A Viagem de Cristal
Obras publicadas em coletâneas:
• Revista da Academia Juvenil de Letras - O Ateneu: Itabuna-BA: 1976
• Rebento- O Retorno da Liberdade, Contemp, Salvador: 1989
• Ultimatum - Agora ou Nunca, Contemp, Salvador:1989
• Castro Alves Vivo, Cepa Cultural, Salvador: 1990
• Poetas Brasileiros de Hoje 1990, Shogum, Rio de Janeiro: 1990
• Mil Poetas Brasileiros, Carré, Porto Alegre: 1990
• Crepúsculo da Felipéia, O Sebo Cultural, João Pessoa: 1997
• Nossa Gente Nossas Letras, José Olympio, Rio de Janeiro: 2005
• Sonho de Feliz Cidade, O Sebo Cultural, João Pessoa: 2007
• Outros Olhares na Literatura Paraibana, O Sebo Cultural, João Pessoa: 2011 (primeiro lugar do concurso).
• Outros Olhares na Literatura Paraibana, O Sebo Cultural, João Pessoa: 2012
• Poética I - Antologia de Poesia Conteporânea de Língua Portuguesa. MInerva, Lisboa Portugal: 2012
• Antologia Internacional Brasileiros em Verso e Prosa, João Pessoa: 2012.
• Anthologie Internationale Brésiliens en vers et en prose, Paris, 2012.
Obras solo publicadas:
• Bolhas de Sabão (poemas e poemetos), Protexto, Curitiba: 2011
• Rio do Braço, Mídia, João Pessoa: 2015
• A Viagem de Cristal, Moura Ramos, João Pessoa: 2017 Obras inéditas:
• Horas de Chá (hai kais)
• Poesia em Gestação
• Pó, Emas e Outros Poemas
• Nanosmania
• Ribombos
• Crônicas ao Redor
Composições gravadas em CD:
• Música: Engenho de Menino - CD Chapéu de Croché em parceria com Jessé Jel (ver em: www.youtube.com/watch?v=LJWq_7zGFBM).
Composições inéditas:
• Música: Bolhas de Sabão (ver em: www.youtube.com/watch?v=p2Ys8SgMjnA)
BIBLIOGRAFIA do AUTOR:
Copyright © 2017 by Osman José de Oliveira Matos Direitos desta edição: do autor
Projeto Gráfico: N.A.N.P. O.S. Tecnologia CEP: 58.074.114 -Água Fria - João Pessoa – PB
Capa: Thiago Vinícius Revisão ortográfica: o autor Fotografia do autor: Edson Matos Impressão: Moura Ramos
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MATOS, Osman José de Oliveira, 1962 – A Viagem de Cristal / Osman José de Oliveira Matos – João Pessoa
– Moura Ramos, 2017. v. I, 160 p.; 21 cm ISNB:
1.Literatura Brasileira. Romance. I. Título.
CDD B869.93 ________________________________________________________
Proibida a reprodução total ou parcial.
Os infratores serão processados na forma da lei.
Osman Matos
A Viagem de Cristal
1a. edição
João Pessoa Edição do Autor
2017
AGRADECIMENTOS
Agradeço às minha tias:
Clarice e Elvira, e às minhas primas:
Ana Lídia e Midinha, pelos depoimentos e contribuições.
DEDICATÓRIA Dedico a meu pai, Osvaldo Pereira de Matos,
1927-2017.
(in memoriam) E à minha mãe
Maria Arlete de Oliveira Matos, 1930.
SUMÁRIO
A Viagem de Cristal
Prólogo... 21
O primeiro vagão... ... 23
O segundo vagão... 25
O terceiro vagão... 43
O quarto vagão... 55
O quinto vagão... 71
O sexto vagão... 93
O sétimo vagão... 105
O oitavo vagão... 109
O nono vagão... 121
A Bagagem... 125
O Maquinista... 129
Epílogo... 155
Sobre o autor... 157
“Essa é uma obra de ficção.
Qualquer semelhança com a realidade, não terá sido mera coincidência”
O Autor.
“Se a gente não sonhar, é provado que enlouquece”
Dra. Wilma Martins de Mendonça
A Viagem de Cristal
Prólogo
Um Senhor velho e bem trajado aparece numa antiga estação de trem que foi desativada no final dos anos sessen- ta. Era da The State Of Bahia South Western Railway Com- pany Limited, ou, como também era conhecida, Estrada de Ferro de Ilhéus a Conquista.
Estava sozinho na estação e ouve a aproximação de um trem. Era o trem das sete horas, adiantado, fumegando e apitando na madrugada ainda escura de segunda-feira, em um 16 de janeiro de 2017.
O maquinista começou a frenar muito antes ao vê-lo em pé e sem bagagem na estação. Parou bem ao lado do novo passageiro...
- Bom dia!
- Bom dia!
- Pode subir aqui pela cabine! – Disse o maquinista.
O ancião segurou o corrimão vertical da porta e esca- lou o primeiro degrau com dificuldades. O maquinista esti- cou-se sentado e estendeu-lhe a mão para o embarque.
- Em quanto tempo chegaremos? Estou com muita saudade de minha família!
- Não se avexe! Esse trem sempre segue o seu compas- so e a cada vuco-vuco, a gente chega lá.
- Mas bote lenha na fornalha que eu tenho pressa!
Vou fazer noventa anos, amigo! Preciso voltar logo pra casa pra ficar com os meus!
- Eles devem estar bem.... O que você precisa, agora, é se preocupar com você mesmo. Nessa viagem, preste muita atenção em tudo que você ver passar: as casas, os postes, as pastagens, os galhos de ingazeira debruçados nos riachos, as fazendas de cacau, os bois, as boiadas... Você vai ver que tudo passa quando a gente passa de trem. Na verdade, tudo fica. Nós somos quem passamos apressados reclamando mui- tas vezes desse trem de vida e sem apreciar a vida de um trem...
- Por gentileza – continuou o maquinista – dirija-se aos vagões de passageiros e vá abrindo quantas portas puder de um vagão para o outro.
- Obrigado. – Agradeceu - E abriu a porta do primeiro vagão.
O Primeiro vagão
Logo de cara, uma surpresa:
- Minha mãe!! – Disse o ancião, fascinado ao vê-la jo- vem aos 22 anos, em Banzaê no estado da Bahia, acabando de parir.
Era o ano de 1927, e o dia, 16 de julho.
Nenhuma reação de sua mãe. Ela estava entretida e dedicada ao seu bebê recém-nascido. Compreendeu, então, que ela não podia vê-lo nem o seu pai aos 31 anos que acom- panhava o parto.
