Leandra Domingues Silvério
Reforma agrária no Triângulo Mineiro:
Memórias, histórias e lutas de assentados(as) dos
Projetos de Assentamento Emiliano Zapata e 21 de
Abril (1980-2012)
Doutorado em História Social
P
ONTIFÍCIAU
NIVERSIDADEC
ATÓLICA DES
ÃOP
AULOPUC-SP
Leandra Domingues Silvério
Reforma agrária no Triângulo Mineiro:
Memórias, histórias e lutas de assentados(as) dos
Projetos de Assentamento Emiliano Zapata e 21 de
Abril (1980-2012)
Doutorado em História Social
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutora em História e área de concentração História Social sob a orientação da Profª Drª Heloísa de Faria Cruz.
Aos Trabalhadores rurais Sem Terra do Brasil.
Agradecimentos
Agradecimentos
Agradecimentos
Agradecimentos
ESTE TRABALHO ENCERRA uma trajetória de muitos anos na pós-graduação da
PUC/SP entre o mestrado e o doutorado, período em que tive a oportunidade de conhecer e estreitar relações com pessoas que se tornaram importantes e de diferentes maneiras fazem parte da minha história e das minhas memórias. Também fui conhecendo, ao longo dos anos de doutorado e em outros lugares, outras e importantes pessoas que marcaram minha vida. A todos vocês agradeço por compartilharem minhas inquietações, alegrias e conquistas.
À professora Heloísa de Faria Cruz, que foi uma companheira nesses anos e sem cuja orientação e amizade não teria conseguido superar desafios e concluir mais esse ciclo da minha vida. Agradeço, principalmente, por ter me permitido trabalhar com aquilo de que realmente gosto. Aqui as palavras de agradecimento serão insuficientes, mas quero registrar meu profundo respeito e amizade.
A todos os assentados que deram entrevistas, sem os quais esse trabalho não seria possível. Obrigada pela disposição em falar sobre suas vidas e suas concepções, sempre atendendo-me com tanto respeito e atenção.
Ao Edgar da Silva Gomes, uma das pessoas mais lindas e generosas que eu já conheci. Sem você para me ajudar com as questões burocráticas da PUC/SP, e que demandam um tempo precioso para quem não mora em São Paulo, meu doutorado teria ficado mais complicado. Edgar, muito obrigada! Todas as vezes que precisei você esteve por perto.
A Celeida Maria Silvério e Sandoval Silvério, meus pais, companheiros de todas às horas, sendo ambos minha alegria nessa vida. Obrigada por tudo!
À Gláucia Domingues Silvério, minha querida irmã, guerreira e amiga, obrigada pelas sugestões pertinentes.
A A A
AGRADECIMENTOSGRADECIMENTOSGRADECIMENTOSGRADECIMENTOS
Ao Jiani Fernando Langaro, um amigo prestativo; agradeço particularmente pelas conversas e ligações telefônicas na hora certa, que tanto me animaram.
À Idalina, uma querida amiga, obrigada pela estadia em sua casa. Com certeza isso me ajudou a fazer o doutorado.
À Ana Carolina Ayres, pela amizade e pela acolhida em sua casa sempre que precisei.
À Vânia Vaz, companheira e grande amiga, valeu pelo incentivo.
À colega de turma Rosana, que também me acolheu em sua casa.
Ao Elias Veras, que irradia a alegria de viver.
Ao Tadeu Pereira dos Santos, cujas palavras e amizade foram importantes num momento em que parecia tão difícil começar a escrever esta tese.
Ao Raphael Alberto Ribeiro, que torceu para que tudo desse certo, sempre muito atencioso.
À Rogéria Isobe. Não tenho como expressar o agradecimento pela sua amizade, pelo apoio e incentivo ao meu doutorado, pelas conversas sempre tão animadas. Com certeza o trabalho profissional fica melhor com pessoas como você.
Ao Rodrigo de Freitas Costa, que compartilhou angústias e inquietações deste trabalho, sempre com incentivo regado a ótimas conversas.
À Célia Rocha Calvo, que sempre torceu pela realização do meu doutorado.
Às professoras Olga Brites e Mirna Busse Pereira, pela leitura precisa e sugestões no exame de qualificação que tanto me ajudaram a nortear este trabalho.
A todos os membros da banca examinadora por terem aceitado o convite.
Aos demais professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC/SP pela oportunidade de aprendizagem.
A todos os funcionários da PUC/SP que sempre foram prestativos.
À Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, pelas informações e acesso à cópia do Processo Administrativo do PA 21 de Abril. Agradeço especialmente à Kamila Borges Alves da Diretoria de Controle Processual, pelas informações prestadas.
Ao senhor Bruno Cunha chefe da Divisão de Obtenção de Terras do INCRA – SR 06, pelas informações prestadas.
À Maria Beatriz V. de Oliveira, pela revisão e à Talitta Tatiane M. Freitas, pela formatação da tese, à Maria Denise Bisinotto, pelos esclarecimentos técnicos da sentença judicial na Ação Civil Pública que diz respeito ao licenciamento ambiental. E a todos que participaram direta ou indiretamente deste trabalho.
S
UMÁRIOResumo- - -
VIIIAbstract- - -
IXLista de Mapas, Fotografias e Tabelas- - -
XLista de Abreviaturas e Siglas - - -
XIConsiderações Iniciais - - - 01
Capítulo 1:
A constituição dos Sem Terra no Triângulo Mineiro - - -
34
1.1 – O Triângulo Mineiro na rota da expansão do capital no campo e na cidade 36
1.2 – A luta pelo assentamento Emiliano Zapata – MST 58
1.3 – A luta pelo assentamento 21 de Abril – MLST 87
Capítulo 2:
O assentamento de reforma agrária- - -
118
2.1 – Experiências de organização política e social em assentamento 119
2.2 – Aprendendo a lidar com os novos desafios 147
Capítulo 3:
Expectativas dos assentados dos PAs Emiliano Zapata e 21 de Abril - - -
197
3.1 – As lutas e seus horizontes na cidade e no campo 198
3.2 – Experiências e respostas dos assentados ao desafio da produção 223
Capítulo 4:
Os assentados e a agricultura nos planos de governo- - -
252
4.1. – Políticas públicas advindas das pressões dos trabalhadores rurais 253 4.2 – Significados dos créditos rurais e programas de governo para os
assentados 265
R
ESUMOESTA TESE ANALISA AS experiências sociais na luta pela reforma agrária de assentados(as) do Projeto de Assentamento (PA) Emiliano Zapata, localizado no município de Uberlândia e criado em 2004, e do PA 21 de Abril, localizado no município de Veríssimo e criado em 2005, ambos na região do Triângulo Mineiro. Em meio ao processo de grandes transformações das relações sociais no campo brasileiro nas últimas décadas, em especial no Triângulo Mineiro, privilegiando a pesquisa com a história oral e interpretando um conjunto de depoimentos de trabalhadores(as) desses PAs, problematiza caminhos, modos e sentidos de suas lutas pela manutenção de seus lotes após a conquista da terra. Na relação entre história e memória, aborda questões relativas aos desafios cotidianos de viver no e do assentamento e como nesse novo território os trabalhadores assentados se organizam por meio de valores e costumes adquiridos nas experiências das lutas anteriores. Analisa a continuidade da luta após a conquista da terra e como os trabalhadores significam essa luta revelando perspectivas do presente e projeção de futuro como assentados. Problematiza também suas práticas e concepções diante das políticas públicas destinadas aos produtores assentados e discute as mudanças de tais políticas em décadas recentes em meio às transformações sobre o papel e a importância da pequena agricultura. O estudo está organizado em quatro capítulos que discutem os seguintes temas: a formação social e política dos dois grupos de assentados e dos PAs; as experiências dos trabalhadores na terra conquistada e seus modos de organização e práticas no cotidiano; as expectativas dos trabalhadores no que se refere aos projetos ligados à vida rural na busca de autonomia e liberdade; por fim, as ações e lutas dos trabalhadores assentados para manterem o direito de viver no/do campo por meio do acesso às políticas públicas de financiamento e investimento na reforma agrária.
