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MUSIC IN THE NIGHT. David não quer mais sofrer de tanto amar!

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Academic year: 2022

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MUSIC IN THE NIGHT

A

NDREA

D

AVIDSON

David não quer mais sofrer de tanto amar!

Tudo em Helena deixa David excitado! Cabelos, mãos, olhos, seios, pernas… Ela está mais linda do que há doze anos, quando o abandonou para se dedicar à maior paixão de sua vida:

a música.

Estão abraçados, pele contra pele, suor contra suor. As mãos dele exploram as partes mais secretas daquele corpo querido. Helena não agüenda mais de tanto amor, porém teme prejudicar sua carreira de pianista… David não quer sofrer como no passado: Helena tem

que ser sua a qualquer custo. Agora!

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Momentos Íntimos nº 20

© 1985 Andrea Davidson

Originalmente publicado pela Harlequin Enterprises Limited

© 1985 para a língua portuguesa ABRIL S.A. CULTURAL

Tradução: Rosana Savio

NOVA ABRIL CULTURAL — CAIXA POSTAL 2372 SÃO PAULO

Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

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CAPÍTULO I

David colocou o dedo dentro do colarinho e puxou-o, tentando afrouxar um pouco a camisa social que lhe apertava o pescoço. A expressão de seu rosto era de desconforto, não só por causa da camisa, mas também por não estar se sentindo bem no local em que se encontrava.

Com seu físico atlético, ele se destacava no meio da multidão que aguardava no salão de entrada do Teatro Municipal. Sentia que transpirava mais do que durante uma partida de futebol americano.

Não se lembrava de ter se sentido tão entediado antes. Olhou para a jovem que o acompanhava e bocejou. Ela até que era uma loira bonita e atraente. Alta, esbelta e com muita classe, era uma modelo conhecida. Mas nada naquele dia parecia agradar David.

— Há quanto tempo é manequim? — perguntou ele, num tom de indiferença.

— Desde os dezessete anos — respondeu ela com simpatia.

A multidão finalmente começou a se movimentar, entrando no auditório do grande teatro. David sentiu-se aliviado por poder mexer um pouco as pernas, paradas na mesma posição por quase meia hora. Além da manequim, estava acompanhado por Jerry Monroe e a noiva. Jerry era um velho amigo que às vezes se tornava cansativo quando decidia ensinar aos outros a melhor forma de aplicar dinheiro. E durante os trinta minutos de espera, Jerry falara o tempo todo sobre investimentos.

Quando David conseguiu sentar-se, percebeu que continuaria no desconforto. O assento era muito estreito para o seu tamanho e as fileiras eram próximas demais, dificultando uma boa posição para suas longas pernas.

Se pelo menos pudesse esticar os pés sobre o encosto da frente, como costumava fazer nos estádios, enquanto assistia a uma partida, seria melhor.

Mas, ao lembrar disso, olhou para a jovem loira a seu lado e pensou o quanto ela acharia estranho e mal-educado da parte dele se fizesse tal gesto. Teria que se conformar em passar o resto da noite ali, espremido e desconfortável.

Para distrair a mente e esquecer um pouco o sofrimento físico, David começou a observar as pessoas já acomodadas e as que ainda se acomodavam. O movimento de entrada continuava intenso. A maioria das mulheres vestia casacos de peles, ostentando elegância e riqueza. Os homens sentavam-se perto das esposas, carregando no rosto uma visível expressão de infelicidade. Provavelmente preferiam estar em casa, assistindo ao futebol americano das segundas à noite, na televisão.

A decoração interna do teatro era a síntese do luxo e da beleza. As paredes azul-claras eram divididas em retângulos. À frente de cada retângulo havia uma estátua de bronze representando Apoio, Orfeu, Lino, Ligéia e outros personagens menos conhecidos, que haviam encontrado na música a alegria e o sustento para viver. Imensos lustres de cristal desciam do teto, deixando o ambiente tão claro quanto a luz do dia, e um alto e macio carpete forrava o chão.

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O calor interno dava a sensação de que o teatro era um abrigo que protegia a todos do mundo lá de fora, onde a neve caía densa.

O Teatro Municipal era um dos poucos velhos monumentos do centro da cidade que havia escapado da especulação imobiliária. Alguns progressistas o tinham rotulado de "grande elefante branco", símbolo do excesso de decadência da era da depressão americana.

Mas para David Àtwell, o velho teatro era um monumento ao passado, quando os dias, talvez, fossem melhores para se viver e os homens tivessem menos dificuldade para tomar decisões. Um tempo em que o mundo girava no ritmo de uma roda-gigante e a única coisa que o homem precisava fazer era ocupar seu lugar nessa roda, sem se preocupar com os acontecimentos futuros. Um mundo nada parecido com a turbulência e o ritmo frenético dos dias atuais.

O teatro também trazia para David a lembrança de sua adolescência, quando seus pais o forçavam a ficar quieto, sentado no meio dos dois, ouvindo sinfonias que pareciam não acabar nunca. Seus pais desejavam fazer com que ele se interessasse pela música e talvez se tornar um famoso artista. Durante os concertos, eles observavam o filho sem perceber que, apesar de David prestar atenção ao que se passava no palco, sua mente estava bem distante dali, tornando-o surdo para a sinfonia apresentada. O pensamento de David era sempre o mesmo: futebol americano. Sonhava com lindos capacetes e armações grandes para os ombros, material necessário para esse esporte.

Imaginava-se como um grande campeão que fazia difíceis passes laterais e excelentes manobras, fugindo do time adversário e carregando corajosamente a bola para o gol.

Agora, depois de todos aqueles anos em que fizera parte da federação nacional de futebol americano, David estava de volta à sua cidade, ao seu lar.

Que estranha conotação a palavra "lar" tinha para ele! Havia se afastado de sua família por tanto tempo, jogando em diversos times sediados em cidades diferentes, que cada lugar por onde passava era seu lar.

Aquela cidade agora lhe era tão estranha como qualquer outra. Seu pai e sua mãe haviam se mudado para a Flórida após se aposentarem. Seus irmãos tinham casado com colegas do tempo da escola e mudado para direções opostas: um foi para o norte e outro para o sul.

Contudo, a cidade natal de David Atwell, situada a apenas uma hora de Nova York, era diferente de todas as outras. Ali aprendera as primeiras regras do futebol americano, com a ajuda do pai. Aprendeu também o fundamental para se tornar um grande atleta. Enfim, ali havia se tornado adulto.

Glória, a modelo que o acompanhava, acariciou o braço dele, despertando-o de seus pensamentos. David retribuiu com um sorriso fugaz, voltando a olhar para a frente. De repente se arrependeu do modo frio com que estava tratando sua acompanhante e em pensamento se repreendeu:

”Trate-a melhor, homem. Ela é maravilhosa! Não se esqueça de que está sozinho nesta cidade. Não seja idiota”. Então, para se redimir, colocou sua mão sobre a de Glória e a acariciou também.

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Após alguns minutos de espera, as luzes começaram a diminuir, num aviso de que o concerto se iniciaria dentro de poucos segundos. Os músicos já começavam a ocupar seus lugares no palco e testavam seus instrumentos.

O maestro entrou, vestindo fraque preto, cumprimentou o público e, virando-se para a orquestra, fez um gesto para os músicos, que silenciaram rapidamente. Usando um longo vestido preto, a pianista que faria o solo entrou nesse momento e, depois de cumprimentar o público, graciosamente dirigiu-se para o piano, acomodando-se na banqueta. Enxugou as mãos num lenço que estava à direita do teclado e olhou para o maestro. Estavam prontos para iniciar o concerto.

No momento em que ela entrou no palco, o coração de David disparou.

Sem perceber, apertou firme a mão de Glória, quase machucando-a. Só viu o que fizera depois que ela puxou a mão e se queixou.

— Desculpe, Glória. Foi sem querer… — disse ele, olhando para a sua acompanhante, que sorriu.

David, então, voltou os olhos para o palco, ou melhor, para a pianista.

”Doze anos… Será que é realmente ela?”, pensava David, enquanto olhava intensamente para a jovem ao piano.

Ele se lembrou do programa que trazia os nomes dos músicos e, com esforço, apesar da pouca claridade, conseguiu ler: Concerto número 2 em Dó Menor, de Rachmaninoff. Solista: Helena Shubert.

