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CONSELHO DE DISCIPLINA

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Academic year: 2021

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CONSELHO DE DISCIPLINA

SECÇÃO NÃO PROFISSIONAL

Processo nº 140 - 2020/2021

DESCRITORES:

Comportamento incorreto do público - Infração leve - Responsabilidade Disciplinar - Prescrição do procedimento disciplinar - Suspensão e interrupção - Aplicação da lei no tempo

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PARTE: Vitória Futebol Clube - Futebol, SAD (1210.1), na qualidade de arguida DATA DO ACÓRDÃO: 08/06/2021

TIPO DE VOTAÇÃO: Unanimidade RELATOR: Leonel Gonçalves

OBJETO: Factos ocorridos no jogo nº 11605 (203.01.140), disputado entre a Vitória Futebol Clube - Futebol SAD, e a Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD, no dia 11/01/2020, a contar para a 16ª jornada da Liga NOS, época desportiva 2019/2020

NORMAS APLICADAS: Artigos 11º, 21º, 23º, 187º, nº 1, alínea b), e 225º, todos do Regulamento Disciplinar das Competições Organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional; artigo 5º, nº 3, do RDFPF; cláusula 9ª, nº 6, do Contrato celebrado entre a FPF e a LPFP.

SUMÁRIO:

I - Ressalvadas as causas de interrupção ou de suspensão do prazo legalmente estabelecidas, o procedimento disciplinar prescreve decorridos que sejam três anos, um ano ou 30 dias, consoante as infrações sejam, respetivamente, muito graves, graves ou leves, sobre a data em que a infração tenha sido cometida.

II - A prescrição do procedimento disciplinar tem sempre lugar quando, desde o início da contagem do prazo respetivo e ressalvado o período de suspensão, tiver decorrido o prazo normal de prescrição acrescido, no caso das infrações leves, do dobro da duração do prazo normal de prescrição.

III - Estando perante infração disciplinar leve, alegadamente praticada em 11/01/2020, considerando que o prazo prescricional se suspendeu com a instauração do procedimento disciplinar, em 15/01/2020, e sabendo que, em regra (exceto se correr processo crime sobre os mesmos factos) a suspensão do prazo prescricional não pode exceder seis meses, mesmo que se aceitasse que, no caso concreto, o prazo de prescrição se teria suspendido ao abrigo dos diplomas legais que, em 2020 e 2021, estabeleceram a suspensão de prazos processuais e procedimentais decorrente das medidas adotadas no âmbito da contenção da pandemia provocada pela doença Covid 19, certo é que, quando estes autos chegaram a este CDSNP, em 24/05/2021, já o prazo de prescrição do procedimento disciplinar havia integralmente decorrido por, tratando-se de infração leve, haver já decorrido o prazo normal de prescrição (30 dias) acrescido do dobro (60 dias) da duração do prazo normal dessa prescrição.

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ACÓRDÃO

Acordam, em Plenário, ao abrigo dos artigos 216º, nº 1, e 229º do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol1, os membros do Conselho de Disciplina, Secção Não Profissional, da

Federação Portuguesa de Futebol2,

I – RELATÓRIO DE TRAMITAÇÃO PROCESSUAL §1 Registo inicial

1. Por deliberação deste CDSNP datada de 21/05/2021 (cf. fls. 223 e 224) foi autuado o presente processo disciplinar, nos termos do disposto no artigo 232º, nº 1, do RDFPF, visando apurar a eventual responsabilidade disciplinar da Vitória Futebol Clube - Futebol, SAD (1210.1)3, por factos ocorridos no

jogo oficial nº 11605 (203.01.140), disputado em 11/01/2020, entre a Vitória SAD e a Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD, a conta para a 16ª jornada da Liga NOS, época desportiva 2019/2020.

2. Essa deliberação de autuação do presente processo disciplinar, tomada por este CDSNP em 21/05/2021, surgiu na sequência de deliberação da Secção Profissional deste Conselho de Disciplina, tomada em 18/05/2021 (cf. fls. 220 e 221), porquanto, como consta no artigo 5º, nº 3, do RDFPF, «É

competente para julgar a infração disciplinar o órgão disciplinar ao qual essa competência estiver atribuída na data da prática do facto, salvo expressa disposição em contrário prevista no Contrato entre a Federação e a LPFP», porque a Vitória SAD se encontra atualmente inscrita no âmbito das

competições não-profissionais e ainda porque, nos termos do disposto no Contrato celebrado entre a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portuguesa de Futebol Profissional4, nomeadamente na sua

cláusula 9ª, nº 6, «Os processos disciplinares pendentes no início de cada época desportiva são

decididos, finda a instrução, pela secção disciplinar competente para a competição desportiva em que o infrator tiver sido integrado, sendo aplicável o regime sancionatório a que o mesmo se encontrava sujeito à data da infração».

3. A mencionada deliberação de 21/05/2021, para além de aceitar a competência funcional deste CDSNP para apreciar a eventual responsabilidade disciplinar da Vitória SAD face aos factos que constituem o objeto deste processo disciplinar, determinou ainda, em prol da celeridade processual, o 1 Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol, com as alterações aprovadas pelo Direção da Federação Portuguesa de Futebol na sua reunião de 10/07/2020, doravante abreviado, por mera economia de texto, por RDFPF. O texto regulamentar encontra-se disponível, na íntegra, na página oficial da FPF na internet e foi publicitado pelo Comunicado Oficial nº 460, de 13/07/2020.

2 Adiante apenas identificado como CDSNP. 3 Doravante também apenas Vitória SAD. 4 Adiante apenas identificada como LPFP.

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aproveitamento de todos os atos já praticados, e atribuiu natureza urgente aos autos, nos termos do disposto no artigo 222º, nº 1, do RDFPF.