Palavras–chave: Reforma agrária; Trabalhadores Sem Terra; Projeto de Assentamento (PA); Memórias e Histórias.
A
BSTRACTTHIS THESIS EXAMINES the social experiences in the struggle for agrarian reform settlers
of the Settlement Project (PA) Emiliano Zapata, located in Uberlândia and created in 2004, and Settlement Project 21st April, in the city of Veríssimo and created in 2005, both in the Triângulo Mineiro region. During the process of major transformation of social relations in the Brazilian countryside in recent decades, particularly in the Triângulo Mineiro, focusing on research with oral history and interpreting a set of statements from workers of these Settlement Projects, it discusses paths, ways and meanings of their struggles for maintaining their own plots of land after the conquest. In the relationship between history and memory, it addresses issues concerning the daily challenges of living and nesting in this new territory and how these settlers organize themselves by means of values and customs acquired in previous struggles. It examines the continuity of the fight after the conquest of the land and how the rural workers give meaning to this fight revealing current perspectives and projected future as settlers. It also problematizes their practices and views on public policies for the settlers and discusses the changes of such policies in recent decades amid the transformations on the role and the importance of smallholder agriculture. The study is organized into four chapters that discusses the following topics: social and political education of both groups of settlers and of the Settlement Projects; the experiences of workers in the conquered land and their organization and practices on their daily lives; the expectations of workers regarding projects related to rural life in the pursuit of autonomy and freedom; and finally, actions and struggles of settlers to maintain the right to live on/from the land by means of being able to have access to public funding and investment policies in the agrarian reform.
L
ISTA DEM
APAS,
F
OTOGRAFIAS ET
ABELASLISTA DE MAPAS
Mapa 1: Localização dos PAs 21 de Abril e Emiliano Zapata em meio
às usinas de açúcar e álcool no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba/MG--- 48
Mapa 2: Localização das ocupações de terra no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba – 2001 a 2005--- 74
LISTA DE FOTOGRAFIAS
Fotografia 1: Construção do sistema de plantio Mandalla no PA
Emiliano Zapata--- 245
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Localização das principais usinas de açúcar, etanol e/ou
Bioeletricidade localizadas em municípios do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba--- 45
L
ISTAS DE ABREVIATURAS E SIGLASAAF – Autorização Ambiental de Funcionamento
ABCZ – Associação Brasileira dos Criadores do Zebu ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária
ACAR – Associação de Crédito e Assistência Rural
ACIAPU – Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Uberlândia
AIA – Avaliação de Impacto Ambiental APP – Área de Preservação Permanente
APR – Animação Pastoral e Social no Meio Rural
ARL – Área de Reserva Legal
ATER – Assistência Técnica e Extensão Rural
ATES – Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária CALU – Cooperativa Agropecuária LTDA Uberlândia
CCL – Comissões Camponesas de Luta CCU – Contrato de Concessão de Uso
CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais
CERTRIM – Cooperativa dos Empresários Rurais do Triângulo Mineiro
CIF – Companhia de Integração Florestal CIMI – Conselho Indigenista Missionário
CLST – Caminho de Libertação dos Sem Terra CMAA – Companhia Mineira de Açúcar e Álcool
CO/SP – Comissão Operária de São Paulo
Conab – Companhia Nacional de Abastecimento CONAMA – Conselho Nacional de Meio Ambiente
CONCRAB – Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura
COPAM - Conselho Estadual de Política Ambiental
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CPT – Comissão Pastoral da Terra DAP – Declaração de Aptidão
DATALUTA – MG – Banco de Dados da Luta Pela Terra em Minas Gerais DNTR/CUT – Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da Central Única dos Trabalhadores
DHSA – Desenvolvimento Holístico Sistêmico Ambiental EIA/RIMA – Estudo e Relatórios de Impacto Ambiental
EMATER-MG – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais
EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária ET – Estatuto da Terra
ETR – Estatuto do Trabalhador Rural
FAEMG – Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais
FERUB – Fundação Educacional Rural de Uberlândia
FETAEMG – Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de
Minas Gerais
FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
FNRA – Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo
ha – Hectare
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil IEF – Instituto Estadual de Florestas
ILPF – Integração Lavoura, Pecuária e Floresta
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
INCRA/MG – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de Minas Gerais
LCP – Liga dos Camponeses Pobres
LCP/CO – Liga dos Camponeses Pobre Centro-Oeste LI - Licença de Instalação
LO - Licença de Operação LP – Licença Prévia
MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens MCR – Manual de Crédito Rural
MCT – Ministério de Ciência e Tecnologia
MDA- Ministério do Desenvolvimento Agrário
MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
MLS – Movimento de Luta Socialista
MLST – Movimento de Libertação dos Sem Terra
MLST-L – Movimento de Libertação dos Sem Terra de Luta MLT – Movimento de Luta pela Terra
MMC – Movimento das Mulheres Camponesas MME – Ministério de Minas e Energia
MP – Medida Provisória
MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores
MPRA – Movimento Pela Reforma Agrária
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MT – Movimento dos Trabalhadores
MTL – Movimento Terra, Trabalho e Liberdade
MTL-DI – Movimento Terra, Trabalho e Liberdade – Democrático e
Independente
MTST – Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto
ONGs – Organizações Não Governamentais
OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
PA – Projeto de Assentamento
PAA – Programa de Aquisição de Alimentos
PACTo-MG – Programa de Apoio Científico e Tecnológico aos Assentamentos de Reforma Agrária/Minas Gerais
PADAP – Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba PCI – Programa de Crédito Integrado do Cerrado
PDA – Plano de Desenvolvimento do Assentamento
PEC – Projeto de Emenda Constitucional
PGPAF – Programa de Garantia de Preços da Agricultura Familiar
PMDI – Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado PMN – Partido da Mobilização Nacional
PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar
PNRA – Plano Nacional de Reforma Agrária
POLOCENTRO – Programa para o Desenvolvimento dos Cerrados
PPL – Pastoral Popular Luterana
PROCERA – Programa de Crédito Especial para Reforma Agrária
PRODECER – Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados
PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar PRONERA – Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária
PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira PT – Partido dos Trabalhadores
SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
SEMAD – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
SIPRA – Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária
SMAA – Secretaria Municipal de Agropecuária e Abastecimento de
Uberlândia
SNCR – Sistema Nacional de Crédito Rural
SRU – Sindicato Rural de Uberlândia STR – Sindicato dos Trabalhadores Rurais
SUPRAM TM/AP – Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba
Considerações Iniciais
C
O
N
S
I
D
E
R
A
Ç
Õ
AS EXPERIÊNCIAS SOCIAIS dos trabalhadores Sem Terra em meio ao processo de grandes transformações das relações sociais no campo brasileiro, em especial no Triângulo Mineiro nas últimas décadas, são o interesse de minhas preocupações e produções acadêmicas desde a graduação. Sobre esse processo histórico de transformações registram-se a expressiva expansão da luta de movimentos sociais pela reforma agrária e de suas conquistas, bem como o avanço das formas capitalistas de produção no campo, resultado da chamada modernização conservadora da agricultura (Cf. SILVA, 1982) e do avanço do que se convencionou denominar, principalmente a partir dos anos 1990, de agronegócio. Essas mudanças trouxeram e continuam trazendo impactos significativos sobre as condições de viver e de trabalhar dos(as) trabalhadores(as), principalmente no meio rural em diferentes regiões do país. Impactos que se traduzem em diferentes pressões e desafios, ante os quais esses trabalhadores persistem reorganizando seu cotidiano, engajados na luta pelo direito à terra, à vida e ao trabalho sob outros e diferentes paradigmas, sobretudo com dignidade e autonomia.