Sentiu vontade de falar com eles, abraçá-los, mas só podia apreciar e aproveitar aquele momento único.
Beliscou-se e sentiu o beliscão.
Depara-se com a porta do segundo vagão.
O segundo vagão
Viu-se aos cinco anos de idade em plena e terrível seca de 1932. Presenciou o nascimento de sua primeira irmã mulher, Benigna. Seu pai, novamente, e seu irmão mais ve- lho, Aliomar, que nasceu em 1925, aos sete anos, estavam ali, também, com ele.
Chamaram a parteira, mas já era tarde. A criança nascera no chão arenoso.
Foi uma época muito difícil e inesquecível na aurora de seus anos, revivida agora enquanto o trem passava.
A seca de 1932 já era maior que a de 1915. Poços de seis metros de profundidade eram cavados em tanques do esgoto para matar a sede dos animais. A água retirada era colocada em cochos de madeira de barriguda. Fez isso mui- tas vezes. Ele conversava com os animais com muita alegria ao servir essa água salobra, pois era uma água redentora, e agradecia a Deus por tê-la, pois naquele momento estava garantida a sobrevivência dos bichos.
O mandacaru de facho e outros alimentos, também
eram dados ao gado bovino, aos caprinos e ovinos para ma- tarem a fome. Os galhos eram derrubados sobre folhas de alecrim e tocava-se fogo para queimar os espinhos. Ficava assistindo ao fogaréu. Depois ia dar raízes de mandioca aos cavalos. Mas para não os envenenar, aprendeu, desde cedo, a deixar a mandioca descansando de um dia para outro para perder a toxidez.
As famílias vítimas da seca ficavam esperançosas em receber, do governo do Estado da Bahia, alimentos para os municípios afetados. Mas nem sempre Ribeira do Pombal es- tava na rota emergencial, nem o Banzaê, um de seus povoa- dos, mas era grande a expectativa. No entanto, eles, graças a Deus, não passavam fome porque o patriarca da família não vivia só da lavoura. Ele era pau pra toda obra: carpinteiro, tropeiro, marceneiro, poeta, violonista, feirante, pedreiro, mestre de obras, mascate...
E o ancião continuava acompanhando, atenciosamen- te, tudo pela janela do trem. Presenciou a veracidade das his- tórias que eram contadas por sua família antes mesmo dele nascer, momento em que o seu avô materno, João Pereira, oferecia ao novo genro um dote de hum mil contos de réis.
Dinheiro que deu pra Seo Jovem comprar muitas cabeças de gado e que depois cuidaria com dedicação. Além de tirar o sustento da família, ainda distribuíam, de graça, leite para as pessoas que precisassem na vizinhança.
Da terrível seca de 1932, o ancião presenciava, agora, muitos de seus amigos de infância comendo “bró”, um tipo de massa que era retirada do caule dos licurizeiros. Corta- vam a casca grossa, levavam para uma laje de pedra e batiam muito até extraírem uma massa que era peneirada e assada na casa de farinha. Depois que retiravam do forno, faziam um cuscuz vermelho muito ruim, o gosto. Os meninos me-
nores, embora chorassem para não comer, terminavam por matar a fome via pressão e insistência dos pais.
Uma comida braba e saborosa era produzida com a mucunã, uma semente conhecida no sertão da Bahia, e que se parece com um olho-de-boi.
A semente era assada no fogo feito com palhas. Depois de quebrada, tirava-se um bago bem branco, como castanha de caju. O bago era levado ao pilão para fazer uma massa que era peneirada e depois lavada nove vezes com água diferente para poder tirar o veneno. Depois, como se fosse uma farinha de tapioca, fazia-se beijus.
As pessoas também comiam o inhame de mato e o palmito do licuri. O primeiro tem uma folha larga. Era como uma batata, e para comer, necessitava descascá-la e cozinhá- -la como o aipim. O palmito do licuri, extraído desta espécie de palmeira sertaneja, enchia a barriga, mas, logo-logo, ti- nha-se fome de novo.
Além do problemão da seca, um verdadeiro cataclis- mo socioeconômico, o nordestino do sertão se preocupava ainda com o bando de Lampião que aterrorizava a popula- ção.
O Nordeste baiano estava muito desorganizado. A seca, doenças, a fome e o banditismo dizimavam as popula- ções. Tinha municípios sem prefeito, pois ninguém se arris- cava em querer ser “autoridade” em meio a tamanha desola- ção.
Ser Criança, nessa época e nesse lugar, não era fácil pelo quadro lastimável de desnutrição da maioria da popula- ção. Elas foram as que mais sofreram. Muitos de seus amigos de infância não conseguiram sobreviver àquela epidemia que assolou o nordeste brasileiro na década de 30. Via tudo pas- sar pela janela do trem.
Sentiu um grande orgulho de seus pais por terem so- brevivido juntamente com toda a família nesse período tão difícil da história do sertão nordestino.
Depois, o ancião se viu, agora, aos dez anos de idade, brincando com seus irmãos de esconde-esconde por detrás das pedras em Banzaê, aonde o trem já passava nesse mo- mento. Da janela, podia ver os índios do aldeamento Kiriri.
Um pouco mais adiante, viu as suas irmãs brincando na porta de sua residência, de três Marias, de casinha, pane- ladas, e de boneca de pano. Mas quando rasgavam, até tijolo servia de boneca. Até aos 15 anos, ainda, só queriam brincar.
Não pensavam, nessa época, em namorar. Tinham também as brincadeiras de “caiu no poço” e de cantigas de roda no início das noites. Os meninos costumavam muito brincar de cavalo de pau. Para isso, todo cabo de vassoura velha era rea- proveitado para essa nova função. Quando não tinham cabos de vassouras disponíveis, utilizavam ramo de pindoba. Era uma infância linda, sem maldade, e na medida em que foram crescendo, foram montando em cavalos de verdade e eram muito divertidas as corridas, os galopes, as peripécias em cima dos cavalos: ficavam em pé se equilibrando, montavam de lado, camuflando-se à quem via os cavalos pelo lado opos- to, cochilavam nas barrigas dos cavalos deitados, imitava-os, conversavam com eles como se fossem gente. Davam água ao gado e tomavam banho nos tanques.
