Segunda Câmara Criminal Habeas Corpus
Processo nº 4002383-07.2014.8.04.0000 Impetrante: Carla Dayany Luz Abreu
Paciente: Renato Fabiano dos Santos Benigno
Impetrado: Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 1ª Vara do Tribunal do Júri Relatora: Desa. Dra. Encarnação das Graças Sampaio
PARECER 2014.13.2.1.864498.2014.30742 Guia 2014/
Eminente Desembargadora-relatora Egrégia Câmara Criminal
Versam os presentes autos acerca de habeas corpus com pedido de liminar, impetrado pela Dra. Carla Dayany Luz Abreu, em favor do Paciente Renato Fabiano dos Santos Benigno, apontando como autoridade coatora o Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 1ª Vara do Tribunal do Júri.
A Impetrante relata, que o Paciente foi denunciado pela prática do delito tipificado no art. 121, § 2º, III do Código Penal Brasileiro, por duas vezes, art. 121, § 2º III c/c art. 14, II do Código Penal, por três vezes.
Descreve a Impetrante, que a exordial Acusatória na narra que o acusado, após supostamente ter se colocado em total estado de embriaguez, dirigiu veículo automotor a 140 km/h, assumindo o risco de produzir o resultado morte a qualquer instante, ocasião em que, nas proximidades do Shopping Ponta Negra, acabou por atingir o veículo modelo Fiat Strada, placa JXP 6657, resultando na morte de 2 (duas) pessoas e lesão corporal em 3 (três).
O Paciente foi preso em flagrante delito no dia 12 de maio de 2014, sendo sua prisão convertida em preventiva, encontrando-se encarcerado até a presente data.
Em síntese, a Impetrante sustenta não haver fundamentação idônea para justificar a custódia preventiva do Paciente, caracterizando assim, constrangimento ilegal, sendo perfeitamente cabível a concessão da presente ordem..
A autoridade coatora, por sua vez, apresentou as informações necessárias, às fls. 34/36.
Em epítome, é o relatório. Opino.
O Paciente foi denunciado pela prática do delito tipificado no art. 121, § 2º, III do Código Penal Brasileiro, por duas vezes, art. 121, § 2º III c/c art. 14, II do Código Penal, por três vezes.
É certo, que para prisão preventiva é imprescindível que estejam presentes o fumus commissi delicti, isto é, a prova da materialidade delitiva e indício suficientes da autoria, bem como, o periculum in libertatis, ou seja, a existência de uma das três hipóteses descritas no art. 312 do Código de Processo Penal, quais sejam: a) garantia da ordem pública, b) garantia da ordem econômica e c) por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal.
Sabe-se que a liberdade provisória é instituto processual que garante ao acusado o direito de aguardar em liberdade o transcurso do processo até seu trânsito em julgado, sendo sua concessão autorizada nas hipóteses em que não estiverem presentes os requisitos da prisão preventiva, o que não se vislumbra no caso vertente.
A garantia da ordem pública é representada pela necessidade de impedir a reiteração do crime, estando assim, relacionada à necessidade de assegurar a credibilidade das instituições públicas quanto à visibilidade e transparência de políticas públicas de persecução criminal.
Colaciono, nesse ponto, o entendimento jurisprudencial abaixo:
HABEAS CORPUS. TENTATIVA DE HOMICÍDIO. DOLO EVENTUAL. CRIME COMETIDO NO TRÂNSITO. PRISÃO
PREVENTIVA. DECISÃO FUNDAMENTADA.
