ciências sociais. Os critérios que envolvem a
diferenciação entre essas duas formas de desenvolvimento da pesquisa
são interessantes, pois desloca a questão do método47 para um enfoque
relativo aos objetivos que se pretende alcançar com a realização do
46
ARNAUD, André-Jean; DULCE, Maria José Farinas. Introdução à análise sociológica dos sistemas jurídicos, p. 113. Se tivesse que destacar um elemento constante no desenvolvimento da “ciência social”, desde o momento e que, em meados do século XIX, Comte fundou a Sociologia, esse elemento seria o debate epistemológico ou metodológico permanente e, concomitantemente, polêmico, acerca do status científico das Ciências Sociais.
47
trabalho científico, afastando-se do critério que considera como
fundamental no processo de conhecimento a posição do observador em
relação ao objeto pesquisado48. Isto vincula o estudo à construção de um
conhecimento que tem uma forte referência prática ligada ao modo de
desenvolvimento e objetivos da pesquisa.
A pesquisa quantitativa ou positivista adota uma metodologia
que produz um conhecimento de caráter descritivo, formalista,
não-analisador e acrítico. O trabalho de caráter quantitativo procura a
explicação dos fenômenos ou objetos estudados através de uma
descrição da realidade social sem julgamento de valores e preocupações
críticas, tomando como ponto de partida a verificação de hipóteses
escolhidas a priori.
O valor científico de uma sociologia explicativa-quantitativa
está vinculado a uma pretensa objetividade do conhecimento, o que
poderia possibilitar a formulação de leis gerais aplicáveis aos fatos
sociais e capazes tanto de explicá-los como de prevê-los.
Os procedimentos próprios a uma metodologia do tipo
quantitativa se fundamentam em dados estatísticos, objetiváveis,
quantificáveis e descontextualizados. Criam uma perspectiva
48
macrossociológica, na medida em que os sistemas sociais são
considerados em sua totalidade. Nessa situação, o objeto das ciências
sociais é equiparado ao objeto das ciências naturais.
As pesquisas voltadas para o estudo dos fenômenos sociais que
adotam uma metodologia do tipo quantitativa consideram o referencial
próprio das ciências naturais para determinar um tipo de conhecimento
que se baseie nos critérios de cientificidade modelados pelo positivismo.
A atitude científica, então, é pautada em procedimentos objetivos,
quantitativos, homogêneos, generalizadores, diferenciadores; as relações
causais são ligadas à investigação da natureza ou a estrutura do fato
estudado, o extraordinário é um caso particular do que é regular, normal
e freqüente49.
A metodologia qualitativa visa a uma pesquisa que propõe a
descrição compreensiva do sentido das ações humanas. A realidade
social é considerada como algo em diálogo, em interação, em
comunicação contínua com o pesquisador.
A ação social é tomada quanto à sua intencionalidade e o
momento subjetivo passa para o primeiro plano na realização dos
estudos. O objeto de estudo não é transcendente ao sujeito cognoscente,
sendo que este, necessariamente, fica implicado no objetivo do
49
conhecimento50. As pesquisas qualitativas operam com o pluralismo
metodológico.
Sob uma perspectiva qualitativa há uma abordagem
microssociológica, o que consiste em estudar os processos concretos de
comunicação e de interação da ação social. Acredita-se que essas
pesquisas permitam dar um sentido interpretativo aos dados da análise
empírico-quantitativa. A pesquisa desenvolvida com base em uma metodologia
qualitativa se caracteriza por ser construtivista e compreensiva. Sua base filosófica está
principalmente ligada à dialética51 e à fenomenologia52.
Pode-se entender a dialética como um método de enfoque da
realidade sob o prisma de sua dinâmica, portanto, sendo
constitutivamente mutável e contraditória. Através da análise dialética
50
A interdependência e a indissociabilidade são as marcas entre o sujeito e o objeto, ou seja, o sujeito observador é parte integrante do processo cognoscente, dando aos fenômenos significado. O objeto não é inerte, é portador de significados oriundos das relações com os sujeitos.
51
MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia, p. 185-187. Com efeito, dialética significa em Hegel, em primeiro lugar, o momento negativo de toda realidade. Dir-se-á que, por ser a realidade total de caráter dialético – em virtude da identidade prévia entre a realidade e a razão, identidade que faz do método dialético a própria forma em que a realidade se desenvolve – em virtude da identidade prévia entre a realidade e a razão, identidade que faz do método dialético a própria forma em que a realidade se desenvolve – esse caráter afeta o que ela tem de mais positivo. ... A noção de dialética, o método dialético e, por vezes, a chamada “lógica dialética” são centrais no marxismo ... . Um caráter comum a quase todos os pensadores marxistas é fazer da dialética um método para descrever e entender não, como em Hegel, o autodesenvolvimento de “a Idéia”, mas a realidade enquanto realidade “empírica”. ... Em sua Crítica da Razão Dialética, Sartre apresenta a atividade dialética como “totalizante”. A razão dialética constitui um todo que deve fundar-se a si mesmo.
52
seria possível descobrir o significado das ações e das relações que se
ocultam nas estruturas sociais.
A fenomenologia consiste em uma abordagem do objeto em
que deve ser ultrapassada sua aparência para alcançar a essência de sua
realidade fenomênica, para tanto usa-se o interacionismo e a
etnometodologia. O interacionismo, pautado na teoria do ator, funda-se
na idéia básica segundo a qual os indivíduos forjam comportamentos
antecipados de outrem e agem em razão de comportamentos esperados
dos outros. Assim, o indivíduo é entendido como um intérprete do
mundo que o rodeia. A etnometodologia investiga o cotidiano dos
pesquisados e o significado que eles atribuem aos acontecimentos diários
e triviais. A análise fenomenológica tem como referência, ou ponto de
partida, o indivíduo.