Essas lutas e condições históricas são acirradas na mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, onde trabalhadores engajados em diferentes movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) e mesmo o Movimento Sindical coordenado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura em Minas Gerais (FETAEMG), expandiram suas lutas de maneira expressiva e conquistaram diversos assentamentos da reforma agrária, principalmente a partir da década de 1990.
Para uma noção do que isso significa entre os anos 1986 a 2010, registra-se a criação de 85 assentamentos contemplando o total de 4.455 famílias em uma área de 121.041 hectares. Os anos de 1999 e 2005 são emblemáticos: no primeiro ocorreram 13 assentamentos de 397 famílias em áreas que chegam ao total de 13.282 hectares e no segundo foram criados 15 assentamentos de 1.027 famílias em área de 24.979 hectares (LAGEA – IG/UFU; CLEPS JR (Coord.), 2011, p. 72).
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 2
fomentavam a integração entre a indústria e a agricultura, formando os complexos
agroindustriais (Cf. MÜLLER, 1989) e assim tornando o Triângulo Mineiro/Alto
Paranaíba polo de produção de grãos. Sobretudo, essas políticas tidas como modernizadoras influenciaram e agravaram a concentração fundiária na mesorregião, onde o coeficiente de Gini, medida internacional do grau de desigualdade ou concentração da distribuição da renda ou de qualquer outro atributo, por exemplo, da terra, historicamente se manteve elevado por existirem aí grandes extensões de terras sob a posse de uma minoria. É importante observar que em anos recentes, com o incentivo governamental ao setor da cana e do álcool no Brasil, o local está no alvo da expansão dos principais grupos econômicos e empresariais desse setor.
Desse modo, o tema de pesquisa desta tese são as lutas dos(as) trabalhadores(as) assentados(as) no Projeto de Assentamento (PA)1 de nome Emiliano Zapata no município de Uberlândia e no PA 21 de Abril no município de Veríssimo, ambos localizados na região do Triângulo Mineiro.2 Seu objetivo específico é investigar as experiências sociais e históricas desses(as) trabalhadores(as) no processo constituinte de suas lutas pela conquista e pela manutenção dos seus lotes de terra.
O PA Emiliano Zapata foi conquistado pelos trabalhadores organizados e engajados no MST desde 1999 e criado em 2004 na fazenda de nome Santa Luzia, decretada improdutiva e de interesse social e por isso desapropriada para fins de reforma agrária pela União, assentando 24 famílias que compuseram a Relação de
1
Nesta tese os assentamentos em estudo serão identificados seguindo os padrões e denominações do INCRA, ou seja, Projeto de Assentamento (PA), sigla referente ao tipo de Assentamento Federal. No Portal do INCRA está disponível a Relação de Projetos de Reforma Agrária extraída em arquivo PDF do Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária (Sipra) por ordem de Superintendência Regional do INCRA, data de criação e reconhecimento do PA, além de outras importantes informações, como município onde se localiza, capacidade de famílias, sua área total e a fase de implantação na qual se encontra. Essas fases são identificadas da seguinte forma: 00 – Em obtenção; 01 – Pré-Projeto de Assentamento; 02 – Assentamento em criação; 03 – Assentamento criado; 04 – Assentamento em instalação; 05 – Assentamento em estruturação; 06 – Assentamento em consolidação; 07 – Assentamento consolidado. Vale mencionar que a Relação de Projetos de Reforma Agrária disponível no Portal do INCRA até a conclusão desta tese é datada de 18 de agosto de 2011, constando que os PAs Emiliano Zapata e 21 de Abril se encontram na fase 05. Relação de Projetos de Reforma Agrária pode ser acessado em: BRASIL. Relação de Projetos de Reforma Agrária. I CRA, 31 Jan. 2012. Disponível em: <http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/projetos-e- programas-do-incra/relacao-de-projetos-de-reforma-agraria/file/1115-relacao-de-projetos-de-reforma-agraria>. Acesso em: 16 jun. 2012.
2
Beneficiários (RB) do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). O PA 21 de Abril, conquistado pelos trabalhadores organizados no MLST desde 2001, foi criado em 2005 a partir da compra das fazendas Santo Antônio/Marimbondo pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) para o assentamento de 77 famílias beneficiárias da reforma agrária.
No decorrer da pesquisa a problemática de investigação foi se delineando no sentido de se compreender: o que é, pela ótica dos trabalhadores, a reforma agrária nessa região, ou seja, os significados atribuídos pelos(as) assentados(as) ao processo que nesse momento histórico é denominado e que eles denominam ou não de reforma agrária; como os assentados e outros podem interpretar esse processo histórico por meio das memórias, histórias e lutas desses trabalhadores; o que tem significado para a história e memória dos Sem Terra, por exemplo, trabalhadores não desistirem nem comercializarem os lotes de terra como alternativa às dificuldades e desafios do cotidiano e da condição de assentado. Portanto, o que busco é compreender e interpretar historicamente como são e quais os significados das condições de vida, de trabalho e de lutas dos assentados em análise e como eles interpretam e avaliam as políticas públicas destinadas ao agricultor assentado que desde 1996 foi incluído no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) após a extinção do Programa de Crédito Especial para Reforma Agrária (PROCERA), criado em 1985 pelo Conselho Monetário Nacional. Ainda procuro interpretar nessa conjuntura como se configuram as disputas política e econômica dos projetos e modelos de produção para o campo, entre o agronegócio e a agroecologia, refletindo sobre as motivações, perspectivas, respostas e projetos dos assentados.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 4
Caldart3, ao analisar tais questões, observa em sua obra Pedagogia do Movimento Sem
Terra (2004) que o MST nunca utilizou em seu nome “nem o hífen e nem o s” e, ainda,
como o uso social do nome Sem Terra alterou até mesmo a norma sobre a flexão de número: consagrou-se a expressão os sem-terra no dicionário Luft edição de 1998.
O meu interesse em pesquisar as experiências históricas dos Sem Terra do MST engajados no grupo identificado pelo nome com o qual eles batizaram o acampamento, Emiliano Zapata, é de longa data, desde estudos realizados na graduação para a pesquisa da monografia (SILVÉRIO, 2003) e, posteriormente, da dissertação (SILVÉRIO, 2006). Isso se articula mais amplamente ao meu posicionamento político diante das desigualdades sociais brasileiras geradas pela existência de uma absurda concentração de terras sob domínio de uma minoria. Essa visão levou-me, desde a segunda metade dos anos 1990, a aproximar-me dos movimentos sociais e a atuar junto a eles, em especial, no final dos anos 1990, junto ao setor de Formação do MST. E ao término dos estudos do mestrado, eu indicava como possibilidade a continuação da pesquisa no sentido de interpretar as experiências e novas expectativas construídas pelos trabalhadores na condição de assentados do PA Emiliano Zapata.
Nos referidos trabalhos acadêmicos, tanto na graduação quanto na pós-graduação, priorizei e procurei aprimorar um trabalho de produção de fontes orais que visou a problematizar tanto as experiências de deslocamentos desses trabalhadores entre a cidade e o campo na busca por melhorar e manter a condição de vida e de trabalho com autonomia e dignidade quanto a sua escolha de se tornarem militantes da reforma agrária. Nessa trajetória acadêmica e profissional, assumo o mesmo posicionamento de Déa Ribeiro Fenelon:
[...] se estamos lutando por algo, seja em nossa prática social, seja a acadêmica, é pelo reconhecimento da diversidade, da pluralidade, do direito de batalhar pela construção de projetos alternativos e, sobretudo, de considerar que a nosso ver estaremos produzindo uma história que será sempre política, porque inserida no seu tempo e comprometida com ele. Por isso, vale enfrentar qualquer debate, que leve em consideração essa possibilidade, na esperança de estarmos, de alguma maneira, com nosso trabalho ajudando a construir o futuro, na perspectiva transformadora a que sempre nos propusemos. (FENELON, 1993, p. 74-75).