4. No dia 24/05/2021, foi então este processo disciplinar autuado e registado (cf. verso da capa), e subsequentemente distribuído e feito concluso a Relator (cf. fls. 235 e 236).

5. Aquela deliberação deste CDSNP de autuação do presente processo disciplinar foi notificada à arguida Vitória SAD por correio eletrónico remetido em 24/05/2021 (cf. fls. 225).

6. Por altura da autuação, o presente processo disciplinar incluía certidão integral dos autos de processo disciplinar nº 30 - 2020/2021 (onde se inclui o processo de inquérito nº 12 - 2019/2020 que lhe deu origem), que correram termos junto da Secção Profissional deste Conselho de Disciplina, nos quais consta a seguinte documentação:

a) o Comunicado Oficial da LPFP nº 133 (extrato parcial), de 14/01/2020, relativo às sanções aplicadas no âmbito de processos sumários e atinente à instauração do Processo de Inquérito nº 12 – 2019/2020, a fls. 1 e 2;

b) o Relatório do Árbitro relativo ao jogo oficial nº 11605, disputado, em 11/01/2020, entre a Vitória SAD e a Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, a contar para a 16ª jornada da Liga NOS, época desportiva 2019/2020, de fls. 3 a 9;

c) o Relatório de Delegado da LPFP relativo ao jogo oficial nº 11605 (203.01.140), vindo de identificar, a fls. 10 e 11;

d) notícias publicadas em diversos jornais desportivos, nas suas edições de 12/01/2020, constando a do “Record” a fls. 11, 12, 16 e 17, a de “O Jogo” a fls. 14, e a de “A Bola”, a fls. 15 e 16;

e) a remessa dos autos à Comissão de Instrutores da LPFP, e o despacho do seu Ex.mo Presidente a nomear o Instrutor, a fls. 19;

f) o Relatório de Policiamento Desportivo, elaborado pelo Comando Distrital de Setúbal da Polícia de Segurança Pública, atinente ao mencionado jogo oficial, disputado em 11/01/2020, entre a Vitória SAD e a Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, a contar para a 16ª jornada da Liga NOS, época desportiva 2019/2020, de fls. 22 a 26 (depois novamente de fls. 28 a 32);

g) o Despacho do Sr. Instrutor nomeado, determinando a junção aos autos de todos os mapas de processos sumários relativos ao jogo oficial em causa, a fls. 33 e 34;

h) o Comunicado Oficial da LPFP nº 133 (extrato igualmente apenas parcial), de 14/01/2020, relativo às sanções aplicadas no âmbito de processos sumários e instauração do Processo de Inquérito nº 12 – 2019/2020, de fls. 35 a 38;

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i) o Comunicado Oficial da LPFP nº 147, de 23/01/2020, relativo às sanções aplicadas no âmbito de processos sumários, a fls. 39 e 40;

j) o Despacho do Sr. Instrutor determinando que fosse notificado o Sr. Coordenador de Delegados da LPFP para ser inquirido por videoconferência, na qualidade de testemunha, a fls. 41, e o respetivo auto de inquirição, no qual se encontram vertidas as declarações pelo mesmo prestadas, a fls. 49 e 50;

k) o Despacho do Sr. Instrutor solicitando informações junto do Departamento da LPFP, quanto à identificação e inscrição de determinado agente desportivo, a fls. 55, e respetiva resposta em conformidade, a fls. 59 e 60;

l) o Despacho do Sr. Instrutor determinando que fosse notificado o agente desportivo Carlos Manuel Mendes Alves de Sousa, Diretor Financeira da Vitória SAD, para ser inquirido por videoconferência, na qualidade de testemunha, a fls. 61, e o respetivo auto de inquirição, no qual se encontram vertidas as declarações pelo mesmo prestadas, de fls. 70 a 72;

m) o Despacho do Sr. Instrutor determinando que fosse notificado o agente desportivo Francisco Salgado Zenha, membro do Conselho de Administração da Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, para ser inquirido por videoconferência, na qualidade de testemunha, a fls. 73, e a informação, dada em resposta pelo Departamento Jurídico da LPFP, de não se encontrar registado/inscrito naquela LPFP qualquer agente desportivo com aquele nome, a fls. 94;

n) o Despacho do Sr. Instrutor determinando que fosse notificado o agente desportivo Miguel Maria do Nascimento Nogueira Leite, Vogal do Conselho Diretivo da Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, para ser inquirido por videoconferência, na qualidade de testemunha, a fls. 84, e a informação, dada em resposta pelo Departamento Jurídico da LPFP, de que o mesmo não se encontrava registado/inscrito por qualquer sociedade desportiva naquela LPFP, a fls. 99;

o) o auto de inquirição de Francisco Albuquerque Salgado Zenha, membro do Conselho de Administração da Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, a fls. 103;

p) o auto de inquirição de Miguel Maria do Nascimento Nogueira Leite, Vogal do Conselho Diretivo da Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD, de fls. 117 a 120;

q) o Relatório Final elaborado pelo Sr. Instrutor do processo de inquérito nº 12 - 2019/2020, datado de 11/12/2020, no qual, para além da tomada de posição relativamente ao comportamento adotado pelo agente desportivo Carlos Manuel Mendes Alves de Sousa, Diretor Financeira da Vitória SAD, propõe a «… instauração de processo disciplinar (cfr. artigo 267º, nº 3), para apuramento da

