UNIVERSIDADE
CATÓLICA DE
BRASÍLIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO
MESTRADO
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA: O CRIME E O
CASTIGO NA PERSPECTIVA DE ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO
DE RISCO PSICOSSOCIAL
Autora: Maria Cristina Andrade Penkal
Orientador: Prof. Dr. Afonso Celso Tanus Galvão
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA: O CRIME E O CASTIGO NA PERSPECTIVA DE ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RISCO PSICOSSOCIAL
Orientador: Professor Doutor Afonso Celso Tanus Galvão
Maria Cristina Andrade Penkal
MARIA CRISTINA ANDRADE PENKAL
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA: O CRIME E O CASTIGO NA PERSPECTIVA DE ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RISCO PSICOSSOCIAL
Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação
Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília para obtenção do grau de Mestre.
Orientador: Prof. Dr. Afonso Celso Tanus Galvão
TERMO DE APROVAÇÃO
Dissertação de autoria de Maria Cristina Andrade Penkal, intitulada Representações sociais da violência: o crime e o castigo na perspectiva de adolescentes em situação de risco psicossocial, requisito parcial para obtenção do grau de Mestre do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília.
Banca examinadora constituída por:
Prof. Dr. Afonso Celso Tanus Galvão
Orientador
Prof. Dr. Candido Alberto da Costa Gomes
Profª. Drª. Sílvia Helena Koller
Brasília
Aos meus pais, Orlando Real de Andrade e Ires Copetti de Andrade, amor e zelo, lembrança e saudade...
Ao meu amor, Cláudio Senko Penkal, apoio e dedicação, felicidade e partilha...
AGRADECIMENTOS
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
RESUMO
Esta pesquisa qualitativa de caráter exploratório focalizou as representações sociais da violência, do crime e do castigo compartilhadas por adolescentes em situação de risco psicossocial. Teve como objetivos identificar as atitudes, conceitos, informações e imagens referentes à violência, crime e castigo construídos e vivenciados por esses adolescentes, investigar os fatores que podem contribuir para que esses adolescentes estejam vulneráveis à violência, identificar a que ou a quem eles responsabilizam pela violência e crime e explorar o que pensam sobre a punição que recebe quem os comete. Os instrumentos de coleta de dados foram a entrevista semi-estruturada individual e de grupo focal. Foram realizadas 11 entrevistas individuais e 3 grupos focais. Os participantes (18 no total), residentes em região do Distrito Federal com alta incidência de criminalidade, tinham idade entre 14 e 17 anos e eram estudantes de uma escola pública local. A estratégia utilizada para analisar os dados foi a técnica da análise de discurso. Os resultados obtidos mostram que as representações sociais sobre as violências são construídas a partir do conhecimento dos lugares aonde acontece, das atitudes aferidas, das imagens vistas todo o dia e das vivências desse grupo em casa, no bairro e na escola. As representações se constituem ainda pela comunicação com a família, pais, amigos, vizinhos e com a mídia. Os participantes questionam bastante o sistema punitivo adotado no país, embora acreditem na mudança de vida dos adolescentes e jovens que se envolvem na violência, como perpetradores ou vítimas, desde que apoiados por fatores de proteção no processo de construção da resiliência. As conclusões indicam que as discussões e reflexões sobre a violência necessitam extrapolar os âmbitos individuais e setoriais, partindo para ações de ampla e complexa abrangência das quais façam parte diversos segmentos da sociedade que possam contribuir efetivamente para amenizar a proliferação desse fenômeno na sociedade.
ABSTRACT
This qualitative exploratory research focused at the social representations of violence, crime and punishment shared by adolescents in a situation of psychosocial risk. It aimed at identifying attitudes, concepts information and images concerning violence, crime and punishment built up and experienced by these adolescents; investigating factors that can contribute to their vulnerability to violence; identifying what or who they hold responsible for violence and crime and explore their view about the type of punishment received by those who commit crimes. Data collection instruments included semi-structured interview and group interview. Participants were 18 adolescents aged between 14 and 17, residents in a region of Distrito Federal with high incidence of crimes, and students of a local state school. For data analysis it was used the technique of discourse analysis. Results show that participants’ social representations of violence are constructed from their knowledge of the places where it occurred, the attitudes and images to which they are exposed daily and from participants’ experiences at home, neighborhood and school. Their social representations of the subject are also constituted by their communication with family, parents, friends and neighbors and media. Participants strongly question the system of punishment adopted in their country, but they believe that adolescents involved in crime and violence, both authors and victims, can be recovered to society if they are supported by protective factors during the process of construction of resilience. The conclusions suggest that the discussions and reflections about violence need to extrapolate the sphere of individuals and particular sectors to actions of more complex and wider scope that gather different segments of society that can effectively contribute to alleviate the proliferation of this phenomenon within society.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
CAPÍTULO 1. VIOLÊNCIA, RISCO PSICOSSOCIAL E RESILIÊNCIA ... 16
1.1. Violência, crime e castigo ... 16
1.1.1.Violência: aspectos conceituais ... 22
1.1.2.O adolescente e a violência ... 28
1.2. Violência e escola ... 35
1.3. Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA ... 40
1.4. Risco psicossocial ... 44
1.5. Resiliência ... 48
CAPÍTULO 2. TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ... 57
CAPÍTULO 3. NATUREZA DA PESQUISA E MÉTODO ... 67
3.1. Problema ... 67
3.2. Justificativa ... 68
3.3. Objetivos ... 69
3.3.1.Objetivo geral ... 69
3.3.2.Objetivos específicos ... 69
3.4. Questões de pesquisa ... 70
3.5. Método ... 70
3.5.1.Participantes e local ... 75
3.5.2.Instrumentos de coleta de dados e procedimentos ... 76
3.5.3.Estratégias de análise dos dados ... 80
3.6. Considerações finais ... 84
CAPÍTULO 4. RESULTADOS: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS ADOLESCENTES SOBRE VIOLÊNCIAS ... 86
4.1. Violências: atitudes, imagens, informações e vivências ... 86
4.1.1.Atitudes ... 86
4.1.2.Imagens ... 91
4.1.4.Vivências ... 98
4.1.5.Crime e violência ... 101
4.2. Fatores da violência ... 109
4.3. Responsabilização ... 114
4.4. Punição ... 117
4.4.1.Agressores e vítimas ... 122
4.4.2.Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA ... 126
4.5. Resiliência ... 129
4.6. Considerações finais ... 132
CAPÍTULO 5. DISCUSSÃO E CONCLUSÕES ... 135
5.1. Conceitos de violência ... 136
5.2. Fatores da violência: risco psicossocial ... 143
5.3. Afinal, de quem é a culpa ... 152
5.4. Crime e castigo ... 155
5.5. Resiliência ... 163
5.6. Considerações finais ... 169
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA: O CRIME E O CASTIGO NA PERSPECTIVA DE ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RISCO PSICOSSOCIAL
INTRODUÇÃO
A violência é um dos assuntos que mais preocupa a sociedade atualmente. Está cada vez mais presente e próximo à vida do ser humano, influenciando suas atitudes, interferindo em sua programação social e rotina de vida. A disseminação da violência está ligada a uma cultura que parece incentivar e ratificar atos violentos, na forma de agressões físicas, assaltos, homicídios, seqüestros, chacinas, pancadarias, tráfico de drogas, tiroteios, rebeliões e guerras, considerados crimes ou não, que se transformam em atrativos da vida real, dos meios de comunicação de massa e da ficção. O individualismo, o consumismo e a competição dão espaço a um padrão de relacionamento entre as pessoas que coloca à margem valores como a cordialidade, a paz, a tolerância e a solidariedade.