A melhor época do ano, era quando se aproximava o mês de Dezembro, em que a festa de Nossa Senhora da Con- ceição era muito esperada. Só que, seis meses antes, Dona Lídia já comprava todos os tecidos juntos para fazer os ves- tidos para as filhas. A fazenda de pano geralmente de linho, algodão ou lã, era comprada uma única vez, de um mesmo rolo de tecidos, a mesma matriz, a mesma cor, a mesma mar-
ca, a mesma estampa. O tecido era levado para a costureira que tirava as medidas, e fazia, a pedido de Dona Lídia, o mesmo modelo para todas as filhas; vestidos iguais para não ter problemas de ciúmes. Dessa forma, nenhuma filha iria dizer que o vestido de uma irmã era melhor ou mais bonito que o da outra. E tem mais! Os calçados também eram iguai- zinhos.
Nesse momento, o ancião via sua mãe, Dona Lídia, mandando as filhas, Elvira, Benigna, Edite e Clarice busca- rem os vestidos na costureira. Era tão grande a expectativa em vê-los confeccionados, que logo após receberem a enco- menda dobrada e bem embaladinha, subiam numa serra, longe dos olhos de qualquer pessoa, e experimentavam logo os vestidos antes de chegarem em casa. Desfilavam, pergun- tavam uma à outra se estavam lindas e se os vestidos tinham ficado bem em cada uma.
Já em casa, experimentavam como se fosse a primeira vez para a mãe ver e aprovar, e depois é que os vestidos eram ensacados e guardados com muito cuidado para, só e somen- te só, serem usados exclusivamente no dia da festa da padro- eira da cidade. Mas como ainda faltavam seis meses para o tão esperado evento, quase todo dia e sem saírem do quarto e escondido da mãe, experimentavam e reexperimentavam os vestidos, tendo somente como testemunha, o espelho, amigo inseparável e marqueteiro, pois perguntavam ao espelho se estavam bem como no conto de fadas.
Ainda da janela do trem, o ancião via-se, agora, logo nas primeiras horas da manhã, com os seus irmãos e pais plantando mandioca, aipim, algodão, fumo, feijão e milho nas serras do Aribicé e à noite, divertiam-se com o fogaréu tor- rando castanhas junto com toda a família ao redor. Já sabia o ritual de cór: quatro pedras do mesmo tamanho para serem
perfiladas; duas na frente e duas atrás, chamada de trempi – No meio delas, a lenha de angico, uma das melhores, porque além de queimar por mais tempo, faz pouca fumaça. Depois de atear fogo, era só pegar uma lata cheia de furos como uma peneira e colocar as castanhas tiradas do caju, dentro, para assar. Perguntou um dia a sua mãe, o porquê dos furos na lata.
- Servem para que as castanhas cruas tenham conta- to com a brasa e soltem um óleo bom para que elas peguem fogo.
Enquanto isso, a sua mãe mexia com um pedaço de madeira para que as castanhas não fossem assadas de um lado só, e também, ela tinha que ficar atenta para as mesmas não queimarem.
As mais douradinhas estavam no ponto para serem ti- radas com a mesma madeirinha que mexia. Dona Lídia vira- va a lata furada na areia, e para apagar o fogo das castanhas, a parte que ele mais gostava: jogava areia por cima, uma fes- ta. Mais tarde, frias, começavam a quebrar a castanha com duas pedras pequenas: uma delas servia de apoio com a castanha em cima, e a outra servia para quebrá-la.
- Cuidado com a roupa, menino! Dizia a sua mãe, por- que as mãos dos quebradores de castanhas ficavam pretas.
Para limpá-las, passavam o próprio caju nas mãos.
O melhor da festa, era agora: saborear o saudável alimento, a verdadeira castanha de caju do Nordeste! Mas como tudo que era bom durava pouco, vinha logo o controle da mãe, que separava só um pouquinho, a cota da família, e o restante era para ser vendida na feira, em Ribeira do Pombal.
Pela janela do trem, ele mesmo viu-se entre cabeças de gado, ovelhas, cabritos e cabras que o seu pai, na época
em que era tropeiro, cuidava em um sítio próximo. Um dia, pastorava os caprinos e cochilou encostado numa árvore. A sua cabeça, bamba, subia e descia, como se dissesse: “Sim, eu quero brincar!” Um bode com um belo cifre imponente decodificou a mensagem: empoeirou a pata ciscando o chão, tomou distância, mirou o alvo e saiu em disparada rumo a uma baita cabeçada! Só que, por sorte, por alguns segundos antes, foi salvo por seu irmão mais velho que estava por per- to. Passou a dar muitas risadas das boas traquinagens que agora via...
Apareceu num pequeno sítio no povoado de Miran- dela e passou a soltar uns cachorros presos que conhecia...
Eram mansos com ele, principalmente aqueles que ficavam amarrados ou acorrentados o dia inteiro e que não passea- vam por comodismo ou preguiça de seus donos. Depois que eram soltos, faziam a maior farra e sempre voltavam imun- dos e fedorentos, mas só assim, passeavam.
Em seguida, viu-se libertando passarinhos das gaiolas nos quintais em Curral Falso para desespero dos apaixona- dos em prendê-los...
Abria as portas e tangia os pássaros que permaneciam na gaiola, forçando-os a voar...
Depois de algum tempo, era só dar fome, que os pas- sarinhos voltavam para as gaiolas...
Os apaixonados em prendê-los, esperançosos, dei- xavam as portinhas abertas com alpiste dentro, uma cruel armadilha de dependência para quem sempre permaneceu preso.
- Esses pássaros que voltam são uns bestões! - Pensa- va - Porque os sabidões aproveitavam a oportunidade para ganharem o mundo e nunca mais voltavam.
- De que vale ter asas num cárcere? Continuava pen- sando, justificando para si mesmo a soltura dos pássaros.
Hoje, aos quase noventa anos, acha que, talvez, não tenha agido corretamente, afinal, os pássaros não pediram para serem soltos e os apaixonados em prendê-los poderiam ser apaixonados em protegê-los...
Mas asas são asas, e só voltavam para as gaiolas, aque- les pássaros que queriam voltar por sabedoria, dependência, inexperiência, carência, gratidão ou decisão própria. Quem ganhava o mundo assumia os riscos.
Trazia essa sua experiência para tentar compreen- der o comportamento humano. Fazia comparações. Quantas vezes muita gente está numa zona de conforto, como um funcionário público concursado, por exemplo, com seus ren- dimentos garantidos mensalmente, mas ali, sempre, muitas vezes acostumado, conformado, voando das grades para o poleiro, sem poder ir mais longe? E embora percebam que em algum momento a porta esteja aberta para avançar, pre- ferem continuar dentro porque ali é o melhor lugar e mais seguro. Mesmo experiente, maduro, capacitado e podendo voar mais alto, preferem recuar e ficar na zona de conforto.