Sim! Era realmente Helena. David sorriu e respirou profundamente, sentindo-se trêmulo. Passou os dedos sobre as letras em alto-relevo que formavam o nome dela, enquanto seu pensamento voltava-se para fatos do passado. Apesar de tantos anos, tudo ainda estava bem claro em sua lembrança.

Helena pousou os longos dedos sobre o teclado, posicionando-se para o início do concerto. Neste momento fez-se um silêncio tão profundo, no imenso teatro, que parecia esvaziar cada alma,, deixando-a livre para ser preenchida com um som celestial.

No primeiro acorde do concerto as paredes do teatro vibraram com o som, que num segundo se espalhou.

O peito de David parecia que ia explodir, não somente pela intensidade da música mas também pela presença de Helena. A lembrança que tinha dela era fiel à imagem que via naquele instante. Continuava encantadora como sempre. Se soubesse que ela iria se apresentar nesse concerto, teria reservado lugares mais próximos ao palco, para ter oportunidade de vê-la melhor. Apesar disso, conseguia enxergar, de onde estava, os detalhes de que jamais havia se esquecido: as feições sensuais, a pele clara em contraste com o castanho dos cabelos longos, presos num coque.

Os olhos de Helena estavam semifechados, enquanto seus dedos corriam pelas teclas em movimentos rápidos. A lembrança de David voltou para aquela noite, muitos anos antes, em que Helena adormecera nos braços dele, a noite em que a possuíra por inteiro, tornando-a verdadeiramente sua. A lembrança do toque de Helena em sua pele ainda o fazia arrepiar-se. Era uma

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noite fria de inverno e o perfume doce que o corpo dela sempre irradiava tonteara a cabeça jovem de David, dando-lhe uma sensação de força e virilidade que jamais havia sentido antes. O rosto suave e sensual de Helena parecia ainda mais provocante sob a luz do luar e, junto com os cabelos cheios e ondulados, tinha perturbado os sentidos de David de tal modo que ele não conseguira se controlar.

A mente de David se dividia entre as lembranças do passado e a atenção à melodia heróica, às vezes nostálgica, que fluía pelo imenso auditório.

Helena tocava sem esforço e com muita sensibilidade. David tinha que admitir que ela estava onde sempre sonhara estar um dia. Aquele era o sonho da vida dela! David lembrava-se muito bem de tudo. Fora o primeiro amor para os dois, mas o destino os colocara em caminhos diferentes.

O concerto terminou e as recordações de David foram interrompidas pelo forte aplauso que ressoou no teatro. Helena levantou-se, agradeceu à plateia com uma reverência e um adorável sorriso, retirando-se então do palco.

David estava tenso. Pensava se deveria ou não ir aos bastidores para falar com ela, simplesmente cumprimentá-la. Talvez fosse melhor esperar pelo intervalo. ”Não!”, gritou uma voz interna. ”Vá vê-la agora!”

Descruzou as pernas devagar e inclinou-se para dizer a Glória e ao seu amigo Jerry Monroe que voltaria logo. Mas, antes que pudesse dar qualquer explicação, a orquestra iniciou outra melodia, agora executada só pelos músicos.

David estava quase levantando quando percebeu que seria impossível sair durante a apresentação. Teria mesmo que esperar pelo intervalo.

A orquestra ainda tocou mais duas músicas antes que as luzes se acendessem para o intervalo. David estava tão contorcido em seu pequeno assento que não sabia se seria capaz de ficar de pé novamente.

— Aonde vai, Atwell? — perguntou Jerry, ao ver David erguer-se, depois de muito esforço.

— Cumprimentar a pianista. É uma velha amiga — disse ele numa excitação de adolescente. — Vou até os bastidores num minuto, não vou…

— Ótimo! — interrompeu-o Jerry. — Iremos com você.

Jerry levantou-se e ajudou sua noiva a levantar-se, sem notar que David ficara irritado com sua intromissão. Sabendo que não poderia escapar, David estendeu a mão para Glória e a guiou para os bastidores com certa relutância.

O movimento nos bastidores era grande. Havia membros da orquestra que estavam sendo cumprimentados por amigos, enquanto outros discutiam animadamente a apresentação. Todos pareciam agitados. David foi abrindo caminho pela multidão, à procura de Helena. Parou quando viu um grupo que cercava o maestro e respirou profundamente ao ver Helena Shubert entre eles.

Ele a observou por um longo momento, sentindo-lhe o charme e comparando-o com o da jovem de dezoito anos que amara há tantos anos.

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Ela estava com a aparência mais madura e nos seus olhos faltava o brilho da inocência. Mas tinha que reconhecer que Helena parecia mais fascinante do que nunca. David se aproximou um pouco mais e esperou que ela o visse. Quando isso aconteceu, ele sorriu, tentando chamarlhe a atenção.

Helena olhou para aquele homem alto de ombros largos que a observava, sem reconhecer o jovem David. Muitas pessoas iam aos bastidores para conhecer ou entrevistar músicos e às vezes até para pedir autógrafos.

Isso deixava Helena feliz, pois talvez estivesse encorajando alguém a se tornar um grande artista no futuro. Afinal, ela mesma já estivera na posição de fã alguns anos antes, ansiosa para ocupar seu próprio lugar no mundo da música.

Naquele momento, contudo, ela não estava com muita disposição para dar atenção a um estranho. Sentia-se nervosa e tensa, enxugando as mãos a cada minuto. Seu empresário a havia avisado da importância do concerto, e das outras músicas que ainda teria que apresentar, para sua futura carreira.

Helena tentava prestar atenção na conversa ao seu redor, mas não conseguia se concentrar por muito tempo. As palavras do empresário não saíam de sua cabeça. Estava preocupada com as apresentações que faria a seguir. Precisava mostrar o melhor de si, senão o esforço de tantos anos seria jogado fora.

Começava a se sentir intrigada com o olhar insistente daquele homem e das pessoas que o acompanhavam. Tentou desviar a atenção e concentrar-se na explicação do maestro, que comentava uma pequena mudança que haveria na segunda parte da apresentação.

De repente, alguma coisa pareceu aguilhoar a lembrança de Helena, que olhou com uma expressão de assombro para aquele homem que a observava. Não conseguia acreditar que pudesse ser ele. Talvez sua mente agitada o estivesse confundindo com alguém parecido. Era muita coisa para um único dia.

Os dois olhos mais verdes que ela já vira fitavam-na em reconhecimento. Sim! Conhecia aqueles olhos verde-claros muito bem. O cabelo castanho talvez estivesse com um penteado diferente, mas continuava tão solto e natural como há doze anos, talvez para combinar com a personalidade de David Atwell. Ela nunca tinha sido capaz de controlá-lo. Não que desejasse isso; ao contrário, admirava o jeito livre com que ele decidia sozinho o que fazer e qual caminho seguir. E ninguém, nem mesmo ela, seria capaz de prendê-lo.

David sorriu para Helena com a certeza de que agora ela o estava reconhecendo. Em seu sorriso familiar havia uma certa intimidade que ambos conheciam muito bem. Ela sentiu as pernas enfraquecerem.

— Sim? — Helena dirigiu-se para Alexi, o maestro, ao perceber que ele lhe dirigira algumas palavras. — Desculpe, não ouvi o que disse. Poderia repetir?

— Estava dizendo que você não pode se esquecer do tempo que escolhemos para a melodia de Prokofiev. É o mesmo que ensaiamos hoje à tarde. Lembra-se?

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Helena balançou a cabeça afirmativamente. Mas seu modo de responder não parecia satisfatório para o maestro, que insistiu no assunto:

— Acha que pode conseguir, Helena?

— Claro que sim, sr. Zsarkof! — exclamou ela, irritada com a desconfiança do maestro, e concluiu: — Agora, se a aula terminou, gostaria de descansar um pouco.

Seu jeito de falar deixou claro que não se sentia bem ao lado do maestro Alexi Zsarkof. Afastou-se do grupo, indo em direção oposta ao lugar onde David aguardava com os amigos.

— Puxa! Pensei que tivesse entendido que você a conhecia, David — disse Jerry ao amigo.

David nada respondeu, mas o comentário de Jerry foi o impulso de que ele precisava para ir atrás de Helena. Abrindo caminho entre a multidão, conseguiu alcançá-la quando ela estava entrando na sala de descanso.

— Helena! — chamou, aproximando-se e segurando-a pelo braço.

Helena virou-se e o encarou, sem demonstrar nenhuma reação diferente.

— Helena? Lembra-se de mim? Sou David Atwell — disse ele, esperando por uma resposta amigável.