Historicamente, a sociedade convive com a violência e o crime, que ocorrem ao longo dos séculos nas culturas do mundo inteiro e se repetem até os dias atuais. A humanidade também se assusta com a sensação de que determinados atos violentos não são considerados tão violentos assim; atos como o preconceito, a discriminação, a agressão física e verbal, as diversas formas de incivilidade, enfim. No entanto, o termo violência se refere a uma série de situações que foram mudando no espaço, no tempo e em cada momento histórico. Não existe uma única percepção e definição de violência, mas vários atos violentos a serem analisados conforme as normas, condições e contextos sociais, que variam de um período histórico a outro (ABRAMOVAY et al., 2002). É denominada de violência toda a forma de intervenção, de um indivíduo ou grupo, contra a integridade de si mesmo, de outro ou de um grupo, incluindo agressões físicas, assaltos, espancamentos, estupros, ferimentos, homicídios, porte de armas que ferem, matam ou sangram, roubos, suicídios e violência no trânsito, camuflada pela denominação de acidentes (ABRAMOVAY, LIMA e VARELLA, 2003).
considerando violência social todas as formas de relações, ações e omissões praticadas por indivíduos, grupos, classes ou nações que resultam em danos físicos, emocionais, espirituais e morais a si próprio ou aos outros. Destacam a violência intrafamiliar e institucional como formas agressivas e cruéis de relação na família, na escola e demais instituições, ocasionando danos físicos, emocionais, sexuais e até a morte. Sob diferentes maneiras de expressão, essas três formas de violência são classificadas como negligência, abuso físico, sexual e psicológico, quando relacionadas às crianças e adolescentes.
Sanchez e Minayo (2004) abordam as principais manifestações de violência, que atingem crianças e adolescentes, denominando-as de violência estrutural, intrafamiliar, institucional e delinqüencial. A violência estrutural é aquela referente às condições de vida das crianças e adolescentes devido aos aspectos econômicos, históricos e sociais, que prejudicam seu crescimento e desenvolvimento. A violência intrafamiliar é a que ocorre em casa, geralmente sob a forma de comunicação e de relação interpessoal, como maus-tratos, abusos e negligências. As mesmas formas de violência podem ocorrer em instituições como escolas, internatos e semi-internatos, caracterizando a violência institucional. E, por fim, a violência delinqüencial infanto-juvenil e juvenil que as autoras sugerem ser analisada junto à violência estrutural e à questão de classe.
A gravidade do problema da violência, principalmente envolvendo crianças, adolescentes e jovens, é fato no mundo inteiro. Hagan e Foster (2001) destacam os altos índices de violência entre adolescentes, nos Estados Unidos e Canadá, e os danos que podem causar como depressão, suicídio e gravidez precoce. Nos Estados Unidos, como no Brasil, não faltam casos de jovens que cometem ou são vítimas de violências ou crimes, assim como é crescente o número de crianças e adolescentes que levam armas de fogo para as escolas, fenômeno que tem sido ampla e constantemente divulgado nos telejornais. Westphal (2002) também sinaliza que a violência contra a criança não é um problema exclusivo do Brasil, mas atinge também a população infantil de Israel, sob a forma de violência doméstica, além daquela gerada pelos conflitos decorrentes da questão palestina.
as discussões e pesquisas (p. ex., BEZERRA, 2004; BRAGA, 2004; BRASIL, 2004; CALIMAN, 2005, 1998; MALDONADO, 1997; MILANI, 2000, 2004; OLIVEIRA, 2004; SANCHES e MINAYO, 2004), sejam de ordem científica, ética, filosófica, jurídica ou social, estão aquelas que envolvem o paralelo entre o Código de Menores, revogado em 1990, e o Estatuto da Criança e do Adolescente, aprovado em 1990, o Código de Ética Médica, aprovado em 1988, as questões referentes à cultura da impunidade, à falta de políticas públicas para os jovens, às influências da família na formação do indivíduo, ao contexto sócio-cultural, à idade em que o adolescente consciente de suas ações possa ser criminalmente responsabilizado por seus atos e, como conseqüência disso, cumpra as penas previstas em lei, dentre tantos outros assuntos abordados.
Entretanto, a certeza que se tem diante da realidade que nos cerca é que as medidas até então tomadas em torno da questão não têm sido eficazes na prevenção e no combate à violência, resultados que deveriam exigir das esferas do governo leis severas e firmes, que fossem seriamente estudadas, com vistas ao seu real cumprimento, para que a justiça, a liberdade e a paz fossem mais do que direitos do cidadão, mas valores que pudessem ser vivenciados no seu dia-a-dia, em qualquer espaço de convívio social. Independentemente das circunstâncias nas quais ocorre e as vítimas atingidas, a violência deixa marcas profundas na vida de suas vítimas, desde transtornos físicos, de apetite, de sono, lesões, dores, disfunções orgânicas, até perturbações psíquicas e emocionais, dificuldades nos relacionamentos, agressividade, medos, traumas, deficit de atenção, dificuldades de aprendizagem e de convívio social, dentre outros. Mais do que o corpo, a violência atinge a alma, destrói os sonhos e acaba com a dignidade do ser humano. É preciso que a sociedade busque formas de resgatar valores que viabilizem o mínimo de civilidade e dignidade na vida do ser humano.
para, posteriormente, abordar as principais questões que circundam o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente –, as situações de risco psicossocial em que se encontram crianças, adolescentes e suas famílias pelas condições de vida em que vivem e, finalmente, a resiliência. A abordagem desse último item, ainda pouco difundida na literatura, justifica-se pelo fato da resiliência representar um dos possíveis caminhos para se trabalhar com os graves problemas experimentados por um grande número de adolescentes e jovens que, cada vez mais, envolvem-se em situações adversas em conseqüência dos problemas sociais, econômicos e políticos que assolam quase todo o mundo e repercutem no cotidiano das famílias, dentre eles os altos índices de violência e criminalidade nos grandes centros urbanos e as condições de pobreza e de miséria da maioria da população do Brasil.
Portanto, compreender as representações sociais da violência, o crime e o castigo na perspectiva de adolescentes em situação de risco psicossocial implica conhecer as informações e impressões que eles têm sobre violências, por meio da família, da escola, da religião, da mídia e dos diversos grupos sociais em que convivem, e identificar o campo em que essas representações se inserem e as atitudes e valores que orientam suas ações em relação ao objeto desta pesquisa. Faz-se necessário, ainda, avaliar o teor das informações percebidas, uma vez que, ao se tratar de temáticas como a violência, informações equivocadas ou distorcidas geram valores que estarão na base de ações e atitudes violentas, inadequadas e, portanto, inaceitáveis para uma vida social mais solidária e pacífica (PLACCO, 2002).
A Teoria das Representações Sociais, desenvolvida por Moscovici (1978), a partir do redimensionamento do conceito de representações coletivas de Durkheim, foi escolhida neste estudo como referência fundamental para ancorar a compreensão dos adolescentes em situação de risco psicossocial, as imagens e os sentidos comuns sobre a violência, o crime e o castigo. Essa teoria, portanto, constitui-se em ancoragem e em subsídio teórico desse estudo, que introduz desafios metodológicos em seu percurso, a começar pela forma de apreensão de seus conteúdos até sua validade enquanto suporte para a investigação das imagens, impressões e significações acerca do objeto de pesquisa como conhecimentos realmente partilhados por adolescentes.
campo psicossocial que organiza as construções mentais só pode ser conhecido e compreendido sob a luz do contexto que o produz e das funções que ocupa nas interações sociais (JODELET, 2001). Nesse sentido, a violência, o crime e o castigo tornar-se-ão objetos de representação social, na medida em que assim se configurarem, por meio dos conhecimentos construídos e partilhados socialmente pelos adolescentes em seu contexto de vida. Isso quer dizer que as imagens e significações acerca da violência, do crime e do castigo são produzidas em um contexto histórico de valores e regras que articula dimensões psicossociais responsáveis pelas formas consensuais de pensar, sentir e agir dos grupos em relação a um determinado objeto, nesse caso, o objeto de estudo em foco.
CAPÍTULO 1. VIOLÊNCIA, RISCO PSICOSSOCIAL E RESILIÊNCIA
1.1. Violência, crime e castigo
Num momento em que se busca resgatar valores humanos, a violência se manifesta de diversas formas e assume, muitas vezes, um refinamento que assusta a todos como um dos cruéis períodos em que ela existiu na história da humanidade. Atos aparentemente simples de violência, como agressões físicas e verbais, abusos, acidentes, assaltos e roubos fazem parte do cotidiano das pessoas, assim como ações que exprimem um cruel desejo de destruir o outro, traduzidas nas perseguições de todos os tipos, estupros, homicídios, genocídios, terrorismo, segregação e exclusão econômica e racial.