3
Nesse sentido, para a composição do projeto de pesquisa para o doutorado fiz revisão do acervo de fontes orais que produzi no decorrer dos anos 2001 a 2005 para as minhas pesquisas mencionadas anteriormente, cotejando-o com inquietações e preocupações mais gerais emergidas e amadurecidas diante da realidade sociopolítica e econômica do trabalhador rural no país. Portanto, este estudo apontou para a investigação de questões referentes à estrutura fundiária da região e avanço do agronegócio, à reforma agrária e as lutas dos trabalhadores por ela, às condições históricas de assentados e às perspectivas da agricultura familiar tanto nos planos de governo quanto para os assentados.
Portanto, esta tese analisa a temática e a problemática, fundamentalmente, por meio de narrativas dos assentados entrevistados. No total foram vinte e dois depoentes, doze homens e dez mulheres, cujos depoimentos foram colhidos no período entre 2001 e 2012. Como indico na apresentação individualizada de cada um deles, o contato com alguns, realizado no início dos anos 2000, foi retomado uma ou duas vezes, resultando em narrativas de um mesmo sujeito com intervalo de até 10 anos. No entanto, grande parte dos depoimentos, mais exatamente treze, foi colhida entre 2010 e 2012: sete do PA Emiliano Zapata e seis do PA 21 de Abril.
A revisão de fontes orais possibilitou-me compor o projeto de pesquisa para o doutorado e menciono aqui os entrevistados naquele período e, de forma geral, algumas de suas condições. Inicio por João Pires de Deus, que é natural do município de Lagoa Formosa (MG), nascido no ano de 1952. No momento da única entrevista realizada no ano de 2001, no acampamento Emiliano Zapata, João estava casado e sua principal justificativa para a vinda, no ano de 1979, para Uberlândia era o desejo de tirar sua família do modo de vida e de trabalho aprendidos, isto é, a meação: “[...] era tirar as crianças daquela água ruim que a gente vivia lá na roça e também a gente estava cansado de ficar trabanhando na meia, né, aquele negócio de conhê cinquenta monti de minho, vinte e cinco pro patrão e vinte e cinco pra mim, né?”.4
Entrevistado uma vez no ano de 2001 foi Edgar Campos Dutra, natural do município de Pompéu (MG), nascido em 1938. Também era casado naquele momento e, no que se refere ao seu deslocamento para Uberlândia no ano de 1991, entre tantos motivos relatados, o de Edgar era o seu negócio de carvoaria ter falido, condição que o
4
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 6
levou para o trabalho na roça. Porém não julgou isso suficiente, decidindo, assim, partir para uma cidade grande. Por sugestão da esposa, escolheu Uberlândia em busca de outros trabalhos.
O acampado José Otenildo Pinto foi entrevistado uma vez no ano 2001 e outra vez no ano 2003 no acampamento. Natural do município de Joaíma (MG), nascido em 1954, era divorciado no tempo das entrevistas. Narrou sobre sua decisão de vir para Uberlândia por conta das imagens criadas e divulgadas, tanto pela mídia como por familiares e amigos que para Uberlândia haviam se deslocado, de que era uma cidade próspera e de grandes oportunidades de emprego. E assim José Otenildo também se dirigiu para Uberlândia no ano de 1990.
Abarcando o horizonte dos uberlandenses e da experiência de mulheres na luta pela reforma agrária, Rosana Maria dos Santos Cabral, nascida no ano de 1973, era casada no período de concessão das duas entrevistas, uma em 2001 e outra em 2003, ambas no acampamento. Sua peculiaridade estava no fato de ter nascido na cidade, porém ter construído as referências de vida e de trabalho na lida da roça junto à família em trabalhos temporários.
No ano 2001, iniciando a pesquisa que acompanha a trajetória da família Mota na luta pela terra, entrevistei uma vez José Firmo da Mota no acampamento. Era natural do município de Lagoa Formosa (Alto Paranaíba), nasceu em 1948 e faleceu em 2007, três anos após ser assentado. José Firmo já havia constituído família quando se deslocou para Uberlândia em 1991, também, segundo sua narrativa, em busca de outros meios de ganhar a vida e manter a família, já que a condição de meeiro tornou-se, no seu dizer, insuficiente e estafante.
Entrevistei também uma vez, no ano 2001, Maria Eleusa Mota, filha de José Firmo, nascida em 1972, na época casada, atualmente divorciada, mãe de uma adolescente, professora e atuante no setor de Educação do MST.5 Pude, assim, ampliar a compreensão das motivações da família Mota no seu deslocamento para Uberlândia e volta para o campo na condição de ocupantes de terra engajados no MST.
No ano de 2001 entrevistei uma vez, no acampamento, Francisco Jubiano de Freitas, natural do município de Currais Novos (RN), nascido em 1978. Em busca de
5
melhores condições de renda, deslocou-se para Uberlândia no ano de 1995, tendo como objetivo, como ele narrou, retornar um ano depois para sua cidade natal com algum pecúlio para ajudar a família. Em 2003 Francisco concedeu-me outra entrevista em minha residência em Uberlândia.6
Em 2005, no trabalho de produção das fontes orais, alguns desses trabalhadores foram novamente entrevistados, porém na condição legal de assentados da reforma agrária, já que o processo de assentamento das famílias do grupo Emiliano Zapata se iniciou em 2004. Nessa época também entrevistei, pela primeira vez, outros Sem Terra do grupo Emiliano Zapata. Portanto, foi entrevistado uma vez, por exemplo, o senhor João Moura dos Santos, natural de Itaberaba (BA) e nascido em 1948. Na época, e ainda hoje, João é casado com Eva Lima dos Santos – natural de São José de Pedra Dourada (MG), nascida no ano de 1954 –, que também me concedeu uma entrevista. No processo de deslocamento de um estado para outro, João e Eva se encontraram, se casaram e tiveram três filhos na cidade de Santo André (SP). O casal, em busca de melhores condições financeiras, saiu em andanças pelo país e, ao chegar a Uberlândia em 1984, resolveu nessa cidade permanecer com os filhos ainda pequenos.
Ainda no ano 2005 concedeu-me uma entrevista a assentada Teresa Pacheco do Carmo, que é natural de Patos de Minas, no Triângulo Mineiro, e nascida em 1959. No momento da entrevista era casada, como ainda o é, e sua vinda para Uberlândia foi no ano de 1986, após mudar de diferentes municípios no estado de Goiás e de Minas Gerais. A última estadia, antes de chegar a Uberlândia, foi em Patos de Minas. Passou por diferentes experiências de trabalho, como doméstica, na colheita do café e em outros trabalhos temporários.
No ano 2005, porém em dias diferentes, o casal Teresinha Gomes Nunes/Jonas Batista Nunes também foi entrevistado no local onde residem no assentamento. Teresinha é uberlandense e nasceu em 1957. Jonas Batista Nunes é natural do município de Abadia dos Dourados, no Alto Paranaíba, e nasceu em 1954. Jonas deslocou-se para Uberlândia em 1963 com os seus pais. Ao lembrar-se desse tempo, ele conta que a maior motivação para isso foi seus pais desejarem que os filhos estudassem.