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responsabilidade disciplinar: 1. Da VFC, à luz do disposto nas alíneas a) e b) do nº 1 do artigo 187º do RD», de fls. 120 a 130;

r) o Despacho da Ex.ma Senhora Presidente do Conselho de Disciplina da FPF, proferido em 14/12/2020, distribuindo os autos a Relator, a fls. 133;

s) o acórdão proferido pela Secção Profissional do Conselho de Disciplina da FPF, relatado pela Ex.ma Senhora Conselheira Marta Vicente, datado de 22/12/2020, no âmbito do processo de inquérito nº 12 - 2019/2020, no qual, além do mais, se determinou a conversão daquele processo de inquérito em processo disciplina, tendo por arguidos, para além do agente desportivo Carlos Manuel Mendes Alves de Sousa, Diretor Financeiro da Vitória SAD, também esta Vitória Futebol Clube – Futebol SAD, «com vista a apurar da sua responsabilidade pela prática da infração disciplinar p. e p. no artigo 187º,

nº 1, al. a) e b) (Comportamento incorreto do público) do RDLPFP19», de fls. 135 a 163;

t) a notificação desse acórdão à Vitória SAD, a fls. 164, bem como à Comissão de Instrutores da LPFP, a fls. 173, e a distribuição desse processo, agora como processo disciplinar, ao qual coube o nº 30 – 2019/2020, a Instrutor, a fls. 174;

u) o Despacho do Sr. Instrutor nomeado, dando cumprimento ao disposto no artigo 227º do Regulamento Disciplinar da LPFP, notificando a Vitória SAD do objeto dos autos e da qualificação jurídica dos factos, concedendo-lhe prazo para pronúncia acerca dos mesmos, e do direito de requerer diligências instrutórias pertinentes e necessárias, ordenando ainda a junção aos autos «do extrato disciplinar dos Arguidos, abrangendo as três épocas desportivas anteriores à dos factos», de fls. 176 a 181;

v) a notificação desse despacho à Vitória SAD, de fls. 182 a 184;

w) o cadastro disciplinar da Vitória SAD na época desportiva 2017/2018, de fls. 189 a 191, constando o referente à época 2018/2019, de fls. 192 a 184, o atinente à época desportiva 2019/2020, de fls. 195 a 199 e, finalmente, o respeitante à época desportiva 2020/2021, a fls. 200;

x) o Relatório Final elaborado pelo Sr. Instrutor do processo disciplinar nº 30 - 2019/2020, datado de 12/05/2021, no qual, a final e além do mais, deduz acusação contra a Vitória SAD, considerando que «Resulta suficientemente indiciado que (…) A Arguida Vitória Futebol Clube – Futebol

SAD cometeu uma infração disciplinar p. e p. nos termos do artigo 187º, nº 1, alínea b, do RD 2019-20 (comportamento incorreto do público), associada à violação dos deveres previstos nos artigos 35º, nº 1, alíneas a), b), c) e o), e 49º, nº 1, todos do RC, artigos 4º e 6º, alíneas b), c) d) e m), do Regulamento de Prevenção da Violência, constante do Anexo VI do citado RC», de fls. 202 a 217;

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y) finalmente, a deliberação da Secção Profissional do Conselho de Disciplina da FPF, tomada em 18/05/2021, nos termos da qual, além de ter ordenado a separação de processos (relativamente ao agente desportivo Carlos Manuel Mendes Alves de Sousa e à Vitória SAD), passando então estes autos a ter por objeto, apenas, a apreciação da responsabilidade disciplinar da Vitória SAD, a fls. 220 e 221.

7. Nessa sequência, surge então a supramencionada (em 3.) deliberação deste CDSNP, datada de 21/05/2021, que aceitou a competência funcional para apreciar a eventual responsabilidade disciplinar da Vitória SAD face aos factos que constituem o objeto dos autos e determinou, em prol da celeridade processual, o aproveitamento de todos os atos já praticados, e atribuiu natureza urgente ao processo, como se afere de fls. 223 e 224.

8. Em 24/05/2021 foi a Vitória SAD notificada de tal deliberação deste CDSNP (cf. fls. 225) e os presentes autos distribuídos e apresentados a Relator – cf. fls. 235 a 237.

9. No dia seguinte, o Relator ordenou a notificação da acusação (constante de fls. 202 a 217) à arguida Vitória Futebol Clube - Futebol SAD, com as advertências regulamentares – cf. fls. 238.

10. No dia 28/05/2021, pelas 11:54 horas, veio a Vitória SAD, através de advogado que constituiu (cf. procuração de fls. 252) solicitar o envio do processo digitalizado, por considerar «tais

elementos serem indispensáveis para o cabal e pleno exercício do direito de defesa da arguida, não podendo tal direito ser preterido, não prescinde a mesma do seu prazo de defesa após estar na posse de todos os elementos pelo que, requer a V. Ex.ª se digne conceder novo prazo de dois dias úteis para defesa, contados a partir do primeiro dia útil seguinte à receção dos elementos» - cf. fls. 245 e 250.

11. O Secretariado do Conselho de Disciplina procedeu ao imediato envio dos elementos solicitados, o que fez 7 (sete) minutos depois, pelas 12:01 horas do dia 28/05/2021 – cf. fls. 253 – disponibilizando cópia integral dos autos à Vitória SAD.

12. Não obstante, 4 (quatro) minutos depois, pelas 12:05 horas, o mandatário da Vitória SAD veio novamente remeter o requerimento anteriormente enviado (solicitando a obtenção dos autos por via digital), que por lapso não viera assinado, o que motivou o Secretariado do Conselho de Disciplina a proceder a novo envio dos autos digitalizados, o que aconteceu pelas 12:29 horas do mesmo dia 28/05/2021 – cf. fls. 269.

13. No prazo regulamentar, pelas 23:31 horas do dia 31/05/2021, a Vitória SAD veio apresentar defesa escrita, na qual se defende por exceção, invocando a prescrição do procedimento disciplinar, e ainda por impugnação, não juntando quaisquer documentos, nem requerendo a realização de qualquer diligência probatória – cf. fls. 278 a 283.