Barbosa (1996) questiona e, ao mesmo tempo, qualifica a violência como um verdadeiro desafio para a consciência moral da atualidade; apresenta a sua generalização e massificação como um angustiante paradoxo no momento em que a compreensão dos fenômenos naturais e sociais, o avanço do saber científico, o aparente progresso da consciência da humanidade sobre o valor e o respeito à vida parecem se afirmar de forma indiscutível. A fim de evitar uma visão simplista de compreensão do fenômeno, que coloque em posições opostas civilização e barbárie, o autor afirma que a violência permeia de forma multifacetada toda a história da humanidade, desde a Antigüidade até os dias de hoje; a violência vem desde os jogos olímpicos, passando pela tortura, genocídio, infanticídio, terrorismo e outras formas que a situam para além dos limites do que parece ser lógico e compreensível.
pobreza, a miséria, o desemprego, a formação familiar, a exclusão social e, enfim, ao abandono político (ABRAMOVAY et al., 1999).
Bingemer (1996) destaca que a necessidade da discussão sobre o tema violência dispensa qualquer justificativa de pertinência e atualidade, porque a questão evoca a atenção de todos pelo simples fato de provocar os sentidos, as emoções, o medo e o pavor nas pessoas. No mundo de hoje, e especialmente no Brasil, a violência é algo concreto e não apenas teórico, que ameaça a vida em todas as suas dimensões e deixa rastros de morte e destruição. A autora acrescenta que o pensar, o refletir e o discutir sobre a violência e o crime não é somente dar um tratamento teórico à questão, mas colocar a teoria a serviço da prática de combate à violência, enfrentando o tema em suas raízes e significações, o que demandaria não apenas a seriedade das pesquisas, mas o empenho corajoso e gratuito do compromisso e da entrega para se conquistar a paz no mundo. O que se percebe, no entanto, são medidas paliativas no enfrentamento de problemas sociais, como o da violência, e não políticas que atinjam as raízes do problema, minimizando ou eliminando as causas e os fatores de ordem complexa que ocasionam a violência e a criminalidade.
As diferentes expressões e formas da violência são os problemas que mais angustiam a sociedade, atualmente, tanto pela sensação de insegurança e desconfiança que se alastra, quanto pelo modo como são divulgados os fatos cotidianos ou os dados estatísticos, principalmente pela mídia de massa. Isso acaba gerando um círculo vicioso, em que a violência gera o medo e este também gera a violência, numa gradação que pode chegar ao que Chesnais (1999) chama de “psicose coletiva”.
forma mais restrita, associam a violência à criminalidade e à agressão física. Preocupam-se com o tema especialmente quando fatos dessa natureza causam grande impacto na vida social.
Por crime, entende-se toda a violação da lei penal, delito, fato típico, antijurídico e culpável, qualquer ato que provoque a reação organizada da sociedade, ato digno de repreensão ou castigo, ato condenável de conseqüências funestas ou desagradáveis (FERREIRA, 1994). Ao que parece, todo o crime é uma forma de violência, mas nem toda a violência é considerada um crime pelos códigos penais. Isso, muitas vezes, torna difícil encontrar abordagens que distingam violência de crime e vice-versa, pois o que se percebe são abordagens que enfatizam conceitos de violência ou que a relacionam, quase que simultaneamente, ao crime e este a comportamentos desviantes, e, algumas vezes, referem-se ao castigo ou à impunidade (p. ex., BINGEMER, 1996; BRASIL, 2004; COUTINHO, 2003; PITANGUY, 2001; PROENÇA JÚNIOR, 1996; ZALUAR, 1996).
Referindo-se à questão da criminologia no estudo do crime e dos criminosos, Ferreira Brasil (2004) afirma que o crime é influenciado por vários fatores, exógenos e endógenos, o que sugere que o ser humano não nasce criminoso nem que é fruto exclusivo do meio em que vive, pois tudo está intrinsecamente relacionado. Vários fatores, biológicos, psíquicos, sociais, incidem concomitantemente na trajetória de vida de uma pessoa, levando-a ou não à criminalidade. A humanidade, freqüentemente, estaciona em um determinado patamar de violência, embora viva, excepcionalmente, picos de grande violência ou paz. Entretanto, a violência está cada vez mais crescente e visível na atualidade, em grande parte devido à impunidade, o que não significa simplesmente a falta de aplicação da pena, mas também o não cumprimento da pena declarada ou aplicada.
entanto, é doloroso constatar que, por mais ou menos rigorosa que seja a legislação, nada trará de volta ao mundo uma vida retirada de um ser humano.
De acordo com Pitanguy (2001), a idéia de que determinadas atitudes, comportamentos e costumes são violentos é histórica. As idéias de ordem e desordem, crime e castigo são conceitos dinâmicos que se modificam no tempo porque expressam processos sociais e não verdades absolutas. Em uma sociedade, existe uma definição dominante do que seria a violência assim como o crime, apesar de isso não significar que haja consenso nas definições. Da mesma forma que diversos conceitos de violência possam corresponder em uma mesma sociedade, lutando para se imporem de forma hegemônica e para serem traduzidos em leis e legitimados em comportamentos. Ao longo da história do Brasil, a desigualdade e a discriminação refletem uma percepção social e uma expressão legal limitada e parcial da violência, da qual têm sido excluídas, com maior ou menor intensidade, determinadas agressões, como às crianças, adolescentes e jovens, às mulheres, aos negros, aos homossexuais, aos indígenas e aos pobres em geral, configurando um mapa perverso daquilo que historicamente tem sido reconhecido como violência e como delito passível de punição. No Brasil, como os recursos econômicos e o poder político para definir os limites da ordem e desordem, do padrão e do desvio têm sido dominados pelo grupo social composto de homens brancos de classe alta e média alta, o crime e o castigo também são definidos em função de um ideal de cidadania calcado nesse grupo. Por isso, corre-se o risco de atos violentos que deveriam ser considerados crimes e, portanto, punidos, passem invisíveis e tolerantes, muitas vezes.
governos e elites das nações e, atualmente, o complexo esquema que constitui o tráfico de drogas.
A partir disso, pode-se ter a convicção de que a questão do crime e da repressão a ele é bastante complexa e, provavelmente, as estatísticas relativas ao crime, envolvendo também os adolescentes, tendem a se expandir cada vez mais, junto ao acesso às drogas e à violência, apontando para um resultado claro: o fluxo de dinheiro, principalmente o que envolve o tráfico de drogas, continuará a alimentar uma logística criminal de contingentes, dinheiro e armas que influenciará a dinâmica do crime e da vida dos adolescentes e jovens nos tempos atuais (PROENÇA JÚNIOR, 1996).
Zaluar (1996) também faz referência à violência e a criminalidade, alertando para uma divisão de opiniões que ameaça a democracia no Brasil: de um lado, os libertários que atacam qualquer ordem social, principalmente quando essa vem do Estado, na crença de que a sociedade é criminosa porque sustenta uma ordem que contém, controla e limita os desejos e paixões dos indivíduos, de forma desigual e injusta; de outro, os que pensam que a ordem deve ser mantida a qualquer custo, desconsiderando as perdas da liberdade individual, devido ao medo e à indignação pelos horrores e violências praticadas pelos criminosos. Esse dilema pode levar à situação de caos ou de agravamento da ordem autoritária.