Sentiu a mesma sensação ao conhecer, na década de setenta, um de seus fregueses que trabalhava como tropeiro nas roças de cacau. Contou-lhe, o tropeiro, que nunca co- nheceu o pai nem a mãe e viveu anos em um orfanato até ga- nhar a maioridade. Disse que quando saiu do orfanato onde tinha de tudo, teve dificuldades, receio e medo de enfrentar o mundo. Pediu pra voltar, pra ficar, mas não era possível.
Tinha que voar pois a gaiola estava com a portinhola aberta e por força da lei, a maioridade o tangia.
Arrependeu-se agora, na maturidade, de ter tangido os pássaros...
-Será que alguns sobreviveram? Gostaram desse “fa- vor?” – Devia ter deixado apenas as portas abertas? Seria melhor que fossem embora aqueles que quisessem? Cada um sabe de si, da sua condição e decisão pessoal em ficar ou partir: é de cada um.
Também atirava caroços de seriguela chupada na ga- rotada que tinha estilingue. Jogava os caroços ao invés de pedras, para não ferir os meninos; servia para que eles er- rassem o alvo. Dessa forma e arrumando muita encrenca, salvou muitos nambus, periquitos-da-caatinga, pintassilgos, coleirinhos, caboclinhos, bigodinhos, cardeias-do-nordeste, papa-capins, cancões, bicos-de-lacre, tizius e rolinhas...
Em casa, ele criava dois bichinhos que eram sua pai- xão: um gatinho e um saguim. Ele gostava muito de gato.
Todo gato que teve na infância botava o nome de Mixuruca.
Tinha um que viveu muito e passou a maior parte da infân- cia com ele. Só andavam juntos. Botava o gato no pescoço e dormia com ele.
O Saguim, pequeno macaco, de cauda felpuda e com- prida, também era seu xodó. Ele era muito sabidinho e engra- çado. Geralmente os saguins ou saguis são curiosos e adoram fazer bagunça, e como a maioria dos animais silvestres, eles têm temperamento forte e não abrem mão de uma boa briga quando se sentem ameaçados. Eles brincavam muito. Mas um dia o Saguim, infelizmente, morreu. Ele chorou muito e ficou com febre e sem comer uns três dias. Fez um enterrozi- nho decente para o saguim. O colocou num caixãozinho todo forrado e com almofadinha, marcou o local onde o sepultou e sempre ia lá de vez em quando prestigiá-lo com uma visi- tinha. Depois de algum, tempo, no local, nasceu um pé de manga, uma mangueira, e ele sempre ia lá chupar e colher mangas com a meninada.
No início da tarde, todos iam para a escola que era longe. Tinham que ir na garupa dos burros. Na verdade, no início do século XX, escola era coisa rara em lugares atra- sados e pequenos, tanto em Banzaê, como nos povoados vizinhos de Barrocão, Marcação, Buracos, Araçás e Barata.
Estudavam com a Tia Santinha, professora leiga contratada pela prefeitura para alfabetizar e ensinar nos primeiros anos escolares.
Um dia, ele e seu irmão Aliomar atrapalharam-se.
Pensavam que sabiam o caminho de casa e ao se depararem com pequenas estradinhas de chão que levavam a inúmeros povoados da redondeza, perderam-se.
No trajeto, viram uma nuvem de poeira se aproximan- do. Protegeram-se num cantinho da margem da estrada para dar passagem a homens montados.
Um deles, com um belo espelho oval reluzente na frente do chapéu de couro, perguntou:
- Pra donde cês tão ino, mininos?
- A gente queria ir pra casa!
- Quiria? E num quére i mair não?
- Queremos sim, moço, mas num tamo acertano o ca- minho de volta.
- Adonde é qui cês mora?
- Em Banzaê.
- São fio de quem?
- De Jove!
- Num tô preguntano se ele é véi ou jove, minino! Cês são fio de quem?
- De Seo Jovem! Joviniano! E de Dona Lídia!
- Num preguntei a mãe!
- Dadá! - Chamou um de seus comparsas - Esses mi- nino são fio de um tal de Jove! Arribe eles aqui na minha
garupa e vamo procurá lá, que tamo perto!
Ao chegarem em Banzaê, os meninos aliviaram a ten- são ao reconhecerem o povoado. Foram ensinando o cami- nho de casa e os homens pararam bem na sua porta.
As ruas desertas...
- Ô de casa!
- Quem é?
- O Capitão Lampião!
- Ai meu Deus! - Assustou-se Dona Lídia sem querer sair. Correu para um dos quartos com os outros filhos e tran- cou-se.
- Chamem pru seu pai, seos cabra!
- Pai, sô eu! Gritava um.
- Pai, pai! Gritava o outro.
- Lídia, pegaro nossos filho! – Disse Sêo Jovem reco- nhecendo a voz dos meninos.
- Ai, meu Deus! E agora? - Tremia Dona Lídia, ben- zendo-se.
- Pai, sô eu! – Repetia um dos meninos a mando de Lampião.
Depois de algum tempo...
- Ô de casa! Ô de casa! - Interferiu o Rei do Cangaço já impaciente por não ver resposta...
Esperou um pouco mais e repetiu:
- Ô de casa! – Gritou mais alto e mais nervoso - Sai pra fora, sêo cabra, que quero intregá seus fio quincontrei perdido na istrada!
Seo Jovem olha pelo buraco da fechadura, constatou os meninos bem acomodados na garupa do cavalo de Lam- pião e resolveu abrir a porta bem devagarinho...
- Consegue decêre sozin, sêos cabra? Perguntou o fa- moso cangaceiro.
- Não, é muito alto!
Seo Jovem escutou, mas continuou imóvel no passeio...
- Num vem buscá seus fio não, ou qué qui eu vorte e deixe eles lá na istrada donde tavam?
Seo Jovem, meio desconfiado e cautelo-so, dirigiu-se até a garupa do cavalo de Lampião, resgatou os dois filhos botando-os no colo e ficou parado em pé olhando o bando....
- Muito obrigado! - Disse.
- Me fez perder tempo demais, cabra, demorano de abrir a porta! Entre pra dentro agora e ligêro cum seus fio e sem oiá pra trás!
Seo Jovem saiu bem devagar e andando de ré, olhan- do para o bando...
Corisco, um dos cangaceiros, engatilhou a arma sem pestanejar e apontou na direção dele que continuava andan- do de ré...