David tinha certeza de que ela o havia reconhecido enquanto conversava com o grupo. Mas mesmo assim Helena estava agindo como se não o conhecesse.

— Olá, David. Certamente que me lembro de você — respondeu ela educadamente, mas com certa distância, sorrindo com frieza.

David soltou-lhe o braço e deu um passo para trás, decepcionado com a falta de entusiasmo da parte dela.

Helena fitou longamente o rosto bonito de David: pele bronzeada, feições perfeitas e um olhar arrebatador. Estava mais velho, mas o tempo parecia ter tornado melhor o que já era bom. A expressão do rosto dele continuava tão forte e marcante quanto a que possuía aos vinte anos.

Helena novamente fez força para bloquear lembranças de doze anos antes, que lhe voltavam à mente. Quando conhecera David soubera instintivamente que deveria ficar longe dele. Helena aprendera cedo o preço que precisaria pagar para realizar seu sonho. Sabia que em sua vida não haveria lugar para um rapaz como David.

E agora, que estava prestes a conseguir o lugar que queria na vida artística, não poderia nem pensar em nada semelhante ao que acontecera há doze anos. Definitivamente precisava manter distância dele.

— Espero que me desculpe, David. Preciso descansar um pouco antes da próxima apresentação. Foi bom vê-lo novamente — disse ela, encerrando o encontro e entrando numa grande sala vazia.

David a seguiu e insistiu em falar com ela.

— Isto é tudo o que tem a me dizer? — perguntou ele. — ”Foi bom vê-lo novamente?”

— Por favor, David. Não insista.

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— Helena! — exclamou ele, franzindo a testa. — David Atwell, Universidade de Missouri, doze anos atrás, nós éramos…

— O que quer, David? — Ela o interrompeu, antes que ele a fizesse lembrar do que haviam sido um para o outro.

— Bem, uma conversa amigável, só isso.

— Sinto muito, David, mas no momento é realmente impossível e…

— Que tal após o concerto? — perguntou ele, ansioso. — Vou jantar com uns amigos e gostaria que você nos acompanhasse.

Ao ouvir David falar sobre os amigos, Helena lembrou-se das pessoas que o aguardavam lá fora, principalmente da loira que ela percebeu estar acompanhando David.

— Eu já jantei — respondeu.

— Podemos então ir a um bar para uns drinques e para relembrar os velhos tempos, não tão distantes… — disse ele, colocando a mão suavemente sobre o ombro dela.

— Não bebo, David. Obrigada pelo convite, mas agora preciso ficar só, por favor.

David entendeu que não adiantaria insistir. Retirou a mão do ombro dela e afastou-se, deixando-a sozinha. Helena então sentiu seu corpo enfraquecer, ao mesmo tempo em que foi tomada pela dor do desejo por aquele homem que não via há doze anos e que jamais pensara encontrar novamente. E agora lá estava ele, não como uma simples lembrança, mas presente de corpo e alma. ”Você não pode se aproximar dele novamente! O que está sentindo é apenas uma fraqueza passageira. Seja forte!”, reprimia-se Helena.

O sinal tocou, avisando que a segunda parte da apresentação começaria em cinco minutos. Helena se arrumou em frente a um espelho que havia na sala e, respirando profundamente, começou a caminhar em direção ao palco que era a sua vida. Com o corpo ereto e uma expressão altiva, recebeu os aplausos ao entrar. Agradeceu e logo os acordes do piano eram ouvidos por todos.

— Havia me esquecido como é rigoroso o inverno nesta cidade — comentou David, que aguardava no lado de fora do teatro.

— O que está fazendo aqui, David? — perguntou Helena, em desespero.

— Esperando você.

— Pensei que eu tivesse deixado claro que não acompanharia você e os seus amigos — respondeu ela, com o rosto rígido de frio.

Helena vestia um lindo casaco de peles e um delicado chapéu cobria sua cabeça, deixando soltos os longos cabelos que esvoaçavam ao vento.

— Meus amigos já foram embora.

— Sua garota também?

— Minha garota — David sorriu por causa do jeito que ela falara — foi embora também. Sabe, meus amigos não acreditaram que você era uma velha amiga. Poderia pelo menos tê-los cumprimentado.

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— Estava no meio de uma apresentação — respondeu ela em tom ríspido, e começou a descer a escada do teatro em direção à calçada.

Mas David era persistente e não desistiria tão facilmente. Helena sabia disso, mas não havia lugar para ele em sua vida. Ele era apenas uma lembrança do passado e nada mais.

— Está certo, então — concordou David, seguindo-a. — Para onde vai agora?

— Estou indo para casa, David — respondeu olhando para ele, mas logo desviou o olhar, receosa.

Os olhos verdes de David ainda possuíam um estranho poder e isso amedrontava Helena.

— Será que poderia perder alguns minutos e tomar um café comigo? Ou não toma café também? — brincou ele amigavelmente.

— Conheço um café não muito longe daqui — concordou ela, sem ter outra saída.

Sem lhe dar chance de mudar de ideia, David segurou a mão dela, guiando-a na descida da rua. O vento forte trazia os flocos de neve contra seus rostos, fazendo-os andar com a cabeça baixa. Helena não podia ter certeza, mas teve a impressão, no escuro da noite, de que David mancava um pouco com uma das pernas.

— Onde está morando? — perguntou ela.

— Estava morando no Texas nos últimos anos, mas, como mudei de profissão, decidi mudar de cidade também. É fácil e rápido ir de trem daqui a Nova York, e terei que fazer isso uma ou duas vezes por semana. Meu único receio é que, devido à minha idade, já não seja tão resistente. Não sei se terei condições de suportar este frio — brincou David de novo.

— Você vai morar aqui? — perguntou ela, agitada com o que acabara de ouvir.

— Bem, certamente não vou poder ficar voando uma ou duas vezes por semana de Dállas para Nova York.

— Tem razão — concordou Helena, sentindo um frio no estômago e um tremor no corpo, que sabia não ser por causa do tempo. — Que tipo de serviço está fazendo? — perguntou, forçando um tom normal de voz.

— Vou trabalhar na televisão — respondeu David, suas próprias palavras provocando-lhe uma estranha sensação, pois o que iria fazer agora era diferente do que havia feito por tantos anos. — Puxa, pareço meio arrogante quando digo: ”Vou trabalhar na televisão!” — repetiu ele, exagerando na fala. — Na verdade, vou trabalhar como comentarista esportivo…

— Oh, que legal! — respondeu ela, sem esconder a falsidade. — Não tenho muito tempo para assistir televisão. Quando posso, assisto a alguns concertos nos fins de semana. Tenho certeza de que para você será muito divertido.

David ressentiu-se com o comentário e, em reação, soltou a mão dela, o que para Helena não significou nada; limitou-se a colocar a mão no bolso do

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casaco e a continuar andando de cabeça baixa. Não tinha dado mais do que uns quatro passos quando parou, percebendo que David não estava a seu lado.

Olhou para trás e viu que ele havia parado, não muito distante, olhando para ela de modo estranho, como se estivesse assustado. Ao vê-la imóvel, ele se aproximou, devagar.

— Acho que me enganei — disse David. — Você é que está arrogante e prepotente, não eu. Creio que o sucesso lhe subiu à cabeça.

Helena percebeu que David falava a sério e reconheceu que havia sido rude com ele.

— Desculpe, eu não tive a intenção de ofendê-lo…

— Não me peça desculpas, Helena Shubert.

Então, aproximando-se mais, David colocou a mão sob o queixo dela e, levantando-lhe o rosto, concluiu:

— Não foi esta mulher arrogante que eu conheci e…

Helena puxou o rosto, interrompendo-lhe a fala. Por alguns segundos, ambos permaneceram calados. Então, mantendo o rosto baixo, não pelo frio mas para evitar os olhos de David, ela desculpou-se novamente:

— Sinto muito, David…

Na verdade, Helena não quisera ser rude com David, a presença dele, tão repentina, fizera com que se pusesse na defensiva. No entanto, precisava ser mais gentil com ele. Afinal era um velho… amigo.

David sentiu que pela primeira vez Helena estava sendo sincera e não insistiu mais. Passou o braço sobre o ombro dela e recomeçaram a caminhar.

— Você disse que conhecia um café aqui por perto, mas acho que a sua noção de distância é diferente da minha. Já caminhamos bastante e não vi nada até agora — comentou David.