Entretanto, a autora acredita que o objeto da violência não está delimitado enquanto identidade coletiva clara, isto é, se os agentes do crime e da violência são pobres ou ricos. Isso significaria reduzir os conflitos às relações interpessoais e individuais, desconsiderando-se as coletividades enquanto grupos de interesse e de posições ideológicas. Assim, a correlação entre pobreza e criminalidade ou pobreza e violência necessita ser problematizada. Não se deve atribuir à pobreza, que sempre existiu, o aumento da criminalidade e da violência, o que alimentaria preconceitos e discriminações, além de ser um erro de diagnóstico com efeitos ineficazes e desastrosos no combate ao crime e à violência.
oportunidades, mas somente em relação aos crimes econômicos, nas contravenções e nos crimes contra o patrimônio; não nas mortes e nos crimes violentos, isto é, nos crimes contra a pessoa, que estão muito menos relacionados à pobreza. Com isso, nenhum dos fatores sozinho poderia explicar o crescente aumento das taxas de crimes violentos, na década de 80, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Portanto, parece ser o fato de existirem determinadas privações e não a carência que motivam o ato criminoso, visto que o percentual de pobres entre os pobres que optam pela carreira criminosa é baixíssimo, em relação ao total da população de um bairro pobre do Rio de Janeiro, por exemplo (ZALUAR, 1996).
Ao fazer referência à relação entre violência e pobreza, Mello Jorge e colaboradores (2002) dizem que é necessário ter cuidado com essa interpretação para não cair numa visão simplista de causa e efeito, visto que são muitas as privações pelas quais passa a população pobre, que podem contribuir ou não como fatores relacionados à violência.
Soares e colaboradores (1996), em pesquisa no Rio de Janeiro, complementam essa análise de resultados que relacionam ou não crime, violência e grupos sociais, quando destacam a chamada cultura do medo nas grandes metrópoles, que generaliza a violência como fenômeno objetivo e subjetivo, identificando todo o fenômeno violento como manifestação de decadência e degradação da sociedade, independentemente de sua dimensão. Com isso, questões comuns a todas as grandes cidades, especificamente culturais ou psicoculturais, como as brigas entre adolescentes, são confundidas com crimes cometidos por profissionais da delinqüência. Esse tipo de equívoco, segundo os autores, serve muito mais às ideologizações do que à elaboração de políticas públicas eficientes no combate ao crime e à violência. Daí a necessidade de se diferenciar os tipos de práticas violentas e delituosas, de se compreender a especificidade de cada dinâmica geradora de violência, pois convivem, entre a população, tanto o padrão europeu de homicídios dolosos e latrocínios, quanto os padrões americanos. O crime letal continua atingindo quase que exclusivamente o universo masculino, principalmente os jovens, negros e pardos, pobres e com baixa escolaridade. A pesquisa também faz inferências ao perfil socioeconômico, quando menciona que a criminalidade na cidade do Rio de Janeiro atingiu, em 1992, de forma predominante, os mais pobres e aqueles com índices inferiores de escolaridade.
que se referem à vitimização, perpetradores, riscos, tipos de crime e de violência, classes sociais, faixa etária, gêneros e etnias envolvidas. É preciso que os estudos questionem e reflitam sobre a relação entre pobreza e violência, visto que não é a pobreza, necessariamente, que gera a violência e a criminalidade, mas múltiplas variáveis, como a falta de afeto, amor, carinho, cuidados, alimentação adequada, educação, auto-realização, o atendimento às necessidades básicas, enfim, que, associadas à pobreza, geram a violência. Talvez a grande questão seja a extrema desigualdade social, inclusive no Brasil, que reflete em todos esses aspectos que terminam por desencadear a delinqüência juvenil. A fim de discutir e propor alternativas de combate, prevenção e punição aos atos violentos e criminosos, os estudos sobre violências precisam estar atentos e levantar questões sobre de onde vêm os comportamentos violentos e delinqüentes, por que eles existem, a quem eles envolvem e atingem, por que os adolescentes e jovens, incluindo os da classe média e média baixa, tornam-se agressivos, violentos e criminosos.
1.1.1. Violência: aspectos conceituais
Quando se fala em violência, logo vêm à mente assaltos, confrontos armados, traficantes, mortes e outras formas brutais em que o fenômeno se manifesta. No entanto, as formas de discriminação, preconceito, agressões físicas e verbais também estão presentes no cotidiano das pessoas, reforçando e disseminando a cultura da violência e do medo na sociedade.
Ao discutir sobre violência, Debarbieux (2002) aborda dois pontos: o primeiro se refere ao uso abusivo e anticientífico do termo violência, que passa a incluir tudo o que é visto como incivilidade; o segundo aspecto, de natureza política, diz respeito ao sensacionalismo do tema violência, promovido principalmente pela mídia, menosprezando a questão científica e, de certa forma, escamoteando a necessidade de controle e segurança das sociedades neoconservadoras, e promovendo a criminalização da pobreza. A partir dessas considerações, Debarbieux procura mostrar que apenas uma definição ampla de violência, que inclua também a microviolência, pode avaliá-la de fato e ir além de uma abordagem meramente repressiva e estabelecer a necessidade de prevenção. O autor acredita que se a violência é construída ela pode ser desconstruída. A repressão somente pode ter um efeito retardado para a vítima que já foi atingida, por isso o mais significativo é avaliar as políticas públicas que tratam da violência e agir também na prevenção da mesma. Assim, o que importa não é quantas pessoas foram presas, mas a redução do número de vítimas e o grau de vitimização.
Embora vista como um conceito amplo, complexo, polissêmico e controverso, a violência é entendida de forma genérica, como ações de indivíduos, grupos, classes ou nações que originam danos físicos ou morais a si próprios ou aos outros. Mello Jorge e colaboradores (2002) fazem referência à questão da intencionalidade do ato, uma vez que acidentes, mesmo considerados causadores de lesões físicas e emocionais, não são intencionais. Assim, a ausência de um limite nítido do que seja intencional ou não faz com que os estudos sobre violência a vejam em seu sentido amplo, como sinônimo de tudo aquilo que não seja natural. O risco disso é o fato de certas situações consideradas como acidentes virem a camuflar atos intencionais ou, ainda, serem iniciadas como pequenos conflitos e terminarem em atos de violência considerados graves, como homicídios ou suicídios. Com isso, surge a necessidade de, tanto os acidentes como as outras formas de violência, serem estudados em conjunto, pois representam um grande problema de saúde pública que provoca forte impacto na morbimortalidade de crianças e adolescentes.
cresceram cerca de 50% do final dos anos 70 até a primeira metade da década de 90. Em relação ao homicídio, as taxas são tão altas quanto às da Inglaterra na Idade Média.
Souza e Mello Jorge (2004) consideram violência social todas as formas de relações, ações e omissões praticadas por indivíduos, grupos, classes ou nações que resultam em danos físicos, emocionais, espirituais e morais a si próprio ou aos outros. Destacam a violência intrafamiliar e institucional como formas agressivas e cruéis de relação na família, escola e demais instituições, ocasionando danos físicos, emocionais, sexuais e até a morte. Sob diferentes maneiras de expressão, essas três formas de violência são classificadas como negligência, abuso físico, psicológico e sexual, quando relacionadas às crianças e adolescentes, salientando que as primeiras são vítimas da violência desde o nascimento, mas é na adolescência que isso se torna mais evidente, mostrando o adolescente como agente agressor e, sobretudo, como vítima. De acordo com as autoras, a negligência se refere às omissões dos pais ou responsáveis pela criança ou adolescente, quando deixam de atender às suas necessidades básicas de desenvolvimento físico, emocional e social. O abandono é uma forma extrema de negligência, incluindo a omissão de cuidados básicos como atendimento à saúde, medicamentos, higiene, proteção ao calor e ao frio, freqüência à escola e atenção necessária ao desenvolvimento físico, moral e espiritual da criança e do adolescente.
O abuso físico corresponde ao ato violento intencional com uso de força física, praticado por pais, responsáveis, familiares e outros, com o objetivo de ferir, lesar ou destruir a criança ou adolescente, podendo deixar ou não marcas no corpo ou provocar a morte. Esse tipo de abuso, que tem sido descrito no âmbito da violência familiar ou institucional, traz embutido em seu conceito a noção de poder e controle de uma pessoa mais velha, mais forte ou mais influente sobre uma criança ou adolescente, para obter o que deseja por meio da tortura, terror ou dor (SOUZA e MELLO JORGE, 2004; ASSIS e DESLANDES, 2004).
policiais, assim como nos atendimentos oferecidos pelos serviços de proteção à criança e ao adolescente no Brasil (ASSIS e AVANCI, 2004).