6
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 8
Para esta tese, o que importa destacar sobre essas entrevistas e como e no que elas possibilitaram compor o projeto de pesquisa do doutorado é que todos esses trabalhadores tiveram inúmeras dificuldades de adaptação e alocação no mercado de trabalho na cidade de Uberlândia, estando as experiências vividas nesse agora
impregnadas do desencanto com a vida nessa cidade. Isso levou esses homens e mulheres a criar novas expectativas com a possibilidade de retorno para o campo sob outras condições, isto é, como ocupantes de terras assumindo a luta por um pedaço de chão e engajados na luta em um dos mais expressivos movimentos sociais ligado ao campo, o MST, forjando assim novas experiências, mas marcados pelas memórias de diversas vivências de e em outros lugares.7 Esse percurso instiga à análise da sua luta por melhores condições de vida tanto no campo como na cidade, análise que, entretanto, não pode deixar de considerar as perspectivas, os projetos, as desilusões (re)criadas na condição de militantes da reforma agrária.
No tocante ao período já de realização da pesquisa, ou seja, cursando o doutorado, a par dessas fontes orais selecionei trabalhadores do MST para novas entrevistas. Almejando ampliar a compreensão das transformações nas experiências históricas desses homens e mulheres, entrevistei novamente, em fevereiro de 2011, Maria Eleusa Mota, Francisco Jubiano de Freitas, Teresinha Gomes Nunes e, pela primeira vez, o assentado Vítor Caetano da Mota. Vítor, naquele momento com 32 anos de idade, é natural de Monjolinho de Minas (MG), um dos sete filhos de José Firmo da Mota, e o interesse pela sua entrevista deriva de ele ter sido assentado por ser filho de uma família acampada e não ter precisado ficar anos acampado vivendo debaixo da lona preta.
Em dezembro de 2011 entrevistei uma vez, na cidade de Uberaba, Aguinaldo da Silva Batista, 50 anos de idade, casado e natural de Córrego Dantas (Minas Gerais), pai de uma filha já falecida devido a um câncer em 2010 e de um rapaz. Aguinaldo deslocou-se para região de Uberaba junto com os pais em 1969. Seu pai veio trabalhar como vaqueiro e meeiro nas fazendas. Em 1976 mudaram-se para a cidade de Uberaba, mas mantiveram relação de trabalho com o campo. Somente em 1979 Aguinaldo foi para Uberaba estudar e trabalhar, passando pelo comércio, construção civil e indústria. É assentado no PA Olhos d’Água, no município de Sacramento (Alto Paranaíba), pelo
7
MST. Portanto, faz parte do grupo que consolidou o MST na região em estudo, atua nesse Movimento desde 1997, militando na sua direção e coordenação e proficuamente no grupo do Emiliano Zapata. Daí o interesse em sua entrevista.
Em fevereiro de 2012 entrevistei pela primeira e única vez Juarez Moura dos Santos e Flaviana Dias, tendo ambas as entrevistas sido realizadas na minha residência em Uberlândia. Juarez, com 31 anos de idade, é natural de Santo André (SP) e filho de João Moura dos Santos e Eva Lima dos Santos. Flaviana Dias, com 28 anos de idade, natural de São Simão (GO), entrou para o MST em 2001 quando, junto com o pai, acampou no acampamento Canudos do MST no município de Santa Vitória (Triângulo Mineiro). Flaviana é companheira de Juarez.
É importante dizer que a escolha dos trabalhadores do MST para participarem desta investigação associa-se ao fato de os escolhidos estarem juntos na luta desde 1999, exceto Vítor Caetano da Mota e Flaviana Dias. Vítor não chegou a viver como acampado, já Flaviana chegou a acampar em Santa Vitória e, quando do processo de assentamento, passou a compor a Relação de Beneficiários do PA Emiliano Zapata. Todos eles, com essas duas ressalvas, estão entre os fundadores do MST regional do Triângulo Mineiro. Portanto, estes(as) trabalhadores(as) escolhidos(as) registram uma história de luta por reforma agrária sem interrupções. Como será abordado no primeiro capítulo, eles compuseram um grupo de famílias dentro do acampamento Emiliano Zapata que não desistiu da luta diante dos inúmeros desafios e dificuldades e, no processo de criação de três assentamentos em três fazendas desapropriadas no município de Uberlândia em 2004, eles optaram por ficar na mesma área e batizaram o assentamento de Emiliano Zapata.
Portanto, o estudo é composto de um acervo de narrativas que dizem respeito a e/ou acompanham mais de uma década de transformações na vida desses(as) trabalhadores(as) que constituem o grupo Emiliano Zapata – MST. Entretanto o acervo veio a ampliar-se no doutorado, com o acréscimo de entrevistas com outros assentados(as) do PA de nome 21 de Abril, um grupo de trabalhadores que possui em sua origem ligação com outro movimento social, o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST). O PA 21 de Abril se localiza no município de Veríssimo, limítrofe de Uberaba e Uberlândia.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 10
nomeada para o cargo de professora de 3º grau da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) localizada na cidade de Uberaba – Triângulo Mineiro e, no intuito de desenvolver projetos em grupo de pesquisa institucional, fiz um levantamento e visitas a assentamentos de reforma agrária da região, tomando conhecimento da existência do PA 21 de Abril.
No decorrer do estudo, dei-me conta de que o grupo de famílias do PA 21 de Abril havia se formado em 2001 e era originário da organização do MLST. E, sobretudo, que ele tinha em comum com o do então acampamento Emiliano Zapata do MST, para além da causa da reforma agrária, terem-se encontrado, pelas circunstâncias da luta, dentro de uma mesma área de conflito agrário ocupada primeiramente pelo MST no município de Uberlândia, a fazenda onde se localiza a FERUB (Fundação Educacional Rural de Uberlândia). Partiu disso o interesse em ampliar a investigação sobre a reforma agrária no Triângulo Mineiro por meio das memórias, histórias e lutas desses outros assentados.
Do PA 21 de Abril, foi entrevistado uma vez, em novembro de 2010, o assentado João Pedro (pseudônimo), que exigiu ser assim identificado para evitar uma possível represália, o que indicou a existência de alguma tensão política vivida por esse e talvez outros assentados na região. João estava com 38 anos de idade na data da entrevista, é natural de Itumbiara (GO), casado, pai de um adolescente e uma criança. Deslocou-se com a família para a cidade de Centralina (Triângulo Mineiro) aos oito anos de idade. Entrou para o MLST com 29 anos de idade, passou por várias experiências de trabalho como autônomo e sua primeira experiência no MLST foi em 2001 no grupo 21 de Abril.
Em dezembro de 2011 entrevistei Eufrásia Maria dos Santos, na época com 53 anos de idade, casada, mãe de quatro filhos e natural de Patrocínio (Alto Paranaíba). Deslocou-se ainda na juventude, saindo desse município para morar em Centralina (Triângulo Mineiro), de onde partiu para integrar o grupo 21 de Abril em 2001. Eufrásia diz ter sido incentivada e motivada pelas experiências de seu cunhado, o qual é assentado da reforma agrária no município de Ituiutaba (Triângulo Mineiro).
ocupada de nome Nova Tangará no município de Uberlândia antes de se transferir definitivamente para o grupo 21 de Abril.
Entrevistei em março de 2012 Ricardo dos Santos Balbino. É natural de Araguari (Triângulo Mineiro), nasceu em 1983, casado, pai de um filho. Entrou para o grupo 21 de Abril na época em que esse estava acampado na FERUB, no ano de 2002. É filho de assentados do PA Zumbi dos Palmares – origem no MST, um assentamento do ano de 1998 localizado no município de Uberlândia. Segundo Ricardo, ele chegou a ser da coordenação do MLST na região.