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14. No dia 31/05/2021, o Secretariado do Conselho de Disciplina fez os autos conclusos ao Relator (cf. fls. 284), o qual, por entender verificadas as condições processuais para o encerramento da fase de instrução, avançou para a elaboração de projeto de acórdão, nos termos do disposto no artigo 245º do RDFPF.

§2. Acusação

15. Em sede de acusação, aduz-se que, por altura da realização do jogo oficial nº 11605 (203.01.140), disputado em 11/01/2020, entre a Vitória SAD e a Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD, a contar para Liga NOS, época desportiva 2019/2020, nas bancadas nascente e central coberta do Estádio do Bonfim, assistiriam àquele jogo, exclusivamente, adeptos da Vitória SAD, que utilizavam vestuário, acessórios e adereços alusivos à mesma, que amiúde entoavam cânticos de apoio à respetiva equipa. Esses adeptos reagiram à chegada do Presidente da SAD visitante, Frederico Varandas, vaiando e gritando «filho da puta!», «vai para o caralho!», «mal-agradecido!», «tem

vergonha!», «vai-te embora!». Mais acrescenta a acusação que esse comportamento foi repetido

várias vezes durante o jogo, nomeada e principalmente aquando do golo da Vitória SAD, momento em que aqueles adeptos bateram violentamente com as mãos nas placas de acrílico existentes como separador das bancadas, o que fizeram por vários momentos durante o jogo, e cuspiram e arremessaram uma cadeira com violência na direção dos membros da comitiva da Sporting Clube de Portugal - Futebol SAD que aí se encontravam. Aquele libelo acusatório aduz ainda que, aos 4 e 22 minutos da primeira parte, na bancada central nascente, e aos 23 minutos da segunda parte, na bancada central coberta, aqueles adeptos da Vitória SAD entoaram em cântico «E oh Varandas, vai pró

caralho».

16. A acusação vem suportada na documentação suprarreferida no ponto 6. deste acórdão.

§3. Defesa

17. Notificada que foi da acusação, veio a arguida Vitória SAD apresentar defesa escrita, que consta de fls. 279 a 283 dos autos, do seguinte teor (transcrição):

«Vitória Futebol Clube - SAD, arguida nos presentes autos, tendo sido notificada da acusação contra si

proferida vem, nos termos do disposto nos arts. 240º, nº 1 e 222º, nº 2 e 4 do Regulamento Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol (adiante designado RDFPF), apresentar a sua

DEFESA

o que faz nos seguintes termos e fundamentos

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À arguida é imputada a prática de inflação disciplinar p. e p. nos termos do disposto no art.187º, nº 1, al. b), do Regulamento Disciplinar da Competições Organizadas pela Liga Portugal, adiante designado por RD.

Os factos a subsumir à infração, resulta dos autos, terão ocorrido no jogo nº 11605 (203.01.1401), entre a Vitória Futebol Clube – Futebol SAD e a Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD, realizado no dia 11 dejaneíro de 2020 e a contar para a LIGA NOS.

A referida infração disciplinar encontra-se, sistematicamente, inserida no Título ll – Infrações Disciplinares, Capítulo IV, com amesma designação, Secção VI – Infrações dos Espetadores e na Subscção IV - Infrações Leves.

Estamos, portanto, perante a imputação da prática de uma infração disciplinar classificada como leve.

Ora, nos termos do disposto no art. 23º, nº 1, do RD, no caso das infrações leves, o procedimento disciplinar prescreve decorridos que sejam 30 dias, contados da data da prática da ínfração

Prazo cuja contagem se interrompe com a instauração do procedimento disciplinar (nº 3, al. a), do mesmo artigo).

Resultando ainda, do nº 7, do mesmo art. 23º, que a prescrição do procedimento disciplinar tem sempre lugar quando, no caso das infrações leves, desde o início da contagem do prazo respetivo e ressalvado o período de suspensão, tiver decorrido o dobro da duração do prazo normal de prescrição.

Resulta do exposto que, no limite, decorridos 8 meses da data em que o facto foi consumado, o procedimento disciplinar prescreve.

Sendo que idêntica solução resulta também do art. 50º do RDFPF, mas, no caso, com um prazo ainda mais curto, de 7 meses.

10º

Atendendo aos factos em causa que, em síntese, se resumiram a vaiar, gritar impropérios e entoar cânticos inapropriados/malcriados (algo bastante ordinário nos estádios de futebol, pese embora a sua censura ética), bater com as mãos em placas de acrílico, sem qualquer efeito prático, cuspir nas mesmas e o arremesso de uma cadeira de plástico, também sem qualquer dano físico ou outro prejuízo, não existe aqui qualquer censura penal, não podendo deixar de entender ser o prazo de prescrição referido, o aplicável no caso concreto.

11º

Ora, compulsados os autos, constata-se que foi apenas em 23 de dezembro de 2020, que foi autuada a documentação do inquérito efetuado e registado e instaurado o Processo Disciplinar, com o nº 30-2020/2021, o qual veio mais tarde a dar origem aos presentes autos, por separação de processos.

12º

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prescrito. II - Dos Factos

13º

Ainda, e sem conceder, sempre se dirá que, mesmo que se considerasse a data de 15 de janeiro de 2020, data em que se iniciou o inquérito dos factos, com o processo de inquérito (e não disciplinar) nº 12 -2019/2020, ainda assim, já o procedimento estaria também prescrito.

14º

Pelo que, com os fundamentos explicitados, se invoca a prescrição do procedimento disciplinar e, em consequência, o arquivamento dos autos.