REITERAÇÃO CRIMINOSA. CONDUTA SEMELHANTE PRATICADA TRÊS MESES ANTES. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. FUGA DO RÉU. ART. 312 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. ORDEM DENEGADA. 1. Inexiste constrangimento ilegal a ser reconhecido se a
prisão preventiva imposta ao paciente encontra-se devidamente justificada, especialmente para garantia da ordem pública, em razão de o paciente, supostamente, ter cometido, três meses antes, crime semelhante, no mesmo local, causando lesões corporais à vítima, tudo a indicar sua concreta periculosidade social. 2. O fato de a custódia
cautelar ter sido decretada cinco meses após os fatos, por ocasião do recebimento da denúncia, por si só, não afasta a sua necessidade, pois demonstrada de forma concreta, nos termos do art. 312 do Código de Processo Penal. 3. Não bastasse, o paciente fugiu do local dos fatos, não prestou socorro à vítima e, ao contrário do corréu a quem se concedeu liminar, não se apresentou à Justiça, permanecendo foragido por quase três anos, somente vindo a ser preso recentemente, após ser localizado escondido em uma fazenda. Não há identidade de situações, pois o corréu apresentou-se espontaneamente na delegacia e entregou seu passaporte, demonstrando o interesse em colaborar com a Justiça. 4. Ademais, foi o paciente que, supostamente, participando de "racha", ultrapassou sinal vermelho e colidiu com o veículo da vítima, provocando-lhe sérias lesões corporais, inclusive com internação na "UTI" em estado de coma. E foi ele que, repita-se, no mesmo local, uma avenida com grande movimentação de pessoas, praticou conduta idêntica três meses antes, chegando a causar lesões corporais em outra vítima.5. Ordem denegada. (HC 103.555/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 22/06/2010, DJe 02/08/2010)
Importante mencionar, que não se exige, fundamentação exaustiva, sendo suficiente que o decreto constritivo, ainda que de forma sucinta, concisa, analise a presença, no caso, dos requisitos legais ensejadores da
prisão preventiva (RHC 89.972/GO, Primeira Turma, Relª. Minª. Cármen Lúcia, DJU de 29/06/2007).
HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. PRISÃO PREVENTIVA. ART. 312 CPP.PERICULUM LIBERTATIS. INDICAÇÃO NECESSÁRIA. FUNDAMENTAÇÃO SUFICIENTE. IMPETRAÇÃO NÃO CONHECIDA.1. O Superior Tribunal de Justiça, alinhando-se à nova jurisprudência da Corte Suprema, também passou a restringir as hipóteses de cabimento do habeas corpus, não admitindo que o remédio constitucional seja utilizado em substituição ao recurso ou ação cabível, ressalvadas as situações em que, à vista da flagrante ilegalidade do ato apontado como coator, em prejuízo da liberdade do paciente, seja cogente a concessão, de ofício, da ordem de habeas corpus.2. A jurisprudência desta Corte Superior é remansosa no sentido de que a determinação de segregação do réu antes de transitada em julgado a condenação deve efetivar-se apenas se indicada, em dados concretos dos autos, a necessidade da cautela (periculum libertatis), à luz do disposto no art. 312 do Código de Processo Penal.3. Na espécie, o juiz singular apontou concretamente a presença dos vetores contidos no art. 312 do Código de Processo Penal, indicando motivação suficiente para justificar a necessidade de colocar o paciente cautelarmente privado de sua liberdade, uma vez que apontou circunstâncias do crime (concurso de agentes com premeditação, uso de arma de fogo e registro de falsa ocorrência de furto do veículo) aptas a caracterizar a sua periculosidade concreta.5. Habeas corpus não conhecido.(HC 289.041/RS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 22/05/2014, DJe 06/06/2014)
Nesse vértice, transcrevo parte das informações da autoridade coatora, concernente a fundamentação da custódia cautelar.
“Ressalto que na decisão supramencionada, ficou evidenciado a gravidade da conduta do Paciente, que fora encontrado e detido no local do acidente em estado de embriaguez, que teve como consequência de tal conduta 2 (duas) vítimas fatais e uma lesionada, demonstrando comportamento nocivo ao convívio
social, como a gravidade do delito em questão, devendo o Estado dar uma resposta eficiente à sociedade.”
Outros fatores importantes aventados pela Impetrante são os predicados do Paciente, porém estes não são suficientes para garantir a liberdade do mesmo. É como se manifesta nosso Tribunal da Cidadania e nossa Corte máxima.
HABEAS CORPUS IMPETRADO EM SUBSTITUIÇÃO AO RECURSO PREVISTO NO ORDENAMENTO JURÍDICO. 1.