— Está com tanto frio que não consegue caminhar um pouco? — Ela sorriu levemente, aliviando a tensão do momento anterior. — Acho que está ficando velho mesmo. Lá está o bar para onde estamos indo. — Apontou para um café do outro lado da rua. — Acha que pode chegar até lá?

— Se você realmente deseja, tentarei.

— Sim — respondeu ela. — Além do mais, Tony faz o melhor bolo de chocolate da cidade… Se você gosta de bolo, este é o melhor lugar.

David abraçou a cintura de Helena e, puxando-a para bem perto de si, falou próximo ao rosto dela:

— Sempre gostei de um bom bolo de chocolate. — E beijou-lhe rapidamente a face rosada.

Helena se surpreendeu com o gesto e ficou sem jeito, apressando-se a entrar no bar. Logo sentaram-se e ela cobriu o rosto com o cardápio, sem conseguir ler nada. Sentia um tremor que ia da cabeça aos pés. Estava inquieta, e não somente pelo beijo; mesmo antes de sentir aqueles lábios quentes em seu rosto, já se sentia perturbada pelo tom sensual da voz de David, somado ao enorme atrativo físico que ele exercia sobre ela.

Helena não sabia qual era a intenção de David ou o que ele esperava dela, mas uma coisa era certa: precisava impedir que o contato deles fosse

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além. David Atwell representava um erro dos seus dezoito anos, mas fora remediável. Agora, qualquer deslize provavelmente seria imperdoável, principalmente no que dizia respeito à carreira dela. Não podia deixar que coisa alguma interferisse na sua concentração e dedicação. Qualquer contato físico ou emocional deveria ser ligado somente à carreira. Precisava ser forte!

Helena olhou para o rosto de David à sua frente: com os cabelos em total desalinho devido ao vento na rua, parecia mais selvagem e atraente do que nunca. Ele sorriu para ela, doce e misterioso. Helena não era capaz de ler os pensamentos de David e não entendia muito bem a expressão daquele rosto. Mas no fundo sabia, ou melhor, sentia o desejo naqueles doces olhos verdes que a fitavam com intensidade. Ela se repreendeu em pensamento:

”Você está sendo tola de se sentar aqui e se sujeitar a este homem, Helena Shubert! Você é realmente uma boba!”

CAPÍTULO II

O garçom anotou os pedidos e se afastou, deixando Helena e David a sós novamente.

— Então, o que fez durante todos esses anos? — perguntou Helena, tentando mostrar naturalidade.

— Joguei bola — respondeu David, com o olhar fixo nos lábios dela.

Helena ainda se sentia muito inquieta, mas tentava disfarçar.

— Bola?

— Sim.

— Quer dizer futebol?

— Sim, Helena. Lembra-se que eu jogava futebol na escola? Queria ser o melhor e era, não se lembra?

David não sabia se devia ficar magoado ou zangado com Helena. Será que realmente ela não se lembrava de nada do passado, nem conhecia a fama dele no futebol americano? Talvez ela estivesse apenas brincando.

— Sim, lembro que você jogava futebol na escola, mas não imaginei que fosse realmente seguir essa profissão.

— Ah, entendo! — respondeu ele com raiva. — Achou que eu cresceria e decidiria fazer algo mais valioso e importante, em vez de ser um simples jogador de futebol, certo?

— David, eu não quis dizer isto, eu só…

— O que quis dizer então? — ele a interrompeu, nervoso.

Helena não respondeu, e seus olhos se perderam na distância. David virou para o lado, seguindo a direção dos olhos dela. Um garoto de dez ou onze anos, aproximadamente, acompanhado de um senhor que parecia ser seu pai, caminhava com certa inibição para a mesa deles.

— Sinto muito, David — Helena disse baixinho —, mas acho que eles querem o meu autógrafo. Espero que não se importe, só vai levar alguns minutos.

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Ela virou-se sorrindo para o menino, que já estava próximo à mesa.

— Dinamite Atwell! — exclamou o garoto, olhando para David.

— Desculpe-nos — disse o pai do menino. — Eu sou Jim Mclntyre e este é meu filho Timothy. Ele é seu fã número um, sr. Atwell, e eu… também…

nós… ele gostaria de um autógrafo seu, se não se importa.

— Claro que não me importo — respondeu David sorridente, olhando rapidamente a expressão de surpresa de Helena. — Seu nome é Timothy, não é?

— Sim, Dinamite Atwell — exclamou o menino, feliz.

— Meus amigos na escola não vão acreditar que conversei com você.

David pegou o guardanapo de papel e escreveu: ”Para Timothy Mclntyre, um dos meus fãs favoritos, David Dinamite Atwell”. E, entregando o papel para o menino, perguntou:

— Você joga futebol, Tim?

— Claro que sim — respondeu o garoto, entusiasmado.

— Espero um dia ser jogador do Cowboys, como você.

— Oh,— isto é ótimo! Mas primeiro os estudos, certo? Estude bastante e lembre-se que, apesar de o futebol ser uma boa profissão, existem outras coisas que devem também ser feitas. Primeiro o estudo, depois o futebol.

— Isto é o que eu venho tentando explicar a ele — disse o pai do menino. — Talvez ele agora siga o conselho do nosso ídolo. Nós todos sentimos muito o seu afastamento do time, Atwell. Vamos sentir bastante a sua falta nos campos — comentou o homem com expressão séria, um pouco triste.

— Obrigado, sr. Mclntyre. Contudo, não pretendo desaparecer dos campos para sempre. Não jogarei mais, isto é certo, mas estarei comentando para a televisão as jogadas dos meus companheiros — explicou David.

— Fico contente por ouvir isto. Bem, obrigado pelo autógrafo. Agradeça a Atwell pelo autógrafo, Tim.

— Muito obrigado, Dinamite, não sabe como fiquei feliz por falar com você.

— Não há o que agradecer, Tim. Continue praticando futebol… e estudando bastante.

O garoto se afastou com o pai no momento em que o garçom servia café e bolo. Helena estava sem jeito por ter pensado que eles queriam o autógrafo dela e David percebeu isso.

— Não sabia que você era um herói — comentou ela com embaraço.

— Não sou herói, Helena. Sou um simples jogador de futebol… quero dizer, era apenas um jogador…

— Sim, mas é um jogador reconhecido até por um garoto que mora a quilômetros de distância de onde você jogava. Isto não é tão simples assim — comentou ela.

— Há uma explicação para isso. É que os Estados Unidos adotaram os Cowboys como time representativo do país. E todos nós, jogadores, ganhamos mais notoriedade do que se estivéssemos em outro time.

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— Entendo…

Mas David sabia que Helena não entendia nada. Qual era o problema dela, afinal de contas? Será que estava tão presa ao seu mundo de orgulho e sucesso que não conseguia enxergar um palmo à frente do nariz? Talvez ela estivesse precisando experimentar um pouco do seu próprio veneno.

— E você? O que fez todos estes anos? — indagou David com frieza.

Helena se assombrou com a pergunta dele, mas se recompôs e respondeu com arrogância:

— Eu sou uma concertista.

— Quer dizer que o que eu a vi fazendo hoje à noite é sua profissão? — perguntou ele, mantendo-se sério.

— Tenho certeza de que você se lembra muito bem que era essa a profissão que eu havia escolhido — afirmou Helena, consciente de que David estava lhe dirigindo as mesmas perguntas que ela havia feito a ele.

Helena, então, olhou David profundamente, até notar um doce brilho nos olhos dele. Percebeu naquele momento que não adiantava nada ficar fingindo e, sorrindo com simpatia, deixou cair a máscara de gelo que havia usado até aquele instante.

— Oh, Deus! David, desculpe-me, por favor…

David segurou as mãos dela e as acariciou docemente, despertando no corpo de Helena uma sensação há muito tempo adormecida.

Ela sabia que o melhor que tinha a fazer era se afastar das mãos de David e dizer-lhe diretamente que não queria mais que ele a procurasse. Mas não conseguia…

— Futebol profissional. Você já sonhava com isso desde os tempos de escola, não é? — sussurrou, amolecida pelo calor das mãos dele.

— Sim, parece que era isso o que eu mais desejava naquela época — respondeu David, pressionando com mais força as mãos de Helena.

— Você era o melhor jogador da escola.

Ela fitou David longamente e por alguns segundos silenciou, relembrando o jovem de doze anos atrás. Todos os ossos e músculos nos seus devidos lugares, exalando virilidade e juventude por onde passasse. Era famoso entre as garotas e bastante disputado. Seu poder de atração era algo inigualável, mas nada parecia abalar o relacionamento que eles tinham naquela época. Eram jovens, se amavam e amavam a vida.