15º

Sem conceder e por mero dever de patrocínio, caso não se entenda verificada a prescrição do procedimento, sempre se dirá que:

16º

Resulta dos autos que a origem das animosidades ocorridas esteve na falta de acordo entre ambas as equipas, quanto ao adiamento e reagendamento do referido jogo.

17º

Proposta apresentada pela arguida, devido ao um surto gripal que afetou grande parte do seu plantel. 18º

Considerando por isso a mesma que, desportivamente, não estava verificada uma igualdade física entre as equipas, não havendo justiça no jogo.

19º

Além do mais, resulta também dos autos que os próprios adeptos do Sportíng entoarem cânticos ofensivos da honra da equipa da casa, o que não se pode deixar de considerar uma atitude provocatória.

20º

Mais resulta do autos não terem tido os factos quaisquer efeitos gravosos. 21º

Uma vez que esteve sempre garantida a integridade do camarote presidencial, bem como de todos aqueles que lá se encontravam.

22º

Sendo que os próprios adeptos que se encontravam mais efusivos, estavam a ser acompanhados de perto por elementos policiais, que sempre mantiveram a situação sob controle.

23º

Importando ainda salientar, conforme se retira do relatório da PSP junto aos autos que, para pouco mais de 5500 adeptos(entre visitantes e visitados), se encontravam no local 54 ARD's, o que dá cerca de 1 ARD por cada cem adeptos.

24º

Razão esta que está bem dentro dos parâmetros legais e habituais para este tipo de jogo. 25º

Ao que há ainda a acrescer todo o dispositivo e operacional policial. 26º

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necessárias para a realização, em segurança, do evento desportivo. 27º

Acresce ainda que, posteriormente, foram adotadas medidas para que tal situação não volte a ocorrer, nomeadamente, colocando um painel publicítário com estrutura em ferro, entre o camarote e as bancadas, aumentando assim a separação entre estes dois espaços.

28º

Bem como, constatar-se que atualmente, são cordiais e regulares, as relações entre os dois clubes, o Vitória e o Sporting.

29º

Assim, e sem nunca prescindir da prescrição invocada, sempre haveria a considerar como circunstância atenuante a provocação da atitude do Sporting e dos seus adeptos - art. 55º, nº 1, al. d) do RD.

30º

Sendo a sanção a aplicar reduzida em um quarto - art. 56º, nº 2 RD. 31º

E devendo ainda, posteriormente à determinação da sanção, atenuar-se a mesma especialmente, nos termos do disposto no art. 60º do RD, atentos os factos alegados nos arts. 27º e 28º da presente defesa.

Nestes termos, e nos demais que V. Exas. Doutamente suprirão, devem os presentes autos ser arquivados, uma vez que o procedimento disciplinar se encontra prescrito e, sem conceder, caso assim não se entenda, ser aplicada sanção pelo mínimo e que se leve em consideração as circunstâncias atenuantes mencionadas e, bem assim, atenuar-se especialmente a mesma sanção».

II – COMPETÊNCIA DO CONSELHO DE DISCIPLINA

18. De acordo com o artigo 43º, nº 1, do RJFD20085, compete a este Conselho, de acordo com a

lei e com os regulamentos e sem prejuízo de outras competências atribuídas pelos estatutos e das competências da Liga Profissional, instaurar e arquivar procedimentos disciplinares e, colegialmente, apreciar e punir as infrações disciplinares em matéria desportiva.

No mesmo sentido, dispõe o artigo 15º do Regimento deste Conselho6.

III – QUESTÕES PRÉVIAS

§1. Da competência desta Secção Não Profissional do Conselho de Disciplina

19. No caso dos autos, a competência deste CDSNP para o eventual sancionamento disciplinar dos factos constantes do libelo acusatório, no que concerne às imputações dirigidas à Vitória SAD, decorre inequivocamente do Contrato celebrado entre a FPF e a LPFP, em especial da sua Cláusula 9ª, 5 Aprovado pelo Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro (regime jurídico das federações desportivas e do estatuto de utilidade pública desportiva) e alterado pelo artigo 4.º, alínea c), da Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro (Cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei) e ainda pelos artigos 2º e 4º Decreto-Lei n.º 93/2014, de 23 de junho, cujo texto consolidado constitui anexo a este último.

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cujo ponto 6 expressamente prevê que «Os processos disciplinares pendentes no início de cada época

desportiva, são decididos, finda a instrução, pela secção disciplinar competente para a competição desportiva em que o infrator tiver sido integrado, sendo aplicável o regime sancionatório a que o mesmo se encontrava sujeito à data da infração».

20. Esta previsão encontra igualmente suporte no artigo 5º, nº 3, do RDFPF, nos termos do qual «É competente para julgar a infração disciplinar o órgão disciplinar ao qual essa competência estiver

atribuída na data da prática do facto, salvo expressa disposição em contrário prevista no Contrato entre a Federação e a LPFP».

21. Deste modo, não obstante a arguida Vitória SAD, à data dos factos em apreço, disputasse a Liga NOS, competição organizada pela LPFP, atenta a conjugação do artigo 5º, nº 3, do RDFPF, com a Cláusula 9ª, ponto 6, do Contrato celebrado entre a FPF e a LPFP, e uma vez que, nesta época desportiva, a arguida disputa (ou disputou) o Campeonato de Portugal (facto de conhecimento público e oficioso deste CDSNP), sendo esta competição organizada pela FPF, para a apreciação da eventual responsabilidade da arguida Vitória SAD será competente esta Secção Não Profissional do Conselho de Disciplina da FPF.