A respeito do conhecimento formulado no campo das ciências
sociais ou das ciências naturais, no que tange à sua natureza científica,
reporta-se a Boaventura de Souza Santos que, ao inspirar-se em Jacques
Rousseau (1750) a propósito de alguns questionamentos elementares a
respeito da ciência e do senso comum, indaga “pelo papel de todo o
conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou no
positivo ou negativo da ciência para a nossa felicidade”53. Até que ponto
a ciência melhorou ou poderá melhorar a vida humana?
A complexidade desta pergunta parece irredutível, porque na
cultura ocidental foi incorporada à idéia da ciência a crença quanto ao
avanço tecnológico e progresso, sendo decorrência disso os benefícios
materiais aos quais as pessoas passaram a ter acesso54 a partir da
elaboração de um conhecimento marcado por especificidades que lhe
confere o caráter de científico. Contudo, não se pode negar que referido
“progresso científico” trouxe conseqüências dramáticas para a vida
humana individual e coletiva. A devastação dos ecossistemas (fauna e
flora), o que ameaça a qualidade de vida em período de tempo muito
próximo; a violência globalizada através das organizações de caráter
ideológico-religioso (terrorismo islâmico e de Estado)55 e criminosa
(tráfico internacional de drogas e armas)56; a solidão e o sedentarismo
das pessoas, levando as mesmas ao uso cada vez mais
disseminado de antidepressivos e drogas lícitas do
53
SANTOS,Boaventura de Souza.Um discurso sobre as ciências, p. 8-9.
54
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, p. 258. Por que, então, temos a ilusão do progresso e de evolução? Por dois motivos principais: ... 1 ... Do lado do cientista, o progresso é uma vivência subjetiva; ... 2. do lado dos não cientistas, porque vivemos sob a ideologia do progresso e da evolução do “novo” e do “fantástico”. Além disso, vemos os resultados tecnológicos das ciências: naves espaciais, computadores, satélites, fornos de microondas, telefones celulares, cura de doenças julgadas incuráveis, objetos plásticos descartáveis, e esses resultados tecnológicos são apresentados pelos governos, pelas empresas e pela propaganda como “signos do progresso” e não da diferença temporal. Do lado dos não cientistas, o progresso é uma crença ideológica. (grifo nosso)
55
BARELA, José Eduardo. O massacre dos inocentes. Revista Veja, p. 106-109.
56
comportamento57, bem como as doenças (como a obesidade)
exigindo tratamentos cada vez mais agressivos à fisiologia humana;
exemplificam os múltiplos aspectos que envolvem a questão de
afirmar-se acriticamente as maravilhas produzidas pelo conhecimento científico
na contemporaneidade.
Duas observações são pertinentes, a posição apresentada a
respeito da ilusão quanto à melhoria da qualidade de vida a partir do
conhecimento científico e, sobretudo, de seu progresso não tem o
objetivo de desconsiderar as conquistas das ciências natural e social, mas
de contextualizar o Homem, pois não se usufrui esses benefícios sem
contrapartida. Vários problemas inerentes à vida humana foram
resolvidos, no entanto, vive-se em um mundo repleto de outros tantos
problemas à espera de solução. O que se pretende é afirmar as diferenças
nos modos de vida em cada tempo, sempre repletos de expectativas.
Ressalta-se, ainda, que é irrenunciável o papel da ciência na condução do
conhecimento em busca de uma melhoria geral na condição de existência
do Homem.
A partir das considerações anteriores, é reafirmada a posição
segundo a qual é possível especular que, no paradigma emergente, “a
distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais deixou de
57
ter sentido e utilidade”58. Isto se deve a quê, segundo Boaventura de
Sousa Santos;
a concepção mecanicista da matéria e da natureza a que
contrapõe, com pressuposta evidência, os conceitos de ser
humano, cultura e sociedade. Os avanços recentes da física
e da biologia põem em causa a distinção entre orgânico e
inorgânico, entre seres vivos e matéria inerte e mesmo
entre o humano e o não-humano59.
Há uma convergência entre as diferentes formas de
conhecimento, haja vista uma ontologia renascida na contemporaneidade
em decorrência das frustrações que as restrições cientificistas60 criaram
através das especialidades e compartimentação do conhecimento. A
prometida redução da complexidade proposta através da subordinação do
conhecimento ao método de análise do objeto revelou-se inconsistente,
pois o Homem continua sem resposta para problemas fundamentais
relativos à sua existência.
58
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências, p. 37.
59
Idem, p. 37.
59
CHAUÍ, Marilena. Op. cit., p. 280. O cientificismo é a crença infundada de que a ciência pode e deve conhecer tudo, que, de fato, conhece tudo e é a explicação causal das leis da realidade tal como esta é em si mesma.
2.4 QUESTÕES A RESPEITO DO ESTUDO DO DIREITO.
Abordados alguns temas a respeito da produção do
conhecimento e suas implicações para a condição da vida humana,
considera-se oportuno tratar dessas questões no âmbito do direito. Neste
sentido, há problemas que devem ser demarcados e, na medida do
possível, estudados com vistas à contextualização do direito no quadro
geral dos saberes.
O direito, como objeto de estudo, atende aos pressupostos
necessários para identificação como um conhecimento que tenha a
natureza de científico?
Qual é o objeto de estudo do direito?
Se os estudos a respeito do Direito têm o caráter científico, a
qual ramo da ciência o direito estaria afeito?
Esses problemas são pertinentes ao método, como instrumento
que encaminha o processo de análise do objeto, a partir de sua
fragmentação, classificação e conceituação, basicamente. Portanto, não
se trata de resolver o problema, mas de contextualizá-lo, considerando