Helena piscou com intensidade, tentando afastar da mente a visão do passado. Os traços de David agora não eram mais os de um rapaz, mas sim os de um homem adulto. Porém parecia mais viril e atraente do que nunca.

Imaginava se ele ainda tinha o mesmo entusiasmo pela vida.

— Acho que você só me viu jogar uma vez — comentou David, sorrindo.

— Por isso, não pode afirmar com tanta certeza que eu era o melhor da escola.

— Posso não entender muito bem de futebol, David, mas conheço muito bem o talento de um astro, e naquele jogo, definitivamente, você era o astro

— afirmou ela com um doce sorriso.

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— Lembra-se de como estava frio naquele dia? — perguntou David, mexendo com as lembranças dela. — Eu estava quase congelando no campo. E olhando você, que assistia ao jogo da arquibancada, enrolada num cobertor, senti vontade de…

David não terminou a sentença. Ao lembrar do que sentira vontade naquele dia, sua voz sumiu e ele ficou apenas fitando os grandes olhos azuis de Helena. Não havia mais necessidade de palavras. Sabia que os pensamentos de ambos haviam chegado ao mesmo ponto: à noite fria e clara, há tantos anos, quando depois do jogo ficaram juntos e se aqueceram… Helena era capaz de sentir novamente todos os afagos que as mãos dele sabiam fazer tão bem. Lembrava-se até mesmo das palavras sussurradas naqueles momentos de amor inexperiente.

Haviam repartido o calor do cobertor no banco traseiro do carro de David, onde, com os corpos tão juntos que pareciam dividir o mesmo coração, tinham feito promessas que não seriam capazes de cumprir.

Que tolos que eles haviam sido! Helena balançou a cabeça para afastar as recordações e sustentou o olhar de David, que aparentemente conseguia ler o pensamento dela.

— Nós éramos muito jovens, não éramos? — comentou ela, com um sorriso de frustração.

— Nós ainda somos… — respondeu ele.

— Será que somos?

Helena suspirou, descrente do passado e do presente. Querendo fugir daquele assunto, soltou suas mãos das de David e começou a comer o bolo.

— Esta não parece a jovem que eu conhecia tão bem — insinuou ele.

— Não sou mais aquela garota, David — respondeu, zangada. — Escute, nós convivemos por um ano e achamos que nos amávamos. É comum os jovens confundirem sentimentos e nós…

— Eu nunca me casei, Helena — interrompeu ele. Os olhos dela prenderam-se aos de David, como se obedecessem a uma força estranha. — E creio que você também permaneceu solteira — concluiu ele.

— Mas isto não tem nada a ver com você — respondeu, desviando o olhar.

— Então, por que foi? — perguntou David, sem se preocupar com o café que esfriava.

— Porque não quis. Estou feliz com a vida que tenho. Não há lugar nem tempo para ninguém. Casei-me com o meu piano, David. Ele é o meu primeiro e único amor.

— Essa era a sua desculpa aos dezoito anos, Helena, enquanto o futebol era a minha. Não acredito mais nisso e acho que você também não.

— Você não sabe o que está falando. Minha carreira agora é mais importante do que nunca. Estou chegando a um ponto onde preciso…

— Continue! — exclamou David, ao vê-la fechar os olhos e a boca.

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— Não, não é nada — respondeu Helena, soltando o garfo e empurrando o pratinho de bolo que mal havia tocado. — Desculpe, mas preciso ir embora agora. Foi bom ter…

— Não! — Ele se exaltou. — Não diga que foi bom me ver. Não queira se enganar, fingindo que somos apenas velhos colegas de escola.

Helena levantou-se, fechando o casaco.

— David, se está atravessando algum período crítico na sua vida e quer recuperar algo, é problema seu, e eu não tenho e nem quero ter nada com isso.

David se levantou, bloqueando-lhe a saída.

— Nunca, nem por um momento pensou que havíamos cometido um grande erro nos separando?

— David, por favor…

— Não, escute — ordenou ele, com certa angústia. — Naquela época, não parei para analisar os fatos e deixei você me convencer de que a música era o fator mais importante da sua vida. Acabei me convencendo também de que devia me dedicar à minha carreira no futebol, deixando o resto para trás.

Mas hoje reconheço que foi um erro da nossa parte.

— Talvez você tenha errado, David, mas eu não. Estou contente com a minha vida e nun… raramente me arrependo da decisão que tomei — respondeu ela, abrindo caminho para a porta.

David deixou o dinheiro sobre a mesa e a seguiu. Helena já estava lá fora quando ele a alcançou. Segurou-a firme pelo braço e a puxou para junto do corpo. Então, abraçando-a com força pela cintura, disse:

— ”Raramente?” Você falou ”raramente”, Helena? Então diga-me quando você se arrependeu.

Ela tentou em vão se esquivar.

— Quando, Helena? — insistiu David, segurando-a com mais firmeza.

Seus rostos estavam tão próximos que sentiam o calor da respiração um do outro, em contraste com a noite fria.

— Durante a noite? Durante as noites frias em que fica sozinha na sua cama? — concluiu ele, sem esperar pela resposta.

— O que lhe dá tanta certeza de que estou sempre sozinha? — berrou Helena, ainda tentando livrar-se dele. — O quê lhe assegura que eu não tenho um amante ardente esperando por mim, agora?

— Oh! — David sorriu com sarcasmo e a soltou. — Será que tem mesmo? Então vamos ver — disse ele, segurando o cotovelo dela ao mesmo tempo que acenava para um táxi.

— O que pretende fazer? — perguntou Helena, alarmada.

— Nós vamos pegar um táxi até a sua casa para que eu possa chutar da cama o seu amante, ou melhor, ex-amante.

— David, eu inventei isto… Não há ninguém lá!

— Acho que não há mesmo, mas em todo caso vou me certificar, se não se importa.

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— Me importo e muito — respondeu ela, puxando o braço. — Você não manda na minha vida.

Um táxi parou e David abriu a porta, esperando pacientemente que ela entrasse.

— Moro a alguns quarteirões daqui e não preciso de táxi.

— Eu preciso, Helena. Estou congelando.

— Então vá de táxi, que eu vou a pé — teimou Helena.

— É muito tarde e esta não é uma área muito segura para caminhar sozinha. Além do mais, duvido que tenha força suficiente para se defender, se alguém tentar agarrá-la.

— Isto inclui você?

— Bem, tenho tratado bem dos meus músculos desde os catorze anos e acho que não seria difícil agarrar você. Vamos? — disse ele, apontando para a porta aberta do táxi.

Helena morava num quieto bairro residencial, onde a maioria das casas, antigas mas bem conservadas, datava do início do século. Durante o breve percurso, permaneceram em silêncio e Helena se repreendia em pensamento:

”Nada deve interferir na minha carreira. Nada!”

— É logo ali. — Ela apontou para uns sobrados em estilo vitoriano, aliviada por chegar em casa e por seu encontro com David estar chegando ao fim.

Quando o táxi parou, David desceu e apressou-se a dar a volta e abrir a porta para Helena.

— Devo entrar e quebrar todos os ossos do seu amante? — ameaçou ele, abraçando-a pela cintura e puxando-a para perto de si.

Helena colocou a mão sobre o peito de David, tentando afastá-lo, e sentiu que o coração dele batia tão rápido quanto o dela.

— Não há necessidade disso — respondeu.

— Não achei que houvesse mesmo. Quando posso vê-la novamente? — sussurrou-lhe no ouvido, passando os lábios suavemente na ponta da orelha delicada.

— Não pode, David — respondeu Helena, tentando afastar-se dele antes que enfraquecesse demais. — Não sou mais aquela garota, já lhe disse.

Tivemos o nosso momento, que iniciou e terminou no passado, com a nossa adolescência. Agora não existe mais nada — concluiu, conseguindo se desvencilhar dele.

Helena fitou o rosto firme e retangular à sua frente, sabendo que estava mentindo não só para ele mas para si própria também. Alguma coisa ainda existia. Ou melhor, muita coisa ainda existia e sempre existiria. Mas ela sabia também que o seu relacionamento com aquele homem seria sempre uma sinfonia inacabada…

— Você está mentindo, Helena — afirmou David, parecendo ler o pensamento dela. — Nós formamos um dueto: somos partes diferentes mas que permanecem incompletas se tocadas sozinhas.