§2. Do regime sancionatório e processual aplicáveis

22. A Cláusula 9ª, ponto 6, do Contrato celebrado entre a FPF e a LPFP é inequívoca ao determinar a aplicação do «regime sancionatório a que o mesmo [arguido] se encontrava sujeito à

data da infração», razão pela qual, à eventual responsabilidade disciplinar da arguida Vitória SAD será

aplicável o regime sancionatório previsto no Regulamento Disciplinar das Competições Organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional7.

23. No atinente ao procedimento disciplinar aplicável, entende-se que será o previsto pelo RDLPFP, nos seus artigos 225º e seguintes, relativamente a toda a tramitação que precedeu a autuação do presente processo disciplinar e o aproveitamento dos atos anteriormente praticados. Tal acontece, como este CDSNP já teve oportunidade de referir8, por duas ordens de razões:

a) porque o ponto 6 da mencionada Cláusula 9ª do Contrato celebrado entre a FPF e a LPFP apenas concretiza que será aplicável o «regime sancionatório a que [o arguido] se encontrava sujeito à

data da infração», nada especificando quanto ao procedimento disciplinar aplicável. Ora, o mesmo

não sucede, designadamente, com o ponto 5 da mesma Cláusula 9ª, onde, relativamente ao 7 Doravante também penas RDLPFP.

8 Cf. acórdão proferido no PD 139 - 2020/2021, de 28/05/2021, no qual foi Relator o Conselheiro Tiago Coelho Magalhães, disponível em www.fpf.pt

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sancionamento de jogadores e treinadores que integrem clubes das competições profissionais por factos ocorridos em competições organizadas pela FPF, se determina a aplicação do “regime

sancionatório previsto no Regulamento Disciplinar da LPFP, […] seguindo-se o procedimento disciplinar estabelecido no Regulamento Disciplinar da FPF”. Ou seja, nessas situações, foi expressamente

concretizado qual o procedimento disciplinar que seria aplicável – o que claramente difere do ponto 6 da mencionada Cláusula 9ª, onde apenas se remete para a aplicação do “regime sancionatório a que [o arguido] se encontrava sujeito à data da infração”; deste modo, interpretando conjuntamente os preceitos indicados, e assumindo como eixo interpretativo a harmonia das cláusulas do referido Contrato, será seguro concluir-se que, caso se entendesse que, nas hipóteses do ponto 6 da Cláusula 9ª, seria aplicável um procedimento disciplinar distinto daquele que se encontra relacionado com o “regime sancionatório a que [o arguido] se encontrava sujeito à data da infração”, essa ressalva constaria do referido ponto 6 – à semelhança do que sucede com o ponto 5 da mesma Cláusula 9ª, onde expressamente se ressalva a aplicação de um procedimento disciplinar distinto daquele que, normalmente, se encontrava relacionado com o regime sancionatório aplicável, inclusive por se encontrarem previstos no mesmo diploma regulamentar;

b) por outro lado, foi determinado pela deliberação deste CDSNP, a fls. 223 e 224, o aproveitamento de todos os atos praticados anteriormente, enquanto o processo tramitou junto da Comissão de Instrutores da LPFP e da Secção Profissional do mesmo Conselho de Disciplina. Ora, não faria sentido que, uma vez esgotada a tramitação processual, aguardando apenas os autos a defesa escrita a apresentar pela Vitória SAD e a prolação de acórdão final, se considerasse aplicável, nesse segmento final da tramitação processual, um procedimento distinto daquele que presidiu a toda a tramitação anterior, incluindo ao exercício dos direitos e garantias de defesa da arguida Vitória SAD.

24. Assim, não apenas em face da Cláusula 9ª do Contrato celebrado entre a FPF e a LPFP, globalmente considerada e interpretada, mas também por imperativo de coerência e harmonia da tramitação processual no seu todo, entende-se que são aplicáveis ao caso concreto as normas adjetivas previstas nos artigos 225º e seguintes do RDLPFP.

§3. Da prescrição do procedimento disciplinar

25. Ultrapassada a questão atinente à competência disciplinar deste CDSNP para apreciação da eventual responsabilidade disciplinar da arguida, bem como os regimes aplicáveis, cumpre aquilatar da putativa prescrição do procedimento disciplinar, suscitada pela Vitória SAD na defesa escrita apresentada.

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26. Em sede de acusação deduzida nos autos, é imputada à Vitória SAD a prática de 1 (uma) infração disciplinar prevista e sancionada pelo artigo 187º, nº 1, alínea b), do RDLPFP. Essa infração é qualificada pelo regulamentador desportivo como “leve”, o que aliás decorre do seu enquadramento sistemático, no âmbito do RDLPFP (insere-se na Subsecção IV, “Infrações Disciplinares Leves” do Capítulo IV, Secção VI).

27. Estatui o artigo 23º, nº 1, do RDLPFP, que «O procedimento disciplinar prescreve decorridos

que sejam três anos, um ano ou 30 dias, consoante as infrações sejam, respetivamente, muito graves, graves ou leves, sobre a data em que a infração tenha sido cometida, sem prejuízo do disposto nos números seguintes”, isto é, a regra é que as infrações “leves” prescrevem decorrido que seja o prazo

de 30 (trinta) dias a contar da «data em que a infração tenha sido cometida».

28. Sabemos, contudo, que a prescrição do procedimento disciplinar conhece causas de

interrupção e de suspensão.

Assim, de acordo com o artigo 23º, nº 3, do RDLPFP, «A contagem do prazo prescricional

interrompe-se: a) com a instauração do procedimento disciplinar; b) com a realização da audiência disciplinar; c) com a notificação ao arguido da decisão condenatória”. E, nos termos do respetivo n.º 4,

[o] prazo prescricional suspende-se: a) desde a instauração do procedimento disciplinar e até que seja

deduzida acusação; b) desde a abertura e até ao encerramento da audiência disciplinar; c) enquanto decorrer processo crime sobre os mesmos factos». E de acordo com o nº 4 do mesmo preceito

disciplinar «A suspensão do prazo prescricional cessa logo que o processo se encontre parado por prazo

superior a dois meses por causa não imputável ao arguido, retomando-se a contagem do prazo suspenso, excetuando-se os casos da alínea c) do número anterior», e, finalmente, o nº 6 do mesmo

artigo dispõe que «A suspensão do prazo prescricional não pode exceder seis meses, excetuando-se os

casos da alínea c) do nº 4».