Outra entrevista, em março de 2012, foi com Muniane Silva Santos, natural de Santa Vitória (Triângulo Mineiro), nascida em 1987 e mãe de um filho. Também é filha de assentados do PA Zumbi dos Palmares – MST. Entrou para o MLST, grupo 21 de Abril, junto com Ricardo, que é seu marido.
Ainda em março de 2012 entrevistei uma vez a assentada Rosilda Sousa Lopes, de 36 anos de idade, natural de Ituiutaba (Triângulo Mineiro), casada, mãe de um casal. Deslocou-se para Centralina com a família aos nove anos de idade, quando os pais foram em busca de trabalho levados por parentes. Foi criada na roça, sua experiência de trabalho é na roça com a família e na cidade como doméstica. Entrou para o grupo 21 de Abril em 2001 na primeira ocupação de terras desse grupo na fazenda Capim Branco, no município de Uberlândia.
No decorrer da pesquisa essas fontes orais foram cotejadas a outras, como matérias jornalísticas do Portal de notícias de Estado de São Paulo de 04 de maio de 2010,8 na mesma data o Portal da Prefeitura de Uberaba9 e o jornal online Correio de Uberlândia,10 que noticiaram a inauguração da usina de açúcar e álcool Vale do Tijuco da Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) em Uberaba, assunto que foi
8
PORTO, Gustavo. CMAA inaugura primeira usina em Uberaba-MG. Estadão, 04 maio 2010. Disponível em: <http://economia.estadao.com.br/noticias/neg%C3%B3cios,cmaa-inaugura-primeira-usina-em-uberaba-mg,16632,0.htm>. Acesso em: 10 jun. 2010.
9
PREFEITURA de Uberaba. <http://www.uberaba.mg.gov.br/portal/conteudo,9355>. Acesso em: 20
maio 2010.
10
UBERABA INAUGURA usina de etanol. Jornal Correio de Uberlândia, Uberlândia, 13 Maio
2010. Disponível em:
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 12
abordado também em sites11 de empresas ou associações do agronegócio, como a União dos Produtores de Bioenergia (UDOP) e o Brasilagro website, produzido pela A & K Editora Ltda. Portanto, foi propalado pela imprensa nacional, bem como pela local, que a CMAA, que tem como sócias a Pactual Capital Partners (PCP), administradora dos recursos dos acionistas do antigo banco Pactual, a JF CITRUS AGROPECUÁRIA LTDA e o fundo norte-americano com foco em energia ZBI Ventures (Ziff Brothers Investments), o qual terá um terço do capital da companhia,12 além de inaugurar a usina em Uberaba, tinha a previsão de que essa seria a primeira de três unidades a serem construídas na região do Triângulo Mineiro entre os municípios de Uberlândia, Veríssimo e Prata. A expectativa da CMAA, divulgada pela imprensa, é moer 12 milhões de toneladas de cana por ano, produzir 1 bilhão de litros de etanol e gerar 840 mil Megawatt-hora (Mwh), energia suficiente para abastecer uma cidade de 720 mil habitantes. Uberlândia, por exemplo, possui aproximadamente 650 mil habitantes.
O jornal Correio de Uberlândia13 e o site Página Rural14 divulgaram a expansão de outros dois grupos econômicos desse setor do agronegócio em Uberlândia, os quais já estavam em contato com produtores rurais da região para construir duas novas usinas sob o regime que eles chamam de “parceria”. Uma delas pertencente à Companhia Energética de Açúcar e Álcool do Triângulo Mineiro, formada pela sociedade entre o empresário Emerson Fittipaldi e a Comfrio – JS Citrus, e a outra, a Usina Nova Energia Açúcar e Álcool S.A., formada pelas empresas Chalet Agropecuária, EF Marketing, Banco BVA, Central Energéticas Planusi e JB Agropecuária. No momento do anúncio na imprensa os representantes das usinas afirmaram suas ações e intenções:
Representantes do grupo J.F Citrus, da Cia. Energética de Açúcar e Álcool do Triângulo Mineiro, reuniram-se, na última segunda-feira,
11
PORTO, Gustavo. CMAA inaugura primeira usina em Uberaba-MG. União dos Produtores de
Bioenergia, 5 Maio 2010. Disponível em:
<http://www.udop.com.br/index.php?item=noticias&cod=1066308#nc>. Acesso em: 20 maio 2010.
12
PCP Associa-se a fundo dos EUA em projeto de usinas. Brasil Agro, 31 Mar. 2009. Disponível em: <http://www.brasilagro.com.br/index.php?noticias/visualizar_impressao/12/15374>. Acesso em: 30 nov. 2011.
13
CASTRO, Margareth. Empresas vão arrendar terras para o cultivo. Jornal Correio de Uberlândia, Uberlândia, versão online atualizada em 21 Maio 2008. Disponível em: <http://www2.correiodeuberlandia.com.br/texto/2006/10/04/21460/empresas_vao_arrendar_terras_par a_o.html>. Acesso em: 22 out. 2011.
14
no auditório do Sindicato Rural de Uberlândia (SRU), com fazendeiros da região para esclarecer a formação societária do grupo e anunciar o início de operação de uma das duas unidades que terá na região para 2009. [...] O diretor do grupo J.F Citrus, José Raimundo Santos, esclarece que, apesar de ter sido a primeira reunião oficial, a empresa já está em contato com os produtores rurais há algum tempo. ‘Estamos com 15 mil hectares de terra consolidados na região, mas, em uma primeira fase, precisamos de 50 mil hectares’, disse. [...] A proposta feita aos produtores rurais é o arrendamento da área por dois ciclos da cana-de-açúcar, que seria entre 10 e 12 anos. A empresa está procurando parceiros num raio de 25 a 30 quilômetros da usina. José Raimundo defende essa distância que, se for maior, torna o negócio inviável devido os custos, principalmente com transporte e também por causa do plano diretor do governo do Estado. ‘Essa extensão é importante para não transformar o Triângulo Mineiro em monocultura e para a segurança do investidor’, esclareceu. [...] Para a primeira unidade, o plantio já foi iniciado e a intenção é que toda mão de obra empregada, tanto na construção quanto na operação, seja da região. ‘Queremos contratar profissionais da região, tanto técnico, administrativo e até os cortadores de cana. Depois vamos investir em treinamentos’, revelou o diretor-superintendente da Santa Elisa, Anselmo Lopes Rodrigues.15
As informações contidas nessas reportagens, cotejadas com as de artigos científicos sobre a expansão da monocultura da cana em áreas de assentamento (Cf. FERRANTE, 2007; RAMOS, 2006) suscitaram questões como esta: como se configurará a relação dos grandes, médios e pequenos produtores rurais com as usinas no Triângulo Mineiro diante da realidade de expansão delas e, especialmente, como ficarão os assentados da reforma agrária?
No momento solene de inauguração da usina Vale do Tijuco em Uberaba em 2010, o poder público se posicionou dizendo da importância daquele acontecimento e das consequentes transformações da região, que está passando, de polo pecuário e sojicultor, a integrar a concorrência da cana-de-açúcar. Segundo a fala do então prefeito de Uberaba, Anderson Adauto16 (Partido do Movimento Democrático Brasileiro -PMDB), transcrita nas reportagens mencionadas, essa seria a oportunidade histórica para que “os fazendeiros de Uberaba, Uberlândia e Veríssimo possam também ganhar dinheiro”. O prefeito relacionava isso (Cf. reportagens mencionadas) ao “preconceito da
15
CASTRO, Margareth. Empresas vão arrendar terras para o cultivo. Jornal Correio de Uberlândia, Uberlândia, versão online atualizada em 21 Maio 2008. Disponível em: <http://www2.correiodeuberlandia.com.br/texto/2006/10/04/21460/empresas_vao_arrendar_terras_par a_o.html>. Acesso em: 22 out. 2011.