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Helena mantinha os lábios abertos enquanto o escutava, imaginando as notas musicais que melhor sugeririam a beleza dos olhos de David. Quando ele terminou, ela não comentou mais nada, apenas despediu-se.

— Adeus, David — disse, afastando-se.

— Boa noite, Helena. — E acrescentou baixinho: — Acho que desta vez encontrei o meu lar.

Helena entrou, trancou a porta atrás de si e encostou a testa no batente. Sentia-se trémula e seu coração batia forte.

Por que agora? Por que David Atwell escolhera justo aquele momento para voltar à vida dela? Será que não via que era o pior momento possível? Ele devia perceber que o maior sonho da vida dela parecia prestes a se concretizar. Estava perto de se tornar a maior concertista dos Estados Unidos e para isso precisava de concentração.

Helena caminhou devagar até a sala de visitas, com a sensação de estar voltando no tempo.

Estava morando naquela casa há quase sete anos e fora ali que ela e sua mãe tinham se conformado com a morte do sr. Shubert. O pai de Helena falecera sete anos atrás, deixando a mulher e a filha completamente desoladas. Embora Helena não fosse muito apegada à mãe, o falecimento do homem da casa fizera com que as duas se aproximassem mais.

Para Helena, seu pai tinha sido uma figura marcante, impulsionando-a para o lugar em que se encontrava agora. Fora ele quem primeiro a encorajara a estudar piano, dizendo que tinha muito jeito para a música quando a via martelando as teclas do piano da família, aos seis anos. Era ele que a mimava o tempo todo, aliviando-a dos afazeres domésticos para que pudesse se dedicar mais ao piano.

Helena faria qualquer coisa para agradar o pai e por isso havia se dedicado, ano após ano, aos estudos de piano, para se tornar uma grande concertista e com isso satisfazê-lo. Não se conformava em não ser perfeita para ele. Queria que ele tivesse muito orgulho dela.

Sua mãe, ao contrário do pai, ficava preocupada ao ver a filha se dedicar tanto ao piano, deixando de lado as poucas amigas e a vida social. A vida de Helena era escola e piano, e sua mãe achava que ela deveria se distrair com outras coisas também. Mas nunca se intrometera na vida da filha, embora sentisse que só o piano não a faria feliz. Quando seu marido morrera, ela passara a se preocupar mais com o futuro da filha.

Arrasada com a perda do pai, Helena se entregou mais ao piano como meio de fuga. A música era o elo que a mantinha presa ao pai e ela tocava mais e mais, como se quisesse agradá-lo.

A sra. Shubert havia morado com a filha, cuidando de tudo na casa, para que Helena tivesse tempo para se dedicar à carreira. Entretanto, um ano atrás, ela conhecera um senhor com o qual sentira que podia ser feliz novamente. Depois de sete meses juntos, tinham resolvido casar e mudar para a Califórnia.

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Há cinco meses Helena morava sozinha, cuidando de tudo. Depois da música, era a sua casa o que mais lhe agradava. Apesar de velha, estava muito bem conservada, e era um prazer arrumá-la. Fora construída em 1910 e cada detalhe havia sido cuidadosamente escolhido e conservado pelo antigo dono e construtor. Na sala ampla, com mobília em estilo colonial e muitas plantas, ficava o piano; a cozinha não era muito grande, mas bem jeitosa; e na parte de cima havia dois quartos e um banheiro. Não era uma casa grande, mas muito confortável e charmosa. Do lado de fora um lindo jardim enfeitava a frente e um bom quintal completava os fundos.

Helena caminhou pela sala indo em direção ao piano. Era um magnífico Steinway de cauda, que ela conseguira comprar quatro anos antes. Era com o piano que Helena passava a maior parte do tempo; usava os dedos ágeis para conversar com ele, obtendo lindos acordes como resposta.

Sentou-se na banqueta e passou os dedos por todas as teclas, como se estivesse acariciando-as, e então iniciou um noturno de Chopin. Os dedos deslizavam docemente pelas teclas que conheciam tão bem. De repente, no meio da música, Helena parou, batendo firme com as mãos sobre o teclado.

David Atwell! Era o último homem neste mundo que ela queria encontrar! Ele ainda significava muito para ela, e novamente havia aparecido na hora errada.

Levantou-se do piano e apagou as luzes da sala, subindo a escada que levava aos quartos. Sentia-se tão pesada

E tensa que decidiu tomar um banho de imersão antes de ir para a cama. Encheu a banheira com água quente e colocou um pouco de sais. Então deitou o corpo cansado na água, na tentativa de relaxar um pouco.

— Pense no que aconteceu de um modo mais frio, Helena — falava ela consigo mesma. — Talvez amanhã David mude de idéia e nunca mais venha perturbar. Vai ver que só queria matar a saudade de uma velha amiga.

Suspirou profundamente e fechou os olhos, relaxando mais o corpo.

Mas e se ele realmente estivesse falando a sério? E se voltasse a procurá-la, o que iria fazer? Um arrepio frio passou-lhe pela espinha. Não sabia o que fazer se ele voltasse a procurá-la. Talvez devesse conversar com Marilee para pedir- lhe alguns conselhos. Ela sabia muito bem como lidar com os homens. Mas talvez fosse pior, pois Marilee vivia insistindo para Helena arranjar alguém e não perderia a oportunidade de forçá-la a sair com David. Podia até ouvir as palavras da amiga: ”É positivamente prejudicial à saúde, Helena. Você precisa sair, apanhar o primeiro homem decente que aparecer na sua frente e trancar- se com ele num quarto por uma semana”.

Helena balançou a cabeça, querendo tirar as palavras de Marilee lá de dentro. Porém não conseguia. No fundo, sabia que a amiga tinha razão, mas no momento a carreira era da maior importância para ela.

Saiu da banheira, enxugou-se e vestiu uma linda camisola de cetim azul. Foi para o quarto e sentou na frente da penteadeira para soltar e escovar os cabelos. Eram longos, chegando quase à cintura, e precisavam ser bem escovados todos os dias para ficarem macios e brilhantes.

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Finalmente foi para a cama, com a certeza de que uma boa noite de sono renovaria seu espírito. Ajeitou-se, apagou a luz do abajur e começou a lembrar de algumas melodias suaves, num esforço para trazer o sono mais rapidamente. Mas não conseguia adormecer. De repente,

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a imagem daquela noite de luar, muitos anos atrás, réapareceu em sua lembrança…

Era uma noite fria de inverno e a neve caía intensa sobre o carro de David. Helena estava meio deitada no banco de trás, com as costas apoiadas no peito de David que com seus braços fortes a abraçava por trás, aconchegando-a. Ela ouvia as batidas do coração dele se acelerando a cada carinho que trocavam. David acariciava a pele de Helena por baixo da grossa malha de lã, arrepiando-a toda. Com a cabeça deitada no ombro forte, ela se entregava totalmente àqueles afagos, fruindo intensamente as sensações que as carícias lhe causavam.

Helena então virara-se de frente para David, encaixando o corpo mais intimamente ao dele, e puxara melhor o cobertor sobre os dois. Logo as mãos de David começaram a percorrer as costas de Helena. Suavemente ela sentira seu sutiã sendo desabotoado e devagar ele buscara os seios. Os dedos dele pareciam tremer ao tocar aquela pele macia e quente e Helena logo percebera a intensidade da reação de David ao sentir-lhe os seios enrijecidos.

David então começara a beijá-la docemente na testa, descendo as faces e depois procurando pela boca macia que o enlouquecia. Com a língua, umedecera os lábios dela, que se abriram numa apaixonante entrega…

As lembranças a agitavam e num movimento rápido Helena sentou-se na cama, a respiração ofegante, as mãos trémulas e úmidas da transpiração.

Não! Não podia deixar que ele fizesse isso com ela! Não podia mais lembrar daquela época, que agora estava tão distante da realidade. Fizera muitos sacrifícios e empregara muita dedicação para deixar que David, ou qualquer pessoa, pusesse tudo a perder. Agora, mais do que nunca, precisava alcançar o que sempre almejara, e não podia enfraquecer depois de tanta luta.

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Ninguém vai me tirar do meu caminho — disse Helena em voz alta. — E você, David Atwell, não vai me fazer acreditar que somos um dueto. Sou uma solista. Tenho sido uma solista desde o dia em que eu lhe disse isso há doze anos, e permanecerei desse jeito. Não adianta insistir em me cortejar com a sua sensual melodia noturna, pois nada mudará o meu rumo.