29. Ora, os presentes autos consideram-se instaurados, ainda que no âmbito da Secção Profissional deste Conselho de Disciplina, em 15/01/2020 (data em que foi autuado o referido Processo de Inquérito nº 12 – 2019/2020), na sequência de deliberação de 14/01/2020 (cf. fls. 1 e 2). Tal significa que, em 15/01/2020 se interrompeu o prazo prescricional, de 30 (trinta) dias, que se iniciara em 11/01/2020, e significa ainda, em termos práticos, que o prazo prescricional se “reiniciou”, nos termos do artigo 23º, nº 3, alínea a), do RDLPFP, em 15/01/2020.

30. Contudo, durante o período de 6 (seis) meses a contar da data da instauração do processo disciplinar – isto é, entre 15/01/2020 e 15/07/2020 –, a contagem do prazo prescricional, que se

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6, ambos do artigo 23º do RDLPFP. Assim é, pois, pese embora ainda não tivesse sido deduzida acusação nos autos em 15/07/2020, a suspensão do procedimento não pode ultrapassar o prazo máximo de 6 (seis) meses. Por tal razão, resulta manifesto que, em 15/07/2020, recomeçou a contagem do prazo prescricional de 30 (trinta) dias, que teria terminado em 15/08/2020.

31. Com efeito, o decurso daquele prazo apenas poderia interromper-se, uma vez mais, com a realização de audiência disciplinar (cf. artigo 23º, nº 3, alínea b), do RDLPFP), o que não aconteceu (até porque a acusação deduzida nos autos, não datada, e que necessariamente a precederia, apenas em 13/05/2021 foi remetida à FPF pela Comissão de Instrutores da LPFP - cf. fls. 202 a 217 e 218), pelo que o prazo de prescrição de 30 (trinta) dias se teria consumado em 15/08/2020, 30 (trinta) dias após o reinício da sua contagem, em 15/07/2020, nos termos conjugados da alínea a), do nº 4, com o nº 6, do mencionado artigo 23º do RDLPFP.

32. Assim, porque nos termos do disposto no artigo 21º, alínea c), do RDLPFP, “«A

responsabilidade disciplinar extingue-se por: […] c) prescrição do procedimento disciplinar”, resta

concluir pela verificação e decurso integral do prazo de prescrição do procedimento disciplinar pela infração disciplinar leve que vinha imputada à Vitória SAD, tendo-se extinguido a sua eventual responsabilidade disciplinar.

33. Acrescenta-se que, salvaguardando o entendimento que este CDSNP tem sufragado em matéria de aplicação do regime de suspensão de prazos inerente à situação pandémica (nomeadamente no que concerne à necessária aplicação, em sede de sucessão de leis no tempo, do princípio da aplicação do regime concretamente mais favorável ao arguido), o entendimento vindo de efetuar em nada é afastado pelos regimes excecionais estabelecidos pela Lei nº 1-A/2020, de 19 de março, quanto à suspensão de prazos processuais e procedimentais decorrente das medidas adotadas no âmbito da contenção da pandemia provocada pela doença Covid 19, pela Lei nº 16/2020, de 29 de maio, que determinou aquela suspensão de prazos no ano civil de 2020, pela Lei nº 4-B/2021, de 1 de fevereiro, e pela Lei nº 13-B/2021, de 5 de abril, que determinou aquela suspensão de prazos, no ano civil de 2021. Com efeito, por força dos primeiros dois diplomas, os prazos processuais e procedimentais estiveram suspensos, no ano de 2020, entre 9 de março e 3 de junho e, no ano de 2021, entre 22 de janeiro e 3 de maio de 2021.

34. Contudo, não obstante, a verdade é que entre 3 de junho de 2020 e 22 de janeiro de 2021, os prazos processuais e procedimentais não estiveram suspensos. E durante esse largo período, de mais de 7 meses e meio, durante o qual o processo este na Comissão de Instrutores da LPFP, sempre se teriam inexoravelmente consumido os exíguos 30 (trinta) dias do prazo prescricional da infração

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leve em causa, pelo que, quando foi deduzida a acusação, em maio de 2021, já o presente procedimento disciplinar se encontrava prescrito há vários meses, nos termos regulamentares, inclusive por ter igualmente decorrido o prazo normal de prescrição acrescido do dobro desse prazo, isto é, decorreu não apenas o prazo normal de prescrição 30 (trinta) dias, acrescido do dobro desse prazo, 60 (sessenta) dias.

35. E com ostensiva evidência se alcança que este prazo de 30 + 60 dias = 90 dias foi consumido, decorreu integralmente, no decurso daquele período de tempo durante o qual os prazos processuais e procedimentais não estiveram suspensos, contabilizados entre 4 de junho de 2020 e 21 de janeiro de 2021, ambos inclusive, num total, precisamente, de 232 (duzentos e trinta e dois) dias.

36. Deste modo, extinta que se encontra, há vários meses, a eventual responsabilidade disciplinar da arguida Vitória SAD, fica este CDSNP impedido de tomar conhecimento da imputação contra a mesma deduzida, impondo-se a absolvição da arguida Vitória Futebol Clube – Futebol SAD da prática da infração disciplinar leve que lhe vinha imputada, prevista e sancionada pelo artigo 187º, nº 1, alínea b), do RDLPFP.