16
PORTO, Gustavo. CMAA inaugura primeira usina em Uberaba-MG. União dos Produtores de
Bioenergia, 5 Maio 2010. Disponível em:
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 14
região” em relação à produção da cana-de-açúcar, associando-o ao sistema de outros tempos, quando o dono da usina era proprietário da terra e da fábrica, e ressaltando que “[...] agora, os acionistas vão receber de volta o dinheiro investido, mas estão dando oportunidade e condições” aos outros fazendeiros da região de lucrarem.
No presente trabalho, práticas como essas dos representantes dos poderes públicos no Triângulo Mineiro são problematizadas na medida em que é objetivo deles a construção de imagens sobre o campo e a cidade como prósperos e o lugar de oportunidades de renda monetária para aquele que se abrir para as novas formas de investimento de capital financeiro e/ou modalidades de trabalho. Mas as ponderações do prefeito Anderson Adauto podem indicar problemas ao se focar o lugar do pequeno produtor rural na condição de assentado na região abordada. Como os trabalhadores rurais pobres assentados estão olhando para essa questão, como estão lidando com sua posição no mercado em crescimento e sob quais condições?
Nessa direção, os assentados entrevistados analisaram como estão observando e vivendo essas questões. Ressalto as ponderações de Maria Eleusa Mota, em uma conversa informal no ano de 2010, sobre o cotidiano e as condições dos trabalhadores. De acordo com ela, havia naquele momento possibilidade dos seus pares, quando as usinas se estabelecessem na região e pressionados pelas insuficientes condições de produção e de vida, escolherem arrendar parte dos seus lotes ou mesmo plantarem cana-de-açúcar para fornecimento às usinas. Importante observar como a fala de Maria Eleusa Mota se insere e se relaciona ao momento em que há o avanço da monocultura da cana no Triângulo Mineiro, evidenciando o processo de crescimento desse tipo de agronegócio alardeado pelas fontes jornalísticas mencionadas anteriormente.
No ano de 2011, já em entrevista, Maria Eleusa Mota indicou outras posições e escolhas dos assentados em meio a esse processo, colocando sob suspeita e mesmo negando qualquer possibilidade de arrendamento dos lotes ou fornecimento de cana aos usineiros, apontando outras possibilidades emergidas na correlação de forças: “[...] os companheiros estão constrangidos, porque estão precisando bater na porta dos fazendeiros da região para trabalhar”.17 Esse trecho da narrativa sugere a existência de tensões cotidianas diante das necessidades financeiras impostas para viverem do campo. De acordo com Maria Eleusa, a referida prática dos assentados de prestar serviços para
17
fazendeiros é motivada pelo fato de os trabalhadores ainda não conseguiram desenvolver as atividades de produção e escoamento de sua produção de forma sustentável e autônoma, precisando manter ainda relação de trabalho com os latifundiários. Por meio dessa e outras narrativas, esse aspecto da situação dos assentados ganhou expressão na pesquisa, principalmente pelo fato de o agronegócio da cana e do álcool e seu impacto, como arrendamento de lotes e/ou fornecimento de matéria-prima pelos assentamentos em estudo, não terem chegado até eles. As forças do agronegócio incidem sobre eles sobre outras formas.
As interpretações dos aspectos que envolvem a realidade dos assentados e assentamentos, inclusive dos sentidos de uma reforma agrária no Brasil, têm sido concebidas e disputadas pelos meios de comunicação hegemônicos, pelos setores do governo e de seus opositores, pelo próprio senso comum, ou por parte do meio acadêmico por meio de diversas produções de diferentes áreas do conhecimento. E sobre isso, de modo geral, dois pontos de vista se sobressaem. Um deles analisa a luta dos trabalhadores, estejam eles organizados ou não em movimentos sociais de luta pela reforma agrária, colocando em pauta o processo histórico, político e econômico complexo que constituiu e ainda constitui a questão agrária no país, sob a perspectiva da correlação de forças entre os trabalhadores e os que detêm os meios de produção e o capital, entendendo a luta como legítima. Em outra perspectiva encontram-se os defensores da noção de fracasso no estabelecimento de assentamentos de reforma agrária, distorcendo os sentidos da existência dos movimentos sociais, como o MST, e de seus projetos. Esse último ponto de vista costuma abordar as dificuldades ou a pouca produtividade dos assentamentos rurais, o que em muitos casos é uma realidade pertinente, porém, quando isso vem atrelado à noção de desqualificação do outro, do Sem Terra, procurando deslegitimar os trabalhadores e suas lutas, desconsidera a perspectiva histórica do processo que envolve a luta pela reforma agrária, ou seja, o movimento da contradição, das desigualdades sociais que constitui a história do Brasil.
fazer-CONSIDERAÇÕES INICIAIS 16
se da classe (THOMPSON, 1987a) trabalhadora na correlação de forças políticas e
econômicas na disputa pela reforma agrária.
Para análise do processo histórico da organização da luta pela terra no Triângulo Mineiro, esta tese articula uma pesquisa bibliográfica e documental sobre os movimentos sociais ligados ao campo no Brasil e no Triângulo Mineiro, investigando materiais produzidos pelo MST18 e outros movimentos sociais, bem como produções acadêmicas: teses, dissertações, monografias, artigos científicos, livros, censos, boletins informativos, cartilhas, sites de órgãos governamentais e entidades sociais, processos de órgãos públicos e relatórios de instituições de ensino públicas. Esses últimos, principalmente aqueles produzidos pelo Laboratório de Geografia Agrária (LAGEA)19 do Instituto de Geografia (IG) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Outra fonte de informações foi minha própria vivência em acampamentos e assentamentos e em outras atividades políticas e práticas do MST a partir do ano de 1999.
O levantamento bibliográfico realizado para a pesquisa revelou que na área do conhecimento da história existem ainda poucos estudos referentes às temáticas da questão agrária no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, seja sobre as ocupações de terras e expansão dos movimentos sociais de luta pela reforma agrária, ou as condições dos assentados e dos assentamentos rurais, excetuando-se algumas dissertações de mestrado e monografias de conclusão de curso.
Há diferentes publicações sobre essas temáticas por parte de pesquisadores da geografia agrária da Universidade Federal de Uberlândia, assim como também pelos da economia, da área da sociologia rural, da educação, entre outros.
Da área da engenharia agrícola da Unicamp, a tese de doutorado de Andréia Terzariol Couto (1999) versa sobre, entre outras, a luta pela posse da terra no município de Iturama (Triângulo Mineiro) a partir de 1983.
18
Principalmente, porque o MST disponibiliza para a sociedade um amplo acesso aos ideais que defende, seja através dos jornais, como Brasil de Fato, jornal Sem Terra, ou de sua Revista Sem Terra, seja em cartilhas, livros, Boletins informativos e no site mantido pelo Movimento, onde se publicam artigos, informes, opiniões, dados estatísticos produzidos por renomadas organizações governamentais sobre a questão agrária no Brasil e no mundo.