Para o termo abuso sexual, são várias as definições apresentadas, por pesquisadores e profissionais da área de saúde, cujos aspectos teórico-conceituais são bastante questionados no meio profissional. Alguns se referem ao abuso ou violência sexual como ato ou jogo com a intenção de estimular sexualmente a criança ou o adolescente, a fim de utilizá-los para obter satisfação sexual, abrangendo relações hétero ou homossexuais, em que os agressores estão em estágio de desenvolvimento psicossocial mais adiantado que as vítimas (SOUZA e MELLO JORGE, 2004). Outros entendem que o termo deve ser usado nos casos em que a criança ou o adolescente maltratado sexualmente, por ter tido relação sexual ou contatos sexuais genitais com um adulto ou sofrido lesões na área genital, esteja em tal fase de desenvolvimento emocional e intelectual que não tenha discernimento para consentir livremente o ato. Com isso, o adulto se aproveita da relação desigual de poder para obrigá-los a cooperar, ficando oculto o ato, que condena a criança ao mutismo, à indefesa e ao desamparo (FELIZARDO, ZÜRCHER e MELO, 2004).
Conforme colocam Habizang e Caminha (2004), os termos abuso ou maus-tratos contra crianças e adolescentes são usados para definir negligência, violência psicológica, física e sexual, perpetrado por um adulto ou alguém em estágio de desenvolvimento superior, de maneira repetitiva e intencional. O perpetrador se utiliza do poder, da relação de confiança e de força física para colocar a criança ou o adolescente em situações para as quais não possui condições biológicas ou psicológicas de enfrentamento. O adulto explora o poder que tem sobre a criança, usando-a como meio para obtenção de seus desejos, infligindo os seus direitos. O abuso viola tudo o que caracteriza a infância: a dependência, a vulnerabilidade e a inocência da criança. Os autores acrescentam que, nos últimos 20 anos, o abuso infantil tem emergido como campo de pesquisa no que diz respeito à infância e à adolescência, e, em vários países, existem programas em desenvolvimento para estudo, prevenção e tratamento.
crescimento e desenvolvimento. A violência intrafamiliar é a que ocorre em casa, geralmente sob a forma de comunicação e de relação interpessoal, como maus-tratos, abusos e negligências. As mesmas formas de violência podem ocorrer em instituições como escolas, internatos e semi-internatos, caracterizando a violência institucional. Por fim, há a violência delinqüencial infanto-juvenil e juvenil, associada a uma falta, crime ou delito cometido por adolescentes ou jovens, que as autoras sugerem sejam analisadas junto à violência estrutural e à questão de classe.
Waiselfisz (2000) também se refere às mudanças no conceito de violência, devido às transformações na natureza das relações sociais e na forma de serem percebidos os direitos humanos. Destaca a regularidade dos dados relacionados à violência, principalmente voltada aos adolescentes, que possibilita inferir sobre os atos de violência, não como resultado de decisões individuais e isoladas, mas como fenômenos de natureza social, originários da convivência dos grupos e das estruturas da sociedade. O autor aponta os atos de violência, presentes na sociedade, não somente como crimes, delinqüências, homicídios e roubos, mas também nas relações familiares, de etnia e de gênero, nas escolas e nos diversos aspectos da vida em sociedade. Procura mostrar que as diferentes formas de violência abordadas não são produtos aleatórios de indivíduos isolados, e sim tendências que têm explicações na situação econômica, política e social do país.
Com isso, é necessário se questionar sobre o que pode estar por detrás dessas manifestações de violência que produzem tanta inquietude e colocam pessoas como protagonistas de diversas situações de conflito, mostrando diferentes maneiras de resolvê-las. Diante dos conflitos, aparecem formas e posturas distintas de ver a realidade, bem como uma diversidade de valores. Quem exerce a violência parece ver no outro alguém que, com suas diferenças, é um estorvo, é inferior ou é percebido como uma ameaça. O agressor atua para negar, discriminar e calar o diferente, para impor sua forma de pensar e ver o mundo e, com ela, dominar, fazer valer uma hierarquia na qual vale mais quem mais força e poder ostenta. Crê que desse modo resolve o conflito e mantém tudo aparentemente em ordem. Tentar eliminar os conflitos, exercendo a violência, é, na realidade, negá-los para não resolvê-los. Muitas vezes, por detrás dessa visão rígida e pobre da realidade, está alguém que não sabe lidar com suas frustrações e crê que o poder imposto pela violência é a única forma de atuar. Essas definições e reflexões levam a pensar sobre quem são os perpetradores e as vítimas da violência e o que faz com que ela se manifeste de várias formas, em diversos contextos, momentos históricos e situações.
Yunes (2002) aponta dados da OMS, referentes ao ano de 2000, que revelam um quadro de violência gravíssimo, onde milhões de mortes ocorrem no mundo devido à violência. A cada ano, além de mortes e seqüelas físicas, a violência vem causando danos à saúde, implicações psicológicas nas vítimas e familiares e repercussões na sociedade como um todo. A mesma fonte de dados aponta que, anualmente, cerca de 40.000.000 de crianças estão sujeitas ao abuso e à negligência, enquanto adolescentes e jovens são, ao mesmo tempo, as principais vítimas e perpetradores da violência interpessoal em várias regiões do mundo. No Brasil, a situação é bastante preocupante, de forma especial entre adolescentes e jovens do sexo masculino, embora exista um expressivo aumento da violência em todos os grupos de idade.
A reação da sociedade contra a delinqüência infanto-juvenil parece ser muito maior do que a amplitude do próprio fenômeno no país. Apenas para efeito de comparação Assis e Constantino (2001) destacam que, no ano de 1994, para cada 100.000 habitantes no Rio de Janeiro, havia 134 infratores jovens de 12 a 17 anos de idade, enquanto que em Nova Iorque, no mesmo ano, 1.045 jovens para cada 100.000, da mesma faixa etária, bem superior à taxa do Rio de Janeiro. No entanto, esses números crescem a cada dia no Brasil, envolvendo adolescentes, vítimas ou agentes que cometem crimes e violências, algumas vezes, brincando ou utilizando intencionalmente armas de fogo, pois em quase todas as sociedades e períodos da história da humanidade esse grupo social foi e é o mais rebelde e o que mais infringe as normas e leis sociais.
1.1.2. O adolescente e a violência
A violência envolvendo o jovem em idade escolar é uma grande questão do momento, estampada nas manchetes dos jornais e revistas, notícia presente nos telejornais, assunto de conversas que gera preocupação e mobilização da sociedade, objeto de debate de especialistas de várias áreas que buscam explicações e soluções para o enfrentamento do problema. A violência está cada vez mais presente e próxima à vida do jovem, influencia suas atitudes, interfere em sua programação social e em sua rotina de vida.
Os conflitos econômicos, políticos e sociais pelos quais passa a população e, em especial, a questão da violência que se expressa na delinqüência envolvendo o adolescente, não somente como vítima frágil, mas também como aquele que comete atos violentos e crimes, atormenta o cotidiano das pessoas, invade os lares das famílias brasileiras, que acabam por se restringir à massificação da mídia e ao aprisionamento em suas casas, por vivenciar o medo e a insegurança nos espaços sociais.
Para analisar esse tema de tamanha grandeza e complexidade, não basta entender os conceitos atribuídos à violência, ao crime e ao castigo, mas inclui a compreensão do que pensam e vivem os adolescentes sobre a violência e o crime e em que contextos esses fenômenos se manifestam.
grave problema de Saúde Pública (MILANI, 2000). Nas suas múltiplas causas e na sua complexidade, acrescenta o autor, a violência também atinge os adolescentes, quer na condição de perpetradores ou na de vítimas, fazendo com que de uma forma ou de outra terminem por sofrer exclusão. Embora ela ocorra em todas as faixas etárias, são as crianças e os adolescentes os que estão em situação de maior vulnerabilidade e os que sofrem maiores conseqüências sobre sua saúde, por estarem em processo de desenvolvimento. Quando são agressores, os adolescentes são excluídos da possibilidade de vivenciar a cidadania; quando vítimas, eles são excluídos de sua própria vida ou de um completo bem-estar físico, mental e social.