- Oxente! Tu tá desafiano meu Capitão Sêo Cabra da peste? Parado aí!!!
O pai dos meninos continuou andando de ré e bem devagar...
- Atiro, Capitão? - Perguntou Corisco.
- Não, home! Num gosto de cabra frôxo! Dêxe ele ir!
– Respondeu Lampião.
Logo depois, esporou seu cavalo e partiu em retirada.
Seo Jovem continuou andando de ré e olhando o ban- do de jagunços ir embora... Já chegando no passeio de sua casa, sentou-se lentamente num banquinho de madeira com os dois filhos no colo... Ficou sentado por algum tempo bo- quiaberto refletindo o porquê daquela boa ação do homem mais temido do sertão.
No outro dia, a notícia rapidamente espalhou-se por todo o povoado. Onde eles chegavam, diziam:
- Olhem! Aqueles dois são “os meninos que andaram na garupa de Lampião!”
Acabaram gostando da fama. Os guris maiores e va- lentões que sempre tiravam onda com eles, pararam de aper- reá-los.
Um dia, Virgulino Lampião soube que um carpinteiro tinha feito um galpão todo de madeira para alojamento dos
“macacos”, nome que dava aos soldados da volante policial militar que sempre estava em seu encalço...
Procurou o carpinteiro em toda a redondeza, pois não sabia quem era. Deduraram que era um homem que estava na feira em Ribeira do Pombal com a esposa vendendo casta- nhas de caju, feijão, milho e aipim...
Ao encontrá-lo, raptou-o imediatamente.
O bando partiu montado para o local e o carpinteiro foi andando acelerado bem ao lado da tropa...
- Se tentar fugir, eu mermo atiro! – Advertiu o Rei do Cangaço.
E foram para o galpão de madeira. Ao chegarem, a ordem:
- É pra você derrubá esse galpão todim que tu fez!
Mas né só pra derrubá, não! É pra você derrubá pelo lado de dento! É pra ficá dento derrubano, que é pro teiado caí por riba de tu, seo peste!!! Cumé que tu aceita um ne- góço desse, seo cabra? Fazê galpão pra dá abrigo a peste de macaco!
- Mas pra derrubar, tem que ter um machado! – Disse Seo Jovem.
- Se vire! Vá arrumar um agora e ligêro!
Sêo Jovem viu uma casinha branca num morro, e disse.
- Vou buscá ali naquela casinha dum amigo e já volto.
- Vai, cabra! Vá ligêro! Mas se tu num vortá correno
eu mermo vô te buscá dibaxo de bala!
- Mas nesse sol quente que tá num vai ser mole eu su- bir aquele morro a pé e ter que voltar correndo ligêro nesse calorão... Vai dar sede!
- Tome esse cantil! - (jogou) - Aí tem quatro gole d’água. Traga três de vorta!
Seo Jovem saiu acelerado, mas mais na frente, mu- dou o seu trajeto por um desvio que conhecia bem e até hoje Lampião espera ele voltar com o cantil e o machado.
Teve também a história do alforje de Lampião: é que Seo Joviniano Matos, tanto comprava, trocava, como vendia produtos, e com uma tropa de animais, ele foi para a Feira do Pau em Fortaleza de São João, povoado que pertence a Cícero Dantas, há poucos quilômetros de Banzaê. Ele tinha um alforje, artefato de couro, como um duplo saco, fechado em ambas as extremidades e aberto no meio (por onde se dobra), formando duas bolsas iguais para carregar ao ombro, distribuindo, assim, o peso dos dois lados, ou era também usualmente preso a uma sela, para transporte de objetos em animais como o cavalo e o asno. Muito usado também para colocar requeijão, carne de jabá seca e carne do sol.
Só que nesse dia, Lampião estava no povoado e tinha um lugar de amarrar os animais e outro de guardar os per- tences das pessoas enquanto se faziam compras, um guarda- -volumes improvisado, na verdade. Tanto Lampião como Seo Jovem deixaram os seus alforjes no mesmo lugar. Lampião ao sair, levou o alforje trocado. Deixou o dele cheio de requeijão, e levou o de seu Jovem com carne seca. Quando Lampião deu por fé, ficou muito aborrecido e a notícia se espalhou rapidamen-te.
“- Roubaram o alforje de Lampião!” “- Roubaram o alforje de Lampião! – Ele vai voltar pra buscar e quem pegou
se prepare, que ele vai capar!!!!”
Em outro momento, O pai de Dona Lídia, João Perei- ra, bebia como o diabo. Todo dia tomava umas pinguinhas...
A esposa, Dona Josefa, reclamava muito. E como era devota de São João Batista, todo dia, durante alguns anos, fazia pe- didos ao santo para o marido parar de beber.
Acendia velas, orava, pedia. O Santo não a atendia, mas não perdia a fé. Todo dia ela estava lá, diante de um ora- tório que tinha em casa, implorando.
João Pereira tinha uma bodega. Uma mercearia lota- da de tudo e sua esposa tinha uma loja de tecidos. Soube da notícia de que Lampião e seu bando de jagunços já estavam em Mirandela aterrorizando a população e se aproximavam de Banzaê.
- Vamos esconder nossas mercadorias, João Pereira!
Lampião tá vindo aí!
- Que nada! Vou esconder nada! Lampião me respei- ta! Ele não vai mexer comigo!
- Pois eu vou é esconder meus tecidos! – Disse-lhe a esposa.
E assim todas as fazendas de tecidos e roupas confec- cionadas foram colocadas numa casinha bem velha, peque- nininha, baixinha, platibanda e isolada num canto da rua.
Lampião ao chegar no povoado, viu a casinha, mas nem ligou. Não valia nada e não se interessou em ir até lá como previu a esposa de João Pereira. Mas ao ver a merce- aria aberta, dirigiu-se até lá e com a arma aponta-da, decre- tou:
- Manda o dinheiro pra cá!
João Pereira fechou os olhos. Mercadoria, tinha. Mas havia acabado de pagar a um fornecedor que raspou o tacho.
Mas como explicar isso ao cangaceiro? Ele não acredi-
taria.
Fechou, então, os olhos, e fez uma promessa: se saísse vivo dali, nunca mais iria beber.
De repente Lampião pergunta:
- Oxente, cadê o home?
João Pereira, de olhos fechados, abriu a portinhola do balcão e começou a andar em direção à rua... E só ouvia Lampião dizer:
- Oxente, cadê o home?