IV – APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO

37. Através do Comunicado Oficial da FPF nº 83, datado de 15/09/2020, foi ratificado e publicado o Regulamento Disciplinar da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, em cujo artigo 1º, sob a epígrafe “Entrada em vigor”, se estatui que a entrada em vigor da nova redação do referido diploma ocorre imediatamente após a publicação em comunicado oficial da deliberação de ratificação pela Assembleia-Geral da FPF.

38. Nesta senda, atente-se que os factos que motivaram a instauração deste processo disciplinar ocorreram na vigência do anterior RDLPFP, ao passo que parte da tramitação processual, maxime a dedução de acusação e a prolação da presente decisão, teve e tem lugar em momento em que já se encontra em vigor um novo corpo normativo - o RDLPFP aplicável à corrente época desportiva 2020/2021 – questão que, inexoravelmente, suscita a temática da aplicação da lei no tempo.

39. A tal propósito, estatui o artigo 11º do RDLPFP vigente, nos seus nºs 1 e 3, além do mais, que «As sanções são determinadas pela norma punitiva vigente no momento da prática da infração

disciplinar», e que «Quando a sanção aplicável no momento da prática do facto for diversa daquela que vigorar em momento posterior será sempre aplicado o regime que concretamente se mostrar mais favorável ao arguido, salvo se este já tiver sido condenado por decisão definitiva na ordem jurídica desportiva».

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40. Cumpre, pois, determinar se o regime analisado, vindo de discorrer e aplicada se deve ter por afastado pelo atual RDLPFP. Ora, nos termos já aduzidos, a aprovação de novo diploma disciplinar impõe, à luz do que estabelece o nº 3, do artigo 11º, do RDLPFP vigente à data dos factos, que se indague o «regime que concretamente se mostrar mais favorável ao arguido», solução regulamentar igualmente preconizada pelo atual nº 3 do artigo 11º do RDLPFP vigente nesta data.

41. Importa, pois, efetuar a análise comparativa das normas sancionatórias convocadas e aplicadas, nos dois Regulamentos Disciplinares, para que se possa indagar qual o regime que, em concreto, se mostra mais favorável, pois será esse o aplicável. Esta tarefa não deve, porém, ser realizada norma a norma, naquilo que já a jurisprudência e a doutrina vêm apelidando de “aplicação

simbiótica das leis penais”, mas abrangendo cada um dos regimes em bloco.

42. Do cotejo dos regimes disciplinares previstos no RDLPFP em vigor na data da prática dos factos e do atual RDLPFP, constata-se que as normas disciplinares vigentes no momento da prática da alegada infração não são distintas das normas disciplinares posteriores, atualmente vigentes, nem sofreram qualquer alteração regulamentar, incluindo as normas fundamentais aqui em apreço, que correspondem ao ilícito disciplinar previsto e sancionado pelo artigos 187º, nº 1, alínea b), do atual RDLPFP, como também as normas que regulam a prescrição do procedimento disciplinar, maxime o artigo 23º do mesmo normativo disciplinar.

43. Razões pelas quais, atendendo ao disposto no artigo 11º do RDLPFP vigente à data da alegada prática dos factos e no artigo 11º do RDLPFP atualmente vigente, deve aplicar-se, no caso concreto, o regime jurídico-disciplinar vigente no momento da alegada prática dos factos, que foi precisamente o aplicado supra.

V – DECISÃO

Nestes termos e com os fundamentos expostos, o Conselho de Disciplina - Secção Não Profissional - da Federação Portuguesa de Futebol, considerando que a infração disciplinar imputada em sede de acusação, que terá sido praticada em 11/01/2020, é qualificada como leve, a mesma encontra-se prescrita, pelo que se impõe a absolvição da arguida Vitória Futebol Clube - Futebol, SAD do ilícito disciplinar que lhe vinha imputado

Sem custas.

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Página 18 de 19 Cidade do Futebol, 8 de junho de 2021

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Página 19 de 19 RECURSO DESTA DECISÃO

As decisões do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol são passíveis de recurso, nos termos da lei e dos regulamentos, para o Conselho de Justiça ou para o Tribunal Arbitral do Desporto.

De acordo com o artigo 44.º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro, na redação conferida pelo artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 93/2014 de 23 de junho, cabe recurso para o Conselho de Justiça das decisões disciplinares relativas a questões emergentes da aplicação das normas técnicas e disciplinares diretamente respeitantes à prática da própria competição desportiva.

O recurso deve ser interposto no prazo de 5 dias úteis (artigo 35.º do Regimento do Conselho de Justiça aprovado pela Direção da Federação Portuguesa de Futebol, em 18 de dezembro de 2014 e de 29 de abril de 2015 e publicitado pelo Comunicado Oficial n.º 383, de 27 de maio de 2015).

Em conformidade com o artigo 4.º, n.ºs 1 e 3, da Lei do Tribunal Arbitral do Desporto (aprovada pelo artigo 2.º da Lei n.º 74/2013 de 6 de setembro, que cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei, na redação conferida pelo artigo 3.º da Lei n.º 33/2014 de 16 de junho - Primeira alteração à Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro, que cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei), compete a esse tribunal conhecer, em via de recurso, das deliberações do Conselho de Disciplina.

Exclui-se dessa competência, nos termos do n.º 6 do citado artigo, a resolução de questões emergentes da aplicação das normas técnicas e disciplinares diretamente respeitantes à prática da própria competição desportiva.

O recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto deve ser interposto no prazo de 10 dias, contados da notificação desta decisão (artigo 54.º, n. º2, da Lei do Tribunal Arbitral do Desporto).

Referências

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