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CAPÍTULO III

Helena quase não dormiu a noite toda, agitada com todos os acontecimentos passados e presentes. Já eram quase sete horas quando decidiu levantar-se. Tomou chá, comeu uma fatia de torrada e foi para o piano estudar.

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Desde os seis anos de idade, sua vida fora sempre muito disciplinada com relação ao estudo de piano. Seu pai e sua professora controlavam as quatro horas diárias de prática. Durante a época em que freqüentou a faculdade, o tempo de estudo do piano já havia se estendido para seis horas diárias.

Quando terminou a faculdade, seu pai contratou, com certo sacrifício, a melhor professora de piano da cidade, a qual fez Helena participar de várias competições por todo o país. Ela sempre se classificava entre as primeiras, mas nunca conseguia tirar o primeiro lugar. Era uma boa pianista e sabia disso, mas nas competições travava verdadeiras batalhas com excelentes profissionais, e sempre havia um que conseguia se sair um pouco melhor, ultrapassando Helena no julgamento final.

Aos vinte e cinco anos, a maioria dos pianistas se estabelece na carreira. Alguns são contratados por orquestras de diferentes cidades, outros preferem se dedicar ao ensino de novos profissionais.

Marilee Hennesy preferira ser apenas professora. Ela e Helena tinham se conhecido no conservatório. Na verdade, Marilee só estudava piano por insistência de seus pais, que achavam que uma verdadeira dama tinha que

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ter um pouco de formação musical. Para ela, a vida oferecia coisas muito melhores do que horas a fio na frente do piano, e por isso limitara-se a cumprir o desejo dos pais, sem ver na arte uma carreira.

O que prendia Helena e Marilee numa amizade tão forte e sincera era um mistério para as duas. O fato de possuírem personalidades opostas talvez fosse a resposta, pois uma encontrava na outra o que lhe faltava. Helena era de natureza quieta e séria, ao contrário de Marilee; sempre muito extrovertida, esta representava uma liberdade e um modo de viver que Helena nunca conhecera.

Embora Marilee ainda se prendesse ao piano como professora num conservatório da cidade, não fazia isso mais do que duas vezes por semana.

No resto do tempo, ela procurava se divertir, passeando, indo a festas e namorando.

A filosofia de vida de Marilee nunca funcionaria para Helena, cuja vida era o piano. Sem ele, não era nada e não havia outros interesses para ela.

Embora Helena já estivesse com trinta anos e desde os vinte e dois trabalhasse para a orquestra sinfónica de seu Estado, ela ainda sonhava tornar-se uma das maiores concertistas de sua época.

Todas as manhãs, depois do café, praticava pelo menos durante umas quatro horas, estudando para os exames de graduação. Já perto do meio-dia parava para almoçar e passava o resto da tarde no ensaio da orquestra, que quase todas as semanas fazia apresentações. Nas noites em que não havia apresentações, Helena voltava para casa, e, depois do jantar, criava suas próprias composições. Essa era a vida que estava levando desde que iniciara seu trabalho com a orquestra. Seu coração e sua alma estavam concentrados num único objetivo e era lá que ela chegaria.

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Naquela manhã, mesmo depois de não ter dormido 37

nada, Helena iniciou sua rotina. Estava estudando há quase três horas quando o som do telefone a desviou da música. Era Alexi, o maestro da orquestra, que lhe dava uma notícia não muito agradável.

— Bom dia, minha tartaruguinha ingénua! — começou ele com sua falsidade costumeira. — Achei que gostaria de saber que a nossa pequena Tina vai tocar daqui a pouco para os nossos ilustres diretores. Tenho certeza de que não gostará de perder essa apresentação, Helena. Helena? Está me ouvindo?

— Claro que estou ouvindo — respondeu ela, mal humorada.

— Bem, era só isso então. Não quero afastá-la do seu estudo matinal, querida. Só queria alegrá-la um pouco — disse ele cinicamente.

— Você é um perfeito idiota, Alexi.

— Oh! Pelo que vejo, está um pouco irritada esta manhã. Cuidado, aos trinta anos é comum termos esses ataques logo ao sairmos da cama. Adeus, querida. — Ele desligou sem esperar a resposta.

Quando Helena desligou o telefone, suas mãos estavam tremendo.

Sabia que o que Alexi lhe contara há muito estava para acontecer, e agora que havia chegado o momento não conseguia suportar a ideia de que alguém viesse a tirar o seu lugar na orquestra.

Tina Volkowski, uma jovem de dezenove anos, sobrinha de uma das diretoras da orquestra sinfónica, fora considerada uma criança prodígio quando entrara para o melhor conservatório da cidade, aos sete anos de idade. Então, por causa de um acidente de carro, ela quebrara a mão esquerda em três lugares e precisou largar o estudo de piano. Sem se conformar, a pequena Tina, depois de vários anos de intensiva fisioterapia, voltara aos seus estudos de piano. E, agora, estaria pronta para ser a pianista

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da orquestra. Helena sentiu uma sensação horrível de pensar que talvez Tina fosse capaz de desbancá-la.

A jovem Tina, de grandes olhos azuis, era realmente uma boa pianista;

contudo, Helena imaginava se, sem a influência de sua tia, conseguiria prestar aquele teste. Mas a influência de sua tia seria forte a ponto de fazer com Que os outros diretores aceitassem a ideia de colocar Tina como primeira pianista da orquestra?

Quando Helena fizera essa pergunta para Alexi, algum tempo antes, ele simplesmente se limitara a balançar os ombros, deixando-a ainda mais insegura. Mas os rumores tinham crescido durante as últimas semanas e, a cada apresentação da orquestra, Helena se sentia muito observada.

Provavelmente estavam comparando-a à jovem e talentosa Tina.

Disso dependia a sua vida. Se Helena perdesse seu emprego, não haveria outra chance para ela. Nenhuma outra orquestra empregaria um profissional que tivesse sido trocado por outro mais jovem. Era comum que as orquestras sinfónicas dessem preferência a profissionais jovens e talentosos.

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Helena voltou para o seu piano recusando-se a deixar o telefonema de Alexi quebrar sua rotina. Não tinha nenhuma intenção de ir até o teatro para ouvir Tina tocar. Por que deveria se submeter a tal tortura? Exercitou mais algumas folhas de um concerto com os dedos um pouco tensos e então fechou a partitura, parando com a música. Tinha que ir até o teatro. Alexi sabia que Helena iria e a insegurança dela lhe dava um prazer sádico.

Colocou uma saia azul, uma malha cinza e botas no mesmo tom. Dizia- se a todo instante que seria melhor não ir, mas continuava se arrumando. Ao terminar de escovar seus longos cabelos, pegou o frasco do perfume que costumava usar.

Ainda garota, ficava horas praticando piano e, sentada 39

próxima à janela da sala, de onde podia observar as madressilvas no jardim, ao mesmo tempo em que sentia seu perfume doce se espalhar pela sala. Isto lhe dava uma agradável sensação de liberdade. Usar o perfume de madressilva era uma boa maneira de continuar sentindo a sensação de liberdade que jamais vivera.

Não demorou muito e Helena já estava entrando no salão de ensaios.

Em pensamento, não era contra Volkowski; afinal, a garota tinha direito de tentar alcançar uma boa posição em sua carreira. E os outros diretores deviam ter se sentido na obrigação de escutar a sobrinha de um de seus colegas.

Lógico, só poderia ser isso! Uma obrigação! Alexi estava atormentando-a por simples prazer, não porque achasse que a garota pudesse tirar o lugar dela.

Foi se aproximando do auditório, onde provavelmente Tina já devia estar tocando. Sentia-se segura e confiante, mas essa sensação não durou muito, pois percebeu o corpo todo esfriar ao entrar no auditório e ouvir a apresentação da jovem. O lugar estava vazio, exceto pela presença dos diretores que, sentados na primeira fila, prestavam total atenção à execução de Tina.

Helena sentou-se na última fila, distante de todos sem ser notada. Não desejava ser vista por ninguém.

Tina estava tocando o Primeiro Concerto para Piano Orquestra de Tchaikovsky e quanto mais Helena ouvia, mais preocupada ficava. As paredes do auditório pareciam tremer com os fortes acordes do piano. Tina lembrava um anjo frágil, mas muito poderoso e seguro de si, reconheceu Helena, que cada vez se sentia pior. Os traços de Tina eram os de uma jovem de quinze anos e era assim que sempre se vestia, aparentando ser ainda mais jovem do que já era e projetando uma imagem delicadamente doce no palco.