Ou seja, as suas orações foram atendidas e ele passou pelo meio do bando sem ser visto. Só abriu os olhos quando estava no cume de uma serra ouvindo muitos tiros. De lá do alto viu o bando de Lampião se retirar do povoado dando tiros para cima. Todo o bando estava assustado...
- Oxente, cadê o home? Cruz credo! – Repetiam.
Mais adiante, avistaram um cidadão caminhando...
“- Oia ele alí!”
E meteram bala. Era Vital, o irmão de João Pereira que foi atingido em lugar dele e morreu.
Até hoje, a mulher de João Pereira fala que Lampião foi mais milagroso que São João Batista, pois desse dia em diante João Pereira nunca mais bebeu.
Mas o que ela não sabe, é que João Pereira, ao fazer a promessa na hora do perigo, clamou por São João Batista.
Toda criança, no povoa- do, mesmo agora, atualmente, aprende na escola que Banzaê, além de ser um “lugar de va- lentes” é também a “Terra onde
Lampião nenhum tem vez”. Eram muitas as histórias do cangaço.
Antes de chegar ao Aribicé, a meninada gostava de su- bir um pequeno morro para ir até a Pedra Furada, uma bela escultura de pedra natural, cartão postal de Banzaê, para brincar de esconde-esconde. Um cenário fantástico!
Depara-se com a porta do terceiro vagão.
O terceiro vagão
Já se tornando um rapaz, as responsabilidades e as cobranças começavam a chegar juntas.
- Já tá na hora de trabalhar e ganhar algum dinheiro!
Dizia o seu pai.
Naquele momento para ele iniciar a vida, foi-lhe dado um animal novo e bonito, selado, pelo qual ele o batizou de Comanche. Bem, cavalo dado não se olha os dentes, mas os de Comanche eram lindos, alvos, grandes, e ele olhou. A mis- são era vender redes em Euclides da Cunha toda sexta-feira no lombo do cavalo. Depois não deu certo esse negócio e re- solveu ajudar o pai no armazenamento dos grãos da lavou- ra.
Quando a Lavoura era grande, uma supersafra, não tinha compradores imediatos como hoje em dia, não tinha mercado para toda produção. Então, colocavam areia nos sacos de milho. Misturavam para evitar dar gorgulhos, in- setos que, adultos, viram besouros que se deslocam para os armazéns próximo à colheita onde perfuram as bagas. Na época de vender, tinha que desarear toda a produção para
transportar no lombo de animais até o estado de Sergipe. Era muito trabalhoso, mas era a única solução para não ter pre- juízos.
Ao alcançar a quase maioridade, aos dezessete anos e meio, resolveu alistar-se no exército. Era o ano de 1944, e já de cabelo cortado bem baixinho, nuca raspada, apresentou- -se para o alistamento, seleção e recrutamento militar. To- mou a decisão sozinho, influenciado por uma bela música - a
“Canção do Expedicionário” que ouvia no rádio de cabeceira Semp AC-431 transistorizado. Os seus pais acompanhavam sempre os horrores da guerra pela Rádio Nacional e não per- diam o Repórter Esso que diariamente transmitia as notícias.
Assim, eles advertiam dos riscos de ser um “pracinha” no Brasil, porque eram recrutados e selecionados civis que não tinham familiaridade com armas nem experiência para a guerra. O exército brasileiro tinha equipamentos obsoletos, ultrapassados e treinamento ineficiente.
O Brasil, embora sempre tenha sido um país de paz, acabou entrando na 2.ª Guerra Mundial. Consequentemen- te, ele foi convocado logo após completar 18 anos, em julho de 1945.
Estava orgulhoso por poder servir à pátria, mas ao mesmo tempo, incomodado com a preocupação da família.
Alguns dias depois, felizmente, nem precisou embar- car, pois em seis de agosto do mesmo ano, a guerra acabou.
Passado o susto, sua mãe pagou uma promessa em dezembro de 1945 subindo o Santo Cruzeiro de joelhos, no ponto mais alto da cidade, para agradecer a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município, a graça do não embar- que do filho para lutar na Europa.
Alguns dias depois, o amigo Antônio de Almerinda já pedia autorização à família para levá-lo a Salvador com o ob-
jetivo de aprenderem a profissão de Alfaiate.
É que, logo após a Segunda Grande Guerra Mundial, com a dificuldade das importações, ampliava-se o mercado interno e a valorização do produto nacional. Era grande a demanda por profissionais das áreas de alfaiatarias, marce- narias, serralherias, fundição, mecânica de máquinas, car- pintarias, tipografias e encadernação. Mão de obra qualifi- cada. Assim, matricularam-se, e era necessário passar por um exame de admissão, incluindo-se também os testes de aptidão física e mental.
Os cursos correspondiam ao ensino secundário com a duração de quatro anos.
Assim, viu-se nesse momento importante da vida, ma- nuseando a máquina de costura Leonam, primeiramente.
Depois, conheceu as marcas Vigorelli, Singer e Elgin.
Era preciso estar preparado, com todos os materiais certos e ao alcance na hora das aulas e no exercício da pro- fissão.
- Prestem atenção aqui! - Dizia o professor para a tur- ma de pouco mais de vinte alunos – Esta é a Régua 3 em 1:
ela vem com a curva francesa, para desenhar cavas e deco- tes sem erro. É essencial para a modelagem. Vamos conviver muito também com as agulhas! Serão várias de tamanhos diferentes, que servem para alinhavar ou fazer acabamentos à mão. Com o tempo, vocês perceberão qual é a melhor para cada tipo de tecido e função.
Ficava sempre em silêncio muito atento a tudo que o professor dizia. Tinha um costume de anotar tudo.
- É essencial que o alfaiate tenha uma boa tesoura para papel como essa aqui. – continuava o professor - Sem- pre eleja uma muito bem afiada para recortar e criar as pe- ças de moldes com maior precisão. E a tesoura de costureiro,
essa serve para cortar tecidos sem desfiá-los. Eu disse teci- dos! – Frisou o professor - Nunca corte papéis com ela, evite danificá-la ou cegá-la!
A turma toda era muito aplicada. A hora da aula era a hora da aula. Nada de conversinhas, nada de desatenção. E continuaram fascinados, conhecendo os itens essenciais da nova profissão:
- Essa é a Carretilha: (uma rodinha de ferro toda ser- rilhada com dentinhos, presa a um cabinho manual de ma- deira), serve para transferir o traçado do molde de papel de seda para o lado do avesso do tecido. Isso é muito importante e fundamental – dizia o professor - Basta colocar o papel por cima do tecido e passar a carretilha bem rente à marcação, que não tem errada!