Dados da Previdência Social, apresentados por Zaluar (1996), apontam um grande aumento no número de mortes violentas nas últimas décadas: no ano de 1988, 3,1 mortes de crianças e adolescentes por dia em todo o país; em 1990, 5,6 mortes da população da mesma faixa etária. As causas apontadas são acidentes de transporte, outros acidentes, suicídio, homicídio e outras violências. Em São Paulo, no ano de 1990, morreram 853 jovens; no Rio de Janeiro, 442. De acordo com a mesma fonte, os adolescentes brasileiros morrem mais por assassinato do que por qualquer outro motivo. Os homicídios com o uso de armas de fogo correspondem a 39% do número total de mortes de adolescentes, liderando as estatísticas apresentadas. Desses 39% de mortes, 78% atingiram adolescentes entre 15 e 18 anos de idade, 10% entre 12 e 14 anos, 8% atingem crianças entre 5 e 11 anos, e 4%, entre 0 e 4 anos. Portanto, são os adolescentes acima de 14 anos de idade que estão sendo sistematicamente mortos.
O envolvimento relativo dos adolescentes como agentes e vítimas da violência é uma característica em que o Brasil segue algumas das tendências encontradas no contexto internacional, especialmente no continente americano. Contexto no qual se deve investigar como a pobreza afeta os jovens, embora não existam dúvidas sobre a correlação entre baixa escolaridade e baixa renda, independentemente do critério que se adote. Dados referentes a trabalhadores pobres analfabetos ou com apenas um ano de escolaridade, ao aumento do número de famílias chefiadas por mulheres e de crianças com menos de 10 anos nas famílias de renda mais baixa no país explicam mais o fenômeno da criança que, aos poucos, corta o vínculo com a família e a escola e passa a viver na rua, com outras crianças e adolescentes. A relação do que acontece com essas crianças e adolescentes com o aumento da criminalidade é decorrente de toda a espécie de usos e abusos a que são submetidos, inclusive dos adultos que pertencem às redes de receptação de objetos roubados e de policiais corruptos. Entretanto, a maior parte dessas crianças e adolescentes que vivem e trabalham nas ruas permanece fora das atividades criminosas, mesmo que em posição vulnerável à influência dos grupos organizados de criminosos. Apenas uma parte termina envolvida nas quadrilhas de ladrões e traficantes (ZALUAR, 1996).
Outro aspecto a ser destacado é o fato de crianças e adolescentes pobres não permanecerem na escola, apesar do crescimento da rede escolar em quase todo o país. Tanto o analfabetismo quanto a baixa escolarização dessas crianças e adolescentes podem ser explicados parcialmente pela necessidade de trabalho para complementar a renda familiar. Outro problema é a repetência continuada como mais uma das falhas do sistema de ensino brasileiro, que contribui para afetar a auto-estima e a auto-imagem dos alunos mais pobres e termina por favorecer o meio propício à violência e à criminalidade. Com isso, os efeitos da pobreza e da urbanização acelerada no aumento da violência nos últimos anos só serão compreendidos se, além das questões sobre escolaridade, baixos salários e atração pelas quadrilhas, sejam analisados também os mecanismos institucionais e sociais do crime organizado, da corrupção, da conivência e participação de policiais e outros atores no crime organizado, na política, baseada na repressão da população pobre, que somam efeitos negativos a essa mesma população (ZALUAR, 1996).
constituem o maior grupo etário da população. De acordo com o autor, são mais de 34 milhões de adolescentes, que representam 20% da população brasileira. Com o constante aumento do número de adolescentes envolvidos em crimes, gangues e atos violentos, as perspectivas em relação ao panorama da violência são assustadoras. Os jovens do sexo masculino, negros ou descendentes dessa etnia, residentes em áreas pobres ou periféricas das grandes cidades, são considerados o principal grupo de risco para a mortalidade, principalmente por homicídio.
Em todos os anos, ocorre certo número de mortes violentas, maior ou menor que nos anos anteriores, mas com uma regularidade e constância que possibilitam um prognóstico, com pequena margem de erro, a respeito da quantidade de adolescentes e jovens que morrerão no próximo ano por causas violentas. Partindo-se da definição mais abrangente de violência, que inclui vários comportamentos, inclusive mortes por violência, sugere-se que nem todas as violências levam necessariamente à morte de seus implicados. Entretanto, dados mais recentes, apresentados no Mapa da Violência IV, já denunciam uma realidade em que o Brasil é o terceiro país com as maiores taxas de homicídios na faixa etária dos 15 aos 24 anos, num
ranking de 67 nações. Em 2002, dos adolescentes mortos, 39,9% foram vítimas de homicídio (WAISELFISZ, 2004).
Além disso, entre 1993 e 2002, o índice de mortalidade dos adolescentes no Brasil cresceu 88,6%, sendo que um terço das mortes foram provocadas por armas de fogo, enquanto outra parcela significativa morre sem dignidade, sem cidadania, vítima da delinqüência e da marginalidade. O crescimento do número de assassinatos entre os adolescentes é maior do que na população total. Com o número de mortes 74% superiores aos demais, os negros são as principais vítimas. Esse quadro gravíssimo faz com que o desafio de se modificar os mecanismos que impulsionam e perpetuam a violência seja ainda maior e mais urgente (PRANDI, 2004). O fato de não haver uma política de prevenção à violência levam a crer que existam ações mais voltadas para o combate à violência, levando os esforços para reduzir os seus índices a perder grande parte de sua eficácia.
evidenciada, apontando os jovens como agentes agressores e, sobretudo, como vítimas, que sofrem violação de seus direitos, afetando direta e indiretamente sua saúde física, mental e emocional. De acordo com as pesquisadoras, entre 1990 e 2000, 211.918 crianças e adolescentes morreram por acidentese violências diversas; dessas, 59.203 são crianças de 0 a 9 anos, 33.512 são púberes de 10 a 14 anos e 119.203 são adolescentes de 15 a 19 anos. As autoras consideram esses dados alarmantes, principalmente quando comparados as 146.824 mortes ocasionadas por doenças infecciosas e parasitárias, ocorridas no mesmo período e com crianças e jovens da mesma faixa etária.
Sanches e Minayo (2004) partem da análise da definição de saúde, contida na Constituição de 1988, para dizer que a violência e suas conseqüências maléficas sobre a saúde são, primeiramente, uma violação aos direitos humanos, de qualquer que seja a classe social, credo, etnia, sexo e idade. Assim como Milani (2000), Souza e Mello Jorge (2004), as autoras afirmam que a violência contra as crianças e adolescentes tem feito parte da história da humanidade, desde os tempos antigos até a atualidade, variando em expressões e justificativas. São tipos de violência que resultam em danos físicos, emocionais, sexuais e morais às crianças e adolescentes, que podem ser definidos como atos ou omissões dos pais, parentes, responsáveis, instituições e da sociedade em geral. Os adolescentes parecem estar mais envolvidos pela violência como vítimas do que como agressores.
Dados do IBGE também revelam que cerca de 20% das crianças e dos adolescentes sofrem violência física e 80% dos agressores são seus próprios pais, caracterizando a violência intrafamiliar. Em estudos de Assis (1994), num universo de 1.328 adolescentes de escolas públicas e particulares, 75% deles se referiram aos irmãos como autores de violência; 40%, ao pai e 45%, à mãe. Outro tipo de violência freqüente envolvendo adolescentes, principalmente no ambiente familiar, é o abuso sexual, cujos estudos mostram que as principais vítimas são meninas e os agressores são o pai, o padrasto ou pessoas conhecidas e do círculo social da vítima.
intracerebrais. Muitas crianças e adolescentes sofrem lesões oculares e auditivas, levando à invalidez temporária ou permanente ou até à morte. Devido a sentimentos tão ambíguos, confusos ou vingativos, como ansiedade, angústia, raiva, medo, terror, ódio e hostilidade gerados pelas agressões físicas, alguns autores as têm associado à delinqüência (SANCHES e MINAYO, 2004).