NÃO CABIMENTO. MODIFICAÇÃO DE
ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL. RESTRIÇÃO DO REMÉDIO CONSTITUCIONAL. EXAME EXCEPCIONAL QUE VISA PRIVILEGIAR A AMPLA DEFESA E O DEVIDO PROCESSO LEGAL. 2. ALEGAÇÃO DE INÉPCIA DA DENÚNCIA E DE INIMPUTABILIDADE DO PACIENTE POR SER DEPENDENTE QUÍMICO DE SUBSTÂNCIAS ENTORPECENTES ILÍCITAS. TEMAS NÃO APRECIADOS PELO TRIBUNAL A QUO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. 3. LIBERDADE. REGRA DO ORDENAMENTO JURÍDICO. POSSIBILIDADE DE MITIGAÇÃO. HIPÓTESES ESTRITAS DEVIDAMENTE MOTIVADAS PELO JUIZ. 4. CRIMES DE TRÁFICO DE ENTORPECENTES E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE ENTORPECENTES. PACIENTE
INTEGRANTE DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA
ESPECIALIZADA NO TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO TEMPORÁRIA CONVERTIDA EM PRISÃO PREVENTIVA. INDEFERIMENTO DE LIBERDADE PROVISÓRIA. DECISÃO FUNDAMENTADA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CONFIGURADO. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. PERICULOSIDADE. EVIDENCIADA PELO MODUS OPERANDI. 5. ALEGAÇÃO DE presença de condições pessoais favoráveis ao paciente não tEm o condão de afastar a prisão que fora devidamente fundamentada. Entendimento pacífico desta Corte Superior 6. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, buscando a racionalidade do ordenamento jurídico e a funcionalidade do sistema recursal, vinha se firmando, mais recentemente, no sentido de ser imperiosa a restrição do cabimento do remédio constitucional às hipóteses previstas na Constituição Federal e no Código de Processo Penal. Atento a essa evolução hermenêutica, o Supremo
Tribunal Federal passou a adotar decisões no sentido de não mais admitir habeas corpus que tenha por objetivo substituir o recurso ordinariamente cabível para a espécie. Precedentes. Contudo, devem ser analisadas as questões suscitadas na inicial no afã de verificar a existência de constrangimento ilegal evidente, a ser sanado mediante a concessão de habeas corpus de ofício, evitando-se prejuízos à ampla defesa e ao devido processo legal. 2. As alegações de que a denúncia é inepta e de que o paciente é inimputável por ser dependente químico de substâncias entorpecentes ilícitas, não foram apreciadas pelo Tribunal a quo, o que impede o exame por esta Corte Superior, sob pena de inadmissível supressão de instância. 3. A liberdade, não se pode olvidar, é a regra em nosso ordenamento constitucional, somente sendo possível sua mitigação em hipóteses estritamente necessárias. Contudo, a prisão de natureza cautelar não conflita com a presunção de inocência, quando devidamente fundamentada pelo juiz a sua necessidade, como é o caso dos autos. 4. In casu, as instâncias ordinárias apresentaram fundamentação idônea para a manutenção da prisão cautelar, porquanto julgou-se indispensável a medida excepcional para a garantia da ordem pública, haja vista a periculosidade do agente -evidenciada pelo modus operandi do delito, pois o paciente e outros agentes supostamente integram uma organização criminosa bem ramificada, que tem a finalidade de disseminar drogas no município de Itapetinga e cidades vizinhas -, e a gravidade concreta dos crimes. 5. A alegação de que o paciente
possui condições pessoais favoráveis - residência fixa no distrito da culpa, emprego fixo e primariedade -, que lhe permitiria o gozo da liberdade provisória, não tem o condão de afastar a prisão que fora devidamente fundamentada, conforme pacífico entendimento deste Tribunal Superior. 6. Habeas corpus não conhecido.(HC
259.416/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, QUINTA TURMA, julgado em 19/02/2013, DJe 26/02/2013)
No caso em tela, não houve qualquer alteração processual ou fatos que modificassem a situação do Paciente, a fim de justificar sua liberdade, permanecendo as mesmas circunstâncias quando da homologação da prisão em flagrante em preventiva e do indeferimento da revogação da prisão preventiva pela autoridade coatora.
Por fim, vale destacar que a audiência de instrução e julgamento foi pautada para o dia 19 de setembro de 2014, 08:30h.
Ante o exposto, este Graduado Órgão Ministerial opina pelo conhecimento do presente remédio heroico, mas quanto ao mérito, negue-lhe provimento.
Manaus, 15 de julho de 2014. Flávio Ferreira Lopes