Era muito bom reviver todos aqueles momentos mag- níficos. O ancião beliscava-se o tempo todo, feliz.
- Todo mundo aqui conhece uma fita métrica, não é mesmo? - Novamente a firme voz do professor - Essa vai ser a eterna companheira de vocês a todo momento. Vão conviver mais com ela que com a própria família de vocês. Vão usá-la muito para medir roupas e partes do corpo dos clientes.
O professor chamou todos os alunos para uma mesa comprida e grande. Mostrou umas folhas de um papel fini- nhas com cores bem clarinhas.
-Esses papéis, servem pra quê?- Perguntou o jovem discente curioso, especulando os materiais na mesa.
- Para moldar! – Disse o professor – São úteis para copiar as riscas da folha de moldes. Os mais comuns são os de seda, como esse aí, mas também temos o papel vegetal.
Tem também esses marcadores de papel, que são esses lápis e canetas hidrográficas que servem para realçar e copiar as riscas da folha de molde. Podem experimentar.
E a aula ia ficando prática. Os alunos iam pegando, especulando, tocando, sentindo o material. Estava fascinado, gostando de fazer o curso e isso o ajudava na aprendizagem rápida.
- Tão vendo esses simples alfinetes? - Eles têm a mes- ma função da fita, mas nos tecidos, e não no papel. Servem para juntar provisoriamente partes do pano durante a con- fecção e a montagem. Tenham sempre em mão, tipos varia- dos. Explicava o professor empolgado por ver interesse e bri- lho nos olhos dos alunos...
- Olhem! Agora chegamos às linhas! – Mostrava - São diversas cores para a máquina e também para arremates à mão. Um bom alfaiate terá que ter sempre uma boa varieda- de delas.
- Essa aqui é a fita adesiva. – Continuava, entusiasma- do, o professor - Ótima para grudar as várias peças de molde de papel, e esse aqui é o famoso giz de alfaiate: ele serve de guia durante a confecção da peça, pois marca o tecido. De- pois, sai facilmente na lavagem.
Primeiro ele aprendeu todo o conhecimento do ma- nuseio da máquina, depois, os pontos. Em seguida já sabia pregar botões, chulear e fazer o caseado. Estava se sentindo bem, feliz por dominar o vocabulário alfaiático.
Aprendeu a confeccionar os bolsos e a cada etapa, uma nova descoberta atraente. Depois, começou a fazer as calças, até chegar ao paletó, o ápice da profissão. Aliás, no fi- nal do curso, ele deveria, como os demais, entregar um terno pronto, o da própria formatura.
Todo dia de aula nunca era mais e sim menos. Menos dias para se formar. Aprendia com muito interesse e dedica- ção e não esquecia os mínimos detalhes. O seu Primo Antô- nio de Almerinda lhe dizia;
- Toda oportunidade, primo, é careca, veloz e escorre- gadia! Por isso, quando ela passar, a gente tem que agarrá-la pelos cabelos.
No outro dia, já estavam na aula. Não perdiam um dia...
-Hoje vamos aprender a chulear! – Iniciou o professor.
- Chulear? - Cutucou o primo, porque a palavra pare- cia com chulé, sussurrou.
- Significa dar pontos na borda de um tecido cortado para que não se desfie - Explicou o professor já fazendo de- monstração.
Após as aulas, estudava mais à noite na pensão, e tirava um texto filosófico, seu, pessoal e único a cada lição...
Era como um diário, as suas anotações sobre impres- sões que tinha das situações vividas.
“Fiquei muito ansioso hoje para costurar logo. Minha vontade era sentar na máquina e mandar brasa, mas antes, tive que marcar os tecidos com giz e depois passar e vincar as marcas. Era preciso também cortar o tecido com sobra de um centímetro nas laterais. Quando eu for para a máqui- na ficará muito mais fácil alinhar e fazer uma costura reta, usando um pauzinho para vincar.”
Depois vinha o lado filosófico...
“A ansiedade é algo prejudicial demais e é necessário, nessa vida, que a gente aprenda a dominá-la, a contê-la.
Quando a gente prepara tudo antes, planeja o que vai fazer, pensa, trabalha antes as providências necessárias para a execução, tudo fica mais fácil, rápido e prático para se con- cluir e realizar algo, seja o que for.”
Nesse dia já começou a pensar num plano “B” para a sua vida, já que a profissão de alfaiate, embora tivesse em voga naquele momento, não pretendia trabalhar a vida toda
naquela profissão...
- É só pra iniciar a vida. - Dizia a Antônio de Almerin- da. Mais tarde, escreveu:
Agora, nesse momento, essa é a oportunidade careca que tenho que agarrar pelos cabelos... Então, para eu ser um comerciante, dono de uma mercearia, vou precisar agir ago- ra: poupar dinheiro, ir comprando registradora, prateleiras, balcão, mesa, e outros móveis para instalação, além de já ir aprendendo e perguntando sobre o ramo.”
Eram muitas as vivências que presenciava nesse va- gão. Quanto maior o interesse, mais novidades aparecia, in- clusive uma nova lição: “Molhar e passar os tecidos antes de costurar.”
“Hoje aprendi a molhar os tecidos antes de costurar.
Contestei com o professor.
- Molhar o tecido novinho?
Ele me explicou que isso é necessário, porque alguns encolhem e não é pouco. Geralmente encolhem de meio a um centímetro, ou mais! E também porque têm goma e poei- ra, mesmo que a gente não veja ou ache que esteja limpinho.
Outra: alguns tecidos, mesmo os melhores, podem soltar tin- ta.
Esse serviço, fiz assim: separei os tecidos por cor e aqueles mais fortes, eu pus em uma vasilha, sozinhos. Foram seis vasilhas quadradas parecendo saladeiras com tampa não muito grandes. Não desdobrei o tecido! Mantive-os dobradi- nhos para não amassar. O professor frisou bem isso: “Quanto menos amassar, melhor para trabalhar com eles depois.”
Deixei no molho por umas seis horas e alguns de um dia para outro. Depois enxaguei sem desdobrar, em água cor- rente e espremi para tirar o excesso. Os tecidos que soltavam tinta, enxaguei até parar de sair tinta e voltei para um molho
de água com um punhado de sal. Isso Ajudou a fixar a cor.
Para estender, desdobrei bem devagar com muito cui- dado no varal, para não amassar. Depois, acendi o carvão do ferro de engomar. Quando estava em brasa quente, passei nos tecidos para tirar marcas de prendedores e alguns amas- sadinhos.”