Tendo em vista a amplitude dos conceitos atribuídos à violência, não são necessariamente as agressões físicas, o abuso sexual ou tão somente a violência psicológica que afetam o adolescente. A violência estrutural apresenta forte expressão no contexto do país: o Censo de 2000 aponta que, dentre 60 mil crianças e adolescentes brasileiros de 0 a 17 anos, cerca de 20 mil, o que corresponde a 34,8% deles, vivem em famílias com renda mensal de até meio salário mínimo per capita. Nas regiões mais pobres como o nordeste brasileiro, o percentual chega a 58,8%, denunciando a gravidade e a precariedade das condições de vida em geral e, sobretudo, da criança e do adolescente (SANCHES e MINAYO, 2004).
A realidade referente aos adolescentes também é grave em outras partes do mundo, como nos Estados Unidos, Irã, Iraque e Israel. No primeiro caso, fala-se do desafio no desenvolvimento do adolescente em administrar com sucesso a vitimização causada por várias formas de agressão. Embora representem, ao contrário do Brasil, somente um décimo da população dos Estados Unidos, os adolescentes fazem parte do grupo dos 25% de vítimas de crimes violentos, entre 1987 e 1992. Eles vivenciam quase duas vezes mais crimes violentos do que os adultos entre 25 e 34 anos e cinco vezes mais do que as pessoas acima de 35 anos de idade. São os adolescentes que representam 23% de todas as pessoas que vivenciam todos os tipos de crimes violentos e quase 25% de vítimas de violência. Apesar de a vitimização no período citado ser bastante alta, o foco maior tem sido nos adolescentes como agressores e não como vítimas, fato que tem sido negligenciado nas pesquisas no país (ROBERTS et al., 2002).
comunidade. O autor aborda principalmente a questão das crianças e dos adolescentes em Israel, como vítimas inocentes e como participantes ativos da violência. Como vítimas passivas, eles são separados de seus pais, irmãos mais velhos e também os vêem serem humilhados, torturados e mortos. Eles mesmos podem ser baleados, feridos ou mortos ou forçados a fugir. Muitas vezes, crianças e adolescentes do Líbano, da Palestina, do Irã e Iraque participam ativamente das situações de guerra. As conseqüências físicas e psicológicas são semelhantes àquelas que atingem as crianças e adolescentes que foram expostos à violência na comunidade ou no ambiente doméstico, sem falar na dificuldade em estudar em tempo de guerra, nos receios, nos elevados níveis de ansiedade, insegurança e insônia pelos quais eles passam.
Hagan e Foster (2001) destacam a violência entre adolescentes nos Estados Unidos, e os danos que ela pode causar, para si mesmos ou para os outros, conforme a vivenciam, se como vítimas ou como perpetradores da violência. Afirmam que a adolescência é a fase de vulnerabilidade e de exposição a atos violentos, que ocorrem tanto em relações íntimas quanto com desconhecidos, com grandes riscos, principalmente relacionados à saúde, como depressão, gravidez precoce, afetando negativamente a vida adulta. Os autores apontam uma queda nas taxas de atos violentos considerados graves, como o homicídio, embora ainda sejam seis vezes maiores nos Estados Unidos do que no Canadá. Ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos e no Canadá, as vítimas femininas representam um número aproximadamente dez vezes maior do que as masculinas. Ao concluírem essa análise, destacam o consenso de que a juventude é um problema sério na América, e que pouco se sabe empiricamente sobre as relações entre a violência e a juventude, mas vem surgindo a perspectiva de estudos sobre as causas e conseqüências do envolvimento da criança e do adolescente com a violência.
Muitos não demonstram o estereótipo de adolescente violento; são jovens que vêm de famílias de todas as classes, de diferentes idades e níveis de escolaridade, às vezes até compatível com a idade. Os argumentos e as justificativas usadas por adolescentes pobres e ricos parecem ser os mesmos: o da disputa pelo controle de algo ou alguém, o da rivalidade entre grupos, times, bairros e colégios, ou mesmo o prazer de demonstrar força e poder. Parece ser um comportamento normal em uma sociedade que valoriza o mais forte, o melhor, o competitivo, o vencedor, em detrimento de conceitos que se traduzem em utopias, como afeto, amor, respeito, solidariedade e tolerância.
1.2. Violência e escola
A violência é um grave fenômeno social existente em todo o mundo que cresce a cada dia e preocupa pais e educadores em suas diversas expressões no interior das escolas. Para Abramovay e Rua (2003), a percepção da violência no contexto escolar varia de acordo com a abordagem que é dada a esse meio. Antigamente, as análises eram voltadas para a violência do sistema escolar, principalmente por parte dos professores contra os alunos, por meio de punições e castigos corporais. Atualmente, os estudos recaem sobre a análise da violência praticada entre alunos, de alunos contra a propriedade, de alunos contra professores e de professores contra alunos. A ênfase de cada estudo depende da definição que se dá à violência.
Charlot e Émim (1997, citados por ABRAMOVAY e RUA, 2003) falam a respeito da dificuldade em definir a violência escolar porque se refere a fenômenos heterogêneos e desestruturam as representações sociais fundamentais que as pessoas têm sobre a infância e a escola, por exemplo. Além disso, não existe um consenso sobre o significado de violência e, em particular, de violência escolar, que deve ser definida de acordo com as características de cada instituição. O que é caracterizado como violência varia em função da escola, da posição de quem fala, da idade e do sexo; portanto, um conceito de violência que seja apropriado ao tempo, ao lugar e aos atores que a analisam (ABRAMOVAY, LIMA e VARELLA, 2003).
e constitutivo de um mundo competitivo e hostil, em que as relações sociais, os conflitos e as tensões são marcados pela presença de atos violentos. Freqüentemente, são denunciadas expressões de violência nas escolas, como brigas e agressões entre alunos, aluno e professor, depredações de prédios e materiais escolares e a interferência do narcotráfico, entre outras manifestações. É o que se pode esperar em sociedades marcadas pela injustiça, desigualdade e exclusão social. Nesse contexto, emergem as questões relativas às relações entre violência e escola, com certa dramaticidade, provocando crescente perplexidade e preocupação entre educadores e pais, não somente no Brasil, mas em um grande número de países, embora ainda pouco trabalhada sob o ponto de vista da pesquisa educacional.
Segundo Debarbieux (2002), não pode haver um conhecimento total sobre a violência ou sobre violência na escola, pois só é possível obter representações parciais a seu respeito, caso contrário, os pesquisadores se tornariam vítimas da fantasia, que é tudo menos científica. Acrescenta que os diferentes pontos de vista abrem espaço à pluralidade de conhecimentos e de representações sobre a violência. Entretanto, alerta que uma nova posição frente a esse fenômeno pode demonstrar distorção ou uso inadequado da maneira como os fatos são vistos, pois atos sociais heterogêneos agrupados sob o termo genérico “violência” se tornam algo que precisa ser levado em consideração pelos atores escolares, consistindo numa das abordagens possíveis. Para Debarbieux, a extrapolação da palavra violência pode, também, levar a uma outra análise de ordem política, que se refere ao interesse pela violência, na medida em que ele venha alimentar as representações conservadoras da infância indisciplinada, que justifica todas as políticas punitivas, repressivas e retrógradas pelo excesso da supervisão. Essa interpretação levaria o Estado a se isentar de suas responsabilidades sociais e econômicas, em apelo à responsabilidade individual da população sobre si e sobre os outros, a partir de uma determinada idade. Com isso, a construção desse objeto de pesquisa está vinculada à opinião pública manipulada pela mídia e pelos poderes políticos. É possível que o tema violência escolar tenha recebido destaque exagerado, principalmente, por meio da mídia, da imprensa escrita e televisiva.
institucional e as incivilidades. A violência física se refere aos ferimentos, golpes, roubos, crimes, vandalismo, droga, tráfico, violência sexual, incluindo a violência que pode matar. A violência simbólica aparece nas relações de poder, na violência verbal entre professores e alunos. As incivilidades são constituídas pelas microviolências, humilhações, palavras grosseiras e desrespeito. São considerados os atos que rompem com as regras de convívio social, como as pequenas delinqüências, a agressividade, a insensibilidade em relação ao outro, que ferem a auto-estima, fomentam sentimentos de insegurança, interferindo na qualidade das relações interpessoais.