No auge do concerto, Helena fechou os olhos e admitiu 40

pela primeira vez que talvez o fim de sua carreira estivesse próximo.

Sentiu o orgulho ferido e uma dor tão forte no peito que a sufocava.

O lugar que ocupava na orquestra sempre havia sido um de seus maiores sonhos e por ele tinha se esforçado e se dedicado tanto ao estudo do

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piano. Não tivera tempo para mais nada na vida. Não fizera muitas amizades e quase nunca comparecera aos eventos e festas dos jovens de sua cidade. Não podia! Tinha que praticar para alcançar o que queria. Durante a faculdade, dedicara-se mais do que nunca ao piano e ficava tão cansada que não tinha ânimo para participar de nenhum evento social. Ela estudava durante horas por dia, para melhorar suas habilidades como pianista.

Não era justo que agora alguém viesse e tomasse o seu lugar. Havia investido muito de sua vida naquilo para desistir de tudo tão cedo.

Antes que o Acorde final fosse tocado, Helena se levantou e saiu do auditório. Estava se sentindo tonta e com uma forte vontade de chorar. Mal enxergava o caminho para a porta de saída.

De repente sentiu o vento frio batendo contra seu rosto e, atravessando a rua, foi sentar-se num banco em frente ao prédio do qual havia saído. Seu olhar parecia perdido no nada.

O mundo que ela conhecia estava se desmoronando sob os seus pés.

Mas por quê? E como? Como uma jovem que não tinha nem um quarto da experiência de Helena poderia oferecer mais para a orquestra do que ela?

Helena não tinha a mínima idéia do que faria de sua vida se tudo terminasse. Piano era tudo que ela conhecia e concertista foi o que sempre quis ser.

Marilee não podia entender isso. A mãe de Helena também não. E David muito menos. Por que era tão difícil para todos aceitarem que essa era a vida dela?

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O rosto de Helena estava tenso e a expressão de seus olhos continuava perdida e triste. Os pensamentos estavam totalmente desordenados, mas, num esforço, ela tentou entender a situação.

Os minutos foram passando enquanto ela refletia com tristeza em tudo o que lhe estava acontecendo. De repente viu que alguém vinha em sua direção e seu mal-estar piorou ao perceber que era David que se aproximava.

Não queria vê-lo, principalmente naquele estado. Novamente ele aparecia em sua vida em hora errada.

Assim que David sentou-se ao seu lado, Helena olhou para ele com frieza.

— Oi! — cumprimentou David, com certa ansiedade.

— Não tem nenhum trabalho a fazer? — perguntou ela rispidamente, desejando que ele fosse embora e a deixasse sozinha.

— Sim. Mas aprendi que muito trabalho e pouco divertimento faziam de mim um homem muito tolo. E você, por que não está dedilhando o seu marfim?

Helena desviou o rosto, tentando segurar as lágrimas mas sabia que não conseguiria fazê-lo por muito tempo. ”Não pense nisso. Não fale nada sobre o acontecido. Se você falar, estará admitindo a possibilidade de que alguém possa tomar o seu lugar. Pense que isto é apenas uma má fase na sua

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carreira. Conseguirá facilmente ultrapassar este obstáculo… vencerá esta competição… Oh!, meu Deus, que horror!” A cabeça de Helena parecia que ia explodir.

— Ainda bem que há bons empregos para ex-jogadores de futebol — replicou Helena, sem perceber os dentes de David se cerrarem.

— Bons empregos? Você deve estar brincando!

Helena olhou para David sem notar as emoções que se escondiam debaixo da expressão controlada do rosto dele

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— Bem, parece que você encontrou um ótimo emprego com facilidade

— insistiu, em tom petulante.

Nunca é fácil desistir de algo que significa muito para a gente — respondeu ele, olhando-a atentamente.

”Será que é isso que a está perturbando?”, pensou David. Talvez ela estivesse preocupada com o que iria fazer quando não pertencesse mais à orquestra sinfónica. Ele abriu a boca para fazer uma pergunta, mas a expressão fechada do rosto de Helena não incentivava perguntas pessoais.

Então achou melhor calar-se e esperar por um momento mais oportuno.

— Essas pessoas não são os seus colegas na orquestra? — perguntou David, olhando para um grupo de músicos que se aproximava do prédio.

— Sim, a maioria trabalha comigo, e os outros devem ser estudantes que estão aqui para um teste para ingressar na orquestra.

David comentou alegremente sobre a aparência do pessoal, fazendo Helena esquecer um pouco os seus problemas e dar boas gargalhadas. Ele continuava o mesmo garotão alegre e brincalhão de sempre. Enquanto falava, começou a esfregar a coxa direita, como se estivesse sentindo alguma dor.

Helena percebeu e perguntou:

— Qual o problema com a sua perna?

David retirou rápido a mão da perna. Estava massageando sua própria coxa inconscientemente.

— Não é nada. É que com o frio a minha perna parece endurecer.

Preciso exercitá-la um pouco. Não quer caminhar comigo?

A pergunta dele fez com que Helena se lembrasse do motivo pelo qual estava ali e imediatamente seu estado de depressão voltou.

— Não, David — respondeu, balançando a cabeça. — Tenho que praticar para uma apresentação.

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Helena não tinha tempo para perder com Davíd. Agora, mais do que nunca, precisava se dedicar para manter seu lugar na orquestra. Tinha que voltar para casa e praticar. Por que David estava atrás dela novamente? O que queria dessa vez? Ela precisava de sossego. Tina estava no salão dando um show de técnica para os diretores e Helena sabia que as próximas apresentações seriam cruciais para ela.

— Olhe, eu não vim até aqui para aceitar um ”não” como resposta.

Aliás, não aceito rejeições com facilidade — David falou devagar, sorrindo.

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Ela se sentiu derreter pelo charme dele, mas continuava a balançar a cabeça.

— Além disso — continuou David, segurando-a pelos braços e virando-a de frente para ele —, quero saber o que lhe aconteceu que a deixou com essa aparência triste e desamparada. Quando me aproximei de você hoje, achei que estivesse lembrando de alguma melodia para um funeral.

— Estava apenas pensando na vida. — Ela se assustou com a descrição dele.

— Algum problema?

— Nada que lhe interesse — respondeu Helena, arrependendo-se em seguida. Para consertar, completou: — Mas já estou melhor, não se preocupe.

— Sua aparência, pelo menos, já está melhor. Talvez agora só precise de um pouco de comida, bebida e… bastante carinho.

— David! — Ela suspirou, frustrada. — Você não sabe o que está dizendo. Isto não vai levá-lo a lugar nenhum. Não podemos reatar algo que tivemos no passado sem mais nem menos, de uma hora para outra. Minha vida já está suficientemente conturbada agora e não tenho tempo nem cabeça para iniciar nenhum relacionamento.

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David abraçou-a pela cintura e a puxou para perto.

David, não! Por favor… não.

Ele percebeu que o que ela dizia não era sincero e continuou a tentar.

. Helena, sei que não está falando a verdade.

É verdade! — exclamou ela com um grito. — Eu simplesmente não tenho…

David selou seus lábios com um beijo, não deixando que ela arranjasse nenhuma outra desculpa. E, antes que Helena pudesse se mover, ele a abraçou com força, prendendo os movimentos dela.

Os lábios de David aqueciam e umedeciam a boca de Helena e com a língua ele buscava a maciez de seu interior. Ela foi envolvida pela emoção e pelo sabor daquele beijo, que transmitia uma sensação de abandono e leveza para sua mente e seu corpo.

David se afastou somente alguns centímetros, ainda segurando-a com força, seus rostos quase se tocando. Os olhos de Helena estavam fechados do mesmo jeito que ela os fechara naquela noite fria de janeiro, tanto tempo atrás. Acusara David de querer voltar no tempo e continuar o que haviam deixado inacabado há doze anos. Mas não era isso que ele queria, na verdade.

Muitas coisas tinham acontecido na vida deles, tornando impossível voltarem a ser o que eram no tempo da faculdade. Contudo, quando a vira no teatro na noite anterior, pela primeira vez depois de tantos anos, David sentira que alguma coisa ainda os prendia. Era como se juntos conseguissem tocar uma linda melodia, que precisava somente de alguns acertos para se tornar uma obra-prima, uma verdadeira rapsódia da paixão.

Referências

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