“Hoje aprendi que para ser um bom profissional e exe- cutar um serviço com precisão e qualidade, necessário se faz ser determinado, objetivo, cuidadoso, cumpridor de etapas, e não ter pressa. Tudo é um processo. Se você pular um, os outros ficam, comprometidos. Lá na frente você vai ter pre- juízos. Acho que em minha vida vou querer ser assim: cau- teloso, olhando sempre ao redor e tendo atenção e cuidado com que eu estou fazendo no momento presente. Isso me ajudará a não me arrepender do que eu fizer, nem decepções futuras”.
Quando estava perto de acabar o curso, recebeu al- guns metros de Casemira Aurora, tecido de qualidade que a escola dava ao aluno, ajudando na confecção do terno que seria usado na solenidade de diplomação e no baile de for- matura. Além de ter aprendido a fazer ternos, os alunos do curso de alfaiataria confeccionavam uniformes para a escola, fantasias que eram solicitadas na época do carnaval e ou- tras peças de roupa encomendadas por instituições ou re- partições públicas, como: calças, paletós, ternos. Tudo que a escola necessitasse com relação à corte e costura, era feito pelos alunos e professores do curso de alfaiataria da Escola Técnica de Salvador.
Já habilitado para exercer a profissão, viajou muito elegante de terno novo para o Sul da Bahia, cidade de Ilhéus, para exercer a profissão de alfaiate, atraído pelas riquezas do cacau na região. Comprou, em Ilhéus, uma Máquina de Cos-
tura usada Singer dos Anos 20 com Pedal, de ferro fundido e gabinete de madeira nobre e não era elétrica. Tinha uma gavetinha e o acionamento com pedal.
Nesse momento, dentro do trem, alguém lhe dá um tapinha nas costas... Vira-se e era o seu amigo Benedito Bar- beiro. Cumprimentaram-se e abraçaram-se:
- Êta mundo pequeno, hein¿
- Mas rapaz, há quanto tempo!!!!
Eles dividiram o aluguel em Rio do Braço de um pon- to comercial. Enquanto ele fazia os ternos na parte mais ao fundo, Benedito Barbeiro ficava contando histórias, fofocava e tirava pilhérias com seus clientes da Barbearia Banza, na parte mais à frente. Benedito falava tudo errado. Era muito ruim o seu português. Ele tinha um filho em São Paulo ape- lidado de Toddy. Um dia, resolveu ver o filho. Pegou o ônibus e partiu da Bahia para a megalópole. Uma semana depois, voltou falando paulista, todo invocado, relatando tudo que viu lá na maior cidade da América Latina.
- O que mais você gostou de lá, Benedito¿
- Ah! – respondeu – Cada um predião! Cada um pre- dião! Predião grande! Grandão mermo! Arto, muntho arto!
Butaro inté lá in riba, um nome grandão pra todo mundo vê:
perguntei a um camarada ao lado que nome era aquele lá em riba e me dissero: Edifice Vitóra! Olha, cumpade, é difice mermo! Né face fazê um negóço daquele não! É difice! É difice! Uma vitóra mermo um negóço daquele!
- Como você fez pra chegar na casa de Toddy!
- Oxente, foi facin facin! Quando sartei na rodoviara, fui logo pegano um taco e fui pra casa de Toddy!
- Um taco¿
- Sim, home! Nunca viu não¿ Quando a gente sarta do Ombus na rodoviara, já vem um bucado de home pergunta-
no pra onde nós vai. Eu disse que ia pra casa de Toddy! Eles que conhece a cidade num sabia, imagina eu! Me perguntaro onde era a casa de Toddy. Eu só mostrei um papé qui dizia onde ele tava e me levaro lá. No camin, era carro como a peste, viu¿ Passano pro riba dumas ponte sem rio, ôtos carro passava por baxo, pelas filera de seis lado... Pense numa cor- reria! Correria grande! Carro de toda cor. Só num gostei pro mode que foi muntho puxado, o valô, mas Toddy pagô tudo quando cheguei lá na casa dele. O cara me levô num Fuisca Branco cum uma rádia dento e fumo uvino som inté lá. Era longe como a mulésta!
- Ah! Não era um táxi, não, Benedito¿
- Intonce! Eu num disse qui era um taco¿ Foi isso mermo!
- Ô Benedito! Vou fazer uma aposta contigo... Se você falar uma única palavra certa, ganha dez cruzeiros, viu¿ Só tem uma chance!
- Cuma? Respondeu –
- Já perdeu, disse o desafiante.
O ancião se lembrou de tudo isso e, com a cabeça de volta ao trem, continuaram conversando:
- Sube que tu virô dono de budega. Num deu pra tra- baiar de alfaiate mair não? - Perguntou Benedito Barbeiro.
- Desde aquela época que quis abrir um comércio para mim. Trabalhei de alfaiate por pouco tempo, serviu pra juntar dinheiro, mas se eu tivesse na profissão até hoje, te- ria espaço, pois a profissão não acabou. Ela pode ter perdido espaço, mas não o encanto. Um terno ou uma roupa feita exclusivamente para você, não tem preço! Nada substitui o prazer de vestir um terno impecável, bem cortado, ajustado no próprio corpo. Cozer sob medida é um dom, uma arte e ainda não está em extinção. Abri uma mercearia em Rio do
Braço por muitos anos e com ela, graças a Deus, criei bem toda a minha família: mulher e cinco filhos!
- Vô lhe mostrar uns iscrito sobre esse negóço de al- faiate que seu fio Manzinho fez pra tu quando ele era mini- no.
-Ah! Eu me lembro, foi no dia 06 de setembro, dia do alfaiate. Ele fez na escola, mas perdi o poema escrito, faz tempo.
- Ah, mas eu achei e guardei. Óia ele aqui.
Recebeu do amigo um velho papel pautado amassado e dobrado, escrito com letras desbotadas na velha máquina de escrever portátil Olivetti Letera 22 que o acompanhou por anos e anos e começou a ler:
O ALFAIATE Bem firme e afiada a nau determinada separa o mar em dois.
A linha em par mergulha puxada por uma agulha são golfinhos que brincam.
Emergem e submergem navegam pelo mar de infinito tecidos.
Infalível, o corte.
A nau tem comandante.
Roupas que dão destaque um smoking, um fraque
ou um terno galante na precisão da métrica, elegância e estética e a beleza poética para encantar-te.
Tesoura, agulha e arte:
e nasce um terno magistral, impecável e especial,
a “made in” Alfaiate.
Depara-se com a porta do Quarto vagão