Aquino (1998) defende a abordagem da violência escolar sob a ótica institucional que procura demonstrar a existência de uma violência “produtiva” embutida na ação pedagógica, apresentando duas tônicas que estruturam o pensamento na problematização da violência simbólica ou concreta: a de cunho sociologizante, e a outra, clínico-psicologizante. A primeira se refere às conseqüências das determinações macroestruturais, geralmente vistas como perversas, sobre o contexto escolar, que resultam em reações violentas por parte da clientela. A segunda aponta um diagnóstico de caráter evolutivo ou até patológico de quadros ou personalidades violentas que influenciam a convivência no ambiente escolar. Assim, a violência traz uma raiz essencialmente exógena em relação à prática institucional escolar: segundo a perspectiva sociologizante, nas coordenadas políticas, econômicas e culturais dos tempos atuais; quanto à perspectiva clínico-psicologizante, na estruturação psíquica prévia dos personagens envolvidos nos conflitos. A combinação dessas abordagens também pode ser usada como alternativa para a compreensão de situações conflitivas presentes no meio escolar. Portanto, em termos especificamente institucionais, a ação escolar é marcada pela reprodução difusa dos efeitos advindos de outros contextos institucionais, como a política, a economia, a família, a mídia, dentre outros. De qualquer modo, a escola e seus atores, principalmente os professores, tornam-se reféns de determinantes que ultrapassam os seus muros, restando-lhes a resignação, o desconforto e a desincumbência diante dos efeitos da violência.
Entretanto, as relações escolares não implicam necessariamente em um reflexo das relações extra-escolares, reproduzindo tão somente o que acontece fora dela. Algo de novo se produz no cotidiano escolar, por meio da reapropriação das forças externas pelos atores e procedimentos que fazem parte da escola. As relações no cotidiano das instituições escolares não se constroem à revelia dos desígnios de seus principais atores, os educadores e os alunos; elas até podem refletir algumas das determinações macroestruturais abstratas. Nesse sentido, a equivalência entre ação institucional escolar e reprodução macroestrutural deixa de fazer sentido em si mesmo, o que se expressa geralmente na idéia de uma instituição alheia, poderosa e involuntária em confronto com a prática concreta de seus atores (AQUINO, 1998).
em foco as questões de ordem institucional. O ser humano deve ser pensado situado num contexto complexo de relações institucionalizadas, como sujeito institucional, também. Essa linha de pensamento, que propõe um olhar institucional sobre as práticas institucionais, exige algumas atitudes e procedimentos, tais como: abrir mão de uma leitura totalizadora dos fenômenos escolares, especificamente os que envolvem a violência, abordando-os de acordo com sua configuração institucional, isto é, como violência na escola e não como violência na família, na rua, como se todas fossem sintomas de um mesmo núcleo; situar o fenômeno no intervalo das relações institucionais que o constituem, rastreando as cenas e nuanças que constituem os efeitos da violência; descrever e analisar as marcas do fenômeno da violência tomando como ponto de partida as relações institucionais que o retroalimentam, situando o foco de análise nas relações dominantes no contexto escolar, em particular entre professor e aluno (AQUINO, 1998).
Para Caliman (2005), a violência nas escolas constitui um motivo de preocupação social e objeto de pesquisa, que se manifesta de inúmeras formas especialmente ligadas a sentimentos de privação relativa. Parte da hipótese de que a insatisfação das necessidades humanas tende a provocar situações de risco e de desvio comportamental e explica que os seres humanos que estão na base da pirâmide social e sofrem de privação absoluta resistem à mudança, mas os que estão um pouco acima sofrem privação relativa e se sentem prejudicados em relação aos superiores. A consciência dessa privação provoca percepções de frustração e ressentimentos que podem levar à agressividade e a atos violentos. Assim, quanto maior é a diferença, maior é o sentimento de injustiça e a disposição para o engajamento em movimentos de mudança, incluindo aqueles agressivos.
verificação de êxitos problemáticos das diversas formas de mal-estar. Alguns adolescentes e jovens são mais atingidos que outros, principalmente se houver uma comparação entre países tecnologicamente avançados, países em desenvolvimento e países do Terceiro Mundo, onde parece haver um maior deságio, portanto, maior risco social e vulnerabilidade à violência e ao crime (CALIMAN, 2006).
Percebe-se que, embora sejam muitas as interpretações a respeito do tema violência nas escolas, a maioria delas converge para o mesmo eixo de análise que são as problemáticas sociais, políticas e econômicas presentes numa sociedade que, mal administradas, mal compreendidas e à margem das preocupações e ações dos governantes, provocam uma crise de valores, uma desigualdade social, geradoras de conflitos e riscos sociais. Isso remete à abordagem do tema por Candau (2001), quando se refere a três questões fundamentais: a primeira afirmando que não se pode dissociar a questão da violência na escola da problemática da violência presente na sociedade em geral, onde existe miséria, exclusão, corrupção, desemprego, concentração de renda e poder, autoritarismo e desigualdade, todos articulados à questão da violência por meio de uma teia de relações, em que violência social e violência escolar estão relacionadas, mas essa relação não pode ser vistas de modo mecanicista e simplista; a segunda afirmação diz que a problemática da violência apresenta uma dimensão estrutural e, também, uma dimensão cultural, ambas intimamente articuladas e dependentes uma da outra, por isso só pode ser compreendida se o ponto de partida for sua complexidade e multicausalidade, não podendo ser reduzida às questões referentes à desigualdade e exclusão social, criminalidade, crise do Estado e das políticas públicas, especialmente na área social, falta de ética, entre outras; a terceira parte do pressuposto de que as relações entre violência e escola não podem ser concebidas exclusivamente como um processo de “fora para dentro”, a violência presente na sociedade penetra na escola, mas também é um processo gerado no interior da escola.
1.3. Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA
convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” (MARCOVITCH, 2002).
A primeira manifestação internacional a favor dos direitos das crianças e dos adolescentes foi a Declaração de Genebra, em 1924. Somente trinta e cinco anos depois, em 1959, a Organização das Nações Unidas – ONU estabeleceu alguns princípios referentes à proteção e a cuidados especiais da criança, inclusive proteção legal antes e depois do nascimento, reconhecendo sua imaturidade física e mental. Entretanto, esses princípios só se concretizaram em 1979, Ano Internacional dos Direitos Humanos da ONU, momento em que veio à tona a Convenção dos Direitos da Criança, marco significativo para a defesa das crianças e dos adolescentes, tanto no Brasil como em âmbito internacional (MELLO JORGE et al., 2002).
De acordo com o ECA (1990), considera-se criança o menor de doze anos de idade e adolescente os que têm idade entre doze e dezessete anos. Sob o ponto de vista legal, as concepções adotadas variam nos diferentes ramos do Direito. Na área da saúde, a primeira faixa é constituída pelas crianças menores de um ano de idade, devido as suas características próprias e a doenças e mortes a elas pertinentes. A faixa seguinte, relativa ao pré-escolar, compreende as crianças de um a quatro anos; a escolar, de cinco a nove anos e, dos dez aos dezenove anos, tem-se os adolescentes. Os jovens constituem a faixa dos quinze aos vinte e quatro anos de idade.
Ainda que longe de ser totalmente respeitado, o ECA é visto como um grande avanço na legislação da sociedade brasileira, que deve ser mais bem conhecido e compreendido por todos os segmentos que atuam junto às crianças e aos adolescentes e pela sociedade em geral. Esse instrumento tem sido questionado de diversas maneiras, inclusive de forma contraditória. Primeiro, por não ser cumprido e, segundo, por ser cumprido isentando de pena mais severa os menores infratores reincidentes, considerando-o um elemento facilitador e atenuante dos desvios comportamentais e das atitudes chamadas delinqüências de adolescentes e jovens (WESTPHAL, 2002).