19
Portanto, estabeleci o diálogo com diferentes autores e áreas do conhecimento sobre os Sem Terra, suas lutas e conquistas, enfim, sobre aspectos e realidade da reforma agrária na região em estudo e em outras do país. Os resultados desse diálogo estão expostos no decorrer dos capítulos, entretanto ressalto alguns trabalhos que ganharam maior relevância no diálogo e na aproximação com a pesquisa e a problemática de investigação. Como já referido, a tese de Couto (1999) foi bastante importante, pois ajudou a encaminhar minhas reflexões, principalmente porque a autora se atém às lutas dos anos 1980 numa perspectiva que considero de retomada da luta pela terra na região em estudo, em um período em que as ocupações e o Movimento dos Sem Terra estavam em franca articulação e expansão pelo país, vindo das lutas na região sul. Portanto foi fundamental, para compreender a historicidade da luta na região, conhecer as lutas desencadeadas via organização de trabalhadores meeiros, posseiros na reivindicação de assentamento na propriedade onde trabalhavam e eram desrespeitados na relação trabalhista, assim como conhecer a visão da autora sobre o apoio dado aos trabalhadores pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Iturama (Triângulo Mineiro) e setores da igreja, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Os estudos dos pesquisadores do Laboratório de Geografia Agrária (LAGEA) do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia têm contribuído para o conhecimento e aprofundamento das temáticas da luta pela terra e do avanço do setor de cana e álcool no Triângulo Mineiro. Na equipe de pesquisadores do LAGEA destaco as produções do professor João Cleps Júnior: a tese de doutorado em Geografia Dinâmica
e Estratégias do Setor Agroindustrial no Cerrado: o caso do Triângulo Mineiro, pela
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 18
Movimentos Sem Terra na correlação de forças da região. Portanto, os relatórios do DATALUTA – Minas Gerais elaborados pelo LAGEA-IG/UFU, bem como o Banco de Dados da Luta pela Terra foram fontes imprescindíveis nesta pesquisa.
Os trabalhos da pesquisadora Lucimeire de Fátima Cardoso (2009, 2010) integrante do LAGEA, também se destacam na perspectiva mencionada anteriormente, principalmente por abordar a organização de um expressivo assentamento da região por um grupo de Sem Terra com o qual a assentada Joversina A. R. Barbosa do PA 21 de Abril compartilhou a luta. Nessa direção, outros trabalhos20 trouxeram como possibilidade a ampliação da leitura sobre a importância da luta pela terra na região, por tratar o processo histórico de expansão do capital no campo e como os Sem Terra têm enfrentado essa conjuntura resistindo às dificuldades e tentativas das forças opostas de desmantelar suas conquistas.
Ressalto também os trabalhos acadêmicos de Maria Eleusa Mota (2010) e Maysa do Carmo de Paula (2010), fundamentalmente por serem essas autoras militantes do MST e assentadas na região em estudo, sendo Maria Eleusa, inclusive, uma das entrevistadas nesta pesquisa. Para além de seus trabalhos, significaram a força do MST e de seus trabalhadores na formação de seus quadros, democratizando o acesso à educação sob outros e diferentes paradigmas em relação aos da educação no sistema capitalista. Foi possível com essas produções apreender informações importantes sobre a história da constituição e organização política do MST no Triângulo Mineiro, já que as autoras falam a partir da sua própria experiência, deixando claros os objetivos e os princípios do MST. Maria Eleusa analisa, entre outros, os fatores e as motivações do militante que, quando consegue ser assentado, acaba por desistir da militância. Por problematizar essa realidade, me ajudou a refletir sobre outras práticas dos Sem Terra e seus significados. Isto é, para mim a militância não acaba, ela se transforma, já que viver como assentado é um desafio diante a conjuntura das políticas públicas destinadas a eles. Portanto, a vida desses assentados se constitui por outras demandas pelas quais eles seguem lutando.
Outra referência importante foi o Relatório Final do Programa de Apoio
Científico e Tecnológico aos Assentamentos de Reforma Agrária (PACTo MG/TM) de
20
-ível Dissertações: CARVALHO, 2011; FONSECA, 2001; GOMES, 2004; GUIMARÃES, 2002; MEDEIROS, 2008; SILVA, 2007; SILVA, 1996; SILVEIRA, 2008.
junho de 2005. Esse programa começou em 2001, quando a Diretoria de Programas Temáticos e Setoriais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) encaminhou o convite para a Universidade Federal de Uberlândia dele fazer parte. Tal programa foi uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT)/CNPq e MDA/INCRA com o objetivo de desenvolver e implementar atividades de intervenção com vistas à promoção do desenvolvimento sustentável de quatro assentamentos selecionados no Triângulo Mineiro, a saber: Assentamento Rio das Pedras e Zumbi dos Palmares, no município de Uberlândia, e Assentamentos Bom Jardim e Ezequias dos Reis, no município de Araguari. Nessas áreas foram desenvolvidos vinte projetos de pesquisa e sessenta atividades de intervenção. Portanto a leitura desse material possibilitou conhecer a realidade de outros assentamentos dos municípios limítrofes de Uberlândia, permitindo observar em que as condições de vida e de trabalho dos assentados se assemelham e em que diferem. As questões referentes à infraestrutura dos assentamentos, como a falta de estradas, pontes e acompanhamento de técnicos agrícolas por parte do Estado ficou evidente.
O Relatório com as principais notícias divulgadas pela mídia relacionadas
com a agricultura – área temática: Questão fundiária – Movimentos sociais, produzido
pelo Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura (OPPA), do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, período de análise 01 a 31 de janeiro de 2008, possibilitou-me refletir sobre as regiões de avanço do agronegócio, no caso desde Araraquara até Colômbia, no estado de São Paulo. Essa região atualmente é marcada pelos canaviais que tomam conta da paisagem e movimentam a economia das cidades. Análises desse relatório instigaram à reflexão sobre os mecanismos de avanço do agronegócio na região do Triângulo Mineiro, especialmente a produção de cana e álcool e a condição do trabalhador nesse processo.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS 20
aponta um “quadro de derrota e resistência vã”, pois para a autora essa historiografia segue uma perspectiva determinista da história, a qual, diante a expansão do capital, entende ser inútil a resistência dos trabalhadores rurais. Indo em outro sentido, Costa afirma que:
[...] os tempos atuais mostram que os trabalhadores do campo, durante longos anos excluídos da História, têm demonstrando, em suas desobediências à legalidade e na luta que desenvolvem no cotidiano, seu caminho sem retorno na História. Eles reconhecem e agem sobre a ruptura dos elos tradicionais de exclusão e humilhação com que se reveste a dominação dos fazendeiros, assim desvendando o mundo das desigualdades sociais, dos diferentes poderes, a partir das privações em que vivem: de terra, de vestuário, de trabalho, dentre outras. E essa nova percepção dos trabalhadores rurais, sem dúvida, foi gestada nos conflitos de cada dia e nos movimentos sociais. [...] A luta pela terra travada por esses lavradores que vivem em Indaiá, ocorreu como parte de uma luta mais ampla – o Movimento dos Sem Terra – um movimento de âmbito nacional que congrega os trabalhadores rurais que não possuem um pedaço de terra. (COSTA, 2009, p. 42-43).
Portanto, esse trabalho ajudou-me a pensar sobre as semelhanças e diferenças na luta pela reforma agrária, como a realidade local incide sobre diferentes trabalhadores Sem Terra e como as forças políticas e econômicas se movimentam nas diferentes regiões do país. Relevante também foi observar como Costa lida com as fontes orais, relacionando-as a outras fontes, e com estilo próprio vai apresentando sua crítica à perspectiva historiográfica que desconsidera a categoria cultura como elemento articulador das lutas dos trabalhadores.
Refletindo sobre caminhos diferentes seguidos pelos trabalhadores rurais, bem como sobre escolhas na luta por melhores condições de manutenção da vida na região Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, há, no campo da história social, a tese de doutoramento de Maria Andrea Angelotti Carmo: Entre safras e sonhos: Trabalhadores
rurais do sertão da Bahia à lavoura cafeeira do cerrado mineiro 1990-2008. Nessa
obra a autora analisa a questão das novas modalidades de contratação dos trabalhadores pelos empresários rurais e da inserção deles no campo em transformação, o que foi importante e me instigou a observar os diversos engajamentos dos trabalhadores para ter renda monetária. E esses engajamentos se fazem numa relação entre o viver no/do campo e na